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DEUS PROFESSOR, DEUS PROFESSORA? ovas exigencias educacionais profissao docente 0 ,, U• ·-"'C cu IU M - questoes da nos~a , epoca vo lume2 @ C.ORTEZ '8iEDITOR~ Questoes da Nossa Epoca Volume 2 Dados lnternacionais de Catalogac;ao na Publicac;ao (CIP) (Camara Brasileira do Livro , SP, Brasil) Libaneo, Jose Carlos Adeus professor, adeus professora? : novas exig€mcias educacionais e profissao docente I Jose Carlos Libaneo. -- 13. ed. - Sao Paulo : Cortez, 2011. - (Colevao questoes da nossa epoca; v. 2) ISBN 978-85-249-1594-9 1. Inovav6es educacionais - Avaliavao 2. Pratica de ensino 3. Professores - Brasil4. Professores - Formavao profissional I. Titulo. II. Titulo: Novas exigencias educacionais e profissao docente. III. Serie. 10-03287 CDD-370.71 indices para catalogo sistematico: 1. Professores: Formac;:ao profissional: Educavao 370.71 Jose Carlos Libaneo ADEUS PROFESSOR, ADEUS PROFESSORA? Novas exigencias educacionais e profissao docente 13a edi~ao 2• reimpressao ADEUS PROFESSOR, ADEUS PROFESSORA? Novas exigencias educacionais e profissao docente Jose Carlos Libaneo Capa: aeroestudio Preparar;;iio de originais: Solange Martins Revisiio: Maria de Lourdes de Almeida Composir;;iio: Linea Editora Ltda . Coordenar;;iio editorial: Danilo A. Q Morales Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou duplicada sem autorizac;:ao expressa do autor e do editor. 1992 by Autor Direitos para esta edic;:ao CORTEZ EDITORA Rua Monte Alegre, 1074 - Perdizes 05014-001 -Sao Paulo - SP Thl.: (ll) 3864-0lll Fax: (ll) 3864-4290 E-mail: cortez@cortezeditora.com.br www.cortezeditora .com.br Impressa no Brasil - fevereiro de 2013 Aos irmaos Libimeo: Thresa, Lucia, Joao, Luis, Ana. Como eu, o Carlos, cresceram na pobreza material e na riqueza cultural de nossos pais semianalfabetos e, de alguma forma, cada urn a seu modo, transfor maram-se em professores. 7 Sumario Introdu9ao . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 9 I. Profissao professor ou Adeus professor, Adeus professora? - exigencias educacionais contemponineas e novas atitudes docentes ........................ ..... ..... .... .. ... .. 15 A escolarizaJose C. Diddtica. Sao Paulo: Cortez, 1995. ___ . Pedagogia e modernidade: Presente e futuro da escola. In: GHIRA.LDELLI Jr., Paulo (Org.). Infancia, escola e modemida- de. Sao Paulo: Cortez, 1996a. ___ . Exigencias educacionais contemporaneas e meio? de comunicac;;ao. go Encontro Nacional de Video e Educayiio, Sao Pau lo: Senac, 1996b. LUFTI, Eulina P. et alii. Rua e escola: compasses. In: PONTUS CHKA, Nidia N. (org.). 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Cademos Anped (16 3 Reuniao Anual da Anped), Belo Horizonte, (6): 7-28, out. 1994. 55 II AS NOVAS TECNOLOGIAS DA - - COMUNICA~AO E INFORMA~AO, A ESCOLA E OS PROFESSORES* Educaed~cativas resultam, ao mesmo tempo, em ampliac;;ao das ac;;5es pedag6gicas. Nos meios profissionais, politicos, sindicais, empresariais, nos meios de comunicac;;ao social, nos movimemtos da socie dade civil, assiste-se a uma redescoberta da pedaggia. Estamos diante de uma sociedade pedag6gica. Vejamos alguns exemplos. Esta se acentuando o poder pedag6gico dos meios de comunicac;;ao: televisao, impren sa escrita, radio, revistas, quadrinhos. A midia especializa -se em formar opiniao e modificar atitudes, nao apenas no campo economico e politico mas, especialmente, no campo moral. Vemos diariamente a veiculac;;ao, a dissemi nac;;ao de saberes e modos de agir, por meio de programas, vinhetas e chamadas sobre educac;;ao ambiental, AIDS, drogas, saude. Ha praticas pedag6gicas nos jornais, nas radios, na produc;;ao de material informativo, como livros didaticos e paradidaticos, enciclopedias, guias de turismo, rna pas, videos, revistas; na criac;;ao e elaborac;;ao de jogos, brinquedos; nas empresas, ha atividades de supervisao do trabalho, orientac;;ao de estagiarios, formac;;ao profissional em servic;;o. Desenvolvem-se em todo lugar iniciativas de formac;;ao continuada nas escolas, nas industrias. As ad- ADEUS PROFESSOR, ADEUS PROFESSORA? 59 ministrac;;5es municipais e outras instituic;;oes ate agora a margem do mundo pedag6gico, como empresas, meios de comunicac;;ao, museus, bibliotecas, vern colocando, entre seus objetivos, estrategias pedag6gicas. Qual e o sentido de dizer que muitos especialistas ligados aos meios de comunicac;;ao sao, ao menos em sentido amplo, pedagogos? Por que minha insistencia em trazer urn discurso pedag6gico num encontro de video e educac;;ao? A resposta e simples. Fazer uma lei tura pedag6gica dos meios de comunicac;;ao e verificar a intencionalidade dos processos comunicativos (de natu reza politica, etica, psicol6gica, didatica) presentes nas novas tecnologias da comunicac;;ao e da informac;;ao e nas formas de intervenc;;ao metodol6gica e organizativa. Isso ressalta a importancia dos objetivos sociopoliticos dos processos comunicacionais e a discussao, pelos edu cadores, de uma proposta educacional, de urn projeto cultural e educativo que tenha origem num projeto de gestao da sociedade. 'Algumas rela~oes problematicas entre as NTCI e a educa~ao A literatura especializada tern acentuado as relac;;5es entre o sistema produtivo e o setor educacional, entre os avanc;;os tecnol6gicos e as necessidades de formac;;ao. Quero destacar quatro delas que me parecem mais pro blematicas: 60 JOSt CARLOS LIBANEO • as necessidades do novo paradigma produtivo e a propalada universalizavao da escolarizavao basica; • a multiplicidade dos meios de comunicavao na sociedade informacional e a morte da escola; • o uso da tecnologia informatica na escola e a substituivao da relavao docente; • o impacto das NTCI na escola e a pouca recepti vidade dos educadores escolares em relavao aos processos de inovayao tecnol6gica. Escolariza~ao e necessidades do novo paradigrna produtivb 0 novo paradigma produtivo acompanha o processo de internacionalizavao da economia, a globalizavao dos mercados, a intelectualizavao do processo produtivo, trazendo modificav6es no processo de produyao, no per fil dos trabalhadores, nas relav6es de trabalho, nos habi tos de consumo etc. Arma-se urn circuito integrado en volvendo os avanyos tecnol6gicos, o novo modelo de produvao e desenvolvimento, a qualificayao profissional e a educayao (Paiva, 1 993). A nova economia da educavao, em boa parte sustentada na inovavao tecnol6gica, estaria supondo bases mfnimas de escolarizavao que o capital precisaria para fazer frente a novas necessidades de qua lificavao e requalificavao profissional, o que implicaria uma acentuavao da formavao geral. Por urn lado, a tendencia de intelectualizavao do processo produtivo e visfvel. Outra coisa e acreditar que ADEUS PROFESSOR, ADEUS PROFESSORA? 61 essa revalorizavao da formavao geral nesse novo tipo de capitalismo tenha sentido democratizante. Na verdade, o chamado modelo neoliberal de educavao estaria subordi nando alvos polftico-sociais ( equidade, cidadania, demo cracia) a intentos estritamente econ6micos (desenvolvi mento tecnol6gico, leis de mercado, competitividade internacional). Thdavia, uma omissao dos educadores em relavao as demandas sociais postas pelo novo paradigma do processo produtivo tenderia a ser prejudicial aos in teresses dos setores sociais exclufdos. A resistencia a uma ampla difusao nas escolas publicas das novas tecnologias da informavao e da comunicavao, sob o argumento de estarem inseridas na l6gica do mercado e da globalizavao cultural teria como efeito mais exclusao e mais seletivi- ' dade social, uma vez que sua nao integravao as praticas de ensino impediriam aos alunos oportunidades de re cepyao e emissao da informavao, deixando-os desguar necidos diante Cias investidas de manipulavao cultural e polftica, de homogeneizavao de crenvas, gostos e desejos, de substituivao do conhecimento pela informavao. Nao e just6, .portanto, que ao lado da intensificayao da produQao e difusao da informavao ocorra o alijamen t~ de volumoso contingente da populaQao dos resultados desse processo. Do ponto de vista de uma educavao emancipat6ria, ha que se reforvar a exigencia do aprimo ramento do ensino fundamental para a populavao excluf da, a partir de parametros de qualidade diferenciados daqueles veiculados no discurso do neoliberalismo. Al guns autores vern adotando a expressao "qualidade social da educavao". E certo que os requisitos de democracia, 62 JOS~ CARLOS UBANEO cidadania, participa9ao, direitos sociais, compoem o con ceito de qualidade social. Mas tern importancia peculiar a qualidade cognitiva dos processos de ensino e aprendi zagem. Assmann (1995) faz urn alerta incisivo: "se todas as demais cofldi96es necessarias melhorarem mas os alunos nao aprenderem mais e melhor, nao ha melhoria na qualidade da educa9ao". Uma teoria critica da educa9ao proporia urn proces so formativo abrangendo a totalid~de do ser humano, nas suas dimensoes fisica, afetiva, cognitiva, nao se reduzin do a dimensao econ6mica. Mas e preciso traduzir objeti vos genericos em metas e praticas mais e'specificas para as escolas. A associayao de prop6sitos da educa9ao er.nan cipat6ria com as demandas das novas realidades sociais, econ6micas, culturais, poderia estar apontando para as seguintes tendencias: - Qualifica9ao mais elevada e de melhor qualidade de carater geral do trabalhador, inclusive como condi9ao para quebrar a rigidez da tecnologia, centrada no desen volvimento de capacidades cognitivas e operativas en caminhadas para urn pensamento aut6nomo, critico, criativo. - Capacita9ao tecnol6gica para que os trabalhadores possam exercer mais controle sabre suas condi96es de trabalho, de modo que nao busquem competencia apenas em tarefas fixas e previsiveis, mas compreendam a tota lidade do processo de produ9ao. - Desenvolvimento de novas atitudes e disposi96es sociomotivacionais relacionadas como trabalho: respon- ADEUS PROFESSOR, ADEUS PROFESSORA? 63 sabilidade, iniciativa, flexibilidade de mudan9a de papeis e rapida adaptayaO a maquinas e ferramentas e formas de trabalho que envolvem equipes interdisciplinares e heterogeneas (Paiva, 1993). - CapacitayaO para a cidadania e formayaO etica, para criar bases para uma sociedade organizada capaz de fazer o enfrentamento critico da globalizavao. Os educadores criticos estao desafiados a repensar objetivos e processos pedag6gico-didaticos em sua cone xao com as rela96es entre educa9ao e economia, educa vao e sociedade tecnico-cientifica-informacional, para alem dos discursos contra o dominio do mercado e a exclusao social. Sociedade informacional e morte da escola ( desescolarizapio J Outro posicionamento decorrente da analisedo im pacto das NTC1 n~ educa9ao e o de descartar o papel da escola na sociedade informacional. Numa sociedade ca ;acterizada pela multiplicidade de meios de comunica9ao e informavao, nao teria lugar para a escola convencional, a escola do quadro-negro e giz. Venda as dificuldades da escola em acompanhar e utilizar as NTCI, alguns autores, ja no inicio dos anos 1970, em plena epoca de expansao econ6mica, falavam de uma sociedade sem escolas. Assim, Illich, E. Reimer, McLuhan, P. Goodman, principalmente, anunciaram a possibilidade 64 JOS~ CARLOS UBANEO de suprir necessidades de formac;ao em complexes cen tres de informac;ao, por meio de novas tecnologias (TV, video, computadores etc.). 0 jornal Folha de S.Paulo, de 29.7.96, publicou artigo do senador Darcy Ribeiro sobre sua ideia de criar uma Central de Tele-educac;ao e Multi midia. A ideia do senador e criativa, mas parece compac tuar com a onda desfavoravel a escola convencional. Obviamente, nao se trata de negar QS avanc;os tec nol6gicos, o uso mais ampliado de midias e multimidias e os centros especializados de iriformac;ao. Entretanto, quantas crianc;as e jovens podem usufruir destas condi c;oes? Sabemos que ha urn numero imenso de crianc;as brasileiras que precisam da escola, que nao dispoem dos aparatos informacionais. Na avaliac;ao das NTCI,, nao podemos perder de vista o essencial, o criterio sociopo litico, a desigualdade social. Entretanto, a defesa da escola nao se faz apenas pelo criterio sociopolitico. Mesmo se houvesse uma acentuada oferta de meios de comunicac;ao social extraescola, ainda assim haveria lugar para escola na sociedade tecnol6gica e da informac;ao. Ela cumpre func;oes que nao sao provi das por nenhuma outra instancia. Sea curto prazo essas func;oes referem-se ao suprimento da formac;ao geral, capacidade de ler, escrever, e formac;ao cientifica basica e estetica, a longo prazo e preciso pensar a escola conver tendo-se num "espac;o de sintese", configurando-se como "espac;o de espac;os" (Colom Ca:fiellas, 1994). Em parte, a escola de hoje ja necessita constituir-se nesse espac;o de sintese. Em muitos lugares, mesmo considerando a pobreza do interior da escola, ja se ve • ADEUS PROFESSOR, ADEUS PROFESSORA? 65 uma sociedade culturalizada pela informac;ao das multi midias (no nosso caso, basicamente, peia televisao). Noutros Iugares, ja se percebe a intervenc;ao educativa urbana, nao apenas peia presenc;a das NTCI nas residen cias e nos afazeres cotidianos, como tambem a cada dia multipias instituic;oes civicas e sociais, politicas e cultu rais, vao pondo em pratica pianos e programas de cuitu ra participativa em nivei comunitario, peio que nossas ruas e prac;as, museus, teatros etc. sao frequentemente utilizados para desenvoiver estrategias de intervenc;ao educativa e obter uma culturalizac;ao ativa, nao determi nada, livre, experienciada, que tambem aporta toda uma serie de vaiores muito positives. :E verdade que esses fatos nao podem ser generali zados, dada a heterogeneidade do pais e a ausencia de politicas educativas globalizadas. Nem a escoia poderia substituir essa ; ica pratica educativa em contextos infor mais. Pode, todavia, conectar-se com elas ao eiaborar seus programas e pianos pedag6gicos. .. ~ Que significa essa ideia da escoia como "espac;o de sjntese"? :E considera-Ia como Iugar onde os aiunos apren dem a razao critica para poderem atribuir significados as mensagens e informac;oes recebidas das midias, multi midias e formas de intervenc;ao educativa urbana. Varias pesquisas tern mostrado a fragmentac;ao dos programas de TV, videos, da propaganda, que propiciam uma cultu ra em mosaico. A escoia cabe prover as condic;oes cogni tivas e afetivas para o aluno poder reordenar e reestru turar essa cuitura (Idem, 77). 66 JOS~ CARLOS LIBANEO A escola brasileira, especialmente a escola publica, nao podera ainda desfazer-se de urn papel provedor de informac;::ao. Entretanto, aos poucos, pode ir se tornando cada vez mais uma estrutura possibilitadora de atribuic;::ao de significados da informac;::ao, propiciando aos alunos os meios de busca-la, analisa-la, para dar a ela significado pessoal. Junto a essa func;::ao reestruturante e organizadora das informac;::oes e aportes culturais recebidos multiva riadamente, fazendo a sintese entre a cultura formal e a cultura experienciada, e necessaria que a escola propicie nao s6 o dominio de linguagens para busca'·de informac;::ao, mas tambem para a criac;::ao da informac;::ao. Ou sejq., uti lizando a linguagem comunicacional, a escola cabera nao s6 sintetizar reordenando e reestruturando as diversas mensagens, como tera que articular, tambem, suas capa cidades receptivas com suas possibilidades emissoras. This tarefas em func;::ao de uma nova funcionalidade da escola requerem uma nova atitude dos educadores pe rante as NTCI. Tecnologia informatica e substituip1o da rela~ao docente Junto com a instituic;;ao escolar, tambem sao pastas em questao as praticas convencionais de ensino e aprendizagem. A tecnologizac;::ao do ensino incentiva a crenc;::a de que o computador e outras midias podem substituir a relac;;ao pedag6gica convencional. Cria-se, com isso, a ilusao tecno-informacional de que e possi- ADEUS PROFESSOR, ADEUS PROFESSORA? 67 vel a aprendizagem completa apenas com a presenc;::a do aluno diante dos equipamentos informaticos. Natu ralmente nao se trata de resistir a utilizac;::ao das midias no ensino, mas de denunciar a exclusao do educador e de outras mediac;::oes relacionais e cognitivas no proces so de aprendizagem. A tese da substituic;::ao da relac;::ao docente esta obvia mente associada a determinado paradigma de qualidade da educac;::ao em que importaria mais o saber fazer e o saber usar do que uma formac;::ao cultural salida. Ou seja, o pensar eficientemente e uma questao de "saber como se faz algo". A aprendizagem nao e mais do que o dominio de comportamentos praticos que transformem o aluno num sujeito competente em tecnicas e habilidades. Entretanto, descaracterizar o sentido da aprendiza gem escolar em decorrencia da presenc;::a das inovac;::oes tecnol6gicas ~ obviamente urn equivoco. 0 valor da aprendizagem escolar esta, precisamente, em introduzir os alunos nos significados da cultura e da ciencia por meio de mediac;::oes cognitivas e interacionais que supoem a relac;::ao docent~. Por outro lado, e certo que as praticas docentes re cebem o impacto das novas tecnologias da comunicac;::ao e da informac;::ao, provocando uma reviravolta nos modos mais convencionais de educar e ensinar. Mas o pedagogo acredita que a formac;::ao cultural basica e o suporte da formac;::ao tecnol6gica. Ou seja, a utilizac;::ao pedag6gica das tecnologias da informac;;ao pode trazer efeitos cogni tivos relevantes, estes porem nao podem ser atribuidos somente a essas tecnologias. 68 JOSE CARLOS UBANEO lmpacto das NTCI e resistencias dos educadores escolares E sabido que os professores e especialistas de educa c;ao ligados ao _setor escolar tendem a resistir a inovac;ao tecnol6gica, e expressam dificuldade em assumir, te6rica e praticamente, disposic;ao favoravel a uma formac;ao tec nol6gica. Ha razoes culturais, politicas, sociais para essa resistencia, que geram atitudes difusas e ainbivalentes. Por urn lado, e verdade que, e.m nosso pais, a associa c;ao entre educac;ao e desenvolvimento tecnol6gico foi propiciada por uma visao tecnicista, no quapro da ditadura militar, gerando uma resistencia de natu~eza politi~a a tecnologia. Mas ha, tambem, razoes culturais e sociais c'bmo certo temor pela maquina e equipamentos eletr6nicos, medo da despersonalizac;ao e de ser substituido pelo com putador, ameac;a ao emprego, precaria formac;ao cultural e cientifica ou formac;ao que nao inclui a tecnologia. This resistencias precisam ser trabalhadas na forma c;ao inicial e continuadade professores por meio de inte grac;ao das NTCI nos curriculos, de desenvolvimento de habilidades cognitivas e operativas para o uso das midias e formac;ao de atitudes favoraveis ao seu emprego e a inovac;ao tecnol6gica em geral (Vazquez Gomez, 1994). lntegra~ao dos meios de comunica~ao na escola Para que se utilizam as NTCI na educac;ao? Qual e o lugar das NTCI na escola? Proponho os seguintes objeti- ADEUS PROFESSOR, ADEUS PROFESSORA? 69 vos pedag6gicos do uso das novas tecnologias e dos meios de comunicac;ao: a) Contribuir para a democratizac;ao de saberes so cialmente significativos e desenvolvimento de capacida des intelectuais e afetivas, tendo em vista a formac;ao de cidadaos contemporimeos. Mais precisamente, contribuir para aprimoramento das capacidades cognitivas, esteticas e operativas dos alunos: favorecer dominio de estrategias de aprendizagem, capacidade de transferencia e comu nicac;ao do aprendido, analise e soluc;ao de problemas, capacidade de pensar criticamente etc. b) Possibilitar a todos oportunidades de aprender sabre midias e multimidias e a interagir com elas. Ou seja, propiciar a construc;ao de conteudos referentes a comunicac;ao cultural (as que praticamos e as que prati cam conosco), as tecnologias da comunicac;ao e informa c;ao, as habilidades no uso dessas tecnologias, as atitudes criticas perante a produc;ao social da comunicac;ao hu mana eo mundo tecnol6gico. c) Propiciar preparac;ao tecnol6gica comunicacional, para desenvolver competencias, habilidades e atitudes para viver num mundo que se "informatiza" cada vez mais. d) Aprimorar o processo comunicacional entre os agentes da ac;ao docente-discente e entre estes e os sabe res significativos da cultura e da ciencia. A ideia basica de suporte dessa funcionalidade das NTCI e a de que os meios de comunicac;ao social, isto e, as midias e multimidias, compoem o conjunto das me diac;oes culturais que caracterizam o ensino. Como inter- 70 JOSE CARLOS LIBANEO mediaQ6es culturais, sao portadoras de ideias, emoQ6es, atitudes, habilidades, e, portanto, traduzem-se em obje tivos, conteudos, metodos de ensino (Rezende e Fusari, 1994, p. 2-3). Essa funQao de mediaQao, tanto quanto as demais mediaQoes do ensino, atua no sentido de prover condiQ6es e modos de assegurar a relaQao cognitiva e interativa dos alunos com os objetos de conhecimento. Incluem-se, portanto, entre os elementos.didaticos pro piciadores e mobilizadores das interaQ5es dos alunos com os conhecimentos, habilidades, atitudes e valores da cultura organizada. Rezende e Fusari refere-se, tambem;._a uma trama comunicacional de cultura existente na vida escolar 1 , em que as comunicaQ6es sobre as pessoas e suas vidas' vei culadas na televisao, video, radio, telas de computador, livros, jornais, revistas etc. entrecruzam-se com as con cepQ6es de mundo e as praticas comunicadas por educa dores e educandos na sala de aula por meio do quadro de giz, das falas, dos livros, cadernos, ilustraQ6es, videos, computadores etc. (Idem, p. 11 ). Entendendo assim, as midias apresentam-se, pedago gicamente, sob tres formas: como conteudo escolar inte grante das varias disciplinas do curricula, portanto, porta doras de informaQao, ideias, emoQ6es, valores; como competencias e atitudes profissionais; e como meios tec nol6gicos de comunicaQao humana (visuais, cenicos, verbais, sonoros, audiovisuais) dirigidos para o ensinar a pensar, ensinar a aprender a aprender, implicando, par tanto, efeitos didaticos como: desenvolvimento de pensa mento aut6nomo, estrategias cognitivas, autonomia para ADEUS PROFESSOR, ADEUS PROFESSORA? 71 organizar e dirigir seu proprio processo de aprendizagem, facilidade de analise e resoluQao de problemas etc. I mplica~oes pedag6gico-didaticas A compreensao que se prop6e sobre a presenQa das NTCI na educaQao provoca uma reviravolta nas atitudes profissionais, tanto dos educadores escolares como dos criadores e realizadores de midias. Os educadores esco lares tern uma not6ria resistencia a tecnologia e aos meios de comunicaQao eletr6nicos. Quando muito, entendem a introduQao das NTCI na escola como o uso do compu tador e do video. Ha, inclusive, indicios de que o uso do computador nas escolas dificilmente ultrapassa a expe riencia de aprender "sobre" o computador, raramente "no ou por meio do"• computador. Thl como den uncia Rezen de e Fusari, as midias sao utilizadas meramente como "recursos didaticos" ou como mais urn ingrediente dos "recursos audioyisuais". Diante da complexidade das relaQ5es comunicacio nais no mundo contemporaneo, os educadores escolares precisam "aprender a pensar e a praticar comunicaQ6es midiatizadas" como requisito para a formaQao da cidada nia. Nao basta que os professores disponham, na escola, dos meios de comunicaQao ou apenas saberem usa-los. :E preciso que aprendam a elaborar e a intervir no pro cesso comunicacional que se realiza entre professores e alunos por meio de midias (Rezende e Fusari, 1996). Contra uma ideia linear e mecanica sobre o uso das 72 JOSt CARLOS UBANEO midias, 2 e preciso que professores e alunos elaborem e transformem ideias, sentimentos, atitudes, valores, uti lizando articuladamente multiplas midias, escolares e nao escolares. Sobre a necessidade de educar para a midia, Belloni (1992) escreve que, com a perda relativa das funda vera cidade, precisao e integridade da informapara indicar o conteudo que, ate ha alguns anos, cobria o termo "educaa reconfigurac;ao da identidade profissional e melhoria da imagem do professor, inclusive para au mentar o numero de candidates a profissao. Especificamente quanta as praticas de formac;ao de professores, a tendencia investigativa mais recente e mais forte e a que concebe o ensino como atividade reflexiva. Ttata-se de urn conceito que perpassa nao apenas a for mac;ao de professores como tambem o curricula, o ensino, a metodologia de docencia. A ideia e a de que o professor possa "pensar" sua pratica, ou em outros termos, que o professor desenvolva a capacidade reflexiva sabre sua ADEUS PROFESSOR, ADEUS PROFESSORA? 85 propria pratica. Thl capacidade implicaria por parte do professor uma intencionalidade e uma reflexao sabre seu trabalho. Para Zeichner (1993), o movimento da pratica reflexiva atribui ao professor urn papel ativo na formula c;ao dos objetivos e meios do trabalho, entendendo que os professores tambem tern teorias que podem contribuir para a construc;ao de conhecimentos sabre o ensino.3 Uma posic;ao mais ampliada sabre o assunto seria a de que, junto a ideia de OS sujeitos da formac;ao inicial e continuada submeterem os problemas da pratica docen te a uma critica reflexiva, desenvolvam simultaneamen te uma apropriac;ao teorica da realidade em questao. Quero destacar a necessidade da reflexao sabre a pratica para a apropriac;ao e produc;ao de teorias, como marco para as melhorias das praticas de ensino. Ttata-se da formac;ao do profissional critico-reflexivo, na qual o pro fessor e ajudado a compreender o seu proprio pensamen to e a refletir de modo critico sabre sua pratica. A ideia e assim definida por Contreras: ~ Qualquer processo de reflexao que se empreenda, maneja obrigatoriamente a relados professores do nosso pais. Vivemos, com razao, urn surto de pessimismo. A cada dia que passa aumentam os paradoxos entre a profissionalizaE dificil pensar na possibilidade de educar fora de uma situaobre suas praticas. Nas Delegacias regionais de ensino, em cada Estado, seria instalado urn Setor de Apoio a Formaespecialistas em educac;;ao, abrangendo varias areas de atuac;;ao profissional: coordenac;;ao pedag6gica de es colas, direc;;ao de escolas, planejamento e avaliac;;ao edu cacional, informatica educativa, comunicac;;ao e produc;ao de materiais didaticos, pesquisa, produc;;ao de midias e ADEUS PROFESSOR, ADEUS PROFESSORA? 99 outros materiais didaticos (pedagogia da imagem), peda gogia empresarial, psicopedagogia, orientac;;ao educacio nal, animac;;ao cultural. Esse curso estaria centrado na ideia do pedagogo como urn pratico-te6rico da ac;;ao edu cativa e da pedagogia como ciencia de pratica educativa (cf. Pimenta, 1997; Libaneo, 1998). Os cursos de licenciatura corresponderiam aos cursos mencionados acima nos itens b, c, e. Quanta a formac;;ao de professores de sa a sa series, ensino mediae ensino profissionalizante, eles seriam ministrados nos ISE em concomitancia ou no final da formac;;ao te6rico-cientifica das areas especificas oferecida nos institutos basicos. Neste ultimo caso, o ingresso no ISE dar-se-ia ap6s o aluno ter cursado em tres anos as disciplinas basicas do curso de bacharelado. Seria de especial relevancia a criac;;ao no ISE do Cen tro de Apoio a Formac;;ao Continuada de Professores com I as func;;oes ja mencionadas de oferecer aos professores da rede publica de ensino e as escolas-campo de estagios, cursos e recursos materiais de apoio a docencia: biblio teca, centro de · documentac;;ao, jornais, fitas de video, .oficinas e atelies, material de esportes e lazer, salas para video, cinema, palestras, exposic;;oes, aparelhagens de sam e imagem, computadores, rede Internet etc. Alem do repensar o sistema de formac;:ao inicial e continuada, o esforc;;o na profissionalizac;ao do professora do implicaria urn vigoroso programa de aplicac;oes finan ceiras dos governos em formac;;ao continuada, especial mente visando urn Programa Nacional de Requalificac;ao Profissional de Professores, tal como ja se fez no Mexico 100 JOSt CARLOS LIBANEO e pretende-se fazer na Argentina. Em func;:ao disso, urn Acordo Nacional mediante pactos com diversos tipos de parceiros e entidades cientificas e sindicais, incorporando a sociedade civil, poderia resultar num Plano Nacional de Formac;:ao e Incentives Profissionais aos Professores. Referencias bi bl iog raficas AMIGUINHO, Abilio; CANARIO, Rui (orgs.). Escolas e mudanr;;a: 0 papel dos Centros de Formatornarem-se sujeitos pensantes, capazes de construir elementos categoriais de compreensao e apro priac;:ao critica da realidade. 12 JOSE CARLOS LIBANEO Diante dessas exig€mcias, a escola precisa oferecer servic;;os de qualidade e urn produto de qualidade, de modo que os alunos que passem por ela ganhem melho res e mais efetivas condic;;6es de exercicio da liberdade politica e intelectual. E este o desafio que se poe a edu cac;;ao escolar neste final de seculo . Para isso, professores sao necessaries, sim. 'Ibdavia, novas exigencias educacionais pedem as universidades e cursos de formac;;ao para o magisterio urn professor capaz de ajustar sua didatica ·as novas realidades da so ciedade, do conhecimento, do aluno, dos diversos uni verses culturais, dos meios de comunica((ao. 0 no'Vo professor precisaria, no minimo, de uma cultura g~ral mais ampliada, capacidade de aprender a aprender, com petencia para saber agir na sala de aula, habilidades co municativas, dominio da linguagem informacional, saber usar meios de comunicac;;ao e articular as aulas com as midias e multimidias. Para isso, ha muitas outras tarefas pela frente . E preciso resgatar a profissionalidade do professor, recon figurar as caracteristicas de sua profissao na busca da identidade profissional. E preciso fortalecer as lutas sin dicais por salarios dignos e condic;;6es de trabalho. E preciso, junto com isso, ampliar o leque de ac;;ao dos sindicatos envolvendo tambem a luta por uma formac;;ao de qualidade, de modo que a profissao ganhe mais cre dibilidade e dignidade profissional. Faz-se necessaria, tambem, o intercambio entre formac;;ao inicial e formac;;ao continuada, de maneira que a formac;;ao dos futuros pro fessores se nutra das demandas da pratica e que os pro- ) ADEUS PROFESSOR, ADEUS PROFESSORA? 13 fessores em exercicio frequentem a universidade para discussao e analise de problemas concretes da pratica. Este livro apresenta quest6es relacionadas com novas exigencias de formac;;ao de professores postas pelas novas realidades contemporaneas, com os olhares voltados para os requisites de uma qualidade de ensino para todos, orientados por uma perspectiva emancipadora. Os tres textos foram escritos para conferencias e passaram por algumas alterac;;6es para publicac;;ao. 0 Capitulo I resultou de urn texto originalmente preparado para urn encontro sobre as licenciaturas promovido pela Unimep - Universidade Metodista de Piracicaba (SP), em 1996, tendo sido reescrito na forma de artigo para a revista Fragmentos de Cultura, Goiania, 7(26): 33-34, 1997, do Institute de Filosofia e Teologia de Goias, e como ca pitulo de livro organizado por professores da Unimep. 0 Capitulo II eo t.exto apresentado no go Encontro Nacional de Video e Educac;;ao, promovido pelo Senac e realizado em Sao Paulo, em 1996. 0 Capitulo III foi escrito com base em apontal_llentos feitos para comunicac;;ao oral no VI Encontro Nacional da ANFOPE - Associac;;ao Nacional pela Formac;;ao dos Profissionais da Educac;;ao em Belo Horizonte, em 1995. Agradec;;o as sugest6es de Lana de Souza Cavalcanti, Maria Augusta de Oliveira e Valter Soares Guimaraes, que leram previamente urn ou mais dos textos agora publi cados. Goiania, janeiro de 1998. 15 I PROFISSAO PROFESSOR OU ADEUS PROFESSOR, ADEUS PROFESSORA? Exigencias educacionais contemporaneas e novas atitudes docentes Tern sido .frequentes afirmaA participaQao das pessoas na vida politica vern perdendo forQa, as .organizaQ6es tendem a ficar enfraquecidas e diluem-se os laQOS de solidariedade entre as pessoas. No campo etico, tambem ocorrem mudanQas preo cupantes. A padronizaQao de habitos de ce nsumo e ·de gostos vai levando a uma vida moral tambem descartavel. :: 0 individualismo eo egoismo estao se acentuando. Valem mais os interesses pragmaticos e imediatos dos individuos do que principios, valores, atitudes voltados para a vida coletiva, para a solidariedade, para o respeito a vida. Na vida cotidiana, cada vez maior numero de pessoas sao atingidas pelas novas tecnologias, pelos novos habitos de consumo e induQao de novas necessidades. Pouco a pouco, a populaQao vai precisando se habituar a digitar teclas, ler mensagens no monitor, atender instruQ6es eletr6nicas. Cresce o poder dos meios de comunicaQao, especialmente a televisao, que passa a exercer urn domi nio cada vez mais forte sobre crianQas e jovens, interfe rindo nos valores e atitudes, no desenvolvimento de habilidades sensoriais e cognitivas, no provimento de informaQao mais rapida e eficiente. Como se pode perceber, as mudanQas sao considera veis e afetam nao apenas a sociedade de urn modo geral, ADEUS PROFESSOR, ADEUS PROFESSORA? 19 como a nossa vida cotidiana. Os dados com os quais pre tendemos ilustrar as transformaQ6es gerais da sociedade sao, efetivamente, tendencias do mundo atual que trazem beneficios, mas trazem, tambem, prejuizos. Principalmen te, porque os beneficios nao sao para todos, ao contrario, destinam-se a uma minoria. Assmann (1994) escreve que as empresas transnacionais trabalham com a perspectiva de 700 milhoes a 1 bilhao de consumidores potenciais com apreciavel poder aquisitivo. Considerando que o mundo tenha de 6,5 a 8 bilhoes de habitantes, o recorte da clientela para a qual se planeja a economia correspon de a cerca de 10% da populaQao mundial. Ou seja, a maioria da populaQao dos paises, especialmente os mais pobres, incluindo o Brasil, perdeu relevancia econ6mica e, certamente, entra na imensa lista dos excluidos. Referindo-se a crise deste final de seculo, Frigotto (1996) identific~ varias caracteristicas da realidade con temporanea como estrategias de recomposiQao do capi talismo. No plano socioecon6mico, o ajustamento de nossas sociedade!".a globalizaQao significa dois terQos da humanidade excluidos dos direitos basicos de sobrevi v~_encia, emprego, saude, educaQao. No plano cultural e etico-politico, a ideologia neoliberal prega 0 individualis mo e a naturalizaQao da exclusao social, considerando-se esta como sacrificio inevitavel no processo de moderni zaQao e globalizaQao da sociedade. No plano educacional, a educaQao deixa de ser urn direito e transforma-se em serviQo, em mercadoria, ao mesmo tempo que se acentua o dualismo educacional: diferentes qualidades de educa Qao para ricos e pobres. 20 JOSE CARLOS LIBANEO 0 quadro nao e alentador, mas resignar-se a ele im pede a luta por projetos alternativos de gestao politica. E preciso investir na formulaobjetivas de produc;;ao, ou seja, os avan c;;os tecnol6gicos nao resultariam meramente de uma estrategia consciente dos empresarios ou tao somente de imperatives estruturais do capitalismo, mas de uma con jugac;;ao rna is complexa de fatores (Paiva, 1993). A trari.s formac;;ao geral da sociedade repercute, sim, na educac;;ao, nas escolas, no trabalho dos professores. Embora seja verdade que tal repercussao tern se caracterizado pela subordinac;;ao da educac;;ao a economia e ao mercado com pouca ou nenhuma preocupac;;ao com a desigualdade e o destino social das pessoas, nao se pode deixar de inves tir numa proposta de escola democratica que contemple conhecimentos, habilidades e valores necessaries para a sobrevivencia no mundo complexo de hoje (Frigotto, 1996; Gimeno Sacristan, 1996). Certas demandas do processo produtivo nao podem ser ignoradas, tais como as seguintes: desenvolvimento de capacidades cognitivas e operativas encaminhadas para urn pensamento autonomo, critico, criativo; formac;;ao geral e capacit~c;;ao tecnol6gica para que os trabalhadores possam exercer mais controle sabre suas condic;;oes de trabalho, de modo a nao buscar competencia apenas em tarefas fixas e previsiveis, mas compreender a totalidade do processo de produc;;ao; qualificac;;ao mais elevada e de melhor qualidade, de carater geral do trabalhador, inclu sive como condic;;ao para quebrar a rigidez da tecnologia; desenvolvimento de novas atitudes e disposic;;oes socio motivacionais relacionadas com o trabalho: responsabili dade, iniciativa, flexibilidade de mudanc;;a de papeis e rapida adaptac;;ao a maquinas e ferramentas e formas de 24 JOSt CARLOS LIBANEO trabalho que envolvem equipes interdisciplinares e hete rogeneas ( cf., por exemplo, Paiva, 1993; Machado, 1994). 4 Assmann (1994), recusando a submissao da educa c;ao e outras ne~essidades sociais a criterios mercadol6- gicos, chama a atenc;ao, no entanto, para o fato de que nao ha praxis politica socialmente significativa que nao passe, tambem e acentuadamente, pelas mediac;oes eco n6micas. Afirma que "quem deseja discutir cidadania, tern que juntar os assuntos educac;ao e trabalho". Ou mais explicitamente: Se os educadores e as instituic;:6es educacidnais quisen!m, deveras, evitar o perigo de aderir quase exclusivamente a urn dos polos ( o vies do cidadao-cliente e o vies do cidadao -sujeito politico), deverao encarar, conjuntamente a capaci tac;:ao efetiva para empregos reais e a formac;:ao da conscien cia do sujeito socialmente responsavel. Touraine (1996), em recentes considerac;oes sabre educac;ao diante da transformac;ao geral da sociedade, aponta tres ordens de conhecimento: a ciencia funda mental (matematica, biologia, literatura, lingua); o co nhecimento economicamente orientado (preparac;ao para o mundo tecnol6gico e comunicacional); saberes social- 4. A descridestroem a cidade como 28 JOS~ CARLOS LIBANEO 0 que deve ser a escola em face dessas novas reali dades? A escola precisa deix:ar de ser meramente uma agencia transmissora de informatomando-lhes de emprestimo esquemas con- • ADEUS PROFESSOR, ADEUS PROFESSORA? 33 ceituais de analise, instrumentos e tecnicas metodol6gicas, a fim de faze-los integrar, depois de have-los comparado e julgado. Nessa no E 6bvio que a diferenc;;a nao reside simplesmente na posse de urn certo quociente intelectual ou mesmo numa serie de tecnicas ou metodos "corretos" de estudo. 0 que parece ser a chave da reac;;ao de cada aluno diante da situac;;ao de apren dizagem e sua capacidade de captar, consciente ou incons cientemente, as exigencias da tarefa e de responder a elas adequadamente, ou seja, a capacidade de reconhecer e controlar a situac;;ao de aprendizagem (p. 22). Esses autores afirmam, a partir de suas pesquisas, que obtem melhores resultados os estudantes que apren deram a aprender. E acrescentam que se pode aprender a aprender de muitas maneiras, inclusive mediante o ensi no. Estrategias de aprendizagem sao, pois, "a estruturadas estrategias do ensinar a aprender a aprender 7. A concep~ao de processo de ensino e aprendizagem denominada de mu danr;:a conceitual parece ser compativel com o "ensinar a aprender a aprender". 0 ensino seria urn processo de promover a mudan'pedagogicarnente, sob tres for mas conjugadas: como conteudo escolar integrante das varias disciplinas do curricula, como cornpetencias e atitudes profissionais dos professores e como rneios tec nol6gicos de cornunicahumana e injustiQa social". Isso significa recusar a polarizaQao entre valores universais e valores particulares (especificos) e toma-los como mutuamente excludentes. Eagleton, citado por McLaren, escreve que uma pohtica emancipat6ria comeQa pelo especifico, mas logo precisa deixa-lo para tras, dando o exemplo da liberdade de "ser irlandes" ou "ser mulher". E continua: Ironicamente, uma politica da diferenc;:a ou da especificida de deve estar, antes de tudo, a servic;:o da causa da similari-.. ~ dade e da~identidade universal - o direito de urn grupo, vitimizado em sua particularidade, a ficar em pe de igualda de com outros no que diz respeito a sua autodeterminac;:ao. ( ... ) Num movimento dialetico, entretanto, essa mesma verdade deve ser deixada para tnis tao logo e conquistada, pois a unica razao de desfrutar essa igualdade abstrata uni versal e descobrir e viver a nossa diferenc;:a particular (McLaren, 1993, p. 25). Thuraine (1996) prop6e algumas ideias para uma proposta de esquerda no quadro das transformaQ6es em 48 JOSE CARLOS LIBANEO curso na sociedade, tais como a internacionalizac;:ao da economia, desenvolvimento acelerado das novas tecno logias, agravamento da exclusao social, ruptura do tecido social, aumento das desigualdades. Inicia pela solidarie dade que significa estar ao lado dos excluidos e combater os efeitos das desigualdades sociais por meio de medidas concretas em favor dos desfavorecidos. Vern, em seguida, com a ideia de liberdade do sujeito, ou seja; o direito dos individuos de viver e de ser reconh_ecidos como sujeitos, capazes de fazer opc;:6es e respeitar as dos outros. A ter ceira ideia e a de criar a diversidade no sentido de reco nhecimento do Outro, para ver em cada individuo a presenc;:a do universal e simultaneamente a do partic~lar. E descobrir nos outros o esforc;:o de subjetivac;:ao, i.e., de se constituirem como sujeitos na sua individualidade e na sua identidade cultural que e, afinal, o reconhecimen to dos direitos humanos fundamentais. 9 A quarta, saber conviver com as diferenr;as, "fazer conviver, sob as mesmas leis, pessoas com crenc;:as, concepc;:6es de vida e interes ses diferentes" (p. 72), incluindo a recusa em encaixar as pessoas em modelos culturais dominantes herdados da modernidade. 0 tratamento da questao etica na escola ainda de pende de investigac;:6es mais consolidadas, mas constitui- 9. "E necessaria reencontrar o universal em todos, homens e mulheres, gente com linguas, mem6rias e cren