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O USO DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL NO PLANEJAMENTO DE AULAS DE MATEMÁTICA: RELATO DE EXPERIÊNCIA NO ENSINO FUNDAMENTAL II Liliany Panzenhagen Resumo Este relato de experiência apresenta reflexões sobre o uso da Inteligência Artificial (IA) como ferramenta de apoio ao planejamento de aulas de Matemática no Ensino Fundamental II, especialmente em turmas do 8º ano. O trabalho teve como objetivo analisar as contribuições das tecnologias digitais e da IA no desenvolvimento de práticas pedagógicas mais dinâmicas, contextualizadas e alinhadas às necessidades contemporâneas da educação. A experiência foi desenvolvida a partir da utilização de ferramentas de IA para elaboração de atividades, produção de exercícios, organização de planejamentos, construção de explicações didáticas e adaptação de conteúdos conforme as dificuldades apresentadas pelos estudantes. O desenvolvimento ocorreu durante as aulas de conteúdos relacionados à linguagem algébrica, propriedades de potências, e resolução de problemas matemáticos. Observou-se maior engajamento dos estudantes, ampliação das possibilidades metodológicas e otimização do tempo destinado ao planejamento pedagógico. Além disso, percebeu- se que o uso consciente da IA pode favorecer práticas de letramento digital e matemático, contribuindo para o desenvolvimento do raciocínio lógico, da interpretação e da autonomia dos estudantes. Conclui- se que a Inteligência Artificial, quando utilizada de maneira ética e mediada pelo professor, pode atuar como importante recurso de apoio ao ensino e à aprendizagem, ampliando as possibilidades pedagógicas na contemporaneidade. Palavras-chave: Inteligência Artificial. Letramento Matemático. Tecnologias Digitais. Introdução As transformações tecnológicas das últimas décadas vêm modificando profundamente as formas de comunicação, aprendizagem e interação social. Nesse cenário, a escola enfrenta o desafio de acompanhar essas mudanças, incorporando recursos tecnológicos que dialoguem com a realidade dos estudantes. Como afirma Kenski (2015), "não se trata de usar tecnologia por usar, mas de integrá-la de forma significativa ao currículo e à prática docente". Nessa mesma direção, Moran (2018) destaca que "a tecnologia não substitui o professor, mas reorganiza o seu trabalho e amplia as suas possibilidades pedagógicas". No ensino da Matemática, persistem dificuldades relacionadas à abstração dos conteúdos, à desmotivação dos alunos, e à pouca contextualização das práticas pedagógicas, e pesa no monopólio da disputa de atenção dos estudantes. Conforme aponta D’Ambrósio (2012), "a abstração da Matemática é um dos principais obstáculos à sua aprendizagem, exigindo do professor estratégias que tornem os conceitos mais acessíveis e significativos". Diante disso, torna-se importante adotar metodologias que favoreçam a participação discente e aproximem os saberes matemáticos do cotidiano, uma vez que, segundo o PISA (2012), "o letramento matemático vai além do domínio de técnicas e fórmulas; trata-se de saber usar a Matemática para compreender e agir no mundo". É nesse contexto que a Inteligência Artificial (IA) surge como uma ferramenta promissora. Luckin (2018) afirma que "a Inteligência Artificial pode atuar como uma aliada do professor na personalização do ensino, oferecendo caminhos diferenciados para diferentes perfis de alunos". Em consonância, a UNESCO (2021) ressalta que "o uso ético e crítico da IA na educação exige que o professor compreenda não apenas seu funcionamento, mas também seus limites e implicações sociais". Além disso, o uso da IA contribui para o desenvolvimento do letramento digital, entendido por Coscarelli (2016) como um conjunto que "envolve competências técnicas, cognitivas, éticas e sociais no uso das tecnologias". Complementando essa ideia, Lévy (1999) adverte que "não basta ensinar a usar ferramentas digitais; é preciso formar professores capazes de refletir criticamente sobre o papel dessas tecnologias na sociedade e na escola". No que diz respeito ao planejamento pedagógico, Vasconcellos (2018) lembra que "o planejamento docente não é um ato burocrático, mas uma ação reflexiva que orienta a prática e a torna intencional e significativa". A IA, nesse sentido, pode potencializar essa reflexão ao sugerir atividades diversificadas e adaptadas às necessidades de cada turma. Como bem sintetizam Bacich e Moran (2018), "metodologias ativas e recursos tecnológicos, quando bem articulados, podem transformar a sala de aula em um ambiente de descoberta e protagonismo discente". Este relato de experiência teve como objetivo apresentar reflexões sobre o uso da Inteligência Artificial no planejamento de aulas de Matemática para turmas do Ensino Fundamental II. Ao longo da prática, foi possível observar contribuições significativas para a organização pedagógica, a diversificação metodológica e o fortalecimento do letramento matemático, sempre com o cuidado de manter o professor como protagonista do processo e a tecnologia como sua aliada. Desenvolvimento A Inteligência Artificial no contexto educacional As tecnologias digitais vêm ocupando um espaço cada vez maior nas práticas pedagógicas contemporâneas. Entre essas tecnologias, destaca-se a Inteligência Artificial generativa (GenAI), que possibilita a criação de textos, atividades, planejamentos, imagens, avaliações e diversos recursos de apoio ao professor. Conforme destaca Kenski (2015), "não se trata de usar tecnologia por usar, mas de integrá-la de forma significativa ao currículo e à prática docente". Nessa mesma direção, Moran (2018) ressalta que "a tecnologia não substitui o professor, mas reorganiza o seu trabalho e amplia as suas possibilidades pedagógicas", possibilitando assim mais tempo para planejamento e execução de planos de aulas, desde simples como mais elaborados. Embora a IA não substitua o papel docente, ela pode contribuir significativamente para otimizar processos pedagógicos, ampliar repertórios metodológicos e auxiliar na personalização do ensino. Luckin (2018) afirma que "a Inteligência Artificial pode atuar como uma aliada do professor na personalização do ensino, oferecendo caminhos diferenciados para diferentes perfis de alunos". Dessa forma, o professor permanece como mediador do conhecimento, sendo responsável pela seleção, análise crítica e adaptação dos materiais produzidos. Segundo Moran (2018), a educação contemporânea exige práticas inovadoras capazes de promover maior protagonismo discente e integração entre tecnologia e aprendizagem. Nesse sentido, a utilização da IA no planejamento pedagógico pode favorecer práticas mais dinâmicas e alinhadas às demandas atuais da educação. Conforme destaca o relatório Perspectivas da OCDE sobre Educação Digital 2026 (OCDE, 2026, p. 15), a GenAI "promete transformar radicalmente a forma como os professores trabalham", incluindo "o aumento da produtividade e da qualidade do ensino", uma vez que "já pode redigir resumos rapidamente, elaborar exercícios e até oferecer apoio de tutoria em tempo real". A esse respeito, a OCDE (2026, p. 17) apresenta uma reflexão fundamental: "Em última análise, quando projetada com pedagogia sólida e uma abordagem centrada no ser humano, a GenAI pode fazer muito mais do que ajudar estudantes a concluir tarefas. Ela tem o potencial de aprofundar a aprendizagem dos estudantes, melhorar a prática docente e otimizar a gestão institucional e a pesquisa. Mas esses benefícios vêm acompanhados de riscos. A dependência excessiva ameaça transformar estudantes em consumidores passivos e professores em supervisores. Para liberar todo o potencial da GenAI, a Educação precisa ir além dos chatbots genéricos em direção a ferramentas construídas com propósito específico para a Educação." Essa posição é complementada por Valente (2018), para quem o uso de tecnologias na educação só faz sentido quandointegrado a uma abordagem pedagógica que coloca o aluno no centro do processo de aprendizagem. Assim, a IA pode ser um recurso valioso para a criação de atividades desafiadoras e contextualizadas, especialmente no ensino da Matemática, disciplina historicamente marcada por elevados índices de desmotivação e dificuldades de abstração. Nessa perspectiva, D'Ambrósio (2012) argumenta que "a abstração da Matemática é um dos principais obstáculos à sua aprendizagem, exigindo do professor estratégias que tornem os conceitos mais acessíveis e significativos". Ferramentas baseadas em IA podem auxiliar justamente nesse ponto, ao sugerir exemplos do cotidiano, gerar problemas personalizados e oferecer múltiplas representações de um mesmo conceito matemático. O relatório da OCDE (2026, p. 56) alerta, no entanto, que "realizar com sucesso uma tarefa educacional com GenAI não leva automaticamente à aprendizagem". O documento explica que, "quando os estudantes dependem excessivamente da GenAI, o engajamento metacognitivo — os processos mentais e o esforço que transformam respostas em compreensão — diminui. Isso resulta em um desalinhamento entre o desempenho na tarefa e a aprendizagem genuína" (OCDE, 2026, p. 14). Por isso, conforme adverte o relatório, "há o risco de que a dependência excessiva de GenAI leve à perda de competências e da expertise docente" (OCDE, 2026, p. 15). Além disso, o uso consciente e crítico da IA contribui para o desenvolvimento do letramento digital e matemático dos próprios docentes. Como observa Coscarelli (2016), o letramento digital "envolve competências técnicas, cognitivas, éticas e sociais no uso das tecnologias". Nesse mesmo movimento, o professor que aprende a explorar a IA em seu planejamento também amplia sua própria capacidade de analisar, selecionar e produzir conhecimento em ambientes digitais. Por fim, Bacich e Moran (2018) sintetizam essa articulação ao afirmarem que "metodologias ativas e recursos tecnológicos, quando bem articulados, podem transformar a sala de aula em um ambiente de descoberta e protagonismo discente". A Inteligência Artificial, nesse contexto, não é um fim em si mesma, mas um meio potente para que o professor possa planejar com mais criatividade, atender às diferenças presentes em sala de aula e tornar o ensino da Matemática mais significativo e motivador para os estudantes do Ensino Fundamental II. Descrição da Experiencia A experiência aqui relatada foi desenvolvida ao longo de um trimestre letivo com três turmas do 8º ano do Ensino Fundamental II de uma escola da rede pública estadual, totalizando aproximadamente 90 estudantes na faixa etária de 13 a 14 anos. As aulas de Matemática contemplaram os seguintes eixos temáticos: linguagem algébrica, propriedades de potências, educação financeira, expressões algébricas e resolução de problemas. A Inteligência Artificial generativa, especificamente chatbots baseados em grandes modelos de linguagem (LLMs), como o ChatGPT — foi incorporada ao planejamento docente como ferramenta de apoio em múltiplas frentes, conforme sistematizado no quadro a seguir. TABELA 1 - A utilização da IA no planejamento e/ou no replanejamento das aulas produziu efeitos considerais em pelo menos três dimensões: 1. Ganho de eficiência e redistribuição do tempo docente: A automação de tarefas operacionais, como a geração inicial de exercícios, a formatação de atividades e a produção de exemplos, reduziu o tempo dedicado à preparação das aulas. Esse tempo foi realocado para atividades de maior valor pedagógico: análise qualitativa das dificuldades dos estudantes, identificação de concepções alternativas e construção de estratégias de ensino mais afinadas com as necessidades específicas de cada turma. 2. Contextualização e significação dos conteúdos matemáticos: Os conteúdos passaram a ser sistematicamente apresentados em articulação com situações do cotidiano dos alunos, o que favoreceu a atribuição de sentido à Matemática e o engajamento nas atividades propostas. Nas atividades de educação financeira, por exemplo, foram criadas situações simuladas envolvendo orçamento familiar, cálculo Dimensão de apoio Descrição das atividades mediadas pela IA Elaboração de exercícios Criação de conjuntos de exercícios contextualizados, com diferentes níveis de complexidade e alinhados aos objetivos de aprendizagem de cada conteúdo Produção de exemplos didáticos Geração de exemplos progressivos (do simples ao complexo) e de contraexemplos para favorecer a compreensão conceitual Organização de sequências pedagógicas Estruturação lógica e temporal dos conteúdos, com sugestões de encadeamento entre aulas e de articulação entre conceitos Adaptação de explicações Reformulação da linguagem matemática para torná-la mais acessível a estudantes com diferentes perfis de compreensão, incluindo aqueles em situação de defasagem escolar Produção de atividades de revisão Geração de listas de exercícios direcionadas para fixação, recuperação contínua e preparação para avaliações Construção de situações-problema Criação de problemas baseados em situações reais do cotidiano dos estudantes, favorecendo a contextualização e o sentido atribuído à Matemática Elaboração de propostas de trabalhos Sugestão de atividades em grupo, projetos interdisciplinares e investigações matemáticas que estimulem a autonomia e a criatividade Desenvolvimento de planejamentos de aula Estruturação de roteiros semanais contemplando objetivos, metodologias, recursos, tempos estimados e formas de avaliação de porcentagens em compras com diferentes formas de pagamento, análise de descontos e planejamento financeiro para metas pessoais. Essas situações, geradas com o apoio da IA e posteriormente adaptadas pela professora, permitiram que os estudantes percebessem a Matemática como instrumento para a compreensão e a intervenção no mundo real. Aqui é importante ressaltar o quão valioso é a adaptação dessas atividades para os estudantes, pois faz com que cada um visualizasse sua realidade de forma privada, fazendo suas próprias reflexões. 3. Diferenciação pedagógica e atendimento à diversidade: Nas aulas de linguagem algébrica, a IA auxiliou na produção de exemplos progressivos, partindo de representações mais concretas até alcançar níveis mais elevados de abstração e de exercícios adaptados aos diferentes níveis de proficiência encontrados em sala de aula. Especialmente relevante foi a possibilidade de gerar explicações mais simples e acessíveis para estudantes com dificuldades na compreensão de conceitos abstratos, sem que isso implicasse a simplificação excessiva ou a descaracterização do objeto matemático em questão. Em relação aos conteúdos de propriedades de potências e expressões algébricas, a IA mostrou-se particularmente útil na geração de exercícios com gradação de dificuldade, permitindo que cada estudante avançasse em seu próprio ritmo, respeitando suas individualidades e promovendo um ambiente de aprendizagem mais inclusivo. Podemos tirar de conclusão desta experiência diz respeito à natureza da relação entre o professor e a ferramenta de IA. Em nenhum momento os materiais gerados pela IA foram utilizados de forma acrítica ou como produto final. Ao contrário, cada recurso produzido foi submetido à análise, à seleção, à adaptação e, frequentemente, à reelaboração por parte da professora. Esse movimento evidencia que a IA atuou não como substituta do julgamento profissional, mas como dispositivo de ampliação da agência docente, na esteira do que Cukurova (2026) denomina como "trabalho em equipe práxico" entre professor e IA, no qual as ferramentas de IA aprendem com as preferências e correções do docente, ajustando-se progressivamente ao seu estilo e às suas necessidades pedagógicas. Ademais, o uso consciente e crítico da IAcontribuiu para o desenvolvimento do letramento digital da professora envolvida. Coscarelli (2016) define o letramento digital como um conjunto que "envolve competências técnicas, cognitivas, éticas e sociais no uso das tecnologias". Ao longo do processo, a docente não apenas aprendeu a operar as ferramentas de IA, mas também desenvolveu a capacidade de avaliar a qualidade e a pertinência dos materiais gerados, de identificar limitações (como alucinações ou vieses nos resultados) e de tomar decisões fundamentadas sobre quando e como utilizar a IA em diferentes momentos do planejamento e da execução das aulas. Um aspecto que se revelou decisivo ao longo desta experiência e que merece destaque, foi a qualidade dos comandos (prompts) dirigidos à IA generativa. Diferentemente do que por vezes se imagina, a IA não produz resultados magicamente adequados a partir de instruções vagas. Pelo contrário, a relevância, a precisão e a utilidade pedagógica dos materiais gerados dependem fortemente da clareza, da especificidade e da intencionalidade dos prompts formulados pelo professor. No início da experiência, os comandos utilizados eram genéricos, como "crie exercícios de matemática para o 8º ano" e os resultados obtidos, embora funcionalmente corretos, exigiam longas horas de adaptação. Com o tempo, a foi desenvolvido estratégias mais eficazes de engenharia de prompt (prompt engineering), incorporando informações detalhadas sobre o conteúdo específico, o nível de dificuldade desejado, o formato esperado (lista, tabela, texto explicativo), o número de itens e até mesmo os tipos de erro que se pretendia diagnosticar. Um exemplo concreto: em vez de solicitar "atividades de educação financeira", o comando passou a ser "crie 5 situações-problema sobre porcentagem para o 8º ano, relacionadas a descontos em lojas de roupas, com espaços para resolução e uma questão desafiadora ao final". Essa prática sistemática de refinamento dos prompts produziu três benefícios concretos. Primeiro, a redução significativa do tempo de pós-edição, uma vez que os materiais gerados já chegavam mais próximos do formato e da qualidade desejados. Segundo o aumento da precisão conceitual, ao incluir nos prompts referências explícitas aos referenciais curriculares e às dificuldades recorrentes dos estudantes. Terceiro, a possibilidade de explorar variações pedagógicas com agilidade solicitando à IA diferentes abordagens para um mesmo conteúdo, como explicações por analogias, versões simplificadas para estudantes com defasagem ou exemplos bilíngues, para alunos de outras nacionalidades. É importante ressaltar, no entanto, que mesmo os prompts mais cuidadosamente elaborados não eliminam completamente o risco de alucinações, respostas plausíveis, porém incorretas, geradas pelo modelo. Por essa razão, a engenharia de prompts não substitui o julgamento profissional do professor. Ao contrário, ela o pressupõe: o docente permanece como o último avaliador da pertinência, da precisão e da adequação pedagógica dos materiais gerados, cabendo- lhe revisar, editar, complementar ou descartar os resultados produzidos pela IA. Em síntese, a experiência evidenciou que saber perguntar à IA é tão importante quanto saber o que fazer com as respostas. O prompt não é um mero detalhe técnico, mas uma ferramenta de mediação pedagógica, um dispositivo que traduz as intenções do professor em linguagem compreensível pela máquina. Nesse sentido, o desenvolvimento de competências em engenharia de prompts emerge como uma dimensão relevante do letramento digital docente, merecendo atenção tanto na formação inicial quanto na continuada. Conclusão A experiência realizada ao longo de um trimestre com turmas do 8º ano do Ensino Fundamental II permitiu não apenas testar o uso da Inteligência Artificial generativa no planejamento de aulas de Matemática, mas também problematizar o próprio significado de integrar tecnologia à prática docente de maneira crítica e reflexiva. Os resultados observados confirmam o potencial da IA como ferramenta de apoio ao professor, especialmente no que se refere à otimização do tempo dedicado a tarefas operacionais, à diversificação de exemplos e exercícios, e à personalização de materiais conforme as necessidades específicas dos estudantes. A agilidade conquistada na preparação das aulas não significou, contudo, um ganho superficial de produtividade. Representou, antes, a redistribuição do esforço docente para atividades de maior densidade pedagógica: a análise qualitativa das dificuldades dos alunos, a identificação de concepções alternativas e a construção de estratégias de ensino mais afinadas com a realidade de cada turma. Entretanto, a experiência também revelou limitações e riscos que não podem ser ignorados. A dependência excessiva da ferramenta, em alguns momentos, ameaçou reduzir a autonomia da professora sobre decisões pedagógicas fundamentais. As chamadas alucinações da IA, respostas incorretas, exigiram vigilância constante e um esforço adicional de verificação. Mais do que isso, a experiência demonstrou que a mera disponibilidade de materiais gerados por IA não se traduz automaticamente em melhor qualidade de ensino. O que faz a diferença é o uso intencional, crítico e contextualizado desses materiais pelo professor. Nesse sentido, a noção de engenharia de prompt surge como uma competência docente relevante, ainda pouco discutida na formação de professores. Saber formular comandos precisos, especificando não apenas o conteúdo, mas o nível de dificuldade, o formato desejado, os objetivos de aprendizagem e as restrições contextuais, mostrou-se decisivo para a qualidade dos resultados obtidos. A habilidade de perguntar à IA de forma estruturada não é um detalhe técnico secundário, mas uma dimensão do letramento digital docente que merece atenção tanto na formação inicial quanto na continuada. Outro achado significativo diz respeito à insubstituibilidade do julgamento profissional do professor. Em nenhum momento os materiais gerados pela IA foram utilizados de forma direta sem passar por um crivo rigoroso de análise, adaptação e, frequentemente, reelaboração. O professor permaneceu como o mediador essencial entre a ferramenta e os estudantes, ajustando linguagens, selecionando exemplos, suprimindo inadequações e acrescentando elementos que a IA, por sua própria natureza, não poderia prever. Essa constatação reforça uma tese central: a IA não substitui o professor, mas pode, quando bem utilizada, ampliar sua capacidade de agir pedagogicamente. Por fim, a experiência aponta para a necessidade de políticas de formação continuada que capacitem os professores a integrar a IA generativa de maneira crítica, ética e pedagogicamente fundamentada. Não basta disponibilizar ferramentas; é preciso formar profissionais capazes de avaliar a qualidade dos materiais gerados, de identificar vieses e imprecisões, e de tomar decisões informadas sobre quando e como utilizar a IA em diferentes momentos do processo de ensino-aprendizagem. A Inteligência Artificial generativa veio para ficar. Sua presença nas escolas é, hoje, uma realidade irreversível. A questão que se coloca não é mais se ela deve ou não ser utilizada, mas como, sob quais condições, com quais critérios e com quais finalidades. A experiência aqui relatada sugere que a resposta passa, necessariamente, pelo fortalecimento da autonomia docente, pelo investimento na formação crítica e pela manutenção do professor como figura central do processo educativo. A IA é uma ferramenta poderosa. Mas quem ensina, quem acolhe, quem transforma, isso continua sendo, exclusivamente, o professor. Referencias BACICH, Lilian; MORAN, José (org.). Metodologias ativas para uma educação inovadora: uma abordagem teórico-prática. Porto Alegre: Penso, 2018. Disponível em: https://www.pensoeditora.com.br.Acesso em: 26 maio 2026. COSCARELLI, Carla Viana. Letramento digital: o que é e como se desenvolve. In: COSCARELLI, Carla Viana; RIBEIRO, Ana Elisa (org.). Letramento digital: aspectos sociais e possibilidades pedagógicas. 3. ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2016. p. 11-24. 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