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Í N D I C E INTRODUÇÃO / A CONQUISTA DO PARAÍSO O COMEÇO DO FIM PARAÍSO EM CHAMAS CONCLUSÃO 1. A BATALHA PELA BAÍA DE GUANABARA 05 05 07 07 08 09 11 11 12 16 17 17 19 20 22 25 1. O FIM DE UMA ERA 2. UMA FÁBRICA DE FACÇÕES 3. SOBRE SUBIR O MORRO 1. AS LEIS DO CRIME 2. RIO DAS PEDRAS, ZONA OESTE 3. O BAILE DO SILÊNCIO 4. CAUSAS E CONSEQUÊNCIAS 2. O ASSALTO FRANCÊS 3. A VINDA DA FAMÍLIA REAL 4. RIO DE JANEIRO, MUNICÍPIO NEUTRO 5. À ESPERA DA PROVIDÊNCIA E O “BOTA-ABAIXO” E - B O O K I N T E R AT I VO E - B O O K B P / R I O D E J A N E I R O : PA R A Í S O E M 5 I N T R O D U Ç Ã O A C O N Q U I STA D O PAR A Í S O 1 . A B ATA L H A P E L A B A Í A D E G U AN AB AR A Falemos sobre a origem da cidade maravilhosa. Quando nem cidade era, maravi- lhosa deveria ser à vista dos portugueses que lá chegaram em 1502. Sob a liderança de Gaspar de Lemos e auxílio do navegador Américo Vespúcio, avistou-se pela primeira vez a baía de Guanabara — nome que significava “seio do mar” no dialeto indígena local. Convencido de que o que via correspondia à foz de um grande rio, Gaspar nomeou aquele local “Rio de Janeiro”. Os nativos, por sua vez, estavam bastante presentes na região, dividindo-se em múltiplas tribos que falavam cerca de 20 idiomas divergentes. Destes, destacam-se os Tupinambás (ou Tamoios) e os Temiminós, que foram determinantes para a his- tória do Rio de Janeiro (como veremos). Outra “tribo” que logo se fez presente foi a dos franceses que, liderados por Nicolau Durand de Villegaignon, estabeleceram-se na baía de Guanabara em 1555, visando à fundação da França Antártica. Por sua vez, os portugueses, em defesa da terra que haviam encontrado, deci- diram combater a tentativa de colonização francesa. Portanto, em 1560, os portu- gueses, liderados pelo governador Mem de Sá, conseguiram expulsar os franceses das ilhas ao redor do Rio de Janeiro. Foi então que os Tamoios acolheram os fran- ceses na margem ocidental da baía, na aldeia de Uruçumirim, onde hoje se situa a praia do Flamengo. Em 1565, Estácio de Sá, sobrinho de Mem de Sá, desembarcou entre o morro Cara de Cão e o Pão de Açúcar, local onde fundou oficialmente a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, homenageando o santo alvejado por setas como padroeiro da cidade. Essa homenagem haveria de ecoar pelos anos vindouros. Estácio de Sá E - B O O K B P / R I O D E J A N E I R O : PA R A Í S O E M 6E - B O O K B P / R I O D E J A N E I R O : PA R A Í S O E M 6 Em 20 de janeiro de 1567, finalmente, ocorreu a batalha decisiva sobre quem ocu- paria definitivamente o território. Os portugueses, liderados por Estácio de Sá e auxiliados por um nativo chamado Araribóia e por sua tribo, os Temiminós, conse- guiram expulsar os franceses e seus aliados, os Tamoios. Entretanto, aquela não seria uma batalha conquistada sem penitências. Atingido no rosto por uma flecha envenenada, Estácio de Sá padeceu dos feri- mentos um mês após a batalha. É importante frisar que não só a cidade do Rio de Janeiro foi salva da colonização francesa, como também toda a região do “Brasil do sul”, visto que o Rio de Janeiro havia sido fundado para exercer o mesmo papel que Salvador desempenhava ao norte das terras colonizadas pelos portugueses. Não obstante, aqueles acontecimentos peculiares, que poderíamos considerar meras coincidências, estabeleceram os primeiros paralelos entre o Rio de Janeiro histórico e o Rio de Janeiro que se construiria nos séculos seguintes. Batalha de Uruçumirim E - B O O K B P / R I O D E J A N E I R O : PA R A Í S O E M 7E - B O O K B P / R I O D E J A N E I R O : PA R A Í S O E M 7E - B O O K B P / R I O D E J A N E I R O : PA R A Í S O E M 7 2 . O A S SA LTO F R AN C Ê S Mesmo conseguindo dar fim à França Antártica e consolidar seu domínio sobre a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, a ameaça à colonização portuguesa ressurgiria no início do século XVI, embora não se apresentasse como missão colo- nizadora alternativa, mas sim como empreitada saqueadora! Em 1711, comandando uma frota de 17 navios, um corsário chamado René Duguay- -Trouin, apoiado pelo então rei da França, Luís XIV, atacou o Rio de Janeiro. Inicial- mente, o movimento teria sido motivado não apenas pela ganância em relação ao ouro recentemente descoberto nas proximidades da região, mas, principalmente, pela vingança, conforme o próprio Duguay-Trouin declarou. No ano anterior, os portugueses haviam conseguido rechaçar uma investida de piratas, liderados por Jean-François Duclerc, que foi assassinado no Rio de Janeiro. Por isso, os piratas avançaram novamente sobre o litoral carioca, tomando a cidade do Rio de Janeiro de assalto e permanecendo nela por dois meses. Nesse período, os piratas e o governo português negociavam pela recuperação da cidade. Sob a ameaça de incendiá-la, os invasores exigiram um resgate de 2 milhões de libras francesas, valor que só foi pago após os próprios moradores da cidade sequestrada desembolsarem a soma remanescente para seu resgate. Dessa forma, o Rio de Janeiro foi recuperado de uma ocupação territorial ilegal e ilegítima, às custas das vidas e dos bolsos da população local. Não muito diferente do Rio de Janeiro que vemos hoje, com exceção de um detalhe: atualmente, os ter- ritórios ocupados pelo crime organizado ainda não foram recuperados pelo Estado, e a população local segue entregue e saqueada pelos “corsários” de nossos dias. Como já se deve ter notado, nos primeiros anos da existência do Brasil, além da influência direta da colonização portuguesa, houve também a influência francesa — às vezes indireta, às vezes direta — sobre nossa história. Mais uma vez, essa peculiaridade se repetiria com a ascensão do imperador Napoleão Bonaparte. Visto que Portugal não havia respeitado o embargo que o imperador francês impôs sobre toda a Europa contra a indústria britânica, a França invadiu aquele pequeno país ibérico, obrigando a família real portuguesa a botar em prática um plano que, embora já existisse, sempre fora considerado improvável: a transferência da corte portuguesa para a colônia brasileira Assim, em 22 de janeiro de 1808, o príncipe regente Dom João VI, sua família e a corte de Portugal chegaram ao Rio de Janeiro, cidade que havia se tornado capital colonial do Brasil em 1763, em lugar de Salvador. Com essa transferência da realeza da antiga metrópole, vieram também grandes mudanças cotidianas e culturais, com a abertura de teatros e bibliotecas, o desenvolvimento da imprensa e o enorme crescimento da cidade durante o período em que Dom João VI e sua família aqui permaneceram: a população do Rio de Janeiro dobrou de tamanho, de aproxima- damente 50 mil habitantes para 100 mil. 3 . A V I N D A D A F AM Í L I A R E A L E - B O O K B P / R I O D E J A N E I R O : PA R A Í S O E M 8 Esse crescimento populacional já começou de forma acentuada com a pre- sença dos nobres e demais membros da cort que acompanharam a vinda da família real. Tanto é que cerca de 2 mil casas foram requisitadas para abrigar os mem- bros da corte. Nas paredes externas das casas escolhidas fixaram-se as iniciais “PR”, abreviação de “Príncipe Regente”, mas que logo ficaram conhecidas pelo povo carioca como “Ponha-se na rua” ou “Prédio roubado”. O legado das desapropriações para abrigar a corte portuguesa revela a transformação urbana do Rio de Janeiro e antecipa desafios sociais que até hoje perduram. Hoje, a concentração de poder e o deslocamento forçado, prenunciados já naquele período, refletem-se no atual problema habitacional, onde a vulnerabi- lidade dos grupos populares continuam a marcar a paisagem carioca. Dom João VI 4 . R I O D E J AN E I R O , M U N I C Í P I O N E UT R O A partir da vinda da família real, ocorreram mudanças que reformularam toda a vida da até então colônia portuguesa, que logo se tornaria parte do império portu- guês, com a inclusão do Brasilcomo parte do Reino de Portugal, Brasil e Algarves, em 16 de dezembro de 1815. Como a família real ainda permanecia no Brasil, o governo de todo esse território português foi administrado a partir do Rio de Janeiro. Nos anos seguintes, após o Brasil se tornar independente e com o fim do breve reinado de Dom Pedro I, o Rio de Janeiro se tornou “Município Neutro”, em 1834, durante o período regencial que precedeu o reinado de Dom Pedro II. Dessa forma, o Rio de Janeiro consolidou-se como “uma cidade singular com uma missão bastante peculiar: a de ser o centro da nação”. Dom Pedro I Dom Pedro II E - B O O K B P / R I O D E J A N E I R O : PA R A Í S O E M 9 Com o fim da monarquia, em 15 de novembro de 1889, o Brasil se tornou uma república que continuou a ser governada a partir do Rio de Janeiro. Os primeiros anos dessa República foram bastante instáveis,com destaque para a Revolta da Armada, de 1893, quando marinheiros em revolta ameaçaram bombardear a cidade do Rio de Janeiro se o então presidente Floriano Peixoto não abdicasse do poder. Não obstante, o que traria maiores problemas para o Rio de Janeiro não seria aquela revolta, mas sim as consequências da Guerra de Canudos (1896 - 1897). 5 . À E S P E R A D A P R OV I D Ê N C I A E O “ B OTA - AB A I XO ” Com o fim da Guerra de Canudos, conflito travado na Bahia em desafio à Repú- blica, vários ex-combatentes voltaram ao Rio de Janeiro esperando receber o direito de propriedade que lhes havia sido prometido pelo governo como recompensa pela campanha no Nordeste. Todavia, o governo não cumpriu sua promessa. Diante disso, os soldados estabeleceram-se na região do Morro da Providência, onde permaneceram aguardando que o governo tomasse providências a respeito da promessa feita. Com o passar do tempo, o morro passou a ser também chamado de “Morro da Favela”, em alusão a um tipo de planta típica da região de Canudos. O Morro da Providência foi a primeira favela do Rio de Janeiro, sendo seguido por várias outras que surgiram a partir das reformas urbanas do prefeito Pereira Passos. Com o intuito de reformar o Rio de Janeiro para melhor condizer com a condição de centro da nação, o então presidente Francisco de Paula Rodrigues Alves concedeu ao prefeito Pereira Passos poderes discricionários para reformar a cidade, visando à modernização e à melhoria no saneamento. De fato, as ruas eram demasiadamente estreitas, dificultando o tráfego, além da sujeira e das doenças, que eram um problema constante. As habitações coletivas improvisadas daquela época eram construídas, em grande parte, sem a preocu- pação ou o conhecimento necessário para preservar a higiene local. Assim, com- preende-se o que motivou o governo da época a prosseguir com suas reformas. Prédios velhos e cortiços foram derrubados para ampliar as avenidas e ruas e para proporcionar uma melhoria geral na infraestrutura, com a construção de novas redes de esgoto e de abastecimento de água, iluminação elétrica nas ruas em subs- tituição aos lampiões a gás, e a edificação de deslumbrantes prédios com projetos arquitetônicos inovadores. Teatro Municipal do Rio de Janeiro E - B O O K B P / R I O D E J A N E I R O : PA R A Í S O E M 1 0E - B O O K B P / R I O D E J A N E I R O : PA R A Í S O E M 1 0E - B O O K B P / R I O D E J A N E I R O : PA R A Í S O E M 1 0 Todavia, tudo isso teve um custo. Aqueles que já leram a famosa obra “O Cortiço”, de Aluísio Azevedo, devem imaginar como eram os cortiços, aglomerações urbanas desordenadas que podemos considerar como predecessoras das atuais favelas. Essas aglomerações ocupavam partes da cidade, principalmente no centro. Com as reformas, os ocupantes precisaram encontrar novos lares nos subúrbios ou às margens da cidade, nos morros. Dessa forma, foram nascendo as demais favelas que hoje compõem parte do cenário urbano carioca. A reforma de Pereira Passos, portanto, ficou popularmente conhecida como “Bota-abaixo”, visto que não só reformou ruas e construiu novos prédios, como também derrubou lares e ampliou enormemente o problema habita- cional que perdura até hoje no Rio de Janeiro. E - B O O K B P / R I O D E J A N E I R O : PA R A Í S O E M 1 1 O C O M E Ç O D O F I M 1 . O F I M D E U M A E R A Desde 1763, o Rio de Janeiro foi a capital do Brasil, resistindo às mudanças de colônia para império e de império para república, isto é, pelo menos até a chegada de Juscelino Kubitschek ao poder, em meados da década de 1950, quando começaria a construção de Brasília. Mas JK foi apenas o executor de um plano já idealizado há mais de 150 anos. A ideia de interiorizar a capital já existia desde a vinda da família real ao Brasil. Os estrategistas e conselheiros da época consideravam a experiência histórica – como os episódios da França Antártica e do sequestro do Rio de Janeiro pelos piratas – e temiam a vulnerabilidade costeira diante de investidas marítimas, principalmente ao levar em conta o contexto do imperialismo napoleônico. Porém, foi apenas em 1960 que o plano se concretizou, com a inauguração em 21 de abril de 1960, após Juscelino Kubitschek ter prometido, durante sua campanha, construir a capital e, de fato, cumprir tal promessa, em grande parte por questão de sobrevivência política diante das pressões sofridas na época. As consequências dessa manobra política de Juscelino Kubitschek são sen- tidas até hoje. Além de gerar uma grande crise de identidade para o Rio de Janeiro, a mudança resultou em um vasto esvaziamento econômico somado à desorga- nização institucional na cidade. Tanto é que, já naquela época, o político Carlos Lacerda afirmava que o que ocorria era um êxodo provocado por um governo de consciência pesada, que fugia do temor da revolta e do horror à crítica. Lacerda criticava o governo federal por ter destruído a Federação e criado problemas, como o surgimento das favelas no Rio de Janeiro1. O fato é que, embora a era em que o Rio de Janeiro existia como capital do Brasil tenha chegado ao fim, outra ainda perdurava, e o Rio de Janeiro continuava a ser um município separado do restante do atual estado que leva o mesmo nome. Com a mudança da capital, a cidade do Rio de Janeiro passou a se chamar “Estado do Guanabara”, separado do restante do território fluminense, cuja capital era Niterói. Todavia, essa separação não duraria muito tempo. Entre 1960 e 1975, o Estado de Guanabara perdurou, mas, por meio de um projeto de lei proposto pelo então presidente Ernesto Geisel – mesmo com a oposição de políticos cariocas e fluminenses –, ambos os “Rios”, estado e cidade, foram unifi- cados. A unificação ocorreu porque o poder do governo militar no Senado era muito mais forte do que o das vozes dissidentes, permitindo que a fusão se consolidasse. Conforme afirmou o então senador Benjamin Farah, “a fusão, no meu entender, significaria o colapso da Guanabara e o aniquilamento a médio prazo da província fluminense”. Todos os problemas que vemos no Rio de Janeiro hoje são frutos da 1. LACERDA, Carlos. A festinha no Rio e a festança em Brasília. Tribuna da Impren- sa, 20 de abril de 1960. E - B O O K B P / R I O D E J A N E I R O : PA R A Í S O E M 1 2 mudança da capital para Brasília, somados à fusão imposta dos estados de Gua- nabara e do Rio de Janeiro? Esta é uma questão bastante debatida, merecedora de estudos mais aprofundados, que escapam ao escopo deste ebook; mas o que de fato podemos afirmar é que tais acontecimentos não só se somam, como con- tribuíram muito para que problemas já existentes não fossem resolvidos – e, talvez, até mesmo exacerbados. Embora a fusão imposta pelos militares tenha causado problemas ao Rio de Janeiro, um dos maiores equívocos da ditadura militar ocorreu poucos anos depois, ao final da década de 1970, em uma remota ilha que abrigava um grupo de prisio- neiros que viriam a pintar o Rio de Janeiro de vermelho sangue. 2 . U M A F ÁB R I C A D E F A C Ç Õ E S Das sombrasdo sistema carcerário da Ilha Grande, surgiu uma ameaça que se espalhou rapidamente pelo Rio de Janeiro. Em um solo fértil, cultivado pela negli- gência do governo militar, uma onda de violência desenfreada ganhou força nos presídios, onde a aparente solidariedade entre os criminosos converteu-se em um pacto de poder. No Instituto Penal Cândido Mendes, o convívio entre presos políticos e indivíduos condenados por crimes violentos, amparado pelo Artigo 27 da Lei de Segurança Nacional, foi comparável à letal combinação entre pólvora e fogo. O governo militar da época estava mais preocupado em combater as insurgências políticas do que o crime urbano economicamente motivado. Tanto é que, em mensagem do então Ministro da Defesa para o Congresso, propunha-se a reformulação do instituto da prisão para punir apenas os crimes considerados mais severos2 . Nesse ambiente, figuras como William da Silva Lima, o “Professor”, aproveitaram o terreno para pro- pagar ideais de organização e resistência, que se distorciam e se transformavam em artifícios de poder. Ali, a denominada “Falange LSN” emergiu como pedra fun- damental para o nascimento do Comando Vermelho, inaugurando uma era na qual o cárcere deixava de ser somente um local de punição para se tornar uma verdadeira fábrica de facções. 2. REVISTA DE INFORMAÇÃO LEGISLATIVA. Brasília, a. 14, n. 54, abr./jun. 1977. p. 175-178. Presídio de Ilha Grande E - B O O K B P / R I O D E J A N E I R O : PA R A Í S O E M 1 3E - B O O K B P / R I O D E J A N E I R O : PA R A Í S O E M 1 3E - B O O K B P / R I O D E J A N E I R O : PA R A Í S O E M 1 3 Deste mesmo terreno, não só o Comando Vermelho brotou, mas também outras organizações ganharam corpo. A fragmentação interna, a disputa por territórios e as rivalidades exacerbaram o surgimento de grupos como o Terceiro Comando, o Terceiro Comando Puro e os Amigos dos Amigos. Cada uma dessas facções com- partilhava a mesma herança de um sistema prisional desgovernado. A principal facção rival da Falange Vermelha (como também era conhecido o Comando Vermelho) no presídio da Ilha Grande era a Falange Jacaré. A partir desta facção teria surgido o Terceiro Comando, segundo alguns estudiosos deste fenô- meno3. O Terceiro Comando, todavia, hoje já não existe mais, devido a um mas- sacre cometido durante uma rebelião em Bangu 1, em 2002. Atualmente, a facção que acabou por tomar o lugar do Terceiro Comando e se tornou a principal rival do Comando Vermelho é o Terceiro Comando Puro, uma dissidência do Terceiro Comando. Outra dissidência, desta vez dentro da organização do Comando Ver- melho, foi a facção Amigos dos Amigos, que surgiu na década de 1990, conforme explica Rodrigo Pimentel, ex-capitão do BOPE, no documentário que originou este ebook. Aqueles que se aventurarem a estudar os detalhes desses acontecimentos encontrarão uma constante em todos esses eventos: intrigas, traição e assassi- natos. 3. SOUZA, Rafael de. A origem do crime organizado no Brasil. 2011. 175 f. Disser- tação (Mestrado em Direito) - Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2011. Rodrigo Pimental E - B O O K B P / R I O D E J A N E I R O : PA R A Í S O E M 1 4 Como o policial penal Marcelo Oliveira elucida em sua entrevista, disponível na plataforma da Brasil Paralelo, a presença das facções nos presídios é regida por uma lógica de domínio territorial paralela àquela que essas facções viriam a exercer nas favelas. Basicamente, embora seja uma demanda legítima e necessária prezar pela prisão de criminosos vinculados a facções, uma vez que tais grupos crescem e passam a ocupar maiores unidades prisionais no sistema carcerário, adquirem maior capacidade de pressionar o governo para atender às suas demandas. Isso é fruto da organização política que receberam na Ilha Grande e, como revela Marcelo Oliveira, não interessa às facções que ocorram políticas de desencarceramento em massa, pois isso reduz seu poder de barganha dentro do sistema carcerário. Por outro lado, interessa aos presos a liberdade, embora essa, quando desacom- panhada de responsabilidade, preocupe a população em geral. Assim, a produção de múltiplas facções evidenciava a complexidade e o caráter multifacetado de um fenômeno que se instaurou como uma verdadeira fábrica de organizações crimi- nosas. Marcelo Oliveira As repercussões desse fenômeno marcaram profundamente a sociedade carioca. O Comando Vermelho, expandindo suas raízes para os morros e favelas, impôs sua própria lei e desafiou a autoridade do Estado a cada crime cometido e a cada vida ceifada. A “Noite de São Bartolomeu”, em 1979, tornou-se o símbolo da tomada do poder na Ilha Grande, onde a eliminação de facções rivais impôs um novo e impiedoso código de conduta. Mais do que meras organizações criminosas, as facções aqui elucidadas repre- sentaram um sintoma alarmante de um Estado que falhou em se organizar e pro- teger seus cidadãos. Sua ascensão expôs a fragilidade das instituições, principal- mente do instituto da prisão, que, ao relaxar as penas para criminosos, colocou o Rio de Janeiro sob risco de sucumbir à anarquia e à barbárie. Os domínios desses grupos ultrapassaram os muros das prisões, alcançando as comunidades carentes por meio de esquemas que se disfarçavam de assistência social, mas que, na verdade, consolidavam seu domínio. Esse fato é duplamente E - B O O K B P / R I O D E J A N E I R O : PA R A Í S O E M 1 5 observável no documentário “Rio de Janeiro: Paraíso em Chamas”: primeiro, pelo relato do ex-integrante do Comando Vermelho, Cláudio Piuma, e, segundo, pela análise do especialista em segurança e defesa, Alessandro Visacro, autor do livro “Guerra Irregular”. Neste cenário de crescente tensão e incerteza, em 1983, Leonel Brizola assumiu o governo do Rio de Janeiro, prometendo um novo rumo para o estado. Contudo, mal podia imaginar que o Comando Vermelho, forjado na fábrica de facções – que não poupou nem o Terceiro Comando, nem o Terceiro Comando Puro e os Amigos dos Amigos – se configuraria como um dos maiores desafios de sua gestão, tes- tando os limites de sua capacidade de governar e prenunciando tempos ainda mais conturbados para a cidade e para o Brasil. Alessandro Visacro Cláudio Piuma E - B O O K B P / R I O D E J A N E I R O : PA R A Í S O E M 1 6E - B O O K B P / R I O D E J A N E I R O : PA R A Í S O E M 1 6E - B O O K B P / R I O D E J A N E I R O : PA R A Í S O E M 1 6 3 . S O B R E S U B I R O M O R R O Durante o primeiro governo de Leonel Brizola, de 1983 a 1987, o Rio de Janeiro se viu imerso em um paradoxo. Assombrado pelo fantasma da violência ostensiva que pairava sobre as intervenções militares e policiais, Brizola buscou humanizar a relação entre o Estado e as comunidades carentes. Por isso, decidiu impor limites à atuação policial nas favelas, sem levar em conta as consequências desta decisão, que criou um vácuo de poder a ser preenchido por forças muito mais sombrias. Na ausência de uma política coercitiva eficaz, as comunidades do Rio de Janeiro foram gradativamente entregues às mãos das facções. A contenção de opera- ções em áreas consideradas “sensíveis” contribuiu para a formação de zonas de impunidade, onde o poder estatal se via impotente diante da crescente influência do crime organizado, cada vez mais imponente. Essa dualidade – a proteção dos direitos dos cidadãos e a fragilização do Estado frente ao crime – lançou as bases para um ciclo de violência e instabilidade que se perpetuou nas décadas seguintes. As boas intenções do governo Brizola, ao evitar a truculência policial, esbarraram na complexidade de um problema que demandava soluções multifacetadas. Embora tais soluções exigissem mais que a simples repressão, esta não poderia ser descartada nem marginalizada, mas foi o que aconteceu. Conforme Rodrigo Pimentel afirma em sua entrevista, disponível na plataforma da Brasil Paralelo, houvemuito pouco investimento e atenção do governo Brizola às forças de segurança. A ausência de intervenções robustas (visto que ainda existiam intervenções, embora bastante limitadas) permitiu que o poder, ao invés de ser reafirmado pelas instituições estatais, fosse progressivamente usurpado por grupos que encon- travam nas favelas um refúgio seguro para suas atividades ilícitas. Apesar do papel de Brizola na fragilização da atuação das forças de segurança na época, a tendência de crescimento das facções criminosas não foi efetivamente combatida pela maioria dos governos que o sucederam. Portanto, pode se afirmar que o governo de Leonel Brizola é apenas mais um dos fatores que levou o Rio de Janeiro a se tornar o Estado que hoje vemos, onde a criminalidade toma conta de partes do território. Assim, o Rio de Janeiro se viu preso em uma teia de contradições, onde a busca por justiça social e a garantia dos direitos humanos coexistiam com a ascensão do crime organizado. A cidade, outrora conhecida por sua beleza e alegria, se tornava refém do medo e da violência, um cenário que testaria os limites da capacidade de governar e prenunciaria tempos ainda mais sombrios. Nessa crescente tensão, o crime organizado se tornou cada vez mais ousado, com traficantes como o Naldo, da Rocinha, abertamente desafiando o Estado e suas forças de segurança. Assim, ao final da década de 1980, o primeiro fuzil utili- zado pelo tráfico de drogas seria apreendido, e a seriedade da situação ficaria mais clara a partir de então. E - B O O K B P / R I O D E J A N E I R O : PA R A Í S O E M 1 7 PAR A Í S O E M C H AM A S 1 . A S L E I S D O C R I M E A partir de 1989, o fuzil passou a fazer parte da história do Rio de Janeiro. Como afirmam Alessandro Visacro e o delegado Fabrício Oliveira, esse tipo de armamento passou a ser utilizado pelas facções, primeiramente, para dominar e proteger ter- ritório na guerra entre elas. Somente em segundo lugar esses fuzis eram empregados contra a polícia, que, por sua vez, passou a portar esse tipo de arma em 2000, quando foi realizada a pri- meira compra de fuzis pelas forças de segurança pública. Em tempos mais recentes, nomeadamente em 2024, o número de apreensões de fuzis no Rio de Janeiro bateu recorde, com mais de 730 fuzis apreendidos naquele ano4. Esses fuzis vêm, majo- ritariamente, de fora do Brasil (com a grande maioria oriunda dos EUA), passando sendo contrabandeados para o Rio de Janeiro através do Paraguai. 4 , G1. RJ tem 732 fuzis apreendidos em 2024, o maior número da série histórica; desde 2007, foram 6.619 apreensões. Rio de Janeiro, 24 jan. 2025. Disponível em: https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2025/01/24/rj-apreensao- -fuzis-isp.ghtml. Acesso em: 07 abr. 2025. Delegado Fabrício Oliveira E - B O O K B P / R I O D E J A N E I R O : PA R A Í S O E M 1 8 Conforme elucida o documentário “Rio de Janeiro: Paraíso em Chamas”, o fuzil é utilizado para estabelecer um raio de controle bélico sobre determinado território, especificamente os morros do Rio de Janeiro. A polícia, por sua vez, só pode com- bater o fuzil utilizando-se dos blindados, que são ferramentas defensivas de pro- teção às vidas das forças de segurança. Os primeiros blindados foram adquiridos somente em 1992, ano da primeira atuação militar no Rio de Janeiro, no contexto da conferência internacional ECO-92. Dois anos depois, em 1994, ocorreu a primeira intervenção federal no Rio de Janeiro… a primeira de outras que viriam, sem con- seguir reverter efetivamente a tendência de crescimento das facções criminosas. Retomando o tema do fuzil, este, além de ser uma arma de combate, também representa um símbolo de status e de dominação dentro da lógica das organiza- ções criminosas. Diante disso, é importante elucidar como o domínio territorial se consolida, para que possamos compreender como os territórios controlados por essas organizações não foram recuperados pelo Estado. A “lei” nas favelas é ditada pelas organizações criminosas na ausência do Estado e imposta pela ponta do fuzil. Visacro, autor do livro “Guerra Irregular”, apresenta os quatro eixos utilizados para consolidar e manter o domínio das facções criminosas sobre as favelas do Rio de Janeiro (e, após decisões recentes que serão exploradas ao final deste capítulo, também em certos bairros do “asfalto”). O primeiro desses eixos é o controle do sistema normativo, ou seja, as normas que regem o ordenamento social das favelas. Isso significa que o homem que porta o fuzil ou outras armas na favela é quem impõe a lei ao seu bel-prazer. É por isso que surgiram histórias sobre não ser permitido fazer determinado sinal com as mãos ou utilizar certo tipo de roupa5. Mas não é só isso… o sistema normativo do crime organizado é imposto de forma brutal e efetiva – bem mais efetiva do que o Estado, inclusive, infelizmente – pelo que popularmente se chama “tribunal do crime”. 5. OLIVEIRA, Vanilson. A violência por trás dos símbolos ocultos do crime organi- zado. Correio Braziliense, 24 jan. 2025. Disponível em: https://www.correiobra- ziliense.com.br/brasil/2025/01/7032512-a-violencia-por-tras-dos-simbolos- -ocultos-do-crime-organizado.html. Acesso em: 07 abr. 2025. E - B O O K B P / R I O D E J A N E I R O : PA R A Í S O E M 1 9E - B O O K B P / R I O D E J A N E I R O : PA R A Í S O E M 1 9 Dessa forma, o crime determina que não se pode jogar lixo na rua, usar drogas dentro da comunidade, roubar ou realizar qualquer ação que infrinja as normas esta- belecidas pela facção local. Caso isso ocorra, o infrator, na situação menos grave, será agredido, e no pior cenário, morrerá, talvez por um tiro de fuzil, talvez sendo torturado e queimado vivo, lembrando-nos da trágica morte de Tim Lopes6. 2 . R I O D A S P E D R A S , Z O N A O E ST E “Tudo começa de maneira romântica e poética”. Essas foram as palavras de Marcelo Oliveira7 Indignados com a crescente onda de assaltos, a ineficiência do sistema de justiça e o aumento da violência urbana, moradores se uniram – diz a lenda – em uma força de autodefesa, dispostos a expulsar os criminosos e restaurar a paz. Assim, criou-se a noção de que, em uma comunidade de milícia, como era o caso do Rio das Pedras, o Comando Vermelho não teria vez. Contudo, essa falsa esperança logo se frustraria. Os “grupos de autodefesa” passaram a utilizar a extorsão e a violência, tecendo um intrincado sistema de con- trole sobre o cotidiano da comunidade. Sob o pretexto de oferecer segurança, as milícias impuseram um regime de terror, cobrando taxas extorsivas de moradores e comerciantes. Aos poucos, a esperança de paz se esvaía, dando lugar à dura reali- dade de um novo cativeiro. Como afirma Rodrigo Pimentel em entrevista, “o morador saía da ditadura do tráfico para ir para a ditadura das milícias”. O modelo miliciano, com sua aparente organização e discurso de ordem, seduziu outras áreas da cidade, sedentas por alívio em meio à guerra entre facções. A extorsão, a violência e o controle territorial tornaram-se a marca registrada desses grupos, que, em muitos casos, mostraram-se tão ou mais cruéis do que os antigos senhores do tráfico. Em um espelho distorcido, as próprias facções do tráfico – outrora combatidas pelas milícias – passaram a copiar o modelo miliciano. A extorsão consolidou-se como prática sistemática. É nesse contexto que se manifesta o segundo eixo do domínio territorial elucidado por Alessandro Visacro: o domínio de recursos. As fac- ções criminosas, com as milícias como pioneiras, passaram a maximizar os lucros pelo controle dos recursos locais, como água, transporte alternativo, botijão de gás, fornecimento de internet e TV a cabo, aluguel de imóveis, entre outros. Assim, verdadeiros Estados paralelos se consolidaram, não só aplicando suas próprias normas, mas também cobrando suas próprias taxas – um escárnio frente aos impostos arrecadados pelo Estado “tradicional”. A sombra das milíciasexpan- diu-se pela cidade, e mais uma facção criminosa se somou à guerra pelo controle das comunidades do Rio de Janeiro. 6. UOL. Tim Lopes: há 21 anos, traficantes torturaram e mataram repórter da Globo. UOL Splash, 29 jun. 2023. Disponível em: https://www.uol.com.br/splash/ noticias/2023/06/29/tim-lopes-ha-21-anos-traficantes-torturam-e-mata- ram-reporter-da-globo.htm. Acesso em: 07 abr. 2025. 7. Tal afirmação se deu durante sua entrevista, disponível na plataforma da Brasil Paralelo. E - B O O K B P / R I O D E J A N E I R O : PA R A Í S O E M 2 0E - B O O K B P / R I O D E J A N E I R O : PA R A Í S O E M 2 0E - B O O K B P / R I O D E J A N E I R O : PA R A Í S O E M 2 0 3 . O B A I L E D O S I L Ê N C I O Os últimos dois eixos que Alessandro Visacro apresenta, ao longo do docu- mentário que deu nome a este ebook, são as “zonas de silêncio” e o que podemos chamar de “cultura da criminalidade”. Por “zonas de silêncio”, entenda-se as comunidades controladas pelas facções criminosas, que impõem o silêncio como parte das normas já mencionadas ante- riormente. Esse silêncio consiste em silenciar as vozes dissidentes por meio de ameaças ou do emprego da violência. Tanto é que, nessas comunidades, o crime organizado repudia veementemente os chamados “x9” ou “dedos-duros” – ou seja, as pessoas que fornecem informações sobre o que acontece dentro da comuni- dade para indivíduos de fora, principalmente para a polícia e para facções rivais. Esses indivíduos, percebidos como “informantes”, são mortos da forma mais brutal possível, fazendo com que as facções utilizem tais casos como exemplo para os demais moradores. Todavia, não é incomum que pessoas que nem eram infor- mantes sejam falsamente acusadas e mortas – muitas vezes em decorrência de desavenças ou desentendimentos. Esse fato é exemplificado no documentário “Rio de Janeiro: paraíso em chamas”, por meio da denúncia apresentada por uma testemunha anônima. Inclusive, no próprio caso relatado, nota-se que, não apenas a família da testemunha sofreu com a imposição violenta da zona de silêncio onde morava, como também moradores que discordaram do ocorrido foram agredidos por se oporem à liderança do crime organizado no local. Voltaremos à questão da zona de silêncio ao final desta seção, mas, antes, vamos ao último eixo da atuação e consolidação do domínio territorial do crime organizado nas favelas do Rio de Janeiro: os padrões culturais. Para ser mais exato, trata-se “da definição ou redefinição de um padrão de comportamento culturalmente aceito”. E - B O O K B P / R I O D E J A N E I R O : PA R A Í S O E M 2 1 Visacro utiliza o exemplo dos bailes funk como um fenômeno presente nesse eixo. Ali, não apenas circula o comércio de drogas e de bens roubados, como também se constrói uma imagem das facções e dos grandes traficantes, que exerce um forte apelo junto ao público jovem. Dessa forma, são recrutados novos integrantes – muitos menores de idade – para as facções criminosas. Claro que existem outros fatores a serem considerados além do funk, como os valores que os indivíduos carregam e seu contexto social; entretanto, a glamourização do tráfico de drogas e do crime organizado – somada à sexualização proeminente nas músicas do funk contemporâneo – exerce um forte poder atrativo sobre as mentes influenciáveis e despreparadas dos jovens, prin- cipalmente em comunidades desamparadas e com pouco ou nenhum acesso à educação de qualidade. Mas o que são esses “padrões de comportamento” que passam a ser aceitos? Além dos observados no exemplo do funk, há também a glamourização do porte de armas de guerra como símbolo de status dentro das facções. Soma-se a isso o materialismo exacerbado, com foco no uso de motos e correntes de ouro, por exemplo, bens que os jovens recrutados pelo tráfico percebem como mais facil- mente acessíveis por meio do crime do que por meio do trabalho honesto – e assim compreendemos como os padrões de comportamento das facções se formam e se sustentam. Antes de concluirmos esta explicação dos dois últimos eixos do domínio territo- rial, é importante retomar um ponto que ficou em aberto sobre as zonas de silêncio. Essas zonas não se tratam apenas de calar as vozes dissidentes, mas também de amplificar as vozes que difundem mensagens que reforçam o domínio territorial das facções criminosas. Por isso, frequentemente as facções criminosas influenciam associações de moradores, veículos acadêmicos e de mídia. Essa influência pode ocorrer tanto por meio da coerção e da cooptação – elementos necessários e presentes no domínio territorial aqui explorado – quanto de forma orgânica8. Ao se dizer isso, reflete-se não apenas o fato de que se aproveitam da corrupção, mas também o de que empregam a guerra informacional para influenciar pessoas alheias à realidade local a adotarem a mensagem de interesse das facções, aproveitando-se inclusive de preocupações legítimas. Qual é essa mensagem? Trata-se da normalização da existência de um poder paralelo ao Estado, bem como da deslegitimação das iniciativas governamentais de retomar esses territórios por meio das forças de segurança. Tanto é que é bastante comum organizações não governamentais adotarem uma postura mais enérgica ao contestarem as atuações das unidades policiais do que à própria presença do crime nas favelas9. 8. No link a seguir, por exemplo, é possível observar um caso em que uma milícia criou uma associação de moradores para acionar a Defensoria Pública da União e poder ter acesso a unidades do programa governamental de habitação: https:// www.cnnbrasil.com.br/nacional/rj-milicia-cria-associacao-de-moradores-e-a- vanca-sobre-prefeituras-diz-estudo/. 9. E diga-se de passagem, “crime” e “favela” não são sinônimos. A grande maio- ria das populações que vivem em comunidades são pessoas de bem. O problema está na combinação da desordem urbana com a atuação criminosa dentro das comunidades por grupos armados reforçados pelas redes de ilícitos transnacio- nais, como é possível observar na obra de Alessandro Visacro, “Guerra Irregular”. E - B O O K B P / R I O D E J A N E I R O : PA R A Í S O E M 2 2 Com base nisso, a sociedade recebe informações superficiais ou até mesmo deturpadas, que, às vezes, não passam de fogo de palha passageiro, mas, em outras ocasiões, acabam levando a decisões políticas e jurídicas que, ao proporem soluções simples para problemas complexos, se revelam ineficientes ou até mesmo contraproducentes. 4 . C A U SA S E C O N S E Q U Ê N C I A S Em 2019, o Partido Socialista Brasileiro (PSB) propôs uma Arguição de Descumpri- mento de Preceito Fundamental (ADPF) para análise pelo Superior Tribunal Federal (STF), diante da percepção da alta letalidade das operações policiais nas comuni- dades do Rio de Janeiro. Em 2020, o ministro Edson Fachin, relator da ação, deter- minou que as operações policiais no Rio de Janeiro seguissem certas regras e atu- assem apenas em “hipóteses absolutamente excepcionais”10. Antes da ação – formalmente conhecida como ADPF 635, mas também apeli- dada de “ADPF das favelas” – os índices de letalidade policial no Rio de Janeiro eram altos, com 1.814 mortes ocorridas em 2019 contra 699 em 2024, sendo este último o menor número da série histórica. Esse número foi acompanhado pela melhora de outros indicadores de criminalidade11. Contudo, como afirma o delegado Fabrício Oliveira, a grande maioria das mortes ocorridas em operações policiais no Rio de Janeiro está amparada pela legislação, diante do elevado número de criminosos armados que entram em confronto com as polícias. Não se afirma que tais mortes sejam “normais”, pois nada de normal há na situação da disputa territorial carioca. O que ocorre é que, na busca pela diminuição da letalidade policial – parafraseando o ministro do STF, Gilmar Mendes – aparen- tamos combater sintomas, e não as causas12. Conforme já demonstrado, o domínio das organizações criminosasnas comu- nidades não se restringe à esfera bélica, mas manifesta-se, sobretudo, em ações que legitimam sua presença e deslegitimam a atuação do Estado, que sempre foi precária. Dessa forma, a estratégia estatal não deve concentrar-se apenas na operacionalidade, mas também em medidas de ordem social. Ainda, a realização de operações policiais não deve ser descartada, pois, com a redução das operações – que diminuíram 59% no ano da decisão do ministro Fachin –, as facções criminosas ganham maior liberdade para consolidar e expandir seu poder. Tanto é verdade que o número de barricadas – obstáculos à entrada tanto da polícia como de facções rivais nas comunidades – aumentou nos últimos anos, a ponto de as forças policiais do Rio de Janeiro terem removido mais de 7 mil tone- 10. BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental nº 635. Relator: Ministro Edson Fachin. Requerente: Partido Socia- lista Brasileiro - PSB. Interessado: Estado do Rio de Janeiro. Brasília, 5 de agosto de 2020. 11. GAMA, Guilherme. Duas pessoas foram mortas por dia pela polícia no Rio de Janeiro em 2024. CNN Brasil, 2024. Disponível em: www.cnnbrasil.com.br/na- cional/sudeste/rj/duas-pessoas-foram-mortas-por-dia-pela-policia-no-rio- -de-janeiro-em-2024. Acesso em: 08 abr. 2025. 12. UOL. STF julga ação para reduzir a violência policial nas favelas do Rio de Ja- neiro e+ pautas: ao vivo. YouTube, [s.d.]. Disponível em: https://www.youtube. com/watch?v=ghdgTQwXzyU. Trecho citado: 46:10 - 46:23. E - B O O K B P / R I O D E J A N E I R O : PA R A Í S O E M 2 3E - B O O K B P / R I O D E J A N E I R O : PA R A Í S O E M 2 3E - B O O K B P / R I O D E J A N E I R O : PA R A Í S O E M 2 3 ladas delas em 202413. Além disso, o domínio das facções criminosas já não se limita mais às comunidades marginalizadas, as favelas, expandindo-se para o “asfalto”, nos bairros limítrofes às comunidades do Rio de Janeiro14. O Procurador de Justiça Marcelo Rocha ilustra esse fato ao citar o exemplo de Jacarepaguá15 durante o documentário. 13. LEITÃO, Leslie. Polícia retirou mais de 7 mil toneladas de barricadas nas comu- nidades do RJ em 2024. G1, Rio de Janeiro, 16 jan. 2025. Disponível em: https:// g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2025/01/16/policia-retirou-mais-de- -7-mil-toneladas-de-barricadas-nas-comunidades-do-rj-em-2024.ghtml. Acesso em: 08 abr. 2025. 14. CORREIA, Ben-Hur. Criminosos impõem controle sobre internet em bairros do Rio e Baixada. G1, Rio de Janeiro, 19 mar. 2025. Disponível em: https://g1.globo. com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2025/03/19/criminosos-impoem-controle-so- bre-internet-em-bairros-do-rio-e-baixada.ghtml. Acesso em: 08 abr. 2025. 15, DE BARROS, Duda Monteiro. Comando Vermelho cobra taxa de barricada e pedágio de moradores em Jacarepaguá. Veja, São Paulo, 19 mar. 2025. Dispo- nível em: https://veja.abril.com.br/brasil/comando-vermelho-cobra-taxa-de- -barricada-e-pedagio-de-moradores-em-jacarepagua. Acesso em: 08 abr. 2025. Marcelo Rocha Monteiro E - B O O K B P / R I O D E J A N E I R O : PA R A Í S O E M 2 4E - B O O K B P / R I O D E J A N E I R O : PA R A Í S O E M 2 4 Além da expansão física do domínio territorial no Rio de Janeiro, ocorreu também o aumento da migração para a cidade de chefes de outros grupos criminosos espa- lhados pelo Brasil16. Com a relativa tranquilidade proporcionada pelas determinações da ADPF – como a necessidade de aviso prévio das operações policiais, que pos- sibilita o vazamento de informações e a fuga desses criminosos –, esses líderes do crime organizado passaram a coordenar suas ações a partir das comunidades do Rio de Janeiro. Como esclarece o Secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro, Victor dos Santos, o Comando Vermelho, por exemplo, já está presente em 23 unidades fede- rativas do país17. Assim, aquele pequeno grupo de Ilha Grande transformou-se em um problema de âmbito nacional. Dito isso, não se afirma que o problema do Rio de Janeiro seja a ADPF. Conforme o próprio Secretário Victor dos Santos declara em entrevista, houve avanços pos- sibilitados pela Arguição; todavia, também surgiram problemas, como a incerteza jurídica gerada nos primeiros meses após a restrição das operações a casos excep- cionais, dentre outras questões. Ainda assim, o problema da criminalidade no Rio de Janeiro já persiste há muitas décadas, como observado anteriormente. 16. FANTTI, Bruna. RJ tem 249 líderes do tráfico de outros estados procurados em favelas. Folha de São Paulo, São Paulo, 19 mar. 2025. Disponível em: https:// www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2025/03/rj-tem-249-lideres-do-trafico-de- -outros-estados-procurados-em-favelas.shtml. Acesso em: 08 abr. 2025. 17. CRUZ, Adriana; LEITÃO, Leslie; MOREIRA, Gabriela. Comando Vermelho se ex- pande para mais três estados em 1 ano, totalizando presença em 23, diz relató- rio da Senapen. G1, Rio de Janeiro, 11 dez. 2024. Disponível em: https://shre.ink/ MpQU. Acesso em: 08 abr. 2025. Victor dos Santos E - B O O K B P / R I O D E J A N E I R O : PA R A Í S O E M 2 5 C O N C L U SÃ O Ao longo desta jornada pela história do Rio de Janeiro, desde a disputa inicial pela Baía de Guanabara até a complexa teia de poder que envolve o crime organizado, fica evidente que o Rio de Janeiro é palco de uma dualidade entre céu e inferno, da luta constante entre a ordem e o caos. As invasões estrangeiras, as reformas urbanas que marginalizaram a popu- lação, a perda do status de capital federal e a ascensão das facções criminosas são apenas alguns dos capítulos de uma saga que moldou a identidade carioca… não necessariamente para melhor. A negligência do Estado, a fragilidade das insti- tuições e decisões políticas simplórias para problemas complexos permitiram que o crime organizado se enraizasse nas comunidades, impondo suas próprias leis e sequestrando comunidades e a própria sociedade do Rio de Janeiro. Nesse con- texto, a ADPF 635, ao limitar as operações policiais nas favelas, ecoou as restri- ções impostas durante o governo Brizola e aprofundou um vácuo de poder que foi prontamente preenchido pelas facções. Assim como Estácio de Sá, que tombou defendendo a cidade, alvejado como São Sebastião, o santo padroeiro, as vítimas das disputas entre facções criminosas, tanto entre elas mesmas quanto em confrontos com a polícia, engrossam a triste estatística de mártires que tombam em meio ao fogo cruzado. Adicionalmente, a frágil situação das comunidades cariocas reverbera as más implantações de polí- ticas públicas passadas, como o “Bota-abaixo” e o “Ponha-se na rua”. A recuperação do paraíso perdido exige que paremos de negligenciar a comple- xidade do domínio territorial das organizações criminosas (quer a chamemos de facções ou de verdadeiros insurgentes que desafiam a autoridade e a soberania do Estado brasileiro). O Rio de Janeiro, afinal, é a face do Brasil para o mundo e o lar de muita da nossa história e cultura. Hoje, no contexto de violência, perda de legitimi- dade do Estado, insegurança e desesperança, o carioca (e o brasileiro) anseia acima de tudo, pela possibilidade de poder voltar para casa e para sua família incólume. Apenas assim, a cidade maravilhosa poderá reviver um estado à altura de seu nome.