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Lucia Maria Bastos Pereira das Neves Lucia Maria Paschoal Guimarães Este livro examina a historiografia como campo de estudos, na dimensão de sua trajetória, de suas implicações e apresentação de perspectivas diferenciadas. Brasileira, a obra afirma O valor da catarse como UDOS DE HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA Marcia de Almeida Gonçalves Rebeca Gontijo teórico-metodológicas e nas possibilidades de revisão Fruto do I Seminário Nacional de História da Historiografia exercício de crítica do conhecimento histórico. Interrogar passado, pluralizando-lhe sentidos, ESTUDOS DE HISTORIOGRAFIA é precondição para intervir no presente. ORGANIZADORAS Rebeca Marcia Lucia Lucia 907.2 E82 89.963 rães ISBN 978-85-225-0755-9 Neves GV FAPERJ 9 788522508488Seduzidos pela velocidade das Proc. 2009/16462-8 mudanças no século XXI, cada vez Ciro Cesar Zanini Branco Livraria: a Pagine mais proclamamos a novidade N. Fiscal: 225480 Data: 22/11/11 e desmentimos a continuidade. Proc. Doação: 59/2011 É espantosa a ligeireza Item: 1148 R Rubrica: e superficialidade comemorativa com que tratamos a história dos séculos anteriores. Esta edição, que congrega textos de historiadores de várias gerações e dos mais variados quadrantes brasileiros, provoca nossa memória como uma espécie de antídoto para combater veneno da amnésia coletiva. ESTUDOS DE HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA Embora tenha nascido de um encontro nacional de historiadores que se reuniram para refletir sobre a história de seu próprio ofício a historiografia -, livro reúne trabalhos tão importantes que merecem a leitura de um público mais amplo e variado. Destoando do coro de muitas antologias que trombeteiam personalidades únicas, contempla assuntos e personagens que cobrem mais diversificado espectro temático da historiografia brasileira. Ainda bem. O leitor pode respirar ares menos rarefeitos ao passear por temas e personagens algunsORGANIZADORAS Lucia Maria Bastos Pereira das Neves * ASSIS Lucia Maria Paschoal Marcia de Almeida Gonçalves Rebeca Gontijo ESTUDOS DE HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA 0701089963 89963 FGV FAPERJ de Amparo EDITORA Estado de JaneiroCopyright © 2011 Lucia Maria Bastos Pereira das Neves Lucia Maria Paschoal Guimarães Sumário Marcia de Almeida Gonçalves I Rebeca Gontijo Direitos desta edição reservados à EDITORA FGV Rua Jornalista Orlando Dantas, 37 22231-010 Rio de Janeiro, RJ Brasil Tels.: 0800-021-7777 21-3799-4427 Fax: 21-3799-4430 E-mail: editora@fgv.br pedidoseditora@fgv.br www.fgv.br/editora Todos os direitos reservados. A reprodução não autorizada desta publicação, no todo ou em parte, constitui violação do copyright (Lei 9.610/98). Os conceitos emitidos neste livro são de inteira responsabilidade dos autores. edição 2011 Apresentação, 7 PREPARAÇÃO DE ORIGINAIS: Ronald Polito REVISÃO: Fatima Caroni I Marco Antonio Corrêa EDITORAÇÃO ELETRÔNICA: Leo Boechat UNESP ASSIS - BIBLIOTECA PARTE I HORIZONTES DE INVESTIGAÇÃO TOMBO CAPA: Santa Fé ag. CLASSIFICAÇÃO 1 Sobre a história da historiografia brasileira como campo de estudos e reflexões 89,963 907.2 Lucia Maria Paschoal Guimarães, 19 DATA Impresso no Brasil Printed in Brazil 13/12/11 E82 2 História e hermenêutica: uma questão de método? Guilherme Pereira SYS das Neves, 37 676209 3 Entre as madalenas de Proust e riso sob guarda-chuva de Bataille: Ficha catalográfica elaborada pela breve reflexão sobre a relação entre história e hermenêutica Verena Alberti, 63 Biblioteca Mario Henrique Simonsen / FGV Estudos de historiografia brasileira / Organizadora Lucia Maria Bastos Pereira das Neves... [et al.]. Rio de Janeiro Editora FGV, 2011. PARTE II FUNDAÇÕES DA HISTÓRIA DO BRASIL 340 4 Cairu e a emergência da consciência historiográfica no Brasil (1808-1830) Em colaboração com Lucia Maria Paschoal Guimarães, Marcia de Valdei Lopes de Araujo, 75 Almeida Gonçalves, Rebeca Gontijo. Inclui bibliografia 5 Lições sobre a escrita da história: as primeiras escolhas do IHGB. ISBN: 78-85-225-0848-8 A historiografia brasileira entre antigos e modernos Temistocles Cezar, 93 1. Historiografia. 2. Brasil Historiografia. I. Neves, Lucia Maria 6 Ser historiador no Brasil: João Capistrano de Abreu e a anotação da História Bastos Pereira das, 1952- II. Guimarães, Lucia Maria Paschoal, 1946- III. Gonçalves, Marcia de Almeida, 1964- IV. Gontijo, Rebeca. V. Fundação geral do Brasil de Francisco Adolfo de Varnhagen Fernando Amed, 125 Getulio Vargas. 7 Capistrano de Abreu e a historiografia cientificista: entre o positivismo e CDD 907.20981 historicismo Francisco José Calazans Falcon, 151PARTE III ESCRITA DA HISTÓRIA E CONSTRUÇÕES IDENTITÁRIAS Apresentação 8 História nacional, lingua nacional e "povo mesclado e heterogêneo" Ivana Stolze Lima, 165 9 "Tipos", "primitivos", "decadentes": escrita etnográfica, secularização e tempo histórico no Museu Nacional Rodrigo Turin, 183 10 "Estudos fluminenses": a Faculdade Fluminense de Filosofia e a identidade regional Rui Aniceto Nascimento Fernandes, 207 Dá-se pela historiografia uma espécie de catarse da memória. 11 Operando o Nordeste: da região que tem um flagelo a ser extirpado Jörn Rüsen¹ no diagnóstico do discurso da seca à região como uma estrutura estagnada no diagnóstico do discurso do planejamento Durval Muniz de Albuquerque Júnior, 221 PARTE IV MEMÓRIAS, TRAJETÓRIAS E INSTITUIÇÕES T oda epígrafe responde pela função de induzir o leitor nas suas expectativas de decifração do texto que então o ocupa e o desafia. Essa, certamente, não foge à regra. Inclui-se, todavia, na categoria daquelas que buscam mais sugerir 12 A trajetória de Henri Hauser: um elo entre gerações Marieta de Moraes Ferreira, 237 um ponto de reflexão do que a ostentação de um único caminho a seguir, na atividade de interpretar autores, ideias e, em especial, a escrita da 13 A década de 1930, entre a memória e a história da historiografia brasileira Digressões à parte, entre atos de leitura e recepções, a afirmativa de Rüsen Fabio Franzini, 261 nos serve como síntese provocativa de parte das intenções materializadas no li- 14 José Honório Rodrigues e a invenção de uma moderna tradição vro aqui apresentado. Intenções relacionadas a uma forma de conceber as rela- Rebeca Gontijo, 277 ções sempre tensas entre a história, a memória e a historiografia, e informadas pelo interesse de problematizá-las no que se refere à historiografia brasileira em particular. PARTE V Usos DA BIOGRAFIA Nesse ponto, a conexão sugerida por Rüsen entre memória e historio- 15 Em tempos de epidemia biográfica: Octávio Tarquinio de Sousa e sua busca grafia se estabelece por meio do valor da catarse, palavra forte, etimologi- por homens históricos Marcia de Almeida Gonçalves, 293 camente associada à purificação, ao alívio da alma pela satisfação de uma 16 A biografia de d. João VI: implicações teóricas e metodológicas Lucia Maria necessidade ética. Na experiência estética do teatro grego, correspondia à Bastos Pereira das Neves, 305 possibilidade de o espectador expurgar paixões, medos e terrores por meio da contemplação do espetáculo trágico. Nas apropriações psicanalíticas, re- 17 Os muitos tempos de Gilda: sobre biografia e estratos do tempo Benito Bisso mete à operação de trazer à consciência afetos e lembranças recalcadas de Schmidt, 323 modo a liberar o paciente de neuroses e outros sintomas. Como ideia-síntese, Sobre autores, 335 Rüsen, Jörn. História viva. Teoria da história II: formas e funções do conhecimento histórico. Tradução de Estevão de Rezende Martins. Brasília: UnB, 2007. 31-32.8 ESTUDOS DE HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA APRESENTAÇÃO 9 a qual nos interessa valorizar, a catarse envolve a percepção intensa de algo sempre acompanhou a própria elaboração dessa historiografia, no curso dos e, por meio desta, a produção de algum conhecimento que viabilize atos de séculos XIX e XX, em nossa contemporaneidade tal atividade adquiriu con- libertação e/ou superação. tornos particulares e cada vez mais complexos, fruto, entre outros aspectos, Assim, por meio da catarse, a historiografia, como prática cultural, inseri- da própria expansão dos programas de pós-graduação estrito senso, na área da no campo da escrita, cumpriria uma de suas funções, a saber: dar uma for- de história e outras afins, por grande parte do território nacional. ma particular aos materiais que configuram a memória, na qualidade de algo Nesse quadro, assiste-se à conformação da história da historiografia, em cuja existência se manifesta no jogo complementar entre lembranças e esque- suas dimensões epistêmicas e metodológicas, como campo de conhecimento cimentos. Ao fazê-lo, construiria uma inteligibilidade para esses materiais por específico, em iniciativas variadas, de simpósios temáticos em encontros nacio- meio de elaboração cognitiva que torna o passado, como narrativa, presente e nais e regionais de profissionais de história às publicações de teses, artigos em dotado de significação. Nessas relações, e na sua facticidade, se manifestaria a revistas e livros. Destacam-se, entre essas iniciativas, os seminários nacionais produção de uma consciência histórica, nos seus usos variados para a ação de de História da Historiografia organizados e patrocinados por pesquisadores indivíduos e sociedades no mundo. da Ufop Valdei Lopes de Araujo, Fernando Nicolazzi, Helena Mollo, Flávia A ponderação de Rüsen também nos alerta para outro aspecto fundamen- Varella, Sérgio da Mata -, bem como publicações, entre as quais se insere a do tal. Na relação entre memória e historiografia, por vezes tomada apenas pelo periódico História da historiografia, da mesma instituição. A riqueza e variedade viés do inventário "do que lembrar", e "do que esquecer", na disposição volun- de tais produções justificam a necessidade de avaliações, no sentido de circuns- tária e involuntária dessas articulações, deve-se igualmente levar em conta os desenhos variados e cambiantes do "como lembrar". Com isso, atenta-se para crever o que tem sido alvo de investigações, críticas e revisionismos no que a própria historicidade das práticas e valores que informam a historiografia, concerne à historiografia brasileira em especial. nos seus fartos e necessários desdobramentos quanto à produção de saberes OI Seminário Nacional de História da Historiografia Brasileira da Uerj relativos às figurações do tempo, do passado, do presente, do futuro, da condi- promoveu o encontro entre historiadores de diferentes gerações que, de várias ção humana e de suas ações, de uma imagem de si e do outro, de identidades e maneiras, têm refletido sobre a história da historiografia no Brasil, seja susci- alteridades, de indivíduos, sociedades e culturas. tando questionamentos de ordem epistemológica, seja investigando a história A par dessas indagações, situa-se o objetivo central deste livro: interrogar a da escrita da história e dos historiadores, propondo novos objetos e problemas historiografia brasileira como campo de estudos, na dimensão de sua história, ou revendo antigas interpretações. Em outras palavras, a ênfase do seminário de suas implicações teóricas e metodológicas, e nas possibilidades de revisão foi reunir, em um primeiro esboço com todos os riscos que isso implica -, e de apresentação de temas e abordagens diferenciadas. mesmo é resultado estudos que abordam a escrita da história no Brasil como campo primordial de do I Seminário Nacional de História da Historiografia Brasileira, ocorrido no pesquisa e análise. IFCH/Uerj, em outubro de 2008, sob a iniciativa do Laboratório Redes de Po- O presente livro agrupa uma parte das reflexões então apresentadas no der e Relações Culturais, com o apoio do Grupo de Pesquisa Oficinas da Histó- referido seminário. Representa as contribuições significativas de boa parte de ria e dos programas de pós-graduação em história do IFCH/Uerj e em história seus participantes, visto que nem todos, por contingências diversas, puderam social da FFP/Uerj, e financiamento concedido pela Faperj. figurar entre os autores dos artigos aqui reunidos. De todo, vale registro do As reflexões sobre a história da historiografia brasileira têm sofrido in- clima de diálogo e de troca intelectual generosa entre os pesquisadores que cremento considerável nos últimos 30 anos. Se o pensar sobre a escrita da viabilizaram a realização do evento; expressão, nesse sentido, do melhor que os história referente às experiências da sociedade brasileira, em certa medida, espaços institucionais podem promover, ao se eleger o ato de aprender com10 ESTUDOS DE HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA APRESENTAÇÃO 11 outro, diferente ou não, uma espécie de máxima no trabalho de pensar sobre e as dimensões conceituais e epistemológicas da hermenêutica, ou melhor, na fi- com a história.² delidade mais cuidadosa aos seus argumentos, de uma "experiência hermenêu- Os textos foram ordenados e distribuídos em partes que sugerem possí- tica". Por meio dessa chave analítica, em diálogo, entre outros, com Proust e as veis eixos de problematização do campo: da reflexão teórico-metodológica aos ponderações de Hans-Georg Gadamer, Guilherme Pereira das Neves enumera estudos de caso que focalizam projetos historiográficos e trajetórias indivi- e correlaciona suas implicações cognitivas, metodológicas e políticas, no que duais e institucionais -, com destaque para o entrecruzamento entre a escrita concerne às formas e funções do conhecimento histórico, apostando, "herme- da história, a memória e as construções identitárias. neuticamente", nos sentidos éticos que as premissas do diálogo e da compre- Na parte I "Horizontes de investigação" agruparam-se textos cujos ensão possam vir a render para a crítica da consciência histórica. focos direcionaram-se para as conexões entre teoria e historiografia, suas pre- Em diálogo com as considerações de Guilherme Pereira das Neves se en- missas metodológicas e possibilidades de revisão e complementação. Por meio contra trabalho de Verena Alberti "Entre as madalenas de Proust e riso da constatação que identifica um campo de estudos a história da historio- sob o guarda-chuva de Bataille: breve reflexão sobre a relação entre história e grafia brasileira -, o mesmo passa a ser objeto de crítica, na circunscrição de Como o título indica, Verena Alberti acrescenta interrogações sua própria historicidade e dos caminhos abertos por esse tipo de avaliação. à chave analítica focada na "experiência hermenêutica" ao situar essa forma e Como escolha, entre muitas, ensaiaram-se algumas ponderações centradas no possibilidade de conhecer entre as tradições do pensamento ocidental moder- valor da hermenêutica. no, valendo-se das proposições de Hans Ulrich Gumbrecht, e mais, procuran- Apresentado originalmente como conferência de abertura do I Seminário do deslocá-la e criticá-la em ilações com outros, entre eles, Georges Bataille e Nacional de História da Historiografia Brasileira, o texto de Lucia Maria Pas- Fernando Pessoa. choal Guimarães "Sobre a história da historiografia brasileira como campo Na parte II "Fundações da história do Brasil" dispuseram-se análises de estudos e reflexões" elenca um conjunto de questões que historiciza as voltadas para autores e obras já consagrados no panteão dos que edificaram obras iniciativas dos que se debruçaram sobre a produção historiográfica brasileira, referenciais da história do Brasil Varnhagen e Capistrano de Abreu -, como com destaque para as análises de Sérgio Buarque de Holanda, José Honório também formulações destinadas a identificar outros autores e textos nos quadros Rodrigues e Francisco Iglésias. Ao mapear tais contribuições, Lucia Guimarães das interseções entre a historiografia e imaginário nacional, no Oitocentos. situa não só o já estabelecido, entre problematizações e tradições constituídas, texto de Valdei Lopes de Araujo "Cairu e a emergência da consciência mas, especialmente, convida leitor/pesquisador a perceber o campo de possi- historiográfica no Brasil (1808-1830)" -, ao refletir sobre os silenciamentos bilidades referentes à escrita da história do Brasil. de historiadores e críticos ao canonizarem autores e textos na qualidade de Elaborado na qualidade de conferência de encerramento do seminário já referências historiográficas, caracteriza a concepção de história pátria na obra mencionado, o estudo de Guilherme Pereira das Neves "História e herme- História dos principais sucessos políticos do Império do Brasil, de José da Silva Lisboa, nêutica: uma questão de método?" apresenta uma instigante reflexão sobre visconde de Cairu, e, assim, identifica o valor da mesma, em tempos de emer- gência do Império do Brasil como entidade política. Ao investigar as marcas discursivas do texto de Cairu, Valdei de Araujo interroga as apropriações da Participaram do simpósio os seguintes professores e pesquisadores: Angela de Castro Gomes, Benito obra de Tácito e particulariza tensões entre antigos e modernos no campo da Bisso Schmidt, Durval Muniz de Albuquerque, Fabio Franzini, Fernando Amed, Francisco José Calazans Falcon, Guilherme Pereira das Neves, Ivana Stolze Lima, Kaori Kodama, Lucia Maria Bastos Pereira das escrita da história. Neves, Lucia Maria Paschoal Guimarães, Reznik, Marcia de Almeida Gonçalves, Marieta de Moraes Por caminhos particulares, trabalho de Temístocles Cezar "Lições sobre Ferreira, Raquel Glezer, Rebeca Gontijo, Ricardo Salles, Rodrigo Turim, Rui Aniceto Fernandes, Tânia Bessone, Cezar, Valdei Araujo e Verena Alberti. a escrita da história: as primeiras escolhas do IHGB. A historiografia brasileira12 ESTUDOS DE HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA APRESENTAÇÃO 13 entre os antigos e os modernos" -, como o próprio título explicita, aborda igual- Ivana Stolze Lima "História nacional, língua nacional e o 'povo mesclado mente as tensões entre antigos e modernos nas configurações de uma escrita e heterogêneo" discute as relações entre a formação da língua nacional nos da história fortemente comprometida com a invenção da nação brasileira, nos anos de construção e de consolidação do Império do Brasil, entre as décadas de termos do que veio a ser projeto e ação do IHGB, em seus anos iniciais. Assim, 1820 e 1850, e os questionamentos associados à escrita da história do Brasil e por meio da análise de discursos de autoria do cônego Januário da Cunha Bar- da fundação da nação, nos quadros da cultura histórica oitocentista. Por meio bosa e do marechal Raymundo José da Cunha Mattos, delimita suas respectivas de fragmentos de textos diversos, convida e estimula leitores e pesquisadores proposições no que se referiu a fundar uma historiografia brasileira, seus proce- a relembrar e redimensionar os cuidados e sensibilidades dos fundadores da dimentos críticos e metodológicos e, paralelamente, sua dimensão retórica, nos historiografia brasileira quanto à dimensão linguística da vida social. exercícios de persuasão construtores da pátria imaginada. trabalho de Rodrigo Turin "Tipos', 'primitivos', 'decadentes': escrita Fernando Amed "Ser historiador no Brasil: João Capistrano de Abreu etnográfica, secularização e tempo histórico no Museu Nacional" tematiza e a anotação da História geral do Brasil de Francisco Adolfo de Varnhagen" -, processo de secularização do saber antropológico no Brasil oitocentista ao por meio da correspondência de Capistrano de Abreu, problematiza o ofício, situar suas relações com os usos da história e das figurações do tempo nos as condições de seu exercício e a identidade do historiador, valendo-se, em es- textos científicos direcionados para análise, especialmente, das populações in- pecial, da experiência assumida por Capistrano, e ao fim inacabada, de ano- do Brasil. Interroga, nesse sentido, a produção letrada de Ladislau de tar e criticar a obra História geral do Brasil, de Varnhagen. Fernando Amed nos Souza Mello e Netto e João Baptista de Lacerda, ambos, entre outras atuações, apresenta um Capistrano de Abreu leitor de Varnhagen e assim questiona os diretores do Museu Imperial após a proclamação da República, Museu Na- particularismos e impasses do meio intelectual brasileiro, na temporalidade cional entre as décadas de 1870 e 1910. associada às trajetórias e produções letradas de dois autores referenciais entre Rui Aniceto Nascimento Fernandes "Estudos fluminenses': a Faculdade os que se dispuseram a escrever, e pensar sobre, a história do Brasil. estudo de Francisco José Calazans Falcon "Capistrano de Abreu e a de Filosofia e a identidade regional" apresenta a iniciativa de in- historiografia cientificista: entre o positivismo e o historicismo" revisita a telectuais locais de promover estudos sobre a história e a identidade do estado obra historiográfica de Capistrano de Abreu no sentido de apresentar, de forma do Rio de Janeiro, entre as atividades da Faculdade Fluminense de Filosofia, na sucinta, indagações acerca de seu lugar e de suas marcas teórico-metodológicas década de 1950. Ao utilizar textos constantes dos anais da referida instituição, no campo das transformações que a escrita da história veio a sofrer entre finais situando parcialmente um pouco da sua história, Rui Fernandes associa tal do século XIX e as décadas iniciais do século XX. Por meio da caracterização iniciativa ao conjunto mais amplo de projetos e discussões direcionados para dos momentos significativos relativos à história da história e da respectiva con- restabelecimento da importância econômica e política dos fluminenses entre textualização de uma historiografia cientificista, o autor discute as ambiguida- os que poderiam promover, no resgate da imagem da "velha província" desta des da obra de Capistrano de Abreu quanto às influências do positivismo e aos feita como "terra do futuro" -, o desenvolvimento nacional. seus diálogos com o historicismo alemão. estudo de Durval Muniz de Albuquerque Júnior "Operando o Nor- Na parte III "Escrita da história e construções identitárias" foram deste: da região que tem um flagelo a ser extirpado no diagnóstico do discurso reunidos textos que abordam os usos da escrita da história para a formulação da seca à região como uma estrutura estagnada no diagnóstico do discurso do de vínculos e caracterizações identitárias variadas, em recortes cujas interfaces planejamento" identifica as imagens sobre a região nordestina, valendo-se da dialogam com os saberes sobre a língua nacional, sobre a etnografia e a forma- obra de Celso Furtado, da caracterização de sua formação intelectual e de sua ção do povo brasileiro, sobre as identidades regionais e locais e a caracterização atuação política, nas décadas de 1950 e 1960. Por meio da análise discursiva da nação, dos seus problemas sociais e políticos. em que se constituíram os diagnósticos sobre os problemas do Nordeste e suas14 ESTUDOS DE HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA APRESENTAÇÃO 15 identidades regionais, Durval de Albuquerque provoca o leitor ao questionar uma história da historiografia brasileira, nas suas relações com a memória e os usos imprevistos, pós-golpe militar de 1964, das interpretações de Celso com as funções canonizadoras de autores e obras então tornados referenciais, Furtado e desvela as tensões entre discurso histórico, identidade nordestina e por meio das considerações e esforços de José Honório Rodrigues referentes à ação política na reprodução de hierarquias e exclusões sociais. valorização e sistematização da produção letrada de Capistrano de Abreu. As Na parte IV "Memórias, trajetórias e instituições" foram agrupados ponderações de Rebeca Gontijo discutem as chaves interpretativas constituí- textos que, ao cruzarem trajetórias autorais, espaços institucionais e constru- das por José Honório, em especial a que identificou Capistrano de Abreu como ções de suas respectivas memórias e histórias, constituem uma abordagem aquele que inaugurou uma nova historiografia brasileira. Ao fazê-lo, situa o acerca do que veio a ser categorizado por alguns como a "moderna historio- quanto, nesse caso, procedeu-se à invenção de tradições com as quais, certa- grafia brasileira", com destaque para suas ambiências intelectuais, algumas de mente, ainda dialogamos. suas referencialidades e tradições então estabelecidas. Na parte V "Usos da biografia" foram postos em conjunto textos vol- Marieta de Moraes Ferreira "A trajetória de Henri Hauser: um elo en- tados para as interseções entre biografia e história, sob premissas de não só tre gerações" analisa, por meio de reflexões acerca da trajetória intelectual caracterizar tensões, particularismos e a historicidade das mesmas no campo do historiador francês Henri Hauser (1866-1946), as tensões de um tempo de da história política, como também sob a aposta no valor do biográfico na qua- mudanças significativas nos espaços institucionais, nas estratégias e práticas lidade de escrita que desloca determinismos e causalidades unívocas acerca de que configuraram ofício do historiador, na França, entre as décadas de 1870 atores e personagens, mais ou menos consagrados, do mundo histórico. e 1940. Ao situar os contextos nos quais se confrontaram adeptos da Escola "Em tempos de epidemia biográfica: Octávio Tarquínio de Sousa e sua Metódica e do programa dos Annales, focaliza os particularismos e escolhas busca por homens históricos", de Marcia de Almeida Gonçalves, analisa as acadêmicas de Hauser, propositor de questões originais quanto à história eco- principais características das biografias históricas produzidas por Octávio nômica e social, em solo francês, e também na sua atuação como um dos no- Tarquínio de Sousa nas décadas de 1930 e 1940. Ao fazê-lo, Marcia Gonçalves mes centrais, na qualidade de professor já consagrado, entre os que vieram a identifica o que na época foi denominado uma "epidemia biográfica", con- colaborar no esforço de implantação dos cursos universitários de história, no textualiza algumas das matrizes e referências da emergência de uma biografia Brasil, no momento de criação da UDF e da USP, na década de 1930. moderna no ambiente letrado brasileiro do entreguerras, bem como alguns Em "A década de 1930, entre a memória e a história da historiografia bra- de seus desdobramentos teóricos e metodológicos no campo da historiogra- sileira", Fabio Franzini discute a produção historiográfica brasileira no decor- fia brasileira. rer da década de 1930, pondo em xeque e contextualizando os valores de ca- texto de Lucia Maria Bastos Pereira das Neves "A biografia de d. João nonização imputados às obras seminais de Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de VI: implicações teóricas e metodológicas" aborda os impasses e escolhas que Holanda e Caio Prado Júnior. Assim o faz tomando como campo de reflexões afetam a elaboração de uma biografia quando esta é concebida como obra his- a Coleção Documentos Brasileiros, alguns de seus títulos e suas apostas edi- tórica. Por meio de sua própria experiência como historiadora, envolvida com toriais. Revela para leitores e investigadores a complexidade de um tempo em a incumbência de produzir uma biografia de d. João VI, a autora explicita um que os saberes sobre o Brasil, entre eles a história, eram alvo de reinvenções, a pouco do passo a passo de seus procedimentos, inventariando dúvidas, cuida- deslocar tradições e investir no que pudesse ser considerado moderno, com dos e acertos, construindo, com rigor e sensibilidade, um esboço preliminar de direito a apropriações muito particulares. seu biografado e das contradições de seu tempo de vida. texto de Rebeca Gontijo "José Honório Rodrigues e a invenção de Finalmente, Benito Bisso Schmidt "Os muitos tempos de Gilda: sobre uma moderna tradição" analisa as práticas e mecanismos de constituição de biografia e estratos do tempo" discute, por meio da elaboração da biografia16 ESTUDOS DE HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA de Gilda Zamorano Marinho (1906-1984), jornalista gaúcha, participante do PCB, entre outras atuações, os problemas teóricos e conceituais associados às figurações do tempo histórico em narrativas sobre histórias de vida. Ao fazê-lo, Benito Schmidt apresenta, de forma sintética e provocadora, a possibilidade de pluralizar os tempos e os sentidos de suas experiências quando se busca dar conta da densidade histórica de personagens e seus contextos. Ao fim dessa apresentação, vale retornar à epígrafe de Jörn Rüsen e afir- mar, mais como convicção, menos como provocação, o valor da catarse para os exercícios de crítica do conhecimento histórico. Entre as intenções e justifi- cativas para a presente publicação, uma delas, certamente a mais importante, deriva-se dessa correlata, em muitos aspectos, ao ato de interrogar o passado, pluralizar seus sentidos e intervir no presente. PARTE I As organizadoras HORIZONTES DE INVESTIGAÇÃO13 A década de 1930, entre a memória e a história da historiografia brasileira Fabio Franzini T os anos 1930 como objeto de estudo certamente não soa despropo- sitado a ninguém. Sem exagero ou equívoco, pode-se afirmar que a época ocupa lugar especial nas reflexões sobre o Brasil moderno, da política à econo- mia, da sociedade à cultura. Tais reflexões, em geral, giram em torno do eixo da Revolução de 1930 e de seus desdobramentos, entre os quais se incluiria a própria modernização do país e, como uma espécie de seu duplo, o desejo de conhecer a "realidade" e "as coisas" brasileiras. Para citar uma das interpreta- ções mais consagradas a esse respeito, a do crítico literário Antonio Candido (1984:27, 32, respectivamente), o movimento que conduziu Getúlio Vargas ao poder teria sido "um eixo e um catalisador: um eixo em torno do qual girou de certo modo a cultura brasileira, catalisando elementos dispersos para dis- pô-los numa configuração nova", e seu aspecto mais nítido seria a procura de "uma atitude de análise e crítica em face do que se chamava incansavelmente a 'realidade brasileira' (um dos conceitos-chave do momento)". Com a historiografia, sabemos bem, não é diferente. Tornou-se, entre nós, um verdadeiro lugar-comum caracterizar a década como um "momento de ruptura", um "divisor de águas" na história de nosso trabalho com o passado: nela se revelaria com cristalina clareza a oposição entre um conjunto supos- tamente homogêneo, monolítico, de narrativas político-factuais vinculadas à tradição do IHGB e interpretações de temática mais ampla, crítica e metodolo- gicamente mais refinadas, voltadas à busca daquilo que Paulo Arantes chamou o "sentido da formação" (1997:11 e segs.) e que possibilitaram, agora na conhe- cida expressão de Carlos Guilherme Mota (1977:27 e segs.), "redescobrimen- to do Brasil". Dito de forma mais simples e direta, a década de 1930 marcaria262 ESTUDOS DE BRASILEIRA A DÉCADA DE 1930, ENTRE A MEMÓRIA E A HISTÓRIA DA HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA 263 também para a nossa historiografia o início de uma "modernização", da qual reconhecia que os títulos em questão "talvez significassem outra coisa para os seríamos, ou somos, tributários até hoje uma modernização, por sua vez, jovens da direita"), não passava de um mote para discutir o trabalho de seu largamente identificada à admirável tríade formada por Gilberto Freyre, Sérgio amigo Sérgio Buarque 30 anos depois de seu aparecimento. Buarque de Holanda e Caio Prado Júnior. No entanto, as apropriações que dele se fizeram em geral supervaloriza- Notada por Arantes, Mota e tantos outros intérpretes, essa identificação ram esse mote, redimensionando algo que, em seu contexto original, era secun- remete, em sua origem, a um autor e a um texto específicos: famoso prefá- dário e, mais importante, transformando que era "memória" em "história", cio à quinta edição de Raízes do Brasil, datado de 1967 e escrito pelo mesmo com implicações sérias e graves, as quais só muito recentemente começam a ser Antonio Candido acima mencionado. Mais especificamente, ao seu segundo percebidas e discutidas. Maria Stella Martins Bresciani (2005:23), por exemplo, parágrafo, no qual Candido (1994:xxxix) afirma que: em seu recente livro sobre lugar de Oliveira Vianna entre os intérpretes do Brasil, não deixa de referir-se a esse "clássico prefácio" para ressaltar que: Os homens que estão hoje um pouco para cá ou um pouco para lá dos cinquenta anos aprenderam a refletir e a se interessar pelo Brasil sobre- Essas reflexões de caráter autobiográfico, definidas pelo autor como tudo em termos de passado e em função de três livros: Casa-grande balanço do passado a que chegamos a certa altura da vida, ou mesmo senzala, de Gilberto Freyre, publicado [1933] quando estávamos no gi- como "testemunho" ou "registro de uma que poderia ser násio; do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, publicado [1936] a de muitos contemporâneos seus, ganharam, a despeito das intenções quando estávamos no curso complementar; Formação do Brasil contempo- do autor, o estatuto de paradigma e de divisor de águas da historiogra- râneo, publicado [1942] quando estávamos na escola superior. São estes fia brasileira. São numerosos os trabalhos fundamentados nessa afir- os livros que podemos considerar chaves, os que parecem exprimir a mação, alguns diretamente referidos ao "Prefácio", outros fazendo uso mentalidade ligada ao sopro de radicalismo intelectual e análise social dele sem a devida referência. que eclodiu depois da Revolução de 1930 e não foi, apesar de tudo, aba- fado pelo Estado Novo. Ao lado de tais livros, a obra por tantos aspectos É também sintomático que o próprio Antonio Candido tenha se manifes- penetrante e antecipadora de Oliveira Vianna já parecia superada, cheia tado nos últimos tempos contra o estabelecimento desse paradigma, ou pior, de preconceitos ideológicos e uma vontade excessiva de adaptar o real a de um cânone, a partir de suas palavras. Segundo ele, isso ocorreu à sua revelia desígnios convencionais. e em função da incompreensão de seu texto, pois, como declarou ao jornal Fo- de S.Paulo por ocasião dos 70 anos de Raízes do Brasil, nunca negou tratar-se Vale destacar que, embora Antonio Candido dedique um parágrafo para de "um relato pessoal de muito menos haver "livros tão impor- cada uma das três obras citadas, comentando sucintamente o valor de suas con- tantes antes e depois dessa tríade nascida sob o governo de Getúlio Vargas". tribuições para o conhecimento do Brasil, sua preocupação é, o tempo todo, Algo óbvio, sem dúvida, mas que não o impediu de "ter sido cobrado até 'por sugerir a "atmosfera intelectual" em que apareceu livro de estreia de Sérgio pessoas de responsabilidade' pela ausência deste ou daquele livro no suposto Buarque, para, a partir daí, caracterizar suas inovações metodológicas, teóricas panteão do pensamento social brasileiro" (Cariello e Colombo, 2006). e interpretativas isto é, discutir "o significado de Raízes do Brasil", como anun- Desnecessário dizer que o problema dessas leituras não está na valorização ciava o título de seu texto. Nesse sentido, seu exercício de memória, por mais do trio de autores e obras destacado por Antonio Candido, cuja importância que tivesse a pretensão de servir como testemunho de uma geração, ou melhor, é inegável, como o próprio crítico, em primeiro lugar, reconhece ainda hoje. o de um grupo que então adotava posições políticas de esquerda (pois ele mesmo problema está, sim, na cristalização de seus nomes, bem como dos de outros264 ESTUDOS DE HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA A DÉCADA DE 1930, ENTRE A MEMÓRIA E A HISTÓRIA DA HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA 265 autores preocupados em discutir as questões de seu tempo, "num lugar atem- identidade e legitimidade, e isto, por mais que pareça natural, envolve escolhas, poral, como interpretação definitiva", para citar novamente a professora Stella interesses e disputas próprios aos jogos de poder. Bresciani (2005:16), para quem "considerar seus textos interpretações canôni- Quanto ao segundo aspecto diretamente relacionado ao primeiro -, cas constitui, a meu ver, uma traição a eles".¹ Ao jogar por terra, ainda que de não é sensato imaginar que esses nossos modernos" tenham apareci- modo involuntário, a própria dinâmica da história que os envolve, tal proce- do e se afirmado por obra e graça da genialidade de seus autores, apenas. Uma dimento acaba por ocultar, a um só tempo, tanto a trajetória diferenciada de crítica recente vinda do campo dos estudos literários é, aqui, muito útil para cada uma das obras desde o seu lançamento quanto a riqueza e a diversidade pensar essa questão: em seu trabalho sobre o romance brasileiro produzido da produção historiográfica brasileira no momento em que surgiram. na mesma década-chave de 1930, Luís Bueno também se mostra incomodado No primeiro caso, o que cabe aqui destacar é que tais livros, ao contrário com os cânones habituais de nossa literatura, em que Guimarães Rosa e Clari- do que diz o prefácio de Antonio Candido, não "nasceram" clássicos, e sim "se ce Lispector figuram, invariavelmente, em posição de destaque; de seu diálogo tornaram" clássicos, banalidade raramente levada em conta nas abordagens com autores como Silviano Santiago e Flora Sussekind, então, despontam os habituais a seu respeito. Há que se notar, assim, que os três tiveram uma re- seguintes comentários: cepção crítica diferenciada, tanto em seu próprio momento quanto posterior- mente, e, portanto, seus "impactos intelectuais" (outra expressão de Candido) Textos como estes, escritos por estudiosos bem postados, elaboram variaram, e muito, com o tempo até a sua consagração definitiva, ou mais que isso dão forma a uma espécie de lugar-comum da his- Tal dinâmica, em termos muito amplos, corresponde às demandas do pensar tória literária brasileira nesta virada de século, que, mais que canonizar o Brasil no decorrer do século XX, ao longo do qual nossa historiografia pro- Clarice Lispector e Guimarães Rosa como os grandes nomes da nossa gressivamente se aproxima "aos parâmetros acadêmicos de produção do ficção no século XX, tende a isolá-los como se, demiurgos de si mesmos, nhecimento histórico, acompanhando a afirmação dos próprios cursos supe- pairassem isolados sobre nosso ambiente literário, totalmente desco- riores de História e a consequente especialização por ela acarretada" (Franzini nectados das experiências anteriormente feitas no campo da prosa em e Gontijo, 2009:159); em outras palavras, à medida que entre nós se afirma a nossa sempre criticável tradição literária. historiografia acadêmica, profissional, afirma-se também o panteão que lhe dá A questão a se colocar é se de fato esses escritores têm a força de, para além de tirar do nada suas obras, conseguir legitimá-las num ambiente Ainda a respeito de tal cristalização, que consagra alguns nomes ao mesmo tempo que trai o seu pensa- literário totalmente estranho a elas, ou se, ao contrário, a leitura que se mento, a importância do tema faz com que valha notar uma arguta observação de Nicolau Sevcenko em faz da tradição da prosa brasileira de ficção não tem deixado de lado sua entrevista para livro Conversas com historiadores brasileiros: de acordo com ele, "hoje os nomes daquela experiências importantes, de forma a dar a falsa impressão de que Gui- primeira geração republicana são grandes referências, tidos como os intelectuais que estão na gênese do pensamento brasileiro contemporâneo. Mas isso fez com que eles passassem da posição de gente empur- marães Rosa e Clarice Lispector são casos absolutamente isolados, ver- rada para as margens, diante de uma elite que era refratária ao que eles tinham a dizer, para serem repen- dadeiros meteoros caídos sobre nós para extinguir velhos dinossauros e tinamente catapultados para a condição que Machado de Assis definiu tão bem de 'medalhão'. que também neutraliza pensamento deles, porque os envolve em uma celebração que os torna palatáveis iniciar uma era povoada de outros animais (Bueno, 2006:18). para todos os conservadores e instituições conservadoras, e elemento radical daquele pensamento passa a ser mero detalhe decorativo. Consagrar os professores Sérgio Buarque, Caio Prado, Florestan Fernandes, ou Euclides da Cunha, Lima Barreto, é algo diverso e até contrário a levar às últimas consequências o con- No caso da historiografia produzida nos anos 1930, a sua redução a Gil- teúdo crítico da militância intelectual deles. É um percurso lamentável. nome está presente, a imagem, berto, Sérgio e Caio raramente dá a devida atenção ao multifacetado conjunto mas como 'medalhão' e não como geratriz fertilizadora do debate intelectual, que foi todo ele mutilado, castrado". Moraes e Rego (2002:344). no qual eles se inserem e que dá sentido à sua própria produção. A melhor266 ESTUDOS DE BRASILEIRA A DÉCADA DE 1930, ENTRE A MEMÓRIA E A HISTÓRIA DA HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA 267 expressão desse conjunto talvez se encontre na proliferação de coleções dedi- próprio Freyre: podia-se ouvir ali com facilidade ecos de Casa-grande & senzala cadas a abrigar estudos os mais variados sobre a nossa formação, que ficariam e de Sobrados e mocambos, a começar da atenção dedicada ao caráter histórico de conhecidas por um nome tão genérico quanto sugestivo, "brasilianas", tomado memórias, biografias, livros de viagem e toda "uma variedade de material em de empréstimo da primeira delas, lançada em 1931 pela Companhia Editora grande parte ainda virgem" (Freyre, 1936a:V). Também a "história do Nacional.² Entre elas, a série mais representativa da preocupação da época com Brasil, reivindicada na abertura de sua primeira obra, reaparecia na referência a história do Brasil, bem como das novas abordagens e novos discursos que àqueles "que procuram conhecer o passado brasileiro na sua maior intimidade" então se produziam a seu respeito, foi construída pela Livraria José Olympio (Freyre, 1936a:VI). Ou então o acento no caráter diversificado da história e na Editora: a Coleção Documentos Brasileiros. primeiro volume, Raízes do Bra- necessidade de abordá-la com "humildade diante dos fatos", porém sem deixar sil, do jovem crítico e professor Sérgio Buarque de Holanda, apareceu em fins de quebrar a sua rigidez para assim "humanizá-los", ideias essas que perpassa- de 1936, com um prefácio de seu diretor, o não menos jovem Gilberto Freyre, vam todos os textos em questão, ora de modo explícito, ora implícito. que apresentava os propósitos do empreendimento o principal deles, Por conseguinte, nada mais lógico que os nomes elencados, no mesmo texto de apresentação, como colaboradores da coleção tivessem também gran- trazer ao movimento intelectual que agita o nosso país, à ânsia de intros- de afinidade intelectual ou profissional com seu diretor. Tal qual Sérgio Bu- pecção social que é um dos traços mais vivos da nova inteligência brasi- arque, muitos deles eram seus amigos pessoais, como Octávio Tarquínio de leira, uma variedade de material, em grande parte ainda virgem. Desde Sousa, Olívio Montenegro, Afonso Arinos de Melo Franco, entre outros. Al- o inventário à biografia; desde o documento em estado quase bruto à guns, inclusive, já haviam merecido menção nos trabalhos anteriores de Freyre, interpretação sociológica em forma de ensaio (Freyre, 1936a:V). tanto pela ajuda e amizade quanto pela importância de seus estudos em desen- volvimento, os mesmos que agora se anunciavam para breve na Documentos A essência da nova coleção revelava-se em seu comprometimento com Brasileiros. Dos que não eram tão próximos, havia pesquisadores notórios pelo aquilo que trazia já no próprio nome, e várias vezes repetido no texto de apre- seu domínio de temas específicos, em geral mais velhos e institucionalmente sentação: o "documento". Desencavado do passado ou produzido no presente, estabelecidos, como Rodolfo Garcia e Afonso Taunay; professores investigado- em "estado quase bruto" ou analisado de forma criteriosa, ele estaria na base res ligados às modernas ciências sociais e ao meio acadêmico, casos de Heloisa dos trabalhos a serem publicados, como era dito praticamente a cada parágrafo. Alberto Torres e de Donald Pierson; e até mesmo um autor duramente cri- propósito era, parece claro, a afirmação de um conhecimento "verdadeiro" ticado em Casa-grande & senzala, Oliveira Vianna. Finalmente, mesmo os "es- sobre o Brasil, do conhecimento do Brasil "real", fundamentado não em recons- trangeiros como Nash, Koch-Grünberg, Guenther, Normano, Deffontaines, truções ou especulações superficiais e estéreis, e sim em interpretações "com- Martin" (Freyre, 1936b:VIII-IX), cujas obras se pretendia traduzir, podiam ser prováveis" a seu respeito. Numa palavra, tratava-se de afirmar o conhecimento encontrados quase todos pelas páginas dos dois livros de Freyre, a ajudá-lo a "científico" sobre o Brasil, elaborado por "especialistas" que davam "vida" aos fundamentar suas análises. documentos para juntá-los "à história social do brasileiro" (Freyre, 1936a:VII). A arquitetura da coleção mostrava-se, portanto, uma bem planejada exten- Não era difícil, assim, perceber o quanto tal perspectiva emulava o trabalho do são da casa-grande intelectual construída pelo historiador-sociólogo pernam- bucano, algo que a sucessão dos volumes nos anos seguintes só confirmaria. Como diz o antropólogo Gustavo Sorá (s.d.:11, nota 9), "brasiliana es una palabra que baliza la historia del Gilberto Freyre, portanto, podia ser e era um grande inovador nos estudos libro en el Indica el principio más poderoso para organizar colecciones con aquellos libros que deben ser leídos para conocer al Brasil. Denota una biblioteca metafórica del país, donde un lector foráneo, por ejemplo, pueda, de un golpe, sobre a formação da sociedade brasileira, mas não se mostrava disposto ao iso- tener toda la cultura nacional a su alcance". lamento. Tanto que, mesmo após abrir mão, surpreendentemente, da direção268 ESTUDOS DE HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA A DÉCADA DE 1930, ENTRE A MEMÓRIA E A HISTÓRIA DA HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA 269 da série em meados de 1938, ele não deixaria de influenciar seus rumos, fosse perfis mais vivos e humanizados, o qual fundamentava, desde pelo menos fins por meio de seu prestígio ou por meio da amizade que o ligava ao editor José da década de 1920, uma verdadeira "epidemia segundo o crítico Olympio e ao novo diretor, Octávio Tarquínio de Sousa. Tristão de Athayde. A saída de Freyre e a entrada de Tarquínio, contudo, deram novos rumos A expressão, cunhada para designar "a expressão do estado de espírito ao empreendimento editorial da Documentos Brasileiros, revelando outra fa- da época, um estado marcado por uma grande tendência à realidade", segundo ceta marcante da nossa historiografia à época. Intelectual respeitado e histo- Marcia de Almeida Gonçalves, levou esta historiadora a indagar se a prepon- riador dedicado ao estudo do Primeiro Reinado, Octávio Tarquínio de Sousa, derância do gênero na coleção da José Olympio após 1939 teria sido re- tal como o autor de Casa-grande & senzala, também tinha interesse em projetar sultado dos gostos e escolhas do diretor da Documentos Brasileiros, na época sobre a coleção as suas concepções acerca do conhecimento do Brasil, em geral, ele mesmo um biógrafo cujos trabalhos integraram a coleção, ou se nesse fato e da história, em particular, as quais passavam pela valorização da biografia encontraríamos porventura as marcas de um tempo ávido por narrativas de como gênero historiográfico. Para ele, o biógrafo tinha a obrigação de empre- vida" (Gonçalves, 2003:238). Diante do exposto, uma possível resposta poderia ender uma contextualização rigorosa, sempre fundamentada em documentos, afirmar que as opções não são excludentes, e sim "complementares": ao que a fim de entender o indivíduo, suas ações, suas contradições, sem sobrepô-lo tudo indica, os interesses da época foram filtrados pelos "gostos e escolhas" a seu tempo ou consagrar-lhe características "heroicas" algo muito distan- de Tarquínio, forçosamente associados às propostas originais da coleção. Mas te das tradicionais narrativas laudatórias dos "grandes feitos de grandes ho- é importante notar também que a atenção às particularidades e aos funda- mens", comumente produzidas tanto por historiadores quanto por literatos, mentos do trabalho do historiador tornava Octávio Tarquínio de Sousa uma e em sintonia com autores que, em diferentes lugares, empenhavam-se pela exceção, tanto em meio à grande produção de biografias do período quanto renovação do próprio gênero.³ diante do tradicional personalismo cultivado no âmbito do Instituto Históri- Assim, com sua ascensão ao comando da Documentos Brasileiros, as bio- e Geográfico Brasileiro. Mesmo entre os muitos títulos que ele próprio aco- grafias ganharam grande peso: nos cinco anos seguintes, 13 dos 29 volumes lhia, poucos conseguiam alcançar semelhante reconhecimento, e não é casual lançados seriam de caráter biográfico ou memorialístico, de André Rebouças que estes fossem, em geral, escritos por literatos sobre outros literatos, como através de sua autobiografia, de Inácio José Veríssimo (com prefácio dele mesmo, A vida de Lima Barreto, de Francisco de Assis Barbosa, ou a reedição do Machado Tarquínio), ao Rio Branco do crítico Álvaro Lins, passando por dois livros seus, Diogo Antônio Feijó, de 1942, e José Bonifácio, de 1945. Ao prefaciar um desses de Assis de Lúcia Miguel-Pereira; independentemente do tratamento que davam lançamentos, as Minhas recordações, de Francisco de Paula Ferreira de Rezende ao passado, livros assim eram tidos a priori como pertencentes a um ramo "es- pecífico", portanto diferente, da história: a história "da vertente (1944), o próprio Tarquínio assumia (1944:21) que, "tendo lido originais, animei quanto pude a sua inclusão na Brasileiros', do editor José Olympio", por ser "autenticamente um documento de homem, de vida, de fa- Obviamente, a história literatura" (como a história de qualquer outra coisa) é, antes de tudo, "histó- tos do Brasil", em perfeita consonância com o espírito da coleção, que já reunia ria". No entanto, a relação entre ambos os campos foi historicamente percebida no sentido inverso: como lembra Fernando Novais (2002:181), "o historiador procura reconstituir a realidade, por isso a história "nesse gênero de literatura algumas obras de incontestável E em como discurso [isto é, como narrativa do acontecer humano] é uma utopia. É a ideia de que só é possível perfeita consonância também com o interesse dos intelectuais e do público por recriar o mundo no texto o que, evidentemente, talvez só seja possível na arte, ainda que de modo muito específico. Por isso que a história, até o começo do século XX, é parte da literatura. Se se tomar as histórias da literatura até a Belle Époque, todas têm capítulos referentes à historiografia. Os períodos são marcados por estilos, e dentro de cada estilo estuda-se 'poesia', 'romance', 'teatro' (antigamente Todas as referências sobre Octávio Tarquínio de Sousa aqui apresentadas baseiam-se no imprescindível ria'. A partir do século XX sai a Por que ela foi excluída? Porque os historiadores começaram trabalho de Gonçalves (2003). dizer que eram270 ESTUDOS DE HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA A DÉCADA DE 1930, ENTRE A MEMÓRIA E A HISTÓRIA DA HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA 271 também bastante contemplada pela coleção, da reedição de clássicos como a Curioso é que, enquanto tal frágil "história das ideias" encontrava abrigo História da literatura brasileira de Sílvio Romero e de José Veríssimo à produção nos volumes da Documentos Brasileiros, outra novidade, esta mais abrangente dos novos, como Pedro Calmon, Luís da Câmara Cascudo e, mais uma vez, e muito melhor definida, seria ignorada pela coleção: o marxismo. Delibera- Lúcia Miguel-Pereira. damente ignorada, talvez seja possível dizer, já que desde o início da década Mas nem só de uma "nova" história, de inspiração freyriana, e do biográfico de 1930 nossos circuitos intelectuais mostravam-se atentos à emergência da viveu a Documentos Brasileiros. Uma história dita "das ideias", por exemplo, interpretação materialista da história do Brasil, como demonstrava a intensa também desponta aqui e ali na coleção, reivindicada em momentos distintos difusão de obras marxistas, clássicas e contemporâneas, em geral realizada por por alguns autores sem qualquer articulação entre si. primeiro a trilhar esse pequenas editoras e com sucesso comercial considerável, segundo Edgard Ca- caminho foi Afonso Arinos de Melo Franco, com O índio brasileiro e a Revolução rone (2004:63). Nada disso, contudo, tornaria a Documentos Brasileiros sensí- Francesa, publicado logo no início da série, em 1937. Vinte anos depois, a expres- vel a autores comprometidos com a interpretação materialista da história e da são "história das ideias" voltaria a aparecer, desta vez já no título do livro de realidade, algo que decerto não deve ser creditado a um possível conservadoris- João Cruz Costa, Contribuição à história das ideias no Brasil, cujo complemento, mo, muito menos reacionarismo, do editor. De postura liberal, José Olympio desenvolvimento da filosofia no Brasil e a evolução histórica nacional", delineava era um dos principais fomentadores do novo e crítico romance social que sur- melhor o seu conteúdo. No ano seguinte, o volume A democracia coroada, de João gia à época no país, e ainda daria guarida profissional a autores assumidamen- Camilo de Oliveira Torres (1958:15), aparecia com a pretensão de, te de esquerda perseguidos pela ditadura do Estado Novo, como Graciliano Ramos e Jorge Amado. Ademais, a crescente tensão política entre 1935 e 1937 dentro dos métodos e intenções da disciplina que se intitula a "história e, depois, a institucionalização da censura fizeram-no sofrer bastante com a das ideias", analisar os diferentes sistemas ideológicos que exerceram violência contra a livre manifestação da cultura e do pensamento, que reta- influência no Brasil, seja em seu desenvolvimento político, como no liava tanto os romances tidos por "comunistas" que publicava quanto as suas caso presente, seja na formação espiritual, seja ainda na vida religiosa edições de livros integralistas, os quais defendiam "o tipo errado de fascismo" ou social. (Hallewell, 2004:455). Como hipótese, talvez seja possível atribuir tal ausência ao perfil de seus longo hiato temporal a separar tais estudos, bem como as discrepâncias respectivos diretores. No caso de Gilberto Freyre, sua reticência ao materialismo entre suas perspectivas analíticas indicam bem como aqui no Brasil a então histórico-dialético se explicitara já às páginas iniciais de Casa-grande & senzala, nascente "história das ideias" encontrava um eco fugidio e ambíguo como sua onde, apesar de não ser negado de todo, fora caracterizado como "tantas vezes própria identidade, formulada de diferentes maneiras em diversas tradições exagerado nas suas generalizações principalmente em trabalhos de sectários historiográficas, da Geistesgeschichte alemã à history of ideas de Arthur Lovejoy. e fanáticos" (Freyre, 1936b:XI). Já com relação a Octávio Tarquínio, sua pre- Antes de representar uma tendência bem delineada da nova historiografia bra- sileira, ela funcionava muito mais como um rótulo para classificar trabalhos de dileção pelo biográfico necessariamente implicava algumas diferenças ante a temática pouco usual, que talvez não se encaixassem bem nos compartimentos interpretação materialista da história. Estas, no entanto, não colocavam em estabelecidos por nossa própria tradição. Ambos os fatores faziam com que franca oposição ao marxismo, até porque seu propósito era sempre, como já tais autores reivindicassem novos olhares para novas facetas do passado brasi- foi notado, o de entender o homem em si mesmo e em relação com seu meio leiro, em sintonia com o movimento maior da historiografia ocidental, é certo, e seu momento; como constatou Marcia de Almeida Gonçalves ao analisar a todavia ainda marcados, em maior ou menor grau, por uma forma historicista, introdução à História dos fundadores do Império do Brasil, em que próprio Marx ou historicizante, de abordar ideias e autores (Falcon, 1997). é discutido por Tarquínio, para ele luta de classes não implicava a negação272 ESTUDOS DE HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA A DÉCADA DE 1930, ENTRE A MEMÓRIA E A HISTÓRIA DA BRASILEIRA 273 da interferência de grandes personalidades, dotadas de qualidades morais e in- nossa historiografia e reencontrarmos a sua vitalidade, o que significa reen- telectuais, no desenvolvimento das sociedades" (Gonçalves, 2003:290). Mesmo contrar a sua própria história. E aqui, para finalizar, vale retomar que diz assim, a tolerância muito maior que a de Freyre não foi suficiente para abrir a Luís Bueno (2006:13), coincidentemente inspirado por uma autora daqueles coleção à esquerda. tempos (Lucia Miguel-Pereira), acerca das possibilidades de "outra" história Em contrapartida, uma historiografia mais tradicional fazia-se muito da literatura brasileira: presente entre seus volumes e "tradicional", aqui, nada tem de pejorativo, antes refere-se à permanência e predominância de certos traços característi- Ao invés de tentar um amplo painel que desse conta da evolução da da produção historiográfica oitocentista, como o foco em personagens e literatura, o historiador poderia trabalhar mais extensivamente sobre acontecimentos políticos e a sobreposição aparentemente acrítica de nomes, um momento dessa evolução. Dessa maneira, é possível romper o fatos e datas. Além e a despeito disso, mesmo nelas aparecem mudanças con- culo dos "principais" autores, sempre confundidos com os "melhores" sideráveis em relação à forma pela qual se recupera passado, bem nítidas autores, e voltar os olhos para escritores cuja obra, embora possa ser em alguns casos, quase imperceptíveis em outros. Tomadas em conjunto, tais vista num determinado momento como falhada, representou esforço abordagens espelhariam, como há tempos escreveu José Roberto do Amaral significativo e, mesmo, muitas vezes, definidor das letras do seu tempo. Lapa (1976:74), a continuidade da história événementielle, mas agora preocu- A restrição aos "melhores" favorece o hábito de fazer da história literá- pada e atenta ao revisionismo do passado estabelecido, algo que a levava mes- ria um repisar das mesmas ideias sobre os mesmos autores, uma vez que mo a se abrir a novas questões e a novos temas de nossa história. Neste caso seu escopo já aparece predefinido, em função do que valeria a pena ou inserem-se títulos como História da Casa da Torre, de Pedro Calmon (1939), A não ler. Ora, antes de ler efetivamente, é impossível saber se, para um grande vida de Fernão Dias Paes, de Afonso d'Escragnolle Taunay (1955), Ensaios determinado trabalho de história literária, vale a pena ou não ler esta ou sobre a história política e administrativa do Brasil (1500-1810), de Rodolfo Garcia aquela obra que, para alguém que trabalhou em outra perspectiva, anos (1956). Neles se expressa o alto grau de especialização de historiadores já "pro- antes, ficou claro que não valia. fissionais", que, inseridos em instituições de ensino e pesquisa, não apenas faziam do estudo, do ensino e da divulgação do passado o seu trabalho como Substituindo, na citação acima, "literatura" por "historiografia", "letras" ainda eram publicamente reconhecidos por ele. Suas obras, nesse sentido, por "história" e "história literária" por "história da só resta subscrevê-la. eram coesas e articuladas com uma linha teórico-metodológica bem definida e cumprida à risca, apoiando-se em rigorosa pesquisa e farta documentação, como ensinara mestre de todos os três, Capistrano de Abreu. Só isso já im- Referências plicava necessariamente novos enfoques sobre a história pátria, fazendo com que os temas e as abordagens pudessem ser "tradicionais" à primeira vista, ARANTES, Paulo Eduardo. Providências de um crítico literário na periferia do ca- mas, pelas aberturas neles encontradas, bem como pelas sugestões que deixa- pitalismo. In: ARANTES, Otília Beatriz Fiori. Sentido da formação. Três vam, incitassem a historiografia brasileira à renovação. estudos sobre Antonio Candido, Gilda de Mello e Souza e Lúcio Costa. Rio de Este rápido e sintético painel indica, portanto, o quão complexo era o ce- Janeiro: Paz e Terra, 1997. 7-66. nário historiográfico nacional na década de 1930, cuja configuração, em suas linhas mestras, estende-se pelo menos até fins dos anos 1950. Atentar a tal BRESCIANI, Maria Stella Martins. O charme da ciência e a sedução da objetividade. Oli- complexidade pode ser a chave para fugirmos à memória consagrada sobre a veira Vianna entre intérpretes do Brasil. São Paulo: Unesp, 2005.BUENO, Luís. Uma história do romance de 30. São Paulo: Edusp, Unicamp, 2006. NOVAIS, Fernando. Influências e invenção na sociologia brasileira (comentário CANDIDO, Antonio. A Revolução de 1930 e a cultura. Novos Estudos, São Paulo, V. 2, crítico). In: MICELI, Sergio (Org.). que ler na ciência social brasileira, 1970-2002. São n. 4, P. 27-36, abr. 1984. Paulo: Anpocs, 2002. 175-182. significado de Raízes do Brasil. In: HOLANDA, Sérgio Buarque de. SORÁ, Gustavo. La casa y la empresa. 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Lá estão Cairu, Cunha Barbosa, Varnhagen, Cunha Mattos, Capistrano de Abreu, João Baptista de Lacerda, Octávio Tarquínio, Henri Hauser, Gilberto Freyre, Caio Prado, Sérgio Buarque, Celso Furtado, José Honório Rodrigues e, para diluir um pouco do monopólio masculino, um perfil de Gilda Zamorano Marinho. O pacote se completa com duas reflexões imperdíveis que ajudam a iluminar parte deste quarto escuro e um tanto misterioso que é a hermenêutica histórica. Esta publicação é muito bem-vinda, pois a crítica historiográfica a forma mais sublime de autocrítica exercida pelos historiadores não pode esconder-se nem limitar-se ao exercício profissional, mas servir como uma das mais legítimas aberturas da própria história ao escrutínio público contemporâneo. Este livro foi produzido nas Elias Thomé Saliba oficinas da Imos Gráfica e Editora na cidade do Rio de Janeiro PROFESSOR TITULAR DE TEORIA DA HISTÓRIA NA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO (USP)