Prévia do material em texto
1. Conceito de Delito no Direito Canônico 2. Codigo Pio Beneditino de 1917, dava uma definição clara de delito: no seu cânone 2195 § 1 ( que tratava: dos delitos e das penas) diz: (SLITE 45) “Sob o nome de delito entende-se, no direito eclesiástico, a violação externa e moralmente imputável de uma lei a qual seja anexa uma sanção canónica pelo menos indeterminada.” (tradução nossa) A- o legislador, no código de 83, não oferece precisamente uma definição de delito, no canone 1321 do código de 83 lea-se : Can 1321§1 “Ningém é punido, a não ser que a violação externa da lei ou do preceito, por ele cometida, lhe seja gravemente imputável por dolo ou culpa” (SLITE 7) B- No direito canônico, um delito (ou crime) é uma violação externa da lei eclesiástica, cometida por uma pessoa batizada, à qual a Igreja anexa uma sanção penal (cân. 1321). Para que um ato seja considerado delito, deve haver: Uma lei ou preceito penal prévio. C- Na atualidade, a Igreja Católica entende o "delito contra o sexto mandamento" de forma específica dentro do direito canônico, especialmente no que se refere a abusos sexuais cometidos por clérigos. (SLITE 8) O que significa "delito contra o sexto mandamento" no Direito Canônico? O sexto mandamento — "Não cometerás adultério" — é interpretado pela Igreja como um chamado à castidade e à pureza moral. No Código de Direito Canônico, esse mandamento é mencionado quando há violação da moral sexual por parte de clérigos, especialmente em situações que envolvem: *Abuso sexual de menores ou pessoas vulneráveis (Cânon 1398 §1); (SLITE 8) *Uso de força ou abuso de autoridade para obter favores sexuais (Cânon 1395 §3); (SLITE 9) *Manutenção de relações sexuais ilícitas por clérigos (Cânon 1395 §1). 3. DIMENSÃO PROCESSUAL Dever da Igreja, ver can 1311 (slite 11) Desde o pontificado de Bento XVI e, principalmente, com o Papa Francisco, a Igreja reforçou medidas para combater esses delitos. Algumas ações incluem: • Expulsão de sacerdotes condenados por abusos; • Investigação interna conduzida pelo Vaticano (Dicastério para a Doutrina da Fé); • Obrigação de denunciar casos às autoridades civis, conforme as leis locais; • Criação do motu próprio Vos Estis Lux Mundi (2019 E ATUALIZADA EM 2023), que estabelece diretrizes para denunciar abusos dentro da Igreja. (slite 12) O Dicastério da doutrina da fé publicou em 2022 um vade-mécum para ajudar a Igreja para dar resposta às inúmeras perguntas sobre os passos que se devem seguir nas causas penais da sua competência, este Vademecum está destinado primariamente aos Ordinários e aos operadores do direito que necessitem traduzir em ações concretas a normativa canónica relativa aos casos de abuso sexual de menores cometidos por clérigos. “Trata-se de uma espécie de “manual” que pretende tomar pela mão e conduzir passo a passo, desde a notitia criminis até à conclusão definitiva da causa, quem se achar na necessidade de proceder à averiguação da verdade no contexto dos mencionados delitos. Não é um texto normativo, não inova a legislação sobre o assunto, mas visa tornar mais claro um percurso. Apesar disso, recomenda-se a sua observância, cientes de que uma praxis homogênea contribui para tornar mais clara a administração da justiça.” “O desejo é que este instrumento possa ajudar as Dioceses, os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica, as Conferências Episcopais e as várias circunscrições eclesiásticas a entenderem melhor e implementarem as exigências da justiça a respeito de um delictum gravius que constitui, para toda a Igreja, uma ferida profunda e dolorosa que pede para ser curada.” O vade-mécum preparado pela doutrina da fé diz: https://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/ddf/rc_ddf_doc_2022 0605_vademecum-casi-abuso-2.0_po.html “1. O delito em questão inclui todo pecado externo contra o sexto mandamento do Decálogo cometido por um clérigo com um menor (cf. cân. 1398 §1 CIC; art. 6, 1º SST). 2. A tipologia do delito é muito ampla e pode incluir, por exemplo, relações sexuais (com e sem consentimento), contato físico de ordem sexual, exibicionismo, masturbação, produção de pornografia, indução à prostituição, conversas e/ou propostas de caráter sexual inclusive através dos meios de comunicação. 3. O conceito de “menor”, relativamente aos casos em questão, variou ao longo do tempo: até 30 de abril de 2001, entendia-se a pessoa com menos de 16 anos de idade (embora em algumas legislações particulares – como, por exemplo, nos EUA desde 1994 e na Irlanda desde 1996 – a idade já tivesse sido elevada para 18 anos). Desde 30 de abril de 2001, quando foi promulgado o motu proprio «Sacramentorum sanctitatis tutela», a idade foi universalmente elevada para 18 anos, sendo a idade ainda em vigor. É preciso ter em conta estas variações, quando se deve definir se o «menor» o era realmente, segundo a definição de Lei em vigor no momento dos factos. https://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/ddf/rc_ddf_doc_20220605_vademecum-casi-abuso-2.0_po.html https://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/ddf/rc_ddf_doc_20220605_vademecum-casi-abuso-2.0_po.html https://www.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/motu_proprio/documents/hf_jp-ii_motu-proprio_20020110_sacramentorum-sanctitatis-tutela.html https://www.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/motu_proprio/documents/hf_jp-ii_motu-proprio_20020110_sacramentorum-sanctitatis-tutela.html O fato de se falar de “menor” não incide sobre a distinção, que às vezes se deduz das ciências psicológicas, entre atos de “pedofilia” e atos de “efebofilia”, isto é, com adolescentes já fora da puberdade. A sua maturidade sexual não influi sobre a definição canónica do delito.” 4. Função do Dicastério para a Doutrina da Fé (DDF) Os delitos contra o sexto mandamento na Igreja Católica, especialmente os que envolvem clérigos, são julgados principalmente pelo Dicastério para a Doutrina da Fé (DDF), que antes era chamado de Congregação para a Doutrina da Fé (CDF). O DDF conduz investigações e, se necessário, pode recomendar penas que vão desde suspensão do ministério até a demissão do estado clerical (laicização). Esse dicastério tem competência para tratar de crimes graves (graviora delicta) (Slite13) incluindo: - Abuso sexual de menores ou pessoas vulneráveis cometida por clérigos (Cânon 1398 §1); - Uso de violência ou abuso de autoridade para obter favores sexuais (Cânon 1395 §3); - Outros delitos sexuais graves cometidos por sacerdotes contra a moral da Igreja. 5. Outros órgãos envolvidos (slite 14) Além do Dicastério para a Doutrina da Fé, outros organismos podem atuar em determinados momentos do processo: 1. Dicastério para os Bispos – quando o acusado for um bispo, pode auxiliar na investigação e encaminhar o caso ao Papa. 2. Dicastério para o Clero – pode se envolver em casos que envolvem disciplina de sacerdotes. 3. Tribunal Apostólico da Rota Romana – em alguns casos de apelação. 4. Supremo Tribunal da Assinatura Apostólica – instância máxima para recursos administrativos e disciplinares. 6. Fases Processuais do Delito Canônico O que fazer quando se recebe uma notícia de delito? (slite 15) cf. cân. 1717 §1 CIC; cân. 1468 §1 art. 3 VELM A notícia de delito é toda informação sobre um possível delito que chegue, de qualquer forma, ao Ordinário ou ao Hierarca. Não é preciso que se trate de uma denúncia formal. 10. Assim, esta notitia pode ter várias fontes: ser apresentada formalmente ao Ordinário ou ao Hierarca, de maneira oral ou escrita, pela presumível vítima, https://www.vatican.va/content/francesco/pt/motu_proprio/documents/papa-francesco-motu-proprio-20190507_vos-estis-lux-mundi.html pelos seus tutores, por outras pessoas que alegam estar informadas dos fatos; chegar ao Ordinário ou ao Hierarca durante o exercício dos seus deveres de vigilância; ser apresentada ao Ordinário ou ao Hierarca pelasautoridades civis segundo as modalidades previstas pelas legislações locais; ser divulgada pelos meios de comunicação de massa (incluindo os social media); chegar ao seu conhecimento através de vozes recolhidas, e de qualquer outra maneira apropriada. 11. Às vezes, a notitia de delicto pode chegar de fonte anónima, ou seja, de pessoas não identificadas ou não identificáveis. O anonimato do denunciante não deve levar automaticamente a considerar falsa tal notitia, sobretudo quando esta é acompanhada de documentação que atesta a probabilidade de um delito; no entanto, por razões facilmente compreensíveis, é oportuno ter muita cautela ao tomar em consideração esse tipo de notitia, que de modo algum deve ser encorajado. 12. De igual modo, não é aconselhável descartar a priori a notitia de delicto, proveniente de fontes cuja credibilidade possa parecer, à primeira vista, duvidosa. 13. Às vezes, a notitia de delicto não fornece detalhes concretos (nomes, lugares, tempos etc.). Embora vaga e indeterminada, deve ser adequadamente avaliada e, na medida do possível, aprofundada com a devida atenção. 14. Tenha-se em mente que a informação sobre um delictum gravius recebida em Confissão está posta sob o vínculo estreitíssimo do sigilo sacramental (cf. cân. 983 §1 CIC; cân. 733 §1 CCEO; art. 4 §1, 5° SST). Por isso será necessário que o confessor, informado de um delictum gravius durante a celebração do Sacramento, procure convencer o penitente a tornar conhecidas as suas informações por outras vias, a fim de permitir agir a quem deve fazê-lo. 7. Que ações se devem empreender quando se recebeu uma notitia de delicto? a) Inquérito Preliminar Antes de iniciar um processo penal, a autoridade eclesiástica (normalmente o bispo ou a Santa Sé) deve realizar uma investigação prévia para verificar se há indícios suficientes de crime (cân. 1717). 16. O art. 10 §1 SST (cf. também os câns. 1717 CIC e 1468 CCEO) estabelece que, recebida uma notitia de delicto, realize-se uma investigação prévia, caso a notitia de delicto seja «saltem verisimilis». Mas, se tal verossimilhança for infundada, poder-se-á não dar seguimento à notitia de delicto, tendo, entretanto, o cuidado de conservar a documentação juntamente com uma nota em que se expliquem as razões da decisão. 20. Caso não houver o delito com menores, mas perante condutas impróprias e imprudentes, lembre-se de que, se for necessário para proteger o bem comum e evitar escândalos, enquadra-se nos poderes do Ordinário e do Hierarca tomar outras medidas de tipo administrativo contra a pessoa denunciada (por exemplo, limitações no ministério), ou impor-lhe os remédios penais mencionados no cân. https://www.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/motu_proprio/documents/hf_jp-ii_motu-proprio_20020110_sacramentorum-sanctitatis-tutela.html https://www.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/motu_proprio/documents/hf_jp-ii_motu-proprio_20020110_sacramentorum-sanctitatis-tutela.html 1339 CIC a fim de prevenir os delitos (cf. cân. 1312 §3 CIC), ou a repreensão pública referida no cân. 1427 CCEO. 8. O que é a investigação prévia? (slite 16) 33. Deve-se ter sempre em mente que a investigação prévia não é um processo, e o seu objetivo não é alcançar a certeza moral quanto à realização dos fatos que são objeto da acusação. Ela serve: a) para a recolha de dados úteis a fim de se aprofundar a notitia de delicto; b) para avaliar a sua verossimilhança, ou seja, definir aquilo que se chama fumus delicti, isto é, se há fundamento suficiente em direito e nos fatos para se considerar verosímil a acusação. 9. Que atos jurídicos é preciso efetuar para iniciar a investigação prévia? 38. Se o Ordinário ou o Hierarca competente considerar oportuno valer-se de outra pessoa idônea para realizar a investigação (cf. n.º 21), escolha-a segundo os critérios indicados pelos câns. 1428 §§ 1 e 2 CIC ou 1093 CCEO[4]. 10. Processo Penal Judicial Se a investigação indicar a plausibilidade do delito, a autoridade pode iniciar um processo penal judicial, conduzido por um tribunal eclesiástico. Ele segue as regras do processo canônico geral (cânones 1400-1500), garantindo o direito de defesa ao acusado. 11. Processo Penal Administrativo Em certos casos, a autoridade eclesiástica pode optar por um processo penal administrativo, especialmente quando a pena a ser imposta não inclui a expulsão do estado clerical. Esse processo é mais rápido e conduzido diretamente pela autoridade competente, sem necessidade de um tribunal formal. 12. Sanções e Penalidades As penas no direito canônico podem ser: - Censuras (excomunhão, suspensão, interdito); - Expiação (proibição do exercício do ministério, perda de ofício eclesiástico); - Penas expiatórias perpétuas ou temporárias (como a demissão do estado clerical, especialmente para casos graves como abusos sexuais). https://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/ddf/rc_ddf_doc_20220605_vademecum-casi-abuso-2.0_po.html#_ftn4 13. Instâncias Recursais e Revisão O direito canônico prevê a possibilidade de recurso contra sentenças penais, podendo o caso ser revisado pela Congregação para a Doutrina da Fé (em delitos graves) ou por tribunais superiores da Santa Sé. Conclusão A dimensão processual do delito no direito canônico envolve um conjunto de normas que asseguram um julgamento justo, respeitando os princípios da lei eclesiástica. Embora tenha diferenças do direito penal estatal, busca garantir disciplina interna e justiça dentro da Igreja. 14- Resumindo Procedimento dentro da Igreja 1. Denúncia → Normalmente feita ao bispo local, que deve informar o DDF. 2. Investigação preliminar → O bispo ou superior religioso conduz uma investigação inicial. 3. Envio ao DDF → Se houver indícios suficientes, o caso é enviado ao Dicastério para julgamento. 4. Julgamento e sentença → O DDF pode aplicar penas, incluindo expulsão do sacerdócio. 15. Os processos administrativos No direito canônico, os processos administrativos são procedimentos jurídicos conduzidos diretamente por uma autoridade eclesiástica (como o bispo ou a Santa Sé) sem a necessidade de um tribunal formal. Eles são regulados pelo Código de Direito Canônico (CIC) e aplicam-se a diversas questões, como sanções disciplinares, remoção de clérigos e reconhecimento de direitos. São mais rápidos e menos formais do que os processos judiciais. Garantem o direito de defesa e possibilidade de recurso. Envolvem uma autoridade competente que decide com base nas provas apresentadas. 1. Tipos de Processos Administrativos no Direito Canônico a) Processo Administrativo Penal (Cân. 1720) Utilizado para aplicar sanções penais sem necessidade de um julgamento formal. O bispo ou a autoridade competente deve garantir o direito de defesa do acusado. (restrições ministeriais, perda de ofício). b) Processo Administrativo de Remoção e Transferência de Párocos (Cân. 1740-1752) Ocorre quando um pároco não pode mais exercer eficazmente seu ministério. O bispo deve apresentar razões justas e ouvir o sacerdote antes da decisão. Pode resultar em transferência para outra paróquia ou remoção definitiva. c) Processo Administrativo para a Redução ao Estado Laical Aplicado a clérigos que cometeram delitos graves ou que solicitam voluntariamente a dispensa das obrigações sacerdotais. A decisão é tomada pela Congregação para o Clero ou, em casos de delitos graves, pela Congregação para a Doutrina da Fé. 2. Possibilidade de Recurso As decisões administrativas podem ser recorridas à Santa Sé, especialmente à Congregação para os Bispos, Congregação para a Doutrina da Fé ou ao Tribunal da Assinatura Apostólica, dependendo do caso. 3. Conclusão Os processos administrativos no direito canônico garantem a governança da Igreja de maneira eficiente e justa, lidando com questões disciplinares, penais e sacramentais de forma mais rápida doque um julgamentojudicial.