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Natalia Piona - Pediatria R+
Doença Falciforme em Pediatria
	🐈 PULO DO GATO
Prioridade nas provas (independente da ordem de estudo acima): síndrome torácica aguda, hemoterapia e triagem neonatal concentram a maior parte das questões diretas nas quatro bancas analisadas — revise esses três primeiro se o tempo for curto, mesmo que apareçam depois no caderno.
	🐈 PULO DO GATO
A síndrome torácica aguda, a hemoterapia e a triagem neonatal concentram a maior parte das questões diretas nas quatro bancas analisadas — priorize esses três eixos se o tempo de revisão for curto.
Fundamentos da doença falciforme
Terminologia: doença falciforme x anemia falciforme
Tratado Brasileiro de Pediatria (cap. Doença Falciforme); Nelson Textbook of Pediatrics.
​​Doença falciforme é o termo guarda-chuva que reúne todas as hemoglobinopatias nas quais a hemoglobina S está presente e é capaz de produzir manifestações clínicas. A HbS pode estar em homozigose (genótipo HbSS) ou combinada com outra variante estrutural ou com uma talassemia — HbSC, HbS/β⁰-talassemia, HbS/β⁺-talassemia.
Anemia falciforme é uma denominação mais restrita: alteração genética hereditária, de herança autossômica recessiva, que corresponde, em geral, ao genótipo HbSS — a forma clássica e frequentemente mais grave da doença falciforme.
	💡 PONTO DE PROVA
Toda anemia falciforme é doença falciforme, mas nem toda doença falciforme é anemia falciforme. Essa distinção de nomenclatura é sutil, mas usada com precisão nos textos de referência e pode aparecer em questões conceituais.
Epidemiologia
1. Pode ser encontrada em todos os continentes; mais prevalente em povos de ascendência africana
1. Brasil: cerca de 200.000 nascimentos com traço falciforme e 3.500 com doença falciforme por ano; maior prevalência nas regiões Norte e Nordeste
1. Sobrevida estimada: EUA ≈ 58 anos; Reino Unido ≈ 67 anos; Brasil ≈ 42 anos (homens) e 48 anos (mulheres) — reflexo direto do acesso a diagnóstico precoce, profilaxia e seguimento especializado
Fisiopatologia essencial
A doença falciforme é causada por uma mutação pontual no gene da cadeia β da globina (substituição de ácido glutâmico por valina na posição 6 — GAG→GTG), gerando a hemoglobina S (HbS). Em condições de baixa tensão de oxigênio, acidose, desidratação, frio ou febre, a HbS polimeriza dentro da hemácia, formando fibras rígidas que deformam a célula em foice. Esse processo é inicialmente reversível, mas ciclos repetidos de falcização/desfalcização lesam a membrana da hemácia de forma permanente (falcização irreversível).
1. Hemólise crônica extravascular e intravascular — anemia basal, icterícia, aumento de LDH e bilirrubina indireta, redução de haptoglobina.
1. Vaso-oclusão — hemácias falcizadas aderem a um endotélio já ativado pela inflamação crônica, recrutam leucócitos e plaquetas e obstruem a microcirculação, causando isquemia tecidual, dor e lesão de órgão-alvo — é o mecanismo central da crise álgica (Tópico 5).
1. Inflamação vascular crônica e disfunção endotelial — substrato para complicações crônicas (nefropatia, hipertensão pulmonar, AVC), mesmo fora das crises agudas.
1. Asplenia funcional progressiva — autoesplenectomia por infartos esplênicos repetidos, geralmente instalada até os 2–4 anos de idade nos genótipos graves (HbSS).
O switch de hemoglobina (por que o recém-nascido nasce "protegido")
	📖 CONCEITO
No período fetal, a hemoglobina predominante é a HbF (α₂γ₂) — duas cadeias alfa e duas cadeias gama. A partir do nascimento, ocorre redução progressiva da síntese de cadeias gama e aumento da síntese de cadeias beta, com substituição gradual da HbF pela HbA (α₂β₂) — ou, quando há mutação na cadeia beta, pela hemoglobina variante (HbS, HbC). É por isso que o recém-nascido com doença falciforme costuma ser assintomático nos primeiros meses: a HbF ainda alta "dilui" o efeito da HbS e não polimeriza. Os sintomas típicos só aparecem depois que o switch avança — geralmente a partir dos 3–6 meses de vida.
Genótipos principais
	Genótipo
	Gravidade clínica
	Observação
	HbSS (anemia falciforme)
	Mais grave
	Homozigoto para HbS; maior taxa de complicações vaso-oclusivas e hemolíticas
	HbS/β⁰-talassemia
	Grave, semelhante à HbSS
	Ausência completa de HbA
	HbS/β⁺-talassemia
	Intermediária
	HbA presente, porém em quantidade reduzida
	HbSC (doença da hemoglobina SC)
	Mais branda na maioria dos desfechos hemolíticos
	Maior risco relativo de retinopatia proliferativa, necrose avascular e complicações na gestação
	Traço falciforme (HbAS)
	Assintomático na grande maioria dos casos
	Não é doença falciforme; requer apenas orientação genética
Por que o traço falciforme (HbAS) é assintomático?
	📖 CONCEITO
No heterozigoto HbAS, cada hemácia contém os dois alelos beta em expressão simultânea: cerca de 55–60% de HbA e 40–45% de HbS. A HbA normal, em maior proporção, interfere na polimerização da HbS — as fibras de deoxi-HbS precisam de uma concentração intracelular mínima de HbS para se formar, e a diluição pela HbA normal geralmente mantém a hemácia abaixo desse limiar. Por isso, a falcização só ocorre em condições extremas de hipóxia (grandes altitudes, hipóxia perioperatória grave, desidratação intensa), o que explica por que o traço é, na enorme maioria das vezes, clinicamente silencioso — mas não justifica dispensar o aconselhamento genético do casal.
	📌 PRECISA SABER
Traço falciforme (HbAS) não é doença — é condição de portador heterozigoto, geralmente assintomática pelo mecanismo acima. A banca frequentemente testa se o candidato confunde traço com doença, sobretudo na interpretação da triagem neonatal (ver Tópico 1).
1 · Triagem Neonatal e Interpretação das Hemoglobinas
Prioridade máxima — apareceu de forma muito semelhante na UNICAMP e no SUS-SP, com forte possibilidade de repetição. Tratado Brasileiro de Pediatria; PCDT Doença Falciforme.
	📖 CONCEITO
As hemoglobinas identificadas no teste do pezinho são descritas em ordem decrescente de concentração. No recém-nascido, a HbF (fetal) predomina fisiologicamente — por isso ela vem sempre em primeiro lugar na sigla (o "F" inicial de FA, FAS, FS, FSA, FSC...). As letras seguintes representam as hemoglobinas adultas presentes (A, S, C etc.), listadas entre si também da mais para a menos concentrada.
Por que a criança com traço (FAS) não adoece, mas a com doença (FS/FSA/FSC) sim?
No traço (FAS), o alelo beta normal e o alelo beta-S estão ambos presentes e em expressão simultânea (heterozigoto) — a hemácia carrega predominantemente HbA normal (~55–60%) e uma fração menor de HbS (~40–45%), o que não é suficiente para polimerizar em condições fisiológicas usuais (ver mecanismo completo nos Fundamentos, no início deste caderno). Já nos genótipos de doença (FS = HbSS ou S/β⁰-talassemia; FSA = S/β⁺-talassemia; FSC = HbSC), não há HbA normal em quantidade suficiente para diluir a HbS — por isso a polimerização e a falcização ocorrem já em condições fisiológicas comuns (febre, desidratação leve, frio), e a criança manifesta a doença clinicamente à medida que o switch HbF→HbA/HbS avança, geralmente a partir dos 3–6 meses de vida.
Tabela de interpretação
	Resultado neonatal
	Interpretação principal
	FA
	Padrão neonatal normal
	FAS
	Traço falciforme (heterozigoto HbAS) — não é doença
	FS
	Doença falciforme: principalmente HbSS ou S/β⁰-talassemia
	FSA
	Sugere HbS/β⁺-talassemia (HbA presente, porém em menor quantidade que a S)
	FSC
	Doença falciforme HbSC
	FAC
	Traço de hemoglobina C — não é doença
	⚠ PEGADINHA
FAS não é FSA: FAS indica traço falciforme (A > S, predomínio da hemoglobina normal); FSA sugere doença falciforme do tipo S/β⁺-talassemia (S > A, predomínio da hemoglobina S). A ordem das letras muda completamente a interpretação clínica.
Como é feita a triagem
1. Disponível na rede pública desde 2001; utiliza o método HPLC (Cromatografia Líquida de Alta Performance) em papel filtro (teste do pezinho)
1. Se a criança recebeu transfusão sanguínea (inclusive intrauterina), é necessária nova coleta 3 meses após a última transfusão — a hemoglobinado doador interfere no resultado
1. Todo resultado positivo deve ser repetido com outro método — eletroforese de Hb tradicional — para confirmação diagnóstica
Tabela de referência: percentuais de hemoglobina por genótipo (> 1 ano)
	Genótipo
	Neonato
	HbA (%)
	HbS (%)
	HbF (%)
	HbC (%)
	HbSS
	FS
	0
	80–95
	2–25
	0
	HbS/β⁰-talassemia
	FS
	0
	80–92
	2–15
	0
	HbS/β⁺-talassemia
	FSA ou FS
	5–30
	65–90
	2–10
	0
	HbSC
	FSC
	0
	45–50
	1–5
	45–50
	Traço falciforme (HbAS)
	FAS
	50–60
	35–45
	 5 anos); Doppler transcraniano anual entre 2 e 16 anos
Orientações gerais e sinais de alarme
Em toda consulta, reforçar quando procurar atendimento médico imediato (idealmente dentro de 4 horas do início do sintoma), o risco aumentado de situações potencialmente fatais (AVC, infecções) e questionar ativamente sintomas de asma.
1. Febre ≥ 38–38,5°C
1. Baço recém-palpável ou aumento do baço já conhecido
1. Sintomas respiratórios significativos (dificuldade para respirar, tosse intensa, dor torácica)
1. Dor abdominal intensa, principalmente em hipocôndrio direito
1. Sintomas neurológicos, mesmo que transitórios (assimetria facial, fala arrastada, fraqueza/dormência em membros, convulsão)
1. Priapismo com duração maior que 4 horas
1. Aumento significativo de palidez, fadiga, letargia ou icterícia
1. Dor não controlada adequadamente com as medicações disponíveis em casa
	💡 PONTO DE PROVA
Ensinar a família a palpar o baço da criança em casa e examiná-lo com maior frequência quando a criança estiver doente é orientação preventiva simples e de alto impacto, recorrente nas provas de seguimento ambulatorial.
3 · Asplenia Funcional, Infecções e Medidas Preventivas
Prioridade alta — o SUS-SP tem perfil particularmente voltado para prevenção e seguimento ambulatorial. PCDT Doença Falciforme; SBP/CRIE.
Asplenia funcional
A autoesplenectomia decorre de infartos esplênicos repetidos e costuma se instalar precocemente (geralmente entre 2 e 4 anos de idade em HbSS), gerando asplenia funcional com altíssimo risco de sepse por germes encapsulados. O baço é o principal órgão de clearance de bactérias encapsuladas e de produção de anticorpos opsonizantes (IgM) contra polissacarídeos capsulares — sua perda funcional explica por que esses germes específicos se tornam tão ameaçadores nesses pacientes.
Germes encapsulados de risco
1. Streptococcus pneumoniae
1. Haemophilus influenzae tipo b
1. Neisseria meningitidis
	💡 PONTO DE PROVA
Febre no paciente falciforme nunca deve ser banalizada, mesmo sem foco infeccioso evidente — é situação de risco que exige coleta de culturas e antibioticoterapia empírica conforme gravidade (ver Tópico 11).
Profilaxia com penicilina
	📖 CONCEITO
O pneumococo é uma das principais causas de doença bacteriana invasiva no paciente asplênico, respondendo por cerca de 65% dos casos em menores de 5 anos nessa população — daí a prioridade da profilaxia antipneumocócica.
1. Indicação: crianças HbSS e HbS/β⁰-talassemia (maior risco)
1. Início: recomendado assim que confirmado o diagnóstico, idealmente entre 2–3 meses de vida, com ajuste de dose aos 3 anos
1. Duração: mantida rotineiramente pelo menos até os 5 anos de idade, com decisão individualizada de continuidade a depender do histórico de infecções invasivas e adesão à vacinação
1. Alternativa em caso de alergia: eritromicina, 20 mg/kg/dia dividido em 2 doses
	Esquema
	Dose
	Penicilina G Benzatina IM (a cada 3–4 semanas)
	Até 10 kg: 300.000 UI · 10–20 kg: 600.000 UI · > 20 kg: 1.200.000 UI
	Penicilina V oral (12/12h)
	2 meses a 3 anos: 125 mg · > 3 anos: 250 mg
Outras profilaxias medicamentosas de rotina
1. Ácido fólico (1–5 mg/dia): a hemólise crônica aumenta a necessidade de folato; atenção — o uso de hidroxiureia causa macrocitose, o que pode mascarar o reconhecimento laboratorial de uma deficiência de ácido fólico associada, reforçando a importância da suplementação profilática concomitante
1. Multivitamínico sem ferro: recomendado para todos os pacientes com anemia falciforme (inclui zinco, vitaminas D, E, C, A, magnésio, selênio, carotenoides e flavonoides) — o sem ferro é intencional, já que esses pacientes não têm carência de ferro pela hemólise crônica
Vacinação especial
	📖 CONCEITO
O risco de infecçõesgraves nesses pacientes decorre da asplenia funcional (deficiência de opsonização de bactérias encapsuladas). Além dos três germes encapsulados clássicos, o paciente falciforme também tem risco aumentado para Salmonella, Staphylococcus aureus, Mycoplasma e Chlamydia pneumoniae.
	📌 PRECISA SABER
NOVIDADE 2026 — VPC20 substitui o esquema VPC13 + VPP23: a Nota Técnica nº 45/2026-CGICI/DPNI/SVSA/MS (Ministério da Saúde) incorporou a vacina pneumocócica conjugada 20-valente (VPC20/Prevenar 20) na Rede de Imunobiológicos para Pessoas com Situações Especiais (RIE/CRIE), cobrindo 20 sorotipos — incluindo 19A e 3, dos mais frequentes em doença pneumocócica invasiva no Brasil. A asplenia anatômica ou funcional e doenças relacionadas (o que inclui a doença falciforme) está entre as indicações expressas, a partir de 2 meses de idade. Na prática, a VPC20 substitui o antigo esquema sequencial VPC13 + VPP23 para pacientes falciformes sem vacinação prévia.
1. Sem vacinação pneumocócica prévia, 2 a 6 meses: esquema primário de 3 doses (intervalo mínimo de 8 semanas) + 1 reforço entre 12 e 15 meses
1. Sem vacinação prévia, 1 a 4 anos: esquema conforme doses de VPC10/VPC13 já recebidas (tabelas de transição da própria Nota Técnica) — na dúvida, encaminhar ao CRIE/RIE para definição individualizada
1. Já vacinado com esquema completo de VPC13 + VPP23: considerado imunizado, sem necessidade de dose adicional de VPC20 na maioria dos casos, respeitando os intervalos mínimos já cumpridos (1 ano da VPP23; 8 semanas da última conjugada)
1. Hib isolada: pode ser oferecida em dose adicional para maiores de 5 anos nunca vacinados antes
1. Meningocócica ACWY: esquema depende da idade de início —
	Início do esquema
	Doses
	Precoce (a partir de 3 meses de idade)
	3 doses com intervalo mínimo de 8 semanas + 1 reforço aos 12 meses + reforço a cada 5 anos
	Entre 12 meses e idade adulta
	2 doses (se iniciado até 23 meses) ou 1 dose única (≥ 2 anos), com intervalo mínimo de 8 semanas + reforço a cada 5 anos
1. Influenza anual
1. Todas as vacinas de rotina do calendário do Ministério da Saúde, sem exceção — incluindo COVID-19 e influenza a partir dos 6 meses
1. Profilaxia para VSR (vírus sincicial respiratório) se houver comorbidades elegíveis
	📌 PRECISA SABER
O esquema vacinal especial (sequência e intervalo entre as pneumocócicas, por exemplo) é ponto sujeito a atualização frequente — a própria transição para VPC20 em 2026 é exemplo disso. Para a prova, revisar o documento científico da SBP/CRIE mais recente disponível, além do calendário vigente do PNI — não fixar um esquema de anos anteriores como definitivo.
Como já foi cobrado
	🗂 CASO REAL — SUS-SP 2026
Criança HbSS de três anos — cobrada diretamente a complementação do esquema pneumocócico especial.
4 · Hidroxiureia e Outras Terapias Modificadoras da Doença
Principal terapia modificadora de doença disponível. PCDT Doença Falciforme; ASH Guidelines.
Hidroxiureia — mecanismo de ação
	📖 CONCEITO
A hidroxiureia é um inibidor da ribonucleotídeo redutase, enzima-chave da síntese de DNA. Esse estresse citotóxico controlado sobre a medula reativa a produção de HbF (efeito principal) por mecanismos ainda não totalmente elucidados, envolvendo a seleção de progenitores eritroides com maior capacidade de síntese de cadeia gama. A HbF elevada dilui a HbS dentro da hemácia pelo mesmo princípio que explica o traço falciforme (ver Fundamentos) — quanto menor a concentração relativa de HbS, menor a chance de polimerização.
1. Aumenta a produção de HbF, que interfere na polimerização da HbS, reduzindo a falcização — efeito principal e mais correlacionado à resposta clínica
1. Reduz a contagem de neutrófilos e reticulócitos, diminuindo a adesão celular ao endotélio e a resposta inflamatória vascular
1. Aumenta o volume corpuscular médio (VCM) e melhora a deformabilidade das hemácias — o aumento do VCM é, na verdade, um sinal esperado de resposta biológica, não de toxicidade
1. Libera óxido nítrico, com efeito vasodilatador adicional
Indicações — critérios do PCDT/Ministério da Saúde 
Indicação geral
· Disponibilizada pelo SUS para pacientes com doença falciforme a partir de 9 meses de idade (ampliação trazida pela atualização de nov/2024 — antes era a partir dos 2 anos, com casos especiais entre 9 meses–2 anos)
Pathway específico para genótipos graves (9–24 meses)
· HbSS, Sβ⁰-talassemia, Sβ⁺-talassemia grave e SD Punjab
· Pode-se iniciar hidroxiureia mesmo sem sintomas ou complicações — dispensa os critérios especiais de gravidade antes exigidos nessa faixa etária
Apresentações disponíveis
· Cápsulas de 100 mg, 500 mg e 1.000 mg (as de 100 mg foram incorporadas em 2024, facilitando titulação em pediatria)
Outras incorporações da mesma atualização
· Alfaepoetina (eritropoetina): para pacientes com declínio de função renal associado a piora dos níveis de hemoglobina
	📌 PRECISA SABER
Linha internacional (NHLBI 2014 / ASH / BABY HUG): muitos protocolos atuais fora do Brasil recomendam oferecer hidroxiureia a todas as crianças com HbSS/S-β⁰-talassemia já a partir dos 9–12 meses de vida, independentemente da gravidade dos sintomas — baseado em benefício demonstrado mesmo em lactentes assintomáticos.
Titulação (escalonamento de dose)
	📖 CONCEITO
A hidroxiureia é iniciada em dose baixa e titulada progressivamente até a dose máxima tolerada (DMT) — a maior dose que produz benefício hematológico sem toxicidade medular relevante. O racional é simples: quanto maior a dose tolerada, maior a indução de HbF, mas o limite é dado pela mielossupressão.
1. Dose inicial em crianças e lactentes: 20 mg/kg/dia
1. Dose inicial em adultos: 15 a 20 mg/kg/dia
1. Pacientes com doença renal crônica: iniciar com metade da dose
1. Dose inicial conforme faixa etária/função renal (ver acima)
2. Reavaliação hematológica a cada 8 semanas (hemograma completo com neutrófilos, reticulócitos e plaquetas)
3. Se hemograma tolerado (sem toxicidade — ver critérios abaixo): aumentar 5 mg/kg/dia a cada reavaliação
4. Repetir o ciclo até atingir a dose máxima de 35 mg/kg/dia (ou 2.500 mg/dia), o que ocorrer primeiro, ou até a dose máxima tolerada individual
5. Se toxicidade hematológica: suspender temporariamente e reintroduzir em dose menor após recuperação
O tratamento, uma vez eficaz e tolerado, é continuado indefinidamente.
Monitorização e critérios de toxicidade
	Parâmetro
	Limite de alerta (considerar suspender/reduzir)
	Neutrófilos (ANC)
	1. Infecção/febre
1. Estresse físico (exercício extenuante) ou emocional
1. Hipóxia (altitude elevada, viagens aéreas não pressurizadas, anestesia geral mal conduzida - dor)
Quadro clínico e diagnóstico
Dor óssea ou articular, muitas vezes simétrica, de início agudo, podendo se acompanhar de febre baixa. Dactilite isquemica em lactentes 10 mg/dl após transfusão 
	🗂 CASO REAL — USP-SP 2024
Criança falciforme com, tosse, hipoxemia e choque gerou duas questões consecutivas: suporte de oxigênio e prescrição inicial (incluindo expansão volêmica e antibióticos). Outro paciente da mesma prova apresentou febre, dor torácica, hipoxemia, queda da hemoglobina e consolidação pulmonar — a pergunta foi sobre qual hemocomponente deveria ser solicitado.
11 · Febre e Sepse no Paciente Falciforme
	💡 PONTO DE PROVA
Toda criança falciforme com febre é considerada potencialmente grave até avaliação completa, pela asplenia funcional e risco de sepse fulminante por germes encapsulados (ver Tópico 3).
Abordagem inicial
1. Avaliação clínica completa em busca de foco (respiratório, osteoarticular, abdominal) exames laboratoriais essenciais: hemograma, reticulócitos, marcadores de hemólise, hemocultura, outras culturas pertinentes, rx de tórax (ddx com síndrome torácica aguda) 
2. Antibioticoterapia empírica precoce, cobrindo germes encapsulados, com escalonamento conforme sinais de gravidade Ceftriaxona, Cefotaxima ou cefuroxima EV 
4. Investigação dirigida para síndrome torácica aguda quando houver qualquer sintoma respiratório associado
5. Hemograma com reticulócitos — queda abrupta de hemoglobina com reticulocitopenia sugere crise aplástica associada
MANTER INTERNADO SE: 
· Toxemia 
· Tax ≥ 39,5 ºC 
·Em uma pessoa saudável, isso passa despercebido, pois a meia-vida da hemácia normal (~120 dias) tolera alguns dias sem produção. Mas no paciente falciforme, cuja hemácia sobrevive apenas 10–20 dias (hemólise crônica), a parada da produção medular causa queda abrupta e grave da hemoglobina em poucos dias — daí a gravidade desproporcional dessa infecção nesses pacientes.
Padrão clínico a reconhecer
1. Queda abrupta e acentuada da hemoglobina
1. Palidez, astenia, dispneia e sopro funcional
1. Reticulócitos muito baixos, apesar da anemia grave — achado-chave para o diagnóstico
1. Leucócitos e plaquetas frequentemente preservados
1. Possibilidade de acometimento simultâneo de familiares com anemia hemolítica crônica (mesma exposição ao vírus)
Tratamento
Suporte clínico e transfusão quando indicada (anemia sintomática ou hemoglobina muito baixa em relação ao basal) com monitorização até elevação dos reticulócitos (sinais que paciente esta saindo da crise)
A crise é autolimitada — a medula se recupera espontaneamente com a resposta imune ao parvovírus B19, geralmente em 7 a 10 dias.
Hiper-hemólise
	📖 CONCEITO
É a queda da hemoglobina abaixo do basal do paciente, acompanhada de sinais laboratoriais de hemólise mais acentuada que o habitual (icterícia importante, LDH e bilirrubina indireta muito elevadas, haptoglobina indetectável), sem o padrão de reticulocitopenia da crise aplástica e sem o padrão de esplenomegalia aguda do sequestro. Pode ocorrer de forma espontânea (agravamento da hemólise crônica basal por infecção ou outro estresse) ou, de forma mais característica, como síndrome de hiper-hemólise pós-transfusional — uma reação hemolítica tardia em que o organismo destrói tanto as hemácias transfundidas quanto as próprias, levando a uma hemoglobina pós-transfusional mais baixa que a pré-transfusional.
	⚠ PEGADINHA
Na suspeita de hiper-hemólise pós-transfusional, evitar nova transfusão "reflexa" — ela pode agravar o quadro, alimentando o ciclo hemolítico. O tratamento é de suporte, podendo envolver imunoglobulina endovenosa e corticoide, com decisão compartilhada com a hematologia.
	Complicação
	Reticulócitos
	Baço
	Padrão principal
	Crise aplástica
	Muito baixos
	Sem aumento obrigatório
	Parvovírus B19 
	Sequestro esplênico
	Elevados
	Aumento súbito e volumoso
	Hipovolemia, plaquetopenia possível
	Hiper-hemólise
	Variáveis
	Sem padrão obrigatório
	Icterícia e marcadores de hemólise muito acentuados; considerar reação pós-transfusional
	Anemia basal falciforme
	Elevados
	Geralmente sem alteração aguda
	Hemólise crônica compensada
	⚠ PEGADINHA
Reticulócito baixo em anemia grave: pensar em crise aplástica, nunca em aumento da hemólise — hemólise aguda (incluindo hiper-hemólise) cursa com reticulocitose compensatória, não com reticulocitopenia.
9 · Priapismo 
	📖 CONCEITO
Priapismo: ereção persistente e dolorosa, sem estímulo sexual. Na doença falciforme, geralmente é isquêmico (baixo fluxo), causado pela obstrução da drenagem venosa dos corpos cavernosos por hemácias falcizadas. A estase sanguínea provoca hipóxia e acidose locais, perpetuando a ereção e aumentando o risco de lesão tecidual. 
Pode ser intermitente (stuttering) — episódios curtos e recorrentes — ou prolongado/agudo (emergência urológica após algumas > 4h horas de duração), com risco de fibrose e disfunção erétil permanente por dano isquêmico ao tecido cavernoso).
1. Medidas iniciais: hidratação, analgesia, estímulo à micção, manter bexiga vazia 
1. Priapismo prolongado (geralmente acima de 4 horas): aspiração e irrigação dos corpos cavernosos, associada a agonista alfa-adrenérgico (ex.: fenilefrina intracavernosa) — avaliação urológica ou abordagem cirúrgica de ultimo caso 
1. Transfusão de troca: pode ser considerada em casos refratários, para redução rápida da %HbS
8 Complicações Neurológicas: AVC e Além
	📖 CONCEITO
O AVC na doença falciforme é predominantemente isquêmico (diferente do AVC do adulto, tipicamente aterotrombótico): a vaso-oclusão crônica e a hiperplasia da íntima causam estenose progressiva de grandes vasos intracranianos (artéria carótida interna distal, cerebral média), formando uma vasculopatia que pode evoluir até um padrão angiográfico do tipo moyamoya. É por isso que a prevenção depende de reduzir a %HbS circulante — não de terapia antiplaquetária.
Prevenção primária
1. Rastreamento: Doppler transcraniano (DTC)
1. Faixa etária indicada: a partir dos 2 anos, com repetição periódica conforme risco (anual se normal; mais frequente se condicional)
1. Interpretação das velocidades: normal, condicional (borderline) ou anormal (velocidade elevada, indicando alto risco de AVC)
1. Conduta diante de Doppler anormal: indicação de transfusão crônica para prevenção primária; hidroxiureia pode ser considerada em situações selecionadas, sobretudo quando a transfusão crônica não é viável
AVC agudo
	📖 CONCEITO
Todo déficit neurológico focal novo em paciente falciforme deve ser considerado AVC até prova em contrário.
Suspeitar também se cefaleia importante, convulsões, coma...
1. Neuroimagem não deve atrasar o tratamento transfusional — a suspeita clínica já justifica intervenção imediata
1. Transfusão simples inicial quando a hemoglobina estiver muito baixa em relação ao necessário para suporte imediato
1. Preferência por transfusão de troca / exsanguinotransfusão: quando disponível e clinicamente indicada, para reduzir rapidamente a %HbS sem elevar excessivamente a hemoglobina total (risco de hiperviscosidade)
 Manter Hb total em torno de 10g/dl; Não mais que isso pelo risco de hiperviscosidade, piorando a circulação no SNC 
1. Objetivo: reduzir rapidamente a porcentagem de HbS circulantecronicamente anêmicos e compensados.
Transfusão simples versus transfusão de troca
	Modalidade
	Quando usar
	Objetivo
	Transfusão simples
	Anemia sintomática, sequestro esplênico, crise aplástica, STA leve a moderada
	Elevar hemoglobina sem necessariamente reduzir muito a %HbS
	Transfusão de troca (exsanguineotransfusão parcial) / eritrocitaférese
	STA grave, AVC agudo, priapismo refratário, preparo para cirurgia de alto risco, hiperviscosidade iminente
	Reduzir rapidamente a %HbS sem elevar excessivamente a hemoglobina total
	💡 PONTO DE PROVA
Risco de hiperviscosidade: elevar a hemoglobina além do razoável (geralmente evitando ultrapassar ~10 g/dL na transfusão simples) pode aumentar a viscosidade sanguínea e piorar a vaso-oclusão, especialmente se a %HbS permanecer alta. Por isso, quando é necessário reduzir rapidamente a HbS sem elevar demais a Hb, a escolha é a transfusão de troca, não a simples.
	📌 PRECISA SABER
Após o AVC agudo tratado com transfusão de troca, o programa costuma manter transfusões repetidas a cada ~3 semanas como prevenção secundária. A transfusão de troca também é preferida no preparo para cirurgia oftalmológica pelo mesmo racional de reduzir a %HbS sem elevar excessivamente a Hb total.
Seleção e processamento dos hemocomponentes
1. Leucorreduzido/filtrado: reduz reações febris não hemolíticas e aloimunização a antígenos leucocitários — indicado de forma rotineira nesses pacientes
1. Fenotipado e compatibilizado (especialmente Rh e Kell): reduz o altíssimo risco de aloimunização eritrocitária, decorrente de exposição transfusional repetida ao longo da vida
1. Hemácias lavadas: indicadas em caso de reações alérgicas recorrentes/graves (remove proteínas plasmáticas residuais) — não é hemocomponente "mais completo", é processamento com indicação específica
1. Hemácias irradiadas: indicadas para prevenir doença enxerto-versus-hospedeiro transfusional em situações de imunossupressão relevante ou doadores aparentados — não é rotina para todo paciente falciforme
1. Prevenção de aloimunização: compatibilização estendida de fenótipo eritrocitário reduz o risco, particularmente relevante pela alta frequência de programas transfusionais crônicos
	⚠ PEGADINHA
Hemácia lavada ou irradiada não é "mais completa" ou "mais segura em geral" — cada processamento tem indicação específica. Usar irradiada ou lavada fora de contexto é erro conceitual cobrado pela banca.
Por que a aloimunização é tão frequente nesses pacientes?
	📖 CONCEITO
Dois fatores se somam: (1) exposição transfusional repetida ao longo da vida (muitos pacientes recebem dezenas a centenas de bolsas), o que por si só já aumenta a chance de sensibilização; e (2) diferença étnica entre a população de doadores (predominantemente de ascendência europeia) e a população de pacientes com doença falciforme (predominantemente afrodescendente) nos antígenos eritrocitários menores (sistemas Rh — incluindo variantes parciais/fracas —, Kell, Duffy, Kidd, MNS). Esse descompasso antigênico faz com que hemácias "compatíveis" no ABO/Rh básico ainda carreguem antígenos menores estranhos ao receptor, favorecendo a formação de aloanticorpos. É por isso que a fenotipagem/genotipagem estendida (não apenas ABO/Rh/Kell básicos) é cada vez mais recomendada antes de iniciar um programa transfusional crônico.
Sobrecarga de ferro e quelação
Pacientes em programa transfusional crônico (ex.: prevenção secundária de AVC) desenvolvem hemossiderose transfusional progressiva. Monitorização com ferritina sérica a cada 3 meses e, quando disponível, RM hepática (T2*) para quantificação de ferro tecidual. Quelação de ferro (ex.: deferasirox) é iniciada quando a ferritina ultrapassa 1.000 ng/mL, não apenas pela contagem de bolsas transfundidas.
	💡 PONTO DE PROVA
No programa transfusional crônico, a meta é manter a HbS abaixo de 30% da hemoglobina total. Todo paciente transfundido deve ser triado com sorologias 6 meses e 1 ano após cada transfusão.
Como já foi cobrado
	🗂 CASO REAL — USP-SP 2022 e 2024
A seleção do hemocomponente foi cobrada em ambas as provas, explorando a diferença entre hemácias filtradas, lavadas, irradiadas e aquecidas.
	🗂 CASO REAL — UNIFESP 2024
Pergunta direta: qual é a medida de prevenção secundária do AVC isquêmico na anemia falciforme? Resposta: transfusão sanguínea crônica — e não Doppler transcraniano, anticoagulante ou antiagregante.
	🐈 PULO DO GATO
O Doppler transcraniano é rastreamento para prevenção primária. Após um AVC já estabelecido, a prevenção de recorrência é feita com programa transfusional crônico, não com repetição do Doppler.
12 · Complicações Crônicas Multissistêmicas
Osteonecrose e infarto ósseo versus osteomielite
	📖 CONCEITO
A vaso-oclusão também atinge a microcirculação óssea. Quando o infarto é agudo e extenso, causa infarto ósseo (dor óssea aguda, indistinguível de crise álgica comum — ver Tópico 5). Quando a isquemia é repetida e crônica em uma região específica — classicamente a cabeça do fêmur, por ser irrigada por vasos terminais com pouca colateralização —, o osso subcondral sofre necrose avascular (osteonecrose), podendo evoluir para colapso da superfície articular e artrose secundária precoce.
Diferenciais importantes
1. Necrose avascular / osteonecrose: dor crônica ou insidiosa, sem febre alta, alteração radiográfica tardia — RM é mais sensível precocemente
1. Sinovite transitória: quadro autolimitado, geralmente pós-viral, sem sinais de toxemia
1. Artrite séptica: febre alta, recusa completa de carga, derrame articular, toxemia — emergência ortopédica
1. Osteomielite: febre, dor localizada intensa, com edema e rubor elevação de provas inflamatórias; em falciforme, pensar sempre em Salmonella além de Staphylococcus aureus — a hipoperfusão esplênica/intestinal facilita a translocação e bacteremia por Salmonella. Diagnostico diferencial importante com síndrome vaso oclusiva. 
 Locais mais acometidos: metáfises dos ossos longos 
	⚠ PEGADINHA
Infarto ósseo versus osteomielite: ambos cursam com dor óssea e podem ter febre — a diferenciação definitiva muitas vezes exige RM e, quando há dúvida importante, cultura óssea. A associação clássica com Salmonella na osteomielite do paciente falciforme é ponto frequentemente cobrado.
	🗂 CASO REAL — USP-SP 2024
Criança falciforme de cinco anos com claudicação insidiosa e alteração da cabeça femoral — resposta: doença de Legg-Calvé-Perthes / necrose avascular da cabeça femoral, decorrente da doença falciforme.
Osteoporose e alterações radiográficas ósseas
	📖 CONCEITO
A hemólise crônica gera aumento compensatório da atividade eritropoiética, que expande a medula óssea e alarga o espaço medular; isso, somado à hipovitaminose D frequente nesses pacientes, leva ao afinamento das trabéculas e córtices ósseos — osteoporose.
1. Crânio em escova ("hair-on-end"): achado radiográfico clássico da expansão do espaço medular do diploe craniano
1. Deformidade vertebral em "torre de peixe" (fish-mouth vertebrae): colapso central dos platôs vertebrais por infarto e remodelação óssea, dando aspecto bicôncavo característico às vértebras
Alterações pulmonares crônicas
1. Asma: cerca de 70% dos pacientes falciformes apresentam hiper-reatividade brônquica; a relação é bidirecional — a asma aumenta o risco de síndrome torácica aguda, e a própria STA de repetição aumenta o risco de desenvolver asma
1. Distúrbios respiratórios do sono: presentes em cerca de 79% das crianças e 44% dos adultos falciformes, com grau de hipóxia noturna significativamente maior que na população geral; consequências potenciais incluem mais eventos vaso-oclusivos, complicações cardiovasculares e neurológicas — avaliação por polissonografia e tratamento semelhante ao da população geral
Alterações cardíacas
1. Cardiomiopatia e insuficiência cardíaca: cada vez mais identificada, sobretudo nas hemoglobinopatias SC; fatores contribuintes incluem hipertensão pulmonar precoce e HAS sistêmica, o próprio estado de anemia crônica e hipoxemia (que aumentam o débito cardíaco, o volume sistólicoe levam à dilatação do ventrículo esquerdo), a sobrecarga de ferro transfusional, e fibrose miocárdica associada a disfunção atrial esquerda e aumento da regurgitação tricúspide
Retinopatia falciforme
	📖 CONCEITO
A vaso-oclusão da microcirculação retiniana periférica causa isquemia localizada, que estimula a liberação de fatores angiogênicos (semelhante à retinopatia da prematuridade) e leva à formação de neovasos frágeis — retinopatia proliferativa, com risco de hemorragia vítrea e descolamento de retina. Curiosamente, essa complicação é mais frequente no genótipo HbSC do que na HbSS: acredita-se que a viscosidade sanguínea relativamente maior no HbSC (por ter menos hemólise/anemia e, portanto, hematócrito mais preservado) favoreça mais estase e oclusão vascular retiniana do que a HbSS, cuja anemia mais intensa reduz a viscosidade global.
1. Rastreamento oftalmológico anual a partir dos 10 anos de idade (fundoscopia/angiofluoresceinografia conforme disponibilidade)
1. Tratamento da retinopatia proliferativa com fotocoagulação a laser quando indicado — regressão espontânea das lesões retinianas já foi relatada em até 1/3 dos casos
1. Podem ocorrer perda da acuidade visual; cegueira é menos frequente, mas sua incidência aumenta com a idade (até 5–10%)
	⚠ PEGADINHA
HbSC não é "doença leve" de forma absoluta: apesar de menor hemólise, tem risco relativamente maior de retinopatia proliferativa, necrose avascular e complicações gestacionais — a banca explora esse contraste.
Colelitíase e complicações hepatobiliares
A hemólise crônica gera cálculos de bilirrubinato de cálcio (pigmentares) — o excesso de bilirrubina indireta produzida pela destruição contínua de hemácias supera a capacidade de conjugação/excreção hepática, precipitando na bile. São frequentes já na infância/adolescência em falciformes, costumando ser assintomáticos; quando confirmados, recomenda-se colecistectomia eletiva pela baixa morbidade da cirurgia nesse contexto. Podem, no entanto, manifestar-se com colecistite, pancreatite, cólica biliar ou dor abdominal — rastreio por USG de abdome, com CPRE reservada para avaliação das vias biliares quando indicado.
Hepatopatia falciforme — causas a considerar
1. Isquemia hepática aguda
1. Fibrose hepática
1. Colestase e colangite esclerosante
1. Sequestro hepático agudo
1. Doença hepática autoimune
1. Sobrecarga de ferro transfusional
1. Infecção pelo vírus da hepatite C (risco associado a transfusões prévias)
	⚠ PEGADINHA
Dor em hipocôndrio direito no paciente falciforme entra no diagnóstico diferencial com crise vaso-oclusiva abdominal, sequestro hepático e hepatopatia falciforme — não assumir colelitíase de imediato sem avaliação de imagem.
14 · Pegadinhas Consolidadas
Síntese das armadilhas mais frequentes identificadas na amostra de questões analisada — revisão final antes da prova.
1. Doença falciforme x anemia falciforme: doença falciforme é o termo guarda-chuva (qualquer genótipo com HbS clinicamente manifesta); anemia falciforme é mais restrita, correspondendo em geral à HbSS.
1. FAS não é FSA: FAS indica traço; FSA sugere doença falciforme (S/β⁺-talassemia).
1. Por que o traço é assintomático: no heterozigoto, a HbA (~55–60%) dilui a HbS (~40–45%) abaixo do limiar de polimerização — só falciza em hipóxia extrema.
1. Reticulócito baixo em anemia grave: pensar em crise aplástica, e não em aumento da hemólise (que cursa com reticulocitose).
1. Dor torácica + hipoxemia: não classificar simplesmente como crise álgica — investigar síndrome torácica aguda.
1. Meperidina: evitar na crise álgica pelo risco de acúmulo de normeperidina (neurotóxico, convulsões) — preferir morfina.
1. Doppler transcraniano: rastreia risco de primeiro AVC (prevenção primária); não é a medida de prevenção secundária.
1. Meta transfusional crônica: manter HbS 1.000 ng/mL indica início de quelação.
1. Hemácia lavada ou irradiada: não é "mais completa" — cada processamento possui indicação específica.
1. Aloimunização: risco elevado pelo descompasso antigênico entre o pool de doadores e a população de pacientes — reforça a importância da fenotipagem estendida.
1. Hidroxiureia: não é conduta emergencial no recém-nascido diagnosticado pela triagem neonatal — é terapia crônica titulada ao longo de meses (início 20 mg/kg/dia em crianças, teto de 35 mg/kg/dia).
1. Hidroxiureia — PCDT/MS: critério objetivo de gravidade (dactilite no 1º ano, Hb 20.000) só é exigido abaixo de 3 anos, não 2 anos.
1. Aumento do VCM em uso de hidroxiureia: é sinal esperado de resposta biológica, não de toxicidade.
1. Hemoglobina isolada: não indica transfusão por si só — comparar sempre com o basal e avaliar a complicação clínica.
1. Hiper-hemólise pós-transfusional: evitar nova transfusão reflexa, que pode agravar o quadro.
1. Febre no falciforme: nunca deve ser banalizada, mesmo quando o foco infeccioso não está evidente.
1. Traço falciforme (HbAS): não é doença — é condição de portador, geralmente assintomática.
1. HbSC: mais branda em hemólise, porém com maior risco relativo de retinopatia proliferativa e necrose avascular.
1. Osteomielite falciforme: pensar sempre em Salmonella, além de S. aureus.
1. AINEs: evitar uso crônico pelo risco de nefrotoxicidade somado ao dano isquêmico renal basal.
1. VPC20 (2026): substituiu o esquema VPC13 + VPP23 para asplenia/doença falciforme na rede especial (RIE/CRIE), a partir de 2 meses de idade.
	💡 PONTO DE PROVA
Os três eixos de maior recorrência — síndrome torácica aguda, hemoterapia e triagem neonatal — concentram a maioria das questões diretas identificadas nas quatro bancas. Se o tempo for curto, garanta domínio total desses três antes de avançar para os blocos complementares.
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