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Apostila Original
Conteúdo novo
e exclusivo
Professor
Especialista
Gabriel Oliveira
Distúrbio
na Voz
A P O S T I L A D E
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Fa
te
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e REITORIA Prof. Me. Gilmar de Oliveira
DIREÇÃO ADMINISTRATIVA Prof. Me. Renato Valença
DIREÇÃO DE ENSINO PRESENCIAL Prof. Me. Daniel de Lima
DIREÇÃO DE ENSINO EAD Profa. Dra. Giani Andrea Linde Colauto
DIREÇÃO FINANCEIRA Eduardo Luiz Campano Santini
DIREÇÃO FINANCEIRA EAD Guilherme Esquivel
DIREÇÃO DE INOVAÇÃO Prof. Me. Jorge Luiz Garcia Van Dal
DIREÇÃO DE PLANEJAMENTO E PROCESSOS Prof. Me. Arthur Rosisnski
NÚCLEO DE APOIO PSICOLÓGICO E PSICOPEDAGÓGICO Bruna Tavares Fernandes
BIBLIOTECÁRIA Tatiane Viturino Oliveira
PESQUISADOR INSTITUCIONAL Tiago Pereira da Silva
COORDENAÇÃO DE ENSINO, PESQUISA E EXTENSÃO (CONPEx) - MODALIDADE PRESENCIAL
Profa. Dra. Luciana Moraes
COORDENAÇÃO DE ENSINO, PESQUISA E EXTENSÃO (CONPEx) - MODALIDADE EAD Prof. Me. Bruno Eckert
Bertuol
COORDENAÇÃO DE DEPTO. DE PRODUÇÃO DE MATERIAIS DIDÁTICOS Luiz Fernando Freitas
REVISÃO ORTOGRÁFICA E NORMATIVA Carolayne Beatriz da Silva Cavalcante
Isabelly Oliveira Fernandes de Souza
Jéssica Eugênio Azevedo
Louise Ribeiro
Marcelino Fernando Rodrigues Santos
Maria Clara da Silva Costa
Milena Pereira do Espirito Santo
Stephanie Rodrigues da Mota Vieira
Vinicius Rovedo Bratfisch
PROJETO GRÁFICO E DIAGRAMAÇÃO Bruna de Lima Ramos
Carlos Eduardo Firmino de Oliveira
Késia Marjorri Santos Moreira
Lucas Patrick Rodrigues Ferreira
Roberto Garcia
ESTÚDIO, PRODUÇÃO E EDIÇÃO André Oliveira Vaz
DE VÍDEO Guilherme Carrenho
Pedro de Lima
Maria Beatriz Paula da Silva
Thassiane da Silva Jacinto
As imagens utilizadas neste material didático
são oriundas do banco de imagens
Shutterstock e Freepik.
Ficha Catalográfica
O48d Dados Internacionais de Catalogação na Publicação - CIP
Distúrbio da voz // Gabriel Henrique Souza de Oliveira.
Paranavaí: EduFatecie, 2026.
111 p.: il. Color.
1. Fonoaudiologia. 2. Distúrbios da voz. 3. Foniatria. I. Centro Universitário UniFatecie.
II. Núcleo de Educação a Distância. III. Título.
CDD: 23. ed. 616.855
Catalogação na publicação: Zineide Pereira dos Santos – CRB 9/1577
2026 by Editora Edufatecie. Copyright do Texto C 2026. Os autores. Copyright C Edição 2026 Editora Edufatecie.
O conteúdo dos artigos e seus dados em sua forma, correção e confiabilidade são de responsabilidade exclusiva
dos autores e não representam necessariamente a posição oficial da Editora Edufatecie. Permitido o download da
obra e o compartilhamento desde que sejam atribuídos créditos aos autores, mas sem a possibilidade de alterá-la
de nenhuma forma ou utilizá-la para fins comerciais.
https://www.shutterstock.com/pt/
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Currículo Lattes
Informações e contato
Sobre Mim
Olá! Antes de iniciarmos nossa jornada pelo universo
da voz e suas patologias, gostaria de me apresentar
brevemente. Meu nome é Gabriel Oliveira, sou
fonoaudiólogo e especialista, com uma trajetória dedicada
a compreender e a trabalhar com o fascinante universo da
voz e da comunicação humana.
Minha formação acadêmica é multidisciplinar: possuo
graduação em Fonoaudiologia e também Licenciatura em
Música pela Fadyc. No âmbito da especialização, possuo
algumas pós-graduações concluídas: Musicoterapia
(Fadyc), Voz Profissional, Fundamentos da Voz,
Pedagogia da Voz e Fisiologia Vocal e Canto Crossover.
Minha jornada une a arte e a saúde: iniciei na música
e, posteriormente, ingressei na Fonoaudiologia para
aprofundar o entendimento sobre o instrumento vocal.
Também realizei o curso de extensão em Estilos Vocais
pela Berklee College of Music, o que me rendeu a
certificação de Vocal Styles Specialist.
Ao longo dos anos, tenho me dedicado aos estudos que
conectam a ciência e a arte da voz, do canto e da estrutura
da linguagem, além de atuar como cantor e professor de
canto há 20 anos. Para quem tiver interesse em conhecer
mais sobre minhas publicações e meu percurso acadêmico,
meu currículo completo está disponível na Plataforma
Lattes. Será um prazer ser seu guia nesta disciplina!
Professor Especialista
Gabriel Oliveira
http://lattes.cnpq.br/4282636695002595
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Fa
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e Apresentação
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Olá, futuro(a) fonoaudiólogo(a)!
Seja muito bem-vindo(a) à disciplina de Distúrbios da Voz! Este é um
momento emocionante da sua formação. A voz é a nossa assinatura sonora
no mundo, o veículo das nossas emoções e da nossa identidade. Mas o
que acontece quando esse instrumento falha? Muitos alunos chegam aqui
fascinados pela ideia de tratar a voz, mas também um pouco receosos com a
complexidade da laringe. Mas, posso te fazer um convite? Permita-se olhar
para a disfonia não apenas como uma doença, mas como um quebra-cabeça
fascinante onde a anatomia, a fisiologia e a emoção se encontram.
O objetivo desta apostila é ser o seu guia na construção do raciocínio
diagnóstico. Juntos, vamos desvendar os segredos da produção vocal,
entender o que define uma voz saudável e, principalmente, aprender a
identificar e classificar os problemas que a afetam. Meu papel aqui é ser seu
mentor, ajudando você a treinar seus olhos e seus ouvidos para se tornar um
verdadeiro “detetive da voz”.
Na unidade I, construiremos os alicerces. Vamos mergulhar nos Aspectos
Gerais, revisitando a anatomia e a fisiologia da laringe para entender como
a “máquina” funciona. Também estudaremos como a voz muda ao longo da
vida, do bebê ao idoso, e seu papel central na comunicação.
Já na unidade II, afinaremos nossa percepção com os Aspectos Relacionados à
Voz. Você aprenderá a diferenciar uma voz normal de uma disfonia, conhecerá
os parâmetros de análise auditiva e acústica e entenderá as conexões vitais da
voz com a respiração e a postura corporal.
Na sequência, na unidade III, entraremos no coração da patologia: os
Transtornos da Voz. Vamos classificar as disfonias em orgânicas, funcionais
e orgânico-funcionais. Você entenderá a correlação entre o comportamento
vocal e o surgimento de lesões como nódulos e pólipos, além de estudar a
presbifonia.
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Em nossa unidade IV, finalizaremos com a tecnologia a nosso favor: os
Exames Objetivos. Vamos conhecer a nasofibroscopia, a videolaringoscopia
e a incrível estroboscopia. O foco será aprender a correlacionar o que você
ouve na voz do paciente com o que você vê na imagem da laringe, fechando
o ciclo do diagnóstico. Meu convite a você é que encare este material com
curiosidade científica e empatia humana. A voz é “o músculo da alma”, e
entender seus distúrbios é o primeiro passo para devolver às pessoas sua
capacidade de expressão. Tenho certeza de que, ao final deste percurso, você
terá uma visão muito mais profunda e integrada sobre a patologia vocal e
estará pronto para avançar para a prática terapêutica.
Vamos começar?
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Unidade I
Unidade III
Unidade II
Unidade IV
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Aspectos Gerais Relacionados
à Voz e ao Aparelho Fonador
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Objetivo de
Aprendizagem
Plano de Estudo
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• Anatomia da laringe e estruturas supraglóticas.
• Fisiologia da produção vocal: o processo de produção da voz.
• Características da qualidade vocal nas diferentes etapas do
desenvolvimento humano.
• A voz na comunicação oral humana.
• Identificar as principais estruturas anatômicas da laringe e do
trato vocal, compreendendo suas funções.
• Descrever o processo fisiológico da produção vocal, com base
no modelo fonte-filtro.
• Reconhecer as mudanças e características vocais esperadas ao
longo da vida, da infância à senescência.
• Analisar o papel da voz como um elemento fundamental da
comunicação, identidade e expressão humana.
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Introdução
Olá, futuro(a)O treino de abertura vertical da boca
melhora a projeção vocal instantaneamente, reduzindo o esforço na fonte (laringe).
A mímica facial também participa da fonação. Uma face tensa ou inexpressiva pode indicar rigidez
em todo o trato vocal. Por outro lado, o uso excessivo da musculatura facial (caretas ao falar) pode ser um
sinal de esforço compensatório para tentar "tirar a voz". O equilíbrio do tônus facial contribui para uma
articulação precisa e uma expressão comunicativa natural.
Por fim, o conceito de eutonia (tônus ideal) deve permear toda a terapia. Não buscamos um corpo
flácido, nem um corpo rígido, mas um corpo disponível e flexível. O trabalho corporal na fonoaudiologia
(alongamentos, automassagem, consciência corporal) visa preparar o "instrumento" (corpo) para que a
"corda" (prega vocal) possa vibrar com liberdade e eficiência.
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SAIBA MAIS
O Índice de Desvantagem Vocal (IDV): Dando Voz à Percepção do Paciente
Como podemos medir o impacto que um distúrbio da voz tem na vida de uma pessoa? Uma
das ferramentas mais importantes que o fonoaudiólogo utiliza para isso é um questionário de
autoavaliação chamado Índice de Desvantagem Vocal (IDV), ou Vocal Handicap Index (VHI)
em inglês.
Este questionário, validado para o português brasileiro, possui 30 questões que o paciente
responde, avaliando como sua voz afeta sua vida em três domínios:
Funcional: O impacto nas atividades do dia a dia (ex: “Tenho dificuldades em falar ao
telefone”). Físico: Os sintomas e desconfortos físicos (ex: “Sinto dor na garganta ao falar”).
Emocional: Os sentimentos e reações afetivas relacionados à voz (ex: “Fico frustrado(a) por
causa da minha voz”).
O IDV nos fornece uma pontuação que quantifica a desvantagem vocal percebida pelo próprio
paciente. Ele é uma ferramenta poderosa porque nos ajuda a entender a dimensão do problema
sob a ótica de quem o vivencia. Além disso, ao reaplicar o questionário ao final da terapia,
podemos medir objetivamente a melhora na qualidade de vida do paciente, provando a eficácia
da nossa intervenção para além da melhora acústica da voz.
O questionário de 30 itens pode ser consultado no anexo do artigo de validação, disponível
no link abaixo.
Link de Acesso (Artigo de Validação): https://abre.ai/ovmH
Fonte: adaptado de Gasparini; Behlau (2009).
SAIBA MAIS
https://abre.ai/ovmH
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REFLITA
“Nós não falamos com a garganta, nós falamos com o corpo inteiro.”
— Expressão comum na Fonoaudiologia.
Esta frase resume muito do que vimos nesta unidade. Muitas vezes, um paciente chega ao
consultório com uma queixa de “problema na garganta”, mas a causa primária de sua disfonia
pode estar em um padrão respiratório inadequado, em uma postura de trabalho ruim ou em
uma mandíbula cronicamente tensionada. A voz é apenas o “elo mais fraco” da cadeia, o lugar
onde o desequilíbrio corporal se manifesta de forma audível.
Como essa visão integrada do “corpo-voz” muda a sua perspectiva sobre a avaliação
fonoaudiológica? A partir de agora, ao observar alguém falando, você consegue ir além do
som e perceber as conexões com a respiração e a postura da pessoa? Como esse olhar holístico
pode enriquecer seu futuro raciocínio clínico, levando-o a investigar causas que não são
imediatamente óbvias?
Fonte I: BEHLAU, M. (Org.). Voz: o livro do especialista. Vol. 1. Rio de Janeiro: Revinter,
2001.
Fonte II: KYRILLOS, L. R. (Org.). Expressividade: da teoria à prática. Vol. 1. Rio de Janeiro:
Revinter, 2005.
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Considerações Finais
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Ao final desta segunda unidade, nossa compreensão sobre a voz se expandiu
consideravelmente. Saímos do microcosmo da laringe e passamos a enxergar
a produção vocal como um fenômeno que envolve o corpo e a mente em sua
totalidade.
Nós estabelecemos a diferença fundamental entre uma voz saudável e uma
disfonia, e, mais importante, reconhecemos o profundo impacto que um
distúrbio vocal pode ter na vida de um indivíduo. Aprendemos também a
“descrever” uma voz, utilizando tanto o nosso ouvido treinado, com os
parâmetros da análise perceptivo-auditiva, quanto a tecnologia, com os
correlatos da análise acústica.
O ponto central da nossa discussão foi a exploração das correlações. Vimos
como a respiração é o alicerce indispensável para uma fonação eficiente e como
a postura corporal e as tensões no sistema mastigatório estão intimamente
ligadas à saúde e à liberdade da nossa voz.
Com esse conhecimento, você está mais preparado(a) para a próxima etapa:
a avaliação clínica. Entender o que é normal e quais sistemas influenciam a
voz é o pré-requisito para saber o que investigar e como interpretar os sinais
quando nos deparamos com um distúrbio.
A jornada para se tornar um “detetive da voz” está apenas começando!
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Leitura Complementar
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Os Hábitos Posturais e o Comportamento Vocal
Para aprofundar a compreensão sobre a vital conexão entre o corpo e a voz,
este artigo é uma excelente escolha. Os autores investigam a interdependência
entre o sistema fonatório e o sistema musculoesquelético, demonstrando como
posturas inadequadas (como dorso curvo, anteriorização de cabeça e tensão
cervical) impactam diretamente a produção vocal e o controle respiratório. A
leitura deste material solidifica o entendimento de que a avaliação postural
não é um detalhe, mas uma parte essencial da clínica vocal, fornecendo base
científica para intervenções que integrem a conscientização corporal.
Fonte: MACHADO, P. G.; MEZZOMO, C. L.; BADARÓ, A. F. V. Os
hábitos posturais e o comportamento vocal de profissionais de educação
física na modalidade de hidroginástica. Revista CEFAC, São Paulo, v. 13,
n. 2, p. 299-313, 2011. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rcefac/a/
dbYtzfXRckbFkYRzXZcwWRB/. Acesso em: 13 out. 2025.
https://www.scielo.br/j/rcefac/a/dbYtzfXRckbFkYRzXZcwWRB/
https://www.scielo.br/j/rcefac/a/dbYtzfXRckbFkYRzXZcwWRB/
https://www.scielo.br/j/rcefac/a/dbYtzfXRckbFkYRzXZcwWRB/
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M
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l Livro
Vídeo
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• Título: Compreendendo os Problemas
da Voz: Uma Abordagem Fisiológica ao
Diagnóstico e ao Tratamento.
• Autor(es): Colton, R. H.; Casper, J. K.;
Leonard, R.
• Editora: Revinter.
• Ano: (Edições variadas).
• Sinopse: este livro é um clássico mundial
e uma referência indispensável para quem
estuda voz. Ele aborda os distúrbios vocais
sob uma ótica estritamente fisiológica,
conectando cada sinal e sintoma a um
evento específico na anatomia e fisiologia da
produção vocal. É uma obra fundamental para
desenvolver um raciocínio clínico baseado
em evidências.
• Título: Elis Regina - MPB Especial (1973)
• Sinopse: Para compreender a
interdependência entre corpo e voz, observe
trechos do especial da cantora Elis Regina.
Diferente de intérpretes estáticos, ela
demonstra grande expressividade corporal.
Repare na respiração ativa, na tensão cervical
e nos movimentos da mandíbula e da face
usados para moldar a ressonância e a “cor” da
voz. Analise como esses gestos influenciam
a produção vocal e como a emoção modifica
a postura e a fisiologia da voz.
• Link do Vídeo: https://abre.ai/ozNd
https://abre.ai/ozNd
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l Website
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• Site: National Center for Voice and Speech
(NCVS).
• Descrição: o NCVS é um dos centros de
pesquisa de voz mais importantes do mundo.
Seu site (em inglês) é uma mina de ouro de
informações, com artigos, publicações, vídeos
e tutoriais sobre a ciência da voz. A seção de
“Publicações” e “Recursos Educacionais”
pode fornecer materiais de aprofundamento
de altíssima qualidade sobre todos os tópicos
que vimos nesta unidade.
• Link do site: http://www.ncvs.org/
http://www.ncvs.org/
R
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ên
ci
as
57
BEHLAU, M. (Org.). Voz: o livro do especialista. v. 1 e 2. Rio de Janeiro:
Revinter, 2001.
COLTON, R. H.; CASPER, J. K.; LEONARD, R. Compreendendo osproblemas
da voz: 3. ed. Rio de Janeiro: Revinter, 2010.
DE BODT, M. S.; VAN DE HEYNING, P. H.; WUYTS, F. L. The VHI, an index
for voice handicap: cross-validation of the Dutch version. Journal of Voice, v. 13,
n. 4, p. 559-572, 1999.
GASPARINI, G.; BEHLAU, M. Validação no Brasil de protocolos de auto-
avaliação do impacto de uma disfonia. Pró-Fono R. Atual. Cient., v. 21, n. 4, p.
328-333, 2009.
HIRANO, M. Clinical examination of voice. New York: Springer-Verlag, 1981.
LYONS, Virgínia T.; NETTER, Frank H. Netter Anatomia Sistêmica Essencial
. Rio de Janeiro: GEN Guanabara Koogan, 2023. E-book. pág.230. ISBN
9788595159693. Disponível em: https://integrada.minhabiblioteca.com.br/
reader/books/9788595159693/. Acesso em: 06 nov. 2025.
PEREIRA, L. P.; ARMONI, A. C.; FERRARI, A. C. B. Voz e corpo: co-relações
e implicações na clínica fonoaudiológica. São Paulo: Lovise, 2000.
TEIXEIRA, João; GONÇALVES, André. Accuracy of jitter and shimmer
measurements. Procedia Technology, v. 16, p. 1190-1199, 2014.
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Transtornos
da Voz
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Objetivo de
Aprendizagem
Plano de Estudo
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• Correlação anatomofisiológica e desordem vocal.
• Disfonias orgânicas e senis.
• Disfonias funcionais e psicossomáticas.
• Disfonias orgânico-funcionais.
• Compreender como um desequilíbrio na anatomia ou na
fisiologia vocal leva a uma desordem vocal.
• Classificar e diferenciar os principais tipos de disfonias:
orgânicas, funcionais e orgânico-funcionais.
• Identificar as características e etiologias das principais
patologias vocais.
• Entender as particularidades da presbifonia (disfonia senil) e
das disfonias de fundo psicossomático.
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Introdução
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Olá, futuro(a) fonoaudiólogo(a)!
Bem-vindo(a) à unidade III, o ponto central da nossa disciplina. Se nas unidades
anteriores nós construímos o edifício do conhecimento sobre a voz normal
— seus alicerces anatômicos, sua estrutura fisiológica e seus acabamentos
acústicos e perceptuais — agora vamos aprender a identificar as rachaduras,
vazamentos e problemas estruturais: entramos no universo dos Transtornos
da Voz. Nesta unidade, vamos aprender a classificar as disfonias, uma etapa
essencial para o raciocínio clínico. Uma mesma queixa de “rouquidão” pode
ter causas completamente diferentes, e saber a origem do problema é o que
define o sucesso do tratamento.
Começaremos entendendo a correlação fundamental entre a anatomia, a
fisiologia e a desordem vocal, pois todo distúrbio da voz é, em sua essência,
um reflexo de uma quebra no equilíbrio da produção vocal. Em seguida,
vamos categorizar as disfonias em grandes grupos: estudaremos as disfonias
orgânicas, causadas por alterações estruturais independentes do uso da voz,
com atenção especial à disfonia senil (presbifonia); depois mergulharemos
nas disfonias funcionais, que são o campo de excelência do fonoaudiólogo,
surgindo do “mau uso” ou “mau ajuste” vocal e profundamente relacionadas
a fatores psicossomáticos.
Finalmente, investigaremos a categoria mais comum na clínica vocal, as
disfonias orgânico-funcionais, compreendendo como um comportamento
vocal inadequado mantido ao longo do tempo pode levar ao surgimento de
lesões nas pregas vocais, como os famosos nódulos e pólipos. Esta unidade
é eminentemente clínica: o conhecimento adquirido aqui permitirá que você,
no futuro, possa ouvir uma voz e começar a formular hipóteses diagnósticas
precisas.
Prepare-se para se tornar um verdadeiro detetive da voz!
U N I D A D E I I I
Tópico
e Desordem Vocal
Correlação Anatomofisiológica 01
U N I D A D E I I I 62
Um distúrbio da voz, ou disfonia, é a manifestação auditiva de que algo na complexa cadeia de
produção vocal está em desequilíbrio.
Para entender a desordem, precisamos sempre voltar à norma. A produção de uma voz saudável
depende da harmonia perfeita entre os três sistemas que vimos na Unidade I: o respiratório (motor), o
fonatório (fonte) e o ressonantal (filtro).
Uma desordem vocal surge quando há uma falha em um ou mais desses sistemas. A obra clássica de
Colton, Casper e Leonard (2010) é inteiramente dedicada a essa abordagem fisiológica, defendendo que não
podemos tratar um problema de voz sem entender profundamente o evento fisiológico que o está causando.
A correlação anatomofisiológica é o princípio que nos guia: cada sinal vocal que ouvimos corresponde
a um evento (ou falha) fisiológico específico.
Uma voz soprosa, caracterizada pelo som de “ar vazando”, indica fisiologicamente um fechamento
incompleto da glote, permitindo que o ar escape sem vibrar. Já uma voz rouca ou áspera revela uma
irregularidade na vibração das pregas vocais, causada por fatores como presença de massa (lesão), edema
(inchaço) ou rigidez na mucosa.
Por sua vez, uma voz tensa, muitas vezes percebida como “presa na garganta”, aponta para um
quadro de hiperfunção, ou seja, um excesso de contração muscular na laringe e/ou no trato vocal. Nesses
casos, o trabalho do fonoaudiólogo consiste em ouvir o sinal — a voz disfônica —, interpretar o que ele
representa em termos fisiológicos, seguindo o que Colton, Casper e Leonard (2010) chamam de “abordagem
fisiológica”, e intervir adequadamente para restabelecer o equilíbrio da função vocal.
A compreensão da voz humana exige uma visão sistêmica, onde o produto final — o som — é o
resultado direto da integridade e da interação entre respiração, fonação e ressonância. Quando ouvimos uma
voz disfônica, estamos, na verdade, percebendo auditivamente uma falha mecânica ou fisiológica em algum
ponto dessa cadeia produtiva. O fonoaudiólogo não deve apenas descrever o som, mas sim traduzir essa
percepção auditiva em uma hipótese sobre o funcionamento laríngeo e do trato vocal.
Essa tradução é a base do que Colton, Casper e Leonard (2010) definem como abordagem fisiológica.
Segundo essa perspectiva, o desvio vocal não é aleatório; ele obedece às leis da física e da biofísica. Se há uma
alteração na massa, na tensão ou no comprimento das pregas vocais, haverá uma alteração correspondente
na frequência fundamental e na qualidade vocal. Portanto, o raciocínio clínico parte do sintoma (o que ouço)
para a causa (o que está acontecendo fisicamente).
Um exemplo clássico dessa correlação é a soprosidade. Quando descrevemos uma voz como soprosa,
estamos identificando a presença de ruído de turbulência aérea misturado ao som glótico. Fisiologicamente,
isso nos diz que as pregas vocais não estão conseguindo realizar o fechamento glótico completo durante a
fase fechada do ciclo vibratório.
U N I D A D E I I I 63
Esse escape de ar não modulado é o que gera o componente de ruído, indicando fendas que podem
ser causadas por paralisias, lesões ou hipofunção muscular.
Por outro lado, a rugosidade ou aspereza vocal nos remete a uma irregularidade na vibração da
mucosa. Para que a voz seja limpa, as pregas vocais devem vibrar de forma periódica e simétrica. A presença
de rugosidade indica que algo — seja um aumento de massa (como um pólipo), um edema ou uma rigidez
— está interferindo na onda mucosa, fazendo com que os ciclos vibratórios sejam irregulares em amplitude
e frequência.
Já a tensão vocal, frequentemente relatada pelo paciente como dor, cansaço ou “bolo na garganta”,
é o correlato auditivo e sensorial da hiperfunção. Fisiologicamente, isso representa um excesso de força
muscular, onde músculos extrínsecos e intrínsecos da laringe trabalham além do necessário para produzir
o som. Esse estado de hipercontração reduz a eficiência vocal, exigindo mais energia para produzir menos
som, gerando um ciclo de fadiga.
Além da fonte glótica, a correlação anatomofisiológica deve considerar o sistema de ressonância
ou filtro. Uma voz pode ser produzida corretamente na laringe, mas sofrer distorções no trato vocal. A
hipernasalidade, por exemplo,indica uma falha no fechamento velofaríngeo, acoplando a cavidade
nasal indevidamente. Já a voz abafada ou “entubada” sugere uma constrição excessiva da faringe ou um
posicionamento inadequado da língua e da laringe vertical.
A intensidade vocal também possui sua correlação fisiológica direta. A capacidade de produzir uma
voz forte depende primordialmente da pressão subglótica e da resistência glótica. Se o sistema respiratório
não fornece pressão suficiente ou se as pregas vocais não oferecem resistência adequada ao fluxo aéreo, o
paciente apresentará queixas de voz fraca ou astenia, comuns em quadros neurológicos ou na presbifonia.
É fundamental entender que essas categorias não são excludentes. Na prática clínica, frequentemente
encontramos vozes áspero-soprosas ou tenso-soprosas. Isso ocorre porque o sistema fonador tenta compensar
falhas. Por exemplo, diante de uma fenda glótica que gera soprosidade (escape de ar), o indivíduo pode
instintivamente aumentar a tensão muscular para tentar fechar essa fenda, adicionando um componente de
tensão à voz original.
O domínio dessa correlação permite ao fonoaudiólogo ser mais assertivo na avaliação e na terapia.
Ao ouvir o paciente, o profissional já visualiza mentalmente a dinâmica glótica. Se a voz é tensa, o objetivo
terapêutico será reduzir a constrição supraglótica; se é soprosa, o foco será promover a coaptação glótica
adequada. O tratamento deixa de ser empírico e passa a ser focado na correção do evento fisiológico alterado.
Portanto, o estudo dos distúrbios da voz começa pelo ouvido treinado e pelo conhecimento
profundo da fisiologia. Cada rouquidão conta uma história sobre a anatomia do paciente. Saber ler essa
história através da análise perceptivo-auditiva e correlacioná-la com os achados de exames visuais (como a
videolaringostroboscopia) é o que diferencia o especialista em voz.
U N I D A D E I I I
Tópico
Orgânicas e Senis
Disfonias 02
U N I D A D E I I I 65
As disfonias orgânicas são aquelas causadas por uma alteração estrutural ou neurológica na laringe,
independentemente do comportamento vocal do indivíduo.
A causa é primariamente orgânica. Os livros de Behlau (2001/2005) e Behlau e Pontes (1995) listam
diversas categorias:
• Laringites: processos inflamatórios ou infecciosos (virais ou bacterianos) que causam edema
(inchaço) nas pregas vocais.
• Lesões Benignas e Malignas: cistos, papilomas, granulomas ou câncer de laringe alteram a
massa e a vibração das pregas vocais.
• Paralisias Laríngeas: causadas por uma lesão no nervo que comanda a movimentação das
pregas vocais (Nervo Laríngeo Recorrente). Podem ser unilaterais ou bilaterais.
• Alterações Congênitas: malformações na laringe desde o nascimento, como sulcos, pontes
mucosas ou membranas laríngeas.
Disfonia Senil (Presbifonia):
A presbifonia é um tipo específico de disfonia orgânica que resulta das alterações naturais do
envelhecimento da laringe, levando a mudanças estruturais e funcionais que impactam a produção vocal.
Imagem 01: Exemplos de Laringe (Fonte: Moura (2023))
U N I D A D E I I I 66
Com a idade, ocorrem diversas mudanças:
• As cartilagens se ossificam e perdem flexibilidade.
• A musculatura intrínseca da laringe perde massa e tônus. Esse processo, conhecido como
sarcopenia laríngea, afeta diretamente os músculos responsáveis pelo fechamento e tensão das
pregas vocais, como o músculo tireoaritenóideo (TA). O livro de Pinho e Pontes (2008), focado
na dinâmica muscular, explica como essa perda de tônus é central para a presbifonia.
• A mucosa das pregas vocais pode ficar mais fina e ressecada.
• Pode haver uma redução da capacidade respiratória.
Essas mudanças resultam em um arqueamento das pregas vocais e uma incapacidade de fechamento
completo da glote (fenda fusiforme), levando a uma qualidade vocal caracterizada por soprosidade, fraqueza
(astenia), instabilidade e tremor.
A fonoterapia para idosos tem um papel fundamental em compensar essas alterações, melhorando a
eficiência do fechamento glótico e a qualidade de vida.
Além das categorias clássicas, as disfonias orgânicas incluem as alterações estruturais mínimas
(AEM). São pequenas malformações congênitas na estrutura das pregas vocais, como sulcos vocais, cistos
epidermoides e pontes mucosas. Muitas vezes, essas alterações passam despercebidas em exames de
laringoscopia convencionais e só são detectadas pela estroboscopia ou durante o ato cirúrgico. Elas causam
disfonias leves a moderadas, caracterizadas por soprosidade, rugosidade e fadiga vocal, sendo um desafio
diagnóstico importante na clínica fonoaudiológica.
Imagem 02: Presbifonia (Fonte: Mürbe (2017))
U N I D A D E I I I 67
O Refluxo Laringofaríngeo (RLF) merece destaque como causa de disfonias orgânicas secundárias.
Diferente do refluxo gastroesofágico clássico (que causa azia), o RLF atinge a laringe, causando edema na
região posterior (paquidermia interaritenóidea), granulomas e laringites químicas crônicas. O ácido estomacal
agride a mucosa, tornando-a mais suscetível a lesões fonotraumáticas. O fonoaudiólogo deve estar atento a
sinais como pigarro constante, sensação de “bolo na garganta” (globus faríngeo) e tosse seca.
As doenças neurológicas são outra grande causa de disfonias orgânicas. Na Doença de Parkinson,
por exemplo, a rigidez e a bradicinesia afetam a laringe, resultando em uma voz monótona, fraca e soprosa
(disartria hipocinética). Na Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA), a fraqueza progressiva leva a uma voz
flácida e hipernasal. O fonoaudiólogo atua na manutenção da comunicação funcional e na prevenção de
aspiração (disfagia), que frequentemente acompanha essas disfonias.
As paralisias laríngeas podem ter diversas etiologias: traumáticas (acidentes, intubação), cirúrgicas
(tireoidectomias, cirurgias de coluna ou cardíacas), tumorais (compressão do nervo vago) ou idiopáticas
(virais). A posição em que a prega vocal paralisada se fixa (mediana, paramediana ou abduzida) determina a
gravidade da disfonia e o risco de aspiração. A terapia fonoaudiológica visa compensar a falha no fechamento
glótico através de exercícios de força e técnicas de empuxo, ou preparar o paciente para procedimentos de
medialização (tireoplastia).
O câncer de laringe é a patologia orgânica mais grave. O principal fator de risco é a associação
entre tabagismo e etilismo. Uma rouquidão persistente (mais de 15 dias), especialmente em fumantes,
deve ser investigada imediatamente. O tratamento pode envolver radioterapia, quimioterapia ou cirurgia
(laringectomia parcial ou total). O fonoaudiólogo é essencial na reabilitação pós-cirúrgica, ajudando o
paciente a desenvolver uma nova forma de comunicação, como a voz esofágica ou o uso de laringe eletrônica.
No contexto da presbifonia, a atrofia das pregas vocais gera o que chamamos de fenda fusiforme
(em formato de fuso). Isso ocorre porque a perda de massa muscular no corpo da prega vocal impede que as
bordas se toquem completamente no centro, mesmo com a adução das cartilagens aritenoides. O ar escapa
por essa fenda central, gerando a soprosidade característica da voz do idoso. Além disso, a camada superficial
da lâmina própria torna-se mais fina e menos elástica, reduzindo a amplitude da onda mucosa.
A ossificação das cartilagens laríngeas, que se completa na terceira idade, reduz a flexibilidade das
articulações cricotireóidea e cricoaritenóidea. Isso limita a capacidade de alongamento e encurtamento das
pregas vocais, resultando em uma redução da extensão vocal (alcance de notas agudas e graves) e em uma
fala mais monótona, com pouca variação de pitch (frequência).
A capacidade respiratória também diminui com o envelhecimento (presbirestria), devido à redução
da elasticidade pulmonar e da força muscular torácica. Isso impacta diretamente a voz, pois o idoso tem
menos ar disponível para falar frases longas ou projetar a voz.
U N I D A D E I I I 68
A terapia vocalpara presbifonia deve incluir, obrigatoriamente, o condicionamento respiratório e o
treino de coordenação pneumofonoarticulatória.
A presbifonia tem um forte impacto psicossocial. A voz fraca pode ser interpretada como sinal de
fragilidade física ou cognitiva, levando o idoso a ser infantilizado ou ignorado em conversas. O isolamento
comunicativo é um risco real. A fonoterapia atua não apenas na melhora muscular, mas no empoderamento
do idoso, mostrando que é possível manter uma voz funcional e ativa em qualquer idade.
Por fim, é importante diferenciar a presbifonia fisiológica de disfonias patológicas no idoso. Nem
toda rouquidão no idoso é “da idade”. O idoso também pode ter nódulos, pólipos, paralisias ou câncer. Um
diagnóstico médico preciso é fundamental antes de iniciar qualquer terapia de “fortalecimento” vocal, para
não agravar lesões preexistentes ou atrasar o tratamento de doenças graves.
U N I D A D E I I I
Tópico
e Psicossomáticas
Disfonias Funcionais 03
U N I D A D E I I I 70
As disfonias funcionais constituem, por excelência, o principal campo de atuação do fonoaudiólogo.
Elas são caracterizadas por alterações vocais decorrentes do uso inadequado da voz, sem que haja qualquer
lesão estrutural na laringe. Nesses casos, o problema não está na “peça”, mas no modo como ela é utilizada.
Huche e Allali (2005), em sua obra dedicada à patologia funcional, destacam que esse “mau uso”
corresponde a um comportamento aprendido e consolidado ao longo do tempo, responsável por gerar um
desequilíbrio muscular na produção vocal. As causas têm natureza comportamental e podem incluir:
Hiperfunção Vocal
Uso de esforço e tensão excessivos para falar (falar “na
garganta”). É a base da Disfonia por Tensão Muscular
(DTM).
Hipofunção Vocal
Uso de pouca energia e falta de fechamento glótico,
resultando em uma voz fraca e soprosa.
Ajustes vocais inadequados
Uso de um pitch inadequado (muito agudo ou muito grave)
ou falta de modulação.
Disfonias Psicossomáticas (ou Psicogênicas):
Trata-se de um subtipo de disfonia funcional em que a causa primária do comportamento vocal
inadequado está relacionada a conflitos emocionais ou psicológicos. A voz, frequentemente descrita como o
“músculo da alma”, mostra-se altamente sensível aos estados internos do indivíduo. Dessa forma, experiências
como traumas, períodos de estresse intenso ou conflitos não resolvidos podem repercutir diretamente na
produção vocal, manifestando-se como alterações na qualidade da voz.
Exemplos clássicos descritos por Behlau e Pontes (1995) incluem:
• A afonia de conversão, em que o paciente perde completamente a voz de forma súbita após um
evento estressante, mas consegue tossir e rir normalmente (provando que a laringe está fisicamente
intacta).
• A muda vocal incompleta, onde um adolescente do sexo masculino mantém a voz infantilizada
mesmo após a puberdade, por razões psicológicas.
O tratamento desses casos requer uma abordagem multidisciplinar, envolvendo não apenas a atuação
do fonoaudiólogo, mas também, quando necessário, o acompanhamento de um psicólogo ou psiquiatra, a fim
de abordar adequadamente os fatores emocionais e vocais envolvidos.
A hiperfunção não se limita à laringe; ela frequentemente envolve todo o trato vocal e a
musculatura cervical. Pacientes com disfonia funcional podem apresentar tensão visível nos músculos
esternocleidomastoideo e trapézio, projeção anterior da cabeça e mandíbula travada. Essa “tensão global”
altera a ressonância e dificulta a movimentação vertical da laringe, essencial para a variação de frequência.
Quadro 1: Causas de Disfonias (Fonte: o autor (2025))
U N I D A D E I I I 71
O tratamento exige uma abordagem corporal, soltando as tensões periféricas antes de focar na
produção vocal.
A hipofunção, embora menos comum que a hiperfunção, é um desafio terapêutico. Pode ocorrer em
pessoas tímidas, introvertidas ou em situações de fadiga crônica. A falta de fechamento glótico adequado
gera uma voz soprosa que não projeta no ambiente, levando o ouvinte a pedir constantemente para o falante
repetir o que disse. O trabalho fonoaudiológico visa aumentar o tônus muscular e a energia vocal, muitas
vezes trabalhando a postura e a atitude comunicativa assertiva.
A fonação ventricular é um tipo severo de disfonia funcional por hiperfunção. Nela, o paciente usa
tanta força para falar que as pregas vestibulares (falsas cordas vocais), que normalmente ficam afastadas,
se aproximam e passam a vibrar. A voz resultante é extremamente grave, rouca e tensa. É comum que essa
fonação surja como um mecanismo compensatório mal adaptativo em pacientes que tentam “forçar” a voz
diante de uma falha glótica ou fadiga extrema.
A fadiga vocal é um sintoma-chave nas disfonias funcionais. O paciente relata que a voz “piora
ao longo do dia” ou que sente cansaço físico e dor na região do pescoço após falar. Isso ocorre porque a
musculatura intrínseca, trabalhando em regime de sobrecarga e ineficiência, acumula ácido lático e entra em
falência. Identificar os momentos de fadiga e implementar pausas vocais estratégicas é parte essencial do
manejo terapêutico.
As disfonias psicossomáticas revelam a conexão íntima entre o sistema límbico (emoções) e o
controle motor da laringe. O estresse e a ansiedade ativam o sistema nervoso autônomo, que pode alterar a
tensão muscular laríngea, a frequência respiratória e a lubrificação da mucosa (boca seca). A disfonia por
tensão muscular muitas vezes tem um “gatilho” emocional ou é mantida por traços de personalidade ansiosos
ou perfeccionistas.
A afonia de conversão é um quadro intrigante onde o sintoma (perda da voz) traz um “ganho
secundário” inconsciente para o paciente, como o afastamento de uma situação de conflito ou a obtenção de
atenção. O fonoaudiólogo deve atuar com acolhimento, sem confrontar o paciente (“você não tem nada”), mas
demonstrando, através de técnicas de manipulação laríngea, que a voz está presente e funcional, facilitando
o resgate da sonoridade.
A muda vocal incompleta (falsete mutacional) em homens jovens pode gerar grande sofrimento
social e bullying. A laringe cresceu e está anatomicamente apta a produzir graves, mas o paciente mantém,
por hábito ou fatores psicológicos (dificuldade em assumir a identidade adulta), o ajuste infantil agudo. A
terapia fonoaudiológica costuma ter resultados rápidos e dramáticos, utilizando técnicas de manipulação
digital e exercícios de sons graves para “encaixar” a voz no registro modal adulto.
U N I D A D E I I I 72
Em mulheres, pode ocorrer a virilização vocal funcional, em que a paciente adota um padrão vocal
excessivamente grave e tenso para transmitir autoridade em ambientes profissionais dominados por homens.
Esse “abuso de graves” gera fadiga e pode levar a lesões como granulomas. O trabalho envolve encontrar
uma voz de autoridade que respeite a fisiologia feminina e a saúde vocal, trabalhando a ressonância e a
projeção em vez de apenas baixar o tom.
A avaliação das disfonias funcionais exige uma anamnese detalhada sobre o uso da voz. Quantas
horas o paciente fala por dia? Em que ambiente (ruidoso, seco)? Com que intensidade? Bebe água? Faz
repouso? Fatores ambientais e comportamentais são, muitas vezes, a raiz do problema. O fonoaudiólogo atua
como um “educador vocal”, ajudando o paciente a gerenciar sua demanda vocal e a modificar o ambiente
para proteger sua voz.
A abordagem psicodinâmica na terapia vocal não significa fazer psicoterapia, mas sim entender o
valor simbólico da voz para o paciente. Uma voz rouca pode ser vista por alguns como “sexy” ou “interessante”,
o que gera resistência ao tratamento. Outros podem sentir que perderam sua identidade ao perder a voz. O
fonoaudiólogo deve alinhar os objetivos terapêuticos às expectativas e à identidade do paciente, garantindo
que a “nova voz” seja aceita e integrada por ele.
U N I D A D E I I I
Tópico
Orgânico-FuncionaisDisfonias 04
U N I D A D E I I I
Quadro 2: Lesões Orgânico-Funcionais (Fonte: Behlau (2001, 2005))
74
Esta é a categoria de disfonias mais frequente na prática clínica fonoaudiológica. As disfonias
orgânico-funcionais são caracterizadas pela presença de uma lesão benigna nas pregas vocais, originada
diretamente do comportamento vocal inadequado, especialmente da hiperfunção.
Em termos simples, uma disfonia funcional decorrente do “mau uso” vocal, quando mantida por
longo período, pode evoluir para o desenvolvimento de uma lesão de natureza orgânica. O impacto repetitivo
gerado pelo fonotrauma, o choque excessivo entre as pregas vocais, desencadeia uma resposta tecidual que
leva à formação dessas alterações.
As principais lesões orgânico-funcionais, detalhadas no “Livro do Especialista” de Behlau
(2001/2005), são:
Nódulos vocais (calos)
São as lesões mais comuns. Caracterizam-se por um espessamento bilateral
(um em cada prega vocal, como um espelho), localizado na junção do terço
anterior com o terço médio das pregas vocais (ponto de maior atrito). São uma
resposta do tecido ao trauma crônico e repetitivo, muito comuns em professores,
pregadores e cantores com técnica inadequada. A voz fica rouca e soprosa. O
tratamento é primariamente fonoterápico (reeducação vocal).
Pólipos Vocais
Geralmente unilaterais, são lesões que podem ter diferentes aparências
(avermelhadas, translúcidas). Ao contrário do nódulo, que surge de um trauma
crônico, o pólipo pode surgir de um único evento de abuso vocal agudo (um
grito em um jogo, por exemplo). A voz fica intensamente rouca e diplofônica
(com dois tons ao mesmo tempo). O tratamento geralmente combina cirurgia e
fonoterapia.
Edema de Reinke
É um inchaço gelatinoso e difuso ao longo de toda a prega vocal, fortemente
associado ao tabagismo e ao abuso vocal. O cigarro altera a permeabilidade
da mucosa, e o fonotrauma agrava o inchaço. A voz se torna extremamente
grave e “molhada”, especialmente em mulheres. O tratamento envolve cessar o
tabagismo e, dependendo do grau, fonoterapia e/ou cirurgia.
Nesses casos, a fonoterapia é indispensável. A remoção cirúrgica da lesão, por si só, não é suficiente;
é necessário corrigir o comportamento vocal que lhe deu origem, a fim de prevenir sua recorrência.
A gênese dos nódulos vocais está intimamente ligada à anatomia da vibração. Eles surgem no ponto
de maior amplitude de vibração e maior força de impacto entre as pregas vocais (junção do terço anterior
com o médio). Em mulheres e crianças, devido à frequência fundamental mais alta (mais ciclos de colisão
por segundo), o risco é maior. A configuração glótica em “fenda triangular médio-posterior”, comum em
mulheres, concentra a energia do impacto na região anterior, predispondo à formação de nódulos.
U N I D A D E I I I 75
Os nódulos vocais podem ser classificados em edematosos (recentes e macios) ou fibrosos (antigos e
duros). Os nódulos recentes respondem muito bem e rapidamente à fonoterapia e repouso vocal. Já os nódulos
fibrosos e calosos podem ser mais resistentes, exigindo um tempo maior de terapia ou, em casos raros em
que a voz não melhora, cirurgia. No entanto, a cirurgia sem mudança de hábito leva quase invariavelmente
à recidiva da lesão.
Os pólipos vocais diferem dos nódulos não apenas pela unilateralidade, mas pela histologia.
Enquanto o nódulo é um espessamento do epitélio, o pólipo envolve a camada mais profunda (lâmina própria)
e frequentemente tem um vaso sanguíneo nutricio em sua base. Isso os torna mais suscetíveis a sangramentos
e mudanças bruscas de tamanho. A presença de um pólipo grande pode causar dispneia (falta de ar) se ele
cair na glote durante a inspiração, o que exige intervenção médica rápida.
O Edema de Reinke é uma alteração crônica e progressiva. O espaço de Reinke (camada superficial
da lâmina própria) se enche de um fluido viscoso, transformando a prega vocal em uma estrutura “balofa”.
A cirurgia para edema de Reinke é delicada, pois visa drenar esse fluido e remover o excesso de mucosa
(decorticação) sem lesar o ligamento vocal, preservando a capacidade vibratória. Se o paciente não parar de
fumar, o edema tende a retornar.
O cisto vocal é uma lesão que gera muita confusão diagnóstica. Ele pode ser congênito (orgânico) ou
adquirido por trauma (orgânico-funcional) quando uma glândula mucosa entope (cisto de retenção). Diferente
do nódulo, o cisto é uma esfera fechada dentro da prega vocal. Ele não “desaparece” com fonoterapia.
No entanto, a terapia é indicada pré-cirurgicamente para reduzir o edema associado e melhorar o padrão
vibratório, e pós-cirurgicamente para reabilitação.
A reação contralateral é um fenômeno comum. Quando existe uma lesão unilateral (como um pólipo
ou cisto) em uma prega vocal, ela bate constantemente contra a prega vocal sadia do outro lado. Com o
tempo, essa prega sadia começa a desenvolver um espessamento ou uma depressão (lesão em “beijo”) devido
ao trauma. O tratamento da lesão primária geralmente resolve a reação contralateral.
O granuloma (ou úlcera de contato) é uma lesão que ocorre na parte posterior da laringe (processo
vocal das aritenoides), área das cartilagens. É causado por refluxo laringofaríngeo severo associado a
um padrão de fala com ataque vocal brusco e tensão grave (voz de “sargento”). O impacto constante das
cartilagens uma contra a outra, somado à acidez, impede a cicatrização. O tratamento é fonoaudiológico
(suavizar ataque) e médico (controlar refluxo).
A fenda glótica é quase onipresente nas disfonias orgânico-funcionais. A lesão (nódulo, pólipo) atua
como um “calço” na porta, impedindo que ela feche. O formato da fenda (ampulheta nos nódulos, irregular
nos pólipos) ajuda no diagnóstico. A presença da fenda gera a soprosidade e a fadiga, pois o ar escapa. O
objetivo da terapia é reduzir a lesão para permitir que a glote volte a fechar e a voz ganhe eficiência.
U N I D A D E I I I 76
A personalidade do paciente com lesão orgânico-funcional é um fator relevante. Estudos mostram
que portadores de nódulos tendem a ser extrovertidos, falantes, ansiosos e socialmente dominantes. Esse
perfil comportamental contribui para o abuso vocal. A terapia deve abordar não apenas a técnica vocal,
mas também a modificação desse estilo comunicativo “agressivo” ou excessivo para garantir resultados
duradouros.
O prognóstico das disfonias orgânico-funcionais é geralmente excelente com a adesão ao tratamento
fonoaudiológico. A grande maioria dos nódulos desaparece ou diminui a ponto de não incomodar mais. O
sucesso depende do tripé: conscientização (entender o problema), técnica (fazer os exercícios) e mudança
de hábito (parar de gritar/fumar). O fonoaudiólogo é o guia nesse processo de reeducação muscular e
comportamental.
REFLITA
“Disfonia não é normal, mesmo que seja comum.”
É muito frequente ouvirmos pessoas, especialmente professores e outros profissionais da voz,
afirmarem: “Ah, eu sou rouco(a) mesmo”, “Minha voz é assim” ou “É normal ficar sem
voz no fim do dia, faz parte da profissão”. Essa naturalização da disfonia é um dos maiores
obstáculos para a busca de ajuda e para a promoção da saúde vocal.
A rouquidão crônica, o cansaço ao falar e a perda recorrente da voz não são condições
“normais”; são sinais de alerta de que o aparelho fonador está em sofrimento e precisa de
atenção. Ainda assim, esses sintomas costumam ser ignorados ou minimizados no cotidiano
profissional.
Diante disso, vale a pena refletir: por que a disfonia é tão socialmente aceita, enquanto outros
problemas de saúde, como uma dor crônica no joelho, levam as pessoas a procurarem ajuda de
forma muito mais rápida? E qual é o papel do fonoaudiólogo na desmistificação dessa ideia,
conscientizando a população, especialmente os profissionais da voz, de que uma voz saudável
e resistente é possível, necessária e parte essencial do cuidado com o próprio corpo?
Fonte: o autor (2025).U N I D A D E I I I 77
SAIBA MAIS
O Ciclo Vicioso da Voz Tensa
A disfonia por tensão muscular é uma das condições mais frequentes na clínica vocal, e sua
instalação costuma ocorrer de forma progressiva. Muitas vezes, o problema se desenvolve a
partir de um verdadeiro “ciclo vicioso”, descrito por autores da patologia funcional, como
Huche e Allali (2005). Tudo começa com uma causa inicial: imagine um professor que precisa
projetar a voz o dia inteiro em uma sala de aula barulhenta. Para ser ouvido, ele passa a utilizar
mais força, aumentando a contração dos músculos do pescoço e da laringe.
Esse esforço desencadeia um efeito fisiológico evidente: a tensão excessiva “aprisiona” a
voz, reduzindo a eficiência vibratória e a ressonância. Em vez de ficar mais intensa, a voz
torna-se comprimida, instável e rapidamente fatigada. A percepção desse resultado leva à
reação compensatória: ao ouvir-se com uma voz fraca e cansada, o professor tenta recuperar
o volume aplicando ainda mais força.
O esforço adicional, no entanto, agrava o problema. Quanto mais força ele faz, maior é a
tensão muscular, piorando a qualidade vocal e acelerando a fadiga. Com o tempo, esse padrão
hiperfuncional se consolida e passa a ser percebido pelo organismo como o “normal”, mesmo
quando a situação não exige aumento de intensidade. Assim, o corpo literalmente “esquece”
como produzir a voz de forma livre e relaxada.
Nesses casos, a fonoterapia desempenha um papel essencial: interromper esse ciclo vicioso e
conduzir o paciente à recuperação de uma produção vocal mais eficiente, por meio de técnicas
de relaxamento, ajuste respiratório e estratégias de ressonância que restituem a naturalidade
e o conforto vocal.
Fonte: adaptado de Huche; Allali (2005).
U N I D A D E I I I
niFatecie
Considerações Finais
78
Nesta terceira unidade, mergulhamos no cerne da disciplina ao estudar os
transtornos da voz. Compreendemos que toda disfonia representa uma quebra
no equilíbrio da produção vocal e que o primeiro passo do raciocínio clínico
consiste em identificar a correlação anatomofisiológica por trás do som
que ouvimos, como fundamentado por Colton, Casper e Leonard (2010). A
principal tarefa desta unidade foi organizar esse pensamento clínico por meio
da classificação das disfonias.
Nesse processo, aprendemos a diferenciar as disfonias orgânicas — de causa
estrutural primária —, incluindo a presbifonia, relacionada ao envelhecimento
natural da voz e às alterações na musculatura laríngea (Pinho; Pontes, 2008);
as disfonias funcionais, decorrentes do uso inadequado da voz e influenciadas
por fatores psicossomáticos (Huche; Allali, 2005); e as disfonias orgânico-
funcionais, nas quais o comportamento vocal inadequado leva ao surgimento
de lesões como nódulos e pólipos, sendo esta a classificação mais tradicional
no Brasil (Behlau; Pontes, 1995).
Essa capacidade de categorizar não é apenas um exercício teórico, mas uma
ferramenta essencial para compreender a etiologia do problema, formular
hipóteses diagnósticas, prever o prognóstico e, sobretudo, selecionar a
abordagem terapêutica mais adequada para cada paciente (Behlau, 2005).
Com esse conhecimento consolidado, seguimos agora para a última unidade,
na qual exploraremos as ferramentas de intervenção: a avaliação e a terapia
vocal.
U N I D A D E I I I
niFatecie
Leitura Complementar
79
Classificação das Disfonias: Uma Proposta de Consenso
Este artigo é um marco na Fonoaudiologia brasileira. Organizado pelo Comitê
de Voz da Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia (SBFa), ele apresenta uma
proposta de classificação das disfonias que busca unificar a terminologia
usada pelos profissionais da área.
A leitura é fundamental para consolidar os conceitos de disfonias orgânicas,
funcionais e orgânico-funcionais, e para se familiarizar com a forma como a
comunidade científica e clínica do Brasil organiza esses transtornos.
Fonte: BEHLAU, M.; et al. Aperfeiçoamento vocal e tratamento
fonoaudiológico das disfonias. In: BEHLAU, M. (org.). Voz: o livro do
especialista. v. 2. Rio de Janeiro: Revinter, 2005. p. 409-528.
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M
at
er
ia
l Livro
Filme
80
• Título: Avaliação e Tratamento das
Disfonias.
• Autor(es): Mara Behlau & Paulo Pontes.
• Editora: Lovise.
• Ano: 1995.
• Sinopse: Embora seja uma obra mais
antiga, este livro é considerado um dos pilares
da Fonoaudiologia na área de voz no Brasil.
Ele descreve de forma clara e detalhada
os diferentes tipos de disfonias e introduz
muitas das abordagens terapêuticas que são
usadas até hoje. É uma leitura histórica e
fundamental para entender as bases da prática
clínica em voz.
• Filme: A Voz Suprema do Blues (Ma
Rainey's Black Bottom).
• Ano: 2020.
• Sinopse: O filme retrata uma tarde de
gravação da lendária cantora de blues Ma
Rainey. Embora a trama principal não seja
sobre disfonia, é um excelente material
para observar a voz em um contexto de alta
demanda e de grande carga emocional.
Observe a personalidade forte que a cantora
imprime em sua voz e como a voz é usada como
instrumento de poder, arte e autoafirmação,
ilustrando as profundas implicações afetivas
e sociais da produção vocal.
U N I D A D E I I I
M
at
er
ia
l Website
81
• Site: Associação Brasileira de
Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-
Facial (ABORL-CCF).
• Descrição: O site da ABORL-CCF, na
seção destinada ao público, muitas vezes
contém materiais informativos, vídeos e
folders sobre as principais patologias que
causam disfonia (como nódulos, pólipos,
refluxo, câncer de laringe), geralmente em
uma linguagem acessível. É uma ótima fonte
para entender a perspectiva médica sobre as
doenças da laringe87.
• Link do site: https://www.aborlccf.org.br/
https://www.aborlccf.org.br/
R
ef
er
ên
ci
as
82
BEHLAU, M. (Org.). Voz: o livro do especialista. v. 1. Rio de Janeiro: Revinter,
2001.
BEHLAU, M. (org.). Voz: o livro do especialista. v. 2. Rio de Janeiro: Revinter,
2005.
BEHLAU, M.; PONTES, P. Avaliação e tratamento das disfonias. São Paulo:
Lovise, 1995.
COLTON, R. H.; CASPER, J. K.; LEONARD, R. Compreendendo os problemas
da voz: uma abordagem fisiológica ao diagnóstico e ao tratamento. 3. ed. Rio de
Janeiro: Revinter, 2010.
HUCHE, F.; ALLALI, A. A voz: patologia vocal de origem funcional. v. 2. Porto
Alegre: Artmed, 2005.
MOURA, Ronaldo da Silva. Detecção e classificação de categorias de disfonias
com redes neurais convolucionais. 2023. Dissertação (Mestrado em Engenharia
Elétrica e Informática Industrial) — Universidade Tecnológica Federal do
Paraná, Curitiba, 2023. Disponível em: http://repositorio.utfpr.edu.br/jspui/
handle/1/31085. Acesso em: 17 nov. 2025.
MÜRBE, D. Stimme als Kernressource in der Kommunikationsgesellschaft –
Aspekte der Funktionalität und Nachhaltigkeit. Uwf Umweltwirtschaftsforum,
v. 25, p. 1-5, 2017. DOI: 10.1007/s00550-017-0451-x.
PINHO, S. M. R.; PONTES, P. Músculos intrínsecos da laringe e dinâmica
vocal. Rio de Janeiro: Revinter, 2008.
0404
Exames Objetivos e sua
Correlação com a Fonoaudiologia
P
rofessor E
specialista G
abriel O
liveira
ni
Fa
te
ci
e
U
N
ID
A
D
E
IV
Objetivo de
Aprendizagem
Plano de Estudo
84
• Nasofibroscopia e laringoscopias indiretas.
• Videolaringoscopia, o uso da estroboscopia e suas vantagens.
• Correlação entre alterações vocais e imagens laríngeas.
• Atuação do fonoaudiólogo em equipe multidisciplinar.
• Conhecer os principais exames de imagem da laringe e suas
particularidades.
• Compreender o princípio da estroboscopia e sua importância
para a avaliação da função vocal.
• Desenvolver o raciocínio clínico para correlacionar os achados
de imagem com a qualidade vocal percebida.
• Entender o papel do fonoaudiólogo na equipe multidisciplinar
de voz e a importância da parceria com o médico
otorrinolaringologista.
U N I D A D E I V
niFatecie
Introdução
85
Olá, futuro(a) fonoaudiólogo(a)!
Sejabem-vindo(a) à nossa última unidade! Ao longo desta disciplina,
exploramos a fundo a definição e a classificação dos distúrbios da voz,
utilizando a avaliação perceptivo-auditiva como nossa principal ferramenta
diagnóstica. Contudo, uma pergunta fundamental persiste: como podemos ter
certeza do que está acontecendo dentro da laringe? A escuta clínica é crucial,
mas a visualização das estruturas laríngeas é o que oferece a confirmação
diagnóstica e revela detalhes que o ouvido humano não consegue captar.
Nesta unidade final, nosso foco será nos exames objetivos que nos permitem
espiar o coração da produção vocal. Iniciaremos o percurso conhecendo
os exames mais clássicos, como a nasofibroscopia e as laringoscopias
indiretas, abordando suas indicações e suas inerentes limitações. Em seguida,
avançaremos para o que é considerado o padrão-ouro da avaliação vocal: a
videolaringoscopia com estroboscopia. Você entenderá como essa tecnologia
incrível nos permite, de forma quase mágica, “congelar” o movimento das
pregas vocais e analisar o detalhe mais importante para uma voz saudável: a
onda mucosa.
O ponto-chave da nossa conversa será a correlação entre as alterações vocais
e as imagens laríngeas. Vamos aprender a estabelecer a conexão lógica entre
o que ouvimos, por exemplo, uma voz soprosa ou rouca, e o que visualizamos
no exame, como uma fenda glótica ou um nódulo. Esse raciocínio clínico
integrado, que une a evidência auditiva à visual, é o que diferencia um
profissional de fonoaudiologia de excelência e garante a precisão do plano
terapêutico.
Para concluir, abordaremos um pilar fundamental da nossa profissão: a
atuação do fonoaudiólogo em equipe multidisciplinar. A voz é um fenômeno
complexo e seu tratamento raramente é responsabilidade de um único
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ni
Fa
te
ci
e
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especialista. Vamos reforçar a importância da parceria essencial com o
médico otorrinolaringologista e outros profissionais de saúde para oferecer
ao paciente o melhor e mais completo cuidado possível.
Esta unidade final fecha o nosso ciclo de aprendizado, unindo a escuta clínica
à evidência visual e consolidando a importância da colaboração profissional.
Vamos concluir nossa jornada!
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Tópico
Laringoscopias Indiretas
Nasofibroscopia e01
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O conhecimento dos exames de visualização laríngea é essencial para o fonoaudiólogo, mesmo que
a realização do procedimento seja exclusiva do médico otorrinolaringologista. O papel do fonoaudiólogo é
interpretar profundamente as imagens e correlacioná-las com os achados da avaliação vocal. Os métodos
mais tradicionais e amplamente descritos na literatura (Tsuji; Sennes, 2008; Colton; Casper; Leonard, 2010)
são a Laringoscopia Indireta e a Nasofibroscopia.
A laringoscopia indireta (com espelho de Garcia) é o método mais antigo e clássico. O médico
utiliza um pequeno espelho aquecido, posicionado na orofaringe, e uma fonte de luz para visualizar a imagem
refletida da laringe. É um exame rápido e de baixo custo, mas suas desvantagens incluem uma visão limitada,
dificuldade de realização em pacientes com reflexo de náusea intenso e a impossibilidade de gravação das
imagens.
Figura 1: Laringoscopia e Nasofibroscopia (Fonte: ATO MEDICINA DIAGNÓSTICA.
Laringoscopia direta para diagnóstico: colheita ou biópsia em São Paulo. São Paulo: Ato
Diagnósticos, [s. d.]. Disponível em: https://abre.ai/ovrU. Acesso em: 3 dez. 2025.)
https://abre.ai/ovrU
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Já a Nasofibroscopia (ou Fibronasolaringoscopia) utiliza um endoscópio fino e flexível introduzido
por uma das narinas, oferecendo uma visão superior da laringe. É bem tolerado pela maioria dos pacientes
por não provocar reflexo de náusea. Sua grande vantagem, conforme destacado por Behlau (2001), é que, por
não restringir os movimentos articulatórios, permite a avaliação da laringe durante a fala encadeada, o canto
e a deglutição, ou seja, durante funções dinâmicas. A principal limitação é que a qualidade da imagem e a
iluminação costumam ser inferiores às do padrão-ouro (a videolaringoscopia rígida), o que pode dificultar a
visualização de detalhes finos da mucosa. Ambos os exames permitem ao médico observar a anatomia geral,
a cor da mucosa, a presença de lesões macroscópicas e a mobilidade grosseira das pregas vocais (abdução e
adução).
Imagem 1: Laringoscopia Indireta (Fonte: Guimarães et al. (2018))
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A nasofibroscopia é particularmente útil na avaliação da voz supraglótica. Como o endoscópio fica
posicionado mais alto, é possível visualizar o comportamento das pregas vestibulares (falsas cordas vocais) e
das pregas ariepiglóticas. Em casos de disfonia por tensão muscular (DTM), observa-se frequentemente uma
constrição excessiva dessas estruturas, que “escondem” as pregas vocais verdadeiras. Essa visão panorâmica
ajuda a identificar padrões de hiperfunção que não seriam visíveis na laringoscopia rígida.
A avaliação do fechamento velofaríngeo é outra aplicação vital da nasofibroscopia. Ao introduzir a
fibra, o médico pode posicioná-la acima do palato mole e pedir para o paciente falar fonemas orais e nasais.
Isso permite diagnosticar a insuficiência velofaríngea (causa de hipernasalidade), comum em pacientes
com fissura palatina ou paralisias, orientando a conduta fonoaudiológica para o treino de vedamento ou a
indicação de prótese/cirurgia.
Em casos de disfagia (dificuldade de engolir), a nasofibroscopia é adaptada para o exame de
videoendoscopia da deglutição (FEES). O médico oferece alimentos corados ao paciente e observa se há
penetração (alimento entrando no vestíbulo laríngeo) ou aspiração (alimento passando pelas pregas vocais).
O fonoaudiólogo participa desse exame para testar manobras de proteção e mudanças de consistência
alimentar em tempo real.
A nasofibroscopia permite também a avaliação da mobilidade laríngea em tarefas não fonatórias,
como a tosse e o pigarro. Em pacientes com suspeita de paralisia, observar a abdução (abertura) máxima
durante a inspiração profunda é crucial para determinar o espaço aéreo disponível e o risco de dispneia (falta
de ar). A paralisia bilateral em adução é uma emergência médica.
Imagem 2: Nasofibroscopia (Fonte: ENDOSCOPIA nasal em criança [fotografia]. [S. l.]: [s. n.], [s. d.]. Disponível
em: https://abre.ai/ovtv. Acesso em: 3 dez. 2025)
https://abre.ai/ovtv
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A anestesia tópica no nariz é geralmente utilizada para diminuir o desconforto da introdução da
fibra. No entanto, em cantores profissionais, o uso de anestésico pode alterar a sensibilidade proprioceptiva
da faringe e influenciar o ajuste vocal. Nesses casos, se possível, tenta-se realizar o exame sem anestesia ou
com dose mínima, para observar o comportamento vocal mais natural possível.
A laringoscopia indireta com espelho, embora antiga, ainda tem valor em triagens rápidas ou
em locais sem recursos tecnológicos. A habilidade do médico em “ver” a laringe invertida no espelho e a
coordenação olho-mão para não tocar na úvula (o que causa náusea) são essenciais. É um exame que depende
inteiramente da destreza do examinador e da colaboração do paciente.
A luz halógena utilizada nesses exames convencionais permite ver a cor real da mucosa. Já a
luz estroboscópica (usada na videolaringoestroboscopia) pode alterar a percepção da cor. Portanto, a
nasofibroscopia com luz contínua é excelente para identificar sinais de inflamação (vermelhidão/hiperemia)
causados por refluxo ou laringites agudas.
A posição do paciente durante a nasofibroscopia é fisiológica: sentado, com a cabeça em posição
natural. Isso contrasta com a laringoscopia rígida, onde a tração da língua e a extensão do pescoço alteram
a biomecânica. Para avaliar a voz profissional, a postura natural é indispensável, pois tensões cervicais e
posturais influenciam diretamente a produção vocal.
Em crianças, a nasofibroscopiaé o exame de escolha. O endoscópio pediátrico é muito fino (cerca
de 2 mm) e permite a avaliação sem a necessidade de sedação em muitos casos. Diagnosticar disfonias
infantis (nódulos, cistos) ou estridor congênito (laringomalácia) depende dessa visualização dinâmica e
pouco invasiva.
Por fim, a documentação desses exames evoluiu. Antigamente, apenas o médico via. Hoje, acopla-
se uma microcâmera à fibra ótica, permitindo que o paciente e o fonoaudiólogo vejam a imagem em um
monitor. Isso tem um valor educativo imenso: mostrar ao paciente sua laringe funcionando (“biofeedback”)
aumenta a compreensão do problema e a adesão ao tratamento fonoaudiológico.
U N I D A D E I V
Tópico
Estroboscopia e suas Vantagens
Videolaringoscopia, o uso da
02
U N I D A D E I V 93
A videolaringoscopia (ou telelaringoscopia) com endoscópio rígido é, atualmente, um dos exames
mais utilizados para o diagnóstico preciso de lesões vocais. Neste procedimento, um endoscópio rígido, que
possui uma óptica de alta qualidade e um ângulo de visão ampliado (geralmente 70 ou 90 graus), é introduzido
pela boca do paciente até a orofaringe. A grande vantagem é a excelente qualidade da imagem, oferecendo
grande magnificação, luminosidade e nitidez. Além disso, permite a gravação em vídeo de alta definição, o
que é fundamental para documentação, acompanhamento da evolução da lesão (pré e pós-fonoterapia) e para
a discussão do caso (Tsuji; Sennes, 2008). Sua principal limitação é que, ao exigir que o paciente mantenha
a língua tracionada para fora, o trato vocal é distorcido, impedindo a fala natural e limitando a avaliação
apenas à emissão de vogais sustentadas (geralmente /e/ ou /i/).
A verdadeira revolução na avaliação vocal, que o tornou o exame padrão-ouro, veio com a associação
da estroboscopia à videolaringoscopia. As pregas vocais vibram em altíssimas velocidades (acima de 100
vezes por segundo em homens e 200 em mulheres), o que faz com que o olho humano veja apenas um
“borrão”. A Videolaringoestroboscopia utiliza um engenhoso “truque” de iluminação, baseado na lei de
Talbot (Hirano, 1981), que cria uma ilusão de ótica, permitindo que vejamos a vibração em câmera lenta
aparente.
O funcionamento é o seguinte: o aparelho capta a frequência fundamental da voz do paciente através
de um microfone e emite flashes de luz (estrobos) em uma frequência ligeiramente diferente da vibração real
das pregas vocais.
Imagem 3: Laringoscópio (Fonte: VÍDEO laringoscópio de alta definição MedCaptain [imagem]. [S. l.]: [s. n.], [s.
d.]. Disponível em: https://abre.ai/ovtH. Acesso em: 3 dez. 2025)
https://abre.ai/ovtH
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Isso ilumina pontos sucessivos de diferentes ciclos vibratórios e, devido à persistência retiniana,
nosso cérebro “une” essas imagens estáticas, criando a sensação visual de um movimento lento e contínuo,
a famosa onda mucosa.
A vantagem suprema da estroboscopia é ser o único exame clínico de rotina que permite ao
fonoaudiólogo e ao médico avaliar a função vibratória das pregas vocais. Ela possibilita a análise de
parâmetros cruciais (Colton; Casper; Leonard, 2010), como:
• A onda mucosa (a ondulação da superfície da prega vocal, essencial para uma qualidade vocal
limpa);
• A simetria de vibração (se ambas as pregas vibram de forma igual);
• A amplitude do movimento;
• O padrão de fechamento glótico.
Essa capacidade de analisar a vibração é o que torna o exame fundamental para o diagnóstico
diferencial das disfonias, pois muitas lesões (como cistos ou sulcos) só são visíveis ou confirmadas pela
alteração específica que causam na onda mucosa durante a estroboscopia.
A onda mucosa é o parâmetro mais refinado da avaliação estroboscópica. Ela representa o
deslizamento do epitélio e da camada superficial da lâmina própria sobre o corpo da prega vocal. A ausência
de onda mucosa (segmento adinâmico) é um sinal de alerta máximo. Pode indicar uma lesão estrutural
profunda, como um carcinoma invasivo, ou uma cicatriz rígida (sulco vocal) que “cola” a mucosa no músculo.
A recuperação da onda mucosa é um dos principais objetivos da cirurgia e da fonoterapia.
A simetria de fase refere-se ao “espelhamento” do movimento. As duas pregas vocais devem se abrir
e fechar ao mesmo tempo. Se uma prega começa a abrir enquanto a outra ainda está fechada, há assimetria
de fase. Isso ocorre quando as pregas têm propriedades biomecânicas diferentes (ex: uma tem um pólipo e é
mais pesada; a outra é normal). Essa assimetria gera turbulência aérea e qualidade vocal rugosa.
A amplitude de vibração é o quanto a prega vocal se desloca lateralmente a partir da linha média.
Em sons graves e fortes, a amplitude é grande. Em sons agudos e fracos, é pequena. Na paralisia ou na
presbifonia, a amplitude pode estar reduzida por falta de força muscular ou rigidez articular. A estroboscopia
permite quantificar essa redução e monitorar o ganho de amplitude com os exercícios vocais.
A periodicidade é a regularidade da vibração ciclo a ciclo. A estroboscopia depende da periodicidade
para funcionar. Se a voz for muito irregular (aperiódica), como em uma disfonia severa, a luz estroboscópica
não consegue sincronizar, e a imagem fica “pulando” ou instável. Nesses casos, o exame perde acurácia, e a
videolaringoscopia de alta velocidade seria o ideal, embora menos acessível.
U N I D A D E I V 95
O fechamento glótico é avaliado em sua completude e padrão. Fendas glóticas podem ser constantes
ou intermitentes. A estroboscopia revela se a fenda ocorre apenas na fase posterior (fenda respiratória normal
em mulheres) ou se estende por toda a glote. Diferenciar uma fenda por lesão de massa (ampulheta) de uma
fenda por atrofia (fusiforme) direciona o raciocínio: a primeira precisa de redução da lesão; a segunda, de
fortalecimento muscular.
A avaliação da atividade supraglótica durante a estroboscopia também é relevante. Muitas vezes,
para compensar uma falha na vibração das pregas vocais verdadeiras, o paciente faz uma compressão medial
das pregas vestibulares. A estroboscopia permite ver “através” dessa constrição em alguns momentos, ou
identificar se as falsas cordas estão tocando e vibrando (voz ventricular), o que seria um padrão patológico
severo.
O uso do microfone de contato (estetoscópio laríngeo) acoplado ao pescoço durante o exame
melhora a sincronização da luz estroboscópica. Diferente do microfone aéreo, ele capta a vibração direta da
parede da laringe, filtrando o ruído ambiente e o som da boca, garantindo uma imagem mais estável mesmo
em vozes fracas ou com muito ruído de soprosidade.
A laringoscopia rígida de 70 graus permite ver não apenas as pregas vocais de cima, mas também
a região subglótica (logo abaixo das pregas) e a comissura anterior (o “V” da frente), áreas onde lesões
podem se esconder. O ângulo da lente permite “olhar por baixo” das pregas vestibulares, revelando detalhes
anatômicos que a visão direta de 0 graus perderia.
A gravação do exame em câmera lenta real (slow motion) versus a estroboscopia (ilusão) é uma
distinção técnica importante. A estroboscopia simula câmera lenta. Se o paciente mudar a frequência da voz
rapidamente (fizer um glissando), a estroboscopia falha. O exame exige que o paciente mantenha a nota
estável (“eeee”) por alguns segundos para que a ilusão ótica se forme corretamente.
Por fim, o exame é operador-dependente. O médico precisa ter habilidade para introduzir o
endoscópio sem tocar na base da língua (o que gera náusea) e paciência para buscar o melhor foco e luz. O
fonoaudiólogo, ao assistir ao exame, deve considerar as condições técnicas: um exame com pouca luz ou fora
de foco pode mascarar uma lesão ou simular uma fenda inexistente.
U N I D A D E I V
Tópico
Vocais e Imagens Laríngeas
Correlação entre Alterações03
U N I D A D E I V 97
Este é o ponto onde o conhecimento do fonoaudiólogo se torna crucial. Não basta receber o laudo
do exame; épreciso assistir ao vídeo e correlacionar o que se vê com o que se ouve. Essa correlação é a base
do raciocínio clínico em voz, conforme enfatizado por Behlau (2001). A imagem laríngea deve explicar a
qualidade vocal percebida, e vice-versa.
Ao ouvir uma Voz Soprosa (com “ar escapando”), esperamos ver no exame um fechamento glótico
incompleto, ou seja, uma fenda. A forma dessa fenda é importante e nos dá pistas sobre a causa do problema.
Por exemplo, uma fenda fusiforme (em formato de fuso) sugere presbifonia ou sulco vocal, enquanto uma
fenda em ampulheta sugere a presença de nódulos bilaterais.
Já para uma Voz Rouca/Áspera (irregular e com ruído), esperamos ver algo que esteja atrapalhando a
vibração regular e a lisura da borda livre das pregas vocais. No exame, isso pode ser a presença de uma lesão
de massa (como nódulo, pólipo, cisto, leucoplasia), um edema (inchaço), rigidez na mucosa (cicatriz) ou
uma assimetria importante na vibração (uma prega mais pesada que a outra). Nesses casos, a estroboscopia
é fundamental para avaliar a presença ou ausência de onda mucosa sobre a lesão.
Quando a queixa é de Voz Instável/Trêmula, com flutuações de frequência ou intensidade, podemos
observar no exame tremores nas estruturas da laringe e faringe ou uma instabilidade aperiódica no ciclo
vibratório. Em casos de Voz Aguda Inadequada (ex: muda vocal incompleta ou falsete), o achado comum é um
ajuste de estiramento excessivo, com as pregas vocais muito alongadas, finas e vibrando apenas nas bordas,
o que demonstra grande rigidez longitudinal, mesmo em fala habitual. Por fim, a Voz Grave e “molhada” é
o achado clássico do Edema de Reinke, onde vemos um aumento significativo do volume das pregas vocais,
com aspecto gelatinoso e flácido, vibrando de forma irregular e pesada.
Essa correlação é uma via de mão dupla: a qualidade vocal nos levanta suspeitas sobre o que
encontraremos na imagem, e a imagem confirma e explica a fisiopatologia do que estamos ouvindo.
A correlação em casos de cisto vocal é desafiadora. O cisto é uma lesão intracordal (dentro da
prega). Muitas vezes, ele não é visível como uma “bolinha” na superfície, mas se manifesta como uma área
de rigidez na estroboscopia (ausência de onda mucosa). Auditivamente, a voz é rouca e grave, mas pode
ter momentos de quebra súbita. A correlação entre “voz rouca + área rígida na estroboscopia” sugere cisto,
diferenciando-o de nódulo, que é superficial e mantém a onda mucosa.
No sulco vocal, a imagem mostra uma linha depressiva ao longo da prega vocal, como uma cicatriz.
Essa linha adere o epitélio ao ligamento, impedindo a vibração. A correlação auditiva é uma voz aguda,
áspera e soprosa, com esforço vocal intenso. O paciente relata que “a voz não sai”. A imagem de uma prega
vocal que “não balança” na região do sulco explica perfeitamente a falta de projeção e a aspereza auditiva.
A ponte mucosa é uma variação anatômica onde uma tira de mucosa cruza a glote ou corre paralela
à prega vocal. Na imagem, parece uma “alça”. Auditivamente, pode gerar diplofonia (dois sons) ou um ruído
de "raspar" específico. A correlação visual é difícil na laringoscopia comum, exigindo inspeção detalhada
U N I D A D E I V 98
sob estroboscopia para ver a alça vibrando independentemente ou batendo na prega vocal.
Na disfonia espasmódica, a correlação é entre uma voz "estrangulada" e com quebras de sonoridade
e uma imagem laríngea anatomicamente normal em repouso, mas que apresenta espasmos de fechamento
violento (adução) apenas durante a fala. A discrepância entre a anatomia normal e a função caótica é a chave
do diagnóstico. A imagem confirma que não há lesão (tumor, nódulo), mas sim um distúrbio do controle
motor central.
O granuloma (úlcera de contato) é visível na região posterior da laringe (processo vocal). A correlação
auditiva é uma voz grave, tensa e com ataque vocal brusco, muitas vezes acompanhada de dor (odinofonia).
O fonoaudiólogo ouve o "golpe" da glote se fechando com força e vê na imagem o tecido de granulação
formado justamente no ponto de impacto das cartilagens, fechando o ciclo de causa e efeito.
A leucoplasia (placa branca) é uma lesão pré-maligna. Na imagem, vê-se uma mancha branca
irregular na superfície da prega vocal. Auditivamente, a voz é rouca e áspera. A correlação importante aqui é
a rigidez: se a estroboscopia mostrar que a onda mucosa passa por baixo da placa branca, a lesão é superficial.
Se a onda para na placa, a lesão pode estar invadindo o músculo (carcinoma). A imagem guia a urgência da
biópsia.
A laringite por refluxo gera achados visuais difusos: edema e vermelhidão na região posterior
(aritenoides) e muco espesso ("sinais de retrocricoide"). A correlação auditiva é uma voz "suja", que melhora
após pigarrear, e rouquidão matinal. A imagem não mostra uma lesão focal na prega vocal, mas sinais de
irritação química ao redor dela, explicando a sensação de corpo estranho relatada pelo paciente.
A hemorragia de prega vocal aparece como uma mancha vermelha viva ou arroxeada na prega
vocal, fruto do rompimento de um vaso. Auditivamente, a voz "corta" subitamente após um grito e fica muito
rouca. A imagem explica a perda súbita: o sangue dentro da prega aumenta sua massa e rigidez agudamente,
impedindo a vibração normal. O repouso vocal absoluto é indicado baseando-se nessa imagem de trauma
vascular agudo.
A fenda triangular médio-posterior é um achado comum em mulheres jovens. Na imagem, vemos
um pequeno "triângulo" aberto na parte de trás da glote durante o fechamento. Auditivamente, isso gera uma
leve soprosidade, considerada normal ou até charmosa em alguns contextos sociais femininos. A correlação
aqui é de "variação anatômica", não necessariamente patológica, a menos que a paciente tenha queixa de
cansaço vocal profissional.
A assimetria de tensão (como na paralisia do nervo laríngeo superior) é sutil. A prega vocal paralisada
fica mais curta e flácida que a sadia. Na imagem, vemos a glote torta ou oblíqua. Auditivamente, a voz é
monótona, grave e o paciente não consegue cantar agudos. A correlação entre a incapacidade de alongar a
prega (vista no exame) e a perda da extensão vocal (ouvida e testada) confirma o diagnóstico da paralisia do
tensor.
U N I D A D E I V
Tópico
em Equipe Multidisciplinar
Atuação do Fonoaudiólogo
04
U N I D A D E I V 100
Nenhum profissional da voz trabalha sozinho. A complexidade do sistema vocal humano exige uma
abordagem colaborativa para garantir o melhor desfecho para o paciente, sendo a equipe multidisciplinar o
modelo ideal de atendimento em voz (Behlau, 2005).
4.1 A Parceria Essencial: Fonoaudiólogo e Otorrinolaringologista
A dupla central no cuidado da voz é formada pelo Otorrinolaringologista (ORL) e o Fonoaudiólogo.
O ORL é o médico responsável pelo diagnóstico nosológico — identificando a presença de doenças e lesões
(o “o que é”). É ele quem realiza os exames de imagem, prescreve medicamentos (para refluxo, alergias,
infecções) e define a conduta médica, seja ela cirúrgica ou conservadora.
Por outro lado, o fonoaudiólogo é o profissional responsável pelo diagnóstico funcional da voz. Ele
avalia o comportamento vocal, os ajustes musculares inadequados e os parâmetros acústicos e perceptuais.
O fonoaudiólogo não dá o diagnóstico médico da lesão, mas interpreta o exame de imagem sob a ótica da
função: como aquela lesão está impactando a vibração e o que pode ser feito, em termos de reabilitação,
para otimizar essa função ou compensar a falha. A comunicação constante entre esses dois profissionais é
fundamental para alinhar expectativas, monitorar a evolução e decidir o momento de alta ou de mudança de
conduta.
4.2 Outros profissionais da Equipe
Dependendo da etiologia da disfonia e das necessidades do paciente, a equipe deve ser ampliada. A
colaboração com o professor de canto é crucial para cantores, alinhando a reabilitação vocal (saúde) com atécnica artística (estética e performance). O psicólogo é indispensável em casos de disfonias psicogênicas ou
quando há um grande impacto emocional e na qualidade de vida. O fisioterapeuta atua em casos de alterações
posturais globais ou de tensão muscular cervical crônica que afetam a laringe, e o gastroenterologista pode
ser acionado em casos de refluxo laringofaríngeo severo. Trabalhar em equipe significa somar conhecimentos
específicos para oferecer ao paciente um cuidado completo, integrado e eficaz.
A atuação com o gastroenterologista vai além do encaminhamento. Em casos de disfonia refratária
por refluxo, o fonoaudiólogo monitora a adesão às medidas comportamentais (dieta) e informa ao médico
se os sintomas vocais (pigarro, rouquidão) persistem mesmo com a medicação. Essa retroalimentação ajuda
o médico a ajustar a dose ou investigar outras causas. O refluxo é uma doença crônica que exige manejo
conjunto de estilo de vida e farmacológico.
O psicólogo é parceiro vital não apenas nas disfonias psicogênicas puras, mas em qualquer disfonia
crônica. Perder a voz gera ansiedade, depressão e medo do futuro profissional. O fonoaudiólogo trata a
função vocal, mas o psicólogo trata o sujeito que sofre com a perda dessa função. Em casos de nódulos em
crianças, a terapia familiar com psicólogo pode ser necessária para modificar a dinâmica de gritos e tensão
no ambiente doméstico.
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O professor de canto (ou preparador vocal) tem um olhar pedagógico e estético que complementa
o olhar clínico. O fonoaudiólogo reabilita a lesão (tira o nódulo), mas é o professor de canto que vai ensinar
o aluno a cantar aquele repertório difícil sem se machucar novamente. A troca de informações técnicas ("ele
ainda tem uma fenda, evite os agudos extremos por enquanto") garante uma transição segura da reabilitação
para a performance.
O fisioterapeuta especializado em RPG ou osteopatia é essencial em casos de disfonias associadas
a desvios posturais severos ou dores crônicas cervicais. A laringe está suspensa em uma rede muscular
conectada à coluna e à cintura escapular. Se o paciente tem uma retração de cadeia muscular anterior, o
fonoaudiólogo sozinho não conseguirá “soltar” a laringe. O trabalho corporal global do fisioterapeuta
potencializa os exercícios vocais locais.
A Medicina do Trabalho e a Engenharia de Segurança entram na equipe quando a disfonia é
ocupacional. O fonoaudiólogo pode solicitar laudos sobre o nível de ruído na sala de aula ou na fábrica.
Atuar junto à empresa para instalar microfones, melhorar a acústica ou reorganizar pausas é uma intervenção
multidisciplinar ergonômica que previne a reincidência do problema vocal.
O neurologista é o parceiro nas disfonias neurogênicas (Parkinson, ELA, distonia). O diagnóstico
diferencial entre uma disfonia funcional e o início de uma doença degenerativa muitas vezes começa na
suspeita do fonoaudiólogo, que ouve um tremor ou uma rigidez atípica. O fonoaudiólogo fornece dados
sobre a evolução da fala e da deglutição que ajudam o neurologista a ajustar a medicação dopaminérgica ou
a planejar intervenções como a toxina botulínica.
O cirurgião de cabeça e pescoço atua nos casos oncológicos. A equipe de reabilitação (fonoaudiólogo,
nutricionista, psicólogo, enfermeiro) trabalha desde o pré-operatório, preparando o paciente para as mudanças.
No pós-operatório, a comunicação entre cirurgião e fonoaudiólogo é diária para definir o momento de iniciar
a voz esofágica ou colocar a prótese traqueoesofágica, garantindo a cicatrização segura e a retomada da
comunicação.
O pediatra e o pneumologista são importantes em disfonias infantis associadas à asma, alergias e
respiração oral. Uma criança que tosse e espirra cronicamente agride suas pregas vocais. O controle da via
aérea inferior e superior é pré-requisito para o sucesso da fonoterapia. O fonoaudiólogo alerta esses médicos
sobre o impacto vocal das crises respiratórias.
A ortodontia e a cirurgia bucomaxilofacial colaboram em casos de alterações estruturais que afetam
a ressonância, como classe III esquelética ou atresia maxilar. A correção da estrutura óssea e dentária amplia
o espaço intraoral, facilitando a articulação e a projeção vocal. O fonoaudiólogo adapta a função (fala/voz)
à nova forma estabelecida pelo dentista.
U N I D A D E I V 102
Por fim, a família do paciente é parte integrante da "equipe". Especialmente em crianças e idosos,
são os familiares que garantem a realização dos exercícios em casa, o controle do ambiente e a motivação.
O fonoaudiólogo deve treinar a família para ser co-terapeuta, observando e reforçando os comportamentos
vocais saudáveis no dia a dia. A equipe multidisciplinar, em última análise, inclui todos que orbitam o
cuidado do paciente.
SAIBA MAIS
O Futuro da Imagem Laríngea: A Videolaringoscopia de Alta Velocidade
Se a estroboscopia cria uma ilusão de ótica de câmera lenta, existe uma tecnologia que filma
o movimento real das pregas vocais? Sim! É a Videolaringoscopia de Alta Velocidade (High-
Speed Videoendoscopy - HSV).
Enquanto uma câmera de vídeo normal filma a cerca de 30 quadros por segundo, a HSV pode
filmar a 2.000, 4.000 ou até mais quadros por segundo.
Com essa velocidade de captura altíssima, ela consegue registrar cada detalhe de ciclos
vibratórios individuais em tempo real, sem a necessidade da luz estroboscópica e sem depender
da periodicidade da voz.
Isso permite analisar com incrível precisão os padrões de vibração mesmo em vozes muito
irregulares, roucas ou aperiódicas (como em paralisias ou disfonias espasmódicas), nas quais
a estroboscopia falha porque não consegue sincronizar a luz com a voz.
Atualmente, a HSV ainda é uma tecnologia cara e utilizada principalmente em centros
de pesquisa avançada, mas ela representa o futuro da análise de imagem da laringe e tem
nos ajudado a compreender nuances da fisiologia e da fisiopatologia vocal que antes eram
invisíveis aos nossos olhos.
Fonte: adaptado de Zemlin (1998).
U N I D A D E I V 103
REFLITA
“Tratamos o paciente, não o exame.” — Princípio da Clínica Vocal.
É comum, na clínica, encontrarmos situações paradoxais. Por exemplo, um paciente chega
com um exame de laringe que mostra uma lesão pequena, mas sua voz está extremamente
disfônica e sua qualidade de vida, muito afetada. Em outro caso, o exame pode mostrar uma
lesão de aparência preocupante, mas a voz do paciente soa quase normal e ele não tem queixas
significativas. O exame de imagem é uma “fotografia” da estrutura anatômica, mas a disfonia
é a experiência funcional e subjetiva do paciente.
Qual é o peso do exame de imagem e qual é o peso da queixa e da avaliação funcional do
paciente na sua tomada de decisão terapêutica? Por que o fonoaudiólogo nunca deve basear
seu plano terapêutico apenas no laudo do otorrinolaringologista, sem realizar sua própria
avaliação funcional completa? Como equilibrar a informação objetiva do exame com a
realidade subjetiva e a necessidade comunicativa do paciente que está à sua frente?
Fonte: BEHLAU, M. (Org.). Voz: o livro do especialista. Vol 1. Rio de Janeiro: Revinter,
2001.
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niFatecie
Considerações Finais
104
E assim, concluímos nossa última unidade e a disciplina de Distúrbios da Voz.
Espero que esta jornada tenha sido tão enriquecedora para você quanto é para
mim a cada vez que mergulho neste universo. Nesta unidade final, fechamos
o ciclo do raciocínio clínico. Aprendemos sobre as ferramentas que nos
permitem “ver” a voz, desde os exames mais tradicionais até o padrão-ouro
da videolaringoestroboscopia, que nos revela os segredos da onda mucosa e
da vibração glótica, conforme descrito por Hirano (1981).
Mais importante do que apenas conhecer os exames, aprofundamos a
habilidade de correlacionar os achados de imagem com os sinais vocais,
estabelecendo a ponte essencial entre a medicina e a fonoaudiologia, uma
práticacolega fonoaudiólogo(a)!
Seja muito bem-vindo(a) à disciplina de Distúrbios da Voz. Iniciamos aqui uma
jornada fascinante e de imensa responsabilidade: o estudo do instrumento que
dá som à nossa comunicação e que, quando falha, pode silenciar não apenas
palavras, mas também emoções e identidades. A voz é, talvez, o aspecto mais
pessoal da nossa comunicação. Ela é a nossa assinatura sonora no mundo.
Mas o que acontece quando essa assinatura se altera, se enfraquece ou se
torna dolorosa?
Para que possamos, no futuro, tratar os distúrbios da voz, nosso primeiro
passo deve ser compreender a normalidade em sua mais profunda essência.
Antes de consertar, precisamos entender como a máquina funciona em sua
perfeição. Por isso, nesta primeira unidade, vamos construir os alicerces do
nosso conhecimento.
Faremos uma viagem pela anatomia da laringe e das estruturas supraglóticas,
descobrindo cada cartilagem, músculo e ligamento que compõem nosso
incrível aparelho fonador. Em seguida, vamos dar vida a essa estrutura,
estudando a fisiologia da produção vocal. Você vai revisitar e aprofundar
o entendimento sobre como o sopro se transforma em som, um verdadeiro
milagre biofísico.
Exploraremos também como a voz se transforma ao longo da vida, analisando
as características vocais em cada etapa do desenvolvimento humano, do choro
do recém-nascido à voz experiente do idoso. Por fim, refletiremos sobre o
papel da voz na comunicação oral humana, compreendendo que ela é muito
mais do que um som: é um veículo para nossa personalidade, nossas emoções
e nossa arte.
Esta unidade é a base de tudo. Sem ela, a avaliação e a terapia das disfonias
se tornam um exercício de adivinhação. Com ela, sua prática clínica será mais
segura, eficaz e verdadeiramente científica.
Vamos começar?
U N I D A D E I
Tópico
Estruturas Supraglóticas
Anatomia da Laringe e01
U N I D A D E I 11
A voz nasce em um conjunto de estruturas perfeitamente desenhadas para a fonação, localizado na
região do pescoço: o aparelho fonador. O coração desse sistema é a laringe.
A laringe é um órgão complexo, um tubo cartilaginoso situado entre a faringe e a traqueia. Ela possui
três funções vitais: a proteção das vias aéreas inferiores (impedindo a entrada de alimentos), a respiração
(permitindo a passagem de ar) e, claro, a fonação. Ela é composta por um esqueleto de cartilagens, ligamentos
e músculos.
• Cartilagens: são 9 no total, sendo 3 ímpares e 3 pares. As principais são:
◦ Tireoide: a maior delas, forma o “pomo de Adão”.
◦ Cricoide: em forma de anel, serve de base para a laringe.
◦ Aritenoides (par): duas pequenas cartilagens em forma de pirâmide, fundamentais para a
movimentação das pregas vocais.
◦ Epiglote: em forma de folha, fecha a entrada da laringe durante a deglutição.
Figura 1: Órgãos do Sistema Respiratório (Fonte: Lyons; Netter (2023))
U N I D A D E I 12
Os músculos intrínsecos da laringe são aqueles que se originam e se inserem dentro da própria laringe.
Eles desempenham um papel fundamental na fonação, pois são responsáveis pelo movimento das cartilagens,
permitindo a abertura, o fechamento, o estiramento e o encurtamento das pregas vocais. Os principais
músculos intrínsecos são o Tireoaritenóideo (TA), que forma o corpo da prega vocal, e o Cricotireóideo
(CT), que tem como principal função o estiramento das pregas vocais, crucial para a produção de sons
agudos. O conhecimento detalhado da atividade dos músculos intrínsecos é essencial para a compreensão da
dinâmica vocal e para a eficácia das estratégias terapêuticas (Pinho; Pontes, 2008).
As pregas vocais, popularmente conhecidas como “cordas vocais”, são formadas por duas pregas
compostas por músculo e mucosa, que se estendem horizontalmente dentro da laringe. A vibração dessas
pregas gera o som básico da voz. Elas possuem várias camadas, o que permite um padrão vibratório complexo,
conhecido como onda mucosa, essencial para a produção do som vocal.
Figura 2: Secção Coronal da Laringe (Fonte: Lyons; Netter (2023))
U N I D A D E I 13
Acima da laringe (supraglótica), temos o trato vocal, que funciona como o sistema de ressonância.
Ele é composto pelas cavidades da faringe, da boca (oral) e do nariz (nasal). A forma e o tamanho dessas
cavidades, modificados pela ação de estruturas como a língua, os lábios e o palato mole, irão “filtrar” o som
produzido na laringe, dando-lhe o timbre e a qualidade final que ouvimos.
A complexidade da laringe não se resume apenas às suas cartilagens principais. As articulações
laríngeas desempenham um papel crucial na mobilidade e no ajuste fino da voz. A articulação cricotireoidea,
por exemplo, permite que a cartilagem tireoide bascule sobre a cricoide, alongando as pregas vocais e
aumentando o pitch (agudeza) da voz. Já a articulação cricoaritenoidea permite que as aritenoides girem e
deslizem, controlando a abertura (abdução) e o fechamento (adução) da glote. Disfunções nessas articulações,
como anquilose ou luxação, podem resultar em disfonias graves, limitando a extensão vocal ou causando
soprosidade.
Os ligamentos e membranas formam o esqueleto fibroelástico da laringe, conectando as cartilagens
e dando suporte às estruturas moles. O cone elástico, situado abaixo das pregas vocais, ajuda a direcionar
o fluxo de ar para a borda livre, otimizando a vibração. A membrana quadrangular, situada acima, forma
as pregas vestibulares (falsas cordas vocais). Embora não participem da fonação normal, essas estruturas
supraglóticas podem ser recrutadas em situações de esforço vocal excessivo (disfonia por tensão muscular),
gerando uma voz rouca e tensa.
A histologia das pregas vocais é um capítulo à parte. A estrutura em camadas, descrita por Hirano,
é fundamental para a teoria corpo-cobertura. A cobertura (epitélio e camada superficial da lâmina própria)
é frouxa e flexível, permitindo a onda mucosa. O ligamento vocal (camadas intermédia e profunda) oferece
resistência e elasticidade. O músculo vocal (corpo) fornece tônus e massa. Essa organização biomecânica
permite que a prega vocal vibre de forma complexa, com diferentes partes se movendo em diferentes fases,
o que é essencial para a riqueza harmônica da voz humana.
A vascularização da laringe é garantida pelas artérias laríngeas superior e inferior. Um suprimento
sanguíneo adequado é vital para a saúde do tecido e para a recuperação após o uso intenso da voz.
Figura 3: Pregas Vocais (Fonte: Lyons; Netter (2023))
U N I D A D E I 14
No entanto, em situações de fonotrauma agudo (grito), pequenos vasos na superfície da prega vocal
podem se romper, causando hemorragias submucosas que, se não tratadas com repouso, podem evoluir para
pólipos ou cicatrizes rígidas. O fonoaudiólogo deve estar atento a sinais de “quebra vascular” na anamnese
de cantores e profissionais da voz.
A inervação da laringe é fornecida pelo nervo Vago (X par craniano), através de seus ramos: o nervo
laríngeo superior (NLS) e o nervo laríngeo recorrente (NLR). O NLS inerva o músculo cricotireoideo (tensor),
responsável pelos agudos. O NLR inerva todos os outros músculos intrínsecos (abdutores e adutores). Lesões
nesses nervos, comuns em cirurgias de tireoide ou coluna cervical, resultam em paralisias laríngeas com
características vocais distintas: voz monótona e grave (lesão de NLS) ou voz soprosa e fraca (lesão de NLR).
As estruturas supraglóticas formam o trato vocal, que inclui a faringe (laringofaringe, orofaringe
e nasofaringe), a cavidade oral e a cavidade nasal. Este tubo não é rígido; suas paredes são formadas por
músculos constritores e elevadores que podem alterar o formato e o volume do trato. A tensão excessiva na
musculatura faríngea pode estreitar o tubo, abafando a ressonância e “aprisionando” o som. O relaxamento e
a expansão dessas estruturas são alvos frequentes na terapia de voz para melhorar a projeção e o brilho vocal.
O palato mole (véu palatino)defendida por Behlau (2001). Solidificamos também a compreensão
de que a Fonoaudiologia é uma profissão de parcerias. A atuação em equipe
multidisciplinar, especialmente com o médico otorrinolaringologista, não é
uma opção, mas uma premissa para a excelência no cuidado ao paciente com
distúrbio vocal.
Ao final desta disciplina, você tem em mãos o conhecimento fundamental
para entender a voz normal, identificar e classificar seus distúrbios e conhecer
as ferramentas de avaliação. Este é o seu alicerce. A partir de agora, a jornada
é de aprofundamento e, principalmente, de muita prática clínica, de muito
“ouvir” e “ver” vozes. Que a paixão pela ciência e pela arte da voz humana
guie seus passos na bela profissão que você escolheu.
U N I D A D E I V
niFatecie
Leitura Complementar
105
CORRELAÇÃO ENTRE SINTOMAS E AVALIAÇÃO PERCEPTIVO-
AUDITIVA DA VOZ EM INDIVÍDUOS DISFÔNICOS
Foram analisados os prontuários de 30 indivíduos com queixas vocais,
atendidos em um serviço de Fonoaudiologia, sendo 22 mulheres e oito
homens, com média de idade de 51,8 anos (±15,5). Foram coletadas as
seguintes informações: resultados da Escala de Sintomas Vocais (ESV) dos
domínios Limitação, Emocional, Físico e Total; resultados da avaliação
perceptivo-auditiva por meio do protocolo CAPE-V (grau geral do desvio
vocal, rugosidade, soprosidade, tensão, pitch, loudness e ressonância).
Ambos os procedimentos foram realizados pela fonoaudióloga responsável
na primeira consulta do paciente. Os dados foram analisados estatisticamente.
Houve correlações positivas consideradas boas apenas para os cruzamentos
entre as variáveis “Escores totais da ESV” x “Grau geral do desvio vocal”
e “Escores Limitação da ESV” x “Grau geral do desvio vocal”. Os escores
dos domínios Limitação e Total da ESV tiveram correlação regular com o
parâmetro rugosidade. Os demais parâmetros perceptivo-auditivos, de forma
isolada, principalmente soprosidade de tensão, não se correlacionaram com
os sintomas vocais. A relação entre os sintomas vocais e as características
perceptivo-auditivas da voz não é direta. No entanto, os sintomas relacionados
à funcionalidade, ou seja, às limitações vocais e de comunicação, parecem ter
maior correlação com a avaliação clínica, especificamente com o parâmetro
“grau geral do desvio vocal”.
Fonte: KLODSINSKI, Dhayane; et al. Inclusão escolar de alunos com
deficiência: desafios e possibilidades. Audiology Communication Research,
São Paulo, v. 20, n. 1, e1465, 2015. Disponível em: https://www.scielo.br/j/
acr/a/Ygbp8SKQDV9DSxzzbwdCSCQ/?lang=pt. Acesso em: 13 out. 2025.
https://www.scielo.br/j/acr/a/Ygbp8SKQDV9DSxzzbwdCSCQ/?lang=pt
https://www.scielo.br/j/acr/a/Ygbp8SKQDV9DSxzzbwdCSCQ/?lang=pt
U N I D A D E I V
M
at
er
ia
l Livro
Documentário
106
• Título: Manual de Laringoscopia e
Videolaringoestroboscopia.
• Autor(es): Domingos Hiroshi Tsuji, Luiz
Ubirajara Sennes, et al.
• Editora: Revinter.
• Ano: 2008.
• Sinopse: Este livro é um atlas visual. Para o
fonoaudiólogo que deseja treinar o olhar para
interpretar os exames de imagem da laringe, é
uma ferramenta de valor inestimável. A obra
é repleta de imagens e vídeos de altíssima
qualidade das mais diversas patologias
laríngeas, com descrições detalhadas dos
achados. É o complemento perfeito para o
estudo da correlação entre imagem e voz.
• Documentário: A Voz Humana (The
Human Voice).
• Ano: 2020 (disponível em plataformas
como a CuriosityStream).
• Sinopse: Este documentário explora a voz
humana sob diversas perspectivas: científica,
cultural, social e artística. Ele apresenta
entrevistas com cientistas, fonoaudiólogos e
artistas, e mostra tecnologias de análise vocal
em ação, incluindo imagens de laringoscopia.
É um excelente recurso para visualizar
muitos dos conceitos discutidos em toda a
nossa disciplina, incluindo a importância
da voz para a identidade e a colaboração
entre diferentes áreas do conhecimento para
entendê-la.
U N I D A D E I V
M
at
er
ia
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107
• Nome: Canal Medicina da Voz.
• Descrição: A Dr.ᵃ Sabryna Farneze é uma
conhecida médica otorrinolaringologista de
voz e de cantores do Rio de Janeiro e São
Paulo. Cuida de diversas estrelas da TV, da
música e profissionais da voz, como cantores,
dubladores e atores de musicais. Ela é médica
com residência em Otorrinolaringologia
e Foniatria, com especialização em
Laringologia. É palestrante em diversos
eventos e congressos relacionados à voz
em todo o Brasil. É pesquisadora na área de
voz profissional e mestre em pesquisa em
Cirurgia.
• Link do site: https://www.youtube.com/@
drasabrynafarneze
Vídeo
https://www.youtube.com/@drasabrynafarneze
https://www.youtube.com/@drasabrynafarneze
R
ef
er
ên
ci
as
108
BEHLAU, M. (Org.). Voz: o livro do especialista. v. 1. Rio de Janeiro: Revinter,
2001.
BEHLAU, M. (Org.). Voz: o livro do especialista. v. 2. Rio de Janeiro: Revinter,
2005.
COLTON, R. H.; CASPER, J. K.; LEONARD, R. Comprehending voice
problems: a physiological perspective for diagnosis and treatment. 4. ed.
Baltimore: Lippincott Williams & Wilkins, 2011.
GUIMARÃES, Hélio Penna et al. Manual de semiologia e propedêutica médica.
1. ed. São Paulo: Atheneu, 2018. Disponível em: https://plataforma.bvirtual.com.
br. Acesso em: 3 dez. 2025.
HIRANO, M. Clinical examination of voice. New York: Springer-Verlag, 1981.
TSUJI, D. H.; SENNES, L. U. Manual de laringoscopia e
videolaringoestroboscopia. Rio de Janeiro: Revinter, 2008.
ZEMLIN, W. R. Speech and hearing science: anatomy and physiology. 4. ed.
Boston: Allyn and Bacon, 1998.
https://plataforma.bvirtual.com.br
https://plataforma.bvirtual.com.br
https://plataforma.bvirtual.com.br
niFatecie
Conclusão Geral
109
Chegamos ao fim da nossa jornada, futuro(a) fonoaudiólogo(a)!
E que percurso fascinante nós percorremos juntos. Se você se lembra, lá na
apresentação desta apostila, eu te convidei a olhar para a voz não apenas
como um som, mas como a “assinatura sonora” de uma pessoa e a entender
a disfonia como um quebra-cabeça onde anatomia, fisiologia e emoção se
encontram. Olhando para trás agora, espero que essa visão integrada tenha se
solidificado em seu raciocínio clínico!
Na unidade I, lançamos os alicerces. Revisitamos a anatomia e a fisiologia da
laringe, entendendo como o sopro se transforma em som através do incrível
mecanismo mioelástico-aerodinâmico. Vimos também como a voz acompanha
nosso ciclo de vida, do choro do bebê à voz experiente do idoso, e como ela é
central para a nossa comunicação humana.
Em seguida, na unidade II, afinamos a nossa percepção com os aspectos
relacionados à Voz. Aprendemos a distinguir o normal do patológico e a
descrever a voz usando parâmetros técnicos auditivos e acústicos. Mais do
que isso, expandimos o olhar para o corpo, compreendendo que a voz depende
visceralmente da respiração, da postura e do sistema mastigatório.
Com essa base, na unidade III, mergulhamos no coração da patologia: os
Transtornos da Voz. Classificamos as disfonias em suas grandes categorias
— Orgânicas, Funcionais e Orgânico-Funcionais. Entendemos a lógica do
“ciclo vicioso” onde o comportamento vocal inadequado pode gerar lesões
físicas, como os nódulos, e estudamos as particularidades da presbifonia e das
questões psicossomáticas.
Finalmente, na unidade IV, fechamos o ciclo com a precisão dos Exames
Objetivos. Descobrimos como a tecnologia da nasofibroscopia e da
estroboscopia nos permite “ver” a vibração que nossos ouvidos escutam.
Aprendemos a fazer a correlação vital entre a imagem (o que acontece na
laringe) e o som (a qualidade vocal), consolidando a importância da atuação
em equipe multidisciplinar com o médico otorrinolaringologista.
ni
Fa
te
ci
e
110
Percebe como tudo está interligado? A anatomia (Unidade I) explica a
fisiologia; as falhas na fisiologia geram os sinais auditivos (Unidade II);
esses sinais nos levam à classificaçãoda patologia (Unidade III); e os exames
objetivos (Unidade IV) confirmam nossas hipóteses e guiam a conduta. O
conhecimento que você adquiriu aqui não é apenas teórico; é a base da sua
competência diagnóstica. Ele te permitirá ouvir uma voz rouca e não apenas
identificar o sintoma, mas visualizar mentalmente o que está acontecendo nas
pregas vocais e entender o impacto disso na vida do seu paciente.
Espero que, ao final desta apostila, você se sinta preparado e inspirado para
cuidar desse instrumento tão precioso que é a voz humana. Que a curiosidade
científica e a escuta empática continuem guiando seus passos. Foi uma honra
imensa ser seu professor nesta jornada.
Desejo a você muito sucesso e excelentes diagnósticos em sua carreira!
UNIDADE I
UNIDADE II
UNIDADE III
UNIDADE IV
Botão 6:
Botão 8:
Botão 7:
Botão 9:atua como uma válvula que controla a comunicação entre a boca
e o nariz. Durante a fala, ele se eleva para fechar a nasofaringe na maioria dos sons (orais), e se abaixa
para permitir a ressonância nasal nos sons /m/, /n/ e /nh/. A incompetência dessa válvula (insuficiência
velofaríngea) causa hipernasalidade, afetando a inteligibilidade e a qualidade vocal. O fonoaudiólogo avalia
e trata a função velar para garantir o equilíbrio ressonantal.
A língua é o principal articulador e também um importante modelador da ressonância. Sendo um
músculo volumoso (hidrostato muscular) conectado ao osso hioide e à epiglote, a tensão na base da língua
pode se transmitir diretamente à laringe, dificultando a fonação. Uma língua posteriorizada (retraída) abafa
o som e gera uma voz gutural. A posição da ponta e do dorso da língua altera as frequências dos formantes
(ressonâncias), definindo as vogais e a qualidade tímbrica da voz.
A mandíbula e os lábios formam a “porta de saída” do som. A abertura da boca influencia a
impedância acústica (resistência à saída do som). Uma boca muito fechada (travamento mandibular) aumenta
a impedância e exige mais esforço da laringe para projetar a voz. O relaxamento e a mobilidade da mandíbula
são essenciais para liberar o som e reduzir a sobrecarga laríngea. A coordenação entre mandíbula, lábios e
língua é a base da articulação precisa.
Por fim, a interação entre todas essas estruturas é coordenada pelo sistema nervoso central. O córtex
motor envia os comandos, mas o feedback auditivo e proprioceptivo (sensação) ajusta o movimento em
tempo real. O cantor ou falante “sente” a posição da laringe e a vibração na máscara, ajustando a anatomia
para obter o som desejado. A terapia de voz trabalha essa consciência proprioceptiva, ensinando o paciente
a monitorar e controlar seu próprio instrumento anatômico.
U N I D A D E I
Tópico
O Processo de Produção da Voz
Fisiologia da Produção Vocal:02
U N I D A D E I 16
A produção da voz é um evento biofísico extraordinário que pode ser explicado pelo Modelo Fonte-
Filtro.
• O motor (energia): tudo começa com a respiração. O ar expirado dos pulmões, sob o controle
do diafragma e da musculatura abdominal (o apoio respiratório), gera uma pressão de ar abaixo
das pregas vocais fechadas. Essa pressão é chamada de pressão subglótica.
• A fonte (vibração): quando a pressão subglótica atinge um nível suficiente para vencer
a resistência das pregas vocais, ela as “empurra”, iniciando um ciclo vibratório. Esse ciclo é
autossustentado pela Teoria Mioelástica-Aerodinâmica. Conforme descreve Zemlin (1998), esse
ciclo depende da elasticidade do tecido (força mioelástica) e do Efeito Bernoulli, que suga as
pregas vocais de volta à linha média pela pressão negativa do ar acelerado. Sendo assim:
◦ Abertura: a pressão do ar força a abertura das pregas vocais.
◦ Fechamento: elas se fecham novamente por duas razões: sua elasticidade natural (força
mioelástica) e o Efeito Bernoulli (uma força aerodinâmica). O Efeito Bernoulli diz que o ar, ao
passar em alta velocidade pelo espaço estreito entre as pregas vocais, gera uma pressão negativa
que as “suga” de volta para a posição fechada.
◦ Este ciclo de abertura e fechamento se repete centenas de vezes por segundo, “picotando” o
fluxo de ar e gerando a onda sonora fundamental da voz.
• O filtro (ressonância): o som bruto produzido na laringe (fonte) é rico em harmônicos. Ao
viajar pelo trato vocal (filtro), algumas frequências são amplificadas (ressonância) e outras são
atenuadas, de acordo com a forma das cavidades. É esse processo de filtragem que cria o timbre
da voz e permite a articulação das diferentes vogais. No canto, o domínio sobre esse filtro é o que
permite ao artista criar diferentes “cores” vocais e alcançar grande projeção.
U N I D A D E I 17
A pressão subglótica (Psub) é o “combustível” aerodinâmico da voz. Ela deve ser controlada com
precisão. Para falar mais forte, precisamos aumentar a Psub; para falar mais agudo, também. No entanto, esse
aumento deve ser gerado pelo suporte respiratório (músculos abdominais), e não pelo “aperto” da laringe.
Se o paciente tenta aumentar a pressão fechando a glote com força (hiperfunção), ele gera tensão e risco de
lesão. O fonoaudiólogo treina o paciente a regular a Psub através do apoio respiratório, aliviando a laringe.
O fluxo aéreo transglótico é a quantidade de ar que passa pela glote durante a fonação. Em uma
voz normal, o fluxo é modulado pela vibração das pregas. Se as pregas não fecham bem (fenda), o fluxo é
excessivo e turbulento, gerando soprosidade e encurtando o tempo de fonação (o ar acaba rápido).
Figura 4: Modelo Fonte-Filtro (Fonte: EMFLAZIE. Source-filter model diagram
[imagem SVG]. Wikimedia Commons, 2 jul. 2020. Disponível em: https://abre.
ai/ou9Z. Acesso em: 6 nov. 2025.)
https://abre.ai/ou9Z
https://abre.ai/ou9Z
U N I D A D E I 18
Se as pregas fecham com muita força, o fluxo é escasso e tenso. O equilíbrio entre pressão subglótica
e fluxo transglótico é a chave para a eficiência vocal (máximo som com mínimo esforço).
A resistência glótica é a força que as pregas vocais opõem à passagem do ar. Ela é determinada pelo
grau de adução (fechamento) e pela tensão dos músculos adutores. Uma resistência adequada é necessária
para converter a energia do ar em energia acústica. Resistência baixa demais causa voz fraca; resistência alta
demais causa voz estrangulada. A terapia vocal busca ajustar essa “válvula” para que ela ofereça a resistência
ideal para cada tarefa vocal (fala suave vs. grito).
O conceito de frequência fundamental (F0) fisiológica depende da massa, comprimento e tensão
das pregas vocais. Pregas mais longas e tensas vibram mais rápido (agudo); pregas mais curtas e relaxadas
vibram mais devagar (grave). Homens têm pregas maiores e mais pesadas que mulheres, por isso têm voz
mais grave. Durante a fala, a musculatura intrínseca ajusta esses parâmetros continuamente para criar a
entonação (melodia). A falta de variação de F0 resulta em uma fala monótona e robótica.
A intensidade vocal (volume) fisiológica depende principalmente da pressão subglótica e da
amplitude de vibração das pregas vocais. Quanto mais ar empurra as pregas e quanto mais amplamente elas
oscilam, maior a intensidade. Além disso, o ajuste do trato vocal (boca mais aberta) ajuda a irradiar o som
com mais eficiência. Tentar ganhar volume apenas “na garganta” é a causa número um de fadiga vocal em
professores e palestrantes.
Os registros vocais são diferentes mecanismos de vibração da laringe. No registro modal (fala
habitual), a prega vocal vibra com toda a sua massa (corpo e cobertura). No registro de falsete (agudo),
a prega está esticada e fina, e apenas a borda livre vibra, sem contato completo. No registro basal (fry), a
prega está encurtada e relaxada, vibrando de forma irregular e pulsátil. O fonoaudiólogo treina o paciente a
transitar suavemente entre esses registros (mix), evitando quebras na voz.
A onda mucosa é o movimento ondulatório da superfície da prega vocal (epitélio e camada superficial)
sobre o corpo muscular. Essa “onda” é visível na estroboscopia e é um sinal de saúde vocal. Lesões rígidas
(como cicatrizes ou sulcos) ou edemas podem interromper ou diminuir a onda mucosa, resultando em uma
voz rouca e rígida. A hidratação sistêmica é fundamental para manter a viscosidade ideal do muco e facilitar
essa ondulação.
O trato vocal como filtro não é passivo; ele possui frequências de ressonância próprias, chamadas
formantes. Quando a frequência da fonte (laringe) coincide com a frequência de um formante, o som é
amplificado. Alterar a forma da boca, a posição da língua ou a altura da laringe muda os formantes e,
consequentemente, a qualidade da vogal e o timbre da voz. O “formante do cantor” é um ajuste específico do
trato vocal que permite que a voz seja ouvida sobre uma orquestra sem a necessidade de gritar.U N I D A D E I 19
A interação fonte-filtro é um conceito avançado na fisiologia. Antigamente, pensava-se que a laringe
(fonte) e o trato vocal (filtro) eram independentes. Hoje sabemos que o filtro pode influenciar a fonte. Um
trato vocal semi-ocluído (como fazer “u” ou vibrar lábios) cria uma pressão retrógrada que ajuda a estabilizar
a vibração das pregas vocais, facilitando a fonação. Esse princípio é a base de muitos exercícios terapêuticos
modernos (ETVSO).
A eficiência vocal é a relação entre a energia de entrada (ar/esforço) e a energia de saída (som). Uma
voz eficiente produz muito som com pouco gasto de ar e pouca tensão muscular. Disfonias são, por definição,
ineficientes: o paciente gasta muita energia para produzir uma voz fraca ou instável. A reabilitação fisiológica
visa otimizar essa relação, “ajustando o motor” para que ele renda mais com menos desgaste.
U N I D A D E I
Tópico
Diferentes Etapas do Desenvolvimento
Humano
Características da Qualidade Vocal nas
03
U N I D A D E I 21
A voz não é estática; ela é um marcador da nossa idade e se transforma ao longo da vida.
• Período Neonatal (0-40 dias): a primeira manifestação é o choro. A laringe do bebê é alta no
pescoço e suas estruturas ainda são imaturas. A frequência fundamental (F0) é muito elevada,
entre 400 e 780 Hz. O choro já é um meio de comunicação, variando acusticamente para expressar
fome, dor ou prazer.
• Infância (até a puberdade): a laringe desce gradualmente no pescoço e cresce. A F0 diminui,
mas ainda é aguda. Não há uma diferença significativa entre as vozes de meninos e meninas. A
voz infantil é mais propensa a edemas e lesões devido à delicadeza de suas estruturas.
• Puberdade (Muda Vocal): é o período de maior transformação. Sob a influência hormonal,
a laringe cresce drasticamente, especialmente nos meninos. As pregas vocais se alongam e
engrossam. A F0 nos meninos cai cerca de uma oitava, resultando em uma voz mais grave. Nas
meninas, a queda é menor, de apenas 2 a 3 tons. Nessa fase, são comuns as bitonalidades e falhas
na voz.
• Fase Adulta: a voz atinge sua estabilidade e maturidade. A F0 média para homens fica em torno
de 120 Hz e para mulheres, 220 Hz. É a fase de maior controle e resistência vocal.
• Senescência (Presbifonia): com o envelhecimento, ocorrem mudanças naturais (presbifonia).
As cartilagens podem se ossificar, a musculatura perde tônus e as pregas vocais podem atrofiar.
Na mulher, a F0 tende a ficar mais grave devido ao edema. No homem, a F0 tende a ficar mais
aguda devido à atrofia muscular. A voz pode se tornar mais fraca, soprosa e trêmula (Zemlin,
1998).
No período neonatal e na primeira infância, a laringe está posicionada alta no pescoço (C3-C4), o
que facilita a proteção da via aérea e a amamentação simultânea à respiração. A cartilagem é macia e flexível.
O choro é a primeira função fonatória, e sua análise acústica pode até indicar patologias neurológicas ou
síndromes genéticas (como o “miado de gato”). O controle motor da voz é reflexo, e a criança aprende
gradualmente a modular o choro para expressar diferentes necessidades.
Durante a infância, a descida da laringe e o alongamento do trato vocal permitem uma maior
variedade de sons e ressonâncias. A estrutura das pregas vocais ainda é imatura: a distinção entre as camadas
da lâmina própria só se completa na adolescência. Isso torna a mucosa infantil mais suscetível a edemas e à
formação de nódulos, especialmente em crianças que gritam muito (“abusadores vocais”). A voz da criança
é naturalmente mais aguda e com frequência fundamental mais alta do que a do adulto.
A muda vocal na puberdade é um evento fisiológico dramático, desencadeado por hormônios
sexuais. Nos meninos, a testosterona provoca um crescimento rápido e assimétrico das cartilagens e músculos
laríngeos (o “pomo de Adão” aparece). As pregas vocais aumentam em comprimento e massa, o que faz a
voz cair uma oitava. Esse crescimento rápido pode gerar instabilidade motora temporária, resultando nos
famosos “galos” ou quebras de voz.
U N I D A D E I 22
Nas meninas, a muda vocal também ocorre, mas de forma mais sutil. O estrogênio e a progesterona
influenciam a mucosa e o tônus muscular. A voz desce apenas alguns tons (terça ou quarta), mas muda em
timbre e “cor”, tornando-se mais encorpada e “adulta”. A instabilidade vocal é menos comum, mas pode
haver soprosidade (fenda triangular posterior) fisiológica nessa fase, devido ao padrão de crescimento da
laringe feminina.
A fase adulta jovem é o auge da performance vocal. A laringe está totalmente ossificada e as camadas
da prega vocal estão maduras, permitindo a máxima extensão e flexibilidade. É a fase de maior resistência
a cargas vocais intensas. No entanto, é também o período de maior demanda profissional e social, o que
aumenta o risco de disfonias comportamentais por abuso ou mau uso da voz no trabalho.
Na mulher adulta, as variações hormonais do ciclo menstrual podem afetar a voz. A retenção
hídrica na fase pré-menstrual pode causar um leve edema nas pregas vocais (síndrome vocal pré-menstrual),
dificultando os agudos e gerando fadiga vocal. Cantoras profissionais muitas vezes ajustam seu repertório
ou agenda de acordo com o ciclo. Na gestação, o aumento do volume abdominal pode dificultar o apoio
respiratório, exigindo adaptações na técnica.
A menopausa traz novas mudanças para a voz feminina. A queda dos estrogênios pode levar ao
ressecamento da mucosa (atrofia) e à redução da flexibilidade. A voz pode tornar-se mais grave (virilização
vocal) e menos ágil. A Terapia de Reposição Hormonal pode mitigar esses efeitos, mas a fonoterapia é
fundamental para manter o tônus muscular e a hidratação, compensando as perdas hormonais.
No homem idoso, a presbifonia manifesta-se principalmente pela atrofia muscular e perda de
colágeno, o que afina as pregas vocais. Isso resulta em uma voz mais aguda (o oposto da mulher), fraca e
com menor loudness. O fechamento glótico torna-se incompleto (fenda), gerando soprosidade. A ossificação
das cartilagens reduz a mobilidade articular, limitando a variação de pitch (voz monótona).
A presbifonia não é uma doença, mas uma evolução natural. No entanto, o impacto na comunicação
pode ser severo, levando ao isolamento social ou à depressão (“ninguém me ouve”, “não consigo falar no
telefone”). A fonoterapia na terceira idade visa fortalecer a musculatura remanescente, melhorar o fechamento
glótico e otimizar a ressonância para garantir uma comunicação funcional e a manutenção da qualidade de
vida e da participação social.
Por fim, é importante notar que a idade vocal nem sempre corresponde à idade cronológica.
Fatores como saúde geral, atividade física, tabagismo, hidratação e, principalmente, o uso contínuo da voz
(treinamento) podem retardar os sinais de envelhecimento vocal. Cantores e idosos ativos vocalmente tendem
a manter uma voz mais jovem e saudável por mais tempo, demonstrando o poder da plasticidade muscular e
do cuidado preventivo ao longo da vida.
U N I D A D E I
Tópico
Oral Humana
A Voz na Comunicação 04
U N I D A D E I 24
A voz é muito mais do que o som que carrega as palavras. Ela é uma ferramenta de comunicação
poderosa e multifacetada, carregada de significado em si mesma.
• Canal Paralinguístico: a voz funciona em paralelo com o conteúdo verbal (linguístico). A
forma como dizemos algo muitas vezes é mais importante do que o que dizemos. Através de
variações no pitch (entonação), no loudness (intensidade), no ritmo e na qualidade vocal, nós
expressamos:
◦ Emoções: alegria, tristeza, raiva e surpresa são imediatamente reconhecíveis pela “cor” que
dão à nossa voz.
◦ Intenções: uma mesma frase, como “Você vem à festa?”, pode ser uma pergunta neutra, uma
súplica animada ou uma intimação sarcástica, dependendo da entonação.
◦ Atitudes: a voz pode transmitir confiança, hesitação, autoridade ou submissão.
• Marcador de Identidade:a voz é uma das nossas características mais pessoais, um verdadeiro
“RG sonoro”. Ela revela informações sobre nosso gênero, idade aproximada, estado de saúde e
até mesmo traços de nossa personalidade e origem regional (sotaque).
• Ferramenta Estética e Artística: no canto, a voz transcende a comunicação cotidiana e se
torna um instrumento musical. O cantor explora toda a gama de possibilidades fisiológicas do
aparelho fonador para criar arte, utilizando variações de timbre, registros e dinâmicas para evocar
sentimentos e contar histórias. A busca por uma voz esteticamente agradável e tecnicamente
proficiente é o que move a pedagogia vocal e a atuação fonoaudiológica na área de voz artística.
Afinal, “a voz cantada cobre um vasto domínio com o qual o terapeuta deve se adaptar e não o
inverso” (Estienne, 2004, p. 148).
Para o fonoaudiólogo, é crucial entender essa dimensão. Um distúrbio vocal não afeta apenas a
inteligibilidade da fala; ele impacta a capacidade do indivíduo de se expressar plenamente, de se conectar
emocionalmente com os outros e de projetar sua identidade no mundo.
A voz é o principal vetor da comunicação não verbal auditiva. Enquanto as palavras transmitem o
conteúdo lógico (“o que”), a voz transmite o conteúdo emocional e relacional (“como”). Estudos mostram
que, em situações de incongruência (dizer “estou feliz” com voz triste), o ouvinte confia mais na voz do que
na palavra. O fonoaudiólogo trabalha a congruência vocal, ajudando o paciente a alinhar sua expressão vocal
com sua intenção comunicativa real.
A prosódia (melodia, ritmo, ênfase) é a “música da fala”. Ela tem funções linguísticas (diferenciar
pergunta de afirmação) e pragmáticas (indicar ironia, sarcasmo, dúvida). Pacientes com lesões neurológicas
(como no hemisfério direito) ou com transtornos psiquiátricos podem apresentar disprosódia (fala monótona
ou inadequada), o que prejudica gravemente a interação social, pois eles perdem a capacidade de expressar
e interpretar essas nuances sutis da comunicação.
U N I D A D E I 25
A voz como marcador de gênero é um tema central na fonoaudiologia contemporânea, especialmente
no trabalho com pessoas transgênero. A frequência fundamental, a ressonância e a entonação são pistas
auditivas que a sociedade usa para classificar uma voz como “masculina” ou “feminina”. O fonoaudiólogo
atua na adequação desses parâmetros para que a voz corresponda à identidade de gênero do indivíduo,
promovendo bem-estar e saúde mental.
A voz como instrumento de trabalho define a categoria dos profissionais da voz. Professores, atores,
cantores, teleoperadores, advogados e vendedores dependem da voz para sua sobrevivência econômica. Para
esses grupos, uma pequena disfonia não é apenas um incômodo, mas uma ameaça à carreira. A Fonoaudiologia
do Trabalho atua na prevenção de doenças ocupacionais, na ergonomia vocal e no treinamento de resistência
para essa população de alto risco.
A psicodinâmica da voz explora a relação entre personalidade e qualidade vocal. Pessoas tímidas
podem ter vozes fracas e soprosas; pessoas autoritárias podem ter vozes fortes e tensas. A terapia vocal
muitas vezes provoca mudanças na autoimagem e na postura do indivíduo perante o mundo. Ao ganhar uma
voz mais forte e segura, o paciente pode se sentir mais confiante e assertivo em suas relações pessoais e
profissionais.
A voz na cultura varia imensamente. O que é considerado uma voz “bonita” ou “autoritária” muda
de acordo com a cultura e a época. Em algumas culturas, a voz aguda é sinal de polidez feminina; em outras,
a voz grave é valorizada. O fonoaudiólogo deve ter sensibilidade cultural para entender os padrões estéticos
e sociais de sua comunidade e respeitar a identidade vocal do paciente, evitando impor padrões eurocêntricos
ou normativos.
A tecnologia e a voz trouxeram novos desafios. A comunicação mediada por computadores e
smartphones exige uma voz que seja clara e agradável mesmo quando comprimida digitalmente. A voz
sintética (IA, assistentes virtuais) está cada vez mais humana, mas ainda carece da riqueza emocional da voz
natural. O fonoaudiólogo pode atuar na consultoria para o desenvolvimento de vozes sintéticas mais naturais
e expressivas.
A voz patológica e o estigma. Uma voz muito rouca, estridente ou instável pode gerar reações
negativas nos ouvintes, como pena, irritação ou desconfiança. Pessoas com disfonias severas muitas vezes
sofrem preconceito e isolamento. O fonoaudiólogo tem o papel social de educar sobre a natureza dos
distúrbios vocais e de empoderar o paciente para lidar com essas barreiras comunicativas.
A voz artística (canto, teatro, dublagem) exige o domínio de ajustes vocais extremos e variados.
O artista usa a voz para criar personagens, evocar atmosferas e tocar a alma do público. A fonoaudiologia
artística não visa apenas a saúde (“não machucar”), mas a performance (“fazer melhor”).
U N I D A D E I 26
O trabalho envolve a expansão dos limites vocais, o controle de efeitos e a manutenção da consistência
da performance noite após noite.
Por fim, a voz e a espiritualidade. Em muitas tradições, a voz é o veículo da oração, do mantra e da
conexão com o sagrado. O canto religioso ou ritualístico tem funções de união comunitária e transcendência.
Para líderes religiosos e fiéis, a perda da voz pode significar uma perda de conexão espiritual. O fonoaudiólogo
deve acolher essa dimensão, entendendo que reabilitar a voz é, muitas vezes, devolver ao indivíduo sua
capacidade de expressar sua fé e sua essência mais profunda.
SAIBA MAIS
A laringe do bebê: por que eles conseguem respirar e mamar ao mesmo tempo?
Você já se perguntou por que um recém-nascido consegue mamar e respirar quase
simultaneamente, algo impossível para um adulto? A resposta está na anatomia! A laringe
de um bebê é posicionada muito mais alta no pescoço do que a de um adulto. Nessa posição
elevada, a epiglote (a cartilagem que protege a via aérea) toca o palato mole, criando duas
vias separadas: uma via nasal para o ar ir para os pulmões e uma via oral para o leite ir para
o esôfago.
Essa configuração é uma adaptação brilhante para a sobrevivência, mas tem um “preço”: o
espaço da faringe, que funciona como nossa principal caixa de ressonância, é muito pequeno.
É por isso que o repertório de sons de um bebê é limitado.
Por volta dos 4 a 6 meses de vida, a laringe começa seu processo de “descida” no pescoço.
Essa descida abre um espaço maior na faringe, o que é absolutamente crucial para que sejamos
capazes de produzir a vasta gama de sons da fala humana, especialmente as diferentes vogais.
Perdemos a capacidade de mamar e respirar ao mesmo tempo, mas ganhamos a capacidade
de falar e cantar.
Fonte: Zemlin (1998).
U N I D A D E I 27
REFLITA
A voz é o músculo da alma.” - Alfred Tennyson
O poeta inglês Alfred Tennyson capturou em uma frase a profunda conexão entre nossa voz e
nosso eu interior. Sua voz é única. Ela carrega as marcas da sua história, da sua personalidade
e das suas emoções. Quando você ouve a gravação da sua própria voz, você se reconhece?
Gosta do que ouve? Muitas pessoas sentem um estranhamento ou até uma aversão à sua voz
gravada.
Por que a nossa voz é um componente tão forte da nossa identidade? Pense em como a voz
de alguém (um familiar, um amigo, uma figura pública) está intrinsecamente ligada à imagem
que você tem daquela pessoa. Como um distúrbio vocal, que altera essa “assinatura sonora”,
pode impactar não apenas a comunicação, mas a própria percepção que o indivíduo tem de
si mesmo? Como essa compreensão pode guiar sua abordagem terapêutica para ser mais
empática e centrada no paciente?
Fonte: ROY HART THEATRE. Roy Hart Theatre. Disponível em: http://www.roy-hart.
com/. Acesso em: 16 jan. 2026.
REFLITA
http://www.roy-hart.com/
http://www.roy-hart.com/
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niFatecie
Considerações Finais
28
Chegamos ao final da nossa primeira unidade,o alicerce sobre o qual
construiremos todo o nosso conhecimento sobre os distúrbios da voz.
Espero que esta imersão na normalidade tenha sido tão esclarecedora quanto
fundamental.
Nesta unidade, revisitamos e aprofundamos a anatomia e a fisiologia da
produção vocal. Agora você tem um mapa claro das estruturas e do processo
que transformam uma intenção comunicativa em som. Entender a laringe, o
trato vocal e o modelo fonte-filtro não é apenas teoria; é a base para “ler” o
que acontece no corpo do seu futuro paciente.
Exploramos também a fascinante jornada da voz através da vida,
compreendendo as mudanças naturais que ocorrem desde o nascimento até a
velhice. Esse conhecimento é crucial para que você saiba diferenciar o que é
uma característica esperada para a idade do que é um sinal de alerta para um
possível distúrbio.
Por fim, refletimos sobre o papel multifacetado da voz na comunicação
humana, reconhecendo-a como um pilar da nossa identidade e expressão. Com
esta base sólida, estamos prontos para o próximo passo: começar a identificar
e classificar o que acontece quando esse sistema tão perfeito encontra um
desequilíbrio.
O estudo das disfonias nos espera na próxima unidade!
U N I D A D E I
niFatecie
Leitura Complementar
29
A Anatomia e Fisiologia da Produção da Voz
Para quem deseja visualizar e aprofundar o conhecimento sobre as estruturas
da laringe e a fisiologia da fonação, este capítulo é um recurso excepcional.
Escrito por uma das maiores especialistas do Brasil, o texto detalha de
forma didática e com excelentes ilustrações toda a anatomia laríngea e o
ciclo vibratório das pregas vocais. É uma leitura complementar perfeita para
solidificar os conceitos vistos no primeiro e segundo tópicos desta unidade.
Fonte: PEREIRA, G. T. C. Anatomia e Fisiologia da Produção da Voz. In:
BEHLAU, M. (Org.). Voz: o livro do especialista. Vol. 1. Rio de Janeiro:
Revinter, 2001. p. 1-44.
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l Livro
Filme
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• Título: Voz: o livro do especialista
(Volumes 1 e 2).
• Autor(es): Mara Behlau (Org.).
• Editora: Revinter.
• Ano: 2001.
• Sinopse: esta é, sem dúvida, a obra de
referência mais importante sobre voz no
Brasil. Organizada pela Dr.ᵃ Mara Behlau,
reúne capítulos escritos pelos maiores
especialistas da área, cobrindo absolutamente
todos os aspectos da voz, da fisiologia à
avaliação e terapia. É uma fonte de consulta
essencial que acompanhará você durante toda
a graduação e vida profissional.
• Título: O Discurso do Rei (The King's
Speech).
• Ano: 2010.
• Sinopse: este filme premiado conta a
história real do Rei George VI, do Reino
Unido, que sofria de uma gagueira severa
e precisou superar suas dificuldades de
comunicação para liderar seu país durante
a Segunda Guerra Mundial. Embora o foco
seja a gagueira, o filme é uma aula sobre a
relação entre voz, emoção, identidade e a
importância da terapia fonoaudiológica.
Observe a profunda angústia do personagem
e como a voz (ou a falta dela) impacta sua
autoestima e sua capacidade de assumir seu
papel no mundo.
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• Canal do YouTube: “Sua Voz, Sua Vida”
(do Centro de Estudos da Voz - CEV).
• Descrição: o canal oficial do CEV, um dos
maiores centros de estudo da voz da América
Latina, é uma fonte riquíssima de informação.
Com vídeos curtos e didáticos, a Dr.ᵃ Mara
Behlau e outros especialistas abordam os mais
diversos temas, desde dicas de saúde vocal
até explicações sobre patologias e técnicas.
É um excelente recurso para complementar
seus estudos e se manter atualizado.
• Link do Canal: https://www.youtube.
com/@centrodeestudosdavoz
Vídeo
https://www.youtube.com/@centrodeestudosdavoz
https://www.youtube.com/@centrodeestudosdavoz
R
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ên
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ESTIENNE, F. A voz falada, a voz cantada: avaliação e terapia. Rio de Janeiro:
Revinter, 2004.
LYONS, Virgínia T.; NETTER, Frank H. Netter Anatomia Sistêmica Essencial
. Rio de Janeiro: GEN Guanabara Koogan, 2023. E-book. pág.230. ISBN
9788595159693. Disponível em: https://integrada.minhabiblioteca.com.br/
reader/books/9788595159693/. Acesso em: 06 nov. 2025.
PINHO, S. M. R.; PONTES, P. Músculos intrínsecos da laringe e dinâmica
vocal. Rio de Janeiro: Revinter, 2008.
ZEMLIN, W. R. Speech and hearing science: anatomy and physiology. 4. ed.
Boston: Allyn and Bacon, 1998.
0202
Aspectos
Relacionados àVoz
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specialista G
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Objetivo de
Aprendizagem
Plano de Estudo
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• Conceito de voz normal e disfonia.
• Características auditivas e acústicas vocais.
• Correlação entre Sistema Respiratório e Produção Vocal.
• Correlação entre aspectos posturais, sistema mastigatório e
produção vocal.
• Diferenciar o conceito de voz normal (adaptada) e disfonia,
compreendendo o impacto de um distúrbio vocal na vida do
indivíduo.
• Identificar e descrever as principais características perceptivo-
auditivas e acústicas da voz.
• Analisar a correlação entre a fisiologia respiratória e a eficiência
da produção vocal.
• Compreender como a postura corporal e o sistema mastigatório
influenciam diretamente a função e a saúde vocal.
U N I D A D E I I
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Introdução
35
Olá, novamente, futuro(a) fonoaudiólogo(a)!
Após termos construído nossa base sobre a anatomia e a fisiologia da voz
na Unidade 1, chegou o momento de afinar nossa percepção. Nesta segunda
unidade, vamos mergulhar nos Aspectos Relacionados à Voz, aprendendo a
diferenciar o que é uma voz saudável de uma voz que sinaliza um problema.
Este é o coração do diagnóstico fonoaudiológico em voz: a escuta treinada
e a capacidade de conectar o que se ouve com o que acontece no corpo do
paciente.
Começaremos por uma questão aparentemente simples, mas profundamente
complexa: o que é uma voz normal? E o que é uma disfonia? Veremos que a
“normalidade” é um conceito relativo e que um distúrbio vocal transcende a
laringe, gerando implicações afetivas, sociais e profissionais na vida de uma
pessoa.
Em seguida, vamos treinar nossos ouvidos e nossos olhos. Estudaremos as
características auditivas e acústicas que usamos para descrever uma voz. Você
aprenderá o vocabulário técnico para qualificar uma voz como rouca, soprosa
ou tensa, e entenderá como a análise acústica computadorizada nos ajuda a
“enxergar” essas qualidades.
Por fim, expandiremos nosso olhar para além da laringe, explorando as
correlações vitais do aparelho fonador com outros sistemas do corpo.
Investigaremos como o sistema respiratório atua como o verdadeiro motor da
voz e como os aspectos posturais e do sistema mastigatório podem ser a causa
ou a consequência de um problema vocal.
Esta unidade é um convite para você se tornar um observador e um ouvinte
mais crítico. Ao final, você entenderá que a voz é o resultado de um equilíbrio
corporal complexo e que nossa capacidade de avaliá-la depende de uma visão
holística do ser humano.
Vamos em frente!
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Tópico
Normal e Disfonia
Conceito de Voz 01
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Antes de falarmos em distúrbios, precisamos definir nosso ponto de partida. O que é uma voz
normal? Na fonoaudiologia, preferimos o termo voz adaptada ou voz saudável. Uma voz saudável não é
definida por um único padrão estético, mas sim por sua funcionalidade. Uma voz é considerada saudável
quando:
• É produzida sem esforço ou desconforto.
• Tem uma qualidade agradável, sem ruídos que atrapalhem a comunicação.
• É flexível o suficiente para expressar diferentes emoções.
• Possui intensidade e frequência adequadas à idade, ao gênero e à intenção comunicativa do
falante.
• Suporta as demandas de uso diárias sem causar fadiga.
O conceito de uma voz adaptada, portanto, é multidimensional. Behlau (2001) e outros autores
clássicos, como Hirano (1981), enfatizam que a normalidade vocal não pode ser definida por um único
parâmetro, mas sim pela capacidadeda voz de cumprir sua função comunicativa de forma eficiente e sem
gerar fadiga ou desconforto para o falante.
A disfonia, por sua vez, é qualquer dificuldade ou alteração na produção da voz que dificulte ou
impeça a comunicação. É importante ressaltar que a disfonia não é uma doença, mas um sintoma de que
algo no complexo processo de fonação não está funcionando bem. Pode se manifestar como rouquidão,
soprosidade, cansaço ao falar, falhas na voz, perda de potência, entre outros.
A disfonia raramente é apenas um problema físico; a alteração vocal pode ter impactos profundos e
multifacetados, pois a voz é um pilar da nossa identidade e, quando modificada, pode desencadear frustração,
ansiedade, baixa autoestima e até depressão. O impacto na qualidade de vida é tão significativo que foram
criados protocolos específicos para medi-lo, como o Índice de Desvantagem Vocal (IDV) (De Bodt; Van de
Heyning; Wuyts, 1999), que exploraremos no #SAIBA MAIS#.
• Implicações Afetivas: a voz é um pilar da nossa identidade. Uma alteração vocal pode levar à
frustração, ansiedade, baixa autoestima e até depressão. A pessoa pode deixar de se reconhecer
na própria voz.
• Implicações Sociais: a dificuldade de comunicação pode levar ao isolamento. O indivíduo
pode evitar conversas, atender ao telefone ou participar de eventos sociais por vergonha ou pela
dificuldade de ser compreendido.
• Implicações Profissionais: para profissionais da voz (professores, cantores, atores, advogados,
etc.), a disfonia pode ser incapacitante, impedindo-os de exercer sua profissão e gerando grande
impacto financeiro e pessoal.
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Compreender essa dimensão humana é o que diferencia o fonoaudiólogo, que trata o paciente em
sua totalidade, de um técnico que olha apenas para a laringe.
A definição de voz normal é um dos conceitos mais debatidos na Fonoaudiologia, pois carrega
um alto grau de subjetividade. O que é normal para um locutor de rádio (voz grave, projetada) pode ser
considerado patológico para uma criança. A normalidade vocal é, portanto, um conceito contextual. Ela
depende da idade, do gênero, da cultura, da profissão e da demanda comunicativa do indivíduo. Uma voz é
normal quando está adequada a esses fatores e permite ao sujeito cumprir seu papel social sem limitações.
O conceito de eufonia (bom som) se contrapõe ao de disfonia. A eufonia implica um equilíbrio entre
as forças musculares e aerodinâmicas, resultando em uma emissão fluida, estável e agradável. A eufonia não
é apenas a ausência de rouquidão; é a presença de harmonia, brilho e flexibilidade na voz. Alcançar a eufonia
é o objetivo final da reabilitação e do aperfeiçoamento vocal.
A disfonia, por outro lado, é a ruptura desse equilíbrio. Ela pode ser definida como qualquer desvio
na produção ou na qualidade da voz que chame a atenção do ouvinte, prejudique a inteligibilidade ou cause
desconforto ao falante. É importante notar que a disfonia pode ser perceptível para os outros (sinal) ou
apenas sentida pelo paciente (sintoma), como a fadiga vocal ou a dor ao falar (odinofonia).
A classificação das disfonias é complexa, mas fundamental para o diagnóstico. Elas podem ser
orgânicas (causadas por lesões na laringe, como nódulos ou câncer), funcionais (causadas pelo uso incorreto
da voz, sem lesão visível) ou orgânico-funcionais (quando o mau uso gera uma lesão secundária). Entender
essa origem é o primeiro passo para traçar um plano terapêutico eficaz.
O impacto da disfonia na qualidade de vida é mensurável. Estudos mostram que pacientes disfônicos
têm escores de qualidade de vida (em domínios físicos, sociais e emocionais) comparáveis aos de pacientes
com doenças crônicas como asma ou insuficiência cardíaca. A incapacidade de confiar na própria voz gera
insegurança, ansiedade e isolamento, afetando a saúde mental de forma significativa.
A dimensão profissional da voz é crítica na sociedade moderna. Estima-se que cerca de um terço da
força de trabalho dependa da voz como ferramenta primária (professores, vendedores, advogados, operadores
de telemarketing). Para esses profissionais, a disfonia não é apenas um problema de saúde, mas uma ameaça
econômica. A Fonoaudiologia do Trabalho atua na prevenção e na promoção da saúde vocal nesses grupos
de risco.
A voz também é um marcador de gênero e identidade. Em processos de transição de gênero, a
adequação vocal é muitas vezes o aspecto mais desejado e desafiador. Uma voz que não corresponde à
identidade de gênero do indivíduo pode ser fonte de grande sofrimento e disforia. O fonoaudiólogo trabalha
na modificação de parâmetros como frequência e ressonância para alinhar a voz à identidade do paciente.
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A disfonia na infância merece atenção especial. Muitas vezes negligenciada como “apenas
uma rouquidão de criança que grita”, a disfonia infantil pode esconder lesões congênitas ou impactar o
desenvolvimento social e escolar da criança. Uma criança rouca pode ser vista como agressiva ou “mandona”
pelos colegas e professores, sofrendo bullying ou sendo rotulada injustamente.
Na terceira idade, a disfonia (presbifonia) é frequentemente aceita como uma consequência
inevitável do envelhecimento. No entanto, a voz fraca e trêmula pode levar ao isolamento social do
idoso, que deixa de se comunicar por vergonha ou cansaço. A reabilitação vocal no idoso visa devolver a
funcionalidade comunicativa, permitindo que ele mantenha sua autonomia e participação social.
Por fim, a disfonia pode ser um sinal de alerta para doenças sistêmicas graves. Uma rouquidão
persistente pode ser o primeiro sintoma de um câncer de laringe, de uma doença neurológica (como Parkinson
ou ELA) ou de distúrbios hormonais (como hipotireoidismo). O fonoaudiólogo deve estar atento a esses
sinais e encaminhar o paciente para avaliação médica sempre que necessário, atuando como um agente de
saúde integral.
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Tópico
e Acústicas Vocais
Características Auditivas 02
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Para avaliar e descrever uma voz, o fonoaudiólogo utiliza duas abordagens complementares: a
análise perceptivo-auditiva e a análise acústica.
• Análise Perceptivo-Auditiva: é a “padrão-ouro” da avaliação vocal. Consiste no julgamento
clínico feito pelo ouvido treinado do terapeuta sobre as qualidades da voz. A avaliação perceptivo-
auditiva é uma habilidade clínica complexa. Behlau (2001) destaca que, embora subjetiva, essa
análise é a que mais se aproxima da queixa do paciente. Para padronizar essa escuta, são utilizadas
escalas como a GRBASI, proposta inicialmente por Hirano (1981), que avalia o Grau geral, a
Rouquidão, a Soprosidade, a Astenia e a Tensão da voz. Os principais parâmetros avaliados são:
◦ Qualidade Vocal: é a característica geral do som. Pode ser descrita como rouca (irregularidade
na vibração), soprosa (escape de ar), áspera (ruído de fricção), tensa (esforço excessivo),
astênica (fraca) ou instável (flutuante).
◦ Pitch (Altura): a percepção de quão grave ou aguda é a voz. Avaliamos se o pitch é adequado
ao gênero e à idade e se há modulação (melodia da fala) ou se a fala é monótona.
◦ Loudness (Intensidade): a percepção do “volume” da voz. Avaliamos se a intensidade é
adequada, excessiva ou reduzida, e a capacidade de variá-la.
• Análise Acústica: é a “tradução” das nossas percepções auditivas em medidas físicas, obtidas
por meio de softwares de análise vocal. Ela nos permite quantificar a voz e monitorar a evolução
terapêutica de forma objetiva. Os principais correlatos acústicos são:
◦ Frequência Fundamental (F0): medida em Hertz (Hz), é o correlato físico do pitch.
◦ Intensidade: Medida em decibéis (dB), é o correlato físico do loudness.
◦ Medidas de Perturbação (Jitter e Shimmer): Jitter é a variabilidade da frequência e Shimmer
é a variabilidade da amplitude de um ciclo para o outro. Níveis elevados estão correlacionados
à percepção de rouquidão e aspereza.
A medida de ruído,ou relação harmônico-ruído (HNR), quantifica a proporção de energia sonora
“limpa” (harmônicos) em relação à energia de ruído (turbulência), e valores baixos de HNR correlacionam-
se à percepção de soprosidade e rouquidão.
A análise acústica, portanto, objetiva "traduzir" essas percepções em números, permitindo
um acompanhamento mais preciso da evolução terapêutica. Colton, Casper e Leonard (2010) definem a
Frequência Fundamental (F0) como o correlato físico do pitch, enquanto as medidas de perturbação (Jitter
e Shimmer) são os correlatos da instabilidade e da presença de ruído na vibração das pregas vocais, que
ouvimos como rouquidão.
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A psicoacústica é a ciência que estuda a relação entre o estímulo sonoro físico e a sensação auditiva
que ele provoca. Na voz, essa relação não é linear. Um pequeno aumento na frequência fundamental (Hz)
pode ser percebido como uma grande mudança de altura (pitch), enquanto um grande aumento na intensidade
(dB) pode ser percebido como apenas um leve aumento de volume. O fonoaudiólogo deve entender essas
nuances para interpretar as queixas do paciente e ajustar as metas terapêuticas.
A qualidade vocal rouca é a mais comum e está relacionada à aperiodicidade da vibração das pregas
vocais. Fisiologicamente, ocorre quando as pregas vocais vibram de forma irregular, geralmente devido a
uma alteração na massa (como um nódulo) ou na tensão. Acusticamente, a rouquidão se traduz em ruído de
baixa frequência no espectrograma e em valores elevados de jitter e shimmer.
A qualidade vocal soprosa indica escape de ar não sonorizado através da glote. Isso ocorre quando
as pregas vocais não se fecham completamente (fenda glótica). O ar que passa sem vibrar gera um ruído de
turbulência (como um sussurro) que se mistura ao som da voz.
Figura 1: Medidas de Perturbação de Jitter e Shimmer no Sinal de Fala (Fonte: Teixeira; Gonçalves
(2014))
S
h
im
m
e
r
Jitter
U N I D A D E I I 43
A soprosidade é comum em paralisias laríngeas, presbifonia e em lesões que impedem o
fechamento, como pólipos. Acusticamente, vemos ruído nas altas frequências e redução da relação
harmônico-ruído.
A qualidade vocal áspera é percebida como uma voz “rascada” ou “grossa”, desagradável ao ouvido.
Ela está associada a uma rigidez excessiva das pregas vocais ou a uma vibração irregular muito intensa. É
comum em quadros de tensão muscular severa ou em lesões rígidas da mucosa. A aspereza é frequentemente
confundida com a rouquidão, mas possui um componente de tensão e esforço mais marcante.
A qualidade vocal tensa (ou estrangulada) reflete um excesso de força muscular na laringe. O
paciente parece fazer força para a voz sair. Fisiologicamente, há uma hiperadução (fechamento excessivo)
das pregas vocais e, muitas vezes, constrição das estruturas supraglóticas. A voz soa comprimida, aguda e
com pouca projeção. É o padrão típico da Disfonia por Tensão Muscular.
A qualidade vocal astênica (fraca) é o oposto da tensa. A voz soa “sem energia”, “fina” e cansada.
Reflete uma hipofunção laríngea, ou seja, falta de força no fechamento glótico e no suporte respiratório. É
comum em doenças neurológicas (como Miastenia Gravis) e na presbifonia. O paciente relata grande fadiga
ao falar e dificuldade em ser ouvido em ambientes ruidosos.
A ressonância é outro parâmetro auditivo crucial. Uma voz pode ser hipernasal (som saindo muito
pelo nariz), hiponasal (som de “nariz entupido”) ou laringofaríngea (som “preso na garganta”). A ressonância
afeta o brilho e a projeção da voz. O fonoaudiólogo avalia se o foco de ressonância está equilibrado (máscara
facial) ou desviado, o que orienta o trabalho de impostação vocal.
A instabilidade vocal refere-se à incapacidade de manter a frequência e a intensidade constantes.
A voz “treme”, “falha” ou oscila. Pode ser causada por problemas neurológicos (tremor essencial), falta de
controle respiratório ou fadiga muscular. Na análise acústica, observa-se uma flutuação visível na linha de
frequência fundamental e valores de jitter muito elevados.
A análise acústica espectrográfica permite visualizar a “assinatura” da voz. O espectrograma mostra
a energia da voz distribuída no tempo e na frequência. Formantes bem definidos e harmônicos claros indicam
uma voz saudável e rica. Manchas escuras de ruído entre os harmônicos ou a ausência de formantes superiores
indicam disfonia. O espectrograma é uma ferramenta poderosa para biofeedback visual na terapia.
Por fim, a avaliação perceptivo-auditiva deve ser treinada e calibrada constantemente. O uso
de protocolos padronizados como a escala GRBASI ou a escala CAPE-V é essencial para garantir que a
descrição da voz seja compreendida por outros profissionais e para permitir a comparação de resultados antes
e depois do tratamento. A subjetividade do ouvido humano é, ao mesmo tempo, o maior desafio e a maior
ferramenta do fonoaudiólogo.
U N I D A D E I I
Tópico
e Produção Vocal
Correlação entre Sistema
03
U N I D A D E I I 45
Como vimos na Unidade I, a respiração é o motor da voz. Uma produção vocal eficiente e saudável
depende inteiramente de um suporte respiratório adequado.
• Anatomofisiologia Respiratória: o principal músculo da inspiração é o diafragma. Ao se
contrair, ele desce, aumentando o volume da caixa torácica e permitindo que os pulmões se
encham de ar. A expiração para a fala e o canto é um processo ativo e controlado. A musculatura
abdominal e os músculos intercostais atuam de forma coordenada para controlar a subida do
diafragma, garantindo um fluxo de ar constante e com a pressão adequada para a fonação (a
pressão subglótica).
• Tipos Respiratórios e Impacto na Voz:
◦ Tipo Clavicular ou Superior: é um padrão inadequado, no qual a respiração é curta e
concentrada na parte superior do tórax, com elevação dos ombros e do pescoço. Gera tensão
na musculatura cervical, sobrecarrega a laringe e oferece um suporte aéreo pobre e instável.
Esse padrão é frequentemente observado em pacientes com disfonias por tensão muscular, pois
a tensão gerada na musculatura cervical (extrínseca da laringe) “prende” o aparelho fonador,
obrigando-o a trabalhar em hiperfunção (Behlau, 2001).
◦ Tipo Costo-diafragmático-abdominal: é o padrão ideal para a fonação. A inspiração é
Figura 2: Diafragma Respiratório (Fonte: Lyons; Netter (2023))
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profunda, com a expansão da base das costelas e do abdômen, e a expiração é controlada pela
ação da musculatura abdominal. Esse padrão oferece um suporte aéreo eficiente, estável e livre
de tensões extrínsecas na laringe.
Este padrão ideal oferece o que Colton, Casper e Leonard (2010) chamam de “suporte respiratório”
(ou apoio), que é a base para o controle da pressão subglótica. Sem esse controle, é impossível sustentar a
fonação de forma eficiente, especialmente em alta demanda, como no canto. Para um cantor, dominar o apoio
respiratório é a base de toda a técnica. É o que permite sustentar notas longas, variar a intensidade (cantar
piano e forte) e manter a estabilidade da afinação, tudo isso sem sobrecarregar a fonte glótica.
A capacidade vital é o volume máximo de ar que uma pessoa consegue expirar após uma inspiração
máxima. Embora não precisemos usar toda a capacidade vital para falar (usamos cerca de 10-20% na fala
habitual), uma redução significativa dessa capacidade (por doenças pulmonares como DPOC ou asma) limita
o “combustível” disponível para a voz. O paciente é obrigado a fazer recargas frequentes, o que quebra a
fluência e o ritmo da fala.
O fluxo aéreo fonatório é a quantidade de ar que passa pela glote durante a fonação. Se o fluxo for
excessivo (como na voz soprosa), o ar acaba rápido e a voz perde potência. Se o fluxo for escasso (como na
voz tensa), a laringe sofre com a pressão excessiva. O fonoaudiólogo busca o fluxo ideal: aquele que produz
o máximo de som com o mínimo de gasto de ar e esforço muscular, o conceitode eficiência glótica.
A pressão subglótica é a força aerodinâmica que separa as pregas vocais e inicia a vibração. O
controle dessa pressão é a chave para a intensidade vocal. Para falar mais alto, precisamos aumentar a
pressão subglótica. Se esse aumento for feito apenas “apertando” a garganta, ocorre o fonotrauma. O treino
de apoio respiratório ensina o paciente a aumentar a pressão usando os músculos abdominais, poupando a
laringe da sobrecarga.
A coordenação pneumofonoarticulatória (CPFA) é a habilidade de sincronizar a respiração com
a fonação e a articulação. Uma má coordenação leva à fala em ar residual (falar até acabar todo o ar), o
que é extremamente prejudicial. Ao final da expiração, o volume pulmonar diminui e a pressão passiva de
recolhimento dos pulmões cessa; para continuar falando, o sujeito precisa usar a musculatura acessória do
pescoço, gerando tensão vocal.
O tipo respiratório influencia a postura laríngea. A respiração clavicular (alta) ativa músculos
do pescoço (esternocleidomastoideo, escalenos) que têm conexões com a laringe. Essa ativação eleva a
laringe e enrijece o pescoço, dificultando a vibração livre das pregas vocais. Corrigir o tipo respiratório para
diafragmático-abdominal ajuda a “abaixar” a tensão e a laringe, facilitando a emissão.
U N I D A D E I I 47
A fonação inspiratória é um fenômeno anormal que pode ocorrer na fala, especialmente em gagueira
ou em quadros de tensão extrema. O paciente tenta falar enquanto o ar entra, o que é fisiologicamente
ineficiente e lesivo. A reeducação respiratória foca em restabelecer o padrão fisiológico básico: inspirar
(silêncio) -> expirar (fala).
Em profissionais da voz, como cantores e atores, a demanda respiratória é muito superior. Eles
precisam sustentar notas longas, realizar frases musicais complexas e projetar a voz em grandes teatros. O
treino respiratório para esse grupo é atlético, visando aumentar a capacidade, a resistência e o controle fino
da pressão (apoio) em diferentes volumes e alturas.
A fadiga respiratória afeta diretamente a voz. Quando os músculos respiratórios cansam, o suporte
aéreo falha. Para compensar a falta de pressão de ar, o falante instintivamente aumenta a tensão na laringe
(hiperfunção compensatória). Por isso, tratar a voz envolve também condicionar a musculatura respiratória
para que ela aguente a jornada de trabalho do paciente sem falhar.
A relação entre emoção e respiração é direta. Ansiedade, medo e estresse alteram o padrão
respiratório, tornando-o curto, rápido e alto (torácico). Esse padrão ansiogênico “trava” o diafragma e
aumenta a tensão cervical. Técnicas de respiração profunda e lenta são usadas na terapia vocal não apenas
para suporte, mas para regulação emocional e redução da ansiedade de performance.
Por fim, a avaliação respiratória deve ser funcional. Não basta medir quanto ar o paciente tem
(espirometria); é preciso ver como ele usa esse ar durante a fala. O fonoaudiólogo observa a fluência, as
pausas, o reabastecimento de ar e a presença de ruídos inspiratórios na conversa espontânea para diagnosticar
a incoordenação pneumofônica.
U N I D A D E I I
Tópico
Sistema Mastigatório e Produção Vocal
Correlação entre Aspectos Posturais,
04
U N I D A D E I I 49
A voz não é produzida no vácuo; ela é produzida por um corpo. A postura corporal e as tensões em
músculos aparentemente distantes podem ter um impacto direto e significativo na produção vocal. Pereira,
Armoni e Ferrari (2000) investigam profundamente a relação “Voz e Corpo”, demonstrando que a voz é um
ato motor global. Qualquer desequilíbrio postural, como uma escoliose ou uma báscula pélvica, pode criar
tensões compensatórias que ascendem pela cadeia muscular e afetam a liberdade da laringe.
• Correlação com a Postura: o corpo é a “caixa de ressonância” do instrumento vocal. Uma boa
postura, com a coluna alinhada e os ombros relaxados, permite que a respiração seja livre e que
a laringe se mova sem restrições. Padrões posturais inadequados, como a projeção anterior da
cabeça (cabeça para frente), são extremamente prejudiciais. Esse desalinhamento gera uma tensão
crônica na musculatura do pescoço (extrínseca da laringe), “prendendo” a laringe e forçando-a a
trabalhar em um estado de hiperfunção. Muitas vezes, a terapia vocal para uma voz tensa começa
com a correção da postura.
• Correlação com o Sistema Mastigatório: existe uma forte conexão anatômica e funcional
entre os músculos da mastigação e a musculatura que sustenta a laringe. Tensões no sistema
mastigatório, como as que ocorrem no bruxismo (ranger de dentes) ou em disfunções da
Articulação Temporomandibular (ATM), podem se irradiar para a região do pescoço e da laringe.
A tensão na ATM é particularmente crítica. O relaxamento da mandíbula é um passo fundamental
na busca por uma ressonância livre e eficiente, tanto na fala quanto no canto, pois uma mandíbula
“travada” impede a amplificação sonora adequada na cavidade oral (Behlau, 2001).
A cadeia muscular do corpo humano é interligada. Uma alteração na pisada ou na posição da pelve
pode gerar compensações que sobem pela coluna e chegam ao pescoço e à laringe. A voz não sai apenas da
garganta; ela é sustentada por todo o esqueleto axial. Uma avaliação vocal completa inclui a observação da
postura global do paciente, desde os pés até a cabeça.
A anteriorização da cabeça é um dos desvios posturais mais nocivos para a voz. Ao projetar a cabeça
para frente, a musculatura anterior do pescoço é estirada e tensionada, elevando o osso hioide e a laringe.
Isso reduz o espaço faríngeo (caixa de ressonância) e dificulta a vibração das pregas vocais. Além disso,
comprime a região cervical posterior, podendo causar dores de cabeça tensionais e fadiga vocal.
A cifose torácica (coluna curvada para frente, “corcunda”) comprime a caixa torácica e limita a
expansão pulmonar. Isso reduz a capacidade respiratória e o suporte para a voz. O paciente com cifose tende
a ter uma voz mais fraca e com menor projeção, além de compensar a postura elevando o queixo, o que
tensiona ainda mais a laringe.
A tensão na cintura escapular (ombros elevados e rígidos) é um reflexo comum de estresse e
ansiedade. Essa tensão se irradia para o pescoço através do músculo trapézio. Ombros tensos funcionam
como uma “canga” que impede a laringe de se mover livremente. O relaxamento dos ombros é muitas vezes
o primeiro passo para soltar uma voz presa.
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A Articulação Temporomandibular (ATM) é vizinha da laringe. Músculos que abrem e fecham a
boca (como os pterigoideos e o masseter) têm íntima relação com os músculos que sustentam a laringe
(supra-hióideos). A Disfunção Temporomandibular (DTM), caracterizada por dor, estalos e travamento da
mandíbula, gera uma tensão reflexa na laringe. Pacientes com DTM frequentemente apresentam disfonia por
tensão muscular associada.
O bruxismo (apertar ou ranger dentes), seja no sono ou na vigília, mantém os músculos mastigatórios
em estado de contração excessiva e contínua. Essa hipertonia crônica “congela” a mandíbula e o assoalho da
boca, reduzindo a ressonância e a articulação. A voz torna-se abafada e a fala, “trancada” entre os dentes. O
tratamento conjunto com odontologia é essencial nesses casos.
A língua é um órgão muscular massivo que ocupa grande parte do trato vocal. Sua base está conectada
ao osso hioide, que por sua vez suspende a laringe. Se a língua estiver tensa ou retraída (posteriorizada),
ela empurra a epiglote e a laringe para baixo, comprimindo o espaço de ressonância. O relaxamento e o
posicionamento anterior da língua são fundamentais para uma voz brilhante e projetada.
A abertura de boca é o principal regulador da impedância (resistência) de saída do som. Falar
com a boca muito fechada aumenta a resistência e obriga a laringe a trabalhar mais. Além disso, absorve
os harmônicos agudos, deixando a voz abafada e pouco inteligível.