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FUNDAMENTOS DA TÉCNICA PSICANALÍTICA R. HORACIO ETCHEGOYEN edição ampliada Tradução: Francisco Frank Settineri Consultoria, supervisão e revisão técnica desta edição: Newton Aronis Renato Trachtenberg Membros Titulares e Didatas da Sociedade Brasileira de Psicanálise de Porto Alegre (SBPdePA). Membros da Associação Psicanalítica de Buenos Aires (APdeBA). Membros Plenos do Centro de Estudos Psicanalíticos de Porto Alegre (CEPdePA). Reimpressão 200832 Tipos de Interpretação BREVE RECAPITULAÇÃO so em que (no juízo do analista, obviamente) estão crista- lizando-se nesse momento OS afetos mais fortes. Esse con- Iniciamos o estudo da interpretação a partir dos ceito econômico, eixo da técnica reichiana, voltou a apa- meios de que o terapeuta dispõe para operar, meios aos recer, em outro contexto técnico e com outra terminolo- quais Knight chama de instrumentos, em contraposição gia, como timing da interpretação e ponto de urgência na ao material que surge do paciente e compreende todas as obra de Melanie Klein. Embora seja certo que conceito suas modalidades expressivas. Os instrumentos de que de timing tende antes a assinalar a importância da ansie- psicoterapeuta dispõe são muitos e menos do analista, dade emergente, à medida que esta é mais relevante em razão do rigor de sua técnica. Por isso, dizíamos que para a tarefa interpretativa, isso implica que está em jogo contamos apenas com três ferramentas básicas, a infor- econômico. mação, o esclarecimento e a interpretação. Recordemos Estudamos depois a influência da teoria estrutural também que, a não ser que se dê ao termo interpretação na interpretação e, para isso, seguimos o caminho que vai um sentido muito amplo (mas também impreciso), deve- desde Reich e Fenichel até Anna Freud e sua influência mos reconhecer que, como analistas, utilizamos outros nos psicólogos do ego dos Estados Unidos e de Londres. elementos, por exemplo, para obter informação. Os re- No último capítulo, tentamos traçar um perfil da in- cursos restantes, ao contrário, que servem para influen- terpretação em Melanie Klein, tarefa nada fácil, por certo, ciar o paciente, como o apoio, a sugestão e a persuasão, uma vez que se somam as complexidades teóricas com OS não pertencem à técnica psicanalítica. Poderão ser utili- conflitos da lealdade escolástica, que confiamos comple- zados, em suma, dizia Bibring (1954), como recursos téc- tar neste capítulo e no seguinte. nicos, mas não terapêuticos; e ainda assim se deverá ver, no caso concreto, se seu emprego pode alguma vez se justificar. TIPOS DE INTERPRETAÇÃO Estudamos depois as diferenças entre interpretação e construção, tema que está em pauta e que foi debatido nos Após ter delimitado o conceito e estudado a metapsi- congressos internacionais de Nova York (1979) e Helsinque cologia da interpretação, vamos agora discutir seus tipos (1981), frente ao qual cabem vários enfoques teóricos. Há (classes). Na realidade, há vários, se não muitos, tipos de autores que OS pensam como instrumentos substancialmente interpretação; porém, centraremos a discussão em quatro diferentes; outros consideram que são, em essência, mes- deles, que abrangem demais: interpretação histórica e mo e só reconhecem diferenças de grau em relação a situa- atual; transferencial e extratransferencial, como mostra ções técnicas concretas, não menos que a determinados in- esse pequeno quadro sinóptico: teresses teóricos que analista possa ter. No Capítulo 29, estudou-se de maneira específica a interpretação em seus diversos aspectos e modalidades. histórica Sem nos propormos a isso, seguimos a evolução histórica transferencial da própria técnica, em que conceito de tornar conscien- Interpretação te inconsciente (através da interpretação) foi enrique- atual extratransferencial cendo-se com OS diversos enfoques metapsicológicos que Freud e alguns de seus discípulos foram descobrindo e Chegamos, assim, a discriminar na interpretação três Esse quadro engloba a maior parte das possibilida- níveis: topográfico, que corresponde à fórmula mais an- tiga e simples de tornar consciente inconsciente; dinâ- des interpretativas e sustenta-se em duas teorias funda- ou seja, de vencer uma determinada resistência, e, mentais: a teoria do conflito (atual, infantil) e a teoria da transferência, isto é, a tendência dos seres humanos a re- fim, econômico, que toma material no ponto preci-242 R. HORACIO ETCHEGOYEN petir passado no presente.¹ É claro que nosso quadro De qualquer modo, OS analistas que utilizam a cons- sinóptico pode ser invertido sem que variem OS conceitos: trução sublinham valor do passado, convencidos de que interpretação transferencial e não-transferencial, históri- fundamental é reconstruir a história, devolvendo ao ana- ca e atual. lisando O lugar que ocupou na trama de sua própria vida, A interpretação da história do paciente e a interpre- restaurando OS momentos em que essa história havia se tação de sua vida atual, a interpretação referente ao pas- rompido. Não vou pretender que se termine essa magna dis- sado ou ao presente, não são coisas opostas: somos histó- ria, e o presente é também parte dessa história, tanto quan- cussão, mas quero ressaltar que, sejam quais forem as teo- to passado também é parte do presente. Somos tempo, rias (e as predileções) com que analista enfrente seu além de nós mesmos, diz Heidegger. Mesmo sem esgrimir singular trabalho, não creio que haja analista algum que a teoria da transferência, somos nosso passado: indepen- na prática possa ocupar-se somente da transferência e pres- dentemente de que o repitamos ou não, em cada um de cindir das interpretações históricas ou do conflito atual; e, nossos atos pode-se visualizar nosso passado. De modo vice-versa, nem mesmo analista que circunscreva todo seu trabalho a fazer a mais cuidadosa reconstrução do pas- que, quando se faz essa classificação, não se sanciona uma diferença fundamental entre interpretar o passado ou o sado e entenda a transferência como um obstáculo do qual presente, porque em ambos OS casos deve-se considerar se deve liberar (uma fascinação imaginária da qual se deve desenganchar, diz O Lacan de 1951, por exemplo) vai pen- em seu conjunto. sar que poderá operar sem interpretações transferenciais, ainda que fosse apenas para remover obstáculo. INTERPRETAÇÃO HISTÓRICA Apesar do que acabamos de dizer, a práxis marca di- INTERPRETAÇÃO ATUAL ferenças entre interpretar a história e a atualidade. Acentuá-las leva-nos insensivelmente a recolocar pro- Nossos analisandos não vivem, por certo (e por sor- blema de construções versus interpretações, na medida em te!), em uma torre de marfim; e, por muito poderosa e está- que a construção sempre se refere ao passado. De fato, vel que tenha chegado a ser a neurose de transferência, chamamos de construção um tipo especial de interpreta- analisando terá conflitos e ansiedades com seu ambiente, ção histórica, por meio da qual tentamos recuperar uma que aparecerão na sessão, logo que cumpra a regra funda- situação passada, com seus afetos, seus personagens e suas mental. Às vezes, esses conflitos têm mais a ver com a trans- ansiedades, da forma mais completa e fidedigna possível. ferência do que com ambiente, e então OS chamamos de De modo que, em meu entender, a interpretação histórica, acting out; outras vezes, referem-se concretamente às pes- porque acentua seu caráter de tal e busca uma colocação soas que formam grupo social, e então se coloca proble- em cena de todos OS elementos que em dado momento ma de interpretá-los, como e até onde interpretá-los. estiveram em jogo, chama-se concretamente de constru- Uma crítica muito freqüente contra a análise consis- ção.² Como diz Phyllis Greenacre, "toda interpretação te em acusá-la de esquecer a realidade. E também sofre- esclarecedora inclui geralmente alguma referência à re- mos essa crítica e a fazemos aos analistas com uma orien- tação teórica diferente da nossa. Se é difícil separar conceitualmente interpretação e Por mais que estejamos atentos à relação de nosso construção, mais difícil ainda é separar construção de in- analisando com seu ambiente, nem sempre é simples in- terpretação histórica. Bernfeld (1932), como já vimos, não terpretar-lhe seu conflito atual, e é discutível que a inter- as distingue e acaba por considerá-las sinônimos. Pode-se pretação do atual, do real na vida do paciente, possa ope- dizer que a construção procura recuperar acontecimentos rar como instrumento de transformação. Para a maioria esquecidos (recalcados) e a interpretação, pulsões e dese- dos psicanalistas, a interpretação do conflito atual é mais jos. No entanto, essa diferença é mais simpática e pedagó- tática que estratégica, preparatória. Não esqueçamos, po- gica do que rigorosa. Se OS acontecimentos são esqueci- rém, que o limite entre essas duas categorias é sempre dos, é justamente porque estavam impregnados de dese- aleatório, quando não ideológico. No fim das contas, as jos e, vice-versa, não pode haver desejos isolados do suce- táticas e a estratégia do analista mudam não apenas com der vital daquele que OS tem. sua orientação teórica, mas também (e assim deve ser) com as infinitas flutuações do processo analítico. Mais adiante, consideraremos outros tipos, como interpretação TÁTICAS E ESTRATÉGIAS INTERPRETATIVAS superficial e profunda, completa e incompleta, etc. 2 Como vimos no devido momento, 0 caráter hipotético da cons- trução não lhe é de modo algum específico; a interpretação tam- Embora não nos demos conta, ao desenvolver nosso bém é uma hipótese, e não apenas pelas decisivas razões do pequeno quadro sinóptico, tratamos não só dos tipos (ou método, mas também pelas da modéstia e do tato. classes) de interpretação, mas também das táticas e das "Any clarifying interpretation generally includes some reference estratégias interpretativas. Se aceitarmos a noção de neu- to reconstruction" (1975, P. 703). rose de transferência, proposta em "Recordar, repetir eFUNDAMENTOS DA TÉCNICA PSICANALÍTICA 243 reelaborar", então a interpretação do conflito atual será a elas, alimentado sempre pelas crenças do analisando. sempre, como dissemos há pouco, uma interpretação táti- sucesso do trabalho psicanalítico é descobrir essas crenças ca por definição, enquanto a estratégia subjacente será para dar ao analisando a oportunidade de trocá-las por transferencial. E diria mais: quando as interpretações do outras mais flexíveis e mais amplas. conflito atual transformam-se em estratégicas, estamos saindo do método da psicanálise, estamos enfocando de um ângulo completamente diferente a situação terapêuti- A INTERPRETAÇÃO TRANSFERENCIAL ca. Estamos fazendo talvez sem percebermos ontoaná- lise, já que psicanalista existencial interessa-se pelo en- A teoria da transferência move-se obrigatoriamente contro existencial, e, para ele, dá no mesmo se esse mo- entre dois pólos, campo a-histórico e a historicidade do mento de encontro seja dentro ou fora da sessão. A estra- sujeito. Poderemos salientar um aspecto ou outro, confor- tégia da ontoanálise é que OS dois existentes possam unir- me nossas inclinações doutrinárias, mas nunca desconhe- se, e essas interpretações, então, não se dão em termos cer um dos dois. Como assinalei em um parágrafo anteri- táticos (para chegar a uma situação diferente), mas são a or, dilema não é superado com a distinção entre táticas e própria base do trabalho; são interpretações estratégicas, estratégias interpretativas, já que estas dependem menos porque a estratégia de seu trabalho é buscar um encontro de nossas teorias do que das flutuações do processo analí- existencial. Ao contrário, quando eu, como analista, inter- tico. Temos de passar do campo a-histórico à história, e preto o conflito atual, visto que estou operando com a te- vice-versa, em uma espécie de compromisso duplo; e, a oria da transferência, dou essa interpretação taticamente, rigor, dilema cessa se aplicamos corretamente a teoria esperando que surja o vínculo com passado. da transferência, teoria segundo a qual a enfermidade con- Por outro lado, psicanalistas que pensam que em siste em que tanto passado quanto presente confun- nosso trabalho não há outra coisa senão a situação de cam- dem-se na mente do sujeito doente. po, na realidade, transformam em estratégicas as inter- Em seu duradouro trabalho de 1956, Paula Heimann pretações do aqui e agora. Acreditam que se o campo for sublinha a importância da função perceptiva na dinâmica modificado, muda necessariamente mundo inteiro de da interpretação transferencial. Heimann apresentou seu objetos do analisando. Essa posição é, a meu ver, errônea, trabalho no Congresso de Genebra de 1955 (e publicou-o porquanto não leva suficientemente em consideração OS no International Journal do ano seguinte). É um dos gran- mecanismos de dissociação temporal. Às vezes, o conflito des escritos sobre a interpretação, assim como de transferencial é "resolvido" idealizando o analista e cul- Strachey, que comentaremos mais adiante. Também nos pando pais da infância. ocuparemos agora de um pós-escrito de Paula Heimann, problema só pode ser solucionado quando ana- que modifica algumas das idéias expostas em Genebra.⁴ lista capta analisando nessa zona de bruma em que o O ponto de partida de Paula Heimann é que a terapia passado e presente superpõem-se e, com a interpreta- analítica dirige-se ao ego do paciente, cuja função primor- ção, delimita essas duas áreas. Só então o presente torna- dial, da qual todas as outras derivam, é a percepção. A se presente enriquecido por todas as notas do pretérito, e percepção está para ego assim como instinto para id, este, por sua vez, fica delimitado como tal, como experiên- já que a percepção pressupõe que ego investe ativamen- cia: não há, pois, de início, duas áreas distintas, mas que te o objeto, através de mecanismos de projeção e introjeção. ficam a rigor definidas como produto do trabalho analíti- Desse modo, a função básica do ego, a percepção, fica CO. Para inconsciente, dizia Racker, o analista é o pai e o indissoluvelmente associada aos processos que sancionam pai é analista. Somente depois da interpretação adequa- a estrutura e desenvolvimento do ego e a relação de da é que esses dois objetos ficam separados. objeto. "A percepção inicia contato, e contato implica Uma estratégia original no tratamento psicanalítico mecanismos básicos de introjeção e projeção que cons- é a proposta por Fabio Herrmann. Sua obra extensa e per- troem e dão forma ao ego".⁵ sistente sobre a psicanálise e seu método cristaliza-se em Na percepção, opera instinto de vida em busca seio da seu livro sobre a arte da interpretação (1991), traduzido união e do contato com o objeto, em primeiro lugar 0 evi- para espanhol em 1996. Herrmann defende que, além da mãe, enquanto a finalidade do instinto de morte instin- é das grandes teorias que sustentam a prática psicanalítica, tar ou destruir o contato, a união com objeto. É en- como as de Hartmann, Lacan, Melanie Klein, Bion, Winnicott, to de vida, então, que dirige o sujeito para objeto e po- etc., há uma teoria (ou metateoria) clínica que abrange a todas. Essa teoria geral parte do princípio de que méto- demos definir a tarefa do tratamento como a amplificação emocio- gendra a percepção, e é a partir desse fato capital que do psicanalítico é comum e prévio às teorias e dirige-se a do conhecimento de si mesmo através da relação compreender a lógica das emoções, sem se amarrar, em principio, às escolas psicanalíticas ou à história infantil de cada analisando, que virá depois, espontaneamente e 4 Deve-se levar em conta que, depois de escrever esse artigo, por A estratégia de Herrmann centra-se no cam- Heimann 5 initiates contact; and contact involves which the main then afastou-se da escola kleiniana. transferencial, que se rompe cada vez que é interpreta- do para se reconstruir depois. O efeito da interpretação é "Perception mechanisms of introjection and projection, 303). pôr a descoberto a lógica das emoções e desejo que subjaz build structural up and shape the ego" (Heimann, 1956,244 R. HORACIO ETCHEGOYEN nal com analista. Dessa forma, a transferência converte- como um chamado de atenção para não passar por alto a se realmente no campo de batalha em que irão dirimir-se transferência. conflitos do analisando, OS mesmos conflitos que, por Heimann tende a pensar que somente em raras oca- sua vez, deram forma ao ego (1956, 304). siões O analista é cabalmente analista para A tese fundamental do trabalho é, portanto, que Assinala que é nesses momentos que paciente toma cons- instrumento específico do tratamento psicanalítico é a in- ciência de sua história e fala de seus objetos, de sua mãe terpretação transferencial (p. 304-305), que permite ao ou de seu pai, e está realmente em união com eles; ana- ego perceber sua experiência emocional e torná-la cons- lista passa a ser uma testemunha privilegiada desse en- ciente no exato momento em que desperta e em contato contro, em que se cristaliza e frutifica seu persistente tra- direto com objeto. balho no campo da transferência. A outra tese forte do trabalho de Heimann é que a O problema que se coloca mais para a técnica, tal- fantasia inconsciente (tal como a definiu Susan Isaacs) vez, do que para a estratégia, quando se faz uma interpre- opera em todo momento. Desse ponto de vista, a fantasia tação histórica ou atual, é se analista a faz de verdade ou inconsciente, causa da transferéncia, não é algo que meramente objeto que se transferiu a ele nesse momen- irrompe ocasionalmente na relação do analisando com seu to. Se este último for caso, a intervenção será para analista e então interfere em sua razão e seu desejo de paciente ameaça, recriminação, cumplicidade, sedução: cooperar, mas a matriz fértil da qual nascem suas motiva- tudo, menos uma interpretação, porque foi omitido o cen- ções conscientes e inconscientes, racionais e não-racionais. tro de dispersão que estava na transferência. A tarefa do analista consiste em tornar conscientes O risco das interpretações extratransferenciais, en- para analisando suas fantasias inconscientes, e isso se tão, reside em que paciente as receba com uma pers- aplica tanto à transferência positiva quanto à negativa, pectiva transferencial. Nos termos de Heimann, não te- tanto à sua cooperação quanto à sua resistência. remos modificado a distorção perceptiva do ego do pa- Há ainda uma terceira tese no trabalho de Heimann, ciente; teremos aumentado o mal-entendido, se preferir- que se refere à função do analista. Como dizia Freud, mos falar como Money-Kyrle (1968, 1971). Esse risco, analista deve ser um espelho para paciente, deve refleti- porém, não deve ser tomado como um obstáculo intrans- lo, dando-lhe, assim, a oportunidade de perceber a si mes- ponível: o analisando sempre pode entender mal, e ana- mo no outro: analista assume papel de um ego suple- lista sempre pode corrigir esse mal-entendido com uma mentar para paciente. Para funcionar dessa maneira, nova interpretação. E também podemos cair no erro con- conclui Heimann, O analista deve deixar que o paciente trário, fazendo uma interpretação transferencial quando tome a iniciativa, e sempre lhe será vedado intervir ativa- o que teria cabimento era atender conflito infantil ou o mente com opiniões e conselhos; ao mesmo tempo, terá atual. Se quisermos ser ainda mais precisos, teremos de de analisar permanentemente sua contratransferência para dizer que toda interpretação será bem compreendida por obter dela indícios do que acontece com o analisando, a uma parte do ego (o ego observador) e, ao mesmo tem- fim de cumprir seu difícil papel. po, distorcida pelo ego vivencial, de modo que, cada vez Se analista mantém esse equilíbrio, conclui Heimann, que vamos interpretar, teremos de pesar ambas as possi- sua atividade interpretativa pode ser sua resposta a uma bilidades. Se o ego observador é suficiente (ou, o que é o pergunta implícita: que está fazendo analisando ago- ra, a quem e por quê? mesmo, se contarmos com uma aliança terapêutica acei- tável), a possibilidade de que a interpretação seja ope- rante é obviamente maior. E nessas condições, justamen- A INTERPRETAÇÃO EXTRATRANSFERENCIAL te, que aumenta o alcance da possibilidade de uma inter- pretação extratransferencial. De toda a discussão anterior surge, por diversas ve- Entretanto, é também inegável que, por sua índole, a interpretação transferencial conta com melhores recursos zes, uma pergunta que sempre tem vigência: que lugar ocupa na psicanálise a interpretação extratransferencial? para corrigir a distorção perceptiva do ego (mal-entendi- Por interpretação extratransferencial, entende-se aqui, se- do), porque se dirige ao imediato, ao dado; e, ao mesmo gundo já estudado, a que opera sobre conflito atual, tempo, analista pode resgatar-se melhor, em sua condi- conflito infantil e conflito precoce. ção de tal, ao devolver o drama ao verdadeiro tempo de Se quiséssemos propor esse problema nos termos de sua história. Esses dois elementos são importantes e, pelo Paula Heimann, poderíamos dizer que tudo depende dos fato de que só podem ocorrer a partir da interpretação processos perceptivos que estão em jogo em um dado mo- transferencial, conferem a esta um valor especial. mento na situação Como diz Lacan (1958a), a Se aceitamos sem rodeios a teoria da transferência, interpretação que o analista dá, se a dá, "será recebida podemos afirmar que, à medida que corrigimos a intro- como proveniente da pessoa que a transferência supõe que missão do passado no presente, temos mais oportunida- (Leitura estruturalista de Freud, 223). Na técnica des de operar como analistas. Cada vez que interpreto bem lacaniana, essa adverténcia influi, sem dúvida, na atitude a transferência, aumento âmbito a partir do qual posso de siléncio do ao passo que na Paula Heimann de falar como analista. 1955 e, em geral, em todos analistas kleinianos opera Em resumo, a oposição dilemática entre interpreta- ção transferencial e extratransferencial é resolvida respei-FUNDAMENTOS DA TÉCNICA PSICANALÍTICA 245 tando-se a complexidade do material, sem se amparar na minha analista interpreta minha transferência materna com comodidade das opções escolásticas. Como dizia o mestre minha mulher ou com alguém de fora, opera com duas Pichon Rivière, uma boa interpretação, uma interpretação inferências teóricas: que minha mulher, ou quem quer que completa, deve tomar OS três (ou quatro) âmbitos e mos- seja, é minha mamãe para mim, e que ela, minha analista, trar a identidade essencial do que se passa no consultório é minha analista para mim. Esses dois pressupostos po- com que sucede fora e com que sucedeu no passado. dem ocorrer, é claro, mas não deixa de ser paradoxal que, Se tomamos somente uma dessas áreas, seja qual for, como nesse preciso momento, eu distorça lá e não aqui. Se as- se não existissem as outras, então já não operamos com a sim fosse, com efeito, deveríamos perguntar de que forma teoria da transferência. estão operando mecanismos de dissociação. Nesse ponto, compreende-se a importância que Heimann outorga ao fenômeno perceptivo, já que será sem- INTERPRETAÇÃO COMPLETA pre mais fácil para analista advertir e para analisando corrigir uma distorção perceptiva, quando se dá no cam- Uma interpretação completa, como acabamos de ver, po. Mais seguro é falar da (neurose de) transferência que deve integrar todos níveis que material oferece: con- se vê do que das transferências que se infere. O erro já se flito infantil, conflito atual e transferência. À medida que tornará inevitável quando um problema de contratrans- utilizamos coerentemente a teoria da transferência, apoia- ferência leve a interpretar dessa maneira. Se analista dos nos postulados psicanalíticos mais clássicos, mais está realmente aludido e prefere, não obstante, interpre- freudianos, evitamos a contradição entre OS diversos ní- tar conflito atual ou conflito infantil, é lógico supor veis de operação que convergem para uma situação total. que está sendo influenciado por sua contratransferência. O aspecto decisivo para entender as diferenças Muitas dessas reflexões podem ser aplicadas mutatis escolásticas é deslindar em sua real hierarquia OS níveis de mutandi a Lacan ou, mais precisamente, ao Lacan da "In- ação do analista. Isto depende das teorias, mas também tervenção sobre a Não basta, de maneira alguma, operar a inversão dialética do material, desen- da clínica. Se postulamos, como Paula Heimann, que a realida- ganchar-se da transferência e remeter paciente à sua de é percebida a partir da fantasia inconsciente, logica- história, ainda que fosse apenas porque essa atitude do mente vamos pensar que a realidade imediata da qual analista pode ser vista pelo paciente a partir de seu confli- to transferencial. Assim, por exemplo, operar a inversão podemos partir é a transferência. Se sustentamos, ao con- trário, que o conflito a analisar encontra-se em um círculo dialética (embora, obviamente, não se digam essas pala- fechado, ao qual só podemos aceder após um processo de vras) será, para analisando, a homossexualidade; remetê- regressão, antes de intervir teremos de esperar em silên- lo à história, tirá-lo da cama dos pais, etc. Lembro-me de cio até que isso ocorra. E ficaremos mais em silêncio ainda um paciente eritrofóbico que ficava enrubescido cada vez se sustentarmos que a transferência é um fenômeno ima- que se usava uma expressão que (no nível do processo ginário do qual devemos desenganchar-nos, sem ceder à primário) pudesse aludir à homossexualidade, como, por exemplo, dar marcha a ré com automóvel, fazer uma demanda. Alguns analistas, entre OS quais se destaca Ricardo inversão bancária, etc. Avenburg (1974, 1983), dizem que a transferência está Tudo isso explica por que estabelecemos diferenças entre nível tático e nível estratégico da interpretação, tanto fora quanto dentro da sessão, e é indiferente, então, como também faz Löwenstein. De forma esquemática, interpretá-la em um lugar ou em outro: minha transferên- cia materna será tanto com minha esposa e minhas ami- gostaria de propor que, em termos da situação analítica gas quanto com,a doutora que me analisa; e isso é certo, (isto é, do campo), a interpretação transferencial é a es- tratégia do analista, ao passo que as interpretações do con- absolutamente certo, um fato, diga-se de passagem, que flito atual são táticas ou resultam da elaboração que se mostra a espontaneidade do fenômeno transferencial. No entanto, esses analistas não levam em conta que, quando àquela: "Compreende-se agora por que você sente segue sua mulher...". Da perspectiva do processo psicanalíti- é tática minha doutora analisa minha transferência materna com que no entanto, a interpretação transferencial com e minha mulher ou com uma colega, pode não ser a analista co, subordina-se à estratégia de estabelecer seu nexo para mim. Pode ser minha mamãe, por exemplo, uma mamãe que não assume sua responsabilidade e deixa-me passado, Além com dessas o conflito linhas infantil. gerais, contudo, sempre devemos Se o com "a babá", quando não uma mamãe que consente com aparece manifestamente no material. conflito atual, acting out de que eu me vá com a vizinha ou com a tia partir realmente do que predomina no material é o enquanto que minha mulher está representando; ou será meu papai que me castrará por meu vínculo incestuoso; ou meu interpretá-lo transferência, como faz não será que será em princípio o mais legítimo, às vezes analista irmãozinho ciumento de me ver com mamãe, etc. E, no fim das contas, quem assegura à minha analista que mi- principiante artefato. Veremos esse analíticos que con- trazê-lo para ("E a isso também acontece artefato comigo"), aparecer com nha mulher seja minha mamãe nesse momento para mim? Pode ser meu papai, por exemplo. E pode até ser, pura e mais que um é evidente, nos e origi- simplesmente. da minha mulher sem distorções! Para ser ain- mais interpretar pressio- mais preciso, devo dizer que, na realidade, quando nam, sideram por fundamental conseguinte, um superego analítico que246 R. HORACIO ETCHEGOYEN Todavia, a probabilidade não pode reger a práxis na nessa direção. De qualquer modo, é provável, porém, ferência. do consultório e a alternativa oposta também é que a interpretação do conflito atual, formulada nessas concreta Não interpretar conflito atual ou conflito infan- condições, só cumpra a função tática de reativar conflito válida. é momento, dando em seu lugar uma inter- transferencial, como dizia til, quando convencional na transferência, é um erro que re- A interpretação extratransferencial do conflito atual pretação força OS mecanismos de dissociação e contribui para idea- adquire um valor diferente quando fica integrada ao pro- cesso de elaboração. Como veremos ao falar de insight, lizar analista. mecanismos de dissociação complicam e enrique- efeito da interpretação deve ser entendido a partir do pro- Os tarefa do analista. Estamos habituados a descobrir cesso de elaboração, que em boa parte é cumprido mos- cem a paciente dissocia, quando fala de seu conflito atual trando-se ao analisando até que ponto repete a mesma que de seu conflito infantil, para eludir conflito na trans- situação em contextos diferentes (Fenichel, 1941). Isto só ou porém, pode ser que faça justamente contrá- é alcançado atendendo imparcialmente a transferência, rio, não ver O que lhe acontece fora, ou para não se res- reforçando artificialmente conflito com analista conflito atual, conflito precoce e conflito infantil, con- forme vão aparecendo no material. Uma interpretação completa é, então, a que abrange ponsabilizar para por sua história; e também, é óbvio, para agra- dar ao analista que só vê a transferência. Aqui sim ficamos todas as áreas do conflito. E digamos que aqui, assim como na aritmética, a ordem dos fatores não altera produto. enganchados na transferência, em uma situação ilusória, Dá no mesmo que sigamos caminho que vai da transfe- imaginária, como diz Lacan. Lembro-me de um homem rico e muito inteligente que falava de modo vão de "sua réncia à história e dali ao conflito atual ou outro qualquer. relação comigo" no dia em que havia recebido a notícia de Todas as combinações são válidas, e não há, portanto, uma que uma de suas principais empresas estava por quebrar. rota obrigatória. Quando pretendemos aplicar um esque- Não menos problemático era para mim aquele outro pa- ma estrito, já estamos falhando, porque nenhum esquema pode abranger a variedade infinita da experiência do con- ciente que, enquanto se debatia em um conflito transfe- sultório. Embora seja certo que a passagem pela transfe- rencial de inusitada intensidade, dizia que ia falar de mim, réncia é ineludível e privilegiada, porque nosso inimigo porque era único tema que me interessava! Essa predile- jamais poderá ser vencido in absentia ou in effigie, ção "minha" já era motivo suficiente para que em seguida tampouco é concebível uma análise em que não se inter- me ofendesse, insultando-me de cima a baixo. Enfim, temos forçosamente que aceitar a bela com- prete conflito atual, se formos com con- ceito de elaboração; que dirá então conflito infantil, que plexidade da situação analítica e pensar que nunca pode- remos estar certos de nada, receptivos ao material, aten- está implícito na Na verdade, se formos receptivos, material do pa- tos sempre às mudanças que podem ocorrer. O processo ciente nos levará continuamente daqui para lá, girando analítico é muito sutil e não vamos simplificá-lo com uma nessas trés áreas. A objetividade analítica, medida na aten- posição tomada de antemão. ção flutuante, pressupõe tomar material assim como vem Um dos fatores que dá à interpretação transferencial e sem prevenção. Sem memória e sem desejo, diz Bion, um valor insubstituível é sua imediatez, e está implícito com simplicidade hiperbólica. A única prioridade é a asso- nas teorias de Strachey, como veremos no devido momen- ciação livre.⁷ to, que o setting analítico opera como uma realidade Como já dissemos, a maior dificuldade da interpreta- testável. Osetting é a condição necessária do trabalho ana- ção extratransferencial e também seu risco é que, em lítico. A atitude mental e emocional do analista são parte geral, analista tem um papel atribuído na transferência, de seu setting, condições necessárias para o trabalho ana- e, à medida que esse papel seja forte, toda interpretação lítico, em que opera como único fator suficiente a inter- extratransferencial é destinada ao fracasso, a ser mal-en- pretação. Se a interpretação opera, é, justamente, porque tendida. Quando analista é analista para paciente, e estão dadas as condições para que paciente a tome como isso se mede na quantidade de ego observador do pacien- interpretação. Porque, se tenho rivalidade com meu paci- te em dado momento, então dá no mesmo interpretar na ente e faço-lhe a melhor interpretação do mundo sobre situação analítica ou fora dela. Nem sempre temos essa sua rivalidade edípica, essa interpretação nunca será sorte, entretanto, que não pode chamar a atenção de ninguém se nos ativermos ao que diz a teoria, que a libido operante. E tampouco é boa; na realidade, é uma forma do neurótico está ligada a figuras arcaicas e, portanto, não sofisticada de exercitar minha rivalidade e nada mais. A está disponível para OS objetos da realidade. É por isso interpretação é útil, porque as condições necessárias para formulá-la estão dadas. que, probabilisticamente, pode-se afirmar que não se ofe- rece com a ocasião de interpretar fora da trans- SOBRE REGISTRO DA FANTASIA INCONSCIENTE Voltaremos a esse tema interessante ao estudarmos a interpre- tação Serão encontrados exemplos pertinentes em meu trabalho inconsciente as de Susan Isaacs, trabalho de Heimann dá Ao apoiar-se resolutamente no conceito de fantasia "Instances and alternatives of the interpretation work" (1981c). razões teóricas que levam analistas kleinianos a in-FUNDAMENTOS DA TÉCNICA PSICANALÍTICA 247 terpretar com mais amplitude e a transferên- cia. A própria Melanie Klein havia dito em "The Heimann também acredita que seu trabalho conce- transference" (1952a): "Durante muitos anos origins isso of dia uma importância exagerada às relações de objeto e até certo ponto, ainda certo agora -, a transferência e foi é, aos mecanismos de introjeção e de projeção que modelam entendida em termos de referências diretas ao analista crescimento do ego, deixando na sombra as capacidades material do paciente. Meu conceito de que a transferência no inatas do ego enquanto potencialidades que impulsionam tem suas raízes nas fases mais precoces do desenvolvimento desenvolvimento. Seguindo Hendrick, nossa autora con- e nos níveis mais profundos do inconsciente é muito mais sidera que OS mecanismos do ego não são apenas defensi- amplo e leva a uma técnica pela qual elementos incons- vos, mas também executivos. cientes da transferência são deduzidos da totalidade do Continua pensando que a interpretação é a única fer- material apresentado". Paula Heimann desenvolve em seu ramenta específica da análise, porém agora dá mais im- ensaio essas afirmações de Klein, nas quais também se portância à situação analítica e às concepções atuais que a baseia o trabalho de López (1972) quando estuda como se descrevem na dupla vertente da aliança terapêutica e da pode descobrir a fantasia inconsciente que alimenta a trans- neurose de transferência. A situação analítica, enquanto ferência na sessão e como se constrói, a partir disso, a milieu, oferece ao analisando um ambiente que se asseme- lha ao meio familiar da infância e, ao mesmo tempo, é interpretação. López apóia-se especialmente em alguns muito variável e rico em estímulos. elementos da teoria da comunicação e nos informes que o Por repetir a indiferenciação original entre lac- analista registra como No paciente tante e OS cuidados maternos, meio analítico permite ao neurótico típico, diz López, a via preferida da comunica- paciente reviver a ilusão narcisista de estar unido com ção é a verbal; porém, nos caracteropatas, boa parte da seus pais amantes e reviver a confiança primitiva da qual comunicação transcorre por canais não-verbais ou para- depende um desenvolvimento favorável. É no interior verbais, que são justamente que mais incidem na con- desse equipamento de trabalho que se situam pro- tratransferência. A compreensão assim obtida "completa- cessos de individuação, assim como a descoberta das se mediante sua correlação com significado verbal" capacidades específicas do ego que podem corrigir que (López, 1972, p. 196). andava mal. Quando o compromisso é ainda As mudanças na condição psíquica do paciente de- maior, como na psicose, o analista, em geral, tem de inter- pendem de uma tomada de consciência de si mesmo, e pretar sem atender às alternativas do significante verbal. isso lhe vem das interpretações do analista; contudo, ao Nos casos intermediários da classificação de López, avaliar a importância de uma interpretação, não pode- transtornos do caráter, o analista pode às vezes corre- mos descuidar o efeito do meio psicanalítico, que, por lacionar o significante verbal com o registrado na contra- sua constância, representa uma fonte de transferência transferência e chega, então, a construir uma interpreta- positiva. ção que inclui o significante verbal (o que se diz), o com- O que o analista oferece com a interpretação e, às ponente paraverbal (como se diz) e não-verbal (o que se vezes, com uma pergunta ou um "hum!" é a percepção de um processo que deve ser um ponto de partida para ego. faz) (1972, p. 195). Não cabe ao analista oferecer ao paciente a solução de seus problemas, e sim um esclarecimento que acrescente A EMENDA DE PAULA HEIMANN algo ao que o analisando já sabia de si mesmo. O analista, enfim, deve estar atento ao significado da No post-scriptum publicado pelo Bulletin da Associa- transferência, mas também à importância dos aconteci- ção Psicanalítica da França, em 1969, Paula Heimann vol- mentos fora da situação analítica. ta a seu artigo de 1956 para assinalar algumas mudanças O post-scriptum de 1969 marca uma mudança evi- dente no pensamento de Paula Heimann. A interpreta- nesses quase 15 anos. Já não aceita a teoria freudiana das pulsões de vida e ção compartilha agora com milieu psicanalítico as po- tencialidades curativas do método, e seus alcances ficam de morte, que abraçou com entusiasmo desde seus anos muito limitados. Já não é uma informação que amplia a de candidata. Há uma tendência destrutiva primária no capacidade perceptiva do ego, mas um esclarecimento ser humano, ao lado da libidinal, mas não lhe parece ago- convincente a relação entre a hipotética pulsão de mor- que acrescenta algo ao que o analisando já sabia de si mesmo. Sem pretender explicar tudo, a interpretação te e a tendência destrutiva primária. pode reduzir-se a um "hum", que tanto signifique com- preensão quanto dúvida. A transferência já não é decisivo, e a interpretação 8 "For many years and this is up to a point still true today to the deve ocupar-se também da realidade exterior. transference was understood in terms of direct references transference analyst in the patient's material. My conception of layers Quanto a seu alcance e profundidade, a interpreta- as rooted in the earliest stages of development and in deep by ção aproxima-se agora do esclarecimento, e não é casual of the unconscious is much wider and entails a technique elements para mim que se acredite que ela é superponível a essa which form the whole material presented the unconscious grifos famosa interjeição que pode transmitir muita compreen- the transference are deduced" (The Writings, v.3, 55, são e afeto, mas pouca informação. no original).248 R. HORACIO ETCHEGOYEN A REVISÃO DE MERTON GILL A partir dessas reflexões, Gill propugna que deve ampliar-se campo da transferência na situação Houve uma extensa revisão da análise da transferência atendendo às alusões encobertas à transferência no entre OS psicólogos do ego dos Estados Unidos e do Grupo rial do analisando e prestando atenção às circunstâncias Freudiano ("B") da Sociedade Britânica nos últimos 20 anos. reais da situação analítica que determinam Merton M. Gill (1979, 1982) voltou preocupado ao transferencial aqui e agora, antes de recorrer à interpreta- tema da porque tem a impressão de "que a ção transferencial genética. Disso se segue, análise da transferência não se realiza de maneira tão sis- que muitas associações do analisando sobre fatos e pesso- temática e detalhada quanto creio que poderia e deveria as da realidade devem ser interpretadas em termos da fazer-se" (ibid., p. Gill pensa que mais descuida- transferência ou como acting out. do é a interpretação da resistência a tomar consciência da Com sua erudição habitual, Gill mostra-nos um mas há também um passo ulterior, em que verdadeiro por certo, que desde a autobiografia de 1925 se deve interpretar a resistência a resolver o vínculo transfe- até A interpretação dos sonhos está alertando-nos para 0 rencial. No primeiro caso, analisando resiste a ter conta- fato de que a situação analítica e próprio analista estão to com o no segundo, resiste a abandoná-lo. permanentemente aludidos no material associativo do "A interpretação da resistência a tomar consciência da trans- analisando e que será, assim, a fonte de inspiração do no- ferência aponta para tornar explícita a transferência im- plícita, enquanto a interpretação da resistência à reso- tável trabalho de Strachey sobre a natureza da ação tera- pêutica da psicanálise (ibid., p. 159). lução da transferência aponta para que o paciente com- preenda que a transferência já explícita inclui, sem dúvi- Gill procura diferenciar-se dos analistas kleinianos. da. um determinante do passado" (ibid., p. 139). assegurando que estes não levam em conta como ele Isto leva nosso autor a assinalar que se descuida, em traços reais da situação analítica presente; contudo, tal- geral, da análise da transferência aqui e agora, ao amparo vez o talentoso investigador de Illinois pudesse chegar a das interpretações genéticas que procuram remeter o con- revisar essa afirmação taxativa se lesse com menos paixão flito transferencial aos modelos infantis que o originaram. o trabalho de Strachey, que tanto admira, se lembrasse 0 Gill dá-se conta de que, ao fugir da transferência para que Paula Heimann disse sobre ego e a percepção e passado, analisando e analista aliviam-se dos afetos per- last but not least se relesse sem preconceito "The origins turbados do presente. of são Cito tradução aparecida em pois transference. nem de Gill tive a sorte de receber a tempo não Analysis tenho of a ver- the

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