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O primeiro fundamento é que o direito natural é aquele que **decorre da natureza das coisas**. Contudo, é preciso ter muito cuidado com essa afirmação. Ela não significa que a natureza física do mundo seja um "legislador", ou seja, não se trata de observar o comportamento dos animais ou os fenômenos naturais e daí extrair regras jurídicas. Também não significa necessariamente que Deus seja o legislador, embora essa perspectiva seja possível e adotada por alguns. O professor se declara cristão protestante e possui outro canal chamado "Theo de Dados", onde aprofunda temas de filosofia, teologia e cristianismo. Ele afirma que, mesmo crendo em Deus, é possível trabalhar o direito natural sem fundamentá-lo diretamente na autoridade divina. O ponto essencial é que o direito é chamado de "natural" porque decorre da **natureza humana** — e mais especificamente da **racionalidade humana**. O direito natural é a percepção do que é certo e errado a partir do exercício da razão. O segundo fundamento, de base mais metafísica, é a ideia de que existe uma **ordem natural no universo**, o que implica também uma ordem natural para a vida humana em sociedade. Essa perspectiva está mais ligada à primeira teoria apresentada. Primeira Teoria, Lei Natural Metafísica ou Essencialista (Aristotélico-Tomista) Esta teoria tem como base a filosofia de **Aristóteles** e a teologia filosófica de **Tomás de Aquino**, sendo por isso chamada de teoria aristotélico-tomista. O conceito central é a **metafísica**, que é a compreensão de que a realidade possui uma organização e um sentido. Ligada à metafísica está a ideia de **essência**: cada ser tem uma essência, uma finalidade, um propósito. A isso se chama **teleologia** — do grego *telos*, que significa finalidade. Tudo no universo existe em função de um fim. Para construir o sistema ético e jurídico dentro dessa perspectiva, é necessário perguntar: qual é a essência do ser humano? Qual é a sua finalidade? A resposta a essa pergunta fundamenta todo o direito natural nessa tradição. Para Aristóteles, o fim supremo do homem — o sumo bem — é a **felicidade** (*eudaimonia*, em grego). Porém, atenção: essa felicidade não é o simples prazer ou a alegria cotidiana, como o conceito é entendido popularmente hoje. A *eudaimonia* aristotélica significa o **pleno desenvolvimento das virtudes humanas**. O homem realiza sua natureza quando desenvolve plenamente suas virtudes. O professor menciona que o próximo vídeo do canal seria justamente sobre a virtude em Aristóteles como "meio-termo". **Tomás de Aquino** incorpora essa estrutura aristotélica, mas acrescenta a dimensão teológica cristã: Deus é o sumo bem. O homem será verdadeiramente feliz na medida em que estiver ajustado à pessoa de Deus, participando da natureza divina. Dentro dessa visão, a **lei natural** significa a **participação humana na lei eterna divina** — a razão humana, ao captar a ordem do universo criado por Deus, está participando da sua lei eterna. Essa perspectiva tomista é mantida até hoje pelos chamados **tomistas tradicionais**, autores contemporâneos que trabalham a teoria de Tomás de Aquino de forma bastante fiel, fazendo críticas ao positivismo jurídico. Entre eles o professor menciona **Jacques Maritain** (perspectiva mais religiosa, dentro da filosofia católica tradicional), **Michel Villey** e **Xavier Hervada**, todos seguindo uma linha tomista bem tradicional, isto é, ainda trabalhando em termos da metafísica aristotélico-tomista. Elementos de Transição: Modernidade e a Negação da Metafísica Antes de apresentar as demais teorias, o professor explica o contexto histórico que marca a passagem da Idade Média para a modernidade. A Idade Média termina em **1473**, com a queda do Império Romano do Oriente. A Idade Moderna vai de 1473 até a **Revolução Francesa (1789)**. A partir daí começa a Idade Contemporânea, e alguns autores falam em **pós-modernidade** a partir da década de 1970 do século XX. A grande característica da modernidade, que já se inicia no fim da Idade Média, influenciada por teólogos e filósofos franciscanos (rivais do tomismo dominicano), é a **negação da metafísica aristotélica**. Essa negação arrasta consigo também a perspectiva tomista do direito natural, abrindo espaço para novas formas de fundamentação. Junto a isso surge o problema filosófico conhecido como **Guilhotina de Hume** (ou **Lei de Hume**), também chamado de **problema do ser e do dever-ser**. O filósofo David Hume identificou que não se pode logicamente derivar um juízo de dever-ser (o que *deve* acontecer, o que é *certo*) a partir de uma simples descrição do que *é* (da realidade). Isso seria uma falácia lógica, chamada de falácia naturalista. O professor pondera que, bem compreendida, a guilhotina de Hume é apenas um problema de lógica proposicional e pode ser contornada com relativa facilidade, desde que a **finalidade esteja devidamente apresentada no silogismo**. Aristóteles e Tomás de Aquino, dentro de suas próprias estruturas de pensamento, não incorreram nessa falácia. Porém, no pensamento moderno e contemporâneo, a guilhotina de Hume teve um impacto enorme: ela está na base da negação do direito natural e da separação entre direito e moral. O raciocínio que prevalece é o de que juízos morais seriam apenas subjetivos, e portanto o direito não poderia se fundamentar na moralidade. --- ### Segunda Teoria: Lei Natural Lockiana Esta teoria é construída a partir do pensamento do filósofo inglês **John Locke**. Ela representa já um afastamento da metafísica aristotélica — Locke é filho do pensamento moderno que nega essa tradição — mas ainda mantém um **fundamento teológico**. O professor faz uma distinção importante de vocabulário: a lei natural de Locke **não é teleológica** (pois abandona a ideia de finalidade metafísica aristotélica), mas tem um **fundamento teológico** (baseado na ideia de Deus). O conceito-chave no pensamento de Locke é a **propriedade**, e mais especificamente a ideia de **Deus como proprietário do ser humano**. Locke deriva os direitos naturais a partir da premissa de que sendo Deus o criador e proprietário do ser humano, nenhum outro ser humano tem o direito de destruir, escravizar ou dominar outro. Essa estrutura teológica fundamenta os direitos naturais sem recorrer à metafísica das essências e finalidades aristotélicas. --- ### Terceira Teoria: Nova Teoria do Direito Natural (Nova Lei Natural) Esta teoria representa uma síntese do pensamento de Tomás de Aquino com a **filosofia analítica** do século XX. O principal autor citado pelo professor é **John Finnis**. A filosofia analítica propõe o trabalho filosófico em conjunto com a teoria da linguagem, considerando a filosofia a partir dos pressupostos linguísticos. O que os autores da nova teoria do direito natural fizeram foi uma **releitura de Tomás de Aquino**, mantendo o conteúdo do pensamento tomista, mas chegando a ele por um percurso de filosofia analítica, e não pelo percurso da metafísica aristotélica clássica. A **moralidade** desempenha um papel central nesse sistema. Tudo é construído a partir dela. Uma característica fundamental é a forma como esse sistema contorna a guilhotina de Hume: **a ética é considerada anterior à ontologia**. Isso significa que primeiro se estabelecem juízos de dever-ser para depois compreender a natureza humana. A natureza humana é, portanto, compreendida a partir desses juízos de dever-ser, e não o contrário. Como se chega a esses juízos? Pela **observação das inclinações dos seres humanos**. A partir da observação do que os seres humanos naturalmente buscam e evitam, deduzem-se os **bens humanos básicos**, que são as finalidades fundamentais da existência humana. Esses fins são investigados num campo pré-moral, antes da ética propriamente dita. O sistema parte de uma distinção aristotélico-tomista entre **razão teórica** (ou especulativa) e **razãoprática**. A razão teórica é usada no campo da matemática, da filosofia pura, das ciências. A razão prática é usada quando se reflete sobre as finalidades humanas, a ética, a moral e o direito. Portanto, a teoria do direito natural não pertence ao campo da razão especulativa, mas ao da **razoabilidade prática**. O sistema se constrói a partir de **primeiros princípios de razoabilidade prática**, que são **auto-evidentes**. O mais fundamental deles é: **o bem deve ser buscado e o mal deve ser evitado**. Esse princípio, segundo o professor, não é algo que precise ser demonstrado — é auto-evidente. A partir daí, outros princípios complementam o sistema, como o **princípio do amor** (amar ao próximo como a si mesmo) e a **regra de ouro** (faça aos outros o que gostaria que fizessem a você). Os juízos morais, nesse sistema, são sempre **juízos práticos a respeito de meios**, não de fins, pois os fins já estão estabelecidos no campo pré-moral. A resolução dos casos concretos se dá por meio de **silogismos de razoabilidade prática**: parte-se do primeiro princípio (o bem deve ser buscado), analisa-se o caso concreto com base na experiência e na virtude da prudência, e conclui-se qual é o bem a ser feito ou o mal a ser evitado naquela situação específica. Essa teoria também estabelece um diálogo entre direito natural e direito positivo. O campo das **consequências jurídicas** (penas, sanções, procedimentos) é deixado para o direito positivo — isso se chama "determinação" ou "especificação" do direito natural. Os casos que não têm previsão na lei positiva (casos difíceis) são resolvidos diretamente pelo direito natural. E leis injustas, por contrariarem o direito natural, não são verdadeiramente leis. O professor também retoma o esquema de Tomás de Aquino das quatro leis: lei eterna (a racionalidade divina, inacessível aos humanos exceto por revelação), lei natural (a participação humana nessa lei eterna, acessível pela razão), lei humana positiva (que deve refletir a lei natural) e lei divina (a lei revelada nas escrituras, que não contradiz a lei natural, mas a confirma). O professor também menciona que existe uma controvérsia entre **tomistas tradicionais** e os seguidores da nova teoria do direito natural: os tradicionais chamam Finnis e seus seguidores de "neoescolásticos", enquanto estes reivindicam para si a verdadeira tradição tomista, argumentando que os tradicionais não compreenderam certas nuances do pensamento de Tomás de Aquino. --- ### Quarta Teoria: Libertarismo ou Anarcocapitalismo Esta é chamada pelo professor de a versão mais radical do jusnaturalismo. A teoria libertária do direito natural parte da premissa de que o **estado não tem legitimidade ética**, porque se sustenta pela **agressão ao direito natural de propriedade dos indivíduos**. O monopólio da violência pelo estado é considerado ilegítimo, pois qualquer agressão injusta à propriedade privada e à liberdade das pessoas é inadmissível nessa perspectiva. O principal autor citado é **Murray Rothbard** (falecido em 1995), que constrói todo o seu sistema de direito natural a partir do **princípio da não agressão**. O professor observa que há muita semelhança entre o pensamento de Rothbard e o de Tomás de Aquino. Outro autor mencionado é **Hans-Hermann Hoppe**, que refina essa perspectiva. Hoppe não parte apenas do princípio da não agressão, mas faz uma síntese desse princípio com a **ética argumentativa** de Apel e Habermas (escola crítica de Frankfurt). O argumento de Hoppe é que toda decisão legítima deve ser resultado de um **engajamento em argumentação**. Para argumentar, é necessário pressupor que o indivíduo tem **propriedade sobre seu próprio corpo**, pois sem essa autopropriedad ele não pode argumentar. Negar esse direito de autopropried ade seria uma **contradição performativa** — ou seja, a negação do próprio pressuposto do discurso. A partir desse direito de autoproprie dade, Hoppe deriva também o **direito de propriedade privada** e a **liberdade contratual**. Qualquer discurso ou lei que não respeite esses três elementos (autopropried ade, propriedade privada e liberdade contratual) incorre em contradição e é, portanto, ilegítimo define o jusnaturalismo como a corrente do pensamento jurídico que postula a existência do direito natural. O direito natural é um conjunto de leis que não são feitas pelos seres humanos — as leis feitas pelos seres humanos são o direito positivo. O direito natural vem da própria natureza e, na modernidade, o conceito de "natureza" pode ser substituído pelo de "razão". Assim, direito natural são as leis da razão. O professor explica também a palavra "anterior" no contexto do jusnaturalismo: não significa apenas que o direito natural existia antes do estado no tempo, mas principalmente que ele é **superior e hierarquicamente prioritário** em relação ao direito positivo. O direito natural é o alicerce; o direito positivo é construído sobre ele e deve respeitá-lo. Para ilustrar, o professor usa o exemplo do Leviatã de Hobbes: o direito natural explica os fundamentos e as razões da existência do estado, mas não determina o conteúdo específico das leis positivas, pois em Hobbes o soberano é absoluto e pode produzir qualquer tipo de lei. Também discute com o aluno Bruno se Rousseau pode ser classificado como jusnaturalista. A resposta é afirmativa, pois Rousseau defende que existem direitos do homem que o governo não pode suprimir — como o direito à liberdade, que decorre da natureza humana racional, e não das leis positivas. ### Três Concepções Conceituais do Jusnaturalismo Baseando-se num verbete do Dicionário de Política (organizado por Bobbio e outros), o professor apresenta três formas conceituais de se caracterizar o jusnaturalismo: A **primeira** é o direito natural como **lei divina**, isto é, um conjunto de leis que vêm diretamente da divindade, podendo ser reveladas por profetas ou escrituras sagradas. É a concepção mais teológica e religiosa do direito natural. A **segunda** é o direito natural como **leis da natureza**, derivadas da observação de uma ordem natural no cosmos — os movimentos dos planetas, os ciclos das estações, o comportamento dos animais. Nessa concepção, o ser humano é parte dessa natureza e a ela está submetido, junto com outras espécies. É uma concepção pré-moderna, ligada aos filósofos da antiguidade que também eram uma espécie de cientistas naturais. A **terceira** é o direito natural como **expressão dos preceitos da razão**, os comandos da razão. Hobbes, por exemplo, fala explicitamente em leis naturais que não estão escritas em lugar nenhum, mas que podem ser derivadas pelo exercício da razão. Essa vertente é conhecida como **jusracionalismo** e coloca a razão humana, e não Deus nem a natureza cósmica, como fundamento do direito. ### Três Períodos Históricos do Jusnaturalismo O professor organiza também o jusnaturalismo em três grandes períodos históricos. O **jusnaturalismo antigo** é marcado pela concepção de leis da natureza numa perspectiva cosmológica. Os filósofos gregos e romanos pensavam o direito natural como uma ordem cósmica à qual os seres humanos e até os deuses estavam submetidos. O professor menciona **Cícero**, que fala numa lei verdadeira, conforme a razão, imutável e eterna. Essa ideia de imutabilidade e eternidade do direito natural é muito influente, mas também recebe a crítica de ser a-histórica — sem flexibilidade para acompanhar o Progresso social. O **jusnaturalismo medieval** é dominado pela síntese cristã, especialmente com **Tomás de Aquino**, que resgata Aristóteles e o adapta ao pensamento católico. Na Idade Média, a lei natural é a lei estabelecida e revelada por Deus nas escrituras. O professor destaca que essa tradição tomista foi muito influente na tradição jurídica ibérica (Portugal e Espanha) e, por consequência, no direito brasileiro e latino-americano. Uma característica importantedessa tradição é a ideia de que uma lei positiva injusta não é uma lei verdadeira e não obriga — pois a validade decorre da justiça, não apenas da forma. O **jusnaturalismo moderno** tem como grande fundador o jurista e filósofo holandês **Hugo Grócio**, que trabalhou como advogado de grandes empreendimentos comerciais coloniais do século XVII. Grócio argumentou que os mares são livres e pertencem a toda a humanidade (liberdade de navegação como direito natural), que a propriedade adquirida por transação comercial é um direito natural, e que a possibilidade de estabelecer contratos é também um direito natural. Sua grande inovação foi afirmar que o direito natural teria validade **independentemente da existência ou não de Deus** — "o direito natural seria verdadeiro ainda que Deus não existisse" — laicizando assim os fundamentos do direito. Os grandes autores do jusnaturalismo moderno são **Grócio**, **Hobbes**, **Locke**, **Rousseau** e **Kant**, todos desenvolvendo à sua maneira o direito como teoria da razão. Um ponto que une esses autores é a narrativa do **estado de natureza** e do **contrato social**: indivíduos em estado de natureza contratam entre si para constituir o estado, que tem a finalidade de proteger os direitos naturais dos indivíduos. Essa perspectiva introduz o **individualismo** (o ser humano é visto como indivíduo, sujeito de direitos) e o **voluntarismo** (o fundamento do estado é a vontade dos indivíduos). o jusnaturalismo moderno não rejeita o direito positivo. Pelo contrário, o direito positivo é necessário para dar efetividade, segurança e força ao direito natural, que por si só não consegue se impor. O jusnaturalismo moderno serviu de base intelectual para o **movimento de codificação** do direito nos séculos XVIII e XIX — os grandes Códigos Civil, Penal e de Processo não são um movimento positivista contra o direito natural, mas sim uma expressão do jusnaturalismo racionalista que buscava sistematizar racionalmente o direito para proteger os direitos naturais dos indivíduos.