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Tireoideopatias na APS SUMÁRIO 1. Introdução ...................................................................................................................3 Doenças mais comuns da tireoide na APS ...............................................................3 Epidemiologia .............................................................................................................3 2. Explorando experiência da doença ............................................................................5 Hipotireoidismo ..........................................................................................................5 Hipertireoidismo .......................................................................................................10 Nódulos tireoidianos ................................................................................................13 Anamnese e exame físico ........................................................................................13 3. Entendendo a pessoa como um todo ......................................................................17 4. Incorporando a prevenção e a promoção ................................................................18 5. Elaborando um projeto em comum ..........................................................................19 Hipotireoidismo ........................................................................................................19 Hipertireoidismo .......................................................................................................21 Nódulos tireoidianos ................................................................................................24 6. Intensificando a relação equipe-paciente ...............................................................28 7. Sendo realista ...........................................................................................................29 Referências ....................................................................................................................31 Tireoideopatias na APS 3 1. INTRODUÇÃO Na realidade da Atenção Primária à Saúde (APS), as doenças da tireoide são de- mandas comuns, encabeçando uma das 25 condições mais frequentemente diag- nosticadas por médicos da família nos Estados Unidos. Diante desse contexto, é importante que os médicos atuantes na Medicina de Família e Comunidade sejam capazes de diagnosticar doenças com apresentação clínica e também subclínica. Doenças mais comuns da tireoide na APS Dentre as tireoideopatias existentes, destacam-se na APS: hipotireoidismo (ati- vidade reduzida da glândula tireoide), hipertireoidismo (atividade potencializada da glândula tireoide) e nódulos tireoideanos (aparecimento de lesões nodulares na glândula tireoide). Conceito: Hipertireoidismo x Tireotoxicose É comum encontrarmos na literatura os conceitos hipertireoidismo e tireotoxi- cose referidos como sinônimos de forma errônea. O hipertireoidismo se refere à produção exacerbada de hormônios tireoidianos, enquanto o termo tireotoxi- cose designa a repercussão clínica nos órgãos expostos aos hormônios tireoi- dianos em excesso. Epidemiologia O hipotireoidismo é a doença da tireoide mais frequente em todo o mundo. Acomete 2% da população geral e 15% da população acima dos 60 anos. A preva- lência é superior no sexo feminino (relação de 8:1). Um estudo prospectivo inglês com duração de 20 anos revelou uma incidência média anual de 4,1 casos/mil mu- lheres e 0,6 casos/mil homens. Um estudo transversal feito em São Paulo revelou que 6,6% dos participantes apresentavam o hipotireoidismo. Em 95% dos casos, a etiopatogenia da doença é primária; os 5% restantes são secundários a outras con- dições, como distúrbios hipofisários ou hipotalâmicos e uso de medicamentos (ex: lítio, amiodarona, talidomida, rifampicina, interferon, antitireoideanos). O hipertireoidismo constitui a principal causa de tireotoxicose. Essa entidade também é mais prevalente no sexo feminino, acometendo 5 vezes mais mulheres a homens. Alguns estudos indicam a prevalência de hipertireoidismo de 2-3% na po- pulação feminina e de 0,2% na população masculina. A etiologia em 60 a 80% dos Tireoideopatias na APS 4 casos é a Doença de Graves (comum em mulheres entre 20 a 40 anos de idade); em 10 a 30% dos casos são causados pelo bócio multinodular tóxico (mais comum em idosos). Menos frequentemente (cerca de 1% dos casos), o hipertireoidismo é asso- ciado ao adenoma tóxico ou a tireoidites, como mecanismos etiopatogênicos. A prevalência dos nódulos tireoideanos entre as mulheres é de 5% e entre os ho- mens é de 1%, o que aumenta, no contexto do diagnóstico por imagem, para 19 a 68%. Apesar desses números, relativamente altos, que tornam essa uma entidade comum, a incidência de neoplasias malignas da tireoide (a malignização dos nó- dulos é uma possibilidade) é razoavelmente baixa e seu prognóstico costuma ser bom. A frequência dessa entidade é, em geral, mais alta em mulheres idosas. O cenário epidemiológico descrito sedimenta a relevância da abordagem das ti- reoideopatias na APS. TIREOIDEOPATIAS NA APS Doenças mais comuns Hipertireoidismo Hipertireoidismo Hipotireoidismo Nódulos Tireoidianos Nódulos Tireoidianos Hipotireoidismo Hiperatividade tireoidea Prevalência maior no sexo feminino Tireoideopatia mais comum Diagnóstico clínico: 5-1% Diagnóstico por imagem: 19-68% Principal causa de tireotoxicose Primária: 95%; Outras causas: 5% D. Graves: 60-80%; Bócio multinodular tóxico: 10-30% Lesões nodulares na tireoide Hipoatividade tireoidea Epidemiologia Tireoideopatias na APS – Introdução Tireoideopatias na APS 5 2. EXPLORANDO EXPERIÊNCIA DA DOENÇA O atendimento ao portador de tireoideopatia, como em qualquer consulta clínica, baseia-se na construção de uma anamnese completa e detalhada sobre a experiên- cia individual do paciente com a doença. Dessa forma, deve-se questionar sobre: • os sinais e sintomas apresentados; • o impacto dessa manifestação clínica na vida do paciente (descrever limitações); • realização de tratamento prévio (descrever forma de uso de medicamentos); • forma que o paciente entende os sintomas; • expectativa do paciente em relação ao manejo do tratamento pela Equipe de Saúde da Família (ESF); • como o paciente se sente em relação à doença. Hipotireoidismo Anamnese A apresentação clínica varia conforme a duração da doença, o ritmo de queda do hormônio tireoidiano (repentino ou gradual) e a coexistência de outras condições, como menopausa, depressão, fibromialgia etc. Os sinais e sintomas mais comumente referidos pelos pacientes são: • Ganho de peso; • Constipação intestinal; • Parestesia; • Mialgia; • Cansaço; • Dispneia aos esforços; • Comprometimento de memória e raciocínio; • Irregularidade menstrual; • Rouquidão; • Diminuição da acuidade auditiva; • Sudorese diminuída; Tireoideopatias na APS 6 • Pele seca; • Intolerância ao frio; • Sintomas depressivos, irritabilidade. O quadro clínico estereotipado do paciente portador de hipotireoidismo não é comumente verificado (com sintomatologia completa), sendo mais frequente a apresentação de sintomas inespecíficos relacionados ao curso lento e insidioso da doença, o que torna essa condição um desafio diagnóstico. Ademais, há múltiplos diagnósticos diferenciais que podem mimetizar as manifestações clínicas típicas do hipotireoidismo, dificultando o diagnóstico. Diante disso, o médico da família deve atentar a determinados perfis de pacientes, no sentido de empreender tal investiga- ção diagnóstica: • Mulheres na menacme com amenorreia, oligomenorreia ou dificuldade de engravidar; • Mulheres na menacme com metrorragia ou menorragia, hiperprolactinemia e sintomas climatéricos; • Crianças com desenvolvimento puberal e crescimento ósseo retardados e bai- xo rendimento escolar; • Idosos com fraqueza, cansaço (sinais e sintomas presentes em outras patolo- gias comuns nessafaixa etária). Fatores de risco para o desenvolvimento do hipotireoidismo: Puerpério; Histórico familiar de doença autoimune da tireoide; Passado de irradiação da região de cabeça e/ou pescoço ou de radioterapia/cirurgia da tireoide; Doença autoimune (Ex: DM1, doença celíaca, síndrome de Sjögren). Exame físico A realização adequada do exame físico pode apontar alguns achados comemora- tivos do hipotireoidismo: • Letargia; • Xerose da pele; • Palidez cutânea; • Infiltração da pele; • Pele fria; • Edema periorbital; • Bradicardia; Tireoideopatias na APS 7 • Atraso da fase de relaxamento dos reflexos osteotendíneos; • Hipertensão diastólica; • Queda de pelo/cabelo; • Madarose; • Bócio (a presença não é obrigatória). Diagnóstico A suspeita clínica é levantada com base no quadro clínico, contudo, a con- firmação diagnóstica se dá laboratorialmente, haja vista a inespecificidade da sintomatologia. Fluxo de investigação de hipotireoidismo Inicia-se a investigação por meio da dosagem do TSH. Há três cenários possíveis diante do resultado: • TSH elevado: Repetir TSH e proceder com dosagem de T4 livre ou total a fim de confirmar hipotireoidismo primário; • TSH normal + quadro clínico típico: Repetir TSH e proceder com dosagem de T4 livre ou total a fim de confirmar hipotireoidismo secundário de causa central; • TSH reduzido: Repetir TSH e proceder com dosagem T3 e T4 livres para averi- guar hipertireoidismo. Interpretação dos exames laboratoriais – Classificação do Hipotireoidismo • Hipotireoidismo primário: Laboratorialmente, define-se por aumento de TSH e diminuição de T4 livre ou T4 total. O manejo se dá em nível de APS, sendo as bases do sucesso terapêutico a prescrição da medicação na posologia adequada e a correta adesão terapêutica. A terapia deve ser iniciada com levotiroxina. • Hipotireoidismo subclínico: Laboratorialmente, caracteriza-se por aumento discreto e persistente de TSH (até 20 mUI/L) e níveis normais de T4 livre ou T4 total. A confirmação exige a repetição das dosagens de TSH e T4 em um intervalo de um a 3 meses do primeiro exame. • Hipotireoidismo central (secundário – hipofisário – ou terciário – hipotalâmi- co): Laboratorialmente, baseia-se em níveis normais ou diminuídos de TSH e T4 livre ou T4 total reduzido. Aventar a possibilidade de hipotireoidismo Tireoideopatias na APS 8 central depende desse perfil laboratorial aliado à presença de quadro clínico característico. Diante da suspeita de hipotireoidismo central, há indicação de encaminhamento para especialista (endocrinologista). Na prática! Valores de Referência dos Exames Laboratoriais de Função Tireoidiana Valores de referência para alguns exames EXAME VALOR DE REFERÊNCIA TSH 0,4 a 4,12 mcUI/ml T4 total 6,09 a 12,23 mcg/dl T4 livre 0,58 a 1,64 ng/dl T3 total 87 a 178 ng/dl Fonte: UFRGS, 2020 Se liga! O médico de família deve ter conhecimento a cerca de alguns achados laboratoriais sugestivos e potencialmente elucidativos em quadros clínicos duvidosos, como hipoglicemia, hiponatremia, hiperprolactine- mia, aumento de creatinofosfocinase (CK), anemia normocrômica normocítica, hipercolesterolemia. Tireoideopatias na APS 9 SUSPEITA CLÍNICA DE HIPOTIREOIDISMO Solicitar TSH TSH elevado Repetir TSH + T4 livre e total TSH elevado + T4 livre ou total reduzido Hipotireoidismo Primário TSH elevado + T4 livre ou total normal TSH normal + quadro clínico Repetir TSH + T4 livre e total TSH normal ou reduzido + T4 livre ou total reduzido Hipotireoidismo Central Hipotireoidismo Subclínico TSH reduzido Repetir TSH + T4 e T3 livres TSH reduzido + T4 e T3 livre reduzidos Fluxo de investigação de hipotireoidismo Outros exames laboratoriais É possível, em circunstâncias específicas, considerar a solicitação de dosagem de anticorpos tireoidianos, a depender da disponibilidade: antitireoperoxidade (an- ti-TPO), antitireoglobulina (anti-TgAb). Títulos séricos elevados dos referidos mar- cadores, principalmente o anti-TPO, sugerem fortemente tireoidite autoimune como fator causal. A análise quantitativa dos anticorpos também tem valor prognóstico, em se tratando de um quadro de hipotireoidismo subclínico, uma vez que a chance de evolução para hipotireoidismo franco é maior tanto quanto os níveis plasmáticos dos marcadores. Tireoideopatias na APS 10 Hipertireoidismo Anamnese A instalação dos sinais e sintomas característicos do hipertireoidismo depende: da idade do paciente (normalmente, em idosos os quadros são menos exuberantes); da causa; do nível de acúmulo de hormônios tireoidianos; da duração da condição e da existência de comorbidades. O surgimento do quadro, normalmente, se dá de forma insidiosa. Os sintomas mais referidos pelos pacientes são: • Perda de peso; • Queda de cabelo; • Irregularidade menstrual; • Intolerância a calor; • Sudorese; • Palpitação; • Ansiedade, irritabilidade; • Insônia; • Diarreia; • Poliúria; • Fadiga, cansaço, fraqueza. Fatores de risco para o desenvolvimento de hipertireoidismo Sexo feminino; Passado de disfunção da tireoide; Uso de medicamentos (lítio, amiodarona, citocinas) ou compostos com iodo; Tabagismo; Puerpério; Gatilho estressor ambiental; Histórico familiar de tireoideopatias; Doenças autoimunes (miastenia grave, DM1 etc.). Exame físico Os achados comuns no exame físico de um portador de hipertireoidismo são re- lacionados ao aumento da taxa metabólica do organismo: • Aumento da temperatura corporal; Tireoideopatias na APS 11 • Hipertensão arterial; • Taquicardia; • Alargamento da pressão de pulso; • Fibrilação atrial; • Taquipneia; • Tremores de extremidades; • Fraqueza muscular; • Atrofia tenar/hipotenar; • Alopécia; • Pele quente e úmida; • Hiperidrose; • Retração palpebral; • Ginecomastia; • Bócio difuso ou nódulo tireoideano. Diagnóstico Fluxo de investigação de hipertireoidismo Inicia-se a investigação por meio da dosagem do TSH e T4 livre ou total. Há três cenários possíveis diante do resultado: • Quadro clínico típico + TSH reduzido + T4 elevado: Diagnóstico de hipertireoi- dismo primário bem definido. • Quadro clínico típico + TSH reduzido + níveis normais de T4: Solicitar dosa- gem de T3 a fim de confirmar hipertireoidismo. • T3 elevado: Também caracteriza hipertireoidismo. • T3 normal: Configura-se hipertireoidismo subclínico, que deve ser confir- mado com repetição da dosagem de TSH. Vale salientar que o uso de al- guns medicamentos (ex.: glicocorticoides) e algumas doenças sistêmicas induzem um estado de hipertireoidismo subclínico. • Quadro clínico típico + TSH normal ou elevado + T4 elevado: Indica hiperti- reoidismo central. Tireoideopatias na APS 12 Se liga! Para fins de confirmação diagnóstica, as dosagens plas- máticas de T4 e, eventualmente, de T3 livres é mais fidedigna e deve, então, ser priorizada, uma vez que a quantificação de T4 e T3 totais podem ser com- prometidas por fatores que afetam a concentração de globulinas ligadoras de hormônios tireoidianos, como gravidez, doença hepática, hipoproteinemia, sín- drome nefrótica, linfoma, desnutrição grave, AIDS, uso de alguns medicamen- tos (amiodarona, anticoncepcional hormonal, propranolol, furosemida etc.). Fluxo de investigação de hipertireoidismo SUSPEITA CLÍNICA DE HIPERTIREOIDISMO Solicitar TSH e T4 (livre ou total) TSH reduzido e T4 elevado TSH reduzido e T4 normal Solicitar T3 T3 elevado T4 e T3 normais Hipertireoidismo Subclínico Hipertireoidismo Primário Hipertireoidismo Central TSH normal ou elevado e T4 elevado Outros exames laboratoriais Pode-se requisitar também os exames de anticorpos antirreceptores de TSH (TRAb) e cintilografia da tireoide com captação para determinação da etiologia do hipertireoidismo, orientando adequadamente a instituição de tratamento definitivo. Tireoideopatias na APS 13 Se liga! Pode-se lançar mão desses exames laboratoriais adi- cionais quando disponíveis em nível de APS, no entanto, aprescrição de tratamento inicial e a decisão de encaminhamento para atenção terciária es- pecializada não dependem desses resultados. Nódulos tireoidianos A principal queixa referida pelo paciente portador de nódulo de tireoide é o au- mento da região cervical. Após avaliação clínica básica, através de exame físico adequadamente realizado, pode-se identificar presença de lesões nodulares pal- páveis em tireoide. A descoberta de nódulos tireoidianos também se dá, frequente- mente, de forma incidental, por meio de exame de imagem. Anamnese e exame físico Normalmente, os pacientes são assintomáticos. Contudo, a principal queixa re- ferida pela minoria dos pacientes portadores de nódulo de tireoide é o aumento da região cervical (bócio). É possível a apresentação de outros sintomas associados à compressão causada pelos nódulos, como: • Disfagia (sobretudo, se localizados posteriormente no lobo esquerdo da glândula); • Rouquidão; • Dispneia; • Tosse. Diagnóstico O diagnóstico dos nódulos tireoidianos é primariamente clínico por meio da pal- pação adequada da glândula tireoide. Também é comum o diagnóstico incidental aos exames de imagem (USG da região cervical). A presença de nódulo à palpação indica a requisição de ecografia da tireoide com objetivo de avaliar e caracterizar a lesão, bem como as estruturas próximas. Tireoideopatias na APS 14 Se liga! A mera suspeita de lesão nodular à palpação da tireoide não indica a solicitação de ecografia; portanto, esse não é um exame de roti- na! No entanto, pacientes portadores de nódulos identificados incidentalmente merecem investigação, uma vez que também apresentam risco de evolução para neoplasia da tireoide. Seguimento da avaliação O objetivo da avaliação do nódulo tireoidiano consiste no esforço de afastar ou confirmar possível neoplasia de tireoide, pois, embora a maioria dos nódulos tenha natureza benigna, por volta de 5 a 10% configuram carcinomas da tireoide. Para isso, o médico da família deve aliar avaliação clínica minuciosa à realização de exa- mes complementares indicados corretamente. • Dosagem de TSH: Em pacientes com nódulos, níveis baixos de TSH sugerem hipertireoidismo, sendo indicada a investigação de nódulo quente; para tanto, deve-se encaminhar para especialista (endocrinologista). Nesse contexto, so- licita-se a cintilografia da tireoide com iodo radioativo. Se detectados nódulos hipercaptantes, descarta-se a necessidade de punção, em vista do mínimo risco de malignidade. A dosagem do TSH fica indicada para todos os pacientes com nódulos maiores que 1 cm. Se liga! Fatores de Risco para Malignidade • Passado de radiação da região cervical; • Histórico familiar de câncer de tireoide (familiar de primeiro grau); • Crescimento rápido do bócio ou do nódulo; • Rouquidão; • Linfonodo cervical aumentado coexistente. • Interpretação da ecografia da tireoide: O acompanhamento do paciente com nódulo na tireoide perpassa a realização da ecografia, uma vez que alguns achados desse exame corroboram ou enfraquecem a suspeição de neoplasia de tireoide, definindo a necessidade de continuidade de investigação por meio de realização de punção aspirativa por agulha fina (PAAF). Tireoideopatias na APS 15 Interpretação da ecografia da tireoide PADRÃO ECOGRÁFICO CARACTERÍSTICAS ECOGRÁFICAS RISCO DE MALIGNIDADE Alta Suspeita de Malignidade Nódulo sólido hipoecoico ou nódulo misto com componente sólido hipoecoico E uma ou mais das seguintes características: margens irregulares, microcalcificações, formato mais alto do que largo, evidência de comprometimento extratireoidiano. >70-90% Suspeita Intermediária de Malignidade Nódulo sólido hipoecoico com margens regulares E sem evi- dência das seguintes características: microcalcificações, com- prometimento extratireoidiano e formato mais alto do que largo. 10-20% Baixa Suspeita de Malignidade Nódulo sólido isoecoico ou hiperecoico E sem evidência das seguintes características: microcalcificações, comprometimen- to extratireoidiano e formato mais alto do que largo. 5-10% Muito Baixa Suspeita de Malignidade Nódulo espongiforme, nódulo parcialmente cístico ou sem ca- racterísticas suspeitas. constitui um problema, pois pode induzir a iatrogenia, além de repre- sentar custos adicionais desnecessários ao sistema e saúde. Incorporando a prevenção e promoção INCORPORANDO PREVENÇÃO E PROMOÇÃO Uso racional dos recursos Evitar sobrediagnóstico Pacientes com alteração em exame físico Pacientes sintomáticos Realização de exames complementares Tireoideopatias na APS 19 5. ELABORANDO UM PROJETO EM COMUM Hipotireoidismo Hipotireoidismo primário franco A estratégia terapêutica inicial consiste na reposição de hormônio tireoidiano sintético, a levotiroxina. A dose de 1,6 μg/kg/dia (dose plena) é prescrita para pa- ciente hígidos e com menos de 60 anos de idade. Pacientes idosos ou com patolo- gias cardíacas devem tomar a levotiroxina sob a dose de 25 μg/dia para pacientes idosos, com aumentos graduais a cada duas semanas de 12,5 a 25 μg/dia até o alcance da dose apropriada ao controle do TSH. É uma droga associada à baixa in- cidência de efeitos colaterais. O médico deve educar o paciente em relação ao uso correto da medicação. Ela deve ser administrada 60-30 minutos antes do desjejum com bastante água (pelo menos, um copo). Além disso, as diferentes formas de apresentação disponíveis no mercado não são bioequivalentes, sendo contraindicada a troca de preparações far- macêuticas distintas, o que deve ser ensinado ao paciente também. Se liga! Pacientes com patologias disabsortivas ou com passado de cirurgia de bypass intestinal podem ter a absorção da levotiroxina compro- metida. Há também possibilidade de interação medicamentosa, de modo que alguns fármacos aceleram o metabolismo dessa droga, como a rifampicina, fenobarbital, fenitoína, carbamazepina. É importante o médico da família ter conhecimento dessas informações para prescrever a levotiroxina com a poso- logia ajustada. Objetiva-se com o tratamento a normalização dos títulos séricos de TSH. Deve- se dosar o TSH após 4-8 semanas a fim de verificar a efetividade terapêutica. Valores anormais de TSH após início do tratamento podem sugerir má adesão tera- pêutica ou uso incorreto do fármaco, sendo imprescindível a educação do paciente. Caso os valores permaneçam alterados, deve-se proceder com ajuste para o alcan- ce da dose ideal da levotiroxina para aquele paciente. Tireoideopatias na APS 20 Alvo terapêutico dos níveis de TSH conforme faixa etária. NÍVEL DE TSH ALVO IDADE DO PACIENTE 1 a 2,5 mUI/L 70 anos Hipotireoidismo subclínico Há divergência das recomendações na literatura a respeito do tratamento dessa condição, mas é consenso que a terapia é reservada a pacientes com alteração per- sistente na função tireoidiana (é mandatória a confirmação dos valores iniciais de TSH após 3-6 meses). Sendo assim, trata-se nas seguintes situações: • TSH persistentemente > 10 mcUI/mL; • TSH persistentemente > 7 mcUI/mL em paciente com: • idadeO monitoramento de tratamen- to é realizado através da dosagem de T4 livre ou total ou T3; o TSH, por outro lado, Tireoideopatias na APS 23 não é um indicador fidedigno, podendo seguir reduzido até 12 meses depois do iní- cio do tratamento. Na doença de Graves, deve-se manter o tratamento por 12 a 18 meses, esperan- do controle da mesma; caso não haja melhora clínica, deve-se avaliar a viabilidade de instituição de tratamento definitivo. Tratamento definitivo Iodo radioativo No que se refere a tratamento definitivo para hipertireoidismo, tem-se o iodo ra- dioativo como linha terapêutica de primeira escolha. Contudo, sua escolha depende de algumas questões, como disponibilidade na rede de saúde; idade do paciente (contraindicado para crianças abaixo dos 10 anos de idade). Pacientes do sexo fe- minino devem ser orientadas a evitar gravidez por 1 ano após o tratamento. Cirurgia A cirurgia é uma linha terapêutica reservada a casos estritamente selecionados: • Pacientes com sintomas compressivos; • Pacientes gestantes; • Nódulos com análise citológica indeterminada; • Irresponsividade a esquemas terapêuticos anteriores; • Escolha do paciente. Hipertireoidismo subclínico A abordagem do paciente portador de hipertireoidismo subclínico independe da presença de sintomas, sendo direcionada à causa subjacente. O fluxograma a seguir sintetiza os critérios de indicação a tratamento dentro do rol de pacientes com hipertireoidismo subclínico. Tireoideopatias na APS 24 Indicação de tratamento no hipertireoidismo subclínico HIPERTIREOIDISMO SUBCLÍNICO TSH 1 cm com suspeita muito baixa (incluindo nódulos espongiformes) e nódulo completamente cístico: Não há consenso sobre a necessidade e perio- dicidade do monitoramento do nódulo. Caso desejem dar seguimento, o exame deve ser repetido em 24 meses. • Nódulo 60 anos, com DCV: levotiroxina 25 μg/dia com aumento gradual a cada duas semanas Pacientes hígidosMaior entendimento Melhores resultados Avaliação dos Fatores de Risco Tireoideopatias na APS 29 7. SENDO REALISTA É necessário reforçar para o paciente a importância da adesão terapêutica e do uso correto da medicação para o controle da doença. O médico de família deve acalmar o paciente no que se refere à possibilidade do diagnóstico de um câncer de tireoide, explicando a baixa prevalência. Na vigência de um câncer de tireoide, o médico pode explicar ao paciente sobre o bom prognós- tico da entidade. O médico atuante na APS tem como obrigação racionalizar o uso dos recursos, o que inclui a solicitação de exames com parcimônia e indicação correta. A requi- sição racional de exames complementares objetiva não sobrecarregar os custos do Sistema Único de Saúde, além de evitar hiperdiagnóstico, que pode implicar em iatrogenia e ansiedade do paciente em relação a uma condição patológica sem sig- nificado clínico. Sendo realista SENDO REALISTA Uso correto do medicamento Compactuar com o paciente a importância da adesão terapêutica Explicar sobre o prognóstico bom do câncer de tireoide Não solicitar exames complementares sem indicação Evitar sobrediagnóstico Educação do paciente sobre a forma correta de uso Explicar ao paciente que nem todo diagnóstico é câncer Evitar custos adicionais ao SUS Evitar iatrogenia Evitar ansiedade de pacientes com condições benignas Expectativa sobre diagnóstico de neoplasia Uso racional dos recursos Tireoideopatias na APS 30 Tireoideopatias na APS TIREOIDEOPATIAS NA APS Hipertireoidismo Hipotireoidismo Nódulos Tireoidianos Indicação de PAAF seleta DiagnósticoDiagnósticoHipertireoidismoQuadro Clínico Tratamento: Levotiroxina Seguimento: Periódico Tratamento Dosagem de TSH e T4 livre ou totalPerda de peso Referenciar Queda de cabelo↑ T; Pele quente e úmida BradicardiaAnsiedade; irritabilidade Hipertensão diastólicaAnálise de fatores de risco Pele seca e fria; palidezTremores; taquipneia Cansaço; dispneia; mialgiaDosagem de TSH, T3 e T4 Encaminhar para especialista após início do tratamento antitireoidiano e sintomático BócioRetração palpebral Ganho de pesoPalpitação; taquicardia, FA Análise de fatores de riscoHipertensão Lentificação; letargia Referenciar: Perfis específicos Metimazol ou propiltiuracil Cirurgia ou iodo radioativo Tratamento sintomático (betabloqueadores) Conduta expectante ou cirurgia Bócio + Palpação + USG + TSH Tireoideopatias na APS 31 REFERÊNCIAS Gusso G et al. (Org.). Tratado de medicina de família e comunidade: princípios, for- mação e prática. Porto Alegre: Artmed, 2019. Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Faculdade de Medicina. Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia. TelessaúdeRS (TelessaúdeRS-UFRGS). TeleCondutas: hipotireoidismo: versão digital 2020. Porto Alegre: TelessaúdeRS- UFRGS, 5 out. 2020. Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Faculdade de Medicina. Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia. TelessaúdeRS (TelessaúdeRS-UFRGS). TeleCondutas: hipertireoidismo: 2017, Porto Alegre. Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Faculdade de Medicina. Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia. TelessaúdeRS (TelessaúdeRS-UFRGS). TeleCondutas: nódulos tireoidianos: 2018, Porto Alegre. sanarflix.com.br Copyright © SanarFlix. Todos os direitos reservados. Sanar Rua Alceu Amoroso Lima, 172, 3º andar, Salvador-BA, 41820-770