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Resumo O objetivo do artigo é interrogar como novas figurações do futuro vêm estrutu- rando as formas de temporalização na sociedade contemporânea. Para isso, em primeiro lugar, realizo uma discussão acerca das condições de enunciação des- sa experiência, marcada aqui pela passa- gem do “fim da história” para o “tempo do fim”. Em especial, sugiro como chave heurística uma distinção entre condição de historicidade e regime de historicida- de. A partir disso, apresento, como es- tratégia de análise dessa nova condição de historicidade e de uma nova imprevi- sibilidade do futuro, a investigação de novos regimes de antecipação, entendi- dos aqui como formas emergentes de temporalidade. Por fim, realizo uma breve análise de três dos principais con- ceitos desses novos regimes de antecipa- ção – precaução, preempção, preparação –, indicando algumas de suas caracterís- ticas que podem permitir dar a ver a ela- boração e a disputa de regimes de histo- ricidade potenciais. Palavras-chave: Temporalidade; Futuro; Historicidade; Mudança climática. Abstract The aim of this article is to examine how new representations of the future have structured forms of temporalization in contemporary society. To this end, I first discuss the conditions of enunciation of this experience, marked here by the tran- sition from the “end of history” to the “ti- me of the end.” In this regard, I suggest as a heuristic key a distinction between the condition of historicity and the regime of historicity. From this, I present, as a stra- tegy for analyzing this new condition of historicity and a new unpredictability of the future, the investigation of new regi- mes of anticipation, understood here as emerging forms of temporality. Finally, I conduct a brief analysis of three of the main concepts of these new regimes of anticipation – precaution, preemption, preparedness – indicating some of their characteristics that may allow us to see the elaboration and dispute of potential regimes of historicity. Keywords: Temporality; Future; Histori- city; Climate Change. Dossiê: A escrita da História: Quais futuros? – Revista Brasileira de História. São Paulo, v. 46, 2026 e-299928 – http://dx.doi.org/10.1590/1806-93472025v46-928 Habitar o imprevisível: abertura do futuro, temporalidades emergentes e regimes de historicidade potenciais Inhabiting the Unpredictable: Openness of the Future, Emerging Temporalities and Potential Regimes of Historicity Rodrigo Turin*,** * Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), Rio de Janeiro, RJ, Brasil. rodrigoturin@ gmail.com ** Essa pesquisa contou com fomento do CNPq e da FAPERJ. Rodrigo Turin 2 Cada vez mais vai ficando evidente que o futuro não é mais o que era (Novaes, 2013). Mas dizer que o futuro não é mais o que era não implica em dizer o que (ou como) ele será. Se “o futuro não pode começar”, como afirmou Luhmann em artigo clássico, é justamente porque não é possível chegar a ele. Esse futuro, entendido como um horizonte de temporalização, se coloca ao presente sempre e apenas como uma instância que estrutura suas possibilida- des de escolhas e que, assim, o move à ação (Luhmann, 1976, p. 146). Nesse sentido, se o futuro não pode começar, é também porque ele está constante- mente no limite de ser iniciado. O objetivo desse artigo é, justamente, interro- gar como estamos figurando esses inícios do futuro hoje, ou seja, os modos como novas figurações do futuro vêm estruturando as formas de temporaliza- ção na sociedade contemporânea. Para isso, em primeiro lugar, realizo uma discussão acerca das condições de enunciação dessa experiência, marcada aqui pela passagem do “fim da história” para o “tempo do fim”. Em específico, sugiro como chave heurística uma distinção entre condição de historicidade e regime de historicidade, como forma de lidar com o hiato que vivemos entre as novas experiências e os limites das linguagens herdadas. A partir disso, apresento como estratégia de análise dessa nova condição de historicidade e de uma nova imprevisibilidade do futuro a investigação de novos regimes de antecipação, entendidos como formas emergentes de temporalidade. Por fim, realizo uma breve análise de três dos principais conceitos desses novos regi- mes de antecipação – precaução, preempção, preparação –, indicando algu- mas de suas características que podem permitir dar a ver a elaboração e a disputa de regimes de historicidade potenciais. 1. Do fim da história ao tempo do fim: regime de historicidade e condição de historicidade O tema do fim da história tem uma longa tradição. Em seu sentido am- plo, de matriz escatológica, é possível encontrar esses topos presente em dife- rentes tradições religiosas, em vertentes apocalípticas, em milenarismos de to- da ordem, podendo implicar tanto o horizonte de superação da dualidade entre a condição terrena e o transcendente, como um momento axial de reno- vação e transformação do mundo e de seus habitantes – nesse caso, longe de ser único, o fim da história é plural e recorrente (Bull, 1995; Danowski; Vivei- ros de Castro, 2014). Em sentido mais estrito, no entanto, o tema do fim da história está dire- Habitar o imprevisível 3 tamente vinculado ao próprio surgimento do conceito moderno de história, marcado pelas suas dimensões processual, singular e exclusivamente humana. Se a história da humanidade é entendida como um processo singular, isso im- plica em dizer que ela tem um início e, consequentemente, é marcada por um fim – compreendido aqui como uma finalidade. A teleologia e a singularidade andam de mãos dadas. Na tradição do gênero “filosofia da história”, desde o fi- nal do século XVIII, uma série de termos da história foram sendo elaborados, amarrando a relação entre sentido e fim. Temporalizar a história, desse modo, implicava em dar um sentido ao fim (Koselleck, 2004). Porém, para além dessa forma de fim da história intrínseca ao próprio funcionamento do conceito moderno, há uma outra forma de fim que come- çou a ganhar maior visibilidade a partir de meados do século XX e que se mos- tra mais relevante para a nossa experiência contemporânea. Nessa outra for- ma, a relação entre fim e sentido muda de figura. Se, para o conceito moderno, o fim da história era algo a ser perseguido, buscado, mesmo acelerado em sua realização, essa outra forma de fim da história que emergia implicava em um fim a ser evitado, atrasado, postergado, requalificando tanto o presente como o passado. O surgimento da ameaça nuclear no pós-guerra, assim como a ace- leração da catástrofe climática e ambiental a partir das últimas décadas do sé- culo XX, tiveram (e vêm tendo) impactos profundos nos modos de figuração do futuro. Aqui, é o futuro que surge como um fim sem sentido, implodindo a temporalização singular, processual e exclusivamente humana da história dos modernos. A principal diferença é que essa outra forma de fim da história abria uma nova condição histórica ou, como sugiro aqui, uma nova condição de histori- cidade. Agora, o fim se expressava como o horizonte imediato de rompimento da própria possibilidade de toda e qualquer historicidade humana. Um dos primeiros autores ocidentais a tematizar essa nova forma de termo da história foi Gunther Anders, em suas reflexões sobre a ameaça atômica (Anders, 2011). Para Anders, a partir do momento em que a humanidade se tornou capaz, gra- ças ao seu domínio técnico, de pôr um fim a si mesma, abriu-se uma nova qualidade do futuro antes inexistente. A partir de então, segundo o filósofo ju- deu-alemão, todas as gerações futuras seriam marcadas indelevelmente por essa nova condição, denominada por ele de “o tempo do fim”. Independente das escolhas que os humanos pudessem fazer em relação à bomba, a própria disponibilidade da técnica e seus efeitos potenciais não poderiam mais ser apagados, permanecendo como parte integrante da constituição da humani- dade e de sua historicidade.Tornava-se imperativo, assim, aprender a habitar mjsousa Realce mjsousa Realce mjsousa Realce Rodrigo Turin 4 esse tempo do fim. E, graças a isso, as próprias fronteiras temporais passavam a ser redesenhadas, com essa condição presente de possibilidade de autoexter- mínio estendendo-se tanto ao futuro como ao passado. Podemos afirmar que essa nova forma de “fim da história” apontava, na verdade, para um duplo fim. Ao nos jogar na condição de viver um “tempo do fim”, ela também nos colocava na situação de enfrentar os limites de um con- ceito hegemônico de história que nos lançou nessa nova condição. Aqui não seria propriamente o fim da história, mas o fim de um conceito de história (com suas respectivas narrativas de fins). Afinal, esse conceito moderno de história não apenas ajudou a produzir as catástrofes que abriram a nossa nova condição de historicidade, mas ele também se mostra limitado em oferecer in- teligibilidade a ela. Como apontou mais recentemente Zoltán Simon, ao anali- sar os efeitos contemporâneos da tecnologia e da ameaça climática, a noção moderna de história – com suas promessas de realização – tem dificuldades de lidar com esse novo tipo de futuro a ser evitado ou, mesmo, irrealizado (Si- mon, 2025). Em função de novos horizontes catastróficos, haveria uma defla- ção do futuro que não permitiria o pleno funcionamento da temporalização moderna das utopias. Além disso, o uso dos operadores de descrição do con- ceito moderno implicaria, em grande medida, na domesticação da novidade e da radicalidade dessas novas experiências, seja enquadrando-as em um tempo linear, singular e processual, seja replicando pressupostos antropocêntricos como os de que a história está restrita e disponível apenas à ação humana. A máquina da historicidade moderna acaba emperrando ao tentar lidar com o “tempo do fim”. Ao mesmo tempo, como falar dessa nova condição de imaginação de fu- turo senão fazendo algum uso das linguagens que foram herdadas do(s) passado(s)? Até que ponto qualificar como obsoletas as tradições da lingua- gem histórica frente a experiências sem precedentes não implicaria também a adoção de uma perspectiva de inefabilidade, em uma espécie de reedição do debate sobre os “limites da representação” dos passados traumáticos, agora porém deslocado para o horizonte do futuro? Como lidar com o reconheci- mento do caráter inédito de certas experiências e, ao mesmo tempo, com a ne- cessidade de usar as linguagens herdadas para dar sentido a elas? Esses problemas ficam claros quando vemos os modos como a mudança climática e os demais efeitos antrópicos no planeta têm sido elaborados dis- cursivamente. As suas diferentes nomeações e seus inumeráveis debates e con- flitos revelam, ao mesmo tempo, a necessidade de fazer uso de categorias e classificações herdadas da tradição – científica e política – e as limitações de mjsousa Realce mjsousa Realce mjsousa Realce mjsousa Realce mjsousa Realce mjsousa Realce Habitar o imprevisível 5 cada uma dessas categorizações e classificações para lidar com as diferentes camadas de relações e de escalas temporais dessa nova condição. Nem a auto- ridade hoje reconhecida da Ciência do Sistema Terra ou da comunidade geo- lógica vem conseguindo produzir um consenso entre esses diferentes modos de classificação, não havendo, no horizonte próximo, nenhuma resolução visí- vel entre os vários “cenos” que hoje coexistem para designar os efeitos antró- picos no planeta. Um desses modos de classificação, no campo da história, tem sido pro- posto por autores como Dipesh Chakrabarty e François Hartog, ao apontarem para a emergência de um novo regime de historicidade. Segundo esses auto- res, a mudança climática já teria nos jogado no que denominam de um “regi- me antropocênico de historicidade” (Chakrabarty, 2021; Hartog, 2020). Esse novo regime seria marcado pela emergência da dimensão planetária na histó- ria, fazendo com que dois planos de historicidade – a do planeta e a da histó- ria global – tenham que ser, a partir então, constantemente coordenados, sem poderem ser propriamente unidos. Como afirma Chakrabarty (relendo Carl Schmitt), quanto mais a humanidade procurou o globo, expandindo-se e in- terligando-se desde o século XVI, mais ela encontrou o planeta, cuja plena existência só pôde se dar a ver, de fato, na segunda metade do século XX, com o surgimento da Ciência do Sistema Terra (Chakrabarty, 2023, pp. 68-94). Pa- ra o historiador indiano, seriam os praticantes dessa nova ciência os verdadei- ros historiadores desse regime antropocênico, ao figurarem a historicidade própria ao planeta, inacessível à linguagem da consciência histórica – confina- da ao que ele designa como “regime global de historicidade”. Haveria, assim, o tempo do planeta – amoral, apolítico, não antropocêntrico, revelado pela Ciência do Sistema Terra (CST) – e o tempo da história global, essencialmen- te plural, moral e antropocêntrico (Chakrabarty, 2023, pp. 1-19). Esses dois tempos, que se relacionam entre si, mas que não podem jamais convergir, marcariam a espessura própria da nossa forma atual de historicidade. No entanto, apesar das contribuições que essa proposição de um regime antropocênico de historicidade traz para a compreensão da situação contem- porânea, ela também não deixa de evidenciar as tensões entre uma nova con- dição de historicidade – ainda não plenamente sedimentada, vale reforçar – e os limites das linguagens herdadas. Se a categoria de “regime de historicidade” implica uma forma social de ordenar o tempo, expressa em linguagens e prá- ticas sedimentadas e hegemônicas, como afirmar a unidade planetária de um novo “regime de historicidade antropocênico” quando nem sabemos, de fato, o que será esse novo regime climático (Turin, 2023)? Além disso, classificar a Rodrigo Turin 6 experiência da mudança climática como um novo regime de historicidade já não implicaria, de algum modo, o uso de uma gramática histórica epocal para lhe dar inteligibilidade? E quais as implicações disso, em termos narrativos e políticos, quando sabemos que o uso da noção de época traz consigo dimen- sões normativas inescapáveis? Poderíamos ainda nos perguntar em que medi- da a formulação e o funcionamento desse novo regime não dependem da ma- nutenção, essencialmente moderna, de uma separação rígida entre ciência e política. Quando olhamos para a história da CST, por exemplo, o que encon- tramos é uma profunda politização, cujos efeitos se mostram tanto em seus diagnósticos a respeito do planeta, como em seus prognósticos para lidar com ele (Heymann; Dalmedico, 2019; Rödder; Heymann; Stevens, 2020; Lowande, 2023). A produção da ciência, nessa nova condição, também tende a ser mui- to diferente daquela produzida pela “constituição moderna” (Latour, 1993). Como, então, “encontrar o planeta”, em sua amoralidade, senão pela mediação de novas posições e disposições ético-políticas? Esses são apenas alguns dos questionamentos que a proposição de um regime antropocênico de historici- dade poderia levantar. De todo modo, para além das críticas pontuais que se possa fazer a essas classificações, me parece que, em vez de afirmar de imediato a existência de um novo regime de historicidade ou de uma nova época, é mais adequado re- conhecer e enfrentar o intervalo que vivemos entre as novas experiências e os limites das linguagens herdadas – ou, na famosa elaboração de Donna Hara- way (2016), “ficar com o problema”. Antes de encarar o planeta (que nem sa- bemos qual será, dependendo de quantos graus o aquecimento climático atin- gir nas próximas décadas), convém investigar o hiato em que vivemos. E esse me parece um dos papéis que a teoria da história pode exercer hoje: interrogar as condições de possibilidade de enunciação dessa nova condição de historici- dade, assim como mapear de que modo novas (ou não tão novas) linguagens e formas de temporalização estão emergindo (ou reemergindo) para lidar com ela. E realizaressa agenda implica ter que reconhecer e enfrentar o fato de que o próprio ato de nomear (e, assim, também diagnosticar) essa experiência já tem implicações nas formas possíveis de ação e de temporalização em reação a ela. Não há amoralidade possível. O modo como colocamos o problema já nos condiciona a determinadas respostas, com diferentes implicações éticas. Como, portanto, construir o problema? Para lidar com isso, proponho aqui uma distinção heurística entre “con- dição de historicidade” e “regime de historicidade”. Enquanto a primeira cate- goria diz respeito ao fechamento e à abertura de possibilidade de diferentes Habitar o imprevisível 7 formas de temporalização, a segunda se limita às configurações formais que se tornam mais sistemáticas, expressas em conceitos, práticas e instituições so- ciais, tal como proposto originalmente por François Hartog (2003). Uma condição de historicidade, como aqui entendido, implica as dimen- sões estruturais através das quais as formas possíveis de vivenciar o futuro são colocadas, levando em consideração os diferentes ecossistemas, os variados aparatos técnicos e as distintas relações entre humanos e não-humanos. Essa condição pode sofrer transformações tanto pela introdução e apropriação de novas dimensões técnicas (como, por exemplo, a escrita, o meio digital, a bomba atômica ou, hoje, os efeitos potenciais da IA), como pela irrupção de mudanças ambientais e climáticas. Uma condição de historicidade diz respei- to, portanto, à constituição de um horizonte de possibilidades, cujas combina- ções podem dar origem a diferentes regimes de historicidades potenciais. Essa condição, ainda que precise ser enunciada e formulada de alguma maneira, não determina quais são os modos necessários de sua formulação. A mudança climática, por exemplo, é percebida em sua dimensão sistêmica e afeta a temporalização cotidiana das populações indígenas da Amazônia, sem que elas precisem formular essa nova condição nos mesmos termos como o faz a Ciência do Sistema Terra – o que também não impede que elas dialo- guem com essa e outras formulações. Nessa dimensão pragmática, os efeitos antrópicos no planeta vetam certos tipos de temporalização (como as movidas pela queima irrestrita de combustíveis fósseis) e abrem outras possíveis, mas não determinam quais linguagens e quais as formas de temporalização que ne- cessitam ser desenvolvidas. Isso depende, ao final, do modo como serão elabo- radas e dos embates entre diferentes cronopolíticas (Edelstein; Geroulanos; Wheatley, 2020; Mudrovic, 2019). O que denomino aqui de condição de historicidade aponta, desse modo, para uma dimensão de negatividade que deve ser enfrentada, o que não signi- fica afirmar um puro relativismo (Adorno, 2003, pp. 33-34). Implica apenas afirmar que ela precisa passar por alguma forma de mediação, com suas dife- rentes implicações ético-políticas. E, como apontou o antropólogo brasileiro Mauro Almeida, não há uma incompatibilidade entre afirmar a verdade prag- mática do aquecimento climático e a incomensurabilidade ontológica dos po- vos e seus descritores de mundo (Almeida, 2021). Os efeitos pragmáticos da mudança climática e, assim, das condições de historicidade, podem e devem ser mediados por diferentes cosmologias ou formas de vida, possibilitando, inclusive, diferentes convergências ou divergências diplomáticas – como ve- Rodrigo Turin 8 mos, aliás, nas atuais negociações das diferentes COPs e em outras instâncias da diplomacia climática global (Nachet, 2021). Assim, diferentemente do que vêm propondo autores como Chakrabarty e Hartog, ao afirmarem que o Antropoceno já representaria um novo e fecha- do regime de historicidade – ou qualquer outra forma de classificação unívoca –, parto aqui do entendimento de que ele representa, antes, a abertura de uma nova condição de historicidade. Esse entendimento de uma nova condição de historicidade, por sua vez, abre como agenda de pesquisa a investigação da re- lação atual entre as diferentes formas emergentes de temporalização (Baschet, 2018) e a elaboração do que podemos denominar de “regimes de historicida- des potenciais”. Na medida em que as novas condições de habitabilidade do planeta vão se transformando e se revelando, diferentes instituições e grupos sociais são levados a desenvolver novas linguagens e modos de temporaliza- ção, seja para lidar com as catástrofes ambientais produzidas pela mudança climática, seja para antecipar modos de ação e de organização social capazes de sobreviver a essas novas condições planetárias. Em esferas como economia, segurança, tecnologia, saúde pública, entre outras, já são visíveis essas emer- gentes formas de temporalização, ainda que elas não tenham ainda consti- tuído ordens mais sistemáticas e hegemônicas capazes de dar novos sentidos à história (ou às histórias), tornando-se, assim, um regime de historicidade, ou diferentes regimes de historicidade, sedimentados. 2. Abertura do futuro e novos regimes de antecipação Um dos modos de investigar as temporalidades emergentes e suas lingua- gens é analisar como diferentes “futuros presentes” (Luhmann, 1976) ou “fu- turos históricos” (Simon; Tamm, 2024) são hoje percebidos, figurados e torna- dos acionáveis. Como afirmou Gerard Delanty, o “futuro tornou-se um problema para o presente porque as ideias preconcebidas sobre o futuro já não se encaixam no espaço da experiência humana, que se ampliou para envolver respostas a uma série de grandes crises que constituem uma permacrise geral.” (Delanty, 2024, p. 21, todas as traduções são minhas). É nesse sentido também que Simon e Tamm apontaram para a necessidade de mapear “as complexida- des da simultaneidade das concepções de futuro e as formas como as transi- ções para esses futuros mobilizam uma pluralidade de historicidades” (Simon; Tamm, 2024, pp. 7-8). Característica fundamental do modo como os futuros presentes são vivi- dos hoje diz respeito ao seu alto grau de incerteza e de imprevisibilidade. A Habitar o imprevisível 9 nova condição de historicidade trazida pela catástrofe climática, assim como pelas novas tecnologias, faz com que boa parte dos mecanismos de previsão e de antecipação de futuro herdados da modernidade perca sua eficácia. Seja pela necessidade de viver com eventos extremos de toda ordem, seja em fun- ção dos limites e das dificuldades de desenhar cenários sociais e políticos de um futuro próximo, um novo grau de obscuridade (e, ao mesmo tempo, de abertura) do futuro invade o presente. Uma das principais características do que se entende por modernidade foi, justamente, uma ampla e acelerada abertura do futuro. O alargamento do horizonte de expectativa, promovido por experiências como a revolução in- dustrial e as revoluções políticas, resultou em uma percepção do futuro mar- cada essencialmente pela diferença em relação ao passado e ao presente (Ko- selleck, 2004; Hölscher, 2014). Imaginar o futuro era, a partir de então, incorporar o tempo como produtor de diferença. A essa abertura do futuro, que Niklas Luhmann definiu como futurização, seguiu-se um movimento am- plo, diversificado e complementar de desfuturização (Luhmann, 1976, p. 141). Ou seja, a elaboração de categorias, formas institucionais e mecanismos que permitissem domar essa diferença ou imprevisibilidade, dotando-a de sentido e tornando-a disponível à ação política. Um bom exemplo disso é o uso da estatística como técnica de governo (Hacking, 1975). Ainda que seus princípios teóricos tenham sido formulados no século XVII, é apenas a partir do final do século XVIII e com o Estado na- poleônico que ela passou a ser usada de forma sistemática como instrumento de governo (Desrosières, 2010; Hacking, 1991). O rápido crescimento popula- cional, sua mobilidade, o ritmo de natalidade e de mortalidade, entre outros fatores, passaram a ser medidos e trabalhados em função de uma razão esta- tística que permitia antever futuros (percebendo tendências)e agir em relação a eles. A biopolítica moderna depende, em grande medida, dessa desfuturiza- ção promovida pela estatística, tornando os corpos e os territórios disponíveis a um prognóstico, planejamento e controle. O mesmo poderia ser dito, inclu- sive, do surgimento das filosofias da história e da institucionalização da disci- plina histórica, que auxiliavam a dar um sentido narrativo e político a essas tendências e possibilidades. Hoje, no entanto, o grau de abertura do futuro se intensificou e mudou de parâmetros. A estatística que permitia medir e orientar o tempo do progresso em função de cálculos de tendências e probabilidades se torna muito menos útil quando temos que lidar com novas condições, como o “tempo das catás- trofes” ou dos “riscos existenciais”. Como apontaram Aradau e van Munster Rodrigo Turin 10 em seu livro, diante de um evento catastrófico o conhecimento especializado precisa enfrentar o seu próprio limite: o desconhecido (Aradau; van Munster, 2011). Diante disso, coloca-se a necessidade de desenvolver “uma capacidade de resposta que não tem o luxo do reconhecimento de padrões” (Petryna, 2022, p. 177). Enchentes sem precedentes, incêndios recordes, ondas inéditas de calor, pandemias, os variados efeitos da IA na sociedade são eventos para os quais o uso de previsões estatísticas se mostra bastante limitado. Para elaborar e responder a essa nova condição de historicidade, um con- junto de novos saberes, práticas e instituições vem sendo desenvolvido por Es- tados, universidades e órgãos internacionais. Exemplos recentes são The Uni- ted Nations Office for Disaster Risk Reduction (UNDRR), assim como a produção de protocolos e relatórios destinados à orientação de uma governan- ça global de riscos, como The Sendai Framework on Disaster Risk Reduction 2015-2030 ou o Global Assessment Report on Disaster Risk Reduction (2022). Como afirmou o secretário das Nações Unidas, Antonio Guterres: nosso “su- cesso em encontrar soluções para os problemas interligados que enfrentamos depende da nossa capacidade de antecipar, prevenir e nos preparar para os grandes riscos que estão por vir” (Stauffer et al., 2023, p. 12). O que se destaca nessas organizações e documentos é a elaboração de práticas de conhecimen- to antecipatório, que transformam “o futuro em objeto de investigação cientí- fica e intervenção política, configurando assim novas formas de governança antecipatória” (Aykut; Demortain; Benbouzid, 2019, p. 2). A esse novo conjunto de saberes, práticas, instituições e materialidades, para lidar com a nova imprevisibilidade do futuro, alguns autores vêm pro- pondo a classificação de “regimes de antecipação” (Adams; Murphy; Clarke, 2009; Dolez; Granjou; Séverine, 2019). Esses regimes implicam tanto a elabo- ração de novos saberes e especialidades capazes de produzir previsões e ante- cipações do que pode estar por vir, quanto novas formas de ação que visam al- terar o curso dos eventos antecipados, evitando ou moldando o futuro. Eles dizem respeito a uma “economia moral em que o futuro estabelece as condi- ções de possibilidade para a ação no presente, em que o futuro é habitado no presente” (Young; Docherty, 2024, p. 171). Esses novos regimes de antecipação “são formações distribuídas e extensivas que interpelam, situam, atraem e mo- bilizam sujeitos individual e coletivamente”, reconfigurando diferentes práti- cas sociais (Adams; Murphy; Clarke, 2009, p. 249). Eles podem ser encontra- dos em âmbitos muito diversificados, como no combate a incêndios sem precedentes e outras catástrofes naturais (Petryna, 2022), no gerenciamento de florestas sob condições climáticas ainda desconhecidas (Dolez; Granjou; Habitar o imprevisível 11 Sevérine, 2019; Granjou; Walker; Salazar, 2019), em políticas de saúde e pre- venção de pandemias globais (Heimstädt; Egbert; Esposito, 2020), em projetos urbanísticos (Braun, 2014), no planejamento dos chamados “vital systems” (Collier; Lakoff, 2021), nas novas doutrinas de segurança nacional (Cooper, 2008; Massumi, 2009), na reconfiguração geopolítica contemporânea (Char- bonnier, 2024), nos projetos de exploração espacial (Young; Docherty, 2024), e mesmo na programação de softwares (Mackenzie, 2013). Os regimes de antecipação emergentes nesses diferentes campos estariam dotados tanto de uma dimensão epistêmica, vinculada às novas formas de vi- sualizar e de tornar presente o futuro, como de uma dimensão moral, impli- cando novos princípios éticos e a formação de novas subjetividades e emo- ções. Com isso, eles se apresentam com uma aspiração totalizadora, buscando ser incorporados nas próprias racionalidades que governam as ações políticas e econômicas da sociedade. Como bem observou Pierre Charbonnier, ao defi- nir essa incorporação na formação de uma “ecologia de guerra”: “A economia das mudanças climáticas não é um processo endógeno de cálculo egoísta: é o subproduto de uma lógica mais geral de antecipação e racionalização de riscos existenciais, do desejo de tornar administrável o que a princípio parece desa- fiar os limites do que é pensável” (Charbonnier, 2024, p. 249). No entanto, se esses regimes de antecipação são caracterizados por serem respostas a essa nova imprevisibilidade do futuro, criando modos de habitar e governar esse tempo, isso não implica em dizer que não possam assumir dife- rentes racionalidades, estilos ou lógicas de antecipação (Anderson, 2010), com implicações éticas e políticas distintas. Por isso mesmo, esses novos regimes de antecipação não podem ser entendidos como novas singularidades políticas ou epistêmicas, configurando alguma dimensão epocal (Dolez; Granjou; Sé- verine, 2019). Vinculam-se, antes, a dimensões performáticas, cotidianas e plurais de lidar com a nova condição de historicidade que se desenha, ainda que se mostrem assimétricas nas suas possibilidades de efetivação. Esses regimes de antecipação podem ser entendidos, em suma, como for- mas emergentes de temporalidade para lidar com a nova condição de histori- cidade. Assim como aconteceu no final do século XVIII, eles auxiliam na re- dução da abertura do futuro, ou seja, na sua desfuturização, criando dispositivos e novas formas de governamentalidade (Aykut; Demortain; Ben- bouzid, 2019, p. 2). No entanto, se eles já se expressam por meio de conceitos, práticas, instituições e tecnologias, não é possível afirmar que já constituam um novo regime de historicidade sedimentado. Dito de maneira objetiva, os novos regimes de antecipação são regimes de temporalidade, mas ainda não Rodrigo Turin 12 regimes de historicidade. Se eles buscam se colocar como uma forma de orien- tação totalizadora para a sociedade global, eles ainda não têm o nível de inser- ção e de distribuição social e institucional necessários para operar como um regime de historicidade hegemônico, informando, de maneira estrutural, no- vas subjetividades, narrativas e unidades de ação, tal como ocorreu com o conceito moderno de história. Inseridos nesse hiato entre novas experiências e linguagens herdadas a que nos referimos anteriormente, respondendo e, ao mesmo tempo, elaboran- do as novas condições de historicidade, esses regimes de antecipação não dei- xam de apontar, contudo, para regimes de historicidade potenciais, dependen- do de como forem de fato desenvolvidos e instituídos no futuro. E, justamente pela orientação totalizadora que eles buscam assumir nessa nova condição de historicidade, tais regimes de antecipação não deixam também de ser objetos de disputas, “onde coexistem e competem diversas tecnologias de produção de conhecimento, grupos sociais e visões de futuro” (Aykut; Demortain; Benbou- zid, 2019, p. 3). Por isso mesmo torna-se crucial entender tanto as suas dife- rentes formas temporais, assim como os seus diferentes embates e suas impli- cações éticas. 3. Três modos de habitar a nova imprevisibilidade do futuro A relação entre esses novos regimes de antecipação, entendidos como temporalidadesemergentes, e os regimes historicidade potenciais podem ser investigados através do surgimento de novos conceitos, de suas redes semân- ticas e das diferentes formas como são acionados por distintos grupos sociais. Por meio desses conceitos e seus usos, é possível visualizar quais novas formas de temporalidade eles figuram, que tipos de sujeitos eles implicam, quais as ra- cionalidades que privilegiam, de que modo desenham novos tipos de institui- ções para governar o futuro, as suas possíveis formas narrativas, quais as suas implicações éticas; traços que possibilitam representar, desse modo, a sua or- ganização como regimes de historicidade potenciais. Analiso aqui brevemente três desses conceitos, buscando indicar quais suas principais características temporais, sugerindo, ao final, de que modo eles permitem pensar regimes de historicidade potenciais. Três dos conceitos que mais se destacam hoje em relação aos novos regi- mes de antecipação são os de precaução, preempção e preparação. Surgidos em contextos distintos, mas inseridos no amplo espectro geopolítico ocidental e capitalista, eles coexistem hoje em diferentes instituições e em políticas pú- Habitar o imprevisível 13 blicas e privadas como formas de tornar acionáveis os futuros vinculados à crise climática e às novas tecnologias. Elas representam três níveis diferentes dessa nova abertura de futuro, implicando em modalidades distintas de ação e de reação do presente. Apesar da diferença de sentidos que cada um desses conceitos pode receber, em suas variadas disputas semânticas (voltarei a isso no final), quero me ater aqui aos seus usos mais originários e, também, hege- mônicos, que configuram os modos como o capitalismo global tem se recon- figurado e se retemporalizado, fazendo surgir o que pode ser denominado de uma biopolítica (ou uma geobiopolítica) da catástrofe (Neyrat, 2006). A primeira noção, a de precaução, originou-se, em grande medida, dos movimentos ambientalistas das décadas de 1970 e 1980 (Aradau; van Munster, 2011). Ela veio expressar uma forma de consciência de que as ações presentes poderiam resultar em um futuro inabitável, seja pelos efeitos ambientais do crescimento econômico (como no famoso relatório sobre os limites do cresci- mento, do Clube de Roma, em 1972), seja em função da contínua ameaça nu- clear e das novas tecnologias. A sua formulação filosófica mais famosa foi ela- borada por Hans Jonas (1984), em seu livro O princípio responsabilidade, de 1979. Nesse livro, Jonas transformou a categoria em um novo imperativo éti- co: os limites de minha ação no presente devem ser dados em função da garan- tia do direito de existência das gerações futuras. “Nascido do perigo”, esse no- vo dever clama, portanto, por uma ética da precaução, fundada na ideia de que não posso saber com antecedência todos os efeitos das minhas ações. Ao con- trário da positividade de uma ética tipicamente moderna, na qual a ação do presente deve ser orientada a melhorar a vida das gerações futuras, aqui Jonas apresenta uma dimensão negativa da ação, apontando para seus limites. Mas como persuadir o sujeito moderno, essencialmente produtivo, a essa dimensão negativa da ação? Como reorientar a sociedade moderna capitalista, voltada à realização do futuro, a essa limitação ao presente? Uma das saídas foi, justamente, internalizar o princípio precaucionário dentro de uma lógica de interesses e de produção de valor. Há um apelo a uma razão instrumental, de natureza econômica, de que é melhor se adaptar antes do que arcar com os custos posteriores. Mas mais do que isso: é a própria precaução que veio a se tornar um meio de produção de valor, buscando transformar a incerteza em um risco calculável (e, portanto, passível de ser financeirizado): “Eles homo- geneízam a heterogeneidade da natureza em uma base quantitativa e reduzem a incerteza ecológica na definição de valores econômicos” (Maechler; Graz, 2022, p. 630). Ao transformar a natureza e toda a teia da existência (humana e não-humana) em padrões comensuráveis, expande-se a razão econômica uti- Rodrigo Turin 14 litária a todas as formas de existência (Ciplet; Roberts; 2017; Pellizzoni, 2015). Todo o planeta, até mesmo suas moléculas mais simples, passa a ser entendido como parte de um grande mercado potencial. Com isso, seria possível apelar aos interesses dos agentes econômicos a fim de realizar um redirecionamento de suas práticas, adotando medidas supostamente sustentáveis, sem abdicar da produção de valor. A precaução aqui, portanto, é um cálculo de risco com fins econômicos, que juntaria, em tese, os interesses individuais e a estabilida- de do Sistema Terra. É esse entendimento da noção de precaução que orientou boa parte da di- plomacia climática desde a criação da Convenção-quadro da ONU para as mudanças climáticas, em 1992, até a definição de políticas como as metas de redução de emissões de gases de efeito estufa, expressas no protocolo de Kyo- to e no acordo de Paris. E é um determinado entendimento dessa categoria que está por trás das narrativas mais hegemônicas hoje em relação à mudança climática, como a da transição energética, dos mercados de carbono, da cria- ção de um “capital natural” e de uma bioeconomia, e das boas práticas de sus- tentabilidade de empresas, caracterizando um dos modos de temporalização do capitalismo diante da catástrofe climática. A precaução entra, assim, como um dos principais modos de a sociedade capitalista moderna se adaptar às novas condições de historicidade, sem pre- cisar propriamente deixar de ser uma sociedade capitalista. Ela implica, em grande medida, a adoção de ações pontuais no presente que, em teoria, seriam capazes de irrealizar um determinado futuro previsível – figurado no teto de 1.5°C ou 2.0°C de aquecimento do planeta. Nessa noção de precaução, portan- to, há um futuro que ainda é relativamente previsível e inserido em um tempo linear, capaz de ser projetado. Não por acaso, ele também se expressa na noção central de “transição energética”. A noção de transição aqui remete justamente a essa temporalidade ainda linear e epocal, mas com um detalhe essencial: ela é qualificada não por tipos diferentes de sociedades (como na transição do feudalismo ao capitalismo), mas sim por tipos diferentes de fontes energéticas. Ao final, essa transição, na verdade, é uma passagem do presente para o pre- sente, apenas substituindo os combustíveis fósseis pelas chamadas fontes lim- pas de energia como forma de evitar um determinado futuro climático inde- sejável. Nos termos de François Hartog (2003), podemos afirmar que essa precaução é uma forma de presentismo. Apesar de hegemônica, uma série de críticas vêm enfraquecendo a cren- ça nessa forma de temporalização. Como destacou recentemente Jean Baptiste Fressoz (2024), além de trazer em si uma noção etapista da história energética, Habitar o imprevisível 15 essa narrativa não tem muita sustentação empírica, quando a história das fon- tes energéticas no capitalismo mostra que nunca houve substituição de uma fonte por outra, mas apenas acumulação de diferentes fontes. Além disso – e principalmente –, o contínuo atraso da realização da promessa de transição e a aceleração dos efeitos da mudança climática vão encurtando a verossimi- lhança desse horizonte do capitalismo de precaução, tornado cada vez mais di- fícil crer nesse futuro. O mais recente relatório do Hamburg Climate Futures, que visa a medir a plausibilidade dos futuros desenhados pelos acordos climá- ticos, foi bastante enfático ao afirmar que não há mais qualquer plausibilidade em manter o aquecimento dentro do teto de 1,5°C proposto pelo acordo de Paris (Engels et al., 2023). Afinal, para manter o aquecimento dentro desse te- to seria necessário descarbonizar a economia global em 42% até 2030, quando, segundo projeções da própria ONU, no ritmo atual “estima-se que as NDCs incondicionais e condicionais para 2030 reduzam as emissões globais em 2%e 9%, respectivamente” (United Nations Environment..., 2023, p. XXI). Esse encurtamento do horizonte de verossimilhança do capitalismo de precaução dá lugar às outras duas categorias através das quais vêm se dese- nhando os regimes de antecipação e as geobiopolíticas da catástrofe. Se a noção de precaução implica ainda um futuro com alguma forma de visibilidade e de previsibilidade (aquela dentro do teto dos limites planetários estabelecidos pe- lo IPCC), as outras duas noções figuram já a condição do tempo da catástrofe na sua maior imprevisibilidade, configurando dois modos de reagir a ela. A noção de preempção teve sua formulação mais forte no início do século XXI, com a guerra ao terrorismo do governo Bush, e logo passou a ser adota- da também para lidar com as ameaças climáticas (Cooper, 2008; Anderson, 2010). Na verdade, a preempção, definida como o uso antecipado da força diante de um ataque iminente, já era aceita antes como legítima pelo direito internacional. Na nova doutrina de segurança do governo Bush, no entanto, a administração do governo dos EUA alargou o significado para abranger tam- bém a guerra preventiva, na qual a força pode ser usada mesmo sem evidência de um ataque iminente (como ocorreu com a guerra do Iraque e com a supos- ta existência de armas de destruição em massa). Uma das ideias por trás da ação preemptiva é a de que não posso mais visualizar com clareza quem é e onde está o inimigo, uma vez que ele pode estar em qualquer lugar e agir a qualquer momento. Com isso, sem os meios clássicos de enfrentamento (co- mo a dissuasão mútua da Guerra Fria, por exemplo), cria-se a necessidade de especular possíveis cenários e agir como se eles fossem reais, antecipando-se a eles. Não é a estatística, portanto, mas a imaginação especulativa que dá forma Rodrigo Turin 16 ao futuro, orientando uma ação no presente que antecipa a realização desse mesmo futuro especulado. Nessa lógica preemptiva de futuro, seríamos colo- cados “na situação desconfortável de ter que tomar medidas drásticas e ime- diatas diante de uma ameaça inescapavelmente evasiva e incerta, decisões que, por sua vez, podem gerar seus próprios perigos incalculáveis” (Cooper, 2008, p. 83) – como é o caso da geoengenharia e da bioengenharia. Em vez da con- tinuidade da precaução, a preempção se propõe assim a moldar o futuro e a sua própria forma de vida, assumindo que “a única maneira de sobreviver ao futuro é mergulhar em suas condições de emergência, a ponto de nós mesmos as concretizarmos” (Cooper, 2008, p. 89). Aqui, portanto, é a necessidade da profecia e de realizar a própria profe- cia o que move uma série de políticas voltadas à mudança climática. A compo- sição do planeta e suas formas de vida passam a ser objetos de uma manipula- ção consciente e declarada por grupos sociais e políticos (Neyrat, 2018). Nessa chave, a noção de Antropoceno – como a época dos humanos – ganha seu sentido mais amplo. As propostas de Bill Gates de lançar partículas na atmos- fera para refletir os raios solares, os planos de colonização planetária ou de trans-humanismo de Elon Musk ou, ainda, as promessas de acelerar sonhos (ou pesadelos) tecnológicos, como fazem os ecomodernistas e os trans-huma- nistas do Vale do Silício, são apenas algumas de suas expressões mais conheci- das. Nessa chave de figuração do futuro preemptivo, o tempo, longe de ser li- near, aparece com uma estrutura recursiva, uma vez que é a antecipação do futuro especulado e a sua criação o que garantem ao profeta a comprovação retrospectiva de sua verdade (Pellizzoni, 2020). Se a preempção implica uma dimensão pró-ativa, de se antecipar a um determinado futuro especulado, criando-o, a terceira noção, a de preparação (preparedness), implica a figuração de um futuro que se impõe ao presente na sua mais absoluta obscuridade, nos obrigando a sobreviver a ele (Lakoff, 2007; Pellizzoni, 2020). Se a precaução expressa um futuro que ainda sabemos mais ou menos o que vai ser (e, portanto, que pode ser projetado), e a preempção um futuro que sabemos não saber (e que precisa ser especulado), a preparação representa a condição de lidar com um futuro que, no limite, “não sabemos que não sabemos” (Aradau; van Munster, 2011, p. 6). E, justamente por essa condição de desconhecimento, a sua esfera de operação não é antes, mas após a precipitação dos eventos. A preparação significa “tanto um princípio quanto um conjunto de técnicas para refletir e intervir em um futuro incerto e poten- cialmente catastrófico” (Lakoff, 2006, [n.p.]). O seu objetivo é reduzir as vul- nerabilidades atuais e implementar medidas de resposta que impeçam que um Habitar o imprevisível 17 evento desastroso se transforme em uma catástrofe total. A especulação desse futuro não passa apenas pela imaginação especulativa, como na preempção, mas também pela encenação de situações (como enchentes, incêndios, ata- ques químicos, etc.), como um artifício capaz de dar a ver situações e seus de- senvolvimentos não previstos (Revet, 2020). Deste modo, “os exercícios de preparação são colocados no centro de um modo de conhecimento que desa- fia ou substitui a calculabilidade estatística. Nesse sentido, o futuro de eventos inesperados não pode ser conhecido ou previsto, mas apenas encenado” (Ara- dau; van Munster, 2011, pp. 44-45). A noção de preparação implica, assim, uma forma de governo da vulne- rabilidade. A categoria, não por acaso, surgiu no contexto da Guerra Fria, quando os EUA criaram uma secretaria exclusiva para lidar com eventos des- sa natureza, elaborando protocolos de sobrevivência a um ataque nuclear so- viético que poderia ocorrer a qualquer momento (Collier; Lakoff, 2021). Hoje, essa mesma secretaria desenvolve e trabalha uma série de protocolos voltados à sobrevivência aos desastres climáticos, inclusive desenvolvendo ações edu- cativas, voltadas às crianças, de como sobreviver a situações catastróficas. Como apontou Sandrine Revet, a noção de preparação implica uma de- terminada perspectiva cíclica do tempo, “que considera o desastre como um momento na vida de uma sociedade, seguido por uma fase de recuperação, depois reconstrução e, finalmente, preparação para o próximo desastre” (Re- vet, 2020, p. 187). Essa dimensão cíclica, no entanto, longe de remeter à forma tradicional de temporalidade que sustentou o regime de historicidade antigo, da historia magistra vitae, implica uma nova relação entre o tempo da norma- lidade e o tempo da crise. Na temporalidade da preparação, a crise (assim co- mo as catástrofes ou o inimigo) não é apenas uma possibilidade que irrompe ocasionalmente um estado de normalidade, mas é incorporada como consti- tutiva dessa mesma normalidade, caracterizando uma nova condição de tem- poralização. A noção de preparação aponta, como indica Luigi Pellizzoni, para o desenvolvimento de capacidades para governar uma dinâmica coevolutiva de ação e reação, ataque e contra-ataque contínuos. Ela requer, assim, “a mo- dulação de uma crise que, mais do que levar à sua resolução, requer o seu ge- renciamento constante” (Pellizzoni, 2020, p. 48). E como a crise não pode ser evitada, mas apenas gerenciada, ela nos obriga a um estado de alerta (ou, mes- mo, de exceção...) contínuo, potencializando formas tecnocráticas e autoritá- rias de governo. Como já dito, esses diferentes conceitos coexistem hoje em diferentes práticas, especialidades e instituições, elaborando e orientando formas de ação Rodrigo Turin 18 para lidar com a nova imprevisibilidade do futuro. Eles poderiam ser analisa- dos, também, a partir do surgimento de novas filosofias da história. As pro- postas do Longtermism, por exemplo, podem ser lidas como elaborações filo- sóficas e narrativas contemporâneas que estruturam essas novas formas de futurização (McLaughlin, 2025). Muito influentes hoje entre elites do Vale do Silício, e financiada em grande parte por essa mesma elite, filosofias como o Longtermism oferecem uma dimensão históricaque, ao mesmo tempo, orien- ta e legitima as temporalizações do capitalismo contemporâneo sob as novas condições de historicidade1. Conclusão Os conceitos de precaução, preempção e preparação indicam formas tem- porais específicas para lidar com as novas condições de historicidade e de im- previsibilidade do futuro. Dependendo dos modos como são desenvolvidos e instaurados a partir de suas formas temporais, eles apontam para distintas mo- dalidades de ação, formas de subjetividade e de narrativas. No modo mais he- gemônico como vêm sendo elaborados por instituições e organizações globais, tal como aqui brevemente analisado, esses conceitos não deixam de apontar pa- ra a reprodução de certas estruturas sociais (como a lógica capitalista e o empo- deramento de uma plutocracia tecnocrática e autoritária), ainda que, para isso, também precisem desenvolver novas formas de governamentalidade, distintas daquelas da modernidade. Rupturas e continuidades, portanto, se fazem pre- sentes nesse processo de se adaptar às novas condições de historicidade. Também é importante reforçar que há uma estrutura temporal presente no uso dessas categorias. Quanto mais chegamos perto dos limites planetários conhecidos e, portanto, quanto mais obscuro vai se tornando o futuro, mais a categoria de precaução vai dando lugar às outras duas categorias. Não por aca- so, nas negociações climáticas a agenda da adaptação (em que os conceitos de preempção e de preparação se destacam) vem ganhando um peso cada vez maior, antes ocupado majoritariamente pela agenda da mitigação e suas estra- tégias precaucionárias (DeLeo, 2017). Quando os “riscos existenciais” vão se tornando cada vez mais cotidianos, a preempção e a preparação ganham cada vez mais legitimidade como formas de lidar com o futuro. O aumento da acei- tação de propostas da geoengenharia como solução necessária para a crise cli- mática é um sinal forte dessa mudança (Gupta; Möller, 2019), assim como a Habitar o imprevisível 19 recente aposta por Estados e empresas de acelerar e antecipar as possibilidades abertas pela IA, apesar de seus altíssimos custos energéticos. No entanto, junto com essa estrutura temporal que acelera a legitimidade de conceitos como preempção e preparação, não deixa de haver também uma abertura e uma disputa acerca de seus usos (Muiderman et al., 2020; 2023; Pe- reira et al., 2021). Na medida em que esses conceitos e suas redes semânticas ainda não constituem regimes de historicidade socialmente sedimentados, é importante destacar que há uma abertura para a disputa dessas categorias, im- primindo sentidos e figurando outros futuros a partir delas (ou contra elas) – seja em suas tendências planetárias, imprimindo uma nova singularidade, seja em suas versões mais territorializadas e plurais (Turin, 2023). As noções aqui trabalhadas, como as de precaução ou de preparação, podem ganhar sentidos específicos quando acionadas por agentes subalternos nos fóruns de negocia- ção climática. A abordagem da preparação, por exemplo, “voltada para a de- tecção de ameaças imprevistas e impensáveis, também pode ser adotada em um sentido positivo para explorar a capacidade de aproveitar e explorar opor- tunidades imprevisíveis – e, nesse caso, torna-se muito mais semelhante ao de- bate atual sobre a construção do futuro” (Esposito, 2024, p. 218). É possível en- contrar apropriações da noção de preparação que envolvem outros conceitos, como os de territorialidade ou de ancestralidade, orientando-a para outros modos de temporalização, os quais privilegiam a integridade de ecossistemas e os entrelaçamentos das agências humanas e mais-que-humanas (Petryna, 2022; Zavaleta-Cortijo, 2023). Aqui, os povos que vivem a ancestralidade da catástrofe, como os povos indígenas, jogam com a apropriação semântica dos conceitos, visando a figuração de futuros alternativos. Com isso, “a necessida- de de ‘estar preparado’ pode ser aproveitada como uma oportunidade para promover uma transformação socioecológica que valorize formas colaborati- vas de lidar com a incerteza socioecológica” (Bifulco; Centemeri; Mozzana, 2021). Em outra chave, é possível investigar os usos desses conceitos ou de suas formas de temporalização presentes em determinadas formas de ecosso- cialismo, em que esses regimes de antecipação são trabalhados, seja a partir de princípios comunitários e de decrescimento (Hughes, 2021), seja a partir de uma aposta na nova dimensão prometeica e de aceleração que elas podem promover (Srnicek; Williams, 2013). De todo modo, essa nova abertura do futuro está sendo elaborada e ocu- pada por diferentes linguagens e agentes, ainda que de maneiras bastante assi- métricas. Convém às humanidades contribuir para sistematizar e dar a ver es- sas diferentes gramáticas temporais, com suas diferentes implicações. Afinal, é Rodrigo Turin 20 a partir dessas gramáticas e de suas formas de temporalização que novos regi- mes de historicidade irão emergir, limitando ou ampliando as possibilidades de escolha do presente. REFERÊNCIAS ADAMS, Vincanne; MURPHY, Michelle; CLARKE, Adele E. Anticipation: Technos- cience, Life, Affect, Temporality. Subjectivity, v. 28, pp. 246-265, 2009. ADORNO, Theodor W. Negative Dialectics. London: Routledge, 2003. ALMEIDA, Mauro W. B. Anarquismo ontológico e verdade no Antropoceno. Ilha, Florianópolis, v. 23, n. 1, pp. 10-29, 2021. ANDERS, Günther. La obsolescencia del hombre: sobre el alma en la época de la segunda revolución industrial. Vol. 1. Traducción de Josep Monter Pérez. Valencia: Pre- -Textos, 2011. ANDERSON, Ben. Preemption, Precaution, Preparedness: Anticipatory Action and Future Geographies. Progress in Human Geography, v. 34, n. 6, pp. 777-798, 2010. ARADAU, Claudia; VAN MUNSTER, Rens. Politics of Catastrophe: Genealogies of the Unknown. 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