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BIOÉTICA E ÉTICA EM AUDITORIA 
 
 
2 
 
 
Sumário 
 
BIOÉTICA E ÉTICA EM AUDITORIA ...................................................... 1 
NOSSA HISTÓRIA ................................... Erro! Indicador não definido. 
CONCEITOS BÁSICOS .......................................................................... 6 
DA ÉTICA FILOSÓFICA À ÉTICA EM SAÚDE .................................... 6 
ÉTICA E CONHECIMENTO ................................................................. 6 
BIOÉTICA E SEU VERDADEIRO SIGNIFICADO ................................ 8 
O PRINCÍPIO DA BENEFICÊNCIA E NÃO MALEFICÊNCIA ................ 10 
O PRINCÍPIO DA AUTONOMIA E O CONSENTIMENTO LIVRE E 
ESCLARECIDO ................................................................................................ 11 
O PRINCÍPIO DA JUSTIÇA ................................................................... 16 
BIOÉTICA: DO PRINCIPIALISMO À BUSCA DE UMA PERSPECTIVA 
LATINO-AMERICANA ...................................................................................... 17 
ÉTICA E PROGRESSO DA RAZÃO ..................................................... 24 
BIOÉTICA E CIÊNCIA ........................................................................... 28 
REPRODUÇÃO ASSISTIDA ................................................................. 34 
BIOÉTICA E ABORTO ....................................................................... 36 
O PROJETO GENOMA HUMANO E A MEDICINA PREDITIVA: 
AVANÇOS TÉCNICOS E DILEMAS ÉTICOS .............................................. 39 
TRANSPLANTES .................................................................................. 44 
BIOÉTICA E EUTANÁSIA ..................................................................... 46 
PESQUISA COM SERES HUMANOS ................................................... 49 
ASPECTOS ÉTICOS DA PESQUISA ENVOLVENDO SERES 
HUMANOS ................................................................................................... 52 
PROTOCOLO DE PESQUISA ........................................................... 57 
COMISSÃO NACIONAL DE ÉTICA EM PESQUISA (CONEP) ......... 58 
file:///C:/Users/EDUARDO/Documents/FACUMINAS/AUDITORIA%20EM%20SERVIÇO%20DE%20ENFERMAGEM/bioética%20e%20ética%20em%20auditoria/BIOÉTICA%20E%20ÉTICA%20EM%20AUDITORIA.docx%23_Toc65871865
 
3 
 
ÁREAS TEMÁTICAS ESPECIAIS ......................................................... 59 
GENÉTICA HUMANA ........................................................................ 59 
REPRODUÇÃO HUMANA ................................................................. 59 
FÁRMACOS, VACINAS E TESTES DIAGNÓSTICOS. ..................... 60 
POPULAÇÕES INDÍGENAS .............................................................. 61 
PESQUISAS COORDENADAS DO EXTERIOR OU COM 
PARTICIPAÇÃO ESTRANGEIRA ................................................................ 62 
A BIOÉTICA E A SAÚDE PÚBLICA ...................................................... 63 
BIOÉTICA E DIREITOS HUMANOS ..................................................... 68 
CIÊNCIA, TECNOLOGIA E BIOÉTICA .............................................. 72 
A VIDA HUMANA COMO VALOR JURÍDICO .................................... 73 
OS DIREITOS HUMANOS: DEFESA DA PESSOA E DA VIDA ........ 74 
BIOÉTICA CLÍNICA ............................................................................... 78 
BIOÉTICA E MEDICINA LEGAL ........................................................ 84 
ÉTICA CLÍNICA: A AIDS COMO PARADIGMA ................................. 90 
A VIDA HUMANA COM VALOR ÉTICO ............................................ 92 
AUDITORIA ........................................................................................... 93 
QUESTÃO ÉTICA .............................................................................. 93 
INSTRUMENTOS DE AUDITORIA .................................................. 101 
DIÁLOGO COM PARTES INTERESSADAS ................................ 101 
REFERÊNCIAS ................................................................................... 113 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
4 
 
 
 
APRESENTANDO A BIOÉTICA 
 
O autor George Edward Moore, em sua obra Princípios Éticos, define que: 
 
Ética é uma palavra grega, com duas 
origens possíveis. A primeira é a 
palavra grega éthos, com e curto, 
que pode ser traduzida por costume, 
a segunda também se escreve 
éthos, porém com e longo, que 
significa propriedade do caráter. A 
primeira é a que serviu de base para 
a tradução latina Moral, enquanto a 
segunda é a que, de alguma forma, orienta a utilização atual 
que damos a palavra Ética. Portanto, Ética é a investigação 
geral sobre aquilo que é bom. 
 
A Filosofia dá origem ao que conhecemos como a ética, pois ela surge na 
tentativa de dar uma resposta aos problemas que envolvem o comportamento 
humano. Dessa forma, a ética é, ou procura ser, uma reflexão sobre a ação 
embasada na realidade, especialmente na área da saúde, remetendo ao 
conceito de Bioética o estudo sistemático da conduta humana na área das 
ciências da vida e a atenção à saúde. Neste contexto temos a bioética, com bio 
representando o conhecimento biológico, a ciência dos sistemas viventes, e a 
ética, representando o conhecimento dos sistemas. 
Podemos dizer que a Bioética é um campo interdisciplinar da Ética 
aplicada como uma das principais configurações da moralidade leiga. No 
aspecto sociocultural, tem sua origem na sensibilidade moral crítica dos 
movimentos sociais dos anos 1960, que questionavam as normas e valores 
absolutos, herdados da tradição, em nome de princípios prima facie. 
No aspecto epistemológico-metodológico, constitui-se como “diálogo” 
entre várias competências disciplinares, capaz de enfrentar criticamente (e 
 
5 
 
resolver pragmaticamente) os conflitos que surgem, nas sociedades 
secularizadas e contemporâneas, entre os processos do saber-fazer 
tecnocientífico (em particular o biomédico) e a sensibilidade ética. Neste 
contexto prático-teórico reconfiguram-se (analiticamente) antigas questões 
sanitárias, ou de “bioética quotidiana”, e outras novas, ou de “bioética de 
fronteira”. Em particular, as questões, por um lado, das iniquidades, do aborto, 
da eutanásia etc., e, por outro, das biotecnologias, dos direitos das gerações 
futuras, do meio ambiente etc. 
A comunidade científica e tecnológica preconiza que poucas áreas 
evoluíram com tamanha rapidez quanto a Bioética. 
A Bioética descreve um compromisso moral, o equilíbrio e a preservação 
da relação dos seres humanos com o ecossistema e a própria vida do planeta. 
Diversas obras foram publicadas sobre bioética nos anos 1970 e início 
dos anos 1980. Posteriormente sintetizada e colocada como “principialismo”, a 
bioética desenvolveu-se sob quatro princípios básicos, dois deles de caráter 
teleológico (beneficência e autonomia) e os outros dois caráter deontológico 
(não maleficência e justiça). Mesmo sem estarem filosoficamente sob o 
mesmo prisma, estes princípios foram rapidamente assimilados, passando a 
constituir a ferramenta mais utilizada pelos bioeticistas na mediação e/ou 
resolução dos conflitos morais pertinentes à temática bioética. 
Atualmente com mais de dez diferentes raciocínios utilizados pela 
Bioética no seu desenvolvimento, citamos alguns: o feminismo, o naturalismo 
A Bioética é uma área de estudo interdisciplinar que envolve a Ética e a Biologia, fundamentando os 
princípios éticos que regem a vida quando essa é colocada em risco pela Medicina ou pelas ciências. A palavra 
Bioética é uma junção dos radicais “bio”, que advém do grego bios e significa vida no sentido animal e fisiológico do 
termo (ou seja, bio é a vida pulsante dos animais, aquela que nos mantém vivos enquanto corpos), e ethos, que diz 
respeito à conduta moral. 
 
6 
 
contratualismo,dos estudos 
bioéticos pertinentes ao assunto. Misturam-se textos acadêmicos, políticos e 
religiosos, e selecionar quais os mais significativos para o debate parece ser 
sempre uma tarefa injusta. 
Para melhor entendimento, o assunto está dividido em três partes assim 
distribuídas: na primeira, esclarecemos a terminologia e os principais tipos de 
aborto; em seguida, apresentamos dados sobre legislação comparada, para, na 
terceira parte, nos centrarmos no debate bioético propriamente dito sobre o 
tema. 
 
Terminologia e tipos de aborto 
 
Uma avaliação semântica dos conceitos utilizados pelos pesquisadores 
que escreveram sobre o aborto seria de extrema valia para os estudos bioéticos. 
A variedade conceitual é proporcional ao impacto social causado pela escolha 
de cada termo. Infelizmente, e isso é claro para qualquer pesquisador 
interessado no tema, não se escolhem os conceitos impunemente. Cada 
categoria possui sua força na guerrilha linguística, algumas vezes sutil, que está 
por trás das definições selecionadas. 
 
38 
 
Fala-se de aborto terapêutico como sendo aborto eugênico, deste como 
aborto seletivo ou racista, numa cadeia de definições intermináveis que gera 
uma confusão semântica aparentemente intransponível ao pesquisador. No 
entanto, ao invés de se deixar abalar pela diversidade conceitual, o primeiro 
passo de uma pesquisa sobre o aborto é desvendar quais pressupostos morais 
estão por trás das escolhas. Há uma certa regularidade moral na seleção de 
cada conceito. 
Para este capítulo, utilizaremos a nomenclatura mais próxima do discurso 
médico oficial, por considerá-la a que mais justamente representa as práticas a 
que se refere. 
Basicamente, pode-se reduzir as situações de aborto a quatro grandes 
tipos: 
 
»» Interrupção eugênica da gestação (IEG): são os casos de aborto 
ocorridos em nome de práticas eugênicas, isto é, situações em que se 
interrompe a gestação por valores racistas, sexistas, étnicos etc. Comumente, 
sugere-se o praticado pela medicina nazista como exemplo de IEG quando 
mulheres foram obrigadas a abortar por serem judias, ciganas ou negras. Regra 
geral, a IEG processa-se contra a vontade da gestante, sendo esta obrigada a 
abortar. 
»» Interrupção terapêutica da gestação (ITG): são os casos de aborto 
ocorridos em nome da saúde materna, isto é, situações em que se interrompe a 
gestação para salvar a vida da gestante. Hoje em dia, em face do avanço 
científico e tecnológico ocorrido na medicina, os casos de ITG são cada vez em 
menor número, sendo raras as situações terapêuticas que exigem tal 
procedimento. 
»» Interrupção seletiva da gestação (ISG): são os casos de aborto 
ocorridos em nome de anomalias fetais, isto é, situações em que se interrompe 
a gestação pela constatação de lesões fetais. Em geral, os casos que justificam 
as solicitações de ISG são de patologias incompatíveis com a vida extra-uterina, 
sendo o exemplo clássico o da anencefalia. 
»» Interrupção voluntária da gestação (IVG): são os casos de aborto 
ocorridos em nome da autonomia reprodutiva da gestante ou do casal, isto é, 
situações em que se interrompe a gestação porque a mulher ou o casal não mais 
 
39 
 
deseja a gravidez, seja ela fruto de um estupro seja de uma relação consensual. 
Muitas vezes, as legislações que permitem a IVG impõem limites gestacionais à 
prática. 
Além da variedade conceitual, outro ponto interessante, no tocante ao 
estilo dos artigos sobre o aborto, é a escolha dos adjetivos utilizados pelos 
autores para se referirem a seus oponentes morais. Não raro, encontram-se 
artigos que chamam os profissionais de saúde que executam aborto como 
“aborteiros”, “homicidas”, “assassinos” ou “carniceiros”. 
 
O PROJETO GENOMA HUMANO E A MEDICINA 
PREDITIVA: AVANÇOS TÉCNICOS E DILEMAS ÉTICOS 
 
O Projeto Genoma Humano (PGH) 
 
Na história da civilização ocidental, os avanços tecnológicos 
frequentemente trazem como consequência verdadeiras revoluções sociais e 
econômicas. Isto ocorreu, por exemplo, com o desenvolvimento da agricultura, 
que permitiu a sedentarização das sociedades nômades; com a invenção da 
bússola, que permitiu as grandes navegações e, mais recentemente, com os 
desenvolvimentos da eletricidade, física nuclear, microeletrônica e informática. 
Sem dúvida alguma, a emergência da biotecnologia moderna representa um 
avanço técnico de igual magnitude. 
O potencial de progresso é fantástico e certamente haverá impactos 
múltiplos da nova tecnologia em nossa vida quotidiana e em nossas relações 
humanas. Para nós, a biotecnologia é inquietante porque manipula a própria 
vida. E torna-se mais inquietante ainda quando volta a sua atenção para a 
própria pessoa humana. É o caso do Projeto Genoma Humano – PGH. 
 
 
40 
 
O genoma humano consiste de 3 bilhões de pares de base de DNA 
distribuídos em 23 pares de cromossomos e contendo de 70.000 a 100.000 
genes. Cada cromossomo é constituído por uma única e muito longa molécula 
de DNA, a qual, por sua vez, é o constituinte químico dos genes. O DNA é 
composto por sequências de unidades chamadas nucleotídeos ou bases. Há 
quatro bases diferentes, A (ademina), T (timina), G (guamina) e C (citosina). A 
ordem das quatro bases na fita de DNA determina o conteúdo informacional de 
um determinado gene ou segmento. Os genes diferem em tamanho, desde 2.000 
bases até 2 milhões de bases. Fica claro, então, que os genes estruturais, que 
contêm a mensagem genética propriamente dita, perfazem apenas 
aproximadamente 3% do DNA de todo o genoma. O restante é constituído de 
sequências controladoras e, principalmente, de regiões espaçadoras, muitas das 
quais geneticamente inertes. O PGH propõe o mapeamento completo de todos 
os genes humanos e o sequenciamento completo das 3 bilhões de bases do 
genoma humano. Mapeamento é o processo de determinação da posição e 
espaçamento dos genes nos cromossomos. Sequenciamento é o processo de 
determinação da ordem das bases em uma molécula de DNA. A projeção é que 
o projeto esteja completo no ano 2005, a um custo total de três a cinco bilhões 
de dólares. 
 
A Bioética e o PGH 
 
Por sua própria natureza, o PGH cerca-se de incertezas éticas, legais e 
sociais (ELSI). Reconhecendo isto, o PGH dedicou 10% de seu orçamento total 
à discussão destes temas. Três itens se destacam na agenda ELSI: 
1. privacidade da informação genética; 
2. segurança e eficácia da medicina genética; e 
3. justiça no uso da informação genética. 
 
Subjacentes a estes itens há cinco princípios básicos sobre os quais está 
sendo construído o edifício ético consensual do PGH: autonomia, privacidade, 
justiça, igualdade e qualidade, já citados anteriormente. 
 
 
41 
 
Regulamentação bioética do PGH 
 
Após o lançamento do PGH nos Estados Unidos, em 1989, grande 
número de outros programas genômicos emergiu em nível nacional e 
internacional. Há, atualmente, programas no Reino Unido, França, Itália, 
Canadá, Japão, Austrália, Rússia, Dinamarca, Suécia, Holanda e Comunidade 
Europeia. Para a coordenação internacional destes esforços foi criada a 
Organização do Genoma Humano (Human Genome Organization – HUGO). A 
HUGO tem escritórios em Londres, Bethesda, Moscou e Tóquio. No Brasil, o 
escritório da HUGO funciona no Núcleo de Genética Médica, em Belo Horizonte. 
A missão da HUGO é promover a colaboração internacional na iniciativa 
genômica humana e assistir na coordenação da pesquisa. A HUGO tem vários 
comitês, incluindo: mapeamento, bioinformática, propriedade intelectual e 
bioética. Do ponto de vista de propriedade intelectual, a HUGO tem tido uma 
posição firme contra o patenteamento de ESTs que são fragmentos curtos de 
DNA sequenciados aleatoriamente de genes codificadores de proteínas de 
função desconhecida. 
 
O diagnóstico pré-sintomático e a 
medicina preditiva 
 
Qual a relação entre o genoma e as característicasfísicas e mentais? 
 
Como vimos, o genoma humano contém aproximadamente de 50.000 a 
100.000 genes. Um gene é uma unidade funcional que geralmente corresponde 
a um segmento de DNA que codifica a sequência de aminoácidos de uma 
determinada proteína. Os produtos gênicos, as proteínas integram, coordenam 
e participam dos processos enormemente complexos do nosso desenvolvimento 
embrionário e do nosso metabolismo. O produto final destes processos de 
desenvolvimento e metabolismo é o ser humano. As características observáveis 
deste ser humano, ou seja, sua aparência física, seu estado de saúde, suas 
emoções, constituem o seu fenótipo. Ao contrário do genoma (genótipo) que 
 
42 
 
permanece constante por toda a vida, o fenótipo é dinâmico e muda 
constantemente ao longo de toda a existência do indivíduo, registrando, assim, 
a sua história de vida. O genótipo não determina o fenótipo; ele determina uma 
gama de fenótipos possíveis, uma norma de reação. 
Quando mutações em um único gene são capazes de, sozinhas, causar 
uma doença genética, falamos de um “gene pode causar um grande efeito” e 
consequentemente a doença que é chamada de “monogênica”, podendo ter 
herança autossômica dominante, autossômica recessiva ou ligada ao sexo. Por 
outro lado, a maioria das doenças comuns do homem (câncer, diabetes, 
arteriosclerose, hipertensão etc.) são multifatoriais, dependendo de uma 
interação complexa de múltiplos genes de pequeno efeito (doenças poligênicas) 
com o ambiente. 
 
 O que se pode conseguir com a medicina preditiva? 
 
A essência da medicina preditiva, como o próprio nome indica, é a 
capacidade de fazer predições quanto à possibilidade de que o paciente venha 
a desenvolver alguma doença (nível fenotípico) com base em testes laboratoriais 
em DNA (nível genotípico). Assim, a capacidade preditiva do teste vai depender 
do nível de relacionamento do gene testado com a doença. 
Assim, a medicina preventiva pode ser definida. Se por um lado, temos o 
diagnóstico pré-sintomático de doenças gênicas, situação em que há grande 
previsibilidade mas baixa possibilidade de modificação do risco de 
desenvolvimento da doença. Por outro, temos doenças multifatoriais poligênicas 
em que um único teste genético tem baixa previsibilidade, mas as chances de 
se manipular o ambiente para tentar evitar o desenvolvimento da doença são 
grandes. 
A maior parte das doenças com etiologia genética fica entre estes 
extremos são raras as doenças puramente monogênicas na grande maioria das 
enfermidades genéticas monogênicas há influência de outros genes e de fatores 
ambientais na determinação da penetrância e do grau de expressividade da 
doença e também são raras as doenças puramente poligênicas (na grande 
 
43 
 
maioria das doenças poligênicas há alguns genes com efeito mais importante 
que outros, que são chamados “genes maiores”). 
Qual deve ser a nossa conduta com relação à medicina preditiva? 
 
O diagnóstico pré-sintomático de doenças gênicas, situação em que há 
grande previsibilidade mas baixa possibilidade de modificação do risco de 
desenvolvimento da doença, como também as doenças multifatoriais poligênicas 
em que um único teste genético tem baixa previsibilidade, mas grandes chances 
de se manipular o ambiente para evitar o desenvolvimento da doença). Estas 
últimas incluem as várias formas de câncer, diabetes, coronariopatias, 
hipertensão, doença de Alzheimer, artrite reumatoide, colite ulcerativa, esclerose 
lateral amiotrófica, esclerose múltipla e as grandes psicoses (esquizofrenia e 
psicose maníaco-depressiva). Em conjunto, estas doenças acometem ou virão 
a acometer grande parte da população. Todas elas têm em sua etiologia em 
componentes genéticos importantes e a identificação dos genes envolvidos 
abrirá novas oportunidades para a intervenção médica. Assim, poderíamos usar 
testes de DNA em indivíduos sadios, digamos aos 18 anos, para determinar as 
suas propensões genéticas para doenças, estabelecendo, dessa forma, um 
mapa individual de predisposições. A partir deste conhecimento o indivíduo 
poderia, com o aconselhamento e acompanhamento apropriados, fazer as 
modificações ambientais necessárias (dieta, estilo de vida, escolha de profissão 
etc.) para evitar o aparecimento das doenças. 
As empresas estão investindo pesadamente no PGH. Há a expectativa 
de que a medicina preditiva abra mercados potencialmente enormes, de bilhões 
de dólares, o que tem atraído as empresas farmacêuticas e de biotecnologia 
para esta área de atividade. Estima-se que até 1996 estas empresas, 
conjuntamente, já haviam investido mais de um bilhão de dólares no PGH. 
Assim, vão entrar na relação médico-paciente como um coringa. Elas, 
certamente, vão querer induzir o médico a fazer os testes genéticos que elas 
mesmas desenvolveram e/ou estão comercializando, e não terão o prurido ético 
de tentar distinguir o que é bom, ou não, para o paciente. Teremos o trinômio 
médico-paciente-indústria biotecnológica. Isso já existe, de certa maneira, com 
a indústria farmacêutica. Portanto, um desafio imediato é fazer com que os 
 
44 
 
profissionais de saúde e o público em geral compreendam o que está em jogo e 
tornem-se consumidores bem informados e alertas. 
Sérgio Danilo J. Pena e Eliane S. Azevêdo, em seu trabalho O Projeto Genoma Humano 
e a Medicina Preditiva: Avanços Técnicos e Dilemas Éticos 
 
TRANSPLANTES 
 
Aspectos Éticos dos Transplantes de Órgãos, segundo 
José Roberto Goldim 
 
Os transplantes de órgãos vêm provocando inúmeros questionamentos 
éticos acerca da origem, forma de obtenção do material a ser transplantado e 
tipo de procedimento a ser realizado. 
Quanto à origem, os órgãos podem ser oriundos de outras espécies 
animais (xenotransplante), de seres humanos vivos (alotransplante intervivos) 
ou mortos (alotransplante de doador cadáver). 
Quanto à forma de obtenção, especificamente falando em órgãos 
oriundos de seres humanos, a questão mais importante é a do resguardo da 
voluntariedade e da espontaneidade no ato de doar órgãos, ou aceita que o bem 
comum está acima da vontade do indivíduo e permitir a apropriação dos órgãos 
de cadáveres ou que o indivíduo é proprietário do seu corpo e, desta forma, pode 
dispor dele como melhor lhe aprouver. O tipo de procedimento também 
apresenta inúmeros questionamentos. Os transplantes de órgãos internos foram 
os primeiros, mas alguns transplantes já foram realizados com manifestação 
externa das partes transplantadas, como o transplante de mão e mais 
recentemente o transplante parcial de face. 
 
45 
 
 
A utilização de órgãos de outros animais em seres humanos vem atraindo 
a atenção de cientistas desde o início do século. Exemplo disto é o caso Baby 
Fae. 
A obtenção de órgãos de doador vivo tem sido muito utilizada, ainda é útil, 
porém, e igualmente questionável sob o ponto de vista ético. Este tipo de doação 
somente tem sido aceito quando existe relação de parentesco entre doador e 
receptor. A doação de órgãos por parte de amigos ou até mesmo de 
desconhecidos tem sido fortemente evitada. As questões envolvidas são a 
autonomia e a liberdade do doador ao dar seu consentimento e a avaliação de 
risco/benefício associada ao procedimento, especialmente com relação à não 
maleficência (mutilação) do doador. 
A utilização de órgãos de doadores cadáveres tem sido a solução mais 
promissora para o problema da demanda excessiva. O problema inicial foi o 
estabelecimento de critérios para caracterizar a morte do indivíduo doador. A 
mudança do critério cardiorrespiratório para o encefálico possibilitou um grande 
avanço neste sentido. 
Os critérios para a caracterização de morte encefálica foram propostos, 
no Brasil, pelo Conselho Federal de Medicina através da Resolução CFM no 
1.480/1997. Na doação de órgãos por cadáver muda-se a discussão da origem 
para a forma de obtenção: doação voluntária,consentimento presumido, 
manifestação compulsória ou abordagem de mercado. 
Em 16 de janeiro de 1997, foi aprovada, pelo Congresso Nacional, após 
uma longa discussão, a nova lei de transplantes (Lei no 9.434/1997), sancionada 
pelo Presidente da República em 4 de fevereiro de 1997, que altera a forma de 
obtenção para consentimento presumido. A legislação anteriormente vigente 
(Lei no 8489/1992 e o Decreto no 879/1993) estabelecia o critério da doação 
 
46 
 
voluntária. Em março de 2001 houve uma nova mudança, através da Lei no 
10.211, que dá plenos poderes para a família doar ou não os órgãos de cadáver. 
Todas as manifestações de vontade constantes em documentos foram tornadas 
sem efeito. 
A alocação dos órgãos para transplante, assim como de outros recursos 
escassos deve ser feita em dois estágios. O primeiro estágio deve ser realizado 
pela própria equipe de saúde, contemplando os critérios de elegibilidade, de 
probabilidade de sucesso e de progresso à ciência, visando à beneficência 
ampla. O segundo estágio, a ser realizado por um Comitê de Bioética, pode 
utilizar os critérios de igualdade de acesso, das probabilidades estatísticas 
envolvidas no caso, da necessidade de tratamento futuro, do valor social do 
indivíduo receptor, da dependência de outras pessoas, entre outros critérios 
mais. 
 
BIOÉTICA E EUTANÁSIA 
 
Eutanásia e distanásia 
 
A palavra “eutanásia” tem como significado “boa morte” e é também 
conhecida como “suicídio assistido” ou “morte voluntária”. Ela acontece quando 
se põe fim a vida de um doente terminal como forma de acabar com sua dor e 
sofrimento. 
 
 
 
 
47 
 
Bioética e Eutanásia 
 
A Bioética, relembrando, é o estudo sistemático das dimensões morais - 
incluindo visão moral, decisões, condutas e políticas – das ciências da vida e 
atenção à saúde, utilizando uma variedade de metodologias éticas num cenário 
interdisciplinar. 
A eutanásia representa atualmente uma complicada questão de bioética 
e biodireito, pois enquanto o estado tem como princípio a proteção da vida dos 
seus cidadãos, existem aqueles que, devido ao seu estado precário de saúde, 
desejam dar um fim ao seu sofrimento antecipando a morte. Independentemente 
da forma de eutanásia praticada, seja ela legalizada ou não, é considerada como 
um assunto controverso existindo sempre prós e contras, podendo haver sempre 
teorias eventualmente mutáveis com o tempo e evolução da sociedade, tendo 
sempre em conta o valor de uma vida humana. 
 
Eutanásia – Classificação 
A eutanásia pode ser classificada quanto ao tipo de ação e quanto ao 
consentimento do paciente. 
 
Quanto ao tipo de ação - pode ser ainda dividida em eutanásia ativa e 
eutanásia passiva. A primeira corresponde ao ato deliberado de provocar a 
morte sem sofrimento ao paciente. A segunda diz respeito à morte do paciente 
dentro de um quadro terminal, ou porque não se inicia uma ação médica, com o 
objetivo de minimizar o sofrimento. 
Quanto ao consentimento do paciente – representa-se como 
voluntária, involuntária ou não voluntária. A eutanásia voluntária exprime-se 
quando a morte é provocada atendendo à vontade do paciente. Por outro lado, 
a eutanásia involuntária, acontece quando a morte é provocada contra a vontade 
do paciente. E, ainda, a eutanásia não-voluntária surge quando a morte é 
provocada sem que o paciente tivesse manifestado sua posição em relação a 
ela. 
 
 
 
48 
 
Distanásia 
Etimologicamente, distanásia é o oposto de eutanásia. A distanásia 
defende que devem ser utilizadas todas as possibilidades para prolongar a vida 
de um ser humano, ainda que a cura não seja uma possibilidade e o sofrimento 
se torne demasiadamente penoso. 
 
Ortotanásia 
No que se refere à ortotanásia, esta, opondo-se à distanásia, defende que 
se reconheça o momento natural da morte de um indivíduo, não se procedendo 
a qualquer tipo de meio para manter ou prolongar a sua vida. Significa que se 
deve deixar o ser humano morrer em paz, sem que se promova e acelere esse 
processo de deixar a vida. É importante neste caso, distinguir ortotanásia de 
eutanásia passiva, na medida em que na primeira não são levadas a cabo 
quaisquer medidas que visem manter ou melhorar o estado de saúde do doente, 
e na segunda estas são tomadas e interrompidas num determinado momento de 
sua vida. Salientamos também que na ortotanásia podem ser adaptadas 
medidas paliativas para aliviar o sofrimento da pessoa em vias de falecer. 
 
Matar ou deixar morrer? 
Há alguns problemas em distinguir “matar” ou “deixar morrer”. Se a 
distinção entre matar ou deixar morrer se apoiasse meramente na distinção entre 
ações e omissões, então o agente que desliga a máquina que suporta a vida de 
outro mata este, enquanto aquele que recusa colocar alguém numa máquina de 
suporte à vida permite apenas que alguém morra. Comparativamente, a 
administração de uma injeção letal seria matar, enquanto não pôr o paciente num 
ventilador, ou tirá-lo, seria deixar morrer. 
Matar uma pessoa é sempre moralmente pior do que deixa-la morrer! 
Foram propostas várias razões para que seja assim. Uma das mais 
plausíveis é que um agente que mata causa a morte, enquanto um agente que 
deixa morrer permite apenas que a natureza siga o seu caminho. Embora evitar 
matar alguém exija pouco ou nenhum esforço, normalmente salvar alguém exige 
esforço. Se matar e deixar morrer estivessem moralmente ao mesmo nível 
seríamos tão responsáveis pela morte daqueles que não conseguimos salvar 
 
49 
 
como somos pela morte daqueles que matamos. Mas, mesmo que às vezes se 
possa traçar uma distinção moralmente relevante entre matar e deixar morrer, é 
claro que isso não significa que a distinção se aplique sempre. Por vezes somos 
tão responsáveis pelas nossas omissões quanto pelas nossas ações. 
 
Visão religiosa 
O homem é o único ser sobre a Terra que tem consciência da sua finitude, 
o único a saber que sua passagem neste mundo é transitória e que deve terminar 
um dia. 
A vida humana é a base de todo o bem e é a fonte e condição necessárias 
de qualquer atividade humana e toda a sociedade. Muitos encaram a vida como 
algo de sagrado e defendem que ninguém pode dispor dela, mas os crentes 
vêem na vida algo maior, nomeadamente uma dádiva do amor de Deus que são 
chamados a preservar e tornar frutífera. 
 
Como referido anteriormente, a eutanásia é, e continuará a ser, uma 
questão controversa. Todavia, por exemplo, os últimos estudos revelam que 
cerca de metade da população portuguesa é a favor desta prática. A grande 
maioria requer a eutanásia citando que a dor é o principal fator que as leva a 
acabar com as suas vidas. Contudo, permanece a questão do que será ou não 
ético. 
 
PESQUISA COM SERES HUMANOS 
 
Ética na pesquisa com seres humanos 
 
A Editora Loyola juntamente com o Centro Universitário São Camilo e a 
Sociedade Brasileira de Bioética publicaram o livro: “Bioética: Poder e Injustiça”, 
preciosa coletânea das mais importantes conferências apresentadas no VI 
Congresso Mundial de Bioética, realizado em Brasília em 2002. 
Atualmente no Brasil há mais de 400 Comitês institucionais de Ética em 
Pesquisa (CEP), o que significa, minimamente, 4.000 pessoas diretamente 
envolvidas no processo de avaliar projetos de pesquisa realizados no País. 
 
50 
 
Estamos, portanto, na condição de território de pesquisadores com 
adequada formação científica e centro eficiente de recrutamento de pessoas 
para execução de qualquer projeto de pesquisa, o que é mister salientar, não 
tem ocorrido nos países centrais. 
Brasília tem-se apresentado de forma exemplar neste campo de 
pesquisa, pois conseguiu estruturar um sólido sistema de proteção aos 
indivíduos envolvidos na pesquisa, o que está fundado na Resolução no 
196/1996 do Conselho Nacional de Saúde. 
O importante é considerar que muitos são os desafios aindapersistentes, 
quais sejam: independência dos CEPs diante de interesses de pesquisadores, 
instituições e patrocinadores, maior legitimidade dos CEPs, adequado controle 
social das pesquisas e, apenas para ficar em alguns poucos exemplos, maior 
representação de usuários nos CEPs. 
Em consequência do julgamento de Nuremberg, a pesquisa médica 
envolvendo seres humanos teve um marco deontológico no ano de 1947, que foi 
o surgimento do Código de Nuremberg. Este, em linhas gerais, abrangia temas 
como o consentimento voluntário, informações essenciais para os sujeitos da 
pesquisa e a não indução à participação. Determinava que a experiência tivesse 
que apresentar resultados vantajosos não alcançáveis por outros métodos e 
exigia a realização da experimentação em animais anteriormente à pesquisa em 
humanos. O sofrimento deveria ser evitado, o risco minimizado e, na 
possibilidade de morte, o projeto não deveria ser realizado. 
A Declaração de Helsinque sofreu algumas revisões durante as 
Assembleias Médicas Mundiais, sendo a primeira realizada no Japão no ano de 
1975, seguida pela revisão na Itália em 1983, Hong Kong em 1989, África do Sul 
em 1996 e, por último, na Escócia no ano de 2000. 
O Conselho para Organizações Internacionais de Ciências Médicas 
(CIOMS) e a Organização Mundial de Saúde (OMS), objetivando nortear, do 
ponto de vista ético, a condução de pesquisas envolvendo seres humanos, de 
acordo com os princípios enunciados pela Declaração de Helsinque, publicou no 
ano de 1993 as Diretrizes Éticas Internacionais para Pesquisas Biomédicas 
Envolvendo Seres Humanos, abordando temas como a necessidade de 
consentimento pós-esclarecimento individual, com informações essenciais para 
os sujeitos; a não indução à participação; regras para pesquisa envolvendo: 
 
51 
 
crianças, portadores de distúrbios mentais, prisioneiros, comunidades 
subdesenvolvidas, gestantes nutrizes. Abordou, também, a necessidade de 
consentimento da comunidade em estudos epidemiológicos, avaliação 
risco/benefício em todo tipo de pesquisa envolvendo seres humanos, sigilo dos 
dados obtidos, compensação por danos, revisão ética e cientifica e as 
obrigações dos países no desenvolvimento da pesquisa. 
No Brasil, a regulamentação das pesquisas envolvendo seres humanos 
teve seu marco inicial com a Resolução no 01 do Conselho Nacional de Saúde 
(CNS) no ano de 1988. Esta normatizou os aspectos éticos da pesquisa em 
seres humanos, a pesquisa de novos recursos profiláticos, diagnósticos, 
terapêuticos e de reabilitação, a pesquisa com menores de idade, mulheres e 
sujeitos, a pesquisa realizada em órgãos, tecidos e seus derivados, a pesquisa 
em farmacologia e pesquisas diversas. Regulamentou, também, o 
credenciamento de centros de pesquisas no país e recomendou a criação de 
comitês internos nas instituições de saúde. A aceitação desta resolução foi 
inexpressiva e sua aplicação prática foi considerada insatisfatória, tendo, 
contudo, o mérito de ser a tentativa inicial de normatização nacional das 
pesquisas em seres humanos. 
 
Alguns termos e definições constam no documento e são úteis para seu 
entendimento, a saber: 
»» Pesquisa: atividade com objetivo de desenvolver ou contribuir para o 
conhecimento generalizável. 
»» Pesquisa em seres humanos: pesquisa que envolva o ser humano 
mesmo de forma individual ou coletivamente, direta ou indiretamente, parcial ou 
totalmente. 
»» Pesquisador responsável: responsável pela coordenação e 
realização da pesquisa e integridade e bem estar do sujeito da pesquisa. 
»» Risco da pesquisa: possibilidade de dano físico, psíquico, moral, 
intelectual, social, cultural ou espiritual do ser humano na pesquisa ou dela 
decorrente. 
»» Sujeito da pesquisa: é o pesquisado, de caráter voluntário, sendo 
vedada qualquer forma de remuneração. 
 
52 
 
»» Consentimento livre e esclarecido: anuência do sujeito livre de 
fraude, simulação ou erro, dependência, subordinação ou intimidação, após 
explicação pormenorizada de todos os aspectos da pesquisa, incluindo riscos e 
incômodos, elaborada em um termo, autorizando sua participação voluntária. 
»» Indenização: cobertura material em reparação a dano causado pela 
pesquisa. 
»» Ressarcimento: cobertura das despesas decorrentes da pesquisa 
»» Comitês de Ética em Pesquisa (CEP): colegiados interdisciplinares 
e independentes, de caráter consultivo, deliberativo e educativo, com objetivo de 
defender os interesses dos sujeitos da pesquisa em sua integridade e dignidade 
e contribuir para o desenvolvimento da pesquisa dentro de padrões éticos. 
»» Vulnerável: pessoa cuja capacidade de autodeterminação esteja 
reduzida, sobretudo para o consentimento livre e esclarecido. 
»» Incapacidade: falta de capacidade civil do sujeito da pesquisa para o 
consentimento. 
 
ASPECTOS ÉTICOS DA PESQUISA ENVOLVENDO 
SERES HUMANOS 
 
 
Para que determinada pesquisa seja aceitável, certas exigências éticas 
fundamentais e científicas devem ser respeitadas. Algumas destas são 
fortemente baseadas nos princípios básicos da Bioética e estão listadas no 
quadro abaixo: 
 
 
53 
 
 
 
Será considerado pesquisa e estará submetido à Resolução no 196/1996 
todo procedimento em seres humanos, seja de que natureza for, de aceitação 
ainda não consagrada cientificamente. Estas pesquisas deverão atender aos 
seguintes quesitos: 
»» ser justificada cientificamente e ter possibilidade concreta de 
responder as incertezas; 
»» ter fundamentação científica prévia (Ex.: intervenção – fase pré-
clínica); 
»» ser a único modo de se obter determinado conhecimento; 
»» os benefícios devem superar riscos; 
»» obedecer à metodologia adequada, assegurando numa distribuição 
aleatória que não seja possível estabelecer vantagem de um procedimento sobre 
outro; 
»» justificar placebo (sua necessidade metodológica) (considerar 
primordialmente a não maleficência - se tratamento consagrado já existe, o 
placebo é injustificável); 
»» obter consentimento livre e esclarecido; 
»» garantir recursos humanos e materiais para o bem estar do sujeito da 
pesquisa; 
»» garantir privacidade e confidencialidade, assegurando a não utilização 
das informações em prejuízo das pessoas; 
»» envolver sempre que possível indivíduos com autonomia plena, 
evitando vulneráveis a menos que a investigação traga benefício direto a estes; 
 
54 
 
»» respeitar valores culturais, sociais, morais, religiosos, éticos e hábitos 
e costumes em pesquisa com comunidades; 
»» comunicar os resultados às autoridades sanitárias sempre que 
puderem contribuir para melhoria da condições de saúde comunitária, 
preservando a imagem do sujeito da pesquisa (evitar estigmatização); 
»» assegurar ao sujeito da pesquisa os benefícios resultantes do projeto 
(retorno social, acesso aos procedimentos, produtos ou agentes da pesquisa); 
»» comprovar as vantagens para sujeitos de pesquisa e para o Brasil em 
pesquisas conduzida do exterior. Deve possuir instituição e pesquisador 
nacionais corresponsáveis. Deve incluir aprovação no país de origem. Deve ser 
aprovado por comitê de ética em pesquisa nacional; 
»» utilizar o material biológico e dados exclusivamente para finalidade 
prevista; 
»» levar em conta, nas pesquisas com mulheres grávidas ou em idade 
fértil, as consequências na fertilidade, gravidez e amamentação; 
»» descontinuar o estudo somente após análise das razões pelo comitê 
que o aprovou. 
 
 
Consentimento livre e esclarecido 
 
Este se caracteriza por ser um instrumento para se tentar assegurar a 
autonomia do sujeito da pesquisa, através da obtenção da sua anuência à 
participação. A concordância é o pressuposto do seu correto uso, sem qualquer 
coerção, após fornecimento e compreensão da informação sobre os 
procedimentos. Tem como objetivo principal de proteger os indivíduos, não 
sendo, como o consentido, a informação usadano passado, se constitui também 
em um instrumento de defesa do pesquisador e instituição diante de 
consequências negativas da pesquisa. Contudo não é infalível, principalmente 
em um País como o nosso em que a grande maioria dos sujeitos de pesquisa é 
extremante vulnerável por suas condições sociais, culturais e econômicas 
desiguais. Apesar de ter algumas controvérsias, foi um grande avanço e tem sido 
 
55 
 
útil se utilizado da forma correta. Para tal é necessário que seja elaborado em 
linguagem acessível e possua informações sobre: 
»» justificativa, objetivo e procedimentos (porque, para que e como); 
»» desconfortos, riscos e benefícios; 
»» identificação do responsável, forma de acompanhamento e 
assistência; 
»» garantia de esclarecimentos a qualquer momento e informação clara 
sobre grupo controle e placebo; 
»» liberdade para retirar-se sem penalização; 
»» privacidade de sujeito da pesquisa / confidencialidade; 
»» formas de ressarcimento; 
»» formas de indenização; 
 
Não são permitidas ressalvas que impliquem isenção das 
responsabilidades do pesquisador e instituição. Além disto, todo consentimento 
deve ser aprovado pelo Comitê de Ética e conter a assinatura do sujeito da 
pesquisa. Uma via deve permanecer com este e outra com o pesquisador. 
Quando a situação envolve restrição à liberdade ou limitação ao 
esclarecimento do consentimento requer um cuidado especial. Principalmente 
nas pesquisas com crianças, adolescentes, portadores de doença mental e 
outros sujeitos com substancial redução de sua capacidade de consentimento, 
para estas deve haver: 
»» justificativa bem fundamentada para escolha de um destes grupos; »» 
aprovação pelo Comitê de Ética; 
»» consentimento livre e esclarecido do representante legal; 
»» informação para o indivíduo no limite de sua capacidade; 
 
Sujeitos expostos a condicionamentos específicos ou influência de 
autoridade (estudantes, militares, empregados, presidiários, asilos, associações 
religiosas) devem ter garantia de plena liberdade de consentimento. Em 
comunidades culturalmente diferenciadas como as indígenas, o consentimento 
deve ser individual e comunitário através dos seus líderes. 
Quanto aos Riscos e benefícios, quantificar o risco é uma característica 
essencial nas pesquisas com seres humanos. Este risco pode ser individual, 
 
56 
 
coletivo, imediato, tardio, físico, psíquico, entre outros, contudo sempre existirá 
em menor ou maior grau. Assim sendo, é aceitável quando a finalidade de 
determinada pesquisa justificá-lo, da seguinte forma: 
»» se a pesquisa oferecer elevada possibilidade de entendimento, 
prevenção ou alívio do problema que afeta o sujeito; 
»» se for de grande importância o benefício esperado; 
»» se o benefício for igual ou maior que aquele de outra alternativa já 
estabelecida. 
 
Caso um dano ou risco não identificado surja em determinada pesquisa, 
não tendo sido previsto no termo de consentimento, o estudo deve ser 
interrompido. Da mesma forma, tão logo seja constatada a superioridade de um 
método sobre outro, o melhor regime deverá ser oferecido a todos os sujeitos. 
Este tópico foi alvo de grande discussão durante a revisão da Declaração de 
Helsinque na Assembleia Geral da Associação Médica Mundial, em outubro de 
2000. Há uma tentativa de mudança no sentido de não mais se oferecer o melhor 
regime existente, mas sim, o melhor regime disponível no local em que a 
pesquisa é realizada. 
Afirmações como estas abrem, inclusive, uma brecha para o uso do 
placebo mesmo quando já houver um tratamento eficaz. Esta proposta, 
denominada duplo-standard, vem sendo defendida pela poderosa indústria 
farmacêutica, que, com sua aprovação, reduziria enormemente os custos de 
desenvolvimento de medicamentos, principalmente em pesquisas nos países 
mais pobres, porém com prejuízo enorme para os sujeitos da pesquisa. Esta 
modificação não foi aprovada, mas permaneceu em aberto para nova discussão 
na próxima revisão da Declaração de Helsinque. 
Ainda com relação aos danos sofridos pelos sujeitos da pesquisa, é 
importante ressaltar que, previstos ou não, se ocorrerem, serão de 
responsabilidade do pesquisador e instituição. Neste caso, os sujeitos devem 
receber assistência integral, tendo direito a uma indenização. 
 
 
 
 
57 
 
PROTOCOLO DE PESQUISA 
 
Todo protocolo deve apresentar os dados do pesquisador, instituição e da 
pesquisa, além da fundamentação científica que a justifique, com análise crítica 
dos riscos e benefícios. O pesquisador deve assumir, também, o compromisso 
de cumprir a Resolução no 196/1996 e de tornar os resultados de sua pesquisa 
públicos, mesmo que sejam desfavoráveis. 
 
Comitês de Ética em Pesquisa (CEP) 
 
Com a Resolução no 196/1996 surgiram os Comitês de Ética em Pesquisa 
(CEP) institucionais, multidisciplinares na sua composição, com a função de 
analisar as pesquisas em seres humanos nas diversas áreas de conhecimento, 
bem como fomentar discussão sobre bioética. 
Segundo o documento das diretrizes e normas, toda instituição deveria 
criar, organizar e manter um CEP e toda pesquisa envolvendo seres humanos 
deveria ser submetida à aprovação desse comitê. Cada CEP deve ser composto 
por no mínimo sete membros não remunerados, incluindo profissionais da 
saúde, ciências exatas, sociais, humanas e, pelo menos, um representante dos 
usuários da instituição, possuindo, assim, caráter multi e transdisciplinar. A 
metade destes membros é escolhida pela instituição e o restante por eleição 
entre aqueles com experiência em pesquisa, com mandato de três anos. 
Ao não permitir que mais da metade dos integrantes de um CEP seja 
formada por apenas uma categoria profissional, a resolução impede uma 
composição corporativista. Do mesmo modo, os dois sexos devem estar 
representados de maneira semelhante, não sendo permitido membro envolvido 
com a pesquisa analisada. 
 
São atribuições dos CEP: 
»» revisar os protocolos de pesquisa, resguardando a integridade e direito 
dos voluntários; 
 
58 
 
»» emitir parecer enquadrando o protocolo em: aprovado, com pendência 
(60 dias), retirado, não aprovado, aprovado em encaminhado ao CONEP nos 
casos relativos às ÁREAS TEMÁTICAS ESPECIAIS; 
»» acompanhar o desenvolvimento do projeto; 
»» ser consultivo e educativo, fomentando a reflexão sobre ética na 
ciência; 
»» receber denúncia e decidir o destino da pesquisa. 
A interrupção de uma pesquisa sem justificativa aceita pelo CEP é 
considerada conduta não ética. 
 
COMISSÃO NACIONAL DE ÉTICA EM PESQUISA (CONEP) 
 
É a instância superior aos CEPs, vinculada ao Conselho Nacional de 
Saúde (CNS), de natureza consultiva, deliberativa, normativa, educativa e 
independente. Também composta de forma multi e transdisciplinar por 13 
membros sendo cinco personalidades destacadas no campo da ética e saúde e 
oito personalidades de atuação outras áreas. 
 
Entre suas atribuições estão: 
»» examinar os aspectos éticos das pesquisas em seres humanos; 
»» adequar e atualizar as normas destas pesquisas; 
»» estimular a criação dos CEP; 
»» instância final de recursos; 
»» rever responsabilidade e interromper pesquisas; 
»» constituir sistema de informação e acompanhar, do ponto de vista 
ético, as pesquisas; 
»» divulgar estas normas; 
»» estabelecer normas para credenciamento dos centros de pesquisa; 
»» analisar todo projeto encaminhado pelos CEP para parecer; 
»» aprovar e acompanhar protocolos de pesquisa nas ÁREAS 
TEMÁTICAS ESPECIAIS. 
 
 
59 
 
ÁREAS TEMÁTICAS ESPECIAIS 
 
GENÉTICA HUMANA 
 
Os pareceres do CONEP relativos à 
área de Genética Humana são baseados, 
no que se refere aos aspectos específicos, 
nas Instruções Normativas no 8 e 9 da Comissão Técnica Nacional de 
Biossegurança (CTNBio). Estas instruções reafirmam os princípios da 
Resolução no 196/1996, dispondo sobre manipulaçãogenética e clonagem de 
seres humanos, com as seguintes normas: 
»» São vedadas, em seres humanos, quaisquer atividades de 
manipulação do genoma humano que envolva células responsáveis pela 
formação dos gametas (células germinativas), bem como células com 
capacidade para formar células germinais ou diferenciar-se em um indivíduo 
(células tronco). 
»» Não é permitida a clonagem de um ser humano a partir de uma célula 
(clonagem radical). 
 
Dentro desta área são passíveis de aprovação apenas projetos que 
envolvam manipulação genética de células somáticas. 
 
REPRODUÇÃO HUMANA 
 
Com objetivo de complementar as Diretrizes de Normas 
Regulamentadoras de Pesquisa Envolvendo Seres Humanos, o Conselho 
Nacional de Saúde aprovou a Resolução no 303/2000, relativa à área de 
 
60 
 
reprodução humana. Nesta fica definido que os sujeitos da pesquisa serão todos 
aqueles afetados pelos procedimentos estudados. Estabelece também que, 
dentro desta área temática, todas as pesquisas com intervenção em reprodução 
assistida, anticoncepção, manipulação de gametas, pré-embriões, embriões e 
feto e medicina fetal devem ser, após parecer do CEP, obrigatoriamente 
encaminhadas para avaliação do CONEP. 
 
FÁRMACOS, VACINAS E TESTES DIAGNÓSTICOS. 
 
A Resolução no 251/1997 que incorpora a Resolução no 196/1996 e 
reporta-se à Resolução de Grupo Mercado Comum (GMC) no 129/1996, 
trata da normatização desta área temática. Nela é definida como pesquisa 
com novos fármacos, medicamentos, vacinas ou testes diagnósticos, todos 
os estudos com estes produtos em fase I, II, III e, ainda, fase IV quando 
abordar aplicação diferente daquela já estabelecida. Estas 
fases, definidas na Resolução do GMC, são: 
 
»» Fase I – pesquisa em pequeno grupo voluntário visando avaliação 
inicial de segurança, farmacocinética e farmacodinâmica; 
»» Fase II – estudo terapêutico piloto para se estabelecer segurança e 
relações dose-resposta; 
»» Fase III – estudo terapêutico ampliado (ensaio clínico randomizado) 
explorando a relação risco-benefício e valor terapêutico relativo; 
»» Fase IV – pesquisa pós-comercialização do produto, a fim de, na 
grande população, estabelecer-se o valor terapêutico e novas reações adversas; 
 
Esta resolução apresenta aspectos de fundamental importância relativos 
aos direitos e proteção do sujeito da pesquisa. 
Nela consta que deve ser assegurado aos sujeitos da pesquisa, por parte 
do patrocinador, instituição e pesquisador, o acesso, após a comprovação, ao 
melhor procedimento diagnóstico ou terapêutico, inclusive àqueles do grupo 
controle quando houver. É, também, contrária ao uso de placebo quando um 
método terapêutico eficaz já existir. Estes dois aspectos, como já mencionado 
 
61 
 
anteriormente, têm sido questionados nas revisões da Declaração de Helsinque. 
Sua modificação, por pressão da indústria farmacêutica, seria um imenso 
retrocesso na qualidade da regulamentação. A preocupação com este assunto 
levou o Brasil, previamente à revisão da Declaração de Helsinque de outubro de 
2000, à homologação da Resolução CNS 301/00, que reforça as normas já 
estabelecidas, posicionando-se contrariamente às mudanças propostas. 
 
POPULAÇÕES INDÍGENAS 
 
A preocupação com a vulnerabilidade do índio e de sua cultura e o 
interesse crescente em pesquisas com populações indígenas, muitas delas 
isoladas, fez com que esta área obtivesse tratamento especial, com resolução 
complementar (Resolução no 304/2000). Esta apresenta de forma bem clara a 
necessidade de que a pesquisa respeite os aspectos culturais peculiares, não 
admitindo exploração das comunidades indígenas. Outras exigências da 
resolução são: 
»» Deve ser obtida a anuência coletiva, além do consentimento individual. 
»» A igualdade de consideração de interesses deve ser respeitada. 
»» Comunidades isoladas devem ser evitadas. 
»» Não são aceitos patenteamentos de produtos obtidos em pesquisas 
com indígenas. 
Para estes efeitos, são índios todos aqueles que se considerarem 
pertencentes a uma comunidade indígena e forem por ela aceitos como tais. 
 
 
62 
 
 
PESQUISAS COORDENADAS DO EXTERIOR OU COM 
PARTICIPAÇÃO ESTRANGEIRA 
 
Os países em desenvolvimento têm-se tornado, cada vez mais, local de 
pesquisa dos grandes laboratórios multinacionais. A Resolução no 292/1999 foi 
criada visando regulamentar esta prática. Nela é apresentada a necessidade de 
que o ônus e os benefícios sejam distribuídos de forma justa entre as partes 
envolvidas. Fica, também, estabelecida a obrigatoriedade da aprovação da 
pesquisa pelo comitê de ética do país de origem e, se não desenvolvida nesse 
país, a razão para tal de ser apresentada ao CONEP para análise. 
 
Projetos que envolvam aspectos de biossegurança 
Os documentos como a Declaração de Helsinque e as Diretrizes e 
Normas Regulamentadoras de Pesquisa Envolvendo Seres Humanos 
(Resolução no 196/1996) são importantes referências oficiais para os 
pesquisadores, apesar de alguns pesquisadores, inclusive da área de 
Saúde/Educação Física negligenciarem ou até desconhecerem as normas para 
realização de uma pesquisa envolvendo seres humanos. Contudo, o maior 
impacto destes, com valorização dos Comitês de Ética em Pesquisa, só ocorreu 
com a exigência para publicação, por parte das revistas científicas nacionais e 
internacionais, de aprovação ética prévia da pesquisa por um comitê 
institucional. 
A necessidade do cumprimento destas resoluções tem uma razão muito 
maior que somente o enquadramento da pesquisa em regras de publicação. O 
objetivo primordial das diretrizes e normas é a proteção do ser humano na sua 
integridade e dignidade, fazendo com que o desenvolvimento científico ocorra 
de forma ética. Nesse caminho, os CEP e o CONEP são instrumentos 
fundamentais, multi e transdisciplinares, e, portanto pluralistas, capazes de uma 
avaliação adequada dos protocolos de pesquisa antes da sua execução, 
impedindo assim a ocorrência de transgressões éticas de consequências 
 
63 
 
eventualmente graves, principalmente para a parte mais frágil, o sujeito da 
pesquisa. 
Se ampliarmos o conceito de vulnerabilidade, incluindo não só aqueles 
em situações específicas de redução da autonomia, como crianças e 
prisioneiros, mas sim todos que vivem em condições de desigualdade, sejam 
elas social, econômica, cultural, política, étnica e educacional, teremos como 
vulnerável a quase totalidade dos sujeitos da pesquisa no Brasil. Deste modo é 
fundamental que muitas destas resoluções sejam fortalecidas, tornando-se leis, 
e que a rede de CEP seja constantemente avaliada, treinada e ampliada. 
Os CEP e CONEP devem manter-se atuantes, fomentando a discussão 
sobre bioética, reavaliando e adequando as diretrizes e normas à evolução 
técnico-científica e social. A proteção ao nosso sujeito da pesquisa, 
extremamente vulnerável, deve ser ampliada com a correção de distorções 
resultantes de uma regulamentação adaptada de normas estrangeiras, 
moldadas em um princípio de autonomia excessiva, inadequado frente às 
condições do povo brasileiro. 
O Brasil aprova as normas regulamentadoras de pesquisa envolvendo 
seres humanos e regulamenta na publicação no Diário Oficial da União, p. 
21082-5, 16 out. 1996. Seção 1. Item VII.13.c, sobre as atribuições dos Comitês 
de Ética em Pesquisa: “manter a guarda confidencial de todos os dados obtidos 
na execução de sua tarefa e arquivamento do protocolo completo, que ficará à 
disposição das autoridades sanitárias”. 
 
A BIOÉTICA E A SAÚDE PÚBLICA 
 
1. Contexto: A Bioética deve assumir um caráter interdisciplinar na 
construção do processo saúde-doença. O conceito de saúde joga um 
papel de especial importância para a compreensão da 
interdisciplinaridade da Bioética. 
2. Reflexão: A primeira informação que deve ser transmitida é que, em 
1948, a Organização Mundial de Saúde define saúde como um estadode completo bem-estar físico, mental e social e não apenas a ausência 
da afecção ou doença. 
 
64 
 
 
 
Alguns autores afirmam que este conceito foi ampliado durante a VIII 
Conferência Nacional de Saúde, em 1988, quando foram incluídos nele as 
condições de vida, como trabalho, habitação, alimentação e todos os direitos ao 
acesso igualitário, inclusive assistência religiosa (se assim o desejar), através 
das chamadas políticas de saúde. Um olhar mais apurado, com o devido 
respeito, faz com que se perceba que nada foi, de fato, acrescentado, mas 
apenas desmembrado. 
Parece claro que ao se falar em bem-estar físico, mental e social já está 
se falando em condições aceitáveis de vida em todas as suas variantes, inclusive 
o poder de fazer valerem direitos e exigir o cumprimento de obrigações, 
expressando o ser cidadão. 
O direito à saúde já está contido no preceito constitucional brasileiro que 
garante aos seus, como um dos fundamentos do Estado Democrático de Direito, 
a dignidade da pessoa humana, como indica a inteligência do artigo 1o da nossa 
Constituição Federal conforme preconiza no seu artigo 196: 
 
“A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido 
mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução 
do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal 
e igualitário às ações e serviços para a sua promoção, proteção 
e recuperação”. 
 
 
 
 
65 
 
Bioética e biossegurança 
 
O expressivo desenvolvimento de biomateriais para utilização em clínica 
odontológica na última década tem representado um poderoso instrumento 
terapêutico nas atividades cirúrgicas, especialmente nas correções de defeitos 
ósseos. No entanto, apesar dos comprovados benefícios, sua utilização exige 
do profissional um cuidado clínico e ético criterioso na análise dos riscos e 
benefícios que cada biomaterial possa apresentar. 
Pesquisas antropológicas e arqueológicas mostram que nas 
comunidades primitivas havia preocupação com a substituição de elementos 
dentários perdidos. Uma mandíbula de origem Maya, datada dos anos 600 d.C., 
continha três pequenos fragmentos de coral substituindo os dentes incisivos 
inferiores. Por meio de exames radiográficos, observou-se a formação de osso 
compacto em volta destes fragmentos. Dessa forma, esses foram considerados 
os mais antigos implantes aloplásticos colocados com sucesso em uma pessoa 
viva no mundo. 
Toda via, o desenvolvimento biotecnológico iniciado nos anos 1950, 
acelerado nos últimos anos, trouxe à odontologia avanços significativos, 
ampliando o campo de trabalho do cirurgião-dentista e fortalecendo-a como 
ciência. Por outro lado, aumentou a responsabilidade do profissional, exigindo 
constante atualização para absorver os novos conhecimentos gerados. 
No atual mundo globalizado, as descobertas científicas são rapidamente 
introduzidas e absorvidas pela prática clínica. 
Segundo Schramm (1998), biossegurança é “o conjunto de ações 
voltadas para prevenção, minimização ou eliminação de riscos inerentes às 
atividades de pesquisa, produção, ensino, desenvolvimento tecnológico e 
prestação de serviços, riscos que podem comprometer a saúde, o meio ambiente 
ou a qualidade do trabalho desenvolvido”. 
Tanto a bioética quanto a biossegurança se ocupam da probabilidade dos 
riscos, de degradação da qualidade de vida dos indivíduos e populações e da 
aceitabilidade de novas práticas. Entretanto, a biossegurança quantifica e 
pondera os riscos e benefícios, ao passo que a bioética analisa os argumentos 
racionais que justificam ou não tais riscos. 
 
66 
 
A teoria bioética do Principialismo proposta por Beauchamp e Childress 
(2001), em Principles of Biomedical Ethics, se transformou na principal 
fundamentação teórica do novo campo da ética biomédica. 
Ela aplica um sistema de princípios – autonomia, beneficência, não-
maleficência e justiça – para a área clínico-assistencial em situações do 
cotidiano da relação profissional-paciente. 
A rapidez dos avanços científicos e tecnológicos passou a exigir uma 
reflexão ética mais acurada sobre o agir do profissional envolvido com as novas 
descobertas no campo da biomedicina. 
É nesse contexto que a bioética se apresenta como novo território de 
estudo e reflexão ético-moral, envolvendo diferentes movimentos e sujeitos, 
orientados para o agir profissional, no respeito à cidadania e aos direitos 
humanos, em contextos temporais e espaciais onde pessoas se encontram 
vulneráveis, tanto no acesso como na busca da saúde. 
Segundo alguns autores, o paciente tem o direito moral de ser esclarecido 
sobre a natureza e os objetivos dos procedimentos diagnósticos, preventivos ou 
terapêuticos. Da mesma maneira, deve ser informado de sua invasibilidade, 
duração dos tratamentos, benefícios, prováveis desconfortos e possíveis riscos 
físicos, psíquicos, econômicos e sociais que possa ter. O profissional de saúde 
deve apresentar possíveis alternativas de tratamento, quando existentes. A 
pessoa precisa ser informada da eficácia presumida das medidas propostas, 
sobre as probabilidades de alteração das condições de dor, sofrimento e de suas 
condições patológicas, ou seja, deve ser esclarecida em tudo que possa 
fundamentar suas decisões. 
Dessa forma, o consentimento informado é um instrumento fundamental 
para a comunicação entre o paciente e o profissional de saúde. 
 
 
 
 
 
 
 
67 
 
Discussão 
A análise dos resultados permitiu reflexões sobre o uso dos biomateriais 
por especialistas. 
A procedência dos materiais é diversificada, principalmente pelo fato de 
haver no mercado brasileiro uma grande variedade de membranas e osso 
liofilizado de origem bovina. Entre os biomateriais animais estão a proteína 
morfogenética do osso e o osso liofilizado; entre os sintéticos, a hidroxiapatita e 
o sulfato de cálcio. 
O uso de biomateriais de origem animal ou sintéticos deve-se 
principalmente ao fato de a Constituição Brasileira proibir a comercialização e 
utilização de materiais de procedência humana. 
Além disso, a Lei no 9.434 de 4/2/1997, que dispõe sobre a doação de 
órgãos e procedimentos, prevê sanções penais e administrativas, sendo vedado 
todo tipo de comercialização de órgãos ou tecidos humanos no País. 
Segundo Berlinguer e Garrafa (2001), a tendência do futuro será a 
mudança de biomateriais humanos para enxerto xenogênico, motivada pela 
escassa oferta mundial do osso humano. No entanto, restam muitas dúvidas 
sobre a interação entre células de espécies distintas. Muita polêmica foi gerada 
quando foi proposta a utilização de órgãos de animais tratados geneticamente 
como opção aos transplantes, devidos aos efeitos a longo prazo, principalmente 
no campo da imunologia. 
Os biomateriais mais citados em firmas de importação são os implantes 
fabricados em outros países e o osso liofilizado de origem humana. A 
inexistência de um banco de ossos humanos no Brasil para fins comerciais, 
como os existentes nos Estados Unidos, Singapura, Hong-Kong e outros, 
permitiu o desenvolvimento e crescimento de empresas para importação de osso 
liofilizado humano. 
Do ponto de vista da teoria bioética do Principialismo, observa-se que o 
princípio da autonomia dos pacientes é frequentemente desrespeitado. A maior 
parte dos entrevistados referiu que o paciente pouco ou nunca participa do 
processo decisório de tratamento. O uso do termo de consentimento informado 
ainda não está incorporado à prática profissional. 
 
68 
 
A pouca participação do paciente também foi relatada em pesquisa 
recente sobre avaliação da documentação odontológica de implantodontistas em 
São Paulo. 
 
BIOÉTICA E DIREITOS HUMANOS 
 
Em Admirável Mundo Novo, Aldous Huxley descreve uma sociedade onde 
as pessoas são concebidas em centros de incubação e condicionamento a partir 
de linhas de produção artificiais. Todos seriam predestinados e manipuladosbiologicamente, de forma a se criar um mundo no qual o lema fosse comunidade, 
identidade e estabilidade. Não existiria vontade livre e a submissão seria 
totalmente aceitável a partir de doses regulares de felicidade química e 
ideologias ministradas durante o sono. Segundo um dos personagens da 
narrativa de Huxley, o propósito do condicionamento genético e social seria 
“fazer as pessoas amarem o destino social a que não podem escapar. Pela 
primeira vez na história, sabe-se seguramente para onde se vai”. 
 
O que o livro de Huxley, publicado em 1932, tem a nos ensinar? 
1. Olhando o presente, podemos imaginar um futuro semelhante em 
termos de avanços e riscos científicos e tecnológicos? 
2. Como compreender, atualmente e a partir de uma sociedade altamente 
complexa, a relação entre direito e ciência? Ou mais especificamente, entre 
direito e bioética? 
 
Os avanços ocorridos a partir de 1960 mudaram completamente o papel 
da medicina, em especial o transplante de órgãos, a pílula contraceptiva, os 
diagnósticos pré-natais, a utilização generalizada de unidades de cuidados 
intensivos e de respiradores artificiais. No âmbito da genética, é extremamente 
significativa a distância percorrida de Mendel, com as leis básicas da 
hereditariedade (1866), passando por Watson e Crick e a estrutura molecular do 
DNA (1953), até chegar a Craig Venter, o primeiro a sequenciar o genoma 
humano (2000). Em 1978, nascia a primeira criança concebida por meio de um 
procedimento de fertilização in vitro e, em 1997, realizava-se o primeiro clone de 
um mamífero adulto, a ovelha Dolly. 
 
69 
 
Impulsionado pelo desenvolvimento de inúmeras possibilidades da 
ciência e da tecnologia, principalmente a partir do segundo pós-guerra e da 
descoberta de que experimentos genéticos de finalidade eugênica eram 
realizados pelos nazistas, é que surge um novo campo do conhecimento 
denominado de bioética. Em 1971, Van Rensselaer Potter escreve o livro 
“Bioethics: Bridge to the Future”, primeira publicação a tratar diretamente do 
tema, dedicado ao exame do aumento da habilidade humana em transformar a 
natureza, inclusive a humana, e as implicações desse aumento para o futuro 
global. 
 
Como mencionado anteriormente, nos dias atuais o significado dado à 
palavra bioética é mais amplo, abrangendo uma reflexão moral sobre questões 
ligadas à medicina, às ciências da vida e às tecnologias associadas quando 
aplicadas aos seres humanos, a partir da dimensão social, jurídica e ambiental. 
Nesse campo, discute-se sobre doação de órgãos, eutanásia, aborto, pesquisa 
com células-tronco, controle de natalidade, reprodução assistida, saúde pública 
e globalização, doenças mentais, bioterrorismo, transgênicos, clonagem e 
manipulação genética, entre outros. 
Para o entendimento de como se deu o progresso da ciência este 
entendimento deve ser feito com reservas. O desenvolvimento científico do 
século XX provocou a crise do conceito de ciência e fez com que o estudo das 
suas condições de possibilidade, da sua justificação e dos seus riscos e limites 
se tornasse um tema de importância central para o pensamento filosófico. 
A inaceitabilidade, hoje manifesta, da pretensão iluminista de uma 
racionalidade humana capaz de esclarecer todas as dimensões da vida e do 
mundo, eliminando totalmente as trevas, fundamenta-se na constatação, 
 
70 
 
resultante do duro processo de aprendizado histórico, de que todo saber humano 
assenta-se em pré-compreensões, em preconceitos, histórica e socialmente 
determinados, pois toda e qualquer luz projeta sombras e se, por um lado, nos 
permite ver muito bem o que ilumina, por outro, nos cega para tudo o que se 
encontra mergulhado nas sombras por ela geradas. 
Assim, se todo o progresso científico-tecnológico verificado no século XX 
proporcionou inúmeros benefícios para o ser humano, por outro lado, possibilitou 
intervenções de um tipo completamente novo, que pode afetar significativamente 
a autocompreensão normativa da espécie humana como um todo. Nesse 
sentido, a época atual seria, de certo modo, apocalíptica, não porque está 
dirigida inevitavelmente rumo à catástrofe, mas porque introduz riscos que 
gerações precedentes não tiveram que enfrentar. O que fazemos pode ter 
consequências profundas, de longo alcance e de longa duração, consequências 
que não podemos ver diretamente nem identificar com precisão. Entre as ações 
e seus efeitos existe uma enorme distância – tanto no tempo como no espaço – 
que não podemos sondar usando nossas capacidades habituais de percepção. 
Qual a repercussão disso tudo para o direito? 
É necessário um exame que leve em conta os riscos e as possibilidades 
desses avanços para os direitos fundamentais. Se o mapeamento do genoma 
humano pode possibilitar, por um lado, o antecipado e a cura de determinadas 
doenças, por outro, pode induzir a uma eventual discriminação genética, 
sobretudo entre companhias de seguro de saúde, de vida e mesmo entre 
empregadores. O inevitável compromisso das tecnologias biomédicas com o 
poder econômico representa uma ameaça à 
dignidade humana, na medida em que o corpo 
humano tornou-se passível de ser 
instrumentalizado mediante uma lógica de 
mercado. Recorde-se que os termos “doença” e 
“dignidade humana” são expressões abertas e 
passíveis de ser articuladas na luta pela 
afirmação da igualdade, como demonstra o 
Little People Movement, que conseguiu barrar, 
na Inglaterra, as pesquisas que evitariam o 
nanismo, ao argumento de que esta condição 
 
71 
 
não pode ser considerada uma doença, o que violaria o respeito à diferença 
específica dos anões. 
A vida humana como valor ético 
 
Qualquer ação humana que tenha algum reflexo sobre as pessoas e seu 
ambiente deve implicar o reconhecimento de valores e uma avaliação de como 
estes poderão ser afetados. O primeiro desses valores é a própria pessoa, com 
as peculiaridades que são inerentes à sua natureza, inclusive suas necessidades 
materiais, psíquicas e espirituais. Ignorar essa valoração ao praticar atos que 
produzam algum efeito sobre a pessoa humana, seja diretamente sobre ela ou 
através de modificações do meio em que a pessoa existe, é reduzir a pessoa à 
condição de coisa, retirando dela sua dignidade. Isto vale tanto para as ações 
de governo, para as atividades que afetem a natureza, para empreendimentos 
econômicos, para ações individuais ou coletivas, como também para a criação e 
aplicação de tecnologia ou para qualquer atividade no campo da ciência. 
Entre os valores inerentes à condição humana está a vida. Embora a sua 
origem permaneça um mistério, tendo-se conseguido, no máximo, associar 
elementos que a produzem ou saber que em certas condições ela se produz, o 
que se tem como certo é que sem ela a pessoa humana não existe como tal, 
razão pela qual é de primordial importância para a humanidade o respeito à 
origem, à conservação e à extinção da vida. 
A ética de um povo ou de um grupo social é um conjunto de costumes 
consagrados, informados por valores. A partir desses costumes é que se 
estabelece um sistema de normas de comportamento cuja obediência é 
geralmente reconhecida como necessária ou conveniente para todos os 
integrantes do corpo social. Se alguém, por conveniência ou convicção pessoal, 
procura contrariar ou efetivamente contraria uma dessas normas tem 
comportamento antiético, presumivelmente prejudicial a outras pessoas ou a 
todo o grupo, quando não a todos os seres humanos. 
Assim, fica sujeito às sanções éticas previstas para a desobediência, 
podendo, pura e simplesmente, ser impedido de prosseguir na prática antiética 
ou, conforme as circunstâncias, ser punido pelos danos que tenha causado ou 
ser obrigado a repará-los. Todos estes fatorem têm aplicação à proteção da vida 
 
72 
 
no plano da ética, sem prejuízo da 
proteção resultante de seu 
reconhecimento como valor jurídico.CIÊNCIA, TECNOLOGIA E BIOÉTICA 
 
 Recentes avanços tecnológicos, como também alguns progressos 
científicos, criaram possibilidades novas de interferência na vida humana, que 
podem representar uma vantagem ou, contrariamente, um risco ou mesmo um 
grave prejuízo. Pelo fato de que a vida é geralmente reconhecida como um valor 
humano ou social, muitos sentiram a necessidade de refletir sobre essas 
inovações e seus efeitos, de prever ou, pelo menos, tentar prever, suas 
consequências prováveis, benéficas ou maléficas e, finalmente, de avaliar tais 
possibilidades à luz de considerações de ordem ética. 
A primeira advertência formal sobre os riscos inerentes ao progresso 
científico e tecnológico foi feita pela ONU, em 10 de novembro de 1975, quando 
proclamou a Declaração sobre a Utilização do Progresso Científico e 
Tecnológico no Interesse da Paz e em Benefício da Humanidade. Entre as 
considerações preliminares, esse documento contém o reconhecimento de que 
o progresso científico e tecnológico, ao mesmo tempo em que cria possibilidades 
cada vez maiores de melhorar as condições de vida dos povos e das nações, 
pode, em certos casos, dar lugar a problemas sociais, bem como ameaçar os 
direitos humanos e as liberdades fundamentais do indivíduo. O artigo 6o dessa 
Declaração é bem expressivo como advertência, tendo a seguinte redação: 
Todos os Estados adotarão medidas tendentes a estender a todos os 
estratos da população os benefícios da ciência e da tecnologia e a protegê-los, 
tanto nos aspectos sociais quanto materiais, das possíveis consequências 
negativas do uso indevido do progresso científico e tecnológico, inclusive sua 
utilização indevida para infringir os direitos do indivíduo ou do grupo, em 
 
73 
 
particular relativamente ao respeito à vida privada e à proteção da pessoa 
humana e de sua integridade física e intelectual. 
Nesta seara entra a necessidade de consideração jurídica dos mesmos 
valores de que se ocupa a Bioética, pois são valores humanos fundamentais, 
que precisam ser tutelados em benefício de cada ser humano e de toda a 
humanidade. 
 
A VIDA HUMANA COMO VALOR JURÍDICO 
 
Para a consideração da vida como valor jurídico, um ponto de partida 
adequado é a observação, ainda que sucinta, do tratamento dispensado à 
pessoa humana e suas características essenciais ao longo dos tempos. O 
exame dos documentos antigos, mesmo os mais remotos textos legislativos, 
mostra que se perde na origem dos tempos o reconhecimento de que os seres 
humanos são criaturas especiais, que nascem com certas peculiaridades. Com 
o avanço dos conhecimentos humanos foi havendo maior precisão, 
esclarecendo-se que há certas necessidades básicas, de natureza material, 
psicológica e espiritual, que são as mesmas para todas as pessoas. 
Entre as peculiaridades da condição humana encontra-se a possibilidade 
de se desenvolver interiormente, de transformar a natureza e de estabelecer 
novas formas de convivência. 
Essa evolução levou à conclusão de que o ser humano é dotado de 
especial dignidade, bem como de que é imperativo que todos recebam proteção 
e apoio tanto para a satisfação de suas necessidades básicas como para o pleno 
uso e desenvolvimento de suas possibilidades físicas e intelectuais. Em 
decorrência de todos esses fatores, foi sendo definido um conjunto de 
faculdades naturais necessitadas de apoio e estímulo social, que hoje se 
externam como direitos fundamentais da pessoa humana. Nos textos da 
antiguidade se confundem preceitos religiosos, políticos e jurídicos, mas já se 
percebe a existência de regras de comportamento social impostas à obediência 
de todos e com a possibilidade de punição para os que desobedecerem. Em 
vários casos a punição vai além da sanção moral e uma autoridade pública pode 
impor castigos ou restrições a direitos. 
 
74 
 
Aí está a origem humana e social dos direitos, inclusive do direito à vida, 
que através dos séculos será reconhecido e protegido como um valor jurídico. 
Conforme observam muitos autores, durante séculos a proteção da vida como 
direito se deu por via reflexa. Não havia a declaração formal do direito à vida, 
mas era punido com severidade quem atentasse contra ela. Isso chegou até os 
nossos dias, sendo interessante assinalar que no Brasil o direito à vida só foi 
expresso na Constituição de 1988, embora desde 1830 a legislação brasileira já 
previsse a punição do homicida. 
Assim nasceu a moderna diferenciação entre nobres e plebeus, entre os 
ricos proprietários, sempre participantes diretos ou indiretos do poder político, e 
os outros, incluindo pequenos proprietários e também muitas pessoas pobres ou 
miseráveis que só tendo a força de seu corpo e de sua mente viviam, como vivem 
ainda hoje, em situação de sujeição, sendo forçados, mediante coação expressa 
ou disfarçada, a contribuir para a prosperidade dos primeiros. 
 
OS DIREITOS HUMANOS: DEFESA DA PESSOA E DA 
VIDA 
 
No final da Idade Média, no século XIII, aparece a grande figura de Santo 
Tomás de Aquino, que terá grande importância para a recuperação do 
reconhecimento da dignidade essencial da pessoa humana. Embora sendo um 
pensador cristão, Santo Tomás de Aquino retomou Aristóteles, sob muitos 
aspectos, e procurou fixar conceitos universais. De seus estudos, pondo-se de 
parte alguns pontos de suas ideias que se apoiam em dogmas de fé, resultam 
noções fundamentais que foram e podem ser acolhidas mesmo por quem não 
aceite os princípios cristãos. 
Tomando a vontade de Deus como fundamento dos direitos humanos, 
Santo Tomás condena as violências e discriminações dizendo que o ser humano 
tem Direitos Naturais que devem ser sempre respeitados, chegando a afirmar o 
direito de rebelião dos que forem submetidos a condições indignas. Nessa 
mesma época nasce a burguesia, uma nova força social, composta por plebeus 
que foram acumulando riqueza, mas continuavam excluídos do exercício do 
 
75 
 
poder político e, por isso, eram também vítimas de violências, discriminações e 
ofensas à sua dignidade. 
Durante alguns séculos foram ainda mantidos os privilégios da nobreza, 
que, associada à Igreja Católica, tornara-se uma considerável força política e 
usava a fundamentação teológica dos direitos humanos para sustentar que os 
direitos dos reis e dos nobres decorriam da vontade de Deus. 
E assim estariam justificadas as discriminações e injustiças sociais. Os 
séculos XVII e XVIII trouxeram elementos novos, que acabaram pondo fim aos 
antigos privilégios. No campo das ideias surgem grandes filósofos políticos, que 
reafirmam a existência dos direitos fundamentais da pessoa humana, sobretudo 
os direitos à liberdade e à igualdade, mas dando como fundamento desses 
direitos a própria natureza humana, descoberta e dirigida pela razão. 
Isso favoreceu a eclosão de movimentos revolucionários que, associando 
a burguesia e a plebe, ambas interessadas na destruição dos seculares 
privilégios, levaram à derrocada do antigo regime e abriram caminho para a 
ascensão política da burguesia. Os pontos culminantes dessa fase 
revolucionária foram a independência das colônias inglesas da América do 
Norte, em 1776, e a Revolução Francesa, que obteve a vitória em 1789. A nova 
situação criada a partir daí foi inteiramente favorável à burguesia, mas adiantou 
muito pouco para os que não eram grandes proprietários. Em 1789 foi publicada 
a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, onde se afirmava, no artigo 
primeiro, que “todos os homens nascem e permanecem livres e iguais em 
direitos”, mas, ao mesmo tempo, admitia “distinções sociais”, as quais, conforme 
a Declaração, deveriam ter fundamento na “utilidade comum”. 
São também contra os direitos humanos os que, em nome do progresso 
científico e de um futuro e incerto benefício da humanidade, ou alegando atitude 
piedosa em defesa da dignidade humana, pregam ou aceitam com facilidade ainexistência de limites éticos para as experiências científicas ou o uso dos 
conhecimentos médicos para apressar a morte de uma pessoa. E assim estes 
últimos defendem a eutanásia e o suicídio assistido, que são formas de 
homicídio, atitudes que levam à antecipação da extinção da vida, que nenhuma 
norma de direitos humanos autoriza. Há hipóteses em que só resta uma 
aparência de vida e, neste caso, tomadas todas as cautelas para a eliminação 
de dúvidas quanto ao verdadeiro estado do paciente e obtida a autorização livre 
 
76 
 
e consciente de quem pode decidir pela pessoa que, na realidade, já deixou de 
viver, aí sim, é possível deixar de prolongar a vida aparente e optar pela 
ortotanásia, em nome da dignidade humana. Isso é compatível com os direitos 
humanos. 
Um dado importante é que, por meio da experiência, da reflexão e, muitas 
vezes, do sofrimento, muitas pessoas de boa-fé, que se julgavam contrárias aos 
direitos humanos, adquiriram consciência de sua contradição e mudaram de 
atitude. É necessário e oportuno ressaltar que, embora sem a rapidez que seria 
ideal, vem aumentando sempre o número de pessoas conscientizadas, sendo 
necessário um trabalho constante de esclarecimento e estímulo para que se 
acelere a ampliação do número de defensores dos direitos humanos. 
 
 
Os direitos humanos no século XX: avanços e resistências 
 
A segunda metade do século XX ficará marcada na história da 
humanidade como a abertura de um novo período, caracterizado pelos avanços 
dos direitos humanos. Terminada a II Guerra Mundial, estando ainda abertas as 
feridas da grande tragédia causada pelo egoísmo, pelo excesso de ambições 
materiais, pela arrogância dos poderosos e pela desordem social resultante, 
iniciou-se um trabalho visando a criação de um novo tipo de sociedade, 
informada por valores éticos e tendo a proteção e promoção da pessoa humana 
como seus principais objetivos. Foi instituída, então, a ONU, com o objetivo de 
trabalhar permanentemente pela paz. Demonstrando estarem conscientes de 
que esse objetivo só poderá ser atingido mediante a eliminação das injustiças e 
a promoção dos direitos fundamentais da pessoa humana, os integrantes da 
 
77 
 
Assembleia Geral da ONU aprovaram, em 1948, a Declaração Universal dos 
Direitos Humanos. 
Todos estes fatores que marcam a existência de uma nova mentalidade, 
caracterizada pela valorização da ética e pelo reconhecimento dos direitos 
humanos, não foram feitos e não ocorrem sem resistências. Os que põem acima 
de tudo a consecução de objetivos econômicos têm aliados numa 
intelectualidade que usa argumentos sofisticados, chamando de “idealistas 
utópicos” os defensores dos direitos humanos. O deslumbramento com os 
avanços no mundo da ciência e da tecnologia também cria resistentes, estando 
entre estes os que se opõem à Bioética ou que tentam manipulá-la, propondo o 
estabelecimento de padrões de comportamento que, aparentando uma nova 
ética, são de tal modo flexíveis que equivalem à negação da ética. E por esse 
caminho negam também os direitos humanos. 
 
Direitos humanos e Bioética: conjugação necessária 
 
Os direitos humanos e a Bioética andam necessariamente juntos. 
Qualquer intervenção sobre a pessoa humana, suas características 
fundamentais, sua vida, integridade física e saúde mental deve subordinar-se a 
preceitos éticos. As práticas e os avanços nas áreas das ciências biológicas e 
da medicina, que podem proporcionar grandes benefícios à humanidade, têm 
riscos potenciais muito graves, o que exige permanente vigilância dos próprios 
agentes e de toda a sociedade para que se mantenham dentro dos limites éticos 
impostos pelo respeito à pessoa humana, à sua vida e à sua dignidade. Na 
prática, a verificação desses limites é facilitada quando se levam em conta os 
direitos humanos, como têm sido enunciados e classificados em grande número 
de documentos básicos, incluindo a Declaração Universal dos Direitos Humanos 
e os pactos, as convenções e todos os acordos internacionais, de caráter amplo 
ou visando a objetivos específicos, que compõem o acervo normativo dos 
direitos humanos. 
O que se pode concluir disso tudo é que a Declaração Universal dos 
Direitos Humanos marca o início de um novo período na história da humanidade. 
E a Bioética está inserida no amplo movimento de recuperação dos valores 
 
78 
 
humanos que ela desencadeou. Os que procuram a preservação ou a conquista 
de privilégios, os que buscam vantagens materiais e posições de superioridade 
política e social, sem qualquer consideração de ordem ética, os que pretendem 
que seus interesses tenham prioridade sobre a dignidade da pessoa humana, os 
que supervalorizam a capacidade da inteligência e se arrogam poderes divinos, 
pretendendo o controle irresponsável da vida e da morte, esses resistem à 
implantação das normas inspiradas nos princípios da Declaração Universal. 
A consciência dos direitos humanos é uma conquista fundamental da 
humanidade. A Bioética está inserida nessa conquista e, longe de ser opor a ela 
ou de existir numa área autônoma que não a considera, é instrumento valioso 
para dar efetividade aos seus preceitos numa esfera dos conhecimentos e das 
ações humanas diretamente relacionada com a vida, valor e direito fundamental 
da pessoa humana. 
 
BIOÉTICA CLÍNICA 
 
Erro médico 
São relatados erros médicos de grande visibilidade histórica e na 
sequência é feita uma análise dos mesmos levando-se em conta os princípios 
bioéticos da beneficência, não-maleficência, autonomia e justiça. A história 
mostra que o erro médico não é uma preocupação exclusiva da sociedade 
contemporânea e já estava presente no Código de Hamurabi – 2394 a.C. – com 
penalidades diferenciadas para o médico no caso de o erro ser cometido contra 
o senhor ou contra o escravo. No entanto, somente nos tempos 
contemporâneos, ocorreu a discussão dos princípios da autonomia e da justiça. 
Apesar disso, pessoas de posses, como George Washington, em 1799, já 
usavam o princípio da autonomia quando do tratamento de suas doenças. 
 
A responsabilidade médica: uma visão bioética 
Na tentativa de chegar a uma avaliação ética ou mesmo a um julgamento 
moral, vários fatores podem ser responsabilizados em cada ato humano, em 
cada problema de conduta. Razões, motivos, intenções, meios, resultados, 
consequências, são todos eles elementos inter-relacionados em um amplo 
complexo de causa e efeito. 
 
79 
 
Diz-se, que o moralista está preocupado apenas com a parte subjetiva do 
comportamento humano, os cientistas sociais com os meios e os processos 
utilizados e os políticos com os fins e resultados. As inúmeras controvérsias 
éticas levantadas pelo grande desenvolvimento científico e tecnológico da 
biologia nos últimos anos é um dos exemplos de questão moral, em Ética e 
Medicina, que envolve não apenas um, mas todos os fatores determinantes do 
ajuizamento quanto ao certo e o errado. 
Capacidade, liberdade de escolha e responsabilidade são o próprio 
âmago da ética e a condição sem o qual não pode ser para o verdadeiro status 
moral do homem. Enquanto é verdade que não existe qualquer responsabilidade 
pelo próprio nascimento e, por consequência, nenhuma participação moral nisso, 
nós temos uma participação moral efetiva quanto à concepção, o nascimento e 
a morte de outros, sobretudo daqueles que trazemos para o mundo e daqueles 
dos quais cuidamos. 
Vida, saúde e morte são portanto questões morais. Podemos “fazer algo” 
a respeito delas e, consequentemente, temos de decidir o que fazer. É esta 
verdade fundamental acerca da nossa existência humana, que nos coloca em 
nível diverso dos demais componentes do reino animal: o fato de que a maior 
parte do nosso destino é, ou pode ser, resultado de decisão deliberada, de 
conduta racional, mais do que de comportamento meramente instintivo. 
Toda a história do crescimento moral doo naturalismo, contextualismo e outras. O contextualismo tem-
se destacado pois defende que cada caso deve ser analisado individualmente, 
dentro dos seus contextos social, econômico e cultural. 
CONCEITOS BÁSICOS 
 
DA ÉTICA FILOSÓFICA À ÉTICA EM SAÚDE 
 
Há dificuldade em definir a ética como conhecimento. Para Aristóteles não 
existe uma necessidade nas ações humanas e para Sócrates não é possível 
ensinar a virtude. 
Por isso é necessário conhecimento teórico e prático para dissertar sobre 
ética e bioética. 
Trabalhando com emoções, não é possível demonstrar o que são 
necessariamente o bem e o mal, pois a “A dificuldade da Ética consiste 
justamente em introduzir normatividade na contingência, pois está fora de dúvida 
que quem age moralmente o faz a partir de normas que não são apenas relativas 
à pessoa e ao momento”. É possível, em uma situação, existir um bem superior 
e absoluto, mas é muito difícil identificá-lo na contingência em que acontecem 
as relações humanas. 
 
ÉTICA E CONHECIMENTO 
 
Não podemos situar a ética como dimensão cultural sem separar o 
conhecimento e a religião, pois a relevância da ética como contexto próprio, 
definindo o ser humano seguido da essência de sua existência, nos leva a 
alcançamos regras de generalidade e de universalidade que ultrapassam o mero 
plano dos fatos estritamente considerados. 
A partir do momento que empregamos processos intelectuais de 
ordenação, inferimos a ordem dos fatos que interferem no conhecimento e, para 
separar conhecimento de moral, diferenciam-se os juízos que a ciência expede 
na ordem de juízos propriamente morais na ordem do ver e ser. Com esta 
constatação estende-se que, quando ciência tratar da realidade como ela é, e a 
 
7 
 
moral da realidade como ela deve ser, a ciência elaboraria juízos de realidade e 
a moral juízos dependentes de normatividade. 
Na natureza, atribuímos um grau de necessidade que nenhuma 
observação particular poderia justificar. 
Aristóteles reconhecia que o saber acerca das coisas inclui 
necessariamente o conhecimento das causas de seu aparecimento e de seu 
modo de ser. 
Com as teorias do conhecimento da antiguidade e da modernidade 
descritas por Aristóteles – ele afirmava que incluía na compreensão não apenas 
a eficiência causal da produção do fenômeno, como também a finalidade a que 
cada parte está submetida na totalidade –, não bastaria entender como os fatos 
se produzem, mas seria preciso compreender a função de cada um no conjunto 
e as razões da ordem estabelecida para elaboração destes fatos. 
Por muitas vezes criticada na história das epistemologias modernas, a 
causalidade final indica que o esforço de conhecimento solicita, naturalmente, 
completar-se na formulação das indagações relativas ao porquê dos fenômenos 
descritos na estrutura da realidade. Certamente este tipo de resposta, se fosse 
possível, permitiria um tipo de conhecimento que não seria somente mais 
abrangente, mas mais avaliativo, isto é, possibilitaria julgamentos mais seguros 
acerca da totalidade, pois nos faria ver, talvez com mais clareza, o sentido das 
partes e do todo, a razão da posição de cada elemento na articulação geral e o 
modo pelo qual convergem na sintonia e na diferença. 
Contudo, estaríamos ainda no plano dos juízos de realidade, no sentido 
em que os entendemos quando dizemos que a ciência os produz para descrever 
compreensivamente os seus objetos, articulando as percepções e 
sistematizando a experiência. Mas talvez não fiquemos apenas nisto. Por um 
misto de ingenuidade e pretensão, muitas vezes emitimos juízos que qualificam 
a realidade. Dizemos não apenas que as coisas são desta ou daquela maneira, 
mas também que é bom que sejam assim, ou que é mau, ou que poderiam ser 
de outra maneira. Talvez, de maneira implícita, isto ocorra sempre, sendo 
impossível olhar as coisas sem atribuir a elas um valor, embora a disciplina da 
atitude científica nos leve a reavaliar este modo de julgamento. 
Persistindo a mentalidade do senso comum, bem como no que a ciência 
descreve do homem comum, algo do animismo da relação primitiva com o 
 
8 
 
mundo faz com que defenda-se que todas as coisas aparecem como benéficas 
ou maléficas, ultrapassando os poderes que interferiam na vida e nas ações 
humanas, ou seja nos sentimentos e emoções. 
Portanto, conhecer é saber como aproveitar o caráter benéfico e 
propiciatório ou presumir o mal que as consequências advindas do próprio 
conhecimento das coisas poderiam causar. A ciência buscou eliminar esta 
valoração inicialmente pelo conhecimento das causas materiais que regem o 
comportamento dos seres naturais e, em seguida, por meio de leis gerais e 
necessárias que nos permitem prever este comportamento para, desta forma, 
dominá-lo. 
Com isso o mundo deixa de ser enigma quando o conhecimento se torna 
sinônimo de determinação necessária. 
 
BIOÉTICA E SEU VERDADEIRO SIGNIFICADO 
 
Sabendo que o termo Bioética origina-se do grego éthos – que expressa 
a conduta, o hábito ou comportamento –, a terminologia indica que esta é a 
ciência que busca dirigir ou disciplinar a conduta humana. Essas duas 
concepções diferentes fundamentam diversas reflexões sobre a bioética. A 
primeira sugere uma reflexão acerca do ideal ao qual o homem, pela sua 
natureza ou essência, deve se dirigir, a segunda sobre os motivos ou as causas 
que determinam a conduta e se restringe ao conhecimento dos fatos. 
 
Entende-se a Bioética como a ética aplicada à vida e está abrangendo 
temas que vão da simples relação interpessoal aos mais variados fatores que 
 
9 
 
podem interferir na sobrevivência do 
próprio planeta. Na Medicina a Bioética 
está relacionada ao bem-estar do homem e 
dos animais. 
O termo “bioética” foi inicialmente 
usado em 1970, por Van Rensselaer Potter, 
doutor em Bioquímica, pesquisador e professor na área de Oncologia no 
Laboratório McArdle da Universidade de Wisconsin/ EUA. 
Contudo, este tema teve sua relevância ao estudar vários abusos com o 
uso indiscriminado de animais e seres humanos em experimentos e técnicas 
desumanizantes que foram surgindo rapidamente, em especial relacionados à 
clonagem de seres humanos que deram origens às mais complexas 
discussões sobre a bioética. 
Com a insipiência dos referenciais éticos tradicionais, devido ao rápido 
progresso científico, tornou-se fácil constatar que os códigos de ética das 
diferentes profissões não evoluíam no mesmo ritmo do progresso científico, 
sendo por muitas vezes insuficientes para julgar temas polêmicos em especial 
os da bioética. 
As descobertas científicas, por diversas vezes, afetaram positiva ou 
negativamente a sociedade, com vantagens e desvantagens das tecnologia ou 
experimentos científicos que muitas vezes foram questionados, necessitando de 
avaliações de comitês constituídos por indivíduos de diversas formações. Sendo 
assim, percebeu-se a necessidade de a bioética envolver profissionais das mais 
diferentes áreas; como as Tecnociências (Medicina, Veterinária e Biologia); 
Ciências Humanas (Filosofia, Teologia, Psicologia e Antropologia); Ciências 
Sociais (Economia e Sociologia); Ciências Sociais Aplicadas (Administração, 
Contabilidade e Economia), Ciências Jurídicas e Políticas entre outras, com a 
Bioética se firmando em quatro princípios básicos definidos como Princípios da 
Beneficência e Não Maleficência, Princípio da Autonomia e da Justiça. 
 
 
 
 
10 
 
O PRINCÍPIO DA BENEFICÊNCIA E NÃO MALEFICÊNCIA 
 
O Princípio da Não Maleficência (Beneficência) preconiza que toda e 
qualquer tecnologia deve trazer benefícios para a sociedade e jamais causar-lhe 
malefícios. É fato nos dias de hoje, que a bioética está mais relacionada aos 
seres humanos do que aos animais, pois a maior parte dos experimentos 
existentes visa beneficiar o homem e não os animais. 
Com o objetivo de conhecer o que é o bom e o quehomem, desde o que Breasted 
chamou de “a aurora da consciência” e que, paradoxalmente, os teólogos 
clássicos chamam de “a queda”, tem sido nossa permanente marcha ascendente 
na escala da responsabilidade. Desde uma ação pré-escolhida em direção a uma 
ação auto-deliberada, a partir da moralidade costumeira para uma moralidade 
refletida, racional, não impulsiva. Ao mover-se para além da existência bruta, o 
homem só contou com duas vantagens biológicas para emancipá-lo dos hábitos 
e limites irracionais de sua natureza: a primeira e mais importante foi a maior 
inteligência que o ajudou a escolher não apenas entre os fins, mas entre os 
meios. A outra foi a postura ereta, que liberou suas mãos e lhe conferiu o nome 
genérico grego “anthropos”, significando “aquele que anda com a face para o 
céu”. 
O tamanho de nossa responsabilidade moral expande-se, por 
necessidade, com os avanços da ciência e tecnologia médicas. Quase que 
 
80 
 
anualmente é alcançada uma nova etapa na nossa batalha para estabelecer 
controle sobre a saúde, a vida e a morte. 
Existem cada vez menos motivos em nossa geração, para sermos 
fatalistas acerca dos episódios cruciais de nossa existência, em contraposição à 
geração de nossos antepassados. Fatalismo que reflete uma falta de controle 
sobre os acontecimentos é a visão daqueles que são impotentes para prevenir 
ou evitar o que não podem escolher ainda que tivessem o poder de escolha. Da 
mesma forma que a inércia é o solo árido do fatalismo, o controle é a semente 
viçosa da liberdade e da responsabilidade, da própria ação moral, do 
comportamento verdadeiramente humano. 
Um ato humano, seja em teoria ética, seja em teologia moral, é definido 
como aquele que é livre e baseado no conhecimento e não ditado 
irremediavelmente pela ignorância e pela resignação. 
Os atos morais são mais bem servidos pela reflexão do que pelo reflexo 
e a qualidade ética de um ato está muito mais vinculada ao raciocínio do que à 
paixão. 
É por esse motivo que a ciência, a despeito de alguns casos trágicos e 
equivocados, contribui decisivamente para a expansão do nosso alcance moral 
e para a magnitude de nossa vida ética. A tecnologia não somente altera a 
cultura, ela indiscutivelmente adiciona créditos à nossa estatura moral. E as 
questões do início e do fim da vida, como uma parte do cuidado médico, ilustram 
a regra geral. 
Tomemos, por exemplo, a questão da anticoncepção. Os preservativos, 
os dispositivos intrauterinos e as pílulas eliminaram as velhas restrições sobre a 
sexualidade fora do casamento, o chamado terror triplo da concepção, infecção 
e descoberta que, em certa medida, mantinha as pessoas contidas. Não 
obstante o fato da AIDS, os riscos são, rigorosamente falando, quase uma coisa 
do passado. A ciência tende a remover as compulsões morais. Isto quer dizer, 
através de um paradoxo significativo, que a responsabilidade moral está sendo 
salientada e nossa estatura moral aumentada. Pode até não parecer assim à 
primeira vista. No entanto, quando as sanções externas, tais como o medo das 
consequências, são minimizadas pela Medicina, é precisamente aí que nossos 
controles internos têm de ser elevados a um nível mais alto de importância. E, 
naturalmente, com cada um desses aumentos de responsabilidade pessoal e 
 
81 
 
livre escolha, as chances de um equívoco moral ficam igualmente aumentadas. 
Daí a importância do reforço da responsabilidade, através das decisões 
refletidas e racionais, não impulsivas. 
Em qualquer discussão sobre Moral e Medicina é necessário delinear 
nossa liberdade moral, nossa ação humana, em uma série de decisões sobre a 
vida e sobre a morte. E isso deve ser feito de tal maneira que tais eventos 
possam tornar-se decisões verdadeiras e não meras fatalidades biológicas. 
“A censura e a culpa são conceitos legais e religiosos, e não científicos”, 
diz Menninger. Podemos parafraseá-lo, dizendo que a responsabilidade é um 
conceito legal e ético e não empírico. 
A responsabilidade não é assunto ou fato natural e objetivo; é algo moral 
e espiritual. Em suma, é um fenômeno humano e pessoal, que não pode ser 
encontrado “lá fora”, no mundo físico. 
Descendo agora, da discussão doutrinária para o nível da avaliação 
meramente normativa, fica claro que a importância do Capítulo III do Código de 
Ética Médica está no seu próprio título que trata da responsabilidade profissional 
do médico, e não somente de sua responsabilidade legal. 
A autoria da ação constitui pressuposto elementar da ética. Só há 
responsabilidade moral quando há responsabilidade pela autoria da ação. Este 
princípio se desdobra em diversas modalidades. A principal delas é a da 
autonomia da vontade, à qual corresponde à espontaneidade da ação ética. A 
ação ética nasce de seu autor, como nasce do artista a obra de arte. Não há 
valor moral na ação heterônoma, inspirada e dirigida por valores impostos, 
quando a vontade não é livre. 
Essencialmente, autonomia é a capacidade de pensar, decidir e agir, com 
base em tal pensamento e decisão, de modo livre e independente. Na esfera da 
ação, é importante distinguir entre, por um lado liberdade, isenção, licença, ou 
simplesmente “fazer de acordo com sua vontade, ou seja o que vier na cabeça” 
e por outro lado agir autonomamente, que também pode se fazer o que se quer, 
mas baseado em deliberação racional. Só como exemplo, os animais não 
possuem autonomia, mas podem ser perfeitamente livres. A autonomia é uma 
categoria de liberdade, mas nem toda a liberdade é autonomia. O conceito de 
autonomia está, necessária e obrigatoriamente, ligado ao exercício daquilo que 
Aristóteles chamou de atributo específico do homem – a racionalidade. 
 
82 
 
Outra modalidade deste princípio, e que constitui a contrapartida da 
autoria da ação, é ser a responsabilidade ética intransferível. Mesmo quando, na 
ação, existam vários autores, a responsabilidade ética não poderá ser dividida. 
Ela existe por inteiro, em relação a cada um dos que participaram da ação, sendo 
todos eles solidariamente responsáveis. Também as circunstâncias não dividem 
a responsabilidade. Ou são elas circunstâncias conhecidas e previsíveis, e então 
assumidas, ou são elas imprevisíveis e não conhecidas e, portanto, sem 
responsabilidade a cogitar. 
Estas questões estão disciplinadas no Código de Ética Médica que, cuida 
precisamente da total responsabilidade moral que o médico deve assumir como 
autor único de seus próprios atos, não a dividindo com terceiros, nem para eles 
transferindo a responsabilidade. Esta será, sempre, igualmente inteira para cada 
um deles. Não se pode consentir em sua divisão quando as circunstâncias pelas 
quais se quer responsabilizar a ocorrência, eram razoavelmente esperadas e, 
ainda assim, foram assumidas. 
O princípio geral do primum non nocere, fonte e inspiração da 
beneficência ou, mais precisamente, da não maleficência, não é, em nosso 
entender, um preceito ético exclusivo da Medicina, nem um princípio de 
exigência para a ação ética, já que poderia levar o médico até mesmo à inércia 
total. É, antes de mais nada, um simples princípio de cautela, contenção, alerta 
e prudência que somente têm lugar como limites para a prática médica inspirada 
no princípio mais importante de servir, que obriga a ação. 
O médico que nada faz jamais incidirá em erro, mas obviamente não é 
essa a razão e o propósito maiores da medicina, entendida como prática 
comprometida com a ação. Originada, como ciência, arte e profissão, da 
existência prévia do próprio médico, e caracterizado o médico como aquele que 
assumiu o encargo de cuidar (do latim, medeor), o preceito tradicionalmente 
repetido do primum non nocere”, não poderia sobrepor-se ao princípio ético 
indiscutivelmente mais alto que é o princípio de servir. Incontáveis são as 
ocasiões em que seria bem mais cômodo para o médico primum non agere. 
Entretantoé o seu dever maior de intervir que o conduz a assumir riscos nem 
sempre possíveis de serem calculados com a segurança que se pretende no 
preceito do non nocere. 
 
83 
 
Estas circunstâncias, que se tornam cada vez mais frequentes para a 
Medicina contemporânea, na qual aos maiores recursos correspondem maiores 
riscos, impõe-nos necessariamente a ver naquele postulado mera cautela para 
a ação do médico, que não deve ultrapassar os limites da prudência, mas que 
ao mesmo tempo não pode e não deve recear o imperativo ético da intervenção 
ativa. 
Trata-se, como se vê, de um princípio muito antigo. Mas, nem mesmo por 
ser historicamente remoto, tem ele, na sua ancianidade, o aval indiscutível da 
verdade. 
Também é do mesmo tempo, a velha regra de que o médico nada mais é 
do que uma consolação para o espírito (medicus enim nihil aliud est quam animi 
consolatio). Mas seria francamente ridículo haver alguém, entre médicos e 
pacientes que, apesar das limitações próprias da Medicina, pudesse repetir, hoje 
em dia, aquele brocardo. 
São eles – “primum non nocere” e “nihil aliud est”– mandamentos típicos 
de uma história da ciência e da cultura em que realmente eram pequenos os 
conhecimentos e recursos, ao ponto de se preferir nada fazer: “O médico que 
prescreve ao doente a cura do tempo, prescreve um remédio melhor do que se 
houvesse empregado lancetas”. Mas a ninguém é dado o direito, em nossa 
época, de ter da Medicina a mesma imagem de resignação e inoperância 
chegando a sobrepor qualquer daqueles preceitos ao preceito ético superior de 
apostar na cura, apesar dos riscos. 
A ética e a responsabilidade médica têm necessariamente que mudar, 
crescer e se engajar constantemente em auto-correção. Isto é verdadeiro porque 
a Medicina é uma arte humana para seres humanos. E nós, seres humanos, 
temos de crescer em sabedoria e em estatura na mesma medida em que o fez 
o filho de Deus. 
 
84 
 
Aqueles que assumem a responsabilidade pessoal de cuidar de alguém, 
aqueles que têm o conhecimento dos fatos e que exercitam a liberdade de 
escolha e o respeito pela autonomia dos outros são seres verdadeiramente 
morais, pois sem liberdade de escolha e sem direito de saber as verdades as 
pessoas seriam apenas marionetes. E não existe qualidade moral em um 
espetáculo de marionetes. Seguramente não nos bonecos. 
 
BIOÉTICA E MEDICINA LEGAL 
Com o propósito de enfocar a Ética e, mais especificamente, a Bioética, 
revendo os conceitos de Medicina Legal e, principalmente, transpondo o limite 
entre a moralista e cartorária Deontologia, mostrar que a ligação entre as duas 
áreas de conhecimento continua existindo, embora, a nosso ver, ela possa ser 
concebida de uma forma mais abrangente e profunda do que a exposta pelos 
nossos professores. Ainda hoje, muitos vêem a Medicina Legal como uma 
simples aplicação de conhecimentos médicos ou médico-biológicos à prática 
forense. Quando se “pensa” a Medicina Legal, a ideia mais presente, mesmo na 
mente dos profissionais de saúde, é a do especialista realizando necrópsias para 
fins de esclarecimento de crimes. 
Para os que cursaram Medicina a visão da especialidade é um pouco mais 
ampla: conseguem agregar, a essa área do conhecimento, o exame genital para 
constatação de estupro, a identificação de ossadas humanas e, no máximo, o 
exame de “corpo de delito” visando ao registro de lesões corporais. Há grande 
desinformação, por exemplo, quanto à existência de uma “Psicopatologia 
Forense”, que preferimos denominar “Saúde Mental e Justiça”, uma das áreas 
de atuação da Medicina Legal. Com relação a esse aspecto, podemos afirmar 
que não há Medicina puramente biológica sem ênfase na psyché humana, 
 
85 
 
assim, como já vimos, não haverá Medicina Legal apenas “corporal”: o estudo 
do psicopatológico e da sexologia são partes integrantes da ciência forense. 
O crime apenas existe porque se estabeleceu a regra, e a regra foi criada 
visando um objetivo pragmático, específico. E a percepção desses aspectos, já 
na área da Sociologia Criminal, não é ela também fundamento do Direito? – 
estamos falando de Criminologia, na qual a Medicina Legal se prolonga. William 
Saad Hössne, em 1993, apresentou na Conferência de Abertura da “I Jornada 
Oscar Freire” uma visão iluminista do que ele considera deva ser a Medicina em 
geral, e a Medicina Legal em especial. Iluminista, porque bem nos moldes do 
movimento que se difundiu na Europa no século XVIII, dirigiu suas “luzes” para 
o âmago do ser humano. Fez-nos ele muito bem sentir, e esse pensamento, que 
à Medicina e, consequentemente, também à Medicina Legal não cabe o rótulo 
de ciência biológica. A menos que se queira incluir no “bios”, o abrangente e 
riquíssimo conteúdo humano que não pode ser dissociado de qualquer prática 
de saúde. A Medicina é o cerne de uma integração entre ciências biológicas e 
humanas. 
A moral é resultado da obediência e o oposto da autonomia, sendo 
representada, na pessoa, essencialmente pelo “superego”. Assim, podemos 
observar que um indivíduo poderá agir de forma ilegal sem deixar de ser 
coerente com sua ética, tomando como paradigma a situação de “Robin Hood”, 
que roubava dos ricos, distribuindo os seus bens aos pobres; ainda poderemos 
ver uma pessoa agindo moralmente de forma “correta” não se ajustando, 
entretanto, aos nossos valores, por exemplo, quando sob o jugo de um regime 
autoritário se submete à autoridade para realizar atos com os quais ela mesmo 
não concorda. 
Poderá estar também presente o conflito com relação à realização do 
aborto a pedido da mãe porque, para nós, apenas essa situação autônoma da 
paciente merece ser agora considerada a empatia com o desejo de sua auto-
determinação, que não quer, por razões próprias, dar prosseguimento à 
gravidez. A resposta à questão “pode a mãe dispor da vida do feto?”, que para 
alguns é um prolongamento da mãe e, para outros, algo independente, sobre o 
qual ela não tem poder de decisão, é decisiva para a reflexão ética. 
Simplificando, a pessoa poderá posicionar-se francamente contra o aborto se, 
na reflexão, predominar a repulsa pelo feticídio, ou então poderá pender para 
 
86 
 
um juízo favorável, se prevalecer a sintonia com a vontade da mãe. Nesse “jogo” 
pela mãe ou pelo feto poderão influir, na decisão, outros valores. Muitos estão a 
favor da interrupção da gravidez ante uma grave anomalia fetal, ou em situações 
em que a maternidade possa trazer um grave distúrbio na vida psicossocial da 
paciente, ou quando a gravidez tiver resultado de estupro situação, aliás, 
prevista pela lei penal vigente. 
A Bioética abrange as mais variadas linhas de pensamento, confrontando 
tendências por vezes absolutamente opostas, sendo paradigmático o exemplo 
“Bioética sacra x Bioética laica”, a primeira heterônoma de forma clara ou 
disfarçada, tendo como pressuposta a existência de uma ordem anterior 
religiosa, ou natural; e a segunda autônoma, tendo como pré-requisito exclusivo 
a capacidade de pensar e de sentir do ser humano. É imperioso enfatizar que 
Bioética é uma área de discussão sobre valores, não podendo precipitar-se para 
a vala comum dos positivismos busca da “verdade”, sendo, portanto, nada mais 
do que um espelho do relativismo ético do qual, ainda que possamos desejar, 
nunca escaparemos. 
Portanto vemos que a exposição de uma visão ampliada da Medicina 
Legal, se propõe a integrar as “Ciências da Vida aplicadas ao Direito”; postula, 
consequentemente, a sua transcendência quanto à Medicina e à Biologia; 
procura, finalmente, conceituar a Bioética, dentro de um enfoque moderno e 
amplo. Aí percebemos que Bioética e Medicina Legal, ambas “ciências da vida”, 
ambas fundamentais para o Direito, em sua própria estruturação, e também na 
sua aplicação, são áreas do conhecimento muito próximas, ligadas 
conceitualmente entre si, de forma muito mais profunda do que as definiçõesmeramente deontológicas as caracterizavam. 
 
Aspectos bioéticos da confidencialidade e privacidade 
Carlos Fernando Francisconi e José Roberto Goldim. Aspectos bioéticos da 
confidencialidade e privacidade (1997b). 
 
Tanto em um hospital, posto de saúde ou consultório privado, os 
resultados de exames e procedimentos realizados com finalidade diagnóstica ou 
terapêutica são de sua propriedade. Durante muito tempo houve o entendimento 
de que estas informações pertenciam ao médico assistente ou à instituição. 
 
87 
 
Desta visão é que surgiram as denominações “prontuário médico” e “arquivo 
médico”. Esta maneira de tratar as informações do paciente deve ser atualizada. 
Os profissionais e as instituições são apenas seus fiéis depositários. Os 
médicos, enfermeiros e demais profissionais de saúde e administrativos que 
entram em contato com as informações têm apenas autorização para o acesso 
a elas em função de sua necessidade profissional, mas não o direito de usá-las 
livremente. 
O dilema ético, na realidade, não está situado entre revelar ou não o 
diagnóstico, ao paciente, ou qualquer outra informação relevante, mas sim na 
forma e momento de revelar. Vale relembrar que a garantia recíproca de 
comunicar a verdade e de não ser enganado, ou seja, a veracidade, é um dos 
princípios básicos sobre os quais se estabelece a relação médico-paciente. A 
preservação de segredos está associada tanto à questão da privacidade quanto 
da confidencialidade. 
A privacidade, mesmo quando não há vínculo direto, impõe ao profissional 
os deveres de resguardar as informações que teve contato e de preservar a 
própria pessoa do paciente – pode ser considerada como sendo um dever 
institucional. A confidencialidade, por sua vez, pressupõe que o paciente revele 
informações diretamente ao profissional, que passa a ser o responsável pela 
preservação das mesmas. Confidencialidade A confidencialidade é uma 
característica presente desde os primórdios das profissões de saúde. O 
juramento hipocrático, do século V a.C., estabelecia que: “qualquer coisa que eu 
veja ou ouça, profissional ou privadamente, que deva não ser divulgada, eu 
manterei em segredo e contarei a ninguém”. Thomas Percival, em seu livro 
“Medical Ethics”, de 1803, também reiterava a importância da garantia da 
preservação das informações para uma adequada relação médico-paciente. 
Confidencialidade, desta forma, é a garantia do resguardo das informações 
dadas em confiança e a proteção contra a sua revelação não autorizada. A 
confidencialidade não uma prerrogativa dos pacientes adultos, ela se aplica a 
todas as faixas etárias. As crianças e os adolescentes têm, como um adulto, o 
mesmo direito de preservação de suas informações pessoais, de acordo com a 
sua capacidade, mesmo em relação a seus pais ou responsáveis. Com relação 
aos pacientes idosos, especial atenção deve ser dada à revelação de informação 
aos familiares e, especialmente, aos cuidadores. 
 
88 
 
No Brasil, os códigos de ética profissional dos médicos e dos 
fonoaudiólogos impedem a estes profissionais prestar informações mesmo a um 
juiz, independentemente da solicitação de privilégio por parte dos pacientes. O 
profissional de saúde, ao ser chamado para testemunhar em uma Corte Judicial, 
deve comparecer perante a autoridade e declarar-se impedido de revelar 
qualquer informação, pois está moralmente comprometido com a preservação 
das informações. 
Existem opiniões, contudo, que admitem que um juiz pode assumir a 
responsabilidade de inquirir a revelação de informações, mesmo contrariando o 
código de ética profissional, desde que isto fique claramente configurado nos 
autos do processo. Desta forma estaria caracterizada uma exceção – e não uma 
quebra à confidencialidade. Essa alternativa pode contemplar os aspectos legais 
do ato de revelar informações tidas como confidenciais, porém, não atende 
plenamente ao aspectos morais envolvidos. As situações de abuso ou maus 
tratos devem ser avaliadas com cautela. No Brasil, existe a obrigação legal de 
comunicar essas ocorrências quando 
constatadas em crianças ou adolescentes. As 
demais situações de abuso de cônjuge ou idoso 
da família não estão previstas em lei, mas podem 
ser equiparadas, desde o ponto de vista moral, às 
verificadas em menores. 
Nestes casos é necessário contatar um Comitê de Bioética ou alguma 
outra estrutura de defesa dos direitos dos pacientes que por ventura existem na 
própria instituição. No caso de trabalho em consultório privado, a situação fica 
mais delicada, pois as decisões são mais solitárias. Nessa circunstância pode 
ser solicitada uma consultoria ou supervisão formal a algum especialista nesta 
área ou ao Conselho Regional de Medicina do estado. 
Em todos estes episódios os profissionais envolvidos também passam a 
ser solidários na manutenção da confidencialidade e privacidade do caso. 
 
 
 
 
 
 
89 
 
Pesquisa 
 
A realização de um projeto de pesquisa envolve aspectos de 
confidencialidade e privacidade em todas as suas etapas. Desde o planejamento 
até a divulgação, o pesquisador e todas as demais pessoas que vierem a se 
envolver têm o compromisso de resguardar as informações, ou seja, de impedir 
que elas sejam utilizadas de forma inadequada. 
Durante a fase de planejamento a preservação das informações entre os 
membros da equipe é fundamental, pois o projeto ainda não foi apresentado. 
Da mesma forma, os Comitês de Ética em Pesquisa, em todas as 
instâncias, e os Comitês Assessores das agências financiadoras assumem o 
compromisso com a preservação das informações a eles submetidas. 
Na divulgação, o importante é a garantia de que todos os participantes 
tiveram as suas identidades preservadas na íntegra. Os editores de revistas 
científicas, por sua vez, devem garantir a preservação dos conteúdos, durante a 
tramitação do artigo. Novamente, todos os consultores e membros do Corpo 
Editorial estão comprometidos formal e solidariamente. 
Inúmeros novos desafios estão sendo propostos. O uso crescente de 
recursos de transmissão de dados sobre pacientes, utilizando telefone, fax, 
redes de computadores, podem se constituir em novas situações de quebra de 
confidencialidade ou de privacidade. 
Novas situações exigem novas soluções, que muitas vezes resgatam 
antigas proposições, apenas adequando-as ao novo contexto. O fundamental é 
reconhecer que as pessoas sempre possuem dignidade, independentemente de 
sua idade ou capacidade, merecendo, desta forma, todo o nosso respeito e 
cuidado para com as informações a elas pertinentes. 
 
 
90 
 
ÉTICA CLÍNICA: A AIDS COMO PARADIGMA 
 
A ética clínica com todas as definições já citadas neste trabalho tem por 
base a definição de Kant, que a define como a ciência das leis da liberdade, 
aceitando também que se a compreenda como a a teoria dos costumes. 
É de extrema importância reconhecer que a Ética encontra sua razão de 
ser fundamentalmente nas relações humanas, pois nestas deposita o seu caráter 
teleológico; volta-se, assim, em suma, para a criação de condições que visem à 
afirmação da dignidade do ser. 
Para a ética clínica a AIDS surge como um paradigma humano. No 
pensamento de Kant, esse objetivo se impõe como fundamento de um princípio 
prático supremo, estabelecedor da humanidade como fim em si mesma. 
Há que se entender que a Ética discute o comportamento desejável dos 
seres que integram uma determinada a sociedade, tendo em vista os valores, 
dentre estes a Justiça, que a orientam; e nestes volta-se, consequentemente, 
para a formulação de uma teoria dos costumes, da qual nos fala Kant. 
Do debate de temas éticos sempre resultará sob o ponto de vista prático, 
um conjunto de preceitos de conduta social destinados a tornar as relações 
humanas mais harmônicas e agradáveis, o que implica, substancialmente, o 
respeito à pessoa em sua integralidade. Não se perca devista que esses 
preceitos estão sujeitos a constantes modificações, decorrentes da natureza 
dinâmica dos valores sociais. 
Dentro dessa linha de raciocínio deflui a conclusão de que a Ética pode 
regular campos específicos de atividades sociais; trata a Ética Clínica das 
condutas desejáveis no âmbito da relação que se forma entre profissionais da 
área da saúde e seus pacientes, criando-se, com isso, condições para que, por 
um lado, os valores pessoais dos seres humanos envolvidos sejam preservados 
 
91 
 
e respeitados e, por outro, a prestação do serviço que constitui o objeto especial 
dessa relação possa alcançar a máxima eficácia possível. 
Pode-se afirmar com segurança que a parte mais importante dos códigos 
éticos que regulam os comportamentos dos profissionais da saúde é a que trata 
das relações com os seus pacientes, já que estas constituem o eixo de suas 
atividades. 
A preservação da privacidade do 
paciente, por seu turno, está vinculada ao 
princípio de que tudo que diz respeito à sua 
intimidade lhe pertence, e somente ele 
poderá dela dispor; a proteção dessa 
intimidade se dá por meio da adoção do 
sigilo, que torna a circulação de 
informações relacionadas à intimidade do 
paciente restrita apenas ao círculo 
integrante da relação profissional. 
Evidentemente, tais institutos com o 
consentimento informado e o sigilo 
profissional que se aplicam a todas as 
hipóteses possíveis que ensejem a 
ocorrência da relação entre profissionais e 
pacientes. 
Quando se toma a Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (AIDS) como 
paradigma para este trabalho, leva-se em consideração que não ocorreu, 
propriamente, o surgimento de alguma nova situação para o campo da ética 
clínica; problemas éticos concernentes à AIDS já haviam sido, de algum modo, 
identificados no que tange a outras moléstias transmissíveis. 
A eclosão da AIDS implicou, na verdade, que alguns aspectos éticos da 
relação profissional fossem profundamente revistos e exaustivamente 
rediscutidos, seja em decorrência de aspectos epidemiológicos da infecção, seja 
em razão do caráter dramático que reveste o aparecimento dessa pandemia, 
seja em consequência do prognóstico sombrio que se desenha para o portador 
do agente etiológico da doença. 
 
 
92 
 
A VIDA HUMANA COM VALOR ÉTICO 
 
Qualquer ação humana que tenha algum reflexo sobre as pessoas e seu 
ambiente deve implicar o reconhecimento de valores e uma avaliação de como 
estes poderão ser afetados. 
O primeiro desses valores é a própria pessoa, com as peculiaridades que 
são inerentes à sua natureza, inclusive suas necessidades materiais, psíquicas 
e espirituais. 
Ignorar essa valoração ao praticar atos que produzam algum efeito sobre 
a pessoa humana, seja diretamente sobre ela ou através de modificações do 
meio em que a pessoa existe, é reduzir a pessoa à condição de coisa, retirando 
dela sua dignidade. 
Isto vale tanto para as ações de governo, para as atividades que afetem 
a natureza, para empreendimentos econômicos, para ações individuais ou 
coletivas, como também para a criação e aplicação de tecnologia ou para 
qualquer atividade no campo da ciência. 
 
Bioética e direitos humanos 
 
Dalmo de Abreu Dallari preconiza que entre os valores inerentes à 
condição humana está a vida. Embora a sua origem permaneça um mistério, 
tendo-se conseguido, no máximo, associar elementos que a produzem ou saber 
que em certas condições ela se produz, o que se tem como certo é que sem ela 
a pessoa humana não existe como tal, razão pela qual é de primordial 
importância para a humanidade o respeito à origem, à conservação e à extinção 
da vida. 
O que hoje pode ser afirmado com argumentos sofisticados, após 
milênios de reflexões e discussões filosóficas, foi pensado ou intuído pela 
humanidade há milhões de anos e continua presente no modo de ser de todos 
os grupos humanos, tanto naqueles que se consideram mais avançados como 
nos que vivem em condições julgadas mais rudimentares, como os grupos 
indígenas que ainda vivem isolados nas selvas. 
 
93 
 
Como foi assinalado por Aristóteles e por muitos outros pensadores, e as 
modernas ciências que se ocupam do ser humano e de seu comportamento o 
confirmam, o ser humano é associativo por natureza. Por necessidade material, 
psíquica aqui incluídas as necessidades intelectuais e afetivas, espiritual, todo 
ser humano depende de outros para viver, para desenvolver sua vida e para 
sobreviver. 
A consciência dos direitos humanos é uma conquista fundamental 
da humanidade. 
A Bioética está inserida nessa conquista e, longe de ser opor a ela ou de 
existir numa área autônoma que não a considera, é instrumento valioso para dar 
efetividade aos seus preceitos numa esfera dos conhecimentos e das ações 
humanas diretamente relacionada com a vida, valor e direito fundamental da 
pessoa humana. 
 
 
AUDITORIA 
 
QUESTÃO ÉTICA 
 
 
 
94 
 
ÉTICA 
 
História da questão ética 
 
“Por que a ética voltou a ser um dos temas mais trabalhados do 
pensamento filosófico contemporâneo”? essa foi a indagação feira por José 
Gianotti, renomado cientista social brasileiro, quando iniciou seu artigo 
“Moralidade Pública e Moralidade Privada”, publicado no livro Ética – Vários 
autores, organização de Adauto Novaes, pela editora Companhia das Letras. A 
formulação dessa pergunta ocorreu com base na constatação de evidências 
ocorridas nas duas esferas, pública e privada. 
No início desse século, a presença empresarial privada conheceu a 
necessidade de aperfeiçoamento da gestão da ética em suas organizações. 
Algumas grandes empresas internacionais, entre elas líderes em seus 
respectivos setores de atuação, perceberam que estavam envolvidas enormes 
casos de escândalos corporativos-financeiros Nesse ambiente conturbado, as 
autoridades americanas aprovaram a legislação Sarbanes-Oxley, conhecida 
como SOX, em 30/6/1992, dando reconhecimento a necessidade de atuar com 
força na prevenção, na administração e na punição dos agentes de desvios 
éticos, fraudes e corrupção. A crise de 2008 voltou a expor a impressão de que 
a ética está fora de controle. A verdade é que as organizações, como os seres 
humanos, são imperfeitas. 
No âmbito público, o então Chefe da Casa Civil da Presidência da 
República, Pedro Parente, na Exposição de Motivos no 37, do Código de 
Conduta da Alta Administração Federal, de 18/8/2000 afirmou que “a 
insatisfação social com a conduta ética dos governantes e dos agentes públicos 
não é fenômeno exclusivamente brasileiro e circunstancial. Os países 
democráticos e desenvolvidos também enfrentam ceticismo da opinião pública a 
respeito do comportamento dos administradores públicos e da classe política”. 
No poder executivo brasileiro, o Código de Ética foi incorporado à 
Administração Pública pelo Decreto no 1.171, de 22 de junho de 1994. No 
decorrer do tempo, o trabalho foi sendo aperfeiçoado e regulamentado, criando 
assim o Decreto no 6.029, de 1o de fevereiro de 2007. 
 
95 
 
O BNDES tem a certeza de ter conquistado reconhecimento e respeito 
perante a sociedade brasileira por valorizar as atitudes éticas no exercício das 
atividades de seus empregados. 
A formulação do compromisso do BNDES ligada à administração ética, 
foi regulamentada na Resolução 1.007 da Diretoria, de 26 de junho de 2002, que 
criou o Código de Ética Profissional dos Empregados do Sistema BNDES - 2002. 
Esse regulamento orientou o trabalho desenvolvido na gestão da ética no 
BNDES através da promoção de ações de natureza educativa, da atualização e 
do aperfeiçoamento de suas normas e da apuração e aplicação das penas que 
serão aplicadas nos casos de condutas que vão contra a ética. 
 
Ética e transparência 
 
Incorporar os princípios da ética, honestidade, respeito mútuo, confiança 
entre as partes, integridade e transparência nos negócios, combate o tráfegode 
influências, a oferta ou recepção de suborno e a corrupção na esfera pública e 
privada e influenciar as partes interessadas neste combate. 
 
SUSTENTABILIDADE CORPORATIVA E A ÉTICA 
EMPRESARIAL 
 
É natural as empresas errarem, por mais que os processos sejam 
automatizados, eles foram feitos e são conduzidos por pessoa, e pessoas erram. 
A partir desse ponto de vista, o que faz a diferença entre uma empresa 
sustentável e uma empresa não sustentável é a forma de ela lidar com o erro, já 
que não há como desvincular a ética da sustentabilidade. Uma dúvida a ser 
esclarecida é como imaginar uma empresa capaz de gastar milhões na gestão 
de seus resíduos e ao mesmo tempo manter uma relação danosa com seus 
fornecedores? 
Apesar da chamada era da responsabilidade, as empresas parecem não 
se dar conta de que o consumidor é um de seus principais interessados 
(stakeholders), se não o principal. Muitas vezes a falta de transparência na 
condução de negócios é o principal problema nessa relação. Voltando para a 
 
96 
 
realidade do nosso país, a burocracia, a lentidão e a falta de punições realmente 
educativas, ajudam as empresas a perpetuarem desmandos. 
Temos exemplos clássicos no segmento de telefonia, mas a percepção 
que temos é de que o problema se inseriu na cultura da maioria das empresas, 
independente da área. A questão é que não podemos esperar das empresas a 
ética no seu sentido mais pleno. Se a conjuntura econômica e/ou política 
permitir, elas vão querer potencializar seus lucros sim! Alguém duvida, por 
exemplo, que se a Nestlé fechar sua operação no país hoje, a Unilever sobe 
seus preços amanhã? É natural e faz parte do jogo capitalista. No entanto, nós, 
os consumidores temos um poder que até então não tínhamos: o do alcance da 
palavra. E é com ele que podemos exigir transparência e ética na condução dos 
negócios. 
Existe a necessidade das empresas reverem seus princípios éticos e seus 
comportamentos neste mundo globalizado e diante da rápida difusão de 
informações por meio das ferramentas de comunicação. neste sentido são 
cobradas (ou penalizadas) pelos grupos de interesse (stakeholders) podendo ter 
consequências em suas vendas. 
Com as mudanças do mundo, os acionistas se preocupam com a imagem 
e reputação da empresa, pois reflete nos lucros e na sobrevivência da empresa 
nos mercados a médio e longo prazos. 
 
 
 
 
 
97 
 
PRINCÍPIOS ÉTICOS DO DESENVOLVIMENTO 
SUSTENTÁVEL 
 
Ética da ação efetiva 
 
É a ética do movimento. Desenvolvimento sustentável só se torna 
realidade pela ação. O princípio aqui é que todas as deliberações sobre o 
assunto deverão sempre ir até o estágio da ação efetiva em todas as áreas que 
condicionam a excelência do resultado final (em consonância com o princípio 
ecológico da interdependência e do sistêmico). Nenhuma deliberação sobre 
desenvolvimento sustentável ficará, portanto, tão somente no nível de intenções 
teóricas, que não contemplem soluções criativas, eficazes, que levem à 
superação de todas as barreiras a um efetivo fazer acontecer. A premissa aqui 
é que já dispomos de conhecimento suficiente, teorias suficientemente 
fundamentadas, evidências mais que razoáveis e tecnologias apropriadas para 
tomar todas as decisões necessárias para colocar nosso desenvolvimento na 
direção de uma sustentabilidade muito melhor do que a que temos hoje. Nosso 
problema hoje está na falta de mais ações pragmáticas e velocidade no fazer 
acontecer. Não é ético continuar procrastinando as ações que já sabemos ser 
necessárias. A cada dia de adiamento é possível calcular os impactos sobre a 
sustentabilidade e os problemas que se geram a médios e longos prazos. 
A questão ética passa pelo respeito ao outro. O impacto e as 
externalidades que suas atividades provocam nos diferentes segmentos da 
sociedade passam pelo entendimento que todos são iguais e têm o direito ao 
meio ambiente saudável, a justiça social e benefícios econômicos que 
satisfaçam suas necessidades básicas. 
Conforme a Revista Visões 4a edição, no 4, volume 1, jan./jun. 2008: 
Na Comissão Mundial para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento 
(CMMAD), também conhecida como Comissão de Brundtland, presidida pela 
norueguesa Gro Haalen Brundtland, no processo preparatório a Conferência das 
Nações Unidas – também chamada de “Rio 92” foi desenvolvido um relatório que 
ficou conhecido como “Nosso Futuro Comum”. 
 
98 
 
Tal relatório contém informações colhidas pela comissão ao longo de três 
anos de pesquisa e análise, destacando-se as questões sociais, principalmente 
no que se refere ao uso da terra, sua ocupação, suprimento de água, abrigo e 
serviços sociais, educativos e sanitários, além de administração do crescimento 
urbano. Neste relatório está exposta uma das definições mais difundidas do 
conceito: “o desenvolvimento sustentável é aquele que atende as necessidades 
do presente sem comprometer as possibilidades de as gerações futuras 
atenderem suas próprias necessidades”. 
O relatório Brundland considera que a pobreza generalizada não é mais 
inevitável e que o desenvolvimento de uma cidade deve privilegiar o atendimento 
das necessidades básicas de todos e oferecer oportunidades de melhora de 
qualidade de vida para a população. Um dos principais conceitos debatidos pelo 
relatório foi o de “equidade” como condição para que haja a participação efetiva 
da sociedade na tomada de decisões, através de processos democráticos, para 
o desenvolvimento urbano. O relatório ainda ressaltou, em relação às questões 
urbanas, a necessidade de descentralização das aplicações de recursos 
financeiros e humanos, e a necessidade do poder político favorecer as cidades 
em sua escala local. No tocante aos recursos naturais, avaliou a capacidade da 
biosfera de absorver os efeitos causados pela atividade humana, e afirmou que 
a pobreza já pode ser considerada como um problema ambiental e como um 
tópico fundamental para a busca da sustentabilidade. 
O conceito de desenvolvimento sustentável foi firmado na Agenda 21, 
documento desenvolvido na Conferência “Rio 92”, e incorporado em outras 
agendas mundiais de desenvolvimento e de direitos humanos, mas o conceito 
ainda está em construção segundo a maioria dos autores que escrevem sobre o 
tema, como por exemplo, Carla Canepa (2007), José Eli da Veiga (2005) e Henri 
Ascelard (1999). 
Apesar de ser um conceito questionável por não definir quais são as 
necessidades do presente nem quais serão as do futuro, o relatório de 
Brundtland chamou a atenção do mundo sobre a necessidade de se encontrar 
novas formas de desenvolvimento econômico, sem a redução dos recursos 
naturais e sem danos ao meio ambiente. Além disso, definiu três princípios 
básicos a serem cumpridos: desenvolvimento econômico, proteção ambiental e 
equidade social. Mesmo assim, o referido relatório foi amplamente criticado por 
 
99 
 
apresentar como causa da situação de insustentabilidade do planeta, 
principalmente, o descontrole populacional e a miséria dos países 
subdesenvolvidos, colocando somente como um fator secundário a poluição 
ocasionada nos últimos anos pelos países desenvolvidos. 
 
Maurice Strong, secretário geral da ECO-92, Boutros-Ghali, secretário geral da ONU e 
Fernando Colllor de Mello, presidente da República, sentados em primeiro plano, ouvindo o 
discurso de Fidel Castro , presidente de Cuba, na conferência da ONU durante a ECO-92, no 
auditório principal do Riocentro, no Rio de Janeiro em 1992 (Paulo Jares/VEJA) 
 
ÉTICA DA INTENÇÃO VERDADE 
 
É a ética da não manipulação, da falta de conflito de interesses, da 
ausência do jogo de aparências e do autoengano. O princípio aqui é que todas 
as deliberações sobre desenvolvimento sustentável deverão ser feitas com base 
na intenção de assegurar o melhor para tudo e para todos no planeta de forma 
igualitária e justa, da forma mais transparente possívele sempre com real 
intenção de fazer o necessário acontecer (cumprir efetivamente o que se 
combina). 
Nenhuma deliberação sobre desenvolvimento sustentável portanto 
deverá acontecer em ambientes de pressão (de lobistas ou de grupos de 
interesse segmentado) que conduzam a problemas de conflito de interesses e 
 
100 
 
que desviem o processo decisório dos propósitos nobres e universais inerentes 
ao próprio conceito de sustentabilidade. 
A premissa é que em geral vivemos um ambiente de auto-engano e de 
inversão de valores, em que passamos a achar “normal” o jogo das promessas 
que sabemos que não serão cumpridas, dos acordos de bastidores, das 
intenções ocultas por trás de propostas aparentemente bem intencionadas etc., 
tudo isso afetando a sustentabilidade de nossa evolução. Obviamente nada 
disso é ético em todos os sentidos. Menos ético ainda é fechar os olhos para 
essa realidade e nada fazer a respeito, tornando permanente esse jogo de 
ilusões. A premissa aqui é que todo esse quadro é reversível e essa reversão é 
absolutamente necessária para fazer com que o desenvolvimento sustentável se 
torne efetiva realidade. 
A ética da sustentabilidade pressupõe colaboração entre diversos atores 
sociais e pressupõe solidariedade, parceria na busca de objetivos comuns. 
 
ÉTICA DO RESPEITO GENUÍNO 
 
É a ética do respeito verdadeiro – e não o protocolar, o institucionalizado, 
o genérico – a cada ser vivo do planeta. Desenvolvimento sustentável só 
acontece se esse respeito genuíno estiver presente na sociedade como um todo. 
O princípio neste caso é que todas as deliberações que afetam a 
sustentabilidade da evolução devam ser feitas por pessoas que têm uma 
“sensibilidade vivida” em relação às pessoas que estão sendo afetadas (por 
essas deliberações) e os seres vivos envolvidos. 
Essa sensibilidade não pode estar baseada apenas em relatórios, 
estatísticas e números. O fundamental aqui é que essas pessoas tenham uma 
experiência direta, “olho no olho”, presencial para chegar ao nível de respeito 
necessário (assim evitando decisões no “piloto automático”). Nenhuma 
deliberação sobre desenvolvimento sustentável será feita por pessoas de 
gabinete, sem essa experiência direta. 
A premissa a considerar é que, quando as deliberações se tornam 
“institucionais” nas duas pontas (é um “órgão” que delibera e não pessoas, é um 
agrupamento “x” que está do outro lado e não pessoas), elas perdem o senso 
 
101 
 
de humanidade, se materializar. O mesmo pode acontecer em relação a todos 
os seres vivos que perdem sua individualidade e se tornam até meras 
estatísticas. Não é ético materializar seres vivos, tornando-os não dignos de 
respeito genuíno, o tipo de respeito que temos em relação às pessoas próximas, 
aos nossos animais, às nossas plantas. 
 
 
INSTRUMENTOS DE AUDITORIA 
 
DIÁLOGO COM PARTES INTERESSADAS 
 
Diálogo com as partes interessadas 
 
Confiar no diálogo como o único meio legítimo de realização da 
persuasão, superação de divergências e resolução de conflitos. 
Garantir um relacionamento aberto, transparente e de confiança com as 
diferentes partes interessadas; instituir canais de auscultação das partes 
interessadas e integrar as suas preocupações; reportar de forma credível e 
objetiva o desempenho, na sua vertente económica, ambiental e social. 
Promover, ainda, o diálogo e cooperação com outras entidades públicas 
e privadas e outros movimentos relevantes. 
 
102 
 
 
Diálogo com todos os stakeholders 
 
As soluções viáveis para a sustentabilidade só se podem desenvolver 
através do diálogo com todos os grupos sociais – em nível local, regional e 
internacional. Neste sentido, procuramos sempre falar com todas as partes 
interessadas, incluindo clientes, consumidores, fornecedores, empregados, 
acionistas, comunidades locais, autoridades governamentais, associações, 
ONGs e universidades. Este diálogo mostra-nos os fatores do desenvolvimento 
sustentável particularmente relevantes para os grupos de interesse individual. 
Quanto mais cedo e intensamente conhecermos as opiniões dos nossos 
stakeholders em relação aos futuros desafios sociais, mais depressa os teremos 
em conta nas nossas ações. 
 
103 
 
Este intercâmbio aberto proporciona uma base para o entendimento 
mútuo e uma oportunidade para a aceitação social das nossas ações 
empresariais. É também uma fonte de ideias novas para a empresa e permite-
nos identificar os potenciais riscos associados às nossas ações numa fase 
inicial. 
O diálogo com os grupos de interesse contribui para a gestão da inovação 
e dos riscos, sendo a base para o desenvolvimento da nossa estratégia e 
relatórios de sustentabilidade. 
 
 
 
Relações com stakeholders 
 
O termo stakeholders refere-se a todos aqueles que interagem com as 
organizações afetando ou sendo afetado por elas. A palavra surgiu como 
extensão de shareholder (acionista, proprietário do negócio). Acreditava-se que 
o planejamento da empresa deveria levar em consideração a opinião e as 
conveniências dos acionistas, por serem avaliados como os mais interessados 
da organização. Porém, com a abertura do mercado e o aumento da 
concorrência, essa ideia começou a mudar, passando-se a observar que existem 
vários grupos de interesses que interferem no planejamento da empresa. 
Os stakeholders têm interesse ou exercem impactos sobre a organização, 
ou seja, ou tem desejo de obter algo através da empresa, como por exemplo, os 
 
104 
 
colaboradores que têm interesses econômicos, ou podem causar alterações sob 
a organização dependendo de suas atitudes ou de sua visão sobre ela. Por isso 
é importante saber gerenciar as necessidades conflitantes desses grupos de 
interesses sob a organização. 
Isso pode ser observado através da figura 1 e do quadro 2. Por isso, torna-
se cada vez mais importante conhecer e avaliar os stakeholders, fazendo o 
mapeamento para identificar quem são e quais os tipos de influências que eles 
exercem sob o objetivo da organização. Nesse sentido, vale destacar a tipologia 
de Lucien Matrat que classifica os públicos de acordo com o tipo de poder que 
exercem sob a organização, sendo eles: público de decisão (aquele cuja 
autorização a organização necessita para realizar suas atividades, como por 
exemplo, o governo); público de consulta (consultado pela organização quando 
ela pretende agir, como por exemplo, sindicatos e acionistas); público de 
comportamento (aqueles cuja atitude favorece ou prejudicam as ações da 
empresa, como por exemplo, funcionário e clientes); e público de opinião (os que 
ao manifestarem suas opiniões ou ponto de vista podem influenciar a 
organização, como por exemplo, líderes comunitários, professores universitários 
etc.). 
Existe ainda uma divisão dos stakeholders em dois conjuntos, que seriam 
classificados em primários ou secundários. O conjunto primário é formado por 
acionistas e credores, que possuem direitos legais sobre a organização e seus 
recursos. Os secundários são aqueles que não têm direitos definidos por lei, ou 
que seus direitos são menos claros, ou ainda estão embasados em obrigações 
éticas, com relação aos recursos organizacionais. Esse segundo conjunto é 
formado por comunidade, funcionários, consumidores, entre outros grupos de 
interesses. 
Assim, os stakeholders são os agentes ligados ao negócio que dão 
suporte a seu funcionamento. Estes agentes precisam ser classificados de 
acordo com seus interesses na organização, podendo então a empresa atender 
suas expectativas. A gestão do relacionamento com stakeholders deve começar 
com a identificação dos grupos de interesse mais importantes, priorizando as 
demandas desses grupos por ordem de importância. O quadro 2 mostra alguns 
desses grupos e seus interesses. 
 
105 
 
 
Os stakeholders podem ser beneficiados ou prejudicados a partir dos 
resultados das ações da empresa. Por tudoque foi abordado, percebe-se que 
existe uma relação íntima entre os públicos relacionados e a responsabilidade 
social, sendo que os primeiros são fundamentais para a compreensão da 
abrangência da segunda. 
Assim, a responsabilidade social é ampliada para atingir esses grupos de 
interesses, que devem ser detalhados e analisados pelo planejamento 
estratégico das corporações, pois têm impactos primordiais sob o sucesso ou o 
fracasso da organização, além de serem diferentes de acordo com a natureza 
da organização. 
 
 
106 
 
INDICADORES ETHOS 
 
Indicadores ethos de responsabilidade social empresarial 
 
Os Indicadores Éticos foram desenvolvidos com o propósito de oferecer 
às empresas uma ferramenta de gestão para o diagnóstico e planejamento das 
práticas de responsabilidade social empresarial, disponíveis desde 1999 e 
atualizados ao longo dos anos. 
Trata-se de uma ferramenta de uso essencialmente interno, que permite 
a auto-avaliação da gestão no que diz respeito à incorporação de práticas de 
responsabilidade social, além do planejamento de estratégias e do 
monitoramento do desempenho geral da empresa, abrangendo os seguintes 
temas: valores, transparência e governança, público interno, meio ambiente, 
fornecedores, consumidores e clientes, comunidade e governo e sociedade. 
As empresas podem escolher qual o tipo de questionário que pretendem 
responder: se Éticos, sugerido para grandes e médias empresas, ou o Éticos-
Sebrae, adaptado para micro e pequenas empresas. O conteúdo em ambos os 
tipos é o mesmo, mas a abordagem é diferenciada, dada a complexidade de 
gestão ter suas peculiaridades entre os portes. 
Aplicando os Indicadores Éticos, a empresa terá acesso a um 
autodiagnóstico o qual conterá, além do desempenho nos temas mencionados, 
comparativos com o grupo de benchmark e outras ferramentas e/ou iniciativas 
legítimas em responsabilidade social empresarial, a saber: Norma ABNT NBR 
ISO 26000, Diretrizes da Global Reporting Initiative (G3), Metas do Milênio, 
Pacto Global e a Norma SA8000. 
Os dados fornecidos pelas empresas, assim como as informações do 
relatório de diagnóstico, são tratados com máxima confidencialidade e não são 
divulgados sem o consentimento prévio formalizado. 
 
 
107 
 
Indicadores éticos setoriais de SER 
 
Com o propósito de oferecer relatórios de diagnósticos precisos e 
aprofundados, os Indicadores Éticos Setoriais de Responsabilidade Social 
Empresarial foram desenvolvidos desde 1999 para diversos setores. Para saber 
quais setores já foram contemplados e possuem indicadores setoriais, clique em 
“Indicadores Éticos Setoriais”. 
 
Processo de revisão dos Indicadores éticos – 3a Geração 
 
Com o avanço do movimento de responsabilidade social no Brasil e na 
América Latina, um amplo processo de revisão dos Indicadores Éticos foi 
iniciado em outubro de 2010 para a construção dos Indicadores Éticos – 3a 
Geração, cujo lançamento está previsto para outubro de 2012. 
Por meio de um espaço de troca e aprendizagem, a terceira geração dos 
Indicadores Éticos potencializará sua utilização como ferramenta de gestão para 
o diagnóstico e para o planejamento das práticas de responsabilidade social 
empresarial (RSE). 
 
Indicadores Éticos 
 
O Instituto Éticos de Empresas e Responsabilidade Social foi fundado em 
1998 para auxiliar as empresas a compreender e incorporar os conceitos de 
responsabilidade social em sua gestão. Para isso, desenvolveram um conjunto 
de indicadores que permitem identificar a performance das organizações em 
relação a suas práticas socialmente responsáveis. 
Os indicadores são apresentados em forma de questionário de avaliação 
da empresa dividido em sete temas: valores e transparência; público interno; 
meio ambiente; fornecedores; consumidores/clientes; comunidade; governo e 
sociedade. 
Essas categorias são elencadas no quadro a seguir. 
 
108 
 
 
 
 
109 
 
Modelo IBASE 
 
O Balanço Social IBASE é o modelo mais utilizado e conhecido no Brasil, 
foi lançado em 1997 pelo Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas 
(IBASE), através de uma campanha pela divulgação voluntária do balanço 
social. Portanto, trata-se de um demonstrativo anualmente publicado para tornar 
públicas informações sobre projetos, ações dirigidas a empregados, 
investidores, acionistas e a comunidade, visando a transparência das atividades 
da organização. 
Com o objetivo de simplificar a apresentação dessas informações, o 
IBASE criou um modelo que contempla as seguintes informações: 
• Base de cálculo (receita líquida, resultado operacional, e folha de 
pagamento bruta); 
• Indicadores sociais internos (gastos com alimentação, previdência 
privada, saúde, educação, cultura, capacitação e desenvolvimento profissional, 
creches ou auxílio-creche, participação nos lucros ou resultados e outros 
benefícios); 
• Indicadores sociais externos (somatório dos investimentos na 
comunidade); 
• Indicadores ambientais (investimentos relacionados com a 
produção/operação da empresa, investimentos em programas externos e 
metas anuais); 
• Indicadores do corpo funcional (número de funcionários, de demissões, 
de empregados terceirizados, de estagiários, de empregados acima de 45 
anos, de mulheres, de negros, porcentagem de cargos de chefia ocupados por 
mulheres e por negros e número de portadores de deficiência); e 
• Informações relevantes quanto ao exercício da cidadania empresarial 
(relação entre maior e menor remuneração, total de acidentes, projetos sociais 
e ambientais realizados, padrões de segurança, relação com fornecedores, 
entre outros). 
Para estimular a adesão das empresas existe um selo “Balanço 
Social/Ibase/Betinho” utilizado pelas empresas que adotam o modelo. Além 
disso, anualmente existe o Prêmio Balanço Social paras as empresas que 
apresentam os melhores balanços sociais. 
 
110 
 
Modelo de Hopkins 
 
Segundo Daher (2006, p.113), Hopkins, em 1997, estabeleceu 
indicadores com o intuito de analisar o perfil de responsabilidade social das 
empresas. 
Estes indicadores são subdivididos em três níveis que envolvem: 
 
I. Princípios da Responsabilidade Social; 
II. Processo de Capacidade de Resposta Social; 
III. Resultados/Ações de Responsabilidade Social. 
 
Os indicadores têm a característica de serem genéricos para todas as 
empresas e, para cada um, é sugerida uma forma de medição (ASHLEY, 2005, 
p.95). 
 
No nível I, são observados os princípios da legitimidade, da 
responsabilidade pública e do arbítrio dos executivos. 
No nível II, há dois indicadores agregados às respostas das empresas, 
que se referem à percepção do ambiente e ao gerenciamento dos stakeholders. 
No nível III, são observados os efeitos das ações sob os stakeholders 
internos e externos, além dos efeitos institucionais. 
O Quadro 4 mostra os indicadores utilizados em cada nível do modelo de 
Hopkins. Esses indicadores avaliam a intensidade com que as ações 
desenvolvidas pelas empresas estão motivadas pelos princípios de 
responsabilidade social. 
 
 
111 
 
 
 
112 
 
 
 
 
 
 
113 
 
REFERÊNCIAS 
 
 Linha de Pesquisa Bioética e Saúde da Escola Nacional de Saúde 
Pública. LEXICON – Vocabulário de Filosofia. Disponível em: 
. Acesso em 25 de novembro de 2011. 
PORFÍRIO, Francisco. "Bioética"; Brasil Escola. Disponível em: 
https://brasilescola.uol.com.br/filosofia/bioetica.htm. Acesso em 01 de março de 
2021. 
ECO-92. Disponível em: . 
Acesso em: 5 mar. 2021. 
SOUZA, Camille Couto de. Auditoria de enfermagem: aspectos éticos 
envolvidos na assistência de enfermagem. Salvador, 2011. 
ANDREONI, S: RAVAGLIO,L.M.M. O processo de controle de 
qualidade – R Nursing. São Paulo, n.5, p.13-17, out. de 1998; 
CIANCIARULLO, T. O desenvolvimento ao conhecimento naenfermagem: padrões de conhecimento e sua importância para o cuidar. 
In: CIANCIARULLO, T. et al. Sistema de assistência de enfermagem. Ribeirão 
Preto, v.10, n. 2, p. 145-150, 2002; 
CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM. Documentos Básicos de 
Enfermagem; 
Constituição Federal da República do Brasil, 1998. Decreto nº 94.406, de 
08 de junho de 1987, regulamenta a Lei nº 7.498, de 25 de junho de 1986, que 
dispõe sobre o exercício da Enfermagem, e dar outras providencias; 
FERNANDES, MGM, Assis JF, Barreto E.F. Registros de ações e 
cuidados no contexto da enfermagem clínica. Rev. Nursing. 2001; 37 (4) : 31-
34; 
FERNANDES R.; Salun M. L. Anotações de enfermagem. São Paulo: 
Rev. Esc. Enf. USP, 1981; 
PAULINO, K., Administração em Enfermagem, E-P-U. 2007.é o bem e os seus 
opostos, com os princípios e argumentos que os fundamentam, justificam e 
diferenciam, estes constituem o conteúdo geral da ética teórica. Com muita 
propriedade, George Edward Moore afirma na sua obra Principia Ethica: O que 
é bom? E o que é mau? E ele deu o nome de ética à discussão dessa questão 
e a pergunta sobre como deve definir-se o bom como a questão mais importante 
de toda a ética. 
Este estudo é que se ocupa das ações das pessoas, como o seu agir 
pode ser qualificado de bom ou de mau, é este agir que embaza o conteúdo da 
ética prática. A esse respeito, diz Aristóteles na Ética a Nicômaco: “Não 
pesquisamos para saber o que é a virtude, mas para sermos bons”. 
Essa afirmação esclarece que o interesse de Aristóteles nessa obra é 
basicamente prático. As teorias éticas ou as escolas éticas que apresentam a 
sua doutrina como uma série de normas para agir de modo correto são 
chamadas de éticas normativas. Dentre os diversos tipos de éticas normativas 
cabe destacar a teoria do dever vinculado ao imperativo categórico, de Immanuel 
Kant, e a teoria dos deveres num primeiro momento ou deveres numa primeira 
consideração (prima facie duties), de William David Ross. Essa última teoria tem 
grande influência na teoria conhecida como o principialismo. 
Portanto este princípio traz a questão que, para sermos éticos e bioéticos, 
temos que praticar o Princípio da Não Maleficência (Beneficência), ou seja, não 
somente praticar o mal mas ir muito mais além, fazendo o bem. 
 
11 
 
 
 Crédito: Getty Images 
 
O PRINCÍPIO DA AUTONOMIA E O CONSENTIMENTO 
LIVRE E ESCLARECIDO 
 
Também conhecido como Princípio da Liberdade (Autonomia), este 
princípio leva em consideração a relação médico-paciente, em que este último 
tem o direito a todas as informações pertinentes ao seu estado de saúde, assim 
como ao tratamento a ser prescrito, tendo ainda toda a liberdade para decidir se 
irá ou não se submeter ao tratamento determinado. Em casos em que o paciente 
não possa decidir, seus responsáveis tomaram a decisão. 
Tomar uma decisão é o problema fundamental na relação médico-
paciente, principalmente nos procedimentos de diagnósticos e terapêuticos. O 
impasse criado se impõe nas várias situações que ocorrem: a decisão cabe ao 
médico, aquele que tem experiência e conhece os meios de cura ou ao paciente 
que é arquiteto do seu próprio destino? 
Esta discussão aborda outras questões; uma delas é: qual deve ser a 
postura do médico? Deve contar ao paciente, com detalhes, os procedimentos, 
bom como as condutas de diagnósticos e terapêuticas? Deve, sempre, obter 
consentimento do paciente e familiares para a realização dessas condutas? 
O juramento de Hipócrates tende à postura clássica do médico na relação 
médico-paciente, uma postura virtuosa daquele que está preparado e tende a 
 
12 
 
buscar o bem-estar do próximo, sacrificando seu próprio bem-estar, colocando 
em prática o Princípio da Beneficência. 
Ainda hoje esse juramente se perpetua sendo a expressão máxima e 
alicerce da postura ética da Medicina. 
Como em toda regra, existe uma lacuna que pode ser refletida, o médico 
também tem que deixar o livre arbítrio do paciente decidir. 
O juramento se baseia na moral medica e no apogeu do período da cultura 
grega no final do séc. V e séc. IV a.C. A herança da medicina sacerdotal tinha 
como obrigação guardar os segredos sobre a doutrina. Simboliza a divisão dos 
homens, separados pela ciência oculta que só era acessível a poucos. 
Começa a divisão entre o profissional e o leigo, expressa nas palavras 
finais do Nomos hipocrático: “As coisas consagradas só devem ser reveladas 
aos homens consagrados; é vedado revelá-las aos profanos, uma vez que não 
estão iniciados nos mistérios do saber”. 
Porém, nessa época, aparece um novo tipo de médico na Grécia, o 
profissional da medicina-ciência, que esquece o cunho religioso. Esse novo 
profissional converteu a medicina grega em uma arte consciente e metódica, 
baseadas em fatos verdadeiros, deixando as concepções religiosas e filosóficas. 
Com o passar dos tempos, o médico que já não era mais ligado ao 
misterioso, ao oculto, buscava formas de expor e se comunicar com os 
pacientes, afim de encontrar um caminho inteligível nessa relação. Surge assim 
a literatura médica, que se destina às pessoas leigas. 
Com essa divulgação, nasce um novo intelectual, “o homem culto em 
Medicina” mesmo não possuindo todos os conhecimentos e especialidades, ele 
cria matérias que se destinam à grande massa ignorante. 
O momento ideal para transmitir ao leigo a informação do médico é 
durante o relacionamento com o paciente. Antigamente a relação entre médico 
– paciente era muito adversa; existia o médico de escravo, um médico frio e 
tirano, que não dava informação alguma sobre os procedimentos, e o médico 
dos homens livres, que expunha detalhadamente cada tipo de procedimento e 
diagnóstico. Platão vê nessa conduta médica, baseada no esclarecimento 
detalhado do paciente, o real ideal da terapêutica cientifica. 
A busca de uma relação mais harmoniosa entre paciente e médico por 
meio do esclarecimento é o princípio da ciência médica recém criada, ainda que 
 
13 
 
existam vestígios da medicina sacerdotal. As ideias da ciência médica davam 
um tom de absolutismo e de controle ao médico, nascendo a conduta autoritária 
e paternalista deste para com o paciente. Durante o período medieval a medicina 
era aplicada por teólogos, moralista e confessores, assim o médico tinha plenos 
poderes. 
Com a Revolução Francesa, o Renascimento, a redescoberta do espírito 
da Grécia clássica traz novas luzes ao conhecimento humano. A arte é a primeira 
a ressurgir, seguida pela filosofia e pela ciência. O pensamento humano começa 
a ressuscitar os ideais da cultura grega e os anseios de liberdade e democracia 
renascem. Criam-se os ideais modernos que teriam a forma dos direitos 
humanos. 
No séc. XVIII, quando a democracia ressurge, ela não é apenas um poder 
do povo, mas também um direito de cada um. 
Na relação médico-paciente, o até então leigo não era considerado mais 
só como o incompetente físico, mas também moral, por isso devia ser conduzido 
em ambos os campos pelo seu médico. Assim, essa relação continuava sendo 
tradicionalmente paternalista e absolutista. 
Em 1969, nos Estados Unidos, por um acordo entre um grupo de 
associações de consumidores e usuários e a Comissão Americana de 
Credenciamento de Hospitais (JCAH), surgiu um documento que é considerado 
a primeira carta de Direitos do Paciente, sob a perspectiva do usuário de 
hospitais. 
Em 1973, o Departamento de Saúde, Educação e Bem-Estar recomendou 
aos hospitais e outras entidades de saúde que adotassem e distribuíssem 
declarações de direitos dos pacientes. Nesse mesmo ano, a Associação 
Americana dos Hospitais (AHA) aprovou uma Carta de Direitos do Paciente. 
Outros países passaram a adotar essas medidas. O movimento pelos 
direitos do paciente, nos Estados Unidos, não se originou de uma luta social pela 
liberdade, mas pelos direitos do consumidor, isto é, quem paga pelo serviço tem 
direito à qualidade do atendimento. 
À medida que essa ideia se divulgava, o seu caráter sofria mudanças e 
seus limites se expandiam. Os avanços tecnológicos criaram um grande ramo 
para reflexão, a Bioética. 
 
14 
 
Visualizando, atualmente, esses fenômenos dentro da perspectiva 
histórica, as Declarações de Direitos do Paciente, somadas aos 
questionamentos de ordem ética surgidos com os avanços tecnológicos e ao 
aparecimento da Bioética, provocaram na ética dos profissionais de saúde uma 
verdadeira revolução – que poderia ser enfocada como a chegada da Revolução 
Francesa na Medicina, ou melhor dito, nas Ciências da Saúde. 
A Revolução Francesa estabeleceu três princípios básicos para que os 
homens pudessem viver com dignidade: liberdade,igualdade e fraternidade. 
Na Bioética, a relação médico-paciente pode reduzir-se a três tipos de 
agentes: o médico, o paciente e a sociedade, cada um com um significado moral 
específico: o paciente atua guiado pelo princípio da autonomia, o médico pelo 
da beneficência e a sociedade pelo da justiça. 
A autonomia corresponde, nesse sentido, ao princípio de liberdade, a 
beneficência ao de fraternidade e a justiça ao de igualdade. Autonomia é um 
termo derivado do grego “auto” (próprio) e “nomos” (lei, regra, norma). Significa 
autogoverno, autodeterminação da pessoa de tomar decisões que afetem sua 
vida, sua saúde, sua integridade físico-psíquica, suas relações sociais. Refere-
se à capacidade de o ser humano decidir o que é “bom”, ou o que é seu “bem-
estar”. 
A pessoa autônoma é aquela que tem liberdade de pensamento, é livre 
de coações internas ou externas para escolher entre as alternativas que lhe são 
apresentadas. Para que exista uma ação autônoma (liberdade de decidir, de 
optar) é também necessária a existência de alternativas de ação ou que seja 
possível que o agente as crie, pois se existe apenas um único caminho a ser 
seguido, uma única forma de algo ser realizado, não há propriamente o exercício 
da autonomia. Além da liberdade de opção, o ato autônomo também pressupõe 
haver liberdade de ação, requer que a pessoa seja capaz de agir conforme as 
escolhas feitas e as decisões tomadas. 
Logo, quando não há liberdade de pensamento, nem de alternativas, 
quando se tem apenas uma opção de escolha, ou ainda quando não existe 
liberdade de agir conforme a alternativa ou opção desejada, a ação empreendida 
não pode ser julgada autônoma. 
A evolução histórica do respeito à autonomia, ou seja, a conquista do 
respeito à autonomia é um fenômeno histórico bastante recente, que vem 
 
15 
 
deslocando pouco a pouco os princípios da beneficência e da não maleficência 
como prevalentes nas ações de assistência à saúde. A partir dos anos 1960, 
movimentos de defesa dos direitos fundamentais da cidadania e, 
especificamente, dos reivindicativos do direito à saúde e humanização dos 
serviços de saúde vêm ampliando a consciência dos indivíduos acerca de sua 
condição de agentes autônomos. 
Desde a década de 1980 no Brasil, os códigos de ética profissional vêm 
tentando estabelecer uma relação dos profissionais com seus pacientes, na qual 
o princípio da autonomia tenda a ser ampliado. Em nosso País, cresce a 
discussão e a elaboração de normas deontológicas sobre as questões que 
envolvem as relações da assistência à saúde, contendo os direitos fundamentais 
que devem reger a vida do ser humano. 
O princípio da 
autonomia não deve ser 
confundido com o princípio do 
respeito da autonomia de outra 
pessoa. Respeitar a autonomia 
é reconhecer que ao indivíduo 
cabe possuir certos pontos de 
vista e que é ele quem deve 
deliberar e tomar decisões 
segundo seu próprio plano de vida e ação, embasado em crenças, aspirações e 
valores próprios, mesmo quando divirjam daqueles dominantes na sociedade ou 
daqueles aceitos pelos profissionais de saúde. O respeito à autonomia requer 
que se tolerem crenças, escolhas das pessoas desde que não constituam 
ameaça a outras pessoas ou à coletividade. Afinal, cabe sempre lembrar que o 
corpo, a dor, o sofrimento, a doença são da própria pessoa. 
 
O respeito pela autonomia da pessoa conjuga-se com o princípio da 
dignidade da natureza humana, aceitando que o ser humano é um fim em si 
mesmo, não somente um meio de satisfação de interesses de terceiros, 
comerciais, industriais, ou dos próprios profissionais e serviços de saúde. 
 
 
16 
 
Certamente que não se espera que a autonomia individual seja total, 
completa. Autonomia completa é um ideal a ser buscado. 
O homem não é totalmente autônomo, mas isso não significa que sua vida 
esteja totalmente determinada por emoções, fatores econômicos e sociais ou 
influências religiosas. 
Apesar de todos os condicionantes, o ser humano tem sua margem 
própria de decisão e ação. 
 
O PRINCÍPIO DA JUSTIÇA 
Partindo da Justiça Distributiva, os avanços técnico-científicos devem 
beneficiar a sociedade como um todo e não apenas alguns grupos privilegiados. 
Para isso a Bioética é dividida em dimensões: 
»» Dimensão pessoal: estuda a relação entre os profissionais 
responsáveis e seus pacientes, respeitando a liberdade e individualidade dos 
envolvidos. 
»» Dimensão social, econômica e política: objetiva estabelecer critérios 
para determinar a alocação e distribuição de recursos, reduzindo as diferenças 
econômicas e sociais dentro dos universos envolvidos, podendo ser em um país 
ou entre os países. Destacam-se: alocação de recursos financeiro, patentes, 
desequilíbrio entre países ricos e pobres e principalmente a fome. 
»» Dimensões ecológicas: é pauta desta discussão a ecologia como 
proteção ao meio ambiente, exploração com responsabilidade ambiental dos 
recursos naturais, a desertificação, a poluição com destruição da camada de 
ozônio, extinção de espécies, equilíbrio ecológico, utilização de animais e 
plantas em condições éticas, proteção da qualidade de vida dos animais, 
desequilíbrio entre países ricos e pobres, problemas nucleares e proteção da 
biodiversidade. 
»» Dimensão pedagógica: trata de buscar alternativas que visem 
melhorar o ensino e a aprendizagem nas instituições. 
»» Dimensões biológicas ou bioética especial: destacam-se a 
engenharia genética e os organismos geneticamente modificados, 
especialmente o começo da vida, com o diagnóstico pré-natal, o abortamento 
provocado, a reanimação do recém-nascido, a terapia gênica, eugenia, 
 
17 
 
reprodução medicamental assistida, clonagem, transplante de órgãos, 
experimentação animal e em humanos, eutanásia e distanásia. 
 
Com ênfase na importância das discussões em bioética, do seu caráter 
transdisciplinar, busca-se fazer com que a ciência evite o uso indiscriminado das 
novas tecnologias sem a comprovação de sua eficácia, usando-as somente após 
possuir o conhecimento e a sabedoria suficientes para utilizá-las em benefício 
da humanidade e não em seu detrimento. 
Nesse propósito, a Bioética permitirá que a sociedade decida sobre as 
tecnologias que lhe convêm. 
 
BIOÉTICA: DO PRINCIPIALISMO À BUSCA DE UMA 
PERSPECTIVA LATINO-AMERICANA 
Leisinger traz a política de saúde como uma ramificação da Bioética, 
apesar de ser ainda uma disciplina nova. Mas existe um enorme fosso que 
separa a realidade de saúde norte-americana em comparação com os outros 
países em desenvolvimento. Vale registrar: 
Enquanto nós começamos a enfrentar alguns de nossos complexos problemas 
de saúde com a engenharia genética, centenas de milhões de pessoas nos 
países em desenvolvimento sofrem de malária, filariose, esquistossomose, 
doença de Chagas ou mal de Hansen. Nenhuma dessas doenças _ que são 
perfeitamente preveníveis e/ou curáveis estão sendo controlada de uma forma 
satisfatória e, para algumas delas, a situação está em franca deterioração. 
. 
Segundo este autor, a Bioética não considera a política dos países 
pobres. Ressalta que cabe uma consideração quanto a um desenvolvimento 
sustentável que satisfaça as necessidades humanas mais básicas, 
considerando que muitas 
vezes as populações destes 
países são privadas de 
provisões de comida, 
educação básica, água potável 
 
18 
 
e facilidades sanitárias, assim como também habitação e cuidados básicos 
deveriam ser priorizados. 
 
Da ética filosófica à ética em saúde. Ética e conhecimento 
 
Ao situarmos a ética na conjuntura das dimensões culturais, deparamo-
nos de início com um primeiro problema: como dissociá-la de outras 
manifestações como, por exemplo, o conhecimento e a religião? É cabível uma 
separação de tal maneira que a ética se componha como uma instância 
independente da cultura transparente em sua definição de especificidade?Pela 
importância da ética, é natural colocar em campo próprio; partindo dele 
poderemos reconhecer um modo singular de existir, primeiro como ser humano 
(característico), depois demarcando com clareza entre as dimensões da 
existência. Entretanto é nessa demarcação, na busca do entendimento, que as 
dificuldades abundam. Estas, quando, tentamos fazer a distinção entre ética e 
conhecimento. 
Na tentativa de compreensão do mundo, seguimos fazendo juízos que 
nos possibilitam a assimilação da verdade dos fatos (daí surgem juízo mais 
abstratos). Saber das coisas é dizer como elas são e, racionalmente, aprender 
as relações que interligam os fenômenos. 
Nossa percepção e observação, nos levam a julgamentos a respeito da 
própria realidade em que estamos inseridos, isto é, o julgar e o observar nos 
permite, de maneira mais ampla e mais geral, a avaliar como se comportam os 
fenômenos. 
Costuma-se separar conhecimento e moral considerando que os juízos 
emanados pela ciência são da ordem do ser e os juízos, propriamente, morais 
na ordem do que devem ser. A ciência trata da realidade assim como ela é; e a 
moral da realidade em seu estado pretendido (deve ser). 
Aristóteles reconhecia que o saber acerca das coisas inclui 
necessariamente o conhecimento das causas de seu aparecimento e de seu 
modo de ser. 
 
19 
 
Não seria necessário só entender como os fatos se produzem, mas seria 
preciso compreender a função de cada um no conjunto e as razões da ordem 
estabelecida. 
Afirmamos não somente que as coisas são desta ou daquela forma e 
também que é bom desta maneira, ou que é mau, ou que poderiam ser de outra 
jeito. É difícil olhar as coisas e não lhe taxar um valor apesar do modo cartesiano 
nos disciplinar o modo de julgamento. 
Provavelmente persista na mentalidade do senso comum, e 
necessariamente naquilo que o cientista tem de homem comum, algo do 
animismo da relação primitiva com o mundo, que fazia com que todas as coisas 
aparecessem como benéficas ou maléficas, ultrapassando poderes que 
interferiam na vida e nas ações humanas. 
Conhecer, neste caso, era também saber como aproveitar o caráter 
benéfico e propiciatório ou conjurar o mal que as coisas poderiam causar. A 
ciência eliminou esta valorização primeiramente pelo conhecimento das causas 
materiais que regem o comportamento dos seres naturais e, em segundo lugar, 
estabelecendo leis gerais e necessárias que nos permitem prever este 
comportamento para, desta forma, dominá-lo. O mundo deixa de ser enigma 
quando o conhecimento se torna sinônimo de determinação necessária. 
 
Critérios éticos 
 
Aristóteles não acreditava na dificuldade do estabelecimento de 
parâmetros de necessidades para as ações essenciais para os critérios aos 
quais conferimos às ações este ou aquele valor. Para ele, não é possível que, 
baseados em condições gerais e necessárias, estabelecidas, possamos conferir 
o valor ético das ações. 
Por não ser regido pela necessidade, o universo das ações humanas julga 
segundo a ética, não o faz na mesma ótica daquele que conhece os objetos 
físicos, aquele que agindo moralmente não o faz, semelhantemente, àquele que 
analisa a causalidade, intrinsecamente, presente na conexão dos fenômenos. É 
conhecida a interrogação de socrática acerca da possibilidade de se ensinar a 
virtude. 
 
20 
 
Ensinar alguma coisa supõe saber com certeza o que esta coisa é para 
poder transmiti-la com clareza àquele que vai aprender. Há dúvida se o homem 
de bem sabe com absoluta segurança teórica o que é o bem. Nesta prática do 
bem supõe este saber, mas será possível saber, ensinar e aprender moral como 
sabemos, aprendemos e ensinamos geometria? A resposta é não, e a razão 
disto é a diferença que existe entre conhecimento teórico e conhecimento 
prático. 
O conhecimento teórico se constitui como saber acerca do que é 
necessário. O conhecimento prático se constitui como saber acerca do que é 
contingente. 
O saber prático é quem atribui aos juízos morais suas oscilações e 
dificuldades. Daí é que os julgamentos e as decisões morais estão envolvidas e 
serão influenciadas por fatores que, no campo teórico, têm pouca ou nenhuma 
influência. Isso se dá pelo fato de que nestes assuntos não é possível uma 
demonstração, não da mesma forma que ocorre nas ciências teóricas. O bem e 
o mal não possuem o caráter coercitivo, próprios da verdade e do erro. Chegar 
ao que é certo em moral não ocorre como a solução em um teorema. 
São claras as ideias de que a existência do bem está diretamente 
interligada à verdade absoluta da essência da ética. A verdade científica reflete 
as demonstrações necessárias as suas conexões o bem, por sua vez, está 
inserido nas contingências dos fatos humanos, impossibilitando, assim, sua 
demonstração. Pressupõe-se a relatividade das coisas humanas. Política e ética 
compartilham deste atributo. Isso não implica um relativismo absoluto, o que 
decorreria na inviabilidade de critérios que não os essencialmente 
circunstanciais e subjetivos. A normatividade a contingência é o desafio da ética, 
porque não resta dúvida de que quem age moralmente o faz segundo normas 
que não são somente relativas à pessoa e ao momento. 
O homem não é um ser que se determina apenas por um aspecto. O 
termo animal racional, a mais antiga definição teórica do homem, mostra por si 
mesma a dualidade de aspectos. 
Na qualidade de animal, o homem tem algo que o vincula aos seres 
puramente naturais. Na qualidade de racional, tem algo que o diferencie. Se 
permanecemos no contexto da sensação e da percepção, estamos falando de 
tipos de representação que, embora eventualmente mais aperfeiçoadas no 
 
21 
 
homem, não distinguem essencialmente do que acontece no caso dos animais, 
que são capazes não apenas de sentir e perceber como também de estabelecer 
relações de consecução, como o cão que foge quando seu dono pega um 
bastão, se acaso aconteceu de já ter sido espancado. 
Porém, somente o homem é capaz de emitir juízos, ou seja, ligar um caso 
particular com uma ideia geral, por definição não imediatamente presente na 
situação empírica dada. A origem destas ideias gerais, mesmo no que se refere 
ao mundo natural, é problema que foi resolvido de diversas formas na história 
do pensamento. Ainda assim não há como explicar o juízo sem este tipo de 
vinculação. 
O que se questiona no caso da ética é: que espécie de generalidade 
ligamos ao particular quando formulamos juízos morais? Como já sabemos que 
na Ética formulamos juízos de valor, responderíamos que são os valores que 
remetemos aos termos dos juízos morais. 
Expondo isto, mostramos uma outra questão, que é a da generalidade 
dos valores e do fundamento desta universalidade. 
A questão das bases da ética, assim como os juízos acerca de fatos, os 
juízos de valor também se remetem à generalidade. Ao admirarmos, em alguém, 
sua generosidade, o que fazemos é perceber que esse alguém adota, como 
fundamento de suas ações, um valor primaz em relação à individualidade do 
homem. E ao fazermos isso julgamos compreendendo que o mundo seria melhor 
se todos agissem desta maneira. 
O intento é o domínio racional que se traduzirá concretamente na 
submissão da natureza às necessidades humanas e na expansão da técnica 
como extensão da ciência, que deve realizar praticamente o domínio do homem 
sobre o mundo. 
Kant define como a maioridade do gênero humano, isto é, a capacidade 
de utilização plena da razão, sem a submissão a dogmas ou a autoridades; 
portanto, o exercício maduro da liberdade. Mas como definir a liberdade? Se 
analisarmos o que ocorre na ciência, verificaremos que a racionalidade da 
experiência consiste justamente em compreender a necessidade que, a partir de 
princípios lógicos do entendimento, governa a natureza. Isto significa que, no 
âmbito da experiência de conhecimento, que é o domínio da razão teórica, não 
sepode falar em liberdade, pois tudo a que temos acesso é uma conexão de 
 
22 
 
fenômenos logicamente sistematizada, mas caracterizada justamente pela 
inseparabilidade de causa e efeito, condição e condicionado. 
Sempre haverá, na ordem da experiência, que é a ordem da teoria, 
fenômenos condicionados, por mais longe que formos na cadeia dos eventos 
naturais. Isto faz parte do determinismo da natureza e é o que possibilita a 
ciência, no rigor das suas explicações. Assim, a liberdade terá que ser procurada 
fora do campo da experiência e da razão teórica. Kant estabelece, então, o 
domínio da razão prática em que é possível pensar a liberdade e reivindicá-la 
para o sujeito moral, mas nunca para um objeto natural. Esta divisão permite que 
se fale como que de dois mundos: um em que as coisas estão rigorosamente 
determinadas, pois não existe efeito sem causa; outro em que o sujeito moral, 
no plano das decisões éticas que nada tem a ver com o plano dos eventos 
empíricos, pode escolher e optar, atuando assim como causa livre, isto é, como 
aquele tipo de causa que nunca se encontra no universo dos fenômenos. Com 
isto as ações humanas podem ser remetidas à liberdade do sujeito, quer dizer, 
a algo que não atua determinadamente, mas que pode iniciar absolutamente 
uma série de ações. 
Para Kant, esta liberdade corresponde a autonomia de que deve ser 
dotado o sujeito nas suas decisões morais, autonomia que deve ser absoluta, ou 
seja, nenhum motivo de qualquer ordem pode interferir na decisão do sujeito, 
sob pena de contaminar a vontade com elementos que a tornariam dependente 
de outra coisa que não ela mesma. Mas, então, qual o critério para a decisão 
moral, se absolutamente nada pode interferir? O critério é a forma da 
universalidade que deve orientar a ação. Somente a forma atinge a pureza que 
o ato moral deve revestir. 
Qualquer conteúdo, por mais geral que seja, constituirá uma motivação 
extrínseca e comprometerá a autonomia do ato moral. Quando estamos diante 
de uma decisão moral devemos perguntar: o que ocorreria se esta ação fosse 
adotada universalmente? Devemos agir como se o critério de nossa ação 
devesse estender-se universalmente. 
Qualquer ato que não seja susceptível de universalização se contradiz em 
termos morais. O que se percebe é o esforço de Kant para encontrar o critério 
universal que deveria pautar o juízo moral. A radicalidade com que ele concebe 
este critério o faz encontrá-lo somente na esfera do formal. Assim, o que Kant 
 
23 
 
chama de prático não corresponde à esfera da contingência, mas a um mundo 
inteligível no qual a pura racionalidade da norma universal garante a moralidade 
do ato. Por isto o próprio Kant nos diz que, dentro de tais parâmetros, jamais 
houve um só ato moral praticado pela humanidade, porém, isto não o impede de 
formular o que o ato moral deve ser, na coerência lógica que teria de caracterizá-
lo, independentemente das condições concretas de realização, fundamento e 
experiência moral. O que sobretudo impressiona nesta concepção formalista da 
moral é a separação drástica entre os planos do ser e o do dever ser. Não se 
trata apenas de separar o conhecimento teórico ou científico da moral, mas de 
separar todos os aspectos da vida concreta da realização ética. 
Independentemente da apreciação que possamos fazer da teoria kantiana, o 
importante é perguntar o que isto significa no processo histórico da civilização 
moderna. No limiar da contemporaneidade, numa época em que a ciência 
calcada no modelo newtoniano alcança a plenitude de suas possibilidades, o 
homem é separado como que em dois sujeitos: o teórico, que realiza o ideal de 
certeza absoluta no interior dos limites do conhecimento científico, e o moral, 
que, para compreender-se na esfera de sua liberdade, é obrigado a colocar esta 
liberdade numa altura transcendental em que ela se situa distante do plano da 
experiência. Talvez possamos ver nesta solução a que chega a filosofia crítica 
uma espécie de consolidação do caminho tomado pela modernidade. 
O que Kant percebe é que, na continuidade do teor unitário da 
racionalidade, instituído por Descartes, não seria possível dar conta da moral, 
pois a racionalidade científica não atinge o plano dos requisitos do ato moral, 
autonomia e liberdade. Isto o levou a conceber uma outra esfera de 
racionalidade na qual os critérios de determinação teórica não teriam vigência. 
E com isto separou o conhecimento da ação, ao menos naquilo que a ação 
comporta de decisão moral. 
Podemos mensurar a amplitude deste acontecimento lembrando que, no 
caso do saber prático afirmado por Aristóteles, o sujeito discriminava no seio da 
possibilidade o meio de realizar a ação que guardasse alguma adequação com 
o bem absoluto. Kant tem isso como princípio formal, que a razão pensa a parte 
do mundo concreto, vai dispor a respeito da moralidade, isto é, da concordância 
da ação à moral. Isto implica na tentativa de ligar a universalidade formal à ação. 
Assim, o mundo da contingências se diferencia de um universo logicamente 
 
24 
 
necessário como o da ciência exatamente dada à impossibilidade desta 
vinculação. Por esta razão a moralidade, dita, kantiana acaba sendo muito mais 
um ideal de que devemos nos aproximar do que um critério de discernimento 
para a experiência moral concreta. 
Uma ética com um único juízo, que se confunde com um dado 
incontestável de realidade: a liberdade. Aceitá-la é lucidez e autenticidade; o 
contrário é má-fé. O existencialismo está na margem das éticas que partem de 
uma profunda reflexão a respeito da situação humana, bem como a reflexão à 
apresenta. Procura então uma maneira de proporcionar o encontro do homem 
consigo próprio e com a história a partir da consciência, entendida agora não 
mais como essência, mas como projeto. Mas há outra corrente cuja 
manifestação é a matriz do pensamento ético, e nesta linha estão as éticas 
utilitaristas. A relatividade cultural dos valores aparece, assim, de forma mais 
nítida, pois é a perspectiva histórico-sociológica que procura dar conta do 
estabelecimento e das mudanças dos critérios morais. Existe uma contingência 
na prescrição dos valores, porém ela age em prol da coesão social. Trata-se de 
uma figura da racionalidade técnica que se estrutura por parâmetros seletamente 
utilitários. 
 
ÉTICA E PROGRESSO DA RAZÃO 
 
A característica da modernidade é a hegemonia da razão, que tem em 
seu mais importante ramo, a ciência e os seus seguimentos tecnológicos. Esta 
hegemonia, na verdade, jamais fora posta à prova; porém no século XX vê uma 
crítica, historicamente concreta, que procedem de reflexão vinda da relação 
entre meios e fins nos feitos da razão. Um problema ético, mas apresentado de 
forma mais abrangente. A possibilidade de união entre a teoria e a práxis, que 
corresponderia a uma simetria entre o progresso científico-técnico e o aumento 
da felicidade, não se confirmou. 
O homem da modernidade já não submete às injunções que traduziam, 
por exemplo, o elo do homem medieval com as instâncias do sacro, solidificadas 
nas imposições dos dogmas e da autoridade religiosa. Tampouco se encontra 
submetido às forças naturais, que a ciência explicou e dominou. Entretanto o 
 
25 
 
progresso da razão gerou novas modelos de dominação ideológica, que se 
enraizaram nos campos social, político, econômico e que tem no capitalismo os 
requisitos necessários para se firmar, por exemplo, no domínio da produção, 
essencialmente vinculada ao aperfeiçoamento dos meios técnicos de 
transformação da natureza. 
Em um mundo em que impera a razão liberada, questiona-se a vida 
efetiva e emancipada do homem; ou seja, em sua plena autonomia na condição 
de requisito da vida ética. 
A emancipação não se realizou, pois, as condições do progresso técnico 
fizeram com que as instâncias de controle em todos os parâmetros da vida se 
tornassemautônomos, de imediata consequência a submissão do indivíduo a 
tais mecanismos num mundo totalmente administrado. 
Estas instâncias de controle não pesam sobre o indivíduo como a 
fatalidade das forças naturais ou a autoridade eclesiástica. 
Em um mundo regido pelo progresso técnico, estas foram 
convencionadas como medidas racionais absolutamente necessárias. Inferimos 
que foram interiorizadas na consciência do homem moderno como princípios 
naturais de relacionamento com os outros e com o mundo. Esta autonomização 
dos critérios de racionalidade acarretou uma inversão entre os meios e os fins: 
o que redundou na dificuldade de se dimensionar no mundo contemporâneo a 
capacidade de discernir os fins à possibilidade de mobilizar os meios. Jamais os 
meios foram tão abundantes e ao mesmo tempo tão distantes das finalidades 
que eles deveriam atender. 
Nunca se dispôs de tantos meios, e nunca eles estiveram tão distanciados 
dos fins a que deveriam servir. Enfim, associar meios e fins é problema ético. O 
contemporâneo é inepto no estabelecimento desta relação contemplando o 
prático, ou seja, a totalidade da realização humana, como fim do progresso 
técnico. O que se observa, então, é um ciclo em que as condições do progresso 
técnico se comportam como se este fosse uma finalidade em si mesmo. Tornar 
racional do social, do político, do econômico e até da cultura é administrar todos 
estes parâmetros da vida pela ótica da objetividade técnica, consubstanciando-
se, fundamentalmente, na supremacia tecnocrática. 
Manifesta-se a clara crise que aflige o mundo atual e que, do ponto de 
vista ético, é a tecnocracia a contradição em termos. Se ela mesma coordena a 
 
26 
 
aplicação dos meios às finalidades, esta relação acaba se estabelecendo no 
interior da própria técnica. Este é o motivo pelo qual a planificação tecnocrática 
não produz efeitos fora do próprio meio técnico. Vistos os fatos no limiar, o que 
caracteriza uma tal cultura é a recusa da ética. Vivemos num mundo técnica e 
administrativamente ordenado, de modo unilateral, pela alternância entre 
progresso técnico e satisfação de necessidades criadas na própria esfera da 
produção. Consumo é contrapartida tecnológica e não finalidade de produção. 
O que marca a presente situação e dificulta tal busca de soluções é que a crise 
da ética provém de um desdobramento de atributos e consequências inerentes 
à própria racionalidade técnica e ao progresso científico e tecnológico ocorrido a 
partir dela. Para aqueles que consideram imprescindíveis os rumos da história 
da razão na modernidade, o momento que estamos vivendo deve ser entendido 
como consequência necessária, mesmo porque seria insensato pensar em 
soluções que representassem retrocesso em relação ao já conquistado pela 
ciência moderna. A dependência da civilização em relação aos produtos da 
ciência e da técnica afasta do horizonte histórico este tipo de hipótese. 
 
Crise da razão e ética aplicadas 
 
A emergência das éticas aplicadas, entre as quais está a ética da saúde, 
responde a uma dupla necessidade: de um lado, tenta-se encurtar a distância 
que se abriu na modernidade, entre ética e conhecimento; de outro, procuram-
se instrumentos para recolocar questões pertinentes à relação entre ciência e 
valor, relação rompida por conjunturas históricas, sobretudo contemporâneas, 
que contribuíram para o aparecimento de dúvidas profundas a respeito do 
significado e amplitude do progresso científico. 
A hegemonia da racionalidade técnica já não permite que o pensamento 
acerca da vida prática, que os antigos definiam discernimento, realize-se numa 
situação independente autônoma, gerando parâmetros de conduta tais que 
resultassem numa manutenção da densidade do espaço público, isto é, o plano 
das relações sociais e da ação política. A liberdade nas sociedades capitalistas 
modernas exauriram o orbe da vida prática, pois impulsionados por estas passou 
a ser considerada a simples possibilidade de decidir individualmente sobre 
 
27 
 
assuntos privados. As mesmas causas que influíram para a ocorrência disso 
também fomentaram formas de reação que baseadas em tentativas de adaptar 
a reflexão ética à diversidade dos domínios das especializações. 
Existe uma subordinação da ética ao processo de especialização e de 
fragmentação do saber. A outra face desta atitude nos mostra, no entanto, um 
esforço para recompor, dentro de certos limites, o interesse ético que deve fazer 
parte da atuação do pesquisador e do profissional, principalmente quando os 
fatos indicam que a ausência de preocupação ética ocasiona a transgressão das 
fronteiras que separam o humano do inumano. 
Foi devido a razões como essas que a Bioética surgiu a partir da pressão 
de fatos históricos, reveladores de práticas de pesquisa das quais estava 
ausente qualquer parâmetro de consideração da dignidade do ser humano. 
Após a Segunda Guerra, tomou-se conhecimento de práticas 
experimentais em seres humanos, conduzidas sob o nazismo por médicos e 
cientistas, que ultrapassavam qualquer expectativa imaginável de degradação. 
A primeira manifestação de caráter mais sistemático e normativo a respeito do 
assunto consta do Código de Nuremberg, que estabelece regras a serem 
observadas quanto à experimentação com seres humanos. 
Dentre os preceitos formulados destacam-se: a necessidade de 
consentimento daqueles que serão submetidos ao experimento; o 
consentimento deve ser dado livremente, por pessoas que estejam em plena 
capacidade de decisão e às quais devem ser explicadas com absoluta clareza 
todas as condições do experimento, quais sejam, natureza, duração, objetivos, 
métodos, riscos, efeitos e inconvenientes. 
A ética orienta que não se deve optar por experimentos em seres 
humanos quando houver outros procedimentos compatíveis com os resultados 
esperados. Os experimentos em seres humanos, quando absolutamente 
essenciais, devem ser precedidos de experiências com animais, de modo a 
prover o pesquisador de um razoável conhecimento acerca do problema 
estudado. Deve-se reduzir ao mínimos incômodos decorridos do experimento, e 
este não deve ser conduzido se houver risco razoável de dano grave e 
permanente. 
Esta visão, que pode parecer pessimista auxilia-nos a compreender as 
ambiguidades do progresso e a prevenir as monstruosidades que ele pode dar 
 
28 
 
à luz. É nesta direção que podemos 
entender as preocupações éticas que 
se expressam nos códigos de conduta 
e em outros conjuntos de normas 
aplicadas às pesquisas e às 
profissões. A Bioética é a ética da vida, 
quer dizer, de todas as ciências e 
derivações técnicas que pesquisam, manipulam e curam os seres vivos. 
A ética da saúde ocupa lugar proeminente neste conjunto, uma vez que 
se ocupa de questões que têm a ver com a manutenção da vida no caso dos 
seres humanos. Sendo a vida o primeiro de todos os direitos, a ética da saúde 
enraíza-se profundamente no solo dos direitos humanos, e no seu estudo 
vamos encontrar, como regras de normatização, alguns dos grandes princípios 
que vimos aparecer no percurso da ética filosófica. 
É preciso conhecer a realidade e as situações sobre as quais se vai 
exercer o juízo ético; mas fazer com que este juízo traduza uma mera justificação 
do que existe é propriamente renunciar à ética. 
 
BIOÉTICA E CIÊNCIA 
Até onde avançar sem agredir 
 
Os avanços alcançados pelo desenvolvimento científico e tecnológico nos 
campos da Biologia e da Saúde, principalmente nos últimos trinta anos, têm 
colocado a humanidade frente a situações até pouco tempo inimagináveis. São 
praticamente diárias as notícias provenientes das mais diferentes partes do 
mundo que relatam a utilização de novos métodos investigativos e/ou de 
técnicas desconhecidas, a descoberta de medicamentos mais eficazes e o 
controle de doenças tidas até agora como fora de controle. Se, por um lado, 
todas essasconquistas trazem na sua esteira renovadas esperanças de 
melhoria da qualidade de vida, por outro, criam uma série de contradições que 
necessitam ser analisadas responsavelmente com vistas ao equilíbrio e bem-
estar futuro da espécie humana e da própria vida no planeta. 
 
29 
 
Hans Jonas (1990) foi um dos autores que se debruçou com mais 
propriedade sobre esse tema, ressaltando a impotência da Ética e da Filosofia 
contemporâneas frente ao homem tecnológico, que possui tantos poderes não 
só para desorganizar como também para mudar radicalmente os fundamentos 
da vida, de criar e destruir a si mesmo. Ao mesmo tempo que gera novos seres 
humanos por meio do domínio das complexas técnicas de fecundação assistida, 
agride diariamente o meio ambiente do qual depende a manutenção futura da 
espécie. 
O surgimento de novas doenças infectocontagiosas e de diversos tipos 
de câncer, assim como a destruição da camada de ozônio, a devastação de 
florestas e a persistência de velhos problemas relacionados com a saúde dos 
trabalhadores (como a silicose), são “invenções” desse mesmo “homem 
tecnológico”, que oscila suas ações entre a criação de novos benefícios 
extraordinários e a insólita destruição de si mesmo e da natureza. 
Ao contrário do que muitos pensam, a atual pauta bioética internacional 
não diz respeito somente às situações emergentes, proporcionadas por 
avanços como aqueles alcançados no campo da engenharia genética e seus 
desdobramentos (projeto genoma humano, clonagem etc.), mas também às 
situações persistentes, relacionadas principalmente com a falta de 
universalidade no acesso das pessoas aos bens de consumo sanitário e à 
utilização equânime desses benefícios por todos os cidadãos indistintamente 
(GARRAFA, 1998). 
Considerando essas duas situações, portanto, a humanidade se vê 
atualmente às voltas não apenas com alguns velhos dilemas éticos que 
persistem teimosamente desde a antiguidade, como também com os novos 
conflitos decorrentes da marcha acelerada do progresso. Juntamente com seus 
inquestionáveis benefícios, a “biotecnociência”, para utilizar um neologismo 
proposto por Schramm (SCHRAMM, 1996, p. 109-127), pode, 
contraditoriamente, proporcionar a ampliação dos problemas de exclusão social 
hoje constatados. 
Como impedir, por exemplo, que os conhecimentos recentemente 
alcançados sobre as probabilidades de uma pessoa vir a desenvolver 
determinada doença no futuro devido a uma falha em seu código genético (como 
nos casos da doença de Huntington) não sejam transformados em novas formas 
 
30 
 
de discriminação por parte das companhias seguradoras responsáveis pelos 
chamados “planos de saúde”? (MORELLI in: BENER; LEONE, 1994. p. 287-
292). 
Tudo isso se torna mais dramático quando se sabe que o perfil 
populacional mundial tem sofrido transformações profundas a partir da elevação 
da esperança de vida ao nascer das pessoas (em anos), aliada ao fenômeno da 
globalização econômica que produz uma crescente e insólita concentração da 
renda mundial nas mãos de poucas nações, empresas e pessoas privilegiadas. 
Dentro desse complexo contexto, merecem menção, ainda, o aumento 
dos custos sanitários mediante a criação e a expansão de tecnologias de ponta 
que possibilitam novas formas de diagnóstico e de tratamento, o 
recrudescimento de algumas doenças que já estiveram sob controle (como a 
tuberculose, febre amarela, dengue, malária e outras) e o surgimento de novas 
enfermidades (como a aids). 
 
Moral, ética e pesquisa científica 
 
Alguns dos principais bioeticistas que têm-se dedicado a estudar a ética 
e a moral, bem como suas relações com situações que envolvem a vida no 
planeta, de uma forma geral, procuram considerá-las como sinônimos 
(ENGELHARDT, 1998; MORI, 1994. p. 332-341; SINGER, 1994. p. 1-23). 
Mesmo assim, nas disciplinas e cursos de Bioética em várias universidades, de 
1994 para cá, têm-se utilizado, para fins didáticos, alguns parâmetros 
diferenciais entre as duas. Essa diferenciação tem-se revelado útil no sentido de 
uma melhor compreensão de alguns temas mais conflitivos e fronteiriços da 
análise bioética, principalmente quando os interlocutores são alunos dos cursos 
de graduação. 
Em resumo, se, por um 
lado, o significado etimológico 
de ética e moral é similar, por 
outro, existe uma diferença 
historicamente determinada 
entre ambas. A moral romana 
 
31 
 
é uma espécie de tradução latina de ética, mas que acabou adquirindo uma 
conotação formal e imperativa, que direciona ao aspecto jurídico e não ao 
natural, a partir da antiga polarização secularmente verificada, e especialmente 
forte naquela época, entre o “bem” e o “mal”, o “certo” e o “errado”, o “justo” e o 
“injusto” (GARRAFA, 1995. p. 20-24). Para os gregos, o ethos indicava o 
conjunto de comportamentos e hábitos constitutivos de uma verdadeira 
“segunda natureza” do homem. Na “Ética a Nicômacos”, Aristóteles interpretava 
a ética como a reflexão filosófica sobre o agir humano e suas finalidades 
(ARISTÓTELES, 1992). Com base na interpretação aristotélica, a ética passou 
posteriormente a ser referida como uma espécie de “ciência” da moral. Na 
prática, no entanto, a discussão persiste até hoje. 
 
 
A manipulação da vida e o tema dos “limites” 
 
A questão da “manipulação da vida” pode ser contemplada sob variados 
ângulos: “biotecnocientífico”, político, econômico, social, jurídico, moral etc. Em 
respeito à liberdade individual e coletiva conquistada pela humanidade através 
dos tempos, a pluralidade constatada neste final do século XX requer que o 
estudo bioético do assunto contemple, na medida do possível e de forma 
multidisciplinar, todas essas possibilidades. 
Com relação à vida futura do planeta, não deverão ser regras rígidas ou 
“limites” exatos que estabelecerão até onde o ser humano poderá ou deverá 
chegar. Para justificar essa posição, vale a pena levar em consideração alguns 
argumentos de Morin sobre os sistemas dinâmicos complexos. 
 
32 
 
Abordando o tema da “ética para a era tecnológica”, Casals traz o assunto 
para a esfera da responsabilidade individual dizendo que trata-se de atingir o 
equilíbrio entre o extremo poder da tecnologia e a consciência de cada um, bem 
como da sociedade em seu conjunto: Os avanços tecnológicos nos remetem 
sempre à responsabilidade individual, bem como ao questionamento ético das 
pessoas envolvidas no debate, especialmente aquelas que protagonizam as 
tomadas de decisões. (CASALS, 1997. p. 65-84) 
A força da ciência e da técnica está, exatamente, em apresentar-se como 
uma lógica utópica de libertação, que pode levar-nos a sonhar para o futuro 
inclusive com a imortalidade. 
 
“Endeusamento” versus “demonização” da ciência 
 
Com relação às ciências biomédicas, as reflexões morais emanadas de 
diferentes setores da sociedade mostram hoje duas tendências antagônicas. De 
um lado existe uma radical bioética racional e justificativa, por meio da qual 
tudo aquilo que pode ser feito, deve ser feito. No extremo oposto, cresce uma 
tendência conservadora, baseada no medo de que nosso futuro seja invadido 
por tecnologias ameaçadoras, levando seus defensores à procura de um 
culpado, erroneamente identificado na matriz das novas técnicas na própria 
ciência. 
Nesse quadro complexo, a bioética pode vir a ser usada por alguns como 
instrumento para afirmar doutrinas anti-científicas e, por outros, ser considerada 
como um obstáculo impertinente ao trabalho dos cientistas e ao desenvolvimento 
bioindustrial; ou ainda, como um instrumento para negar o valor da ciência (ou 
como validação de posições anti-científicas) ou então para justificá-la a qualquer 
custo (BERLINGUER; GARRAFA, 1996). 
De acordo com a ordem polarizada das coisas, o mundo moderno poderá 
desaguar em uma crescente “confusão diabólica” ou na resolução de todos 
problemas da espécie humana por meio do progressocientífico. As duas 
hipóteses incorrem no risco de alimentar, na esfera cultural, o dogmatismo, e, na 
esfera prática, a passividade. Se, por um lado, são inúmeros os caminhos a 
serem escolhidos para que a terra se transforme num verdadeiro inferno, são 
 
33 
 
também infinitas as possibilidades de utilização positiva das descobertas 
científicas. O embate entre valores e interesses sobre cada uma das opções é 
um dado real, inextinguível e construtivo sob muitos aspectos. A adoção de 
normas e comportamentos moralmente aceitáveis e praticamente úteis requer, 
por todas razões já expostas, tanto o confronto quanto a convergência das várias 
tendências e exigências. (GARRAFA; BERLINGUER, 1996. p. 5) 
 
Pluralidade e tolerância, participação e responsabilidade, 
equidade e justiça distributiva 
 
Toda essa desorganização de ideias e práticas comprometem 
diretamente a própria espécie humana, que se tornou interdependente em 
relação aos fatos, ainda que por sorte se mantenha diversificada em termos de 
história, leis e cultura. A relação entre interdependência, diversidade e liberdade 
poderá tornar-se um fator positivo somente no caso das escolhas práticas e das 
orientações bioéticas terem reforçadas suas tendências ao pluralismo e à 
tolerância. 
A intolerância e a unilateralidade, porém, são fenômenos frequentes tanto 
nos comportamentos relacionados às situações persistentes quanto nas atitudes 
que se referem aos problemas emergentes surgidos mais recentemente e que 
crescem todos os dias. 
Quanto aos comportamentos, pode-se citar, por exemplo, o 
ressurgimento do racismo na Europa e em outras partes do mundo e cujas bases 
culturais estão exatamente em negar o fato de que as etnias pertencem ao 
domínio comum da espécie humana e em confundir o conceito de “diferença” 
com o de “inferioridade”. Para as atitudes com relação aos problemas 
“emergentes”, pode-se recordar a decisão do presidente norte-americano Bill 
Clinton de proibir as pesquisas de clonagem com seres humanos e cortar todo 
possível auxílio governamental para elas, contrariando as sugestões de uma 
comissão nacional de bioética por ele convocada. 
Dentro do tema da democracia e desenvolvimento da ciência, não se 
pode deixar de tratar da questão do controle social sobre qualquer atividade 
que seja de interesse coletivo e/ou público. 
 
34 
 
A ética é um dos melhores antídotos contra 
qualquer forma de autoritarismo e de tentativas 
espúrias de manipulações. 
 
 
REPRODUÇÃO ASSISTIDA 
 
A Igreja Católica e a reprodução assistida 
 
Dos diversos assuntos que mais provocam debates situam-se aqueles 
referentes à reprodução humana, em vista do forte componente religioso, moral 
e ético que envolve a questão. O dogmatismo da Igreja Católica sobre o tema, 
desde o início da era cristã, dando uma conotação divina à reprodução humana, 
tornou, durante quase dois mil anos, essa discussão proibida, ou, pelo menos, 
restrita a grupos de pensadores e filósofos que ousaram desafiar os dogmas 
estabelecidos. 
No Novo Testamento, no Evangelho segundo S. João, lê-se: “Os quais 
não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do varão, 
mas de Deus” – por si só esta asserção impõe um silêncio sobre a questão da 
reprodução e não admite discussão. 
 
35 
 
A influência de diversas religiões, principalmente da católica, sobre o 
assunto, levou à aceitação de que a reprodução humana era uma manifestação 
exclusiva da vontade de Deus e, portanto, seria inadmissível sua discussão pelo 
homem. A interferência humana no processo reprodutivo constituía uma 
agressão à vontade de Deus. Esse dogma perdurou durante séculos, mantendo 
a humanidade sob a doutrina de uma religião que impunha seus conceitos a 
todos, religiosos ou não, em uma atitude claramente coercitiva que não 
reconhecia a diversidade do pensamento humano. 
 
Considerações 
 
É sempre preferível confiar mais no progresso e nos avanços culturais e 
morais que em certas normas jurídicas. Existem de fato zonas de fronteira nas 
aplicações da ciência. Levando em consideração a velocidade do progresso 
“biotecnocientífico” é, contudo, impossível reconstruir rapidamente certas 
referências ou valores que possam vir a ser compartilhados por todos, a menos 
que se insista na alternativa da imposição autoritária e unilateral de valores. A 
solução está, então, em verificarmos se é possível trabalhar para a definição de 
um conjunto de condições de compatibilidade entre pontos de vista que 
permanecerão diferentes, mas cuja diversidade não implique necessariamente 
um conflito catastrófico ou uma radical incompatibilidade (RODOTÁ, 1993. p. 9). 
É oportuno levantar, neste ponto, o importante papel formador desempenhado 
pela mídia (virtual, impressa, falada e televisionada), que deve avançar do 
patamar do simples entretenimento em direção à abertura de debates públicos 
relacionados e comprometidos com temas de interesse comum. 
O grande nó relacionado com a questão da manipulação da vida humana 
não está na utilização em si de novas tecnologias ainda não assimiladas 
moralmente pela sociedade, mas no seu controle. E esse controle deve-se dar 
em patamar diferente ao dos planos científicos e tecnológicos: o controle é 
ético. É prudente lembrar que a ética sobrevive sem a ciência e a técnica; sua 
existência não depende delas. A ciência e a técnica, no entanto, não podem 
prescindir da ética, sob pena de transformarem-se em armas desastrosas para 
 
36 
 
o futuro da humanidade nas mãos de minorias poderosas e/ou mal-
intencionadas. 
 
Reprodução assistida 
 
A reprodução assistida, ou 
fecundação assistida, compreende duas 
técnicas: a inseminação artificial, isto é, a 
introdução de forma artificial dos 
espermatozoides no aparelho genital 
feminino, e a fecundação in vitro, ou seja, a 
extração do óvulo da mulher e sua fecundação externa. Estas técnicas têm por 
finalidade a procriação e também o controle ou tratamento de doenças 
genéticas. 
A inseminação artificial é utilizada há muito tempo para a obtenção de 
animais com determinadas características selecionadas. Atualmente é também 
utilizada nos seres humanos, no caso de infertilidade. Quando o marido é estéril, 
mas a mulher é capaz de conceber e engravidar, podem recorrer à inseminação 
artificial através de um doador. No período da ovulação, o esperma do doador é 
introduzido na vagina da mulher, junto ao colo do útero. No caso de o homem 
ser fecundo e a mulher ser estéril ou correr o risco de transmitir uma anomalia 
genética, o processo de inseminação artificial também pode ser utilizado. Neste 
caso, o homem cede o esperma destinado a inseminar uma mulher que esteja 
de acordo em conceber a criança. A mulher transforma-se, então, em mãe-
portadora. 
 
BIOÉTICA E ABORTO 
 
O tema do aborto é, entre a totalidade das situações analisadas pela 
Bioética, aquele sobre o qual mais se tem escrito, debatido e realizado 
congressos científicos e discussões públicas. Isso não significa, no entanto, que 
tenham ocorrido avanços substanciais sobre a questão nestes últimos anos ou 
mesmo que se tenham alcançado alguns consensos morais democráticos, ainda 
que temporários, para o problema. Ao contrário. A problemática do aborto é um 
 
37 
 
exemplo nítido tanto da dificuldade de estabelecer diálogos sociais frente a 
posições morais distintas quanto do obstáculo em criar um discurso acadêmico 
independente sobre a questão, uma vez que a paixão argumentativa é a tônica 
dos escritos sobre o assunto. Para um não iniciado, a maior dificuldade ao ser 
apresentado à literatura relativa ao aborto é discernir quais são os argumentos 
filosóficos e científicos consistentes entre a infinidade de manipulações retóricas 
que visam apenas arrebatar multidões para o campo de batalha travado sobre o 
aborto. 
 
Nesse contexto, não é tarefa fácil apresentar um panorama

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