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PROCESSO CIVIL — GUIA DIDÁTICO PARA A PROVA Sentença • Coisa Julgada • Teoria Geral dos Recursos • Processos no Tribunal 1. SENTENÇA Comece pensando na sentença como a resposta judicial que fecha a fase de conhecimento do procedimento comum ou extingue a execução. O ponto mais importante não é decorar uma definição: é saber distinguir sentença de outros pronunciamentos e perceber se o juiz enfrentou ou não o mérito. Art. 203, §1º do CPC — “sentença é o pronunciamento por meio do qual o juiz, com fundamento nos arts. 485 e 487, põe fim à fase cognitiva do procedimento comum, bem como extingue a execução.” É a definição legal que ajuda a identificar a sentença pelo papel que ela exerce no processo. Para não confundir: decisão interlocutória resolve uma questão no curso do processo sem encerrá-lo; despacho apenas impulsiona o processo, sem conteúdo decisório que cause prejuízo às partes. Essa distinção aparece também na leitura doutrinária de Misael. Art. 203, §2º do CPC — “Decisão interlocutória é todo pronunciamento judicial de natureza decisória que não se enquadre na descrição do §1º.” Então, se há uma decisão importante, mas o processo continua, pense primeiro em decisão interlocutória. Art. 203, §3º do CPC — “São despachos todos os demais pronunciamentos do juiz praticados no processo, de ofício ou a requerimento da parte.” Despacho é ato de andamento, não uma decisão de mérito sobre a disputa. Imagem mental Sentença = “vamos fechar esta fase e dar uma resposta judicial”. Interlocutória = “vamos resolver esta questão e continuar”. Despacho = “vamos fazer o processo andar”. 1.1 Sentença terminativa x sentença definitiva Essa é uma das divisões mais importantes porque conversa diretamente com Coisa Julgada e Recursos. Sentença terminativa é aquela em que o juiz encerra o processo sem resolver o mérito. Em linguagem simples: o juiz não disse quem tem razão sobre o direito discutido; ele encontrou um problema processual que impede a análise do mérito. Art. 485 do CPC — “O juiz não resolverá o mérito” nas hipóteses previstas no artigo. É a base legal da sentença sem resolução do mérito. Art. 487 do CPC — O juiz resolverá o mérito nas hipóteses previstas nesse artigo. Aqui o Judiciário efetivamente enfrenta a questão de fundo, acolhendo ou rejeitando o pedido, total ou parcialmente, ou resolvendo outras situações de mérito previstas no dispositivo. Exemplo simples: uma pessoa ajuíza uma ação, mas falta uma condição processual relevante. Se o processo for encerrado por essa falha, temos sentença terminativa. Ela normalmente permite que a parte corrija o problema e proponha nova ação, quando a lei permitir. Art. 486 do CPC — “O pronunciamento judicial que não resolve o mérito não obsta a que a parte proponha de novo a ação.” A própria lógica do art. 486 mostra por que a sentença terminativa não fecha definitivamente a discussão de mérito. Pergunta que resolve a questão O juiz disse “você não pode continuar este processo por causa deste problema” ou disse “sobre o direito discutido, você tem/não tem razão”? A primeira situação aponta para terminação; a segunda, para julgamento de mérito. 1.2 Estrutura da sentença Uma sentença não é apenas o resultado final. O CPC exige uma estrutura. O art. 489 divide os elementos essenciais em relatório, fundamentos e dispositivo. Art. 489, I do CPC — relatório: nomes das partes, identificação do caso, resumo do pedido e da contestação e principais ocorrências. É a parte que situa o leitor sobre o que aconteceu no processo. Art. 489, II do CPC — fundamentos: análise das questões de fato e de direito. É onde o juiz explica por que chegou à conclusão. Art. 489, III do CPC — dispositivo: resolução das questões principais submetidas pelas partes. É o “resultado” da decisão: aquilo que o juiz efetivamente determina. Uma forma fácil de lembrar: **relatório = o que aconteceu; fundamentos = por que decidi; dispositivo = o que eu decido.** Art. 489, §1º do CPC — Não é considerada fundamentada, entre outras situações, a decisão que apenas reproduz a lei sem relacioná-la ao caso, usa conceitos indeterminados sem explicar sua incidência, deixa de enfrentar argumentos capazes de infirmar a conclusão ou invoca precedente sem explicar seus fundamentos determinantes e sua aplicação ao caso. Fundamentar não é jogar artigos na sentença; é explicar a ligação entre a norma, os fatos e a conclusão. 1.3 O juiz precisa respeitar o pedido O juiz não pode simplesmente dar qualquer coisa que ache justa. Ele precisa respeitar os limites do que foi pedido, salvo as consequências que a própria lei permite reconhecer de forma implícita. Art. 490 do CPC — “O juiz resolverá o mérito acolhendo ou rejeitando, no todo ou em parte, os pedidos formulados pelas partes.” É a expressão do princípio da congruência, também chamado de adstrição ou correlação. O material doutrinário chama atenção para três problemas clássicos: **ultra petita** (o juiz concede mais do que foi pedido), **extra petita** (concede algo diferente do pedido) e **citra petita** (deixa de decidir um pedido). Exemplo A pede R$ 10 mil e o juiz concede R$ 20 mil: pense em ultra petita. A pede indenização e o juiz concede algo de natureza totalmente diferente: extra petita. A pede indenização e restituição, mas o juiz só decide sobre indenização: citra petita. 1.4 Classificação da sentença pelo resultado Na classificação destacada na doutrina de Misael, podemos pensar em cinco grupos. O objetivo aqui é reconhecer a ideia central, e não decorar definições longas. Declaratória → declara se existe ou não determinada relação jurídica ou situação jurídica. Ex.: reconhecimento da existência de união estável. Constitutiva → cria, modifica ou extingue uma relação jurídica. Ex.: divórcio ou alteração/extinção de uma relação jurídica. Condenatória → reconhece o direito e impõe ao vencido o cumprimento de uma obrigação, como pagar determinada quantia. Mandamental → além de reconhecer o direito, contém uma ordem judicial para fazer ou não fazer algo. Ex.: ordem para cumprir obrigação de fazer. Executiva lato sensu → já traz a satisfação da obrigação de dar coisa acompanhada dos meios necessários para efetivá-la. Ex.: reintegração de posse ou despejo. 1.5 Efeitos e consequência prática O efeito que mais interessa para a prova, neste bloco, é perceber se a sentença resolveu ou não o mérito, porque isso vai determinar a relação com a coisa julgada e com os recursos. Como pode cair na prova A questão pode narrar uma decisão que extinguiu o processo porque faltava um requisito, e perguntar se o autor pode ajuizar novamente. Procure art. 485 + art. 486. Se a questão disser que o juiz decidiu quem tinha o direito, procure art. 487 e pense em coisa julgada material após o trânsito em julgado. 2. COISA JULGADA Aqui a pergunta muda. Antes estávamos perguntando “o que é a sentença?”. Agora perguntamos: **o que acontece depois que aquela decisão deixa de poder ser atacada por recurso?** Art. 502 do CPC — “Denomina-se coisa julgada material a autoridade que torna imutável e indiscutível a decisão de mérito não mais sujeita a recurso.” A coisa julgada é o que dá estabilidade à decisão de mérito depois do encerramento das vias recursais. Pense na coisa julgada como uma espécie de “trava”. Antes dela, a decisão ainda pode ser modificada por recurso, dentro das possibilidades legais. Depois do trânsito em julgado, a decisão de mérito recebe a proteção da coisa julgada material. 2.1 Coisa julgada formal x material A **coisa julgada formal** é a imutabilidade da decisão dentro daquele próprio processo. A **coisa julgada material** vai além: impede que a mesma decisão de mérito seja rediscutida em outro processo, nos limites em que a coisa julgada atua. Art. 485/486 do CPC — A sentença sem resolução do mérito extingue o processo sem analisar a questão de fundo e, em regra, permite nova ação quando o vício puder ser corrigido. Por isso a Aula 3 enfatiza que a sentença terminativa produz coisa julgada formal, não coisa julgada material sobreo mérito. Exemplo O processo foi extinto porque havia um problema processual corrigível. O processo acabou, mas o direito material não foi definitivamente julgado. Corrigido o problema, pode ser possível ajuizar novamente. Já se o juiz disser “o réu não deve essa quantia” e a decisão de mérito transitar em julgado, a discussão recebe a proteção da coisa julgada material. 2.2 Limites objetivos — O QUE fica protegido? A regra é olhar para o **dispositivo**, isto é, para a conclusão da decisão. A fundamentação é importante para entender o alcance da decisão, mas nem todo motivo escrito pelo juiz fica protegido pela coisa julgada como se fosse o comando final. Art. 503 do CPC — A decisão sobre o mérito tem força de lei nos limites da questão principal expressamente decidida. O foco está no que foi efetivamente decidido. Art. 504 do CPC — “Não fazem coisa julgada: I — os motivos, ainda que importantes para determinar o alcance da parte dispositiva; II — a verdade dos fatos, estabelecida como fundamento da sentença.” Logo, não confunda fundamento da decisão com o comando que efetivamente ficou imutável. Exemplo O juiz diz na fundamentação que houve cobrança indevida e, por isso, condena o réu a pagar R$ 5 mil por dano moral. A condenação de R$ 5 mil é o comando. O fato mencionado na fundamentação não fica automaticamente blindado como uma nova declaração autônoma de coisa julgada. 2.3 Questão prejudicial Existe uma exceção importante: o CPC/2015 passou a permitir que uma questão prejudicial de mérito decidida de forma expressa e incidental também faça coisa julgada, desde que preenchidos requisitos cumulativos. Art. 503, §1º do CPC — A questão prejudicial decidida expressa e incidentalmente pode fazer coisa julgada quando a solução depender do julgamento do mérito, houver contraditório prévio e efetivo e o juízo for competente para resolvê-la como questão principal. Não é qualquer argumento incidental: são necessários os requisitos legais. Exemplo do material: em uma ação de alimentos, o réu contesta a paternidade. Se a questão da paternidade for expressamente decidida, com contraditório efetivo e pelos pressupostos do §1º, essa questão prejudicial pode adquirir eficácia de coisa julgada. 2.4 Limites subjetivos — QUEM fica vinculado? Art. 506 do CPC — “A sentença faz coisa julgada às partes entre as quais é dada, não prejudicando terceiros.” A regra é que quem não participou da relação processual não pode ser prejudicado pela coisa julgada formada naquele processo. O CPC/2015 admite situações específicas em que terceiros podem ser beneficiados sem terem sido partes, como em hipóteses de tutela coletiva ou substituição processual. O essencial para a prova é não transformar a exceção em regra. 2.5 O que fazer depois da coisa julgada? O material do professor traz uma distinção estratégica: se a sentença foi terminativa (art. 485), ainda pode haver nova ação, desde que o problema seja corrigido e a lei permita. Se houve sentença definitiva de mérito (art. 487) e trânsito em julgado, a discussão não pode simplesmente recomeçar como outra ação idêntica. O caminho extraordinário indicado no material é a ação rescisória, nas hipóteses legais do art. 966. Como pode cair na prova Pode cair em forma de caso: “O primeiro processo terminou porque faltava legitimidade. O autor pode ajuizar outro?” Pense em art. 485 + art. 486. “O mérito já foi julgado e transitou em julgado. Pode ajuizar a mesma ação outra vez?” Pense em art. 502 e, se houver fundamento excepcional, em ação rescisória. 3. TEORIA GERAL DOS RECURSOS Agora imagine que o juiz acabou de decidir e uma das partes pensa: **“Eu não concordo com essa decisão e quero que ela seja revista.”** O recurso é a ferramenta para isso, desde que a decisão ainda não tenha transitado em julgado. Art. Conceito no material do CPC — Recurso é o meio voluntário e idôneo de provocar, dentro da mesma relação jurídica processual, a reforma, a invalidação, a elucidação ou a integração de uma decisão judicial que não transitou em julgado. Essa definição aparece no material da Aula 4/5. Art. Natureza jurídica no material do CPC — Desdobramento do direito de ação (ou de defesa) exercido no mesmo processo. Recurso não cria uma nova relação processual. Exemplo João perde uma ação. Ele entende que o juiz aplicou a lei de modo errado. João interpõe o recurso adequado naquele processo. Ele não abre uma “ação nova” contra a sentença; ele continua discutindo a decisão dentro da mesma relação processual. 3.1 Para que serve o recurso? Reforma → mudar o conteúdo da decisão. Ex.: juiz condenou a pagar R$ 20 mil e o tribunal entende que deveria ser R$ 5 mil. Invalidação → desfazer a decisão por vício formal ou processual. Ex.: decisão com vício processual relevante. Elucidação → esclarecer obscuridade ou contradição. Integração → suprir omissão existente na decisão. 3.2 Princípios fundamentais Duplo grau de jurisdição → possibilidade de reapreciação da decisão por órgão de hierarquia superior, ressalvadas as exceções. Taxatividade → os recursos são aqueles previstos em lei federal. O material relaciona ao art. 994 do CPC. Art. 994 do CPC — lista os recursos previstos no CPC, formando o rol legal de espécies recursais. Para prova: a parte não cria livremente uma modalidade de recurso. Unirrecorribilidade → para cada decisão, em regra, cabe um recurso específico. Fungibilidade → em determinadas situações, um recurso interposto de forma inadequada pode ser aproveitado como o adequado, quando presentes os requisitos indicados no material. Dialeticidade → o recorrente precisa atacar especificamente os fundamentos da decisão. Proibição da reformatio in pejus → se somente uma parte recorreu, o julgamento não pode agravar sua situação jurídica por causa do próprio recurso, conforme a regra apresentada no material. Voluntariedade → recorrer depende da manifestação de vontade da parte ou interessado legitimado. Como identificar dialeticidade Se a questão disser que o advogado apenas escreveu “a sentença está errada” sem explicar por que os fundamentos do juiz estão errados, pense em falta de impugnação específica — dialeticidade. 3.3 Pressupostos de admissibilidade Aqui está uma divisão muito cobrada porque a questão pode esconder o nome do requisito dentro de uma história. Os pressupostos intrínsecos ligados à própria possibilidade de recorrer incluem **cabimento, legitimidade, interesse em recorrer e inexistência de fato impeditivo ou extintivo**. Os extrínsecos incluem **tempestividade, preparo e regularidade formal**, conforme a organização da Aula 4/5. Cabimento → existe recurso previsto em lei para atacar aquela decisão? Legitimidade → quem está recorrendo é parte vencida, terceiro prejudicado ou Ministério Público nas hipóteses legais? Interesse em recorrer → o recurso é necessário e útil porque houve sucumbência total ou parcial? Fato impeditivo/extintivo → houve renúncia, aceitação da decisão ou desistência que impeça o recurso? Tempestividade → o recurso foi apresentado dentro do prazo? Regra geral no material: 15 dias úteis; embargos de declaração: 5 dias úteis. Preparo → foram recolhidas as despesas/portes quando devidos, sem hipótese de gratuidade ou isenção? Regularidade formal → o recurso observou a forma exigida e apresentou fundamentação e pedido? Macete de admissibilidade “Pode recorrer?” = cabimento. “Quem pode?” = legitimidade. “Por que recorrer?” = interesse. “Ainda pode?” = inexistência de fato impeditivo/extintivo. “Está no prazo?” = tempestividade. “Pagou quando precisava?” = preparo. “Fez do jeito exigido?” = regularidade formal. 3.4 Efeitos dos recursos Devolutivo → leva ao órgão julgador a matéria que foi impugnada. O material usa a expressão tantum devolutum quantum appellatum: o que é devolvido é delimitado pelo que foi impugnado. Suspensivo → impede temporariamente a produção dos efeitos da decisão recorrida, quando presente. Pode decorrer da lei (ope legis) ou ser concedido pelo relator (ope judicis). Translativo → permite ao tribunal conhecerde matérias de ordem pública de ofício, independentemente de pedido da parte. Expansivo → o resultado pode atingir matérias ou sujeitos que não eram o alvo direto da impugnação, nas situações cabíveis. Substitutivo → conforme art. 1.008, o julgamento do recurso substitui a decisão impugnada nos limites do reexame. Art. 1.008 do CPC — “O julgamento proferido pelo tribunal substituirá a decisão impugnada no que tiver sido objeto de recurso.” É o fundamento do efeito substitutivo apresentado na Aula 4/5. 3.5 Limites do recurso O limite objetivo pergunta **“qual parte da decisão foi levada ao tribunal?”**. O limite subjetivo pergunta **“quem é atingido pelo resultado?”** Art. 1.005 do CPC — Em regra, o recurso de um litisconsorte não aproveita aos demais, salvo na hipótese de litisconsórcio unitário. A situação das pessoas envolvidas importa para definir quem aproveita o resultado do recurso. Exemplo Se a parte recorre apenas de um capítulo da sentença, o tribunal não deve simplesmente reabrir toda a sentença sem motivo. E, no litisconsórcio, o resultado para um recorrente não automaticamente se estende a todos, salvo a exceção indicada. 3.6 Remessa necessária A remessa necessária parece recurso porque manda a sentença para reexame, mas o material faz questão de dizer que **não é recurso**. A razão é simples: falta a voluntariedade. Art. 496 do CPC — Prevê hipóteses de remessa necessária, notadamente sentenças proferidas contra determinados entes públicos, além das situações previstas na lei. A Aula 4/5 enfatiza que se trata de condição de eficácia da sentença, não de recurso. Como pode cair na prova Pegadinha clássica: “Remessa necessária é recurso obrigatório da Fazenda Pública.” O material ensina que isso está errado: ela não é recurso porque não depende da vontade de recorrer. 4. PROCESSOS NO TRIBUNAL Aqui a matéria muda de perspectiva. Em vez de olhar apenas para a relação entre uma parte e o juiz de primeiro grau, passamos a estudar como os tribunais lidam com questões que precisam de uniformidade, com processos repetitivos e com disputas sobre competência. 4.1 Precedentes judiciais O CPC/2015, embora inserido em uma tradição de Civil Law, aproximou o sistema brasileiro de institutos da Common Law e estruturou um sistema de precedentes. O objetivo destacado na Aula 6 é concretizar segurança jurídica, isonomia e razoável duração do processo. Art. 926 do CPC — Os tribunais devem uniformizar sua jurisprudência e mantê-la estável, íntegra e coerente. A ideia é evitar que a mesma questão receba respostas incompatíveis de forma aleatória. Common Law x Civil Law Para a prova, pense no contraste básico: Civil Law dá centralidade à lei escrita; Common Law dá papel muito mais central aos precedentes judiciais. O Brasil continua sendo de tradição Civil Law, mas o CPC/2015 fortaleceu os precedentes. 4.2 Precedente vinculante x persuasivo Precedente vinculante é aquele que deve ser observado nas hipóteses legais. Precedente persuasivo serve como orientação, mas não possui o mesmo efeito obrigatório. Art. 927 do CPC — O CPC determina que juízes e tribunais observem os pronunciamentos listados no artigo, incluindo os acórdãos em IRDR, IAC e recursos repetitivos, além das outras hipóteses legais. Para prova: o vínculo vem da previsão legal; não basta chamar qualquer decisão de “precedente”. Uma questão pode narrar um juiz que não concorda com determinado entendimento. Pergunte: esse entendimento é apenas persuasivo ou é vinculante? A resposta muda completamente a análise. 4.3 Ratio decidendi e obiter dictum A **ratio decidendi** é a razão jurídica determinante da decisão — o núcleo que sustenta o resultado. O **obiter dictum** é uma consideração secundária que não foi necessária para chegar à conclusão. Exemplo “A cobrança é ilegal porque não há previsão normativa.” Essa razão sustenta a decisão: ratio decidendi. “Eu também acho essa cobrança ruim para o consumidor.” Se isso for apenas um comentário lateral, é obiter dictum. 4.4 Distinguishing e Overruling **Distinguishing** acontece quando o caso novo tem uma particularidade relevante e, por isso, o precedente não deve ser aplicado àquele caso. O precedente continua existindo. **Overruling** acontece quando o próprio tribunal supera ou revoga o entendimento anterior. Aqui o problema é o precedente antigo, não apenas a diferença entre os fatos do novo processo. Macete Distinguishing = “o caso é diferente”. Overruling = “o entendimento anterior foi superado”. 4.5 IRDR — Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas O IRDR é um mecanismo para lidar com demandas repetitivas nos tribunais. A ideia é evitar que milhares de processos iguais produzam decisões contraditórias. Art. 976 do CPC — Cabe quando há repetição efetiva de processos com a mesma questão unicamente de direito e risco de ofensa à isonomia e à segurança jurídica, observada também a ausência de afetação de recurso repetitivo sobre a mesma matéria nos Tribunais Superiores. Esses são os elementos centrais indicados no material da Aula 6. Art. 977 do CPC — O incidente pode ser requerido pelo juiz ou relator, pelas partes, pelo Ministério Público ou pela Defensoria Pública. Não é correto imaginar que somente o juiz pode provocar o IRDR. Analogia do IRDR Imagine 50 mil pessoas com o mesmo problema. Em vez de cada juiz inventar uma resposta diferente, o tribunal coloca os processos em “pause”, resolve a questão jurídica central e fixa uma tese para os demais casos. 4.6 Procedimento do IRDR 1. Admissão e suspensão → admitido o incidente pelo órgão competente, suspende-se o conjunto de processos atingidos pela questão repetitiva, conforme o material. 2. Julgamento e tese → o tribunal julga a causa-piloto e fixa a tese jurídica aplicável. 3. Efeito vinculante → a tese firmada é aplicada obrigatoriamente aos processos pendentes e casos futuros abrangidos pela jurisdição do tribunal. Art. 985 do CPC — Depois do julgamento do incidente, a tese jurídica será aplicada aos processos individuais ou coletivos que tratem da mesma questão, na área de jurisdição do tribunal, nas condições do artigo. É o “efeito cascata” explicado no exemplo do TJMG. 4.7 IRDR no exemplo dos 50 mil consumidores No exemplo do professor, uma concessionária cria uma taxa. Cinquenta mil consumidores ajuízam ações. Um juiz entende que a taxa é legal, outro que é ilegal e manda devolver o dinheiro, e outro entende que é ilegal mas não determina a devolução. A divergência produz risco de ofensa à isonomia e à segurança jurídica. Instaurado o IRDR, o TJMG fixa uma tese: a taxa é ilegal por ausência de previsão normativa e os valores devem ser restituídos. A partir daí, os órgãos sujeitos à jurisdição do TJMG devem observar a tese para os casos abrangidos. 4.8 E se um juiz descumprir a tese? O material apresenta a reclamação como mecanismo de reação ao desrespeito ao precedente vinculante. Art. 988, IV do CPC — A reclamação pode ser utilizada na hipótese indicada pelo CPC para garantir a observância de decisão do STF em controle concentrado e de enunciado de súmula vinculante, bem como nos demais casos previstos no dispositivo, inclusive a observância de acórdão proferido em julgamento de IRDR nas condições legais. Para a prova, a ideia central é: precedente vinculante descumprido pode abrir espaço para reclamação. 4.9 Limite territorial do IRDR A tese formada pelo TJMG não vira automaticamente uma ordem para todos os juízes do Brasil. O material chama isso de limite territorial e explica que a tese do TJMG vincula os órgãos sujeitos à sua jurisdição. Um juiz de São Paulo não é simplesmente obrigado a seguir uma tese criada pelo TJMG. Art. 987, §2º do CPC — O material explica a possibilidade de a tese chegar ao STJ/STF por recurso, com potencial de produzir efeitos mais amplos conforme o entendimento firmado pelo Tribunal Superior. Aqui a questão costuma explorar a diferença entre o alcance local do IRDR e a atuação dos Tribunais Superiores. 4.10 Conflito de competência No conflito de competência, o problema nãoé “qual interpretação jurídica devemos adotar?”. O problema é **“qual juiz ou tribunal deve julgar?”** Art. 951 a 959 do CPC — O CPC disciplina o conflito de competência entre juízes ou tribunais. O material da Aula 6 usa esse bloco para ensinar as modalidades e o processamento. Art. 952 do CPC — Pode ser suscitado pelo próprio juiz, por qualquer das partes ou pelo Ministério Público. Esses são os legitimados indicados no material. Conflito positivo Dois ou mais juízes se consideram competentes para a mesma causa. Exemplo Juiz A: “eu tenho competência”. Juiz B: “eu também tenho”. Os dois querem julgar. Positivo = dois querem. Conflito negativo Dois ou mais juízes se consideram incompetentes e jogam a causa para o outro. Exemplo Juiz A: “não sou competente”. Juiz B: “também não sou”. Ninguém quer julgar. Negativo = nenhum quer. Conflito sobre reunião ou separação de processos Também há conflito quando os juízes divergem sobre reunir ou separar processos por conexão ou continência. Quem julga? Em regra, o conflito é dirigido e julgado pelo tribunal ao qual os juízes conflitantes estão vinculados. Se estiverem vinculados a tribunais diferentes, o material aponta o STJ, conforme art. 105, I, “d”, da Constituição. Art. 105, I, “d”, CF/88 do CPC — Compete ao STJ processar e julgar conflitos de competência entre os órgãos e juízes nas situações constitucionais previstas. Use a Constituição quando a questão trouxer juízes vinculados a tribunais diferentes nas hipóteses do dispositivo. 5. COMO PENSAR NA PROVA — O MÉTODO DA HISTORINHA O professor trabalha com integração entre teoria e prática, e o plano da disciplina expressamente destaca estudos de casos, análise de jurisprudência e integração entre teoria e prática. Então, mesmo que você não lembre a palavra jurídica de imediato, dá para chegar ao instituto pelo problema narrado. Primeiro: descubra em que momento o processo está “O juiz acabou de decidir e a parte quer mudar a decisão” → pense em recurso. “A decisão de mérito não pode mais ser atacada por recurso” → pense em coisa julgada material. “O processo terminou sem resolução do mérito” → pense em sentença terminativa/coisa julgada formal. “Há muitos processos com a mesma questão jurídica” → pense em IRDR. “Há dúvida ou disputa sobre qual juiz deve julgar” → pense em conflito de competência. “Já existe entendimento judicial aplicável a casos semelhantes” → pense em precedente. Segundo: procure as palavras-chave “mesma questão de direito”, “milhares de processos”, “decisões conflitantes” → IRDR “dois juízes querem julgar” → conflito positivo “dois juízes não querem julgar” → conflito negativo “deve ser obrigatoriamente observado” → precedente vinculante “serve como orientação” → precedente persuasivo “caso concreto é diferente” → distinguishing “entendimento anterior foi superado” → overruling “não enfrentou argumento”, “obscuridade”, “contradição” → problema na decisão / possibilidade de embargos, conforme o caso “atacar os fundamentos da decisão” → dialeticidade “não há previsão do recurso” → cabimento / taxatividade “perdeu o prazo” → tempestividade “não pagou preparo quando devido” → preparo/deserção Terceiro: só depois procure o artigo O artigo deve confirmar a hipótese que você já identificou. Isso é melhor do que tentar decorar todos os números isoladamente. Exemplo completo de raciocínio “Em um Estado, milhares de consumidores discutem a mesma taxa. Juízes divergem. O tribunal suspende os processos e fixa uma tese obrigatória.” → Você já sabe que é IRDR. Agora confirme: arts. 976 e seguintes; efeito vinculante relacionado ao art. 927, III; aplicação da tese conforme art. 985. Mini mapa final de memorização Sentença → responde ao processo/fase: encerra a fase cognitiva ou extingue a execução. Terminativa → encerra sem mérito → art. 485. Definitiva → resolve mérito → art. 487. Coisa julgada material → decisão de mérito imutável e indiscutível após não estar mais sujeita a recurso → art. 502. Limite objetivo → o que foi decidido; atenção ao dispositivo → arts. 503 e 504. Limite subjetivo → quem fica vinculado; regra: partes → art. 506. Recurso → meio voluntário, dentro do mesmo processo, antes do trânsito em julgado. Admissibilidade → cabimento, legitimidade, interesse, tempestividade, preparo, regularidade etc. Precedente → entendimento judicial capaz de orientar outros casos. IRDR → muitos processos iguais + mesma questão de direito + risco à isonomia/segurança. Conflito positivo → dois querem julgar. Conflito negativo → nenhum quer julgar. Antes da prova Você não precisa chegar sabendo explicar tudo como um professor. Precisa conseguir ler a situação, identificar o problema e ligar a situação ao instituto. A partir daí, o artigo e a alternativa correta ficam muito mais fáceis de reconhecer. Processo Civil — Guia para a prova | 1 image1.png