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Pensou por 2m 38s Resenha crítica — Capítulo 3, “Tempo e narrativa”, de Paul Ricoeur No capítulo 3 de Tempo e narrativa, Paul Ricoeur desenvolve uma das teses centrais de sua filosofia da história: a narrativa é o mecanismo pelo qual a experiência humana do tempo pode ser configurada, compreendida e reinterpretada. O capítulo, intitulado “Tempo e narrativa — a tríplice mimese”, desloca a discussão iniciada nos capítulos anteriores — especialmente o confronto entre a experiência temporal de Agostinho e a teoria da intriga em Aristóteles — para uma teoria mais abrangente da relação entre temporalidade, ação, narrativa e interpretação. O capítulo começa por volta da p. 86 da edição presente no arquivo e se encerra antes da passagem para a discussão específica da história e da historiografia. 1. A questão central: como o tempo se torna narrável? O problema que orienta Ricoeur é uma espécie de paradoxo. De um lado, Agostinho revela a dificuldade de pensar o tempo: o passado já não existe, o futuro ainda não existe e o presente parece escapar continuamente. De outro, Aristóteles mostra que a narrativa, especialmente por meio da intriga, produz uma configuração inteligível dos acontecimentos. Ricoeur percebe aí uma possibilidade de mediação. A narrativa não elimina a experiência temporal nem simplesmente a reproduz. Ela configura o tempo. Isso significa que acontecimentos dispersos, sucessivos e muitas vezes contingentes podem ser articulados em uma totalidade dotada de começo, desenvolvimento e desfecho. Essa operação é fundamental para compreender a relação entre narrativa e história. Um acontecimento histórico não chega ao historiador como uma história pronta. Há acontecimentos, vestígios, ações, documentos, testemunhos e experiências temporalmente dispersas. A narrativa é responsável por uma operação de configuração, mediante a qual esses elementos podem adquirir relações de anterioridade, posterioridade, duração, mudança, continuidade, ruptura e consequência. É nesse ponto que a noção aristotélica de intriga ganha importância. Ricoeur a entende como uma operação capaz de produzir uma síntese entre elementos heterogêneos: ações, personagens, acontecimentos, circunstâncias e mudanças são articulados em uma unidade. A intriga, portanto, não é simplesmente a "história contada"; ela é o princípio organizador que permite transformar uma sucessão de acontecimentos em uma história inteligível. A própria edição consultada resume essa operação como a capacidade da intriga de organizar acontecimentos dispersos em uma trama, fazendo prevalecer uma ricoeur-p-tempo-e-narrativa-tom… determinada concordância sobre a discordância dos acontecimentos isolados. 2. A tríplice mimese O núcleo teórico do capítulo é a conhecida concepção de Mimese I, Mimese II e Mimese III. A grande originalidade de Ricoeur está em não tratar a mimese como simples imitação. Ela corresponde a três momentos de uma operação hermenêutica. Mimese I — o mundo da ação A primeira mimese corresponde à pré-configuração do campo da ação. Antes de existir uma narrativa, já existe um mundo humano estruturado por ações, normas, valores, símbolos, instituições, expectativas e relações temporais. Para contar uma história, precisamos previamente compreender o que significa agir, sofrer, desejar, alcançar, fracassar, iniciar alguma coisa ou produzir consequências. Assim, a narrativa não começa do zero. O historiador, por exemplo, não encontra simplesmente "fatos puros". Para compreender uma revolução, uma guerra ou uma transformação social, precisa possuir alguma compreensão prévia do que significa agir politicamente, exercer poder, resistir, obedecer, conquistar, perder, negociar etc. Ricoeur aproxima essa dimensão da fenomenologia e da hermenêutica, sobretudo por meio de sua interlocução com Heidegger. A ação humana já possui uma estrutura temporal antes de ser narrada. O presente da ação carrega expectativas relativas ao futuro e retenções ou referências ao passado. A consequência para a Teoria da História é importante: O historiador já trabalha, portanto, dentro de uma compreensão prévia da ação. 3. Mimese II — a configuração narrativa É na Mimese II que aparece o momento propriamente configurador da narrativa. ricoeur-p-tempo-e-narrativa-tom… a narrativa histórica não é uma operação que começa diante de fatos absolutamente neutros; ela parte de um mundo humano previamente estruturado como mundo de ações significativas. Aqui Ricoeur retoma Aristóteles e sua teoria da mythos, ou seja, da intriga. A narrativa reúne elementos heterogêneos e estabelece entre eles uma determinada configuração temporal. Essa configuração possui uma característica particularmente importante: ela produz uma síntese do heterogêneo. Uma narrativa pode reunir: acontecimentos; personagens; circunstâncias; intenções; acasos; conflitos; consequências; mudanças; diferentes ritmos temporais. A narrativa transforma essa multiplicidade em uma totalidade inteligível. É nesse ponto que Ricoeur trabalha com a tensão entre concordância e discordância. A vida histórica apresenta rupturas, acidentes, contingências e acontecimentos inesperados. A narrativa, contudo, estabelece relações entre esses elementos. Ela cria uma ordem sem simplesmente eliminar a contingência. Isso é particularmente importante para a história: configurar não significa inventar arbitrariamente. O historiador estabelece conexões entre acontecimentos, mas essas conexões precisam manter relação com aquilo que efetivamente aconteceu e com os vestígios disponíveis. Nas páginas dedicadas à configuração, Ricoeur insiste justamente na capacidade da intriga de articular diferentes dimensões temporais e diferentes elementos da ação. A narrativa constitui uma mediação entre acontecimentos dispersos e uma totalidade compreensível. 4. Mimese III — a refiguração A terceira mimese ocorre no momento da leitura. A narrativa configurada pelo autor encontra o mundo do leitor e retorna à experiência. Por isso Ricoeur não concebe a narrativa como uma estrutura fechada. ricoeur-p-tempo-e-narrativa-tom… Há um movimento: mundo da ação → configuração narrativa → leitura/interpretação → mundo da ação novamente compreendido. É o chamado círculo hermenêutico da narratividade e da temporalidade. O leitor não simplesmente recebe uma informação. Ao interpretar uma narrativa, ele pode modificar sua própria compreensão da ação e do tempo. Isso significa que a narrativa possui uma dimensão transformadora. Na passagem dedicada à Mimese III, Ricoeur caracteriza justamente a necessidade de pensar a narrativa como um processo circular: aquilo que é narrado nasce de uma experiência previamente estruturada, é configurado pelo texto e retorna à experiência por meio da leitura. 5. O ponto decisivo para a Teoria da História É aqui que o capítulo se torna particularmente relevante para a Teoria da História. Ricoeur permite superar uma oposição bastante rígida: "ou a história é ciência dos fatos, ou é narrativa." Para ele, a questão é mais complexa. A historiografia possui uma relação específica com o passado, uma pretensão referencial: ela pretende falar de acontecimentos, pessoas e processos que efetivamente ocorreram. Mas essa referência ao passado não elimina a dimensão narrativa. O historiador precisa selecionar acontecimentos, estabelecer relações, determinar sequências, distinguir causas e consequências, identificar mudanças e permanências e produzir uma configuração temporal. Portanto, mesmo quando trabalha com documentação e procedimentos críticos, o historiador realiza uma operação de configuração narrativa. Isso não significa dizer que história e ficção são a mesma coisa. Essa distinção é fundamental. ricoeur-p-tempo-e-narrativa-tom… A narrativa histórica está submetida a exigências específicas de referência, documentação, argumentação e crítica. A narrativa ficcional possui outro regime de referência. Ricoeur estáinteressado justamente em compreender como ambas podem compartilhar estruturas narrativas sem que isso implique sua identidade. A consequência epistemológica é bastante forte: Essa formulação constitui uma das contribuições mais fecundas de Ricoeur para a Teoria da História. 6. Narrativa não significa "invenção" Um cuidado importante na leitura do capítulo é não confundir configuração narrativa com fabricação arbitrária. Se o historiador organiza os acontecimentos em uma narrativa, isso não significa que ele possa estabelecer qualquer relação entre eles. Existe uma diferença entre: configurar o passado e inventar o passado. A configuração narrativa está limitada pelos acontecimentos, documentos, testemunhos e demais formas de evidência histórica. Nesse sentido, Ricoeur oferece uma posição intermediária entre duas perspectivas extremas. De um lado, estaria uma concepção positivista, segundo a qual o historiador simplesmente recuperaria os fatos tal como ocorreram e os colocaria em ordem. De outro, uma concepção radicalmente construtivista, segundo a qual o passado seria apenas produto da narrativa do historiador. Ricoeur não aceita nenhuma das duas posições. o caráter narrativo da historiografia não destrói sua pretensão de verdade; ele obriga a compreender de que maneira a verdade histórica é construída narrativamente. O passado possui uma alteridade que resiste ao historiador, mas só pode tornar-se inteligível por meio de operações de configuração e interpretação. 7. O tempo histórico como tempo narrado Outro aspecto fundamental é que Ricoeur não está simplesmente perguntando "como contar acontecimentos históricos". A questão é mais profunda: como a narrativa torna possível uma determinada experiência do tempo? O tempo narrado possui características que não correspondem à simples sucessão cronológica. Uma narrativa pode: acelerar anos em algumas páginas; interromper a sequência cronológica; retornar ao passado; antecipar acontecimentos futuros; estabelecer relações entre acontecimentos distantes; apresentar simultaneamente diferentes temporalidades. O tempo da narrativa, portanto, não é simplesmente o tempo do relógio ou do calendário. Isso é extremamente produtivo para a história porque o historiador também trabalha com diferentes escalas temporais. A Revolução Francesa, por exemplo, pode ser narrada como uma sequência de acontecimentos entre 1789 e 1799. Mas pode também ser interpretada como resultado de processos sociais, econômicos e políticos que começaram décadas antes e produziram consequências durante décadas posteriores. A narrativa permite articular essas diferentes dimensões. 8. Ricoeur contra uma concepção ingênua de cronologia Da perspectiva da Teoria da História, talvez uma das maiores contribuições do capítulo seja mostrar que tempo histórico não pode ser reduzido à cronologia. Uma cronologia diz: Uma narrativa histórica procura responder: A narrativa, portanto, transforma a mera sucessão em temporalidade histórica significativa. Essa diferença é decisiva para a historiografia. 9. Uma leitura crítica: o risco da "coerência retrospectiva" Entretanto, a proposta de Ricoeur também levanta um problema crítico. Ao transformar acontecimentos dispersos em uma intriga, o historiador pode produzir uma impressão de necessidade que não existia para os agentes históricos. Depois que conhecemos o resultado de um processo histórico, parece frequentemente que os acontecimentos conduziam inevitavelmente àquele resultado. Mas os indivíduos do passado não conheciam o futuro. Essa questão aparece de maneira particularmente importante quando pensamos na relação entre contingência e narrativa. A história vivida é aberta, incerta e marcada por possibilidades. A história narrada, por sua vez, apresenta uma estrutura retrospectiva. Esse é um dos grandes problemas epistemológicos da narrativa histórica: como produzir inteligibilidade sem transformar retrospectivamente a contingência em necessidade? Ricoeur é particularmente interessante justamente porque a configuração narrativa não elimina completamente a discordância. Pelo contrário, a narrativa precisa conservar uma tensão entre concordância e discordância. A aconteceu antes de B, que aconteceu antes de C. Por que A é significativo para compreender B? O que mudou entre A e B? Que possibilidades estavam abertas? Como determinado acontecimento modificou o curso dos acontecimentos? Como os agentes daquele período experimentavam passado, presente e futuro? 10. O círculo hermenêutico e o trabalho do historiador A estrutura das três mimese também permite pensar o próprio trabalho historiográfico como um processo hermenêutico: Mimese I → o historiador parte de um mundo de ações e significados. Mimese II → seleciona, articula e configura acontecimentos em uma narrativa. Mimese III → essa narrativa é interpretada e retorna ao mundo histórico, modificando nossa compreensão dele. Assim, a historiografia não é simplesmente uma janela transparente para o passado. Ela é uma mediação entre passado, narrativa e compreensão presente. Esse ponto aproxima Ricoeur de uma concepção hermenêutica da história: compreender o passado significa estabelecer uma relação interpretativa com ele, e não simplesmente reproduzi-lo. 11. Avaliação crítica O grande mérito do capítulo está em apresentar uma alternativa sofisticada para o problema clássico da relação entre história, narrativa e verdade. Ricoeur consegue evitar dois reducionismos. O primeiro seria reduzir a história à narrativa, como se os acontecimentos históricos fossem apenas construções discursivas. O segundo seria reduzir a história aos fatos, como se os fatos pudessem falar por si mesmos sem seleção, interpretação e configuração. Sua proposta é mediadora: o passado possui uma realidade que resiste à narrativa, mas essa realidade só pode tornar-se historicamente inteligível através de operações narrativas e hermenêuticas. Essa perspectiva é particularmente importante para compreender a historiografia contemporânea, sobretudo depois da chamada "virada linguística". Ricoeur reconhece a dimensão narrativa da história sem aceitar a conclusão de que, por ser narrativa, a história seria simplesmente ficção. 12. Conclusão: a importância do capítulo para a Teoria da História O capítulo 3 pode ser considerado fundamental porque Ricoeur desloca a questão da narrativa de um problema puramente literário para uma questão epistemológica e ontológica da experiência histórica. A pergunta deixa de ser apenas: e passa a ser: A resposta está na tríplice mimese: experiência temporal e ação → configuração narrativa → refiguração pela interpretação. A principal consequência para a Teoria da História é que a narrativa não é um simples recurso estilístico da historiografia. Ela constitui uma das operações fundamentais através das quais os acontecimentos dispersos do passado podem adquirir inteligibilidade temporal. Ao mesmo tempo, Ricoeur não autoriza concluir que "toda história é ficção". A narrativa histórica continua submetida à referência ao passado, à evidência documental e à exigência de verdade. O que ele demonstra é algo mais complexo: a verdade histórica não se encontra em oposição à narrativa; ela precisa ser pensada através das mediações narrativas pelas quais o passado se torna compreensível. Nesse sentido, o capítulo oferece uma ponte entre fenomenologia do tempo, hermenêutica, teoria da narrativa e epistemologia da história. E talvez seja justamente essa capacidade de ocupar o espaço intermediário entre o acontecimento e sua representação, entre experiência e discurso, que torna Tempo e narrativa tão importante para a Teoria da História. A própria estrutura do capítulo confirma essa intenção: depois da análise da configuração narrativa, Ricoeur encaminha a discussão para o problema do tempo narrado, antes de "Como o historiador conta uma história?" "Como a narrativa configura nossa experiênciatemporal e torna o passado historicamente inteligível?" Esta conversa foi útil até agora? passar, no capítulo seguinte, especificamente para a relação entre história e narrativa. Em uma fórmula: para Ricoeur, o passado não é simplesmente narrado porque já possui uma história; ele se torna historicamente inteligível por meio da configuração narrativa de uma experiência temporal que permanece, ao mesmo tempo, ligada à realidade que a narrativa pretende compreender. ricoeur-p-tempo-e-narrativa-tom… Fontes