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24 Materiais e Instrumentos da Psicoterapia A parte principal das lições que agora começamos é nicas psicoterapêuticas" (1952), no qual se reconhecem o estudo da interpretação, o fundamento da terapia psica- dois tipos de psicoterapia: de apoio e exploratória. Outros nalítica. Contudo, ninguém tem dúvida de que a atividade autores preferem falar de psicoterapia repressiva e expres- do analista não está estritamente circunscrita a interpre- siva. Merton M. Gill (1954), destacado estudioso da psico- tar e que sempre fazemos algo mais que isso. Com um logia do ego, fala de psicoterapia exploratória e de apoio, sentido mais abrangente, que vamos estudar são ins- definindo a psicanálise nesses termos: "A psicanálise é aque- trumentos da psicoterapia, entre quais a interpretação la técnica que, empregada por um analista neutro, tem ocupa o lugar principal. Ao mesmo tempo, devemos levar como resultado o desenvolvimento de uma neurose de em conta que a interpretação não é privativa da psicanáli- transferência regressiva e a resolução final dessa neurose se, já que todas as psicoterapias maiores a utilizam. ocorre somente por meio de técnicas de necessário começar, pois, situando a interpretação (Contribuições à teoria e à técnica psicanalítica, p. 215). no contexto de todo instrumental com o qual psicotera- Um enfoque similar é o de Edward Bibring em seu peuta deve operar e explicar por que esse instrumento tem clássico artigo de 1954. Bibring diz que há cinco tipos de uma importância especial. Por outro lado, deve-se tam- psicoterapia: sugestiva, ab-reativa, manipulativa, esclare- bém delimitar o conceito de interpretação, porque, segun- cedora e interpretativa. Não preciso esclarecer a que ele do tomemos em sentido lato ou estrito, chegaremos a se refere com psicoterapia sugestiva ou ab-reativa.¹ Por diferentes conclusões quanto à tarefa do analista, se só manipulativa, define a psicoterapia na qual o médico par- interpreta ou se faz outras coisas, sendo, às vezes, esse ticipa, tentando fornecer uma imagem que sirva como problema simplesmente de definição. Logicamente, se atri- modelo de identificação. As psicoterapias de esclarecimento buirmos ao conceito um sentido muito amplo, tudo pode e as interpretativas operam por meio do insight; já as ou- ser rotulado como interpretação, mas talvez esse não seja tras não. É interessante esse ponto de vista, porque so- mente Bibring diz que o esclarecimento produz insight. Os melhor critério. Começaremos estudando a interpretação como ins- demais psicanalistas pensam que o insight está ligado ex- trumento principal utilizado por todos métodos de clusivamente à interpretação, ainda que possa haver aqui psicoterapia maior (ou profunda); depois, em um segun- um problema semântico, já que talvez o insight em que do passo, procuraremos ver quais são as características es- Bibring pensa seja o descritivo, e não ostensivo, no sen- tido de Richfield (1954). Quando, no próximo capítulo, senciais da interpretação em psicanálise. considerarmos a forma como Löwenstein define a inter- pretação, veremos que o faz, justamente, em função do PSICOTERAPIA E PSICANÁLISE insight. Bibring conclui, e parece-me interessante, que a psi- Para abordar esse tema, é inevitável um breve comen- canálise é uma psicoterapia que utiliza esses cinco instru- tário sobre as diferenças entre psicanálise e psicoterapia. mentos, isto é, a sugestão, a ab-reação, a manipulação, o Com correr dos anos, a poética idéia de Freud (1904a) esclarecimento e a interpretação. Há, porém, uma dife- de dividir a psicoterapia, como Leonardo dividiu as classi- artes rença que a caracteriza e também a destaca frente às ou- plásticas. ficações. acabou sendo a mais rigorosa de todas as tras, prossegue Bibring, que é fato de utilizar OS três pri- meiros como recursos técnicos, e apenas OS dois últimos Freud afirmava que método descoberto por Breuer, como recursos terapêuticos. É permitido ao psicanalista usar a psicoterapia catártica e a psicanálise, desenvolvida a a sugestão, a ab-reação e a manipulação como recursos partir desta primeira, operavam per via di levare, não per para mobilizar o paciente e facilitar desenvolvimento do via di porre, como as outras. Essa idéia aparece em quase processo analítico, mas OS únicos recursos com OS quais todos trabalhos (que são centenas), em que se procura opera como fatores terapêuticos são que produzem separar a psicanálise da psicoterapia. insight. Essa idéia de Bibring parece-me correta, porque leitor recordará, sem dúvida, dos trabalhos de de Robert P. Knight, entre OS quais se destaca, do ponto téc- vista que estamos considerando, "Uma avaliação das ab-reação ocupa um lugar singular, como veremos mais adiante.184 R. HORACIO ETCHEGOYEN nece com a intenção de de colaborar com a que diferencia a psicanálise das psicoterapias em geral (re- tarefa. Isso não significa que psicoterapeuta não firo-me, especificamente, às psicoterapias exploratórias ou sa tirar determinada conclusão dele. Como diz Elsa expressivas) é justamente que nestas a sugestão, a ab-rea- Garzoli (comunicação pessoal), acting out não ção e a manipulação são utilizadas como recursos terapêuticos, isto é, essenciais. O paradigma poderia ser a nica, embora informe. conceito de material deve ser circunscrito ainda reeducação emocional de Alexander e French (1946), em que se recorre à manipulação da transferéncia para dar ao porque se deve considerar uma terceira dimensão do dis- paciente uma nova experiência, que corrija as defeituosas curso: quando analisando não somente fala do passado. A verdade é que, quando tentamos corrigir a Ocupamo-nos indiretamente desse tema. a propósito imagem do passado dessa forma, já começamos a operar da aliança ao estudar as contribuições de com fatores sugestivos ou de apoio. Digamos, de maneira Greenson e de Meltzer A parte adulta afirma Meltzer: precisa, que psicanalista utiliza de fato recursos que e, quando paciente fala (ou nos fala), que corresponde Bibring chama de técnicos, sem por isso conceder a eles é responder a não interpretar um lugar de todo legítimo em seu método. Greenson e Wexler (1969, 1970) no meu entender, a mesma idéia quando discriminam entre asso- ciação livre e o que não é. Sustentam que tomar por asso- MATERIAIS E INSTRUMENTOS ciações livres que se expõe como real (que, para eles. tem duplo significado do não-distorcido e do genuino) A reflexão de Bibring abre-nos caminho para outro danifica juízo da realidade do analisando. (Recorde-se esclarecimento que devemos fazer para abordar finalmen- exemplo de Kevin.) te nosso tema; trata-se da diferença entre materiais e ins- Em resumo, se quisermos ser precisos e evitar equi- trumentos da psicoterapia, seguindo basicamente Knight. deveremos limitar termo material ao que anali- É uma diferença um tanto geométrica e pitagórica, se- sando comunica, em obediéncia a regra fundamental e gundo a qual que surge do paciente chama-se de mate- colocar entre parénteses o que ele mesmo deixa de fora rial, e analista opera sobre esse material com seus (acting out verbal) ou conscientemen- instrumentos. te, isto é, quando fala (ou pensa que fala) como adulto, Tanto o conceito de material quanto de instrumen- esteja relacionado ou não, para ele, com o tratamento. to exigem alguns esclarecimentos. Com respeito ao mate- Convém esclarecer que as precisões recém-propos- rial, eu diria que devemos circunscrevé-lo ao que paciente tas referem-se integralmente ao que analisando sente, a fornece com a intenção (consciente ou inconsciente) de suas fantasias, e não a julgamentos do analista. parte da informar analista sobre seu estado mental. Desse modo, tarefa do analista assinalar ao analisando com que (ou a ficaria de fora que o paciente faz ou diz não para infor- partir de que) fantasias está falando, sobretudo quando mar, mas para influenciar ou dominar terapeuta. Essa notar uma discordáncia entre que analisando assume parte do discurso deve ser conceituada como acting out manifestamente e suas fantasias inconscientes. Em outras verbal, e não verdadeiramente como material. Como vere- palavras, analista deve reconhecer que analisando mos com mais detalhe ao falar de acting out, é mais exato assume explícita ou implicitamente quando fala, sem por dizer que discurso sempre tem, ao mesmo tempo, as duas isso sujeitar-se a essas estipulações. partes e, por conseguinte, compreende ambas. Se toda a Deixando para outra oportunidade uma discussão comunicação do paciente inclui esses dois fatores, será mais detida desse tema, que para mim é fundamental. a então parte da técnica analítica discriminar entre que o paciente fornece para nos informar e que nos faz com seguir estudaremos os instrumentos que psicoterapeuta utiliza, os quais, para um melhor desenvolvimento de nos- sua comunicação. Essa discriminação não muda se que paciente "faz" transformado pelo analista e com- sa exposição, dividiremos em quatro grupos: 1) instrumen- preendido como material, porque a classificação não tos para influir sobre paciente; 2) instrumentos para obter é funcional, mas dinâmica, ou seja, tem a ver com desejo informação; 3) instrumentos para oferecer informação e do paciente, com sua fantasia inconsciente. Em outras pa- 4) parámetro de Eissler (1953). lavras, sem ter intenção de comunicar, acting out do ana- lisando pode informar-nos. Quanto aos instrumentos, também se deve estabele- INSTRUMENTOS PARA INFLUIR cer a mesma diferença e privar desse caráter as interven- SOBRE PACIENTE ções do analista que não tenham por finalidade desenvol- ver processo terapéutico. Essas intervenções devem ser psicoterapeuta dispõe de vários instrumentos para chamadas, para sermos justos, de acting out do analista exercer uma direta sobre paciente, com pro- (contra-acting out). pósito de fazer com que mude, com que melhore. Essa Este não é um problema ocioso, porque muitas dis- mudança pode consistir em que os sintomas aliviem-se ou cussões sobre acting out estão vinculadas a tal dife- que seu estado mental modifique-se, que sua rença. Em minha opinião, e adiantando-me ao tema, conduta torne-se mais adaptada à realidade em que vive, acting out não é material, porque paciente não for- etc. Há muitos procedimentos para alcançar esses fins, como apoio, a sugestão e a persuasão.185 FUNDAMENTOS DA TÉCNICA PSICANALITICA Todos eles se a alcançar uma mudança di- e se combinado com a interpretação. Na discussão do Paula tra- imediata, que aponta mais para a conduta do que balho falaram. entre Glover, Ella Sharpe, para a personalidade e que se diferenciam dos outros mé- Heimann e a mãe de que a apoiou (Glover. p. 288). todos que vamos porque estão a serviço da psico- Outro instrumento da do qual também terapia repressiva. Nem apoio, nem a nem a falarei brevemente. é a sugestão. Como indica seu nome, des- persuasão tèm por finalidade abrir campo ou, se quiser- é algo que se faz, que se gesta mé- mos nos termos da teoria psicanalitica. levantar de baixo (a raiz latina é suggestio). O fundamento do for- recalque, muito antes pelo contrário. São métodos limi- todo sugestivo é introduzir na mente do paciente, de afir- com certeza. mas podem ter um efeito que ma subjacente ao que pensa. algum tipo de juizo ou é muito legitimo em algumas formas (menores) de psi- mação que depois possa operar a partir de com o coterapia. sentido e a finalidade de modificar uma determinada con- Entendemos por apoio uma ação que duta patológica. Baudouin distingue dois tipos de suges- procura dar ao paciente estabilidade ou segurança, algo passiva e ativa, chamando de aceptividade a passiva e, como um respaldo ou uma bengala. Aqui as expressões de sugestibilidade a ativa. No primeiro caso, plásticas de se manter de pé ou de continuar caminhando deixa-se penetrar pela sugestão, sem fazer nenhum esfor- são ineludíveis, porque conceito está intrinsecamente li- ço para recebè-la e incorporá-la. É a menos eficaz e a mais gado à idéia de algo que sustenta. Há diversos tipos de condenável. Na sugestibilidade, ao contrário paciente apoio, como as medidas que tendem a aliviar a ansiedade, participa do processo, que por isso mesmo é mais dura- procurando afastá-la da consciência (recalcamento, nega- douro e eficaz. ção), as que tendem a reforçar a boa relação com outro, Para alguns autores, psicanalista exercita uma for- para qual o psicoterapeuta coloca-se no lugar de um ma sutil e indireta de sugestão, e próprio Freud sempre objeto (superego) bom, sobre qual falou Strachey em manteve essa idéia. Ele dizia que, em última a seu trabalho de 1934, e as que tendem a ressaltar (ten- diferença entre a psicoterapia analítica e as outras é que a denciosamente) certos aspectos da realidade. utiliza a influência do médico, ou seja, a suges- O apoio é instrumento mais comum da psicote- tão, para que paciente abandone suas resistências, e não rapia, que está mais ao alcance do médico geral (ou, para lhe induzir determinado tipo de conduta. Nesse sen- simplesmente, de tudo que esteja relacionado com rela- tido se apóia o trabalho de Ida Macalpine (1950) sobre a ções interpessoais) e que se utiliza mais livremente. No transferência, que parte para ela de um fenômeno subja- entanto, apesar de ser o mais comum, não é mais ade- cente de sugestão e, até mesmo, de hipnose. Se o apoio é criticável por criar um vínculo que, de quado, pois pode criar uma situação viciosa porque es- timula uma dependência difícil de resolver e, quando certo modo, é ortopédico (já dissemos que a analogia da não é verdadeiro, pode aumentar a insegurança. Logica- bengala é inevitável), também a sugestão (mesmo a for- mente, isso depende do que chamaremos de apoio. Refi- ma ativa de Baudouin) é perigosa, porque a influência que exerce é muito grande e pode ser perturbadora. A possibi- ro-me ao apoio como algo que se oferece ao paciente lidade de conduzir demasiadamente paciente e de exer- externamente para mantê-lo, a qualquer custo, em equi- está citar a demagogia ou a fraude são riscos inerentes à suges- líbrio. Como observa Glover (1955), às vezes o apoio fortemente determinado pela contratransferência. Se, tão, sem que isso a desqualifique, já que todos os instru- mentos, inclusive a interpretação, têm seus riscos. Quan- contudo, entendemos por apoio uma atitude de simpa- tia, de cordialidade e de receptividade frente ao pacien- do o apoio e a sugestão situam-se no lugar que lhes cabe, te, obviamente esse apoio é um instrumento inevitável alterna- e quando psicoterapeuta sabe com que instrumentos está operando, eles são legítimos e podem ser úteis em certas em toda a psicoterapia. Para diferenciar as duas (hol- formas de psicoterapia (menor). tivas, prefere-se falar, nesses casos, de contenção A persuasão de Dubois aponta para a razão e assume ding), de acordo com Winnicott (1958, passim), como diferentes modalidades, trocando idéias, argumentando e veremos ao estudar processo analítico. até mesmo polemizando com o paciente.² Quanto à influência da angústia contratransferencial ana- Dubois sempre procurou diferenciar seu método do na necessidade de dar apoio, convém salientar que apoio e da sugestão, afirmando que a persuasão está liga- lista não deve confundir apoio que se oferece duradou- conjun- da ao processo racional, à razão do paciente. Embora apa- ro. Meltzer (1967) destaca que a adequada manutenção ape- turalmente com algo que pretende ser de valor e rente ter um matiz racional, o método de Dubois está sem- pre carregado de afetividade; seus argumentos são mais manejo do setting podem modular a ansiedade, mas racionalizações do que razões. O mesmo se pode dizer de nas a interpretação resolve-a. algumas psicoterapias de inspiração pavloviana, que sur- apoio no tratamento psicanalítico mereceu livro a aten- de giram há anos e que, assim como surgiram, passaram. Entre ção de vários Glover aborda-o em seu tratou técnica (1955, autores. p. 285-290). Melitta Schmideberg 1934, e do tema na Sociedade Britânica, em fevereiro de seu trabalho foi publicado no ano seguinte. Ela considera como 2 A logoterapia de Frankl (1955) é, a meu ver, uma forma de que apoio é um método de dosar a ansiedade e, psicoterapia persuasiva, mais moderna e existencial; porém incidente, no fundo, com a de Dubois. tal, é legítimo em psicanálise se utilizado prudentemente186 R. HORACIO ETCHEGOYEN nós, um de seus cultores foi José A. Itzingsohn, cuja evo- trário, já fazendo outra influindo sobre lução de uma crescente aproximação à psica- analisando, etc. Uma nálise. Em todos esses métodos, a idéia de "psicoterapia dade, justamente, de perguntar é que, sem nos darmos racional" está mais ligada à forma que ao fundo, ao passo conta, tenhamos segundas intenções e/ou que analisan- que a psicanálise, como bem dizia Fenichel (1945a), é ra- do as atribua a De fato, pode ser cional, embora maneje fenômenos irracionais. outro inconveniente de perguntar é que, em algu- ma medida, perturbamos a associação Lowenstein referiu-se a no painel sobre técnicas do Con- INSTRUMENTOS PARA OBTER INFORMAÇÃO gresso de Paris em As perguntas tém um lugar timo na técnica para obter detalhes e como fez Os instrumentos do primeiro grupo, que acabamos Freud com "Homem dos Ratos", mas apenas em casos de buscam influenciar paciente, operar de for- especiais justifica-se interromper fluxo associativo para ma direta e concreta sobre sua conduta e, por isso, estão aspecto, com Lowenstein (1958), conceitualmente ligados aos métodos repressivos de psi- já que, quando paciente associa nao se deve coterapia, embora já tenhamos dito que, às vezes, ana- interrompé-lo, embora tudo dependa do contexto e das lista utiliza-os, com ou sem razão, fora daquela questionável circunstáncias. afirmação freudiana de que a sugestão é uma parte indis- Se perguntarmos com outro propósito que não de pensável do procedimento analítico, uma vez que a utili- obter informação, estamos introduzindo um fator na situa- zamos para que paciente vença suas ção, e isso sempre é complicado. Olinick (1954) ocupou- A seguir, estudaremos dois grupos de instrumentos se desse tema e emprega as perguntas concretamente como que, opostos por seus objetivos, são irmãos em seu funda- um parámetro. mento, que é a informação. Veremos primeiramente que Quando paciente está angustiado ou confuso, quan- servem para obter informação e depois que a oferecem do não pode falar livremente, Olinick considera que é legí- ao paciente. Esses dois tipos de recursos, digamos desde timo fazer perguntas, seja para dar suporte ao ego ou re- já, são por sua índole totalmente compatíveis com mé- forçar seu contato com a realidade ou então como uma todos da psicoterapia maior e da psicanálise mais estrita. tentativa de melhorar nível de colaboração do paciente, Entre instrumentos para obter informação, mais preparando-o eventualmente para a interpretação. simples e direto é a pergunta. Quando não escutamos, não Esse uso das perguntas como parámetro parece-me entendemos ou desejamos conhecer algum dado que nos discutível. O exemplo de Olinick, de uma jovem que come- parece pertinente às associações do analisando, assim como ça sua análise esforçando-se em mostrar sua admiração pela quando acreditamos necessário saber que significado mãe e desprezo pelo pai, assim como um grande desejo paciente dá ao que está dizendo, podemos perguntar de impressionar analista, foi resolvido com uma série de sempre que não haja elementos que nos aconselhem a in- perguntas sobre suas relações parentais. Apesar de mate- terpretar ou simplesmente a nos calar. Não é, por certo, rial ser muito sucinto para dar uma opinião pessoal, excludente formular a pergunta e também interpretar; e tampouco é demonstrativo de que conflito agudo não dependerá da arte analítica que em um caso se pergunte, poderia ter sido resolvido interpretando sem parámetros. em outro se interprete ou se façam as duas coisas. Aqui intervém a arte analítica porque, evidentemen- Não há regras fixas, não pode haver: tudo depende do material do paciente, do contexto, do que a contratrans- te, quando analista está com uma pessoa muito angustia- ferência possa informar. Um caso singular é O publicado da e não acerta com a interpretação, pode perguntar para por Ruth Riesenberg (1970), em que a perversão de trans- aliviar momentaneamente a angústia, mas deve saber que consistia em querer pôr a analista como observa- essa pergunta é um modo de apoio e não tem por finalida- de obter informação. dora, como as pessoas em uma fantasia da paciente com espelho. Felizmente, a hábil analista deu-se conta e abste- Outro instrumento para obter informação é assina- ve-se de perguntar quando fazê-lo teria sido obviamente lamento (observação). Para mim, a observação superpõe- um erro. Para ser mais preciso, a analista fez, no começo, se por inteiro ao são sinônimos; não consi- go ver em que se diferenciam. alguma pergunta; porém, foi justamente a resposta da pa- ciente, nessas ocasiões, que a levou a se cuidar, a pensar O assinalamento, como seu nome indica, assinala por que a paciente respondia de forma tão particular às algo, circunscreve uma área de observação, chama a aten- perguntas que, por outro lado, pareciam à analista mais ção, com objetivo de que o paciente observe e ofereça do que naturais para esclarecer material. De modo que, mais informação. Se quiséssemos situar esse instrumento como mostra esse trabalho, cada vez que alguém pergun- na tabela de Bion (1963), colocaríamos nas colunas 3 ta deve estar atento para ver se está realmente obtendo (notação) e 4 (atenção). informação ou se se deixou levar a uma situação que me- O assinalamento implica sempre, é certo, um grau de receria ser analisada em si mesma. informação que analista dá ao paciente ao chamar a sua No caso regular, a pergunta tem por finalidade obter atenção, mas creio que isso é somente adjetivo: o que define uma informação precisa e entende-se que é formulada esse instrumento é fato de que busca receber informação. outros propósitos, sem segundas intenções, porque, do con- sem Como no caso da pergunta, a observação pode ter segundas intenções ou pode suportar elementos interpre-FUNDAMENTOS DA TÉCNICA PSICANALÍTICA 187 tativos. Sempre há lugares de trânsito, quais são inevi- táveis, mas que importa é discriminar OS diferentes in- gredientes do caso particular. justamente opinião Outro da minha a surpreendente parte, por negação exemplo, de levando em conta assinalamento (observação) tende a ser feito di- zendo-se repare que ou note que, ou algo assim, isto é, as- fumar acendia um cigarro cada vez que deixar de paciente que queria sinceramente seus temores. sinalando realmente um fato, assinalando algo que não tei-o sar problema. Em uma dessas oportunidades. se punha a anali- foi notado pelo analisando e que não sabemos se é conscien- simplesmente com esse fato, disse a ele confron- para ele. Não é necessário que paciente não tenha ção era que queria analisar seu hábito que de a situa- te consciência; pode tê-la e, por isso, é contingente a infor- para deixar de fazê-lo e, enquanto isso, acendia um fumar ro. A confrontação, então, destaca dois aspectos distintos, cigar- mação que analista dá no assinalamento: característi- contraditórios do material. Foi realmente útil ao paciente, de qualquer modo, que assinalamento contribui porque fez compreender toda uma série de automatismos, circunscrever uma área determinada para a investi- de contradições em sua conduta, inclusive a função que para gação ulterior. Nos atos falhos, assinalamento cumpre, cigarro cumpria para ele quando devia realizar uma ta- às simultaneamente a missão de chamar a atenção refa, etc. do analisando e de torná-lo consciente, de informá-lo de Nem sempre é fácil separar a confrontação do que teve um lapso que ele não percebeu. assinalamento, já que aquela pode ser considerada como Quando, após contar seu primeiro sonho, Dora ofe- um caso especial deste, em que chamamos a atenção so- rece suas associações, Freud diz a ela: "Peço-lhe que tome bre dois elementos contrapostos. No entanto, existem al- nota bem de suas próprias expressões. Talvez nos façam gumas diferenças que, com certeza, não devem ser consi- falta. Você disse que, à noite, poderia acontecer algo que a deradas como inquestionáveis. Poderíamos dizer inicial- obrigasse a sair" (AE, 7, p. 58). E em seguida, no rodapé mente que, em geral, assinalamento está relacionado da Freud explica por que sublinha essas palavras, com a percepção, e a confrontação, com juízo. A ima- isto por que fez esse assinalamento a Dora.³ gem plástica que utilizamos antes, a de que assinalamento circunscreve uma área, talvez possa servir para estabele- No assinalamento, analista não tem o propósito de cer uma diferença. Enquanto assinalamento centra a aten- informar especificamente paciente, mas de fazê-lo fixar a atenção em algo que apareceu e que, em princípio, o ção em um ponto determinado para investigá-lo, na uma con- frontação fundamental é deparar paciente com dois ele- próprio terapeuta não sabe que significado pode ter. Na contradição. Confrontar é colocar, frente a frente, ocorrer nota de rodapé de seu assinalamento, Freud diz que o simultâneos e contrastantes, que podem vezes, material é ambíguo e que essa pode condu- mentos no material verbal quanto na conduta. Muitas contrapõem- zir as idéias ainda ocultas por trás do sonho. Se o analista como tanto no caso do fumante recém-mencionado, conhece com certeza do que se trata, então o assinalamento se a conduta palavra. é supérfluo, e ele deve interpretar. Poderíamos argüir que, e a vale a pena salientar, para evitar nesta mal-en- seção mesmo conhecendo com certa segurança o conteúdo la- tente, analista pode preferir, em certo momento, o são é forma: um assinalamento, fei- tendidos, dinâmicas, metapsicológicas e não uma Creio que que as discriminações que fizemos fenomenológicas. assinalamento à interpretação, pensando, por exemplo, que analisando ainda não está em condições para compreen- der ou tolerar a interpretação. Discutiremos esse ponto confrontação pergunta e, ao apenas um O fundamental e mesmo não a uma interpretação contrário, podem muitas ser ve- quando falarmos da interpretação profunda, mas digamos, zes tos por se dá meio o caráter de uma de interpretação ao que é desde já, que essa do analista introduz um pro- blema Dentro do esquema que estamos desenvolvendo, comentário Löwenstein do analista. (1951) da interpretação; fala desses contudo, três instrumentos em minha ins- outro instrumento para obter informação é a confronta- como preparatórios mais autonomia: ção. Como seu nome indica, a confrontação mostra ao paciente duas situações contrapostas, com a intenção de colocá-lo diante de um dilema para que note uma contra- trumentos exposição, para quis obter dar-lhes não são te uma Um paciente dizia que estava muito bem e próxi- fortes portanto. do fim do tratamento, embora expressasse ele está Em distingue no que de é várias interpretações um possíveis, mas a gran- temores de morrer de infarto do miocárdio. um contradição que ele não percebia entre estar bem e ter interpretativo, mentos sua técnica. preparatórios e momentos como quando, muitos na deveria autores, separá- a singular fizeram-me preferir confrontá-lo com esse fato e assim, ao de que uma inter- artificial falar do analista é complexa e lado, não se pensa pudesse ser mal-entendida abrigo nos termos de uma atividade Por outro do analisando empenho al la damental inconsciente em ir graduando e, nesse sentido, acesso entende-se seu de no texto de são a expressão tipográfica da Assim pensa, por exemplo, Terencio Gioia (1979).188 R. HORACIO ETCHEGOYEN em discriminar entre OS passos prévios e o fechamento ou minha mãe". Na realidade, tinha razão, porque essa final. Todavia. essa atitude prudente possui seus senões e era minha intenção, e talvez teria sido melhor interpretar pode até ser já que se propõe que o analisan- diretamente e assinalar-lhe que ele queria que eu lhe in- do chegue por si só ao que o analista já sabe. Lembro-me de um homem jovem, inteligente e des- terpretasse "isso" para depois me acusar. É evidente agora confiado que foi um de meus primeiros pacientes. Tinha para mim que eu tinha medo de suas respostas sonhos muito pouco censurados e eu, que não me anima- e queria fazê-lo dizer que eu tinha de dizer. Nesse caso, va a fazia-lhe perguntas sobre o conteúdo minha falha técnica é notória e não serve, então, para que ele recusava. por considerá-las tendencio- futar Löwenstein, mas demonstra, de qualquer modo, re- sas: "Claro! Você me pergunta isso para que lhe diga que é risco da prudência. Enfim, voltamos a tocar, aqui, no tema um homossexualidade (sic) ou que essa mulher é sua esposa da interpretação profunda.

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