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1 APRESENTAÇÃO Em diferentes fases da vida, as pessoas podem precisar de apoio para realizar atividades básicas do dia a dia, como higiene pessoal, alimentação, locomoção, uso de medicamentos prescritos, ida a consultas e manutenção de um ambiente doméstico seguro. Essas necessidades podem envolver crianças, adultos, pessoas idosas, pessoas com deficiência, pessoas acamadas ou em recuperação de doenças, cirurgias e internações. A atuação do cuidador de pessoas deve ser compreendida como uma prática baseada em apoio, atenção, respeito, responsabilidade e princípios éticos. Segundo Boff (1999), o cuidado envolve não apenas uma ação, mas uma atitude de compromisso, preocupação e envolvimento com o outro. É importante destacar que o cuidador não realiza funções exclusivas de profissionais da Enfermagem, Medicina, Fisioterapia ou de outras áreas da saúde. Seu papel está voltado ao auxílio nas atividades cotidianas, à observação de alterações no estado geral da pessoa cuidada, à comunicação com a família e à busca de apoio profissional quando necessário. O estudo apresenta relevância acadêmica e prática, pois o enfermeiro, em sua rotina profissional, muitas vezes orienta familiares, cuidadores formais e informais. Conforme Mendes e Marques (2018), o enfermeiro tem papel importante na capacitação do cuidador, por estar próximo da pessoa doente e de sua família. Cabe a esse profissional identificar as necessidades da pessoa cuidada, planejar ações de cuidado, orientar medidas de segurança, prevenir agravos e supervisionar práticas relacionadas à saúde, sempre respeitando os limites legais e éticos da Enfermagem. 2 OBJETIVOS DA APRENDIZAGEM Compreender o papel do cuidador de pessoas no apoio às atividades de vida diária, na promoção da segurança, no respeito à dignidade humana e na articulação com a equipe de saúde. Conhecer o conceito de cuidador de pessoas e sua importância social e sanitária. Identificar as principais atividades realizadas pelo cuidador no domicílio, em instituições e em outros espaços de cuidado. Reconhecer os limites da atuação do cuidador em relação às práticas privativas dos profissionais de enfermagem. Compreender cuidados básicos relacionados à higiene, alimentação, mobilidade, segurança, comunicação e prevenção de agravos. Discutir a importância da ética, da humanização, do respeito à autonomia e da proteção da pessoa cuidada. Orientar medidas de autocuidado para o cuidador, prevenindo sobrecarga física e emocional. 3 CONCEITO DE CUIDADOR DE PESSOAS O cuidador é a pessoa que presta apoio a quem perdeu, total ou parcialmente, a autonomia para tarefas básicas como higiene, alimentação, locomoção, uso de medicamentos, consultas e manutenção de um ambiente seguro. Essa dependência pode resultar de idade avançada, doenças agudas ou crônicas, deficiências físicas ou cognitivas, fragilidade ou situações temporárias de recuperação pós-operatória. O cuidado pode ocorrer em casa, instituições de longa permanência, hospitais, clínicas, escolas ou qualquer local que exija acompanhamento, e cada cenário traz exigências diferentes. As orientações do Ministério da Saúde (2008) recomendam uma assistência integral, que leve em conta história de vida, valores, limites físicos e emocionais e necessidades específicas da pessoa cuidada. Entre as atividades do cuidador estão ajudar na higiene, oferecer refeições, facilitar deslocamentos, promover conforto, organizar o espaço e acompanhar consultas, sempre em sintonia com a família e a equipe multiprofissional. Há dois tipos de cuidadores. O formal exerce a atividade como trabalho remunerado após capacitação; o informal é, em geral, parente, vizinho ou amigo que assume a responsabilidade sem vínculo profissional. Ambos necessitam de orientação para evitar quedas, lesões por pressão, engasgos, infecções, sofrimento emocional e piora do estado de saúde. Com o rápido envelhecimento da população brasileira, confirmado pelo Censo de 2022, mostrado no gráfico abaixo, cresce a demanda por cuidadores, tornando esse tema prioridade sobretudo para enfermeiros, responsáveis por formar, supervisionar e apoiar quem cuida (DINIZ et al., 2018). Gráfico 1: Crescimento da população idosa no Brasil Fonte: IBGE, 2023 4 O CUIDADO COMO PRÁTICA HUMANIZADA Cuidar vai muito além de tarefas técnicas. É um encontro humano que pede escuta atenta, olhar sensível, respeito à singularidade e proteção da dignidade. Para Boff (1999), é uma atitude de responsabilidade e afeto pelo outro. Pessoas dependentes muitas vezes sentem medo, vergonha, tristeza ou irritação por perder autonomia. Essas emoções são compreensíveis. Por isso, o cuidador precisa ter paciência, falar em tom calmo e agir com respeito, pois, como lembra Waldow (2008), o cuidado envolve compaixão e solidariedade. A humanização aparece em gestos simples: chamar a pessoa pelo nome, manter a privacidade durante o banho, explicar cada procedimento e incluí-la nas decisões. Mesmo dependente, ela continua sendo sujeito de desejos e direitos. O cuidador deve evitar infantilizar ou tratar com grosseria, pois, como afirmam Merhy e Feuerwerker (2009), o cuidado é encontro entre sujeitos. Na Enfermagem, cuidar de forma humanizada significa ver o ser humano por inteiro: corpo, emoções, família, ambiente, cultura, espiritualidade e condições sociais. Horta (1979) já lembrava que o ser humano é indivisível. Orientado pela equipe, especialmente pelo enfermeiro, o cuidador torna-se aliado estratégico: sua presença constante ajuda a notar mudanças sutis e prevenir complicações. 5 PERFIL DO CUIDADOR O cuidador de pessoas precisa desenvolver algumas características importantes para realizar sua função com segurança (CÂMARA et al., 2016). Figura 1 – Característica do cuidador Fonte: Baseado em Câmara et al. (2016) No âmbito da prestação de cuidados, não se pressupõe que o cuidador detenha a totalidade dos saberes técnico-científicos. A competência central esperada reside, antes, na capacidade de reconhecer os próprios limites de atuação e na mobilização oportuna de recursos da rede de atenção à saúde. Tal discernimento clínico constitui competência fundamental para a segurança do paciente e para a prevenção de eventos adversos no domicílio. O cuidador deve estar apto a identificar sinais de alerta que indiquem agravamento do quadro clínico e que exijam intervenção profissional imediata. Entre as manifestações que demandam comunicação imediata à família e acionamento do serviço de saúde, destacam-se: dor de forte intensidade, dispneia, febre persistente, confusão mental de instalação súbita, queda, hemorragia, engasgo grave, crise convulsiva, alterações na coloração da pele ou mucosas e piora rápida do estado geral. A rápida tomada de decisão diante desses sinais reflete a articulação entre a vigilância em saúde e a clínica ampliada, prevenindo desfechos desfavoráveis. A prática do cuidado domiciliar confere ao cuidador uma observação rigorosa dos princípios éticos e bioéticos, com especial atenção no respeito à privacidade e à confidencialidade. Informações relativas à condição de saúde, esquemas medicamentosos, dinâmica e conflitos familiares, documentação, situação financeira e rotina da pessoa cuidada estão protegidas pelo dever de sigilo, não devendo ser partilhadas com terceiros. Tal postura encontra fundamento no princípio da dignidade da pessoa humana e na preservação da autonomia do sujeito cuidado, pilares do agir ético em Enfermagem (SOUSA, 2011). 6 LIMITES ENTRE CUIDADOR E PROFISSIONAL DE ENFERMAGEM A delimitação entre as atribuições do cuidador e as do profissional de Enfermagem é estruturante para a segurança assistencial no contexto domiciliar. O cuidador presta suporte nas atividades de vida diária, alimentação,higiene, conforto, deambulação sem configurar exercício profissional. Já o profissional de Enfermagem detém formação técnica ou superior, registro no Conselho Regional e competência legal para executar cuidados sistematizados, conforme estabelece a Lei nº 7.498/1986, que regulamenta o exercício da Enfermagem no Brasil e define as atividades privativas de cada categoria. O Conselho Federal de Enfermagem, por meio do Parecer de Câmara Técnica nº 08/2018/CTLN/COFEN, orienta que práticas de Enfermagem não devem integrar a formação de cuidadores de idosos, por pertencerem exclusivamente ao campo profissional. Disso decorre que o cuidador não está autorizado a realizar administração de medicamentos por via parenteral, sondagens, curativos complexos, aspiração de vias aéreas, avaliação clínica especializada, retirada de suturas, punção venosa ou qualquer decisão sobre condutas terapêuticas. Quanto aos medicamentos, sua atuação restringe-se a lembrar horários já prescritos, auxiliar na organização da rotina e observar eventos adversos como recusa, vômito ou sonolência excessiva, comunicando imediatamente qualquer intercorrência à família e ao profissional responsável. Para a Enfermagem, essa separação de papéis é muito importante. O enfermeiro deve orientar o cuidador de forma segura, sem transferir responsabilidades privativas da profissão, pois a delegação indevida configura infração ética e expõe a pessoa cuidada a riscos evitáveis. A atuação em equipe é necessária à integralidade do cuidado, mas sustenta-se unicamente quando cada agente opera dentro dos limites de sua competência legal e técnica condição para um cuidado domiciliar seguro, ético e centrado nas necessidades da pessoa assistida. 7 AVALIAÇÃO INICIAL DO CUIDADO A sistematização do cuidado demanda, preliminarmente, uma coleta de dados abrangente acerca do sujeito a ser acompanhado. Esta etapa contempla a investigação de aspectos clínicos relevantes, diagnóstico, funcionalidade, mobilidade, terapêutica farmacológica e alergias, bem como elementos comportamentais e sociais, tais como rotina diária, padrões nutricionais, preferências pessoais e rede de suporte para situações críticas (Horta, 1979). O cuidador domiciliar desempenha papel estratégico na vigilância contínua, contribuindo para o processo através da observação criterioso de indicadores simples e objetivamente mensuráveis: padrões de ingesta alimentar, qualidade e quantidade do sono, frequência e características das eliminações, sinais vitais, disposição física, estado emocional, presença e características álgicas, além de manifestações respiratórias, neurológicas e tegumentares (Backes et al., 2008). Fluxograma 2: Avaliação inicial do cuidado Fonte: Baseado em Cofen (2024) 9 HIGIENE E CONFORTO A higiene é um dos cuidados mais importantes para manter saúde, conforto e autoestima. Ela ajuda a prevenir infecções, mau odor, lesões na pele e desconforto. A pessoa cuidada deve ser estimulada a fazer o máximo que conseguir sozinha. O cuidador deve ajudar apenas no que for necessário, preservando a autonomia (CEZARIN et al., 2025). O banho deve ser realizado com segurança. O ambiente precisa estar limpo, sem objetos espalhados, com piso seco ou antiderrapante e temperatura agradável. Antes do banho, o cuidador deve separar toalha, roupa limpa, sabonete, fralda, creme, pente e outros materiais. Durante o banho, deve observar a pele, principalmente regiões de dobras, costas, nádegas, calcanhares, cotovelos e áreas de contato com fraldas ou colchão (GOMES et al., 2025). A higiene íntima deve ser feita com respeito e privacidade. O cuidador deve explicar o que será feito, cobrir partes do corpo que não estão sendo higienizadas e evitar exposição desnecessária. Em pessoas acamadas, a mudança de posição e a higiene adequada ajudam a reduzir risco de lesões por pressão. Figura 3: A higiene deve preservar conforto, privacidade e segurança. Fonte: Ministério da Saúde (2008) 10 ALIMENTAÇÃO E HIDRATAÇÃO A alimentação adequada contribui para força, imunidade, cicatrização, disposição e qualidade de vida. O cuidador deve respeitar a dieta prescrita, os horários e as orientações de profissionais da saúde. Pessoas com diabetes, hipertensão, doenças renais, disfagia ou uso de sonda precisam de cuidados específicos. Durante a alimentação, a pessoa deve estar sentada ou com cabeceira elevada. Isso reduz o risco de engasgo e aspiração. O cuidador deve oferecer pequenas porções, observar mastigação, deglutição, tosse, cansaço e recusa alimentar. Nunca se deve alimentar uma pessoa deitada, sonolenta ou com dificuldade importante para engolir sem orientação profissional. A hidratação também precisa ser acompanhada. Boca seca, urina escura, tontura, fraqueza, confusão mental e pele ressecada podem indicar baixa ingestão de líquidos, principalmente em pessoas idosas. Porém, algumas pessoas possuem restrição hídrica por problemas cardíacos ou renais. Nesses casos, a quantidade de líquidos deve seguir orientação profissional (SARAIVA et al., 2025). Figura 4 – Orientações para alimentação segura Fonte: Saraiva et al. (2025) 11 MOBILIDADE, TRANSFERÊNCIA E PREVENÇÃO DE QUEDAS A mobilidade está relacionada à capacidade de se movimentar, levantar, caminhar, sentar e mudar de posição. Quando a pessoa perde mobilidade, aumenta o risco de quedas, rigidez muscular, dor, constipação, lesões na pele e perda de independência. O cuidador deve estimular movimentos seguros, respeitando as limitações da pessoa. Caminhadas curtas, mudanças de posição, alongamentos simples orientados por profissional e participação nas atividades diárias ajudam a manter funcionalidade. A OMS destaca que o cuidado integrado à pessoa idosa deve buscar manter a capacidade funcional e a autonomia pelo maior tempo possível (OMS, 2017). A prevenção de quedas exige atenção ao ambiente. Tapetes soltos, fios no chão, pisos molhados, pouca iluminação, móveis no caminho, calçados inadequados e falta de barras de apoio aumentam o risco de acidentes. A pessoa deve levantar devagar, principalmente se usa medicamentos para pressão, calmantes ou diuréticos. Gráfico 2: Fatores que aumentam o risco de quedas Fonte: Elaborado com base em OMS (2017) 10 CUIDADOS COM A PELE E PREVENÇÃO DE LESÕES POR PRESSÃO Pessoas acamadas, com baixa mobilidade, incontinência urinária ou fecal, desnutrição e pele frágil apresentam maior risco de lesões por pressão. Essas lesões surgem quando uma área do corpo fica pressionada por muito tempo, prejudicando a circulação local. As regiões mais comuns são sacro, calcanhares, quadris, cotovelos, tornozelos e parte de trás da cabeça. O cuidador deve observar a pele todos os dias. Vermelhidão que não desaparece, bolhas, feridas, dor, calor local, escurecimento da pele ou secreção devem ser comunicados à equipe de saúde. Não se deve massagear áreas avermelhadas com força, pois isso pode piorar a lesão. A prevenção envolve mudança de posição, pele limpa e seca, hidratação da pele, alimentação adequada, uso correto de fraldas, roupas sem dobras e colchão indicado quando houver orientação profissional. Curativos em feridas abertas devem ser feitos por profissional habilitado ou conforme prescrição e orientação da equipe de saúde (SÃO JOSÉ et al., 2025). Figura 5 – Cuidados para prevenir as lesões por pressão Fonte: São José et al. (2025) 11 MEDICAMENTOS E SEGURANÇA A administração de medicamentos no ambiente domiciliar demanda rigorosa segurança. Ao cuidador não compete, sob qualquer circunstância, a alteração de doses, a modificação de horários, a suspensão de fármacos ou a indicação de medicamentos, mesmo aqueles isentos de prescrição. Sua função restringe-se a colaborar na manutenção da rotina terapêuticapreviamente estabelecida, em estrita conformidade com as orientações fornecidas pela família e pelos profissionais de saúde responsáveis pelo acompanhamento do caso. Estratégias de organização, mostrado na figura 6 abaixo, demonstram-se eficazes para a redução de erros e a promoção da adesão terapêutica. A ocorrência de sinais sugestivos de reações adversas a medicamentos exige atenção imediata e comunicação tempestiva. Manifestações como alergia cutânea, prurido, edema facial, dispneia, sonolência de forte intensidade, vômitos persistentes, confusão mental, hipotensão ou síncope subsequentes à administração medicamentosa configuram eventos potencialmente graves, demandando acionamento da família e busca por serviço de saúde sem postergação. Conforme discutido por Santos (2025), a vigilância ativa de eventos adversos no domicílio, articulada à comunicação efetiva com a equipe de saúde, representa estratégia fundamental para a segurança do paciente e a prevenção de desfechos desfavoráveis no contexto da atenção domiciliar. Figura 6: Organização de medicamentos conforme prescrição Fonte: Santos , (2025) 12 A COMUNICAÇÃO COM A PESSOA CUIDADA A comunicação é parte do cuidado. O cuidador deve falar de forma clara, olhando para a pessoa, usando frases simples e respeitando o tempo de resposta. Pessoas idosas, pessoas com deficiência auditiva, pessoas com demência ou pessoas após AVC podem precisar de mais tempo para compreender e responder. É importante evitar gritos, ameaças, infantilização e pressa. Quando a pessoa se recusa a tomar banho, alimentar-se ou realizar alguma atividade, o cuidador deve tentar entender o motivo. Pode ser dor, medo, vergonha, tristeza, confusão mental, cansaço ou desconforto. A escuta cuidadosa ajuda a criar vínculo. O cuidador deve valorizar histórias, sentimentos e escolhas da pessoa. Quando há demência, a comunicação deve ser ainda mais tranquila. Em vez de discutir, o cuidador pode redirecionar a atenção, manter rotina previsível e evitar estímulos excessivos (SARAIVA et al., 2025). 13 REGISTRO DAS INFORMAÇÕES O registro deve revestir-se de objetividade, precisão e impessoalidade, contendo impreterivelmente a data e o horário de cada anotação. Não devem constar juízos de valor, expressões ofensivas, comentários desnecessários ou avaliações subjetivas que comprometam a fidedignidade da informação. Constitui exemplo de registro adequado a seguinte formulação: "19/06, 8h — aceitou metade do café da manhã, ingeriu água, recusou banho, referiu dor em joelho direito. Família comunicada". Tal modelo, pautado na descrição factual dos eventos, preserva a neutralidade da comunicação e assegura que as informações relevantes sejam transmitidas com clareza. Na perspectiva da Enfermagem, os registros realizados pelo cuidador, quando analisados em conjunto com o Processo de Enfermagem sistematizado, oferecem subsídios complementares ao acompanhamento da evolução clínica da pessoa assistida e à fundamentação de condutas mais seguras. Conforme preconizam Oliveira et al. (2025), a comunicação efetiva entre cuidador, família e equipe multiprofissional configura-se como estratégia basilar para a redução de falhas assistenciais, a prevenção de eventos adversos e a qualificação da continuidade do cuidado no contexto da atenção domiciliar. O investimento na orientação do cuidador quanto à importância e à técnica do registro domiciliar constitui, portanto, responsabilidade educativa do enfermeiro, cuja atuação supervisora deve contemplar essa dimensão como componente indissociável da segurança do paciente. 15 O CUIDADOR E A FAMÍLIA A família constitui-se como elemento central no sistema de suporte ao cuidado, exercendo funções complementares que transcendem a dimensão técnica da assistência. Sua participação implica na provisão de informações relevantes à história de vida do sujeito, supervisão das atividades cotidianas, garantia de recursos materiais e de infraestrutura necessários, estabelecimento de relações respeitosas com o cuidador profissional ou informal, e comunicação permanente com a equipe de saúde. Quando operacionalizada de forma estruturada e colaborativa, a participação familiar potencializa a segurança do cuidado e otimiza os resultados assistenciais (FIGUEIREDO, 2007). Entretanto, as dinâmicas relacionais familiares podem gerar conflitos que acabam atrapalhando o processo de cuidado. Divergências acerca de protocolos de administração dos medicamentos, prescrições nutricionais, organização temporal das atividades, alocação de recursos financeiros, consentimento de visitas e discussões acerca de decisões clínicas constituem fontes significativas de tensão. Tais conflitos exigem abordagem mediada pelo diálogo, sem que o cuidador assuma responsabilidades decisórias que legalmente competem à família ou ao responsável legal, evitando-se assim a justaposição de papéis e a sobrecarga de natureza ética. A sistematização do cuidado mediante a construção coletiva de um plano assistencial simplificado, porém abrangente, revela-se como estratégia para mitigação de ambiguidades operacionais. Este documento deve contemplar a estruturação da rotina, identificação de contatos para situações críticas, inventário completo da terapêutica farmacológica, orientações técnico-profissionais e explicitação clara das responsabilidades atribuídas a cada ator envolvido no processo. Tal instrumentalização reduz inconsistências na execução do cuidado e confere ao cuidador maior segurança e legitimidade no exercício de suas funções (SILVA et al., 2025). 16 AUTOCUIDADO DO CUIDADOR A atividade assistencial prolongada configura-se como fenômeno complexo de natureza estressora, suscetível de desencadear manifestações patológicas em múltiplas dimensões da saúde do cuidador. Conforme ilustrado na figura, a síndrome de sobrecarga apresenta-se através de um espectro amplo de sintomatologias que englobam as esferas física, emocional, cognitiva e social. Na dimensão biológica, destacam-se o cansaço extremo com depleção progressiva de recursos energéticos, acompanhado de perturbações do padrão sono- vigília, caracterizadas por insônia, fragmentação do sono e despertar não-reparador. Simultaneamente, manifestações musculoesqueléticas surgem, particularmente dor nas estruturas vertebrais e tensão muscular generalizada, decorrentes tanto das atividades de assistência corporal quanto da contração tônica associada ao estresse crônico. Na esfera psicoemocional, observam-se oscilações importantes do humor, expressas através de irritabilidade, mudanças afetivas abruptas e sentimentos de remorso. O estado ansioso manifesta-se como preocupação constante e dificuldade em desativar mecanismos de vigilância mental, perpetuando o ciclo de tensão nervosa. A dimensão social apresenta-se comprometida pelo isolamento progressivo, caracterizado pelo afastamento de redes relacionais, familiares e amicais e redução significativa do tempo dedicado ao autocuidado e atividades de lazer. Esta restrição social amplifica a vulnerabilidade psíquica e reduz os mecanismos de resiliência (ZARIT; ZARIT, 2007). A compreensão integrada destas manifestações torna-se fundamental para a implementação de intervenções preventivas e terapêuticas que promovam a sustentabilidade do cuidado e a preservação da saúde do cuidador. Figura 7 - Principais sinais de sobrecarga do cuidador Fonte: Elaborado com base em (Brasil, 2008) REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BOFF, Leonardo. Saber cuidar: ética do humano - compaixão pela terra. Petrópolis: Vozes, 1999. BRASIL. Estatuto da Pessoa Idosa: Lei nº 10.741, de 1º de outubro de 2003. Brasília, DF: Presidência da República, 2003. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2003/L10.741.htm. Acesso em: 22 jun. 2026. 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