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## Resumo sobre Magia, Religião e Arte Médica entre os Tsongas do Sul da ÁfricaEste capítulo aborda a complexa relação entre Religião, Magia e Ciência nas tribos do sul da África, especialmente entre os Tsongas, destacando as práticas médicas indígenas e sua interpenetração com elementos mágicos e religiosos. O autor inicia definindo os termos para melhor compreensão: **Religião** envolve ritos e crenças em espíritos pessoais ou semipessoais com atributos divinos, com os quais o homem busca comunicação para obter ajuda ou evitar punições, geralmente por meio de oferendas e preces. Já a **Magia** compreende ritos e práticas que visam influenciar forças naturais ou espirituais, sejam elas hostis, neutras ou favoráveis, podendo ser dividida em magia branca (proteção e benefício próprio) e magia negra (uso contra terceiros). Por fim, a **Ciência** é entendida como práticas baseadas na observação factual, incluindo tratamentos médicos e conhecimentos sobre botânica e zoologia. Contudo, na prática, esses domínios se misturam profundamente: a religião é permeada por magia, a magia incorpora elementos religiosos, e a ciência é invadida por concepções mágicas, o que se reflete na complexidade dos indivíduos que praticam a arte médica, como o n'anga (médico indígena), o mungoma (curandeiro) e o wavu/a (adivinho).### A Arte Médica Indígena: Médicos, Práticas e ConhecimentosA arte médica entre os Tsongas é um campo fascinante, tanto do ponto de vista etnográfico quanto prático. Os médicos indígenas, chamados n'anga, geralmente herdam seus conhecimentos de antepassados, transmitidos de pai para filho ou sobrinho, o que faz com que a competência varie muito entre eles. Alguns são especialistas em doenças específicas, como Sam Ngwetsa, que tratava apenas doenças infantis, ou outros que cuidam de casos delicados como a mãe dos gêmeos ou a lepra. Entre os mais renomados está Kokolo, que pertence a uma família tradicional de médicos, e Mankhelo, considerado um mestre da profissão, que além de médico, é adivinho, fazedor de chuva e conselheiro da tribo.A preparação dos remédios envolve uma complexa manipulação de plantas e raízes medicinais, chamadas murhi, que possuem um caráter sexual importante: drogas "machos" são usadas para tratar doenças, enquanto as "fêmeas" são aplicadas em contextos militares ou rituais. O processo de renovação das drogas, realizado anualmente, envolve rituais para "revitalizar" o poder das mezinhas, incluindo sacrifícios, preces e descarte simbólico das drogas antigas em encruzilhadas, para que as forças negativas sejam levadas embora pelos transeuntes. Embora algumas práticas possam ter base científica — como o uso de ervas com propriedades medicinais comprovadas — a linha entre ciência e superstição é tênue, e a medicina indígena frequentemente se mistura com magia e crenças espirituais.### Práticas Médicas e Tratamentos: Entre o Científico e o MágicoOs tratamentos médicos indígenas abrangem desde o uso de ervas e decocções até práticas que lembram técnicas modernas, como a ventosa e o banho de vapor (phungulu), mas também incluem rituais e manipulações simbólicas. A cirurgia é vista com desconfiança e praticada de forma rudimentar, muitas vezes causando mais danos do que benefícios, como no caso da extração de dentes, que pode resultar em ferimentos graves. Para doenças comuns, como dores de cabeça, cólicas, disenteria, bronquite, hidrocele, gonorreia, tuberculose e lepra, os n'angas utilizam diversas combinações de raízes e plantas, aplicadas por via oral, tópica ou por inalação.Um exemplo notável é o tratamento da varíola, que inclui a prática da inoculação para provocar uma forma mais branda da doença, acompanhada de tabus rigorosos e rituais de purificação para evitar a forma grave e hemorrágica. A doença é personificada como um inquisidor que pune os pecadores, especialmente os praticantes de feitiçaria, e a confissão é parte do tratamento. Após a cura, ritos de limpeza e renovação são realizados para reintegrar o paciente à comunidade, incluindo a troca do chão das palhotas e o descarte ritual dos objetos contaminados.Além disso, doenças nervosas como melancolia, delírio, epilepsia e demência são tratadas com remédios que combinam elementos naturais e rituais simbólicos, como a confecção de imagens de macacos para expulsar a doença. Em casos graves, o tratamento pode incluir restrições severas, como o uso de peias que levam à morte do paciente, refletindo a visão fatalista sobre certas enfermidades.Por fim, a cerimônia do hondlola, um rito de purificação e reintegração após a doença, envolve sacrifícios e preces aos deuses, simbolizando a dispersão do sangue e da poluição causada pela enfermidade. Essa cerimônia é fundamental para restaurar o equilíbrio espiritual e social do paciente e da comunidade.---### Destaques- A distinção entre Religião, Magia e Ciência entre os Tsongas é tênue, com forte interpenetração entre esses domínios.- A arte médica indígena é hereditária, variando em competência e especialização, e combina conhecimentos práticos com elementos mágicos e religiosos.- As drogas medicinais (murhi) possuem caráter sexual e são renovadas anualmente por meio de rituais complexos.- Tratamentos incluem desde ervas medicinais e decocções até rituais simbólicos, como a ventosa, banho de vapor e cauterização.- Doenças como varíola e enfermidades nervosas são tratadas com práticas que envolvem tabus, confissões e ritos de purificação para reintegração social.

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