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ducação Esteban Levin CLÍNICA E EDUCAÇÃO COM sicanális e AS CRIANÇAS DO OUTRO ESPELHO EDITORA VOZESCOLEÇÃO PSICANÁLISE E EDUCAÇÃO Coordenador: Dr. Leandro de Lajonquière USP Esteban Levin Conselho editorial: Dr. Sérgio Costa Borba UFAL Dra. Sandra Mara Corazza UFRGS Dra. Sandra Francesca Conte de Almeida UnB Infância e ilusão (psico) pedagógica Leandro de Lajonquière A função do filho AUTORIZADA CRIME Esteban Levin ABDR A questão da ética no campo educativo ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE REPROGRÁFICOS Francis Imbert Infância e Educação Era uma AUTORAL CLÍNICA E EDUCAÇÃO vez... quer que conte outra vez? Sandra Mara Corazza COM AS CRIANÇAS DO A arte de formar O feminino, infantil e o epistemológico Marcia Neder Bacha OUTRO ESPELHO A construção adolescente laço social Serge Lesourd - O infantil Lacan e a modernidade Maria Cecília Galletti Ferrelli Tradução de Ricardo Rosenbusch Clínica e educação com as crianças do outro espelho Esteban Levin Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Levin, Esteban Clínica e educação com as crianças do outro espelho / Esteban Levin ; tradução de Ricardo Rosenbusch. Petrópolis, RJ : Vozes, 2005. ISBN 85.326.3107-X Título original: Discapacidad clínica y educación : los niños del otro espejo Bibliografia. 1. Crianças Desenvolvimento 2. Crianças e adultos 3. Educação de crianças 4. Psicologia infantil I. Título. 04-7917 CDD-155.4 EDITORA Índices para catálogo sistemático: VOZES 1. Crianças : Educação : Psicologia infantil 155.4 Petrópolis 2. Educação de crianças : Psicologia infantil 155.4 20051 A INFÂNCIA DO OUTRO CORPO Um órgão móvel dos sentidos (olho, mão) é uma linguagem em si mesmo porque é uma interrogação (movimento) e uma resposta (percepção como cum- primento de um projeto), é falar e compreender (M. Merleau-Ponty). na estrutura sensório-motriz A partir da nossa concepção sobre a estruturação subjeti- sua articulação com o desenvolvimento psicomotor pa- essencial deter-nos na conceitualização do aspecto como dimensão fundadora da infância. De uma perspectiva neurológica, o desenvolvimento sen- é de vital importância para se avaliar como evo- amadurecimento da função motriz. Como já salien- Ajuriaguerra¹, a função motriz é constituída por três sis- temas que interagem entre si: a) sistema piramidal (efetuador do movimento vo- luntário); b) O sistema extrapiramidal (incumbido da motrici- dade automática e de determinar a adaptação motriz de base a diversas situações); c) O sistema cerebelar (sistema regulador do equilí- brio e da harmonia concernentes tanto aos movimen- tos voluntários quanto aos involuntários). Julián. Revista de Psicomotricidad, Citap, n. 45, Madri, 1993. 23de adaptação e equilíbrio com o meio externo mediante as- A integração desses três sistemas motores determina a ati- vidade muscular, que por sua vez tem duas funções: a) A similação e acomodação como processos de adaptação cog- noscitiva ou fisiológica. função cinética ou clônica. b) A função postural ou tônica. A primeira corresponde ao movimento propriamente dito, en- Para Piaget, o determinante biológico é central em sua quanto a segunda está relacionada com os estados de tensão e concepção do aspecto sensório-motor. Ao resumir um capí- distensão fásica do músculo do qual parte o movimento. tulo, ele afirma: "Em suma, não é exagero nem simples me- táfora dizer que a reatividade nervosa garante a transmissão, Este conjunto de sistemas e funções compõe o apare- de maneira contínua, entre a assimilação fisiológica e a assi- lho motor, sua preparação e sua execução, o que certamen- milação cognoscitiva em sua forma te confere à motricidade um valor instrumental e mecâni- Na descrição do estágio sensório-motor feita por Piaget, CO em si mesmo. Coube a Henry Wallon fazer uma das contribuições mais as Invariantes biológicas e hereditárias têm papel central, sem significativas para esta integração, ao assinalar o papel rela- para o contexto afetivo ou relacional da criancinha. Cada estágio e subestágio pode ser medido, avaliado e atesta- cional e social da motricidade da criança. Para este autor, as funções tônico-posturais tornam-se funções de relação ges- do de forma independente e isolada do correlato subjetivo. tual e corporal, onde se orientam as bases do futuro relacio- Para este autor, tanto o funcionamento motor quanto nal e emocional do pequenino num interjogo dialético, bio- mental têm um modo de se organizar e ordenar com relação lógico e social². ao meio ambiente, seguindo sempre o mesmo caminho no Piaget retoma a concepção walloniana do aspecto sensó- desenvolvimento do ponto de vista evolutivo. Esta forma de rio-motor ao interpretá-lo como um primeiro estágio (0 a 2 ordenamento obedece a uma lógica uniforme⁴, em que a cri- anos) essencial ao desenvolvimento da assimilação e da aco- ança se assimila e adapta ao meio progressivamente e assim modação, como modo de adaptação e aquisição da inteli- se adaptando de maneira harmoniosa ao exterior. gência prática na criança. É com base nesta concepção que o aspecto sensório-mo- Não faremos aqui uma análise exaustiva do desenvolvi- tor tem sido considerado em sua vertente cognoscitiva e ins- mento evolutivo-genético proposto por Piaget. Queremos trumental, ensejando uma série de padronizações e testes apenas ressaltar a importância que este autor dá ao desen- que procuram correlacionar um "verdadeiro" paralelismo volvimento sensório-motor em si mesmo. Sem dúvida algu- entre elemento sensitivo motor e o cognitivo, na tentativa ma, o aspecto sensório-motor se constitui num dos esteios da já clássica concepção piagetiana da inteligência e da evo- lução da infância. Piaget. Biología y conocimiento. Madri, Siglo XXI, 1973, p. 204. O estágio sensório-motor proposto por Piaget é uma in- Como dissemos no livro A função do filho, esta lógica do desenvolvimento tem como variante funcional da inteligência, que cumpre sua função as teses de Jean Jacques Rousseau e Jean Amos Comenius, nas quais se ba- pedagogia moderna. Ver Comenius, Jean Amos. Didáctica magna. Madri, Akal, Narodowski, Mariano. Infância y poder. Buenos Aires, Ed. Aique, 1994. Carli, Niñez, pedagogía y política. Buenos Aires, Ed. Miño y Dávila, 2002. 2. Wallon, Henry. La evolución psicológica del niño. Buenos Aires, Editorial Psiqué, 1976. 25 24do de se chegar a uma adequação harmônica do elemento mo- Nesta perspectiva, os ritmos e movimentos espontâneos tor e do mental, isto é, do aspecto sensório-motor. e intuitivos da criança recém-nascida são considerados mo- vimentos reflexos primitivos controlados em escala subcor- Nesse sentido, devemos ter presenteo grande amadure- tical (níveis da base, especialmente o núcleo estriado e nú- cimento e a evolução do córtex cerebraldurante o primeiro cleo pálido) e sem nenhuma eficácia prática. Portanto, do ano de vida, no que diz respeito à função motriz e ao tom ponto de vista da teoria piagetiana não se trata de movimen- muscular. tos inteligentes ou cognoscitivamente valiosos. A primeira atitude muscular implica uma passagem su- Nossas observações e o trabalho com recém-nascidos, cessiva do estado de hipotonia do eixo corporal e flexão e hi- lactentes e crianças com transtornos psicomotores nos leva- pertonia dos membros, para o de hipertonia do eixo corpo- ram a considerar e resgatar o aspecto sensório-motor de ral (chamado eixo axial) e hipotonia dos membros. uma outra perspectiva, na qual o sujeito aparece em sua di- Estes caminhos tônico-posturais, que terão como culmi- mensão dramática, cênica e subjetivante. Com esse enfo- nação a conquista do eixo vertical, fornecerão as bases neu- que, perguntamo-nos o seguinte: romotoras das primeiras praxias, definidas por Piaget como Como caberia reconsiderar o aspecto sensório-motor? ações ou reações motoras em funçãode um resultado ou Eu entendo que já não cabe reconsiderá-lo nem como um uma finalidade intencional. estágio cognitivo do desenvolvimento, nem como uma vi- Nesta teoria, a eficácia práxico-motriz é fundamental vência prazerosa, nem como um padrão neuromotor ou ce- para o desenvolvimento das funções cognoscitivas da crian- nestésico⁶. na busca do "suposto" equilíbrio ça tivo. O grau de inteligência sensório-motriz e de todo o de- aspecto sensório-motor em cena senvolvimento da criança é determinado pela eficácia da Propomo-nos a sustentar o aspecto sensório-motor com ação⁵. Com base nestas desenvolvimento o cenas estruturadoras da motricidade, da gestualidade e do valor da motricidade resulta do graude acomodação e adap- sujeito ao longo da primeira infância. tação da criancinha em face de novassituações com as quais se depara conforme se movimenta. Por exemplo, a presença Comecemos pelo início. Quando a criança nasce, uma de um objeto desconhecido faz com que o pequenino use das características essenciais de seu desenvolvimento resul- "esquemas" já conhecidos (como circulares pri- tante da evolução neuromotora é a de ser totalmente imatu- márias") aos quais acrescenta outros" "esquemas" para ade- ra no aspecto Esta imaturidade é determinada por quar-se à nova situação que o objeto apresenta. Desta for- um processo de maturação pelo qual as vias nervosas aferen- ma, a criança descobre novas aquisições ("reações tes estão mielinizadas e podem captar e receber estímulos, à circulares secundárias") que logo aumentando seu acervo sensório-motor. 6. Quanto à apaixonante história do conceito de cenestesia, sugerimos ver Starobins- ki, Jean. Razões do corpo. Espanha, Ed. Cuatro, 1999. 5. Piaget, Jean. Op. cit. 27 26diferença das vias eferentes, que ainda não estão maduras Outra característica fundamental na construção do apa- para responder motrizmente ao estímulo recebido. relho sensório-motor é que após o nascimento, e por bastan- te tempo, o corpo do bebê está fragmentado e cindido por Este estado de "prematuridade neuromotriz" faz com causa da prematuridade com que nasce. que o recém-nascido esteja tonicamente maduro para rece- ber estímulos e absolutamente imaturo, do ponto de vista Faremos a seguinte representação gráfica dele: motriz, para organizar e ordenar sua resposta. Em outras pa- lavras, a criancinha está madura no tom (via sensitiva) e imatura no aspecto motor (via motriz). Tátil Proprioceptivo Vestibular Procuraremos representar graficamente esta diferença Visual Interoceptivo Cenestésico fundamental que marca desde a origem a cisão entre os as- Auditivo Olfativo Gustativo pectos sensório e motor. Após o nascimento: Corpo fragmentado A No aspecto sensório Cada fragmento sensorial e motor se organiza e ordena Recebe sensorialmente os estí- com independência do outro (reciprocamente) porque lhe mulos externos e internos, em- falta a noção de unidade corporal, dado que esta noção não é bora não consiga discrimi- inata. Quem unifica o aparelho sensório-motor, que nasce CORPO diferenciá-los. As vias cindido e fragmentado? nervosas aferentes estão mieli- nizadas A unificação provém do Outro, que une e humaniza os diversos fragmentos, funções fisiológicas e corporais do bebê, dando-lhes um sentido possível na cena que ele cuida de criar. B No aspecto motor O funcionamento cênico desse Outro, que corresponde Em de sua imaturidade fun- que se denomina função materna e paterna, permite criança está motrizmen- à criancinha começar a ordenar e diferenciar seus desloca- te inopacitada para dar uma res- posta As vias nervosas eferentes mentos, suas funções corporais, suas necessidades, suas pra- CORPO estão mielinizadas. xias, seus sentidos e sua organização tônico-postural, onde extrairá a motricidade e a sua nascente gestualidade exer- cendo desde o início que começamos a chamar de função e funcionamento de filho. 29 28A mãe ou quem desempenhar a função dela terá de Agora podemos completar o esquema anterior, loca- do sustentar pelo menos dois saberes: um saber histórico, origi- lizando a suas funções por meio do campo numa nado na sua experiência como mãe (se já teve filhos) ou Outro. Este lhe confere unidade (traço uniário), situa-o faz como mulher que deseja a maternidade, e um segundo saber posição simbólica deuno indivisível (traço uniano) e a pon- que resulta diretamente do lugar dessa mulher como filha e te relacional entre aspectos sensitivo e motor. do próprio, percurso infantil, que ela conheceu durante o Na cena montada por esse Outro, a criança antecipa de ante- sua tempo primordial da infância. Estes dois saberes fundamen- unidade e sua diferença. Mas para isto o Outro terá está dis- tais para o "exercício" da função e do funcionamento mater- um sujeito que ainda não existe, uma vez que funda- no terão de acoplar-se, diferenciar-se e ligar-se com as pro- cipar sociado e fragmentado. Entra em jogo assim o tempo cênico em duções, os reflexos e que o bebê realiza; isto é, dor da antecipação simbólica, desdobramento a os dois saberes maternos deverão ser articulados no corpo a atividade do bebê existe num cenário que começa do recém-nascido e quando isso for feito, de maneira inad- que representá-lo em seu funcionamento de filho. vertida ou "mágica", nesse encontro será inventado um sa- cenário e da antecipação simbólica requerem a se a ber não sabido entre essa mãe que começa a sê-lo e esse O atenção, já que é nessa temporalidade onde começa Outro é nossa enunciar um sujeito. A expressão e a ação cênicas do subjetiva. bebê que encarna o funcionamento filial. A professora que ligam o aspeciosensitivo-motor como produção Para inventar este saber (não sabido) a respeito de seu com Vejamos o exemplo dos primeiros movimentos do sabemos bebê, filho indagá-lo sobre o que com ele, o que sente, que pensa, o que ama, e é a aqueles denominados "reflexos arcaicos". Todos idên- resposta do bebê (motricidade, reflèxos) o que ela decodifi- estas ao estímulo sempre com tra- ca, dando-lhe um sentido cênico, articulando-o com o uni- que tica resposta, o que os torna movimentos anônimos es- ta-se de automáticas perante o mesmo da linguagem. tímulo ("identidade de resposta"). Se a mãe indaga seu bebê é porque ela lhe atribui um sa- O que o Outro (materno) faz com esses movimentos? ber fazer e um saber dizer sobre o que se passa com ele. Este puro pressuposto fundamental para o bebê e para o Outro Ele decodifica-os, confere-lhes um sentido, compreen- de-os, interpreta-os como se fossem gestos que implicam tiver está estruturado no diálogo cênico ficcional simbólico, onde a sensibilidade e a motricidade do recém-chegado são dizer, mas sempre indagará do bebê acerca do que não sabe tomadas como subjetividade nascente. O bebê sempre será um interpretado. Isto indica que esse saber materno do tudo, muito pelo contrário, precisa da resposta, saber. ou seja, portador de um suposto saber subjetivado, o que dará à mãe possibilidade de brincar com ele. funcionamentode seu filho para inventar um Uma das maneiras pelas quais a mãe pode montar e cons- A invenção dobebê truir este saber inventado na cena é brincar de modo transi- Como inventar um saber a respeito de um filho-bebê se tivo, ou seja, colocando-se no lugar do bebê para poder ele não fala? 31 30a construir um diálogo. Alternadamente, ela ocupa o lugar do sozinho por não ser capaz de distinguir o sensitivo do motor) bebê e o lugar materno para sustentar e estruturar um diálo- e implica uma construção, tanto para a criança quanto para o Outro materno. go possível⁷. Como o recém-nascido não pode falar o brincar com a Por exemplo: se a criancinha realiza o reflexo "tôni- mãe, ela terá de falar ou brincar por ele. Ao brincar, a mãe se ou o reflexo dos "quatro pontos vê diante de seu próprio espelho (de forma invertida) no cardeais", a mãe, valendo-se dele, olha e fala para ela, aca- bebê. Nesse sutil e ficcional diálogo tônico, mãe e bebê se ricia-a, canta, brinca, ou seja, monta uma cena sustentada refletem e refratam diferentemente, ela na sua função ma- num cenário, atribuindo-lhe sempre uma produção subjeti- terna e ele na sua função de filho. Nestes primeiros espe- va e não motriz nem automática, muito menos anônima. Ela lhos, a mãe inventa um bebê e o bebê inventa uma mãe. atribui ao bebê um saber subjetivo sobre o que faz. Este su- É preciso levar em consideração que nos reflexos arcai- posto saber fazer é interpretado como uma gestualidade cê- cos o aspecto sensório-motor está todo unido e condensado. nica efetiva e não reflexa. Para o bebê não há diferença entre o sensório e o motor, pois Este saber atribuído ao bebê é que permite ao Outro não pode distinguir o estímulo sensorial da resposta motriz. materno exercer sua necessária loucura cênica: a de dei- Uma das diferenças fundamentais entre um reflexo e transbordar pelo bebê, colocando-se no lugar dele e um gesto é que este implica uma resposta motriz com senti- falando, brincando ou respondendo como se fosse ele. do to do em face de um estímulo. Definimos o gesto exatamente como um movimento feito para que o outro o veja (desde A loucura consiste em que a mãe fala, brinca ou respon- de como o bebê (antecipando-o como sujeito) e como ela que olhe para ele). própria (supondo que seu bebê entende o que ela quer lhe Se o gesto do bebê é um movimento que se realiza pri- perguntar). Confirma-se assim, felizmente, um diálogo "ma- meiramente frente à demanda do outro, para a criança isto luco" (desde que ficcional) em que o Outro materno se co- já implica uma diferença entre o sensório (estímulo) e o mo- loca na posição do recém-chegado e dali interroga a sua posi- tor (resposta). ção de mãe. É ela quem responde à sua própria demanda Esta diferença ou discriminação torna-se efetiva por via fingindo ser o do campo do Outro (pois o recém-chegado não pode fazê-lo Trata-se aqui de uma dupla negação simbolizante: por um lado o Outro (materno) 7. O transitivismo é um fenômeno descrito por Charlotte Bülher e Elsa dois Kolher. anos; se Nele uma seu lugar e se coloca na posição do bebê e, pelo outro, nega e desloca o lugar do observa comportamento de duas crianças com idade entre um e delas cai, a outra é para, ocupando essa posição, falar para a mãe que obviamente é ela própria (ocu- se bate a primeira reclama por terem batido nela, ou se uma da outra, negando ambos os lugares), num diálogo invertido, ficcional, "louco" e funda- na outra, a chorar. Nesta atitude, a criança identifica-se com a indiferenciação imagem em Todorov chama a atenção para o elemento fantástico da cena ao afirmar: fan- atraindo-a que começa confundindo-se com ela. Esta dialética situa vetor de momento. Ver nos permite atravessar certas fantasias que serão inacessíveis enquanto não as se encontra e a conformação da imagem corporal da criança nesse Nueva Visión, As mães sabem (sem perceberem) como fazer isso e os filhos, quando que Berges, Jean e Balbo, Gabriel. Sobre el transitivismo. Buenos Aires, brincar, assimilam esse "saber fazer" fantasioso que eles criam simulando com 1999. Lacan, Jacques. La familia. Barcelona, Argonauta, 1978. brinquedos a ilusão de serem pai. implica Perce de a entre motor 33 a eoVejamos este diálogo vivaz na hora da comida: mento terá de ligar-se no encontro com o tempo "louco" do Outro. Ponto de encontro e (des)encontro onde aparece A mãe precisa dar de comer a seu bebê e para isso, de um sujeito que deseja. olhando ele (e como se ela fosse bebê), muda o dá tom o lei- diz: para "mamãe, estou com muita fome, você me Assim, por um lado nos deparamos com o tempo objeti- voz te?", e depois, sem deixar de olhar para ele, mudar nova- do organismo que nasce, cresce, se desenvolve e morre. É mente para o tom e a prosódia da voz e responder: "sim, meu o que se costuma chamar de implacável e indiferente seta amorzinho, já vou preparar o leite e te dou". do tempo. Continuando com a cena, o bebê começa a tomar o leite Momento do parto olhando para a mãe que, por sua vez, olha para ele apaixona- (nascimento) 1 mês 2 meses damente. Em certo momento o bebê interrompe a sucção tom e Tempo cronológico então a mãe torna a assumir o papel de bebê, muda o afetuoso da voz e afirma: "Que gostoso está o leitinho!", Está ao Entretanto, sabemos que antes do parto, inclusive antes mãe responde, já da posição materna: "Que bom! está da gestação, há sempre um outro tempo: é o tempo da ante- que gostando? a Que legal! Beba mais um pouquinho que cipação simbólica que exercem os pais ou aqueles que de- muito gostoso". E assim o diálogo continua, nesse interjogo sempenham essa função. Esse é um tempo lógico subjetivo e dramático, afetivo, sutil e cênico. singular, que se estrutura antes do nascimento do bebê. A Nesta loucura cênica constitutiva da infância e do infan- do fim de representar graficamente esta temporalidade, inver- til, mãe antecipa e re-significa nesse diálogo a ação transi- teremos o sentido da seta do tempo com o intuito de paten- bebê, a sem perceber, e o faz brincando, construindo a tear seu caráter lógico e subjetivo. tividade nessa alternância artificial que ela cria no interjogo seu bebê. De algum modo, ela constrói e fabrica um Momento do parto com duplo espelho, uma imagem possível para seu filho e para (do nascimento) ela, em seu funcionamento materno. Antecipação simbólica Não que o bebê crie o transitivismo, o espelho, o diálo- (um antes que permite um depois) a imagem, mas exatamente o contrário. Eles é Outro, que o go ou como um sujeito de suposto saber, a quem o sub- criam na sua "loucura" constitutiva, cria e antecipa como ato Neste tempo anterior ao cronológico entra em cena o desejo dos pais de terem um bebê-filho. O desejo de ter um jetivante de amor. filho sustenta sempre a decisão dos pais, que se estrutura A origem do tempo na infância como acontecimento fundador antes do nascimento. Como podemos ver, o tempo cronológico e unidirecio- Na temporalidade lógica anterior, o filho imaginado, sim- nal do amadurecimento, do crescimento e do desenvolvi- bolizado e antecipado já cumpre a função do filho. Nesses 35 34momentos, o filho queainda não nasceu sustenta o ideal de lidade, sempre anterior, remetendo diretamente à história seus pais. Em outras palavras, os pais inventam ou criam um simbólica que acontece e se re-significa em cada pai. filho conforme seu ideal do eu, que por sua vez sustenta o É um projeto, pois os pais não só se antecipam proje- "ideal" da cultura da sua época. tando-se nele como geram seus projetos e planos em torno filho é sempre criado e inventado por Outro, mas do nascimento. Por exemplo, mudança, viagens, prepara- O é que os pais inventam um filho que ainda não nasceu? ção do quarto, do lugar, do tempo necessários à criação, etc. Os pais fazem isso com base na própria infância, em sua Com as novas técnicas de procriação assistida, a concre- história de filhos, na criança-filho que existe em todo adul- fi- tização da gravidez vira projeto e planejamento que se trans- to. De alguma maneira, eles se representam nos próprios formam em centro da vida de muitos casais, que neles depo- lhos como crianças e, ao mesmo tempo, separam-se deles sitam as esperanças de serem pais. (da criança que cadaum já foi) para se colocarem como os No caso de pais que adotam, o projeto requer um per- pais que já começam ser. curso e um tempo (podem ser anos) de espera e incerteza, até concretizarem a tão almejada adoção que os transforma- A função do filho antes de nascer rá em pais. A paternidade é relacionamento com um estra- do nho que, sem deixar de ser alheio, é eu; relação A criança-filho na sua função cênica é também uma pro- eu com um eu-mesmo que, no entanto, é estranho messa e não apenas de futuro e transcendência ela é tam- para mim (Emmanuel Lévinas). bém um modo de re-significar o próprio espelho dos pais e avós. É portanto uma promessa ideal, gerada nas fantasias de Caberia perguntar-se: o que é um filho antes de nascer? seus progenitores. Os filhos prometem um ideal que eles Ele é aquilo que os pais imaginam, comentam, roman- não podem atingir nem abranger. ceiam, inventam, criam e encenam a partir do ideal de cada Como promessa ideal, o filho sustenta e auspicia o pro- um. Logo, num contra-espelho paradoxal e obviamente sem jeto e a hipótese, que se complementam mutuamente em ter ciência do que faz, o filho inventa e cria um pai (roman- uma anterioridade lógica que antecede e precede a existên- ceia-o?) pelo fato de nascer num mundo de linguagem, numa cia real do corpo, o que confirma mais uma vez que o orga- história e dentro de uma linhagem. nismo não abrange o corpo subjetivado, dado que este exce- Antes de nascer, a criança é uma hipótese, uma novida- de ao órgão até fazer que ele exista como sujeito. de, um projeto e uma promessa. Hipóteses, promessas e projetos de filho-criança anteri- É uma hipótese porque sustenta a incógnita do que será. ores ao nascimento geram a existência de um suposto sujei- Os pais constroemas hipóteses partindo do enigma e da no- to filho "ideal". É um modo de existir no imaginário paren- vidade que o filho não nascido nem conhecido representa. tal que ganha consistência simbólica e real pois irá ser, sem Esta hipótese vaisendo construída no decorrer da tempora- saber, parte essencial da "pré"-história da criança. a he potese de ser / pria uma da 37 36acontecimento do nascimento filho existe na invenção de seus pais, fato que na infân- cia lhe permitirá construir e inventar as diversas versões deles O ato do nascimento sempre será uma novidade, porque quebra o tempo uniforme e unidirecional da cronologia e es- e do que acontece com ele. Eis uma das descobertas mais in- teressantes e inconclusas que nos deixou Sigmund Freud. tabelece a inapreensibilidade do acontecimento, ocorrendo de fato. A existência funcional e simbólica do filho antes do nas- Ao nascer, a criança é uma descoberta por inventar e cri- cimento é sustentada pelos pais mediante o ideal, no qual ar no próprio laço que vai se constituindo. Este laço surge no eles refletem, refratam e projetam seus próprios espelhos. encontro e (des)encontro da criança com o Outro. Não se Institui-se assim um corpo simbólico, real e imaginário do sabe como será nem se pode prever esse ato. filho que vai nascer. Em conclusão, por um lado situamos o tempo cronológi- O corpo imaginário do filho antes do parto deriva do CO e pelo outro dois tempos lógicos: o da antecipação simbó- corpo em movimento imaginado pelos pais. Eles imaginam lica e o da re-significação. um menino ou uma menina, isto é, imaginam a criança sexua- A representação gráfica é como segue: da (nunca assexuada). Estas imagens abrangem o desenvolvimento: eles imagi- Re-significação Acontecimento do nam o filho andando, correndo, pulando, falando, cantando, nascimento lendo, brincando, crescendo e sendo querido. Começam a Tempo cronológico amar uma imagem que eles próprios constroem e alimen- tam com suas histórias. Por acaso poderia existir amor pa- rental sem imagens corporais? Antecipação simbólica É precisamente o corpo simbólico o que confere consis- tência histórica às imagens ideais, uma vez que ele as no- Nascendo, o bebê desejado e esperado materializa-se meia, dando-lhes vida e existência singular e independente, num corpo recém-chegado. Ele é aquele tão imaginado e embora ainda não tenha nascido no sentido biológico. É o projetado. Nesse encontro entre o desejo antecipado e o re- corpo formado, entrelaçado por palavras e símbolos que no- cém-nascido se estrutura a demanda de amor. meiam um sujeito e não apenas seus órgãos. Entre a demanda e as reações reflexas do bebê sempre Antes do nascimento, corpo real enuncia a impossibili- se insere uma diferença, um desajuste ou desencontro pelo dade de se imaginar e representar tudo o que vai acontecer qual a criança nascida não coincide totalmente com o filho com o recém-chegado. É ele quem sustenta o enigma e a in- ideal. Nessa diferença se revela o acaso e o inesperado do cógnita do nascimento, pois sempre será impossível simboli- acontecimento, que inscrevem o sujeito numa genealogia his- zar e imaginar o que vai ocorrer por pertencer à esfera do tórica singular a ser criada e descoberta. não-antecipável. 39 38O filho recém-nascido jamais deixa de ser uma novida- Quando o nascimento questiona o ideal de, de certa forma inesperada. Não há como prever o que vai acontecer com a sua chegada. O acontecimento do nasci- Finalmente ovo rachou maior dos ovos e dele saiu bicando um animalzinho muito grande, muito mento será uma incógnita não desvendada, a não ser em mas muito feio e muito mal proporcionado. Ai, meu Deus! Que monstro! disse a mãe Não se seus efeitos cênico-significantes. parece comigo. Será mesmo um peru? Vamos pôr isso à prova. Vou levá-lo até a água e, se não quiser Quando o bebê nasce, o que se antecipava na espera mergulhar, vou jogá-lo à força (Hans Christian como promessa, novidade, hipótese e projeto ideal começa Andersen. O patinho feio). a se materializar no corpo recém-chegado ao mundo. Ele é esse ser esperado, só que o pequenino pode produzir refle- Ao nascer, a criança-filho esperada re-significa o ideal an- XOS arcaicos e automáticos. tecipado por seus pais. Que aconteceria se o recém-chegado No entanto, será nos reflexos onde a loucura cênica vivifi- questionasse ou pusesse em risco o ideal do eu parental? cante e unificante do Outro gerará os pontos de encontro en- Eis um dos grandes problemas com que se deparam os tre o desenvolvimento neuromotor (equipamento biológico) pais e as crianças que apresentam alguma deficiência neuro- e o campo da linguagem, dando ensejo ao advir de um sujeito lógica, genética ou orgânica ao nascer. A re-significação des- desejante, que se estruturará como tal num novo tempo. problemática será sempre um elemento do intenso e difí- cil percurso que eles terão de seguir, e nela certamente se A nova temporalidade lógica inaugura para a criança o verão muitas vezes diante do filho ideal que não veio, que horizonte simbólico do qual se nutrirá cada vez, na avidez não chegou, que não poderá vir nem chegar. dos encontros com o Outro. Este novo tempo subjetivo é o da re-significação e há de implicar necessariamente o da A criança excepcional apresenta, sem saber, o pungente paradoxo de se confrontar com o filho esperado e ideal an- apropriação simbólica de sua história. tecipado por seus pais, questionando assim seu ideal do eu e Em primeiro lugar, os pais é que re-significam no re- seu próprio narcisismo. cém-nascido o que já haviam antecipado, isto é, o ideal pa- A clínica da "deficiência" coloca diante de nós esse cená- rental (o ideal do eu dos pais) re-significa-se no nascimento rio que com freqüência se torna trágico, dada a enorme difi- do filho como efetuação cênica e discursiva retroativa. culdade que surge na montagem do laço com a criança que O tempo subjetivo sempre se estrutura em re-significa- não consegue ocupar plenamente a posição de filho, já que o ção, em retroação, "com efeito de retardo" (na terminologia filho desejado e não nascido se transforma, por sua vez, em freudiana), pois é nele onde a história subjetiva acontece na um duplo ideal: o ideal antecipado e "perfeito" em face do memória que o envolve inconscientemente. Os aconteci- ideal imperfeito que nasceu. mentos se inserem em múltiplas redes de acordes descontí- Nesta área clínica temos visto pais que, ao saberem da nuos e vibrantes. do filho, resolvem mudar o nome da criança, reservando o nome original para o filho normal. Com isso, o 40 41de lugares, permutações significantes que ocorrerão inaugu- filho excepcional recebe o nome de um outro não desejado, rando diversos destinos nos quais a criança habitará o esperado nem antecipado. Comporemos um simples quadro genealógico que nos O verdadeiro filho o dono daquele nome ainda não servirá para interpretar a função de enlaçamento e des-enla- nasceu e seus pais continuarão a esperar o nascimento desse çamento que decorre do nascimento de um filho. ideal que o nome procurará representar. Quem é o verda- Mulher deiro filho? É o daquele nome? E, nesse caso, seria a crian- Homem ça excepcional filha daquilo que porta no corpo, isto é, do Filho nome da síndrome de sua "deficiência"? O fato de ser "deficiente" lhe dará esse nome, em con- Mãe Pai traponto traumático com seu verdadeiro nome, aquele que só teve quando não se sabia dele. Com o nascimento, a in- Familiar cógnita ficou desvendada, o enigma elucidou-se na excep- Tanto no homem quanto na mulher que resolvem ter cionalidade e o que fora projetado acabou cancelado num si- um filho, esta decisão inaugurará um acontecimento que, nistro diagnóstico-prognóstico. por sua vez, enunciará desde o início uma permutação cêni- O jogo diabólico do dublê impossível que não pode ser ca. Para que esta se realize, homem e a mulher terão de emoldura e condensa a história filial, delimitando a genealo- perder seus lugares para recuperá-los como outros, chama- gia ainda por vir. Aqui é que se impõe a possibilidade de rea- dos pai e mãe por um filho que precisará deles na diferença. lizar um trabalho de luto, visando a amarrar o que teima em A partir dali, em função do filho, eles poderão funcionar se desligar, diante do impossível ideal com que é preciso li- como pai e mãe, embora para isto devam abandonar e per- dar, recuperando na re-significação a posição do filho, que der sua própria posição de filhos. fora usurpada pela do dublê (o filho ideal). Um homem e uma mulher só serão pais se renunciarem Assim, a perda do filho ideal e portanto sua própria per- à sua própria condição de filhos. Assim, o filho passará a fa- da é que possibilitará aos pais o reencontro com seu filho, a zer parte da nova linhagem genealógica que lhe precede e despeito da excepcionalidade da qual é portador, recolocan- antecede na alteridade da diferença entre gerações. do-o na genealogia, na aliança simbólica, podendo situar a imagem corporal para além de sua realidade deficitária. Corpo 9. corpo habitado é uma imagem metafórica do sujeito, é um espaço construído filho-criança inaugura uma nova genealogia conforme a imagem do corpo que lhe deu origem. Sem ela, o corpo não habita nem próprio espaço. A imagem se mostra no corpo da mesma maneira que as obras No seu funcionamento cênico, o filho abre as portas da exprimem as idéias e concepções de cada época (casas, cidades, edifí- povoados, etc.). A correspondência ou homologia entre imagem do corpo, cidade ordem familiar causando a genealogia que por sua vez foi sua arquitetura tem sido desenvolvida em diversas abordagens. Ver Sennet, Richard. causa. A genealogia resultará em mudanças e re-significação Carne y piedra. Madri, Alianza, 1997. Baudrillard, Jean e Nouvel, Jean. Los objetos Buenos Aires, Fondo de Cultura Económica, 2002. 43 42O desejo e a demanda dos pais diferem e se separam do certa maneira, eles cumprirão em parte a promessa que lhes desejo do homem e do da mulher, que situa a origem do fi- deu origem. lho em uma dimensão impossível de recuperar ou de repre- Os filhos da "deficiência" sentar para ele. Do desejo da mãe, do pai e do filho surge o domínio fa- Pensemos um pouco nos efeitos que poderia acarretar miliar como ordem necessária e contingente a cada funcio- para a estrutura genealógica e hereditária o nascimento de um filho com alguma anormalidade ou deficiência. namento. O domínio familiar resulta do intercâmbio simbó- lico e genealógico. Por sua vez, a posição materna e pater- O contraste com o filho ideal gera um nefasto contrapon- terá efeitos de re-significação nela como mulher e nele to que em muitos casos questiona até mesmo a genealogia, o na como homem. Da mesma forma, a função cênica do filho domínio familiar e a herança simbólica que esse filho haveria determinará a enunciação da posição do sujeito-criança na de gerar se a "deficiência" não tivesse se apresentado. estruturação dentro do domínio familiar. Com seus efeitos nefastos, a excepcionalidade escanca- Esta incrível rede genealógica resulta num acontecimen- rada do filho questiona a função parental. Desta forma os imprevisível em seus múltiplos efeitos e sentidos possíveis. pais herdam a excepcionalidade, o diagnóstico, o prognósti- to Nessa condição, ela gera permutação de posições simbólicas CO e a informidade de suas funestas e novos espelhos identificatórios. O filho excepcional corre o risco de tornar-se anônimo, Nestes novos enlaçamentos e desenlaçamentos, pais e transformando-se no filho da síndrome ou das deficiências, filhos se inventam e constroem mediante o laço de amor algo que é de índole demoníaca. Nesse caso, a criança seria (de filhos, de pais e de avós). filho do médico que descobriu essa criatura (a síndrome) Retomando nossa idéia, um pai inventa e cria um filho e que por isso tem seu nome. O nome da síndrome é o nome um filho inventa e cria um pai, como acontecimento próprio próprio do seu descobridor. O fato de a síndrome ser conhecida pelo nome do médi- da filiação. Deparamo-nos então com duas heranças simbólicas: por CO que a descobriu não só deslustra o próprio nome do mé- lado, a herança dos pais, que na sua transmissão e função dico, que dali em diante será denominado pela doença que um cênica atravessam e vestem todo o desenvolvimento do fi- ele cuidou de descobrir e descrever, mas também, por um lho, e, por outro lado, a herança (que poderíamos denomi- efeito parabólico ou de bumerangue, a síndrome descobre ao médico como tal, sendo então a deficiência a origem de nar invertida ou filiação inversa) que os filhos dão aos pais, seu nome, denominando a todas as crianças que ficam asso- proporcionando-lhes no seu funcionamento cênico esta nova ciadas à doença ou deficiência em questão. possibilidade de se tornarem pais. Os pais herdam de seus filhos esta possibilidade emi- 10. A informidade é uma das múltiplas facetas do outro, correspondendo à mudança nentemente simbólica em que exercerão seu amor paternal; caótica das funções e posições simbólicas; a informidade tem correspondência com a de- baseando-se neste amor o filho responderá amando-os e, de formidade e por esse viés se relaciona com o diabólico, com o demoníaco, com a morte. 45 440 que sustenta no 0 Por este caminho, os pais já não herdariam de seu "filho- uma force a criança produz espelhos de uma só deficiente" nem a promessa, nem o projeto, nem a hipótese, face, de um só rosto, que sempre lhe devolvem mesmo mas a excepcionalidade como produto acabado, como orga- significado unívoco, isto é, ser, parecer e padecer a "defi- ciência" sem re-significação. Esse é especificamente o as- nicidade em vida. pecto nefasto. Quando a excepcionalidade ocupa este lugar denomi- nando-o por inteiro em seu anonimato e sua anormalidade, O aspecto diabolicamente nefasto e obsceno não está na filho representa a deficiência e fica atrelado a ela, colado excepcionalidade ou "anormalidade" que a criança padece, mas na indiferença e imobilidade da significância que o fi- nela em uma holófrase (palavra-frase): "filhodeficiente". lho-criança encarna sem alternativa. corporificado nesta irredutível posi- Nesta impossibilidade de permutação simbólica, a ge- do homem e da mulher de cuja união a nealogia fica congelada e os pais acabam herdando a organi- foi produto, o que muitas vezes causa conflitos no laço de cidade, com o que eles e a criança são imobilizados num es- amor ele com cada um dos pais e no relacionamento do casal. pelho certamente refratante e obscenamente indiferente. Se o "filhodiscapacitado" ficasse fixo, imobilizado no Com freqüência, a aparência monstruosa que resulta da discurso e em seu posicionamento, não haveria permutação deficiência determina uma condenação a não ter semelhan- de lugares simbólicos, de modo que a criança-filho ocupa- tes nem descendentes. A criança "monstro" é o outro abso- sempre a mesma posição, causando com isso a fixidez da luto. O outro espelho sem imagem materializa-se em sua fi- ria função materna e paterna, de mãe e pai de um "filhodisca- gura corporal. pacitado", um eterno bebê, imobilizando-o em sua signifi- A "deficiência" faz com que a criança do outro espelho cância na rede genealógica e em sua atuação significante. enseje a paródia da ambivalência. Ela espanta e seduz, pro- Nesta perspectiva fixa e unívoca, o filho, como repre- duz indiferença e atração, feiúra e beleza, identidade e dife- sentante corporificado e ativo da deficiência, ocuparia um rença, violência e passividade, amor e ódio, pecado e santi- lugar central na ordem familiar, só que o faria como "anor- dade, negação e afirmação. E, ainda assim, ela atrai olhar mal", absorvendo o tempo familiar disponível em função da com a mesma força que a imagem ideal. própria doença que o denomina. Na Antigüidade, a criança excepcional, sendo absoluta- Com isso, o "filhodiscapacitado" transforma-se também mente identificada como o outro, confundia-se com diabó- em promessa e projeto, mas somente em função da própria lico e o sagrado. No Egito, por exemplo, anões e pessoas com excepcionalidade que o origina, como acontecimento imu- malformações eram venerados e até deificados. Já em outras culturas eles eram mortos, jogados do topo de um monte, tável e definitivo causado pela doença. queimados ou abandonados para morrerem à míngua. Na sua função de "filhodiscapacitado", a criança susten- ta no corpo o espelho mortal da organicidade, que determi- A violência com que o "outro" irrompe como diferen- na seu agir, seu existir e a existência dos demais. ça, alteração, transmutação, deslocamento, inversão e muti- lação põe em cena o que é informe e impossível. 47 46Caminhos e cenários do "filhodeficiente" ça em sua organicidade e anormalidade. Aparece então o que já analisamos quanto à figura do dublê ideal, daquele Em nosso percurso pelo cenário clínico e educacional, que não nasceu e que o filho, na sua "deficiência", sustenta pudemos observar pelo menos três caminhos diferentes de como outro espelho ideal, competência inatingível e impos- "filhodeficiente" no seu funcionamento cênico familiar. O sível que sempre acaba por derrotá-lo. primeiro é o do "filhodeficiente" que sustenta, no seu posi- cionamento congelado, o amor incondicional de seus pais. Nos percursos analisados até aqui percebemos a impos- sibilidade de realizar um trabalho de significação e de luto atender a neassidade São pais que dedicam todo seu tempo à problemática do fi- que permita aos pais elaborar e sustentar a alteridade da di- lho e fazem dela a causa de suas vidas. ferença que apresenta uma criança com problemas de de- Assim, eles se refletem no seu "filhodeficiente", que senvolvimento. Certamente, o que está em questão é a fun- forma um só com eles mas é um só completo, sem limites. ção cênica do filho. O amor ilimitado que os inspira esconde a culpa e o remorso gerados pela excepcionalidade. Nesse amor simbiótico, pais O terceiro percurso possível é o que nós propomos e e filhos passam a ser denominados pela deficiência que os que envolve o difícil e doloroso caminho do luto, a elabora- ção e a re-significação da promessa, do projeto e da hipótese causa, sem se darem conta disso. que todo filho representa. Lembro-me de um congresso, organizado por uma asso- Procuramos então recuperar a função do filho a quem a ciação de pais de crianças com deficiência, em que havia no excepcionalidade impeditiva, em sua predominância dis- palco um grande cartaz com a seguinte frase: "Para uma cri- cursiva e simbólica, torna "filhodeficiente". A operação clí- ança com impedimento, um amor sem limites". nica e educativa que nós defendemos implica necessaria- Parei para refletir sobre este aforismo, porque se o amor mente um corte, uma quebra ou separação possível entre não tem limites, nem condições nem regras, deixa de ser "filho" e "deficiência". É quebrar a holófrase "filhodeficien- amor e vira Outro, que fixa e planifica o lugar do te" para recuperar o filho-criança fora da excepcionalidade, filho e o seu próprio, identificando-se com ele, como pai da anormalidade ou organicidade. deficiência que lhes dá nome. O amor sem limite limita e é Elaborar a deficiência não implica desconhecê-la. Ao do empecilho às possibilidades de estruturação de uma criança contrário, precisamos de um espaço importante para os pais durante a fase de instituição da infância. poderem falar dela e situá-la em sua historicidade, evitando confundi-la com a genealogia. O segundo percurso do "filhodeficiente" é o que gera re- jeição, exclusão, onde se refrata a imagem da criança des-iden- Para este percurso de elaboração e re-significação é fun- tificando-a como filho e revestindo-a com a excepcionalida- damental ajudar os pais a realizarem e aprofundarem o laço de, obscurecendo todo encontro possível com a criança para cênico de amor com o filho e não com a deficiência. No mí- nimo movimento, na inesperada reação "patológica", na in- além de seu problema. cipiente gestualidade ou nas mudanças tônicas e reflexas, os Em casos assim, o amor vira ódio e culpa na sua face filhos com problemas de desenvolvimento e de estruturação oposta, gerando-se com isso um espelho que refrata a crian- 49 48imagem do corpo) e ao gozo do órgão, que se consome no subjetiva é que nos dão chances, abrem para nós as portas próprio estremecimento e na obscenidade da organicidade, secretas para construirmos uma cena possível onde eles pos- sem sentido e sem palavras. sam aparecer no espelho do Outro como sujeitos, afastan- Nestes casos, a organicidade ocupa a posição central da do-se do que representa a excepcionalidade. criança e do Outro. O funcionamento psíquico todo está fu- sionado ao funcionamento orgânico, à disfunção, à excep- órgão sem a imagem do corpo cionalidade. Será isto possível? Sua majestade ser o No trabalho com crianças com multideficiência ou com órgão no gozo, indiferente do organismo sem corpo. transtornos neurológicos ou congênitos (que padecem Só temos conseguido conferir corpo ao órgão graves mais de uma deficiência sensorial, motriz e mental irreversí- nos ao gozo obsceno do funcionamento maquinal da dis- vel), estamos dedicados aos pequenos detalhes, nos quais po- demos enxergar um sujeito apesar da crua organicidade. função, mediante a cena e o cenário que podemos gerar com base nos detalhes, silêncios e indícios, onde chegamos a en- Em face do órgão afetado e da disfunção que essa lesão trever e entreabrir uma possibilidade de alternância na orga- acarreta, nós geramos um cenário relacional e simbólico, nicidade gozosa sem imagem do corpo¹¹. com base no qual criamos uma cena onde a criança possa existir num espelho diferente da deficiência. Quando o órgão se ordena e organiza sem a imagem cor- poral, a estrutura sensório-motora, em lugar de separar-se A criança com múltiplas deficiências isto é, com doen- dando lugar ao outro e ao gesto atuante da subjetividade, irrepresentáveis olha para nós de esguelha, tenta movi- um forma uma holófrase e funciona em bloco, conjuntamente, ças sorriso, faz uma vagarosa mudança tônico-postural, sem diferenças, sem tempos, sem silêncios nem espaços. O menta a cabeça, emite algum som, um grito, faz um trejeito aspecto "sensório-motor" fica congelado, coagulando sinis- ainda não chega a ser um gesto ou um leve movimento tramente num só ponto. que espontâneo, que não consegue se transformar em chamado; nós respondemos sensivelmente a esses sinais, afirmando-os No bloco-órgão "sensório-motor", o gozo não sai do órgão como indícios significantes que nos mostram um sujeito que sem corpo toda a sua energia se esgota inutilmente na pró- pria origem. Não há espaço para ocorrer o tempo subjetivo da a antecipa nelas. São estas reações da criança que orientam na criação cê- re-significação. A tentativa de se montar um corte como laço cênico entre o aspecto sensitivo e o aspecto motor daria jus- nica de um lado, montar um corte ou separação entre a criança para, e sua excepcionalidade, a múltipla fragmentação ou tamente a possibilidade de o acontecimento da diferença se dissociação provocada pela disfunção e, de outro lado, mon- dife- tar um laço cênico, gerando uma dobra, uma orla, uma rença-alteridade com relação à fusão "criançadeficiente". 11. O órgão sem imagem do corpo opõe-se à "vitalidade não-orgânica" do "corpo sem órgãos" que foi proposta por Antonin Artaud e depois retomada por Deleuze e Guat- Neste cenário simbolizador a criança não só poderá exis- tari. bem verdade que Artaud desenvolve sua luta contra os órgãos, mas ao mesmo tempo contra o organismo que se possui: o corpo humano nunca é organismo. Os or- tir em outro espelho possível como, ao fazê-lo, dará condi- ganismos são os inimigos do corpo." Deleuze, Gilles e Guattari, Felix. Mil platôs. Vol. ções para que se vá imprimindo um rastro, uma marca-letra 3. Rio de Janeiro, Ed. 34, 1999, p. 21. Lins, Daniel. Antonin Artaud O artesão do corpo sem órgãos. Rio de Janeiro, Ed. Relume, 1999. Pardo, José Luis. Deleuze: vio- dessas cenas em franca oposição ao órgão sem corpo (sem lentar el pensamiento. Colombia, Ed. Cincel, 1990. corpo representa a 51 eo seria uma 50inscrever, inserindo-se entre ambos pólos, separando o domí- O Outro gera um cenário e uma cena onde pode surgir a nio sensível (sensitivo) da sua resposta (motora). representação sensório-motriz como ponte. O acontecimen- to como efeito do laço cênico transferencial origina a divisão A representação psicomotriz e a diferença entre a sensação (percepção) e a resposta. Co- Na inscrição da diferença entra em jogo a possibilidade meça o tempo da antecipação e da re-significação do aspecto de que nesse "silêncio" escritural o espelho do Outro reflita sensorial para o aspecto motor e reciprocamente. e refrate a criança diferentemente. Nessa dobra cênica a cri- Representação Representação ança terá a chance de que sua sensibilidade se transforme sensorial motriz em afetividade disponível para outro que não é ela própria nem a organicidade, o que deixará entreabertas as portas da representação, pois esta faz a mediação entre o que a criança Antecipa a resposta sente e o que pode encenar. Tentaremos representar graficamente o que acabamos Quando ocorre a resposta subjetiva, e já não apenas mo- triz ou sensorial, re-significa-se para esse sujeito o fazer como de dizer: representação psicomotriz que medeia e articula a sensi- bilidade. Em holófrase Órgão sem "Sensório-motor" Congelado imagem do Fusionado corpo Representação Representação Represen- sensorial motriz tação O Outro entrevê um psicomotriz detalhe, uma mínima diferença em que se A criança encena a representação psicomotriz como antecipa o sujeito apropriação subjetiva, como gesto apresentado para ser vis- to e lido por Outro que provoca o desejo de se movimentar, de agir e, com isso, re-significa o acontecimento de escrita e Outro inscrição da diferença entre o sensório e motor. Sensório Cena. Laço Motor Cenário transferencial O que se perdeu neste percurso é o órgão "sensório-mo- Ponte tor" sem corpo, para que possa surgir um sujeito que, apesar da organicidade, esteja sustentado em um espelho que já não estará no órgão mas fora dele, na imagem do corpo que Acontecimento foi gerada pela inscrição. Aspecto sensorial Inscrição Aspecto motor Representação 52 53

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