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Ricardo GuastiNi DIA 18/08/26 XV DOIS MODELOS DE ANÁLISE DA SENTENÇA 1. ANÁLISE NORMATIVA E ANÁLISE PRAGMÁTICA Na literatura contemporânea seja dogmática, seja teóri- ca geral encontram-se dois modos, estilos ou modelos de aná- lise das decisões judiciais, isto é, dois modos de abordar e discutir as sentenças 230 Convencionalmente, podemos chamar primeiro modelo de deontológico ou normativo, e 0 segundo de ou pragmático 231 230 A mesma dicotomia pode instituir-se entre modos de análise da doutrina. 231 As razões desta proposta terminológica ficarão logo claras. A dicotomia ado- tada no texto refere-se a uma notória classificação das doutrinas morais: di- zem-se comumente deontológicas as doutrinas que fazem depender 0 caráter moral (justo ou injusto) de uma ação da sua conformidade com uma norma ou com um princípio; dizem-se as doutrinas que fazem depender caráter moral de uma ação da soma de suas conseqüências. Cf. R. T. Garner/B. Rosen, Moral Philosophy. A Systematic Introduction to Normative Ethics and Meta-ethics (Filosofia moral. Uma Introdução siste- mática à ética e meta-ética normativas), Macmillan, Nova York, 1967; J. Wróblewski, Justification through Principles and Justification through Consequences (Justificação mediante princípios e justificação mediante con- seqüências), em C. Faralli/E. Pattaro (eds.), Reason in Law (Razão no direi- to), I, Giuffré, Milão, 1987. 237(1) modo normativo deontológico de analisar uma sen- tença largamente dominante na literatura está simplesmen- to nisto: parte decisão remonta aos argumentos adotados justificar till decisão, isto parte do dispositivo para re- montar A abordagem normativa da jurisprudência visa a estabele- cor de que mancira a decisão é fundada e, em particular, se é ou não é fundada numa norma e, em caso afirmativo, em qual nor- ma é fundada. Geralmente (mas não necessariamente) quem adota esse estilo de análise não faz em vista de um cadastramento impar- cial das técnicas argumentativas de fato empregadas pelos juízes, mas o faz em vista de avaliar se toda decisão é ou não é "justificada" no sentido forte e valorativo da palavra, isto é, se a decisão é bem fundada (2) modo pragmático ou conseqüencialista de analisar uma sentença consiste no seguinte: tomam-se motivos da de- cisão não para remontar à sua fundação normativa, mas antes para desenvolver-lhes as (políticas, sociais, eco- resultados 232 Pode-se dizer que uma decisão é justificada em três sentidos diferentes de 'justificar'. Num primeiro sentido, fraco e descritivo, uma decisão é justificada se em favor dela foram aduzidas razões; num segundo sentido, forte e descri- tivo, uma decisão é justificada se a seu favor foram aduzidas razões que, de fato, convenceram, ou previsivelmente convencerão um auditório; num ter- ceiro sentido, forte e valorativo, uma decisão é justificada se a seu favor fo- ram aduzidas razões que próprio falante considera boas ou convincentes. Cf. R. Guastini, Produzione di norme a mezzo di norme. Um contributo all'analisi del ragionamento giuridico (Produção de normas por meio de normas. Uma contribuição à análise do raciocínio jurídico), em L. Gianformaggio/E. Lecaldano (eds.), Etica e diritto. Le vie della giustificazione razionale (Ética e direito. As vias da justificação racional), Laterza, Bari, 1986. 238us normas Mais precisamente, parte-se da decisão para (a) de lado, quais OS efeitos que ela, tomada singularmente, pro- duziu ou está para produzir; por outro lado, quais efeitos que ela pode eventualmente produzir toda vez que for repetida e generalizada. Em suma, a abor dagem pragmática da jurisprudência visa a descobrir (nem tanto se)e (de que modo)uma decisão é normativamente justificada, mas antes à qual interesse ou clas- se de interesses haja, de fato, oferecido tutela judiciária (eventu- almente de modo insciente). É evidente, creio, que as duas abordagens não são recipro- camente excludentes. Pelo contrário, podem muito bem convi- ver e unir-se numa análise meta-jurisprudencial que podemos dizer que é integrada. Entretanto, é fato que aquele que se incli- na a adotar primeiro modelo geralmente não mostra interesse pelo segundo, e vice-versa, com poucas 2. ANÁLISE NORMATIVA E FORMALISMO 21/08/26 Há, historicamente, uma estreita conexão (embora não seja lógica e, portanto, tampouco necessária) entre análise normativa da jurisprudência e formalismo jurídico, num dos sentidos des- 233 A exceção mais significativa pode ser encontrada na obra de Giovanni Tarello, por exemplo, em Tecniche interpretative e referendum popolare (Técnicas interpretativas e referendum popular) (1978), agora em G. Tarello, Cultura giuridica e politica del diritto (Cultura jurídica e política do direito), Il Mulino, Bolonha, 1988. Na verdade, Tarello foi um mestre quer da análise normativa (cf. sobretudo L'interpretazione della legge [A interpretação da lei], Giuffré, Milão, 1980, em especial cap. VIII, acerca da argumentação da interpretação), quer da análise pragmática (cf., por exemplo, Teorie e ideologie nel diritto sindicale. L'esperienza italiana dopo la Costituzione [Teorias e ideologías no direito sin- dical. A experiência italiana após a Constituição], Comunità, Milão, ed., 1972, que é um ensaio de análise conseqüencialista de teses doutrinárias). 239Riccardo Guastini ta expressão. Entendo aqui por 'formalismo jurídico' (não tanto a louvável inclinação para a interpretação literal, mas) modo de pensar segundo qual: (1) Os documentos legislativos (e em geral as fontes do di- reito) incorporam um significado normativo unívoco, pré-cons- tituído às atividades de conceituação, sistematização, interpretação e aplicação dos juristas e dos juízes (de sorte que, entre outras coisas, não há sentido em distinguir entre enuncia- do normativo e norma). (2) a interpretação é conhecimento, não produção de normas. discurso dos intérpretes é um discurso científico que pode ser julgado verdadeiro ou falso. 3 Fazer direito é coisa distinta de aplicá-lo A criação de direito é atividade dotada de um conteúdo altamente discricio- nário (político). A aplicação do direito, ao contrário, é uma ativi- dade técnica que não comporta valorações e decisões (4) A atividade judiciária vale-se de normas pré-constituí- das (depositadas em disposições legislativas, ou em precedentes jurisprudenciais, aqui pouco importa), como tais suscetíveis de conhecimento e conseqüente aplicação. (5) Contudo, pode-se distinguir entre aplicação fiel e desaplicação de normas da parte dos juízes, OS quais podem, se quiserem, limitar-se a aplicar fielmente normas pré-cons- tituídas. Freqüentemente, (o é acompanhado da crença de que OS juízes, de fato, limitam-se propriamente a fazer isto: aplicar fielmente normas pré-constituídas, se não sempre, ao menos na maioria dos casos. É freqüente, além disso, formalismo fazer sua a preferência ideológica ilusória, mas inteiramente respeitável de que juízes devem fazer exata- mente isso e nada mais do que isto: aplicar fielmente normas que já encontram feitas e prontas, e acabadas por obra do legis- 240Das fontes às normas lador (ou eventualmente por obra de outros juízes autoriza- Não deverá passar despercebido que esse modo de pensar (exposto por mim um tanto grosso modo) serve de fundamento não só a uma doutrina de interpretação e da aplicação, mas tam- bém a importantes institutos vigentes, tais como: a divisão dos poderes, controle de cassação sobre a aplicação "falsa" ou "ine- xata" da lei, os controles de legitimidade em geral (sem excluir o de legitimidade constitucional). Em geral, modelo normativo tende a resolver-se na re- construção lógica do raciocínio realizado de uma maneira ou outra, exibido) pelo Quando, entretanto, como acontece freqüentemente, une- se a uma doutrina formalista da aplicação, a análise normativa da jurisprudência parte do assunto que os juízes realizam os silogismos decisórios, ou que, seja como for, raciocínio de todo juiz, mesmo quando não mostra superficialmente um andamen- to silogístico, possa, não obstante isso, ser reduzido a um silogismo ou a uma cadeia de 234 Cf. H. L. A Hart, American Jurisprudence through English Eyes: The Nightmare and the Noble Dream (A filosofia do direito americana mediante olhos ingleses: pesadelo e nobre sonho (1977), em Essays in Jurisprudence and Philosophy (Ensaios de filosofia do direito e filosofia), Clarendon, Oxford, 1983, em especial 132 e segs. 235 Cf., por exemplo, J. Wróblewski, Meaning and Truth in Judicial Decision (Sig- nificado e verdade na decisão judicial), Juridica Helsinki, 2a. ed., 1983. 236 Cf., por exemplo, N. MacCormick, Legal Reasoning and Legal Theory (Raci- jurídico e teoria jurídica), Clarendon, Oxford, raciocínio CO consistiria num silogismo no qual a premissa maior é uma norma geral (exemplo: "Todos os donos de devem pagar um certo premissa a verificação de um particular concreto (exemplo: "Fu- lano é dono de um a conclusão. preceito individual (ex.: "Fulano deve pagar esse dado imposto"). 241Riccardo Guastini Em torno desse assunto, 11 análise normativa da sentença é dirigida, principalmente, identificar a norma as normas às quais supõe il decisão tenha dado aplicação, isto é, as pre- missas normativas do chamado silogismo judicial. 3. Usos DA NORMATIVA A quais usos presta-se () modelo de análise normativo ou deontológico nessa sua variante formalista? Um primeiro uso, óbvio, da análise normativa é presentação dogmática do direito como um sistema de "nor- mas válidas", suscetíveis de conhecimento e de conseqüente aplicação. A fim de esclarecer no que consiste isso que chamei de representação dogmática das normas válidas, seria necessá- ria uma análise lógica complexa do discurso dos juristas. De qualquer maneira, O ponto central é este: tem caráter dogmático a descrição do direito feita mediante enunciados normativos (ou, em termos técnicos, mediante enunciados deônticos), isto é, mediante enunciados formulados em ter- mos de 'dever' e 'poder': enunciados que fazem ecoar (ou rei- teram) O discurso prescritivo do legislador; enunciados, em suma, que não descrevem fatos, e prima facie não descrevem tampouco normas, mas antes exprimem normas, ou seja, di- zem O que este ou aquele sujeito (as partes, juiz) pode, deve, ou não deve fazer. 2 Um segundo uso, igualmente óbvio, da análise normativa é aquele que comumente se chama de argumentação em direito com a finalidade de persuadir um juiz. A argumentação em di- reito é tipicamente aquele tipo de argumentação que consiste em recorrer a normas, não, por exemplo, normas com fim de parecerem desejáveis ao juiz ou que, seja como for, juiz as de- 242Das fontes às normas vesse visar, mas normas que SC supõem preexistentes, e que juiz deveria fielmente persuasiva de uma argumentação assim constituí- depende, obviamente, do estado da cultura jurídica num dado numa dada dificuldade: em particular, depende dos com- portamentos difundidos no seio da classe judicial. A argumentação a partir das normas (seria melhor dizer: não das normas, mas da formulação das normas) tem alguma probabilidade de sucesso diante de juízes que tornaram própria a ideologia da fidelidade à lei (e/ou ao precedente autorizado), ao passo que há escassa probabilidade de sucesso diante de uma classe judicial orientada a visar, seja como for, determinadas policies próprias (não necessariamente coincidentes ou congruentes com aquelas visadas pelas mutáveis maiorias polí- ticas que se revezam no seio dos órgãos legislativos). (3)Um uso ao qual, pelo contrário, esse tipo de análise não se presta é preditivo, quer dizer, uma análise não serve para prever quais decisões juízes adotarão em ocasiões futuras; serve, no entanto, para prever de qual modo OS juízes argumentarão no futuro. Por exemplo, diante de uma classe judicial devota do pre- cedente da Cassação, pode-se prever que nas sentenças dos juízes de mérito se encontrarão reverências formais aos precedentes de Cassação nos seus pronunciamentos (eventualmente reitera- ções das máximas). Mas O que se consegue prever por este cami- nho é exatamente modo no qual as decisões futuras serão argumentadas e não, ao contrário, qual conteúdo que concre- tamente terão. 237 Cf. G. Tarello, Il realismo giuridico americano (O realismo jurídico norte- americano), Giuffré, Milão, 1962, caps. III, IV e V, em especial pp. 158-159 e 241-242. 243Riccardo Guastini 4. RESULTADOS DA ANÁLISE NORMATIVA Entretanto, como afirmei, 11 conexão entre modelo normativo de análise do jurisprudência a doutrina formalista da aplicação é apenas contingente, não necessária. A própria análise normativa mostron como possível " distinguir entre diversos níveis de argumentação: particular entre justificação interna justificação externa da decisão judi- Diz-sc () conjunto das premissas (normativas e factuais) que estão imediatamente ligadas is deci- são: diz-se justificação externa' () conjunto dos outros argumen- tos aduzidos a favor da escolha das mesmas premissas. Em outras palavras, constituem justificação interna da decisão: (a) a nor- ma ou as normas a que se dá aplicação; (b) a qualificação do caso particular sobre qual há controvérsia. Constituem, em contrapartida, justificação externa, ou meta-justificação, da de- cisão: (c) OS argumentos invocados para justificar a escolha da- quelas normas e não outras a que dar aplicação; (d) os argumentos aduzidos para justificar aquela e não uma outra possível qualificação do caso particular. Ora, a análise deontológica unida ao formalismo jurídico pre- fere, como se disse, a justificação interna da decisão e está interes- sada, em particular, em identificar as suas premissas normativas. Ao contrário, a análise deontológica desligada de preconceitos formalistas está mais interessada na justificação externa. A variante não formalista do modelo normativo tem ofere- cido nos últimos anos algumas das mais importantes contribui- ções para a análise do raciocínio judicial. Por exemplo: 238 Cf., por exemplo, J. Wróblewski, Il sillogismo giuridico e la razionalità della decisione giudiziale (O silogismo jurídico e a racionalidade da decisão judicial), (1974), trad. it. em P. Comanducci/R. Guastini (eds.), L'analisi del ragionamento giudiziale. Materiali ad uso degli studenti (A análise do raciocínio judicial. para uso dos estudantes), vol. I, Giappichelli, Turim, 1987. 244Das fontes às normas (1) Foram cadastradas e analisadas as técnicas de argumen- tação persuasiva efetivamente adotadas na cultura jurídica eu- continental, para justificar uma decisão interpretativa (do tipo: "Tal disposição exprime a norma A e não, ao contrário, a norma B", ou "Tal caso particular cai no campo de aplicação da disposição A, e não da disposição (2)É teorizada a distinção e problematizada a relação entre formulações normativas (contidas em fontes ou em prece- dentes jurisprudenciais) e significados extraídos das formula- ções por via de interpretação. (3)É traçada (embora com uma certa aproximação) uma li- nha de demarçação entre interpretação das fontes e integração do direito (conceitualmente, uma coisa é atribuir significado a um texto, por exemplo, legislativo; outra é formular normas novas não reconduzíveis a um texto preexistente como seu significado). 5. PRESSUPOSTOS DA ANÁLISE PRAGMÁTICA Os pressupostos e OS fundamentos do modelo pragmático ou de análise da jurisprudência resolvem-se, na maioria, em outras tantas críticas da abordagem normativa, especialmente na sua variante Eis aqui na seqüên- 239 É exemplar, a este respeito, trabalho realizado por Tarello em torno das técni- cas de argumentação das decisões interpretativas: cf. G. Tarello, Diritto, enunciati, usi. Studi di teoria e metateoria del diritto (Direito, enunciados, usos. Estudos de teoria e metateoria do direito), Il Mulino, Bolonha, 1974, em especial parte IV; Tarello, L'interpretazione della legge (A interpretação da lei), cit. Con- sulte-se, ademais, G. Lazzaro, Argomenti dei giudici (Argumentos dos juízes), extraído dos trabalhos da pesquisa sobre "Argumentação jurídica" patrocinada por C.N.R., Turim, 1970; M. Taruffo, La motivazione della sentenza civile (A motivação da sentença civil), CEDAM, Padua, 1975; C. Perelman, Logica giuridica, nuova retórica (1976), trad. it. Giuffré, Milão, 1979. 240 A análise pragmática da jurisprudência foi sempre predicada e praticada pela ala "instrumentalista" da cultura jurídica norte-americana, isto é, 245Riccardo Guastini cia algumas das teses que sustêm a abordagem pragmática da jurisprudência: (1)Em primeiro lugar, não é, de modo algum, dito que, na realidade, os na verdade procedem como OS formalistas principalmente pelos realistas (e hoje pelos cultores do law and economics, como também se diz, da economic analysis of law). Cf. G. Tarello, Il rea- lismo giuridico americano (O realismo jurídico norte-americano), R. S. Summers, Instrumentalism and American Legal Theory (Instrumentalismo e teoria jurídica norte-americana), Cornell U.P., Ithaca-Londres, 1982. Acres- cente-se R. Bowles, Diritto e economia (Direito e economia) (1982), trad. it. Il Mulino, Bolonha, 1985; A. M. Polinsky, Uma introduzione all'analisi economica del diritto (Uma introdução à análise econômica do direito) (1983), trad. it. Zanichelli, Bolonha, 1986; P. Trimarchi, L'analisi economica del diritto: tendenze e prospettive (A análise econômica do direito: tendências e perspectivas), em F. Gentile (ed.), Interpretazione e decisione Diritto ed economia (Interpretação e decisão Direito e economia), Sociedade italiana de filosofia do direito política, Atos do 160. Congresso Nacional, Giuffré, Mi- lão, 1989; P. Chiassoni, L'analisi economica del diritto negli Stati Uniti d'America. Studio di metagiurisprudenza analitica (A análise econômica do direito nos Estados Unidos da América. Estudo de metajurisprudência analíti- ca), doutorado de pesquisa em filosofia analítica e teoria geral do direito, tese, Milão, 1990; Id., American Law and Economics: Implementing Constructive Realism (Direito e economia Implementando o realismo construtivo), em "Annali Giurisprudenza Genova", 23, 1989-90; Id., L'analisi economica del diritto negli Stati Uniti d'America. Studio di metagiurisprudenza analitica, doutorado de pesquisa em filosofia analítica e teoria geral do direito, tese, Milão, 1990; Id., Analisi economica del diritto, formularismo, realismo (Análise econômica do direito, formularismo, realis- mo), em P. Comanducci/R. Guastini (eds.), Analisi e diritto 1990; Ricerche di giurisprudenza analitica 1990 (Análise e direito 1990: Pesquisas de jurispru- dência analítica), Giappichelli, Turim, 1990; Id., Origini e diffusione dell'analisi economica del diritto negli Stati Uniti: le indagini "positive" di Richard Posner (Origens e difusão da análise econômica do direito nos Estados Unidos: as indagações "positivas" de Richard Posner), em P. Comanducci/R. Guastini (eds.), Analisi e diritto 1991. Ricerche di giurisprudenza analitica (Análise e direito 1991. Pesquisas de jurisprudência analítica), Giappichelli, Turim, 1991; Id., Law and Economics (Direito e economia). L'analisi economica del diritto negli Stati Uniti (A análise econômica do direito nos Estados Unidos), Giappichelli, Turim, 1992 (no prelo). 246Das fontes às normas desejariam, ou seja, primeiro individualizando uma norma apli- cável caso particular e, depois, deduzindo deste a decisão. É provável, contrário, que ao menos em muitas cir- eunstâncias juízes procedam de modo (por assim dizer) in- verso: primeiro decidem a solução da controvérsia (representando-se de mais ou menos exaustiva as con- práticas de sua decisão) e, depois, dela excogitam a justificação normativa recorrendo a uma fonte ou a um prece- dente escolhidos ad hoc. Nota-se que desse ponto de vista a premissa menor do as- sim chamado silogismo judicial ou seja, a qualificação do caso particular é antecedente e possui, de uma maneira ou outra, uma preeminência com respeito à fundação Ora, a questão de que modo OS juízes raciocinam na realida- de a partir de normas, ou a partir de fins, considerando ou desconsiderando as conseqüências previsíveis das decisões é cer- tamente uma questão psicológica, mas não é por isso que é neces- sária a introspecção ou a psicanálise para respondê-la. Pode-se responder experimentalmente a essa questão, observando por quais tipos de argumentações (deontológicas ou teleológicas, formalistas ou utilitaristas) de fato os juízes se deixam persuadir. (2)Em segundo lugar, qualquer coisa que OS juízes digam que fazem ou creiam fazer, toda formulação normativa não importa se contida numa fonte ou num precedente pronuncia- mento judicial presta-se fatalmente a uma multiplicidade de interpretações diversas e (por isso) a uma variedade de aplica- ções conflitantes. Neste sentido jamais ocorrem normas pré-constituídas à atividade de interpretação e de aplicação. que é pré-constituí- 241 G. Tarello, Il realismo giuridico americano (O realismo jurídico norte-ameri- cano), cit., pp. 189 e segs. 247Riccardo Guastini do às decisões judiciais são (somente) expressões lingüísticas mais ou menos elásticas (isto é, semanticamente indeterminadas), de sorte que a fidelidade (a reverência) a uma formulação normativa preexistente (seja fonte ou precedente) pode esconder e, com freqüência, de fato esconde - decisões substancialmente diferentes: diferentes no que diz respeito ao seu "conteúdo", ou seja não metaforicamente no que toca aos seus resultados práticos (políticos, sociais, econômicos). Entre outras coisas, no que diz respeito particularmente aos precedentes jurisprudenciais, de uma e única decisão de uma controvérsia notoriamente determinada podem ser extraídas não apenas uma única norma ou máxima que funcione a partir do precedente, mas uma pluralidade de normas ou máximas, todas igualmente utilizáveis para fundamentar normativamente outras E, reciprocamente, dada a formulação normativa de um pre- cedente (dada uma máxima ou alguma coisa do gênero), ela pode ser usada como argumento a favor de decisões distintas e mes- mo contrárias (quanto aos resultados práticos) à decisão da qual se originou 0 precedente. Também sob esse aspecto, que é significativo em motiva- ção é antes a qualificação do caso particular e não a formulação normativa aduzida como fundamento da decisão. (3)Em terceiro lugar, é fútil prever de qual modo os juízes argumentarão as suas decisões sem, entretanto, estar em condi- ções de prever-lhe 0 conteúdo. A dissociação entre argumentos normativos aduzidos e conteúdo concreto parece inevitável caso se admita que uma mesma formulação normativa seja suscetível de uma pluralidade de interpretações e aplicações mesmo conflitantes entre si. 242 G. Tarello, Il realismo giuridico americano, cit., pp. 162 e segs. 248Das fontes às normas (4)A essas três suposições, próprias da análise pragmática, às vezes soma-se uma quarta. Esta quarta suposição é uma pre- ideológica política de sententia ferenda): é prefe- rivel que OS juízes decidam em vista dos resultados das suas decisões, de preferência a deduzir cegamente as decisões das for- mulações normativas que já encontram feitas (feitas pelo legis- lador ou por outros juízes). É "cega" nesse sentido a decisão que é adotada sem repre- sentar-se primeiramente seus efeitos práticos previsíveis (por exemplo, no campo da responsabilidade civil, OS seus efeitos eco- nômicos). 6. Usos DA ANÁLISE PRAGMÁTICA A que usos se presta estilo conseqüencialista ou pragmá- tico de análise da jurisprudência? Muito sumariamente: (a)Antes de mais nada, a análise conseqüencialista não se presta a uma representação dogmática das normas válidas que OS juízes deveriam aplicar, pela simples razão de que dentro des- se modo de ver não ocorrem "normas" pré-constituídas ao juízo jurisdicional, isto é, a análise conseqüencialista ou pragmática não se presta a fundamentar um discurso prescritivo (deontológico) em torno daquilo que juízes deveriam fazer. A análise pragmática presta-se, ao contrário, a uma descrição empírica daquilo que os juízes efetivamente fazem. (b)Além disso, resultado mais óbvio da adoção de um es- tilo de análise conseqüencialista é a inclinação a submeter a ju- risprudência à investigação sociológica e/ou econômica (por exemplo, estilo favorece a análise das deci- sões sob o perfil da alocação de custos e benefícios). (c)Do ponto de vista da argumentação, estilo pragmático tende a creditar argumentações de tipo teleológico (utilitarista, 249Guastini lugar de deontológico: argumentações que recorrem a finalidades práticas, aos resultados previsíveis das decisões, de preferência às normas (não importa se legislativas ou jurisprudenciais). Tende a favorecer "aquela forma de certe- que não consiste na mera segurança de que os juízes adotarão um certo tipo de fraseologia, consistindo, ao invés disso, na pos- sibilidade de prever quais escolhas juízes executarão sendo dada uma orientação Entende-se que a técnica argumentativa, que é implicita- mente sugerida por esse modo de ver, pode ter sucesso ou abso- lutamente não lográ-lo, dependendo do tipo de cultura jurídica, ou política difundida junto à classe judiciária, dependendo do tipo de argumentos (com base em normas, ou com base em poli- cies) aos quais juízes são sensíveis. (d)Analogamente, enfim, esse estilo de análise pode ser do- tado de grande capacidade de predição das decisões, ou não pos- suí-la de modo algum, dependendo das circunstâncias. Fica claro, de fato, que as decisões (e não as argumentações) dos juízes são previsíveis se os juízes estiverem inclinados a fazer atuar uma determinada policy (que, se entende, seja conhecida); são imprevisíveis se juízes preferirem adotar decisões "cegamen- te" fundadas em normas. 243 G. Tarello, realismo giuridico americano (O realismo jurídico norte-ameri- cano), cit., pp. 247, em nota.