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1 de 10gran.com.br Coesão x Coerência INTERPRETAÇÃO DE TEXTOS COESÃO X COERÊNCIA COERÊNCIA VERSUS COESÃO • Coerência consiste em adequada articulação entre os sentidos das partes de um texto, e/ou adequação entre significados do texto e dados da realidade. Isso significa que as frases mantêm harmonia entre si e seguem uma mesma linha de raciocínio, sem contradições. Em uma explicação simplificada, a coerência corresponde à ausência de contradição textual. A coerência também pode ser entendida como uma adequação entre os significados do texto e os dados da realidade. Nesse contexto, observam-se dois aspectos: a coerência interna e a coerência externa. A coerência interna corresponde à ausência de contradição entre as frases do próprio texto. Já a coerência externa diz respeito à correspondência entre aquilo que o texto afirma e a realidade, ou seja, o texto não pode contradizer a realidade. Esse aspecto também recebe o nome de coerência pragmática. Por exemplo, ao afirmar que “o gato é branco”, mas o gato observado é preto, a afirmação não corresponde à realidade. Nesse caso, ocorre uma incoerência pragmática, pois o texto apresenta uma informação que se opõe aos dados reais. • Coesão consiste em estabelecer referência de um trecho a outro do texto, e/ou estabelecer conexão/sequência entre orações/frases/parágrafos. Além disso, a coesão pode levar em conta elementos da situação comunicativa entre emissor e receptor (coesão exofórica e emprego de elementos dêiticos). A coesão possui base gramatical no emprego de pronomes utilizados para realizar referências, no emprego de verbos que também podem exercer essa função, bem como no uso de sinônimos, entre outros processos. Além disso, a coesão manifesta-se pelo emprego de conectores, como conjunções e locuções conjuntivas. Ademais, a coesão pode levar em conta elementos da situação comunicativa entre emissor e receptor, como ocorre na coesão exofórica. Nesse caso, o texto faz referência a elementos presentes na cena vivenciada pelos interlocutores, durante uma conversa em determinado contexto, com menção a objetos situados ao redor. Trata-se de uma coesão referente a objetos externos à fala. Assim, podem ser feitas referências à mesa em que alguém está sentado, à tela do notebook, do tablet ou ao celular utilizado naquele momento. Essa referência a objetos presentes no ambiente caracteriza a coesão exofórica. O mesmo ocorre com o emprego de elementos dêiticos. https://www.gran.com.br https://www.gran.com.br 2 de 10gran.com.br Coesão x Coerência INTERPRETAÇÃO DE TEXTOS O texto apresentado a seguir é considerado relevante por permitir a observação simultânea dos processos de coerência e de coesão textual. Trata-se de um poema de Oswald de Andrade: INFÂNCIA O camisolão O jarro O passarinho O oceano A visita na casa que a gente sentava no sofá ADOLESCÊNCIA Aquele amor Nem me fale MATURIDADE O Sr. e Sr. a Amadeu Participam a V. Exa. O feliz nascimento De sua filha Gilberta VELHICE O netinho jogou os óculos Na latrina (Oswald de Andrade) • Latrina: vaso sanitário, privada. Observa-se, inicialmente, o uso de letras minúsculas nos títulos “infância”, “adolescência”, “maturidade” e “velhice”, que correspondem aos títulos das quatro estrofes do poema. Esse emprego das letras minúsculas integra também um processo significativo dentro da construção textual. Na representação da infância, percebe-se a predominância de palavras isoladas: “camisolão”, “jarro”, “passarinho”, “oceano”. Posteriormente, inicia-se uma conexão entre palavras na construção “visita na casa que a gente sentava no sofá”. Entretanto, essa conexão ainda não se realiza de forma plenamente adequada ao padrão gramatical. https://www.gran.com.br https://www.gran.com.br 3 de 10gran.com.br Coesão x Coerência INTERPRETAÇÃO DE TEXTOS Rigorosamente, a construção correta seria “visita à casa”, e não “visita na casa”, uma vez que se trata de visita realizada a alguém ou a algum lugar. Além disso, a estrutura “casa que a gente sentava no sofá” exigiria a preposição “em”, formando “casa em que a gente sentava no sofá”. Soma-se a isso o emprego da expressão informal “a gente”. No texto literário e poético, contudo, tais desvios podem ocorrer de maneira intencional. Nesse caso, há adequação entre o conteúdo tratado – a infância – e a forma utilizada para representá-lo. As palavras isoladas remetem à linguagem de uma criança em processo inicial de fala, enquanto as frases incompletas ou estruturalmente simples reproduzem um modo infantil de expressão. Essa relação harmoniosa entre tema e forma constitui um exemplo de coerência textual. Ao abordar a adolescência, o poema apresenta a frase “aquele amor nem me fale”. Também nesse caso a construção não segue integralmente o padrão gramatical. Em ordem direta, seria possível formular “nem me fale daquele amor”, exigindo o emprego da preposição “de”. Entretanto, o texto omite essa ligação e fragmenta a frase ao separá-la em linhas distintas. Essa fragmentação relaciona-se ao próprio tema tratado: as descobertas amorosas e as memórias afetivas da adolescência. A expressão “nem me fale” costuma ser utilizada em referência a lembranças marcantes de determinada época. Assim, o conteúdo e a forma continuam articulados de maneira coerente, pois a informalidade da construção acompanha o universo temático da adolescência. Na estrofe da maturidade, a linguagem passa a apresentar estrutura plenamente formal e gramaticalmente organizada: “o Sr. e a Sra. Amadeu participam a V. Exa. o feliz nascimento de sua filha Gilberta”. Há identificação clara do sujeito – “o Sr. e a Sra. Amadeu” – e o verbo “participar” é empregado no sentido de comunicar algo a alguém, funcionando como verbo transitivo direto e indireto. Nesse contexto, “a V. Exa.” exerce a função de objeto indireto, indicando o destinatário da comunicação, enquanto “o feliz nascimento de sua filha Gilberta” corresponde ao objeto direto, isto é, ao conteúdo comunicado. A construção apresenta formalidade linguística, tratamento cerimonioso e referências a vínculos sociais e hierárquicos, como no uso da expressão “vossa excelência”. Esses elementos são associados à maturidade, reforçando novamente a coerência entre forma e conteúdo. Na velhice, o poema apresenta a frase “o netinho jogou os óculos na latrina”. O termo “netinho” remete imediatamente à figura de um avô ou de uma avó. O episódio narrado refere-se a uma travessura infantil, consistente em jogar os óculos do avô ou da avó na latrina. Mais uma vez, há coerência entre o tema da velhice e os elementos utilizados na construção textual. https://www.gran.com.br https://www.gran.com.br 4 de 10gran.com.br Coesão x Coerência INTERPRETAÇÃO DE TEXTOS Assim, a coerência consiste na adequada articulação entre os sentidos das partes de um texto. Não significa simplesmente igualdade de sentido. O aspecto central está na existência de harmonia lógica entre as partes textuais. Obs.: Em questões de prova, por exemplo, quando se pergunta se a substituição de uma palavra “preserva a coerência”, não se indaga apenas se o sentido permanece igual. A questão busca verificar se, após a substituição, continua existindo uma relação lógica e harmoniosa entre as partes do texto. Quanto à coesão presente no texto, observa-se a articulação estabelecida entre as palavras e estruturas textuais. O autor inicia conexões entre os elementos do texto, ainda que haja inadequações gramaticais. Mesmo existindo erros relacionados ao uso da crase ou à ausência de determinadas preposições, a coesão permanece estabelecida. Embora a coesão esteja relacionada a aspectos gramaticais, isso não significa que qualquer erro gramatical comprometa necessariamente a coesão textual. A coesão utiliza recursos gramaticais, como conjunções, pronomes, sinônimos e advérbios, responsáveis pela criação de referências e conexõesentre partes do texto. Portanto, sua relação com a gramática decorre do uso desses recursos estruturais. Entretanto, a presença de erros gramaticais não implica, obrigatoriamente, ausência de coesão. A literatura de cordel, por exemplo, representada por autores como Patativa do Assaré, frequentemente apresenta desvios gramaticais, ausência de conectivos, falhas de pontuação e grafias não padronizadas. Ainda assim, a coesão textual permanece preservada, pois continuam existindo referências, retomadas de ideias e conexões mínimas entre frases e palavras. Obs.: Perguntas sobre coesão não correspondem a perguntas sobre correção gramatical. Questões relativas à pontuação, concordância, regência ou ortografia pertencem ao campo da análise gramatical, e não propriamente ao da coesão textual. A frase “a visita na casa que a gente sentava no sofá”, mesmo apresentando inadequações gramaticais, mantém coesão textual. Há conexões estabelecidas entre os termos: “visita na casa”, “casa que a gente sentava” e “sentava no sofá”. Portanto, existem vínculos estruturais entre as partes da frase. Do ponto de vista gramatical, contudo, a construção não está adequada. O correto seria “a visita à casa”, com emprego de crase. Além disso, a estrutura “casa que a gente sentava” exigiria a preposição “em”, formando “casa em que a gente sentava”. Essas observações pertencem à análise gramatical relacionada à regência e à transitividade. Dessa forma, é necessário distinguir três tipos de análise: 1. A análise da coerência, relacionada à harmonia entre as partes do texto e à ausência de contradição. https://www.gran.com.br https://www.gran.com.br 5 de 10gran.com.br Coesão x Coerência INTERPRETAÇÃO DE TEXTOS 2. A análise da coesão, relacionada à existência de vínculos e conexões entre palavras, frases e períodos, frequentemente por meio do emprego de conjunções e outros mecanismos referenciais. 3. A análise gramatical, relacionada ao respeito às normas de crase, pontuação, ortografia, concordância e regência. Obs.: Em provas, é fundamental distinguir exatamente o que a banca examinadora está solicitando em cada questão, a fim de evitar interpretações equivocadas. A COERÊNCIA TEXTUAL • A COERÊNCIA pode ocorrer internamente ao texto, ou pode ocorrer entre o texto e a realidade. − A coerência interna (ou coerência textual) significa adequação entre os sentidos das partes do texto. − A coerência entre o texto e a realidade significa que o sentido produzido no texto equivale a um dado do mundo real. É chamada também de coerência pragmática. ◦ No exemplo em que se afirma que “o gato é branco”, enquanto o animal observado é preto, verifica-se ausência de coerência pragmática, pois a afirmação textual não corresponde à realidade. Exemplos: 1) Diante do perigo, só tinha medo de ter coragem. → Frase claramente sem coerência interna. A construção produz estranhamento, pois expressa medo da própria coragem. Questões desse tipo aparecem com frequência em provas, especialmente em itens que analisam se determinada frase apresenta coerência interna ou não. A banca Fundação Getúlio Vargas costuma explorar amplamente esse modelo de questão. Já a Fundação Carlos Chagas costuma enfatizar o emprego adequado de conectivos, verificando se estabelecem relações coerentes entre as frases. A banca Cebraspe trabalha frequentemente com reescritas de frases, avaliando se a nova formulação mantém relações lógicas adequadas e preserva a coerência textual. 2) Ana gosta de acordar bem cedo para ver o sol nascer no oeste. → Frase sem coerência pragmática (não corresponde ao dado do mundo real, em que o sol nasce no leste, e não no oeste). https://www.gran.com.br https://www.gran.com.br 6 de 10gran.com.br Coesão x Coerência INTERPRETAÇÃO DE TEXTOS ORAÇÕES SUBORDINADAS ADJETIVAS As orações subordinadas adjetivas podem ser explicativas ou restritivas. A oração subordinada adjetiva explicativa apresenta sentido de generalização, enquanto a oração subordinada adjetiva restritiva limita a afirmação a apenas parte do conjunto. Além disso, a oração subordinada adjetiva explicativa aparece isolada por vírgulas, enquanto a oração subordinada adjetiva restritiva ocorre sem vírgulas. Contudo, as bancas examinadoras costumam explorar situações em que a oração subordinada adjetiva, do ponto de vista lógico, somente pode ser explicativa. Há casos em que apenas a forma explicativa é coerente. Considere-se o seguinte exemplo: “O Brasil, que se destacou no futebol mundial, sediou a Copa em 2014.” Nesse caso, o termo “Brasil” refere-se a uma entidade única. Não existe outro país denominado Brasil. Assim, qualquer informação acrescentada sobre o Brasil necessariamente se refere ao país como um todo. Por essa razão, a oração adjetiva deve aparecer entre vírgulas, caracterizando-se como explicativa. A retirada das vírgulas produziria incoerência. Sem as vírgulas, a oração passaria a ter valor restritivo, sugerindo a existência de mais de um “Brasil”: um que se destacou no futebol e outro que não se destacou. Como isso não corresponde à realidade, haveria incoerência pragmática. Também existem situações em que a oração subordinada adjetiva somente faz sentido se for restritiva. Observe-se o exemplo: “Os aposentados que não tiverem moradia ganham casa da prefeitura.”. Nesse caso, não se pode afirmar que todos os aposentados não possuem moradia. Existem aposentados que possuem residência e outros que não possuem. Portanto, a oração “que não tiverem moradia” restringe o grupo dos aposentados apenas à parcela que se encontra nessa condição. Assim, a oração deve ocorrer sem vírgulas, mantendo caráter restritivo. Caso fossem empregadas vírgulas – “Os aposentados, que não possuem moradia, vão ganhar casa da prefeitura” – o sentido produzido seria o de que todos os aposentados não possuem moradia. Essa generalização não corresponde à realidade e gera incoerência pragmática. Esse tipo de análise é frequentemente explorado pelas bancas examinadoras, inclusive na correção de redações. O emprego inadequado de vírgulas em orações subordinadas adjetivas pode produzir incoerências e ocasionar perda de pontos na avaliação textual. https://www.gran.com.br https://www.gran.com.br 7 de 10gran.com.br Coesão x Coerência INTERPRETAÇÃO DE TEXTOS 01. (FGV/SEFAZ-RS) As marcas mais visíveis da textualidade são a coesão, a coerência e a intertextualidade. Entre as frases a seguir, assinale aquela que não mostra coerência. a) O amor se parece com a sede: um pouco de comida o sustenta. b) Charme é conseguir a resposta sem ter feito nenhuma pergunta clara. c) Posso bem perdoar, mas esquecer é outra coisa. d) Ninguém escreve em seu caderno de notas os favores recebidos de outrem. e) Eu e meu pai, nossas semelhanças são diferentes. a) Inicialmente, espera-se que a comparação estabelecida entre o amor e a sede seja desenvolvida com elementos semanticamente relacionados à sede, como água ou bebida. Entretanto, a frase utiliza o termo “comida”, pertencente a outro campo semântico. Isso produz certo estranhamento. Contudo, a frase não chega a configurar contradição lógica propriamente dita. Há apenas aproximação entre campos semânticos distintos. b) A frase permanece coerente, pois existe possibilidade lógica de alguém obter uma resposta adequada mesmo sem formular uma pergunta clara. Trata-se de situação plenamente possível na realidade. c) Também não há incoerência. É perfeitamente possível perdoar alguém e, ainda assim, manter a lembrança do ocorrido. O contrário de esquecer é lembrar, enquanto o contrário de perdoar é não perdoar. d) A frase apresenta coerência e se aproxima de um ditado popular relacionado ao comportamento humano. Frequentemente, as pessoas tendem a recordar os acontecimentos negativos e esquecem os favores ou benefícios recebidos. Portanto, há lógica interna e correspondência com situações observáveis da realidade.e) Nesse caso, verifica-se contradição direta. O termo “semelhanças” é qualificado por “diferentes”, isto é, pela ideia oposta à própria noção de semelhança. O contrário de semelhança é diferença. Assim, a frase aproxima elementos contraditórios dentro da mesma construção, produzindo incoerência. Obs.: É importante distinguir situações de oposição lógica de simples diferenças semânticas. Na letra “a”, por exemplo, há apenas aproximação entre campos semânticos distintos https://www.gran.com.br https://www.gran.com.br 8 de 10gran.com.br Coesão x Coerência INTERPRETAÇÃO DE TEXTOS – “sede” e “comida” –, mas não oposição direta. O contrário de comida seria, por exemplo, fome, e não sede. Já na letra “e” há efetivamente choque entre contrários: “semelhanças” e “diferentes”. Por isso, a incoerência exigida pela questão encontra-se nessa alternativa. Esse tipo de análise demonstra como a Fundação Getúlio Vargas costuma trabalhar de forma bastante sutil as relações de coerência textual. COERÊNCIA TEXTUAL Obs.: A coerência NÃO é a mesma coisa que SENTIDO. • A coerência vai além do mero significado das palavras e frases. • É preciso observar a articulação das ideias no texto. EXEMPLO, na Constituição Federal: Art. 7º. São direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, além de outros que visem à melhoria de sua condição social: […] Observa-se que: A expressão “são direitos” aparece sem artigo definido. Caso fosse empregado o artigo definido, formando “são os direitos”, haveria alteração de sentido. A construção com artigo definido produziria a ideia de totalidade, isto é, de que aqueles seriam todos os direitos existentes. Entretanto, o próprio texto constitucional afirma posteriormente: “além de outros”. Assim, o caput já deixa claro que existem outros direitos além daqueles expressamente mencionados. Por essa razão, o emprego sem artigo definido é coerente com o restante do texto, pois transmite a ideia de alguns direitos, e não de todos os direitos possíveis. Conclusão: • É coerente NÃO empregar o artigo definido. Sua ausência indica palavra em sentido geral. • Caso seja empregado o artigo definido, com a construção “São os direitos dos trabalhadores urbanos e rurais…”, haverá incoerência. MAS a incoerência não decorrerá APENAS da alteração de sentido. A incoerência ocorrerá porque o NOVO sentido definido NÃO será adequado no texto constitucional. Outro exemplo: TEXTO. Durante muitos anos discutiu-se apaixonadamente se as empresas multinacionais (EMNs) iam dominar o mundo, ou se serviam aos interesses imperialistas de seus países-sede, mas esses debates foram murchando, seja porque não fazia sentido econômico hostilizar as EMNs, seja porque elas pareciam, ao menos nas grandes questões, alheias e inofensivas ao mundo da política. https://www.gran.com.br https://www.gran.com.br 9 de 10gran.com.br Coesão x Coerência INTERPRETAÇÃO DE TEXTOS • A substituição das formas verbais “iam” e “serviam” por “iriam” e “serviriam” preserva a coerência e a correção textual? − Nesse caso, a substituição preserva tanto a coerência quanto a correção textual. As formas “iriam” e “serviriam” pertencem ao futuro do pretérito, tempo verbal que expressa hipótese ou possibilidade. Como o texto já se encontra inserido em um contexto de dúvida e discussão, o emprego desse tempo verbal mantém harmonia com o sentido geral do trecho. − Assim, as formas “iriam dominar o mundo” e “serviriam aos interesses imperialistas” permanecem coerentes com a ideia de hipótese presente no texto, preservando adequadamente as relações lógicas e semânticas estabelecidas. 02. (CEBRASPE/TCU) Suposta esta primeira verdade, certa e infalível; a segunda cousa que suponho com a mesma certeza é que a restituição do alheio sob pena da salvação não só obriga aos súditos e particulares, senão também aos cetros e às coroas. Cuidam, ou devem cuidar alguns príncipes que, assim como são superiores a todos, assim são senhores de tudo, e é engano. A lei da restituição é lei natural e lei divina. Enquanto lei natural, obriga aos reis, porque a natureza fez iguais a todos; e enquanto lei divina, também os obriga, porque Deus, que os fez maiores que os outros, é maior que eles. Esta verdade só tem contra si a prática e o uso. Mas por parte deste mesmo uso argumenta assim São Tomás, o qual é hoje o meu doutor, e nestas matérias o de maior autoridade: a rapina, ou roubo, é tomar o alheio violentamente contra vontade de seu dono: “os príncipes tomam muitas cousas a seus vassalos violentamente, e contra sua vontade; logo, parece que o roubo é lícito em alguns casos, porque se dissermos que os príncipes pecam nisto, todos eles, ou quase todos se condenariam”. Oh que terrível e temerosa consequência e quão digna de que a considerem profundamente os príncipes, e os que têm parte em suas resoluções e conselhos! Responde ao seu argumento o mesmo Doutor angélico […]. Respondo (diz S. Tomás) que, se os príncipes tiram dos súbditos o que segundo justiça lhes é devido para conservação do bem comum, ainda que o executem com violência, não é rapina ou roubo. Porém, se os príncipes tomarem por violência o que se lhes não deve, é rapina e latrocínio. Donde se segue que estão obrigados à restituição como os ladrões, e que pecam tanto mais gravemente que os mesmos ladrões, quanto mais perigoso e mais comum o dano com que ofendem a justiça pública, de que eles estão postos por defensores. Padre António Vieira. Sermão do bom ladrão. Pregado na Igreja da Misericórdia de Lisboa, no ano de 1655. Internet: (com adaptações). Julgue o item a seguir, referente a ideias e aspectos gramaticais do texto precedente. https://www.gran.com.br https://www.gran.com.br 10 de 10gran.com.br Coesão x Coerência INTERPRETAÇÃO DE TEXTOS No quarto período, a supressão das vírgulas que isolam a oração “que os fez maiores que os outros” prejudicaria a coerência das ideias que sustentam o texto, baseadas na fé católica. A oração “que os fez maiores que os outros” aparece isolada por vírgulas, caracterizando- se como oração subordinada adjetiva explicativa. O texto apresenta uma concepção fundamentada na fé católica. O próprio autor é um padre, e o conteúdo textual apoia-se em princípios religiosos ligados ao catolicismo. Entre esses princípios encontra-se a ideia da unicidade de Deus, isto é, a existência de um único Deus. Quando o referente é único, a oração subordinada adjetiva somente pode assumir valor explicativo. O mesmo raciocínio já havia sido aplicado anteriormente ao exemplo do Brasil: por se tratar de entidade única, não é possível estabelecer restrição. Assim, ao se afirmar “Deus, que os fez maiores que os outros”, a oração explicativa acrescenta uma informação sobre Deus como entidade única. Entretanto, caso as vírgulas fossem retiradas, a oração passaria a ter valor restritivo: “Deus que os fez maiores que os outros”. Nesse caso, o sentido produzido seria o de que existiriam vários deuses, e apenas um deles teria feito os homens maiores que os outros. Esse novo sentido contradiz os princípios da fé católica presentes no texto, produzindo incoerência textual. A retirada das vírgulas comprometeria a harmonia lógica das ideias defendidas pelo autor. A análise demonstra como a coerência textual depende da relação lógica entre as informações do texto, dos conhecimentos pressupostos e dos sentidos produzidos pelas estruturas linguísticas. Questões desse tipo são comuns em provas mais exigentes e demandam atenção cuidadosa à articulação entre gramática, interpretação e construção de sentido. GABARITO 1. e 2. C � Este material foi elaborado pela equipe pedagógica do Gran Concursos, de acordo com a aula preparada e ministrada pelo professor Márcio Wesley. A presente degravação tem como objetivo auxiliar no acompanhamento e na revisão do conteúdo ministrado na videoaula. Não recomendamos a substituição do estudo em vídeo pela leituraexclusiva deste material. https://www.gran.com.br https://www.gran.com.br