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## Resumo sobre HipertireoidismoO hipertireoidismo é uma condição clínica caracterizada pela hiperatividade da glândula tireoide, que resulta na produção excessiva dos hormônios tireoidianos T3 e T4, acelerando o metabolismo corporal. Epidemiologicamente, acomete cerca de 1,2% da população, sendo mais prevalente no sexo feminino numa proporção de 5:1. É fundamental distinguir hipertireoidismo de tireotoxicose: enquanto a tireotoxicose é um termo amplo que descreve a síndrome causada pela exposição dos tecidos a níveis elevados de hormônios tireoidianos, independentemente da origem, o hipertireoidismo refere-se especificamente aos casos em que essa elevação decorre da hiperatividade da tireoide.### Quadro ClínicoO quadro clínico do hipertireoidismo é marcado por sintomas decorrentes da hiperatividade metabólica. Os pacientes frequentemente apresentam perda de peso não intencional, intolerância ao calor, nervosismo, irritabilidade, agitação e labilidade emocional. Sintomas cardíacos são particularmente importantes, incluindo taquicardia, palpitações e arritmias, que podem levar a complicações graves. Outros sinais e sintomas abrangem diversas áreas:- **Geral:** perda de peso, intolerância ao calor, diabetes, agitação.- **Pele, cabelo e unhas:** pele quente, sudorese, prurido, eritema palmar, queda de cabelo, onicólise.- **Neurológico:** labilidade emocional, agitação, hipercinesia, insônia.- **Cardiovascular:** palpitação, taquicardia, arritmias, insuficiência cardíaca.- **Respiratório:** dispneia, hiperventilação.- **Tireoide:** bócio por hiperplasia.- **Gastrointestinal:** hiperfagia, hiperdefecação, dispepsia, náusea.- **Osteomuscular:** fadiga, miopatia, atrofia, desmineralização óssea, artralgia.- **Hematológico:** alterações na eritropoese, esplenomegalia.- **Olhos:** olhar fixo, retração palpebral (lid-lag).- **Reprodutor:** oligomenorreia, amenorreia, perda da libido, disfunção erétil.Um diagnóstico diferencial importante é o feocromocitoma, tumor adrenal que provoca uma síndrome adrenérgica com sintomas semelhantes, como taquicardia e sudorese. A diferença crucial está nos níveis de catecolaminas: no feocromocitoma, estão elevados, enquanto no hipertireoidismo, os níveis são normais, mas há aumento da sensibilidade dos receptores beta-adrenérgicos devido à ação dos hormônios tireoidianos.### EtiologiasAs causas do hipertireoidismo são variadas, podendo ser divididas em tireotoxicose com hipertireoidismo (hiperatividade da tireoide) e tireotoxicose sem hipertireoidismo (liberação excessiva de hormônio por destruição glandular ou exógena). As principais etiologias com hipertireoidismo são:- **Doença de Graves:** doença autoimune responsável por 60-80% dos casos, mais comum em mulheres jovens. Caracteriza-se pela produção de autoanticorpos, principalmente o TRAb (anticorpo para o receptor do TSH), que estimula a tireoide a produzir hormônios em excesso. Além do bócio difuso, pode causar manifestações extratireoideanas como exoftalmia (protrusão ocular), dermopatia infiltrativa (mixedema pré-tibial) e acropaquia (baqueteamento dos dedos).- **Bócio Multinodular Tóxico (BMT):** presença de múltiplos nódulos hiperfuncionantes que produzem hormônios independentemente do controle hipotalâmico-hipofisário. Mais comum em mulheres acima de 50 anos, pode causar sintomas compressivos devido ao aumento volumoso do bócio.- **Adenoma Tóxico:** nódulo único hiperfuncionante que produz hormônios em excesso, semelhante ao BMT, porém com bócio geralmente menor e sintomas menos intensos.É importante destacar que tireoidites, apesar de causarem sintomas de tireotoxicose, não configuram hipertireoidismo, pois a glândula está hipoativa devido à destruição folicular, liberando hormônios armazenados.### DiagnósticoO diagnóstico inicial baseia-se na dosagem sérica de TSH e T4 livre (T4L). Quatro situações principais podem ser encontradas:1. **TSH reduzido / T4L elevado:** indica tireotoxicose primária, sugerindo hipertireoidismo. As principais causas são Graves, BMT e adenoma tóxico.2. **TSH reduzido / T4L normal:** pode indicar hipertireoidismo subclínico ou tireotoxicose induzida por T3 (se T3 elevado).3. **TSH normal ou elevado / T4L elevado:** sugere problema central (hipófise ou hipotálamo).4. **TSH normal / T4L normal:** exclui tireotoxicose.Para definir a etiologia, exames complementares são essenciais:- **Anticorpos:** TRAb (alta sensibilidade e especificidade para Graves), Anti-TPO e Anti-TG (marcadores de autoimunidade, mas menos específicos para Graves).- **Imagem:** ultrassonografia para identificar nódulos e cintilografia para avaliar a captação dos nódulos (quentes ou frios), fundamental para diferenciar BMT e adenoma tóxico.### TratamentoO tratamento do hipertireoidismo envolve duas frentes: controle sintomático e controle da produção hormonal.- **Controle sintomático:** feito com betabloqueadores (propranolol é o principal, seguido de atenolol), que bloqueiam os receptores beta-adrenérgicos, reduzindo sintomas como taquicardia e tremores. Em casos de contraindicação, bloqueadores de canal de cálcio podem ser usados, embora com eficácia menor.- **Controle da produção hormonal:** três opções principais: - **Drogas antitireoidianas (DATs):** metimazol (primeira escolha, exceto no 1º trimestre de gestação) e propiltiouracil (PTU, preferido em gestantes e lactantes). Metimazol inibe a organificação do iodo, enquanto PTU também bloqueia a conversão periférica de T4 em T3. Efeitos adversos incluem rash, prurido, agranulocitose, hepatite tóxica (mais comum com PTU), entre outros. - **Iodoterapia:** administração de iodo radioativo que destrói o tecido tireoidiano, sendo um tratamento definitivo, simples e seguro. Contraindicado em gestantes, crianças pequenas, neoplasias e oftalmopatia grave. - **Cirurgia (tireoidectomia):** indicada para casos refratários, bócios volumosos com sintomas compressivos ou contraindicações às outras terapias. Pode ser parcial, subtotal ou total, dependendo da etiologia e extensão da doença. Pré-operatório idealmente com paciente em eutireoidismo, usando betabloqueadores e, se possível, DATs combinados com iodeto de potássio para reduzir vascularização.### Decisão TerapêuticaA escolha do tratamento depende da etiologia:- **Doença de Graves:** no Brasil, o tratamento inicial é com DATs por 1-2 anos, monitorando T3 e T4L a cada 4-6 semanas até normalização, depois em intervalos maiores. Cerca de 30-50% dos pacientes podem recidivar após desmame, quando se considera iodoterapia ou cirurgia.- **Doença de Plummer (BMT e adenoma tóxico):** iodoterapia ou cirurgia são preferidas, pois DATs não resolvem o problema estrutural. Pode ser necessário estabilizar o paciente com DATs antes do procedimento definitivo.- **Hipertireoidismo subclínico:** tratamento controverso, indicado principalmente se houver fatores de risco como fibrilação atrial, doença arterial coronariana, climatério ou osteoporose.---## Destaques- Hipertireoidismo é a hiperatividade da tireoide, distinta da tireotoxicose, que é a síndrome causada por excesso de hormônios tireoidianos de qualquer origem.- A Doença de Graves é a principal causa, caracterizada por autoanticorpos que estimulam a tireoide e podem causar manifestações extratireoideanas.- Diagnóstico baseia-se em TSH e T4L, complementado por anticorpos e exames de imagem para definir a etiologia.- Tratamento envolve controle sintomático com betabloqueadores e controle hormonal com drogas antitireoidianas, iodoterapia ou cirurgia, dependendo da causa.- A decisão terapêutica deve considerar a etiologia, gravidade, idade e condições clínicas do paciente, com acompanhamento rigoroso para evitar recidivas e complicações.