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Caxias do Sul – RS, de 04 a 06 de outubro de 2016 IV Congresso de Pesquisa e Extensão da FSG II Salão de Extensão http://ojs.fsg.br/index.php/pesquisaextensao ISSN 2318-8014 O SENTIMENTO DE CULPA NO SUJEITO PSÍQUICO NEURÓTICO Pedro Henrique Conte Gil a* Joice Cadore Sonego b a) Estudante do Curso de Psicologia do Centro Universitário da Serra Gaúcha b) Orientadora. Professora do Curso de Psicologia do Centro Universitário da Serra Gaúcha Informações de Submissão *pedro_gil12@hotmail.com Rua Capitão Artemin Karan, 1764 - Caxias do Sul - RS - CEP: 95032-570 Resumo Este artigo compreende os processos envolvidos para o surgimento do sentimento de culpa no sujeito psíquico neurótico, através da teoria psicanalítica de Freud. Para tal entendimento, faz-se necessário transpor os estágios e processos precedentes ao surgimento da culpa, bem como a constituição da estrutura neurótica do indivíduo, a instauração do complexo de Édipo e a sua dissolução, pelo complexo de Castração. Tais caminhos, agregados aos conceitos de ego ideal e ideal de ego, levam a estruturação da instância psíquica Superego, a qual é responsável pelo surgimento do sentimento de culpa. A partir desse entendimento, torna-se possível compreender a atuação e implicações da culpa nas neuroses. Palavras-chave: Culpa. Superego. Neurose. Sentimento de culpa. 1 INTRODUÇÃO O sentimento de culpa é considerado um sentimento universalizado, pois perpassa a vida de todos os seres humano em alguma vivência de tempo, independentemente de cultura, credo ou concepções de vida, sendo ele percebido nas relações afetivas, nos comportamentos, nos pensamentos ou, até mesmo, de maneira inconsciente. Pode-se dizer que esta sensação de mal-estar emocional se dá pelo sujeito não corresponder às expectativas que foram internalizadas previamente, as quais emergem no psíquico e causam sofrimento. A partir da teoria psicanalítica, especialmente a freudiana, pode-se fazer um entendimento desse sofrimento gerado pelo sentimento de culpa em sujeitos de estrutura psíquica neurótica. Um dos conceitos pertinentes para este estudo é o processo da formação da culpa, porém, entende-se que um processo de constituição do sujeito e de tópicas psíquicas precisa acontecer antes que o sentimento de culpa propriamente dito apareça. É a partir disso http://ojs.fsg.br/index.php/pesquisaextensao IV Congresso de Pesquisa e Extensão da Faculdade da Serra Gaúcha (FSG) Caxias do Sul – RS, de 04 a 06 de outubro de 2016 322 que se faz necessário retomar conceitos psicanalíticos básicos, porém, essenciais para o entendimento das implicações do sentimento de culpa nas neuroses. Nessa viagem por conceitos da psicanálise, retornamos a tenra infância. Nesse período do desenvolvimento, o ego é intimamente ligado ao id, por este primeiro ainda ser demasiadamente fraco. Tudo é regido pelo id, pelo princípio do prazer. Tal instância é conhecida como ego ideal que, após passar por processos identificatórios, constitui outra instância, o ideal de ego – os primórdios do superego. Fazendo parte da segunda tópica de Freud, o superego surge a partir do complexo de Édipo. É com a dissolução do conflito edipiano – a partir do complexo de castração – que essa instância psíquica se consolida. Considera-se o superego como a base para a compreensão do sentimento de culpa (NUNBERG, 1989). Desta forma, torna-se possível a análise de comportamentos, sentimentos e mecanismos psíquicos em indivíduos neuróticos a partir do viés da culpa. O sentimento de culpa pode ser considerado uma moeda de duas faces: apresenta-se como um agente que pressiona o ego do sujeito, levando este a profundos sofrimentos psíquicos ou como sentimento que enquadra uma civilização dentro de limites morais. Diante de tais conceituações, o objetivo deste artigo é proporcionar breves reflexões dos principais conceitos psicanalíticos de Freud que dizem respeito a gênese e as implicações do sentimento de culpa no sujeito psíquico neurótico. 2 METODOLOGIA Este artigo científico foi realizado a partir de uma metodologia de revisão crítica de leitura, a qual pode ser compreendida como um método científico utilizado para produzir estudos pela análise e síntese das informações disponibilizadas por estudos publicados que tenham relevância sobre o tema escolhido, com o intuito de resumir o conhecimento já existente e chegar a conclusões com relação ao assunto escolhido (MANCINI e SAMPAIO, 2006). A formulação de parte desta revisão da literatura deu-se em duas etapas: a primeira, como Atividade Prática Supervisionada (APS), uma das exigências do curso de Psicologia do atual Centro Universitário da Serra Gaúcha, a qual compreendeu o período de maio e junho do ano de 2015, e a segunda, no intuito de expansão da pesquisa para outros campos de publicação, no período de maio e junho do ano de 2016, bem como no segundo semestre do ano corrente. Os bancos de dados utilizados foram SciELO, Google Acadêmico, PePSIC, IV Congresso de Pesquisa e Extensão da Faculdade da Serra Gaúcha (FSG) Caxias do Sul – RS, de 04 a 06 de outubro de 2016 323 LILACS e PubMed, sendo os seguintes descritores utilizados na busca: culpa, sentimento de culpa, superego, neurose e psicanálise. Foram eliminados os artigos cujas abordagens não diziam respeito à linha teórica psicanalítica, pois foram considerados irrelevantes para o objetivo, ou porque os assuntos não vinham a enriquecer o presente trabalho. Os critérios de inclusão foram restritamente a relevância do tema abordado em cada artigo e a fundamentação em conceitos da psicanálise freudiana. Além dos artigos, foram analisados livros, revistas, publicações e trabalhos acadêmicos que trouxeram ampliações quanto ao entendimento dinâmico do sentimento de culpa no sujeito psíquico neurótico. 3 REFERENCIAL TEÓRICO 3.1 O Sujeito Psíquico Neurótico No livro “A Interpretação dos Sonhos”, publicado em 1900, Sigmund Freud menciona sua primeira concepção sobre a estruturação e funcionamento da personalidade. A teoria refere-se à existência de três instâncias psíquicas: o inconsciente, o pré-consciente e o consciente, as quais, posteriormente, são nomeadas como a primeira tópica do aparelho psíquico (FREUD, 1900/2001). É somente anos depois que Freud reformula a sua teoria do aparelho psíquico, elaborando os conceitos da segunda tópica, a qual introduz as concepções de id, ego e superego. Sinteticamente, o id é a instância onde se “situam” as pulsões de vida e morte; o ego trata-se de um regulador entre as exigências do id, as ordens do superego e a realidade; e o superego atua como a representação da lei, originado do complexo de Édipo e a base do sentimento de culpa (BOCK, 1999). Para o entendimento da relação entre as tópicas e a estruturação do sujeito neurótico, faz-se necessário um retorno aos conceitos básicos da teoria psicanalítica de Freud. Em 1905, com os “Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade”, Freud expõe sua teoria do desenvolvimento psicossexual, a qual introduz o conceito de que pulsões libidinais – energia dos instintos sexuais – estariam presentes desde a tenra infância. Essa nova concepção escandalizou a maioria de seus leitores, porém, Freud superou as resistências e continuou suas análises (GAY 1923). Freud desenvolve essa teoria a partir de suas investigações na prática clínica sobre a causa e o funcionamento das neuroses. Primeiramente, adiantou que apenas uma vivência de IV Congresso de Pesquisa e Extensão da Faculdade da Serra Gaúcha (FSG) Caxias do Sul – RS, de 04 a 06 de outubro de 2016 324 intensa emoção levaria o sujeito ao adoecimento neurótico. Depois, baseado em suas experiências da etiologia traumática da histeria, ele percebe que a maioria dos pensamentos e desejos reprimidos se referiam a conflitos da ordem sexualnos primeiros anos de vida do sujeito, ou seja, seria na infância que estavam as experiências traumáticas que foram reprimidas e que agora retornavam como sintomas. Tais descobertas levaram Freud a entender que as vivências deste período da vida produzem marcas profundas no aparelho psíquico, assim colocando a sexualidade no centro da vida psíquica, confirmando a existência da sexualidade infantil (NUMBERG, 1989). Entretanto, ainda conforme o autor (1989), Freud depara-se com um contraponto: não foi possível encontrar um trauma sexual na infância em todos os pacientes neuróticos. A partir disso, ele entende que o “trauma” não precisa ser apenas de uma experiência sexual na infância, mas de vivências de ordens internas e externas. Quando o ego da criança, ainda demasiadamente fraco, não consegue dominar uma grande quantidade de energia dessas ordens, ele adoece neuroticamente. Essa relação entre o ego e o id, e entre as pulsões sexuais, cristalizam o que Freud futuramente irá chamar de complexo de Édipo. Por sua complexidade e envolvimento de diversos componentes, a mais leve perturbação deste equilíbrio leva a manifestações do complexo. É devido a isso que Freud considera o conflito edipiano como núcleo da neurose. 3.2 O Complexo de Édipo A nomenclatura “Complexo de Édipo” é adotada como uma alusão a lenda mitológica grega do Édipo-Rei. Na trama, sem saber que Jocasta é sua mãe, Édipo se casa com ela, logo após assassinar seu próprio pai, Laio. Quando o Oráculo é consultado e a verdade aparece, Édipo cega a si mesmo enquanto sua mãe se suicida. Fazendo alusão a lenda, Freud nomeia “Complexo de Édipo” o conflito vivido na infância, no período entre os três e cinco anos de idade, durante a fase fálica. Para ele, o conflito edipiano é universal e desempenha um papel fundamental na estruturação da personalidade (LAPLANCHE e PONTALIS, 1988). Corroborando com Moreira (2004), o Édipo é um ponto crucial da constituição do sujeito, não somente como “complexo nuclear” das neuroses, mas como o ponto decisivo da sexualidade humana. É a partir dele que o sujeito organizará o seu “vir-a-ser”, sua diferenciação entre os sexos e o posicionamento frente à angústia de castração. IV Congresso de Pesquisa e Extensão da Faculdade da Serra Gaúcha (FSG) Caxias do Sul – RS, de 04 a 06 de outubro de 2016 325 De maneira simples e linear, o complexo de Édipo consiste no amor do menino pela mãe e na rivalidade e ódio pelo pai, sendo todo este movimento de ordem inconsciente. O conflito edipiano aparece a partir de um investimento objetal dessa criança para com essa mãe, o qual, em primeira instância, é o seio materno. A relação com o pai é de identificação. Esses sentimentos não permanecem durante muito tempo, em vista que os desejos incestuosos do menino pela mãe são intensificados e, desta forma, o pai começa a ser visto como um obstáculo à realização deste desejo. É neste momento que o complexo de Édipo se estabelece, a partir desta nova configuração relacional. Antes, uma relação dualística – apenas mãe e bebê – e, agora, triangular, pois existe a entrada de um terceiro, a figura do pai. De maneira inconsciente, o menino ama sua mãe e a quer só para si, o que desencadeia sentimentos ambivalentes quanto a esse pai – ao mesmo tempo em que o ama, também o odeia e quer se livrar dele, pois ele é o impedimento da realização do seu desejo incestuoso (CARVALHO FILHO, 2010). O pai, por sua vez, percebe as investidas amorosas do filho e tenta suprimi-las. Ele não tem sucesso nessas tentativas, então, ameaça-o direta ou indiretamente com a castração. A partir disso inicia-se os primórdios da constituição da instância psíquica que Freud nomeou de “superego”, movimento que se dá a partir de cortes no investimento do menino para com sua mãe, o que é chamado por Freud de complexo de Castração. O medo de castração atua no simbólico, porém, ele acontece através da representação e presença da lei, da figura paterna. No escrito “A Organização Genital Infantil”, Freud (1923/1974) introduz o conceito de Complexo de Castração e explica que seu ponto nevrálgico na fantasia da castração, o que torna possível para a criança responder a sua própria dúvida diante da diferença genital dos sexos – ter ou não o pênis. O rapaz tem medo da castração como concretização de uma ameaça paterna, em resposta ao seu investimento para com a mãe, no complexo de Édipo. O menino, em sua fantasia, considera que todos os seres humanos possuem um pênis. Porém, ao observar a realidade que uma menina não tem pênis, ele acredita que ela foi castrada – entende como algo que pode acontecer consigo, como já se sente ameaçado pelo pai. Essa castração dá início a dissolução do complexo de Édipo e a constituição da instância organizadora do sujeito, o superego. 3.3 Formação da Instância Psíquica: O Superego IV Congresso de Pesquisa e Extensão da Faculdade da Serra Gaúcha (FSG) Caxias do Sul – RS, de 04 a 06 de outubro de 2016 326 Nas obras de Freud (1923/1974), o escrito “O ego e o id” é central na formulação da teoria do superego: recebe sua nomeação e estruturação como tópica psíquica. Além disto, surge o conceito que essa tópica psíquica se constitui como herdeiro do complexo de Édipo. O estabelecimento do superego acontece quando a criança consegue superar, de forma adequada, a sua conflitiva edípica – encontra uma forma de lidar com as angústias criadas pelo complexo. Corroborando com Zimerman (1999), o qual aborda o conceito de transgeracionalidade do superego que consiste em uma cadeia identificatória, a qual o superego do sujeito está identificado com o superego do pai que, por sua vez, foi identificado com o superego do avô e assim por adiante, seguindo um efeito cascata. Para melhor compreensão do processo de formação da instância psíquica superego, precisamos retornar aos seus primórdios. A criança, quando ainda não possui o seu ego organizado, sendo que este está intimamente ligado ao id, se configura em uma condição ideal, por isso, chamado de ego ideal. Nessa condição, o sujeito aceita somente o que lhe é prazeroso e rejeita aquilo que não o for, pois ele é regido pelo princípio de prazer. Segundo Zimerman (1999), o ego ideal é herdeiro do narcisismo primário – caracterizado pelo auto-erotismo – e, por isso, funciona na fantasia da onipotência, de poder tudo, onde o “ter” é o igual ao “ser”. O ego ideal se torna o local onde são depositadas todas as idealizações, perfeições e felicidades do narcisismo primário. Porém, essa instância de prazer a todo o momento não pode ser sustentada, nem pelos pais e nem pela realidade. A partir disso, a criança passa por restrições na sua vida pulsional e, a aceitação dessa nova condição, geralmente é baseada no amor. Ela renuncia a gratificação do instinto pelo medo de perder o objeto de amor, no caso, os pais. Esse objeto é absorvido pelo ego e se torna parte dele. Ao contrário do ego ideal, é chamado de ideal de ego – por amor a esse objeto, a criança se submete a suas exigências e ideais por medo de perdê-lo. O ideal do ego representa uma identificação primária com a figura paterna, simplificadamente, “aquilo que gostaríamos de ser”. Então acontece uma tentativa de transformar o próprio ego para se adequar a esse “gostaria de ser”. Linearmente, o ideal de ego são indícios do superego na teoria psicanalítica, quando Freud atribuiu a instância funções ambivalentes: proteger o narcisismo infantil e criticar o ego real, comparando com aos seus ideais (LAENDER, 2005; HOMRICH, 2008). Agregando o conceito de identificação com a figura do pai ao complexo de Édipo, Nunberg (1989) menciona ideias freudianas de que IV Congresso de Pesquisa e Extensão da Faculdade da Serra Gaúcha (FSG) Caxias do Sul – RS, de 04 a 06 de outubro de 2016 327 o estímulo para a formação do superego é o medo da castração(...) Com a incorporação do pai em seu ego, o menino não só escapa ao perigo da castração, como também ganha um protetor, na imagem do pai acolhida pelo ego. O superego forma-se, pois, não apenas por causa do ódio, mas também por causa do amor e do medo relacionado com o ego narcisista em perigo (p. 157). Com a dissolução do complexo de Édipo, o ideal de ego passa a ser uma parte integrante do superego, porém, eles se configuram de formas distintas. O ideal do ego está relacionado aos ideais que o sujeito precisa atingir no intuito de não perder o amor de seu pai e, quando estes ideais não são atingidos, podem aparecer no ego como forma de vergonha. Por outro lado, o superego se baseia no medo da castração e no sentimento de culpa, uma instância em que atuam a consciência moral e a censura (GEREZ-ALMBERTÍN, 2003). 3.4 Sentimento de Culpa O sentimento de culpa pode surgir de diversas maneiras: sentimentos de desconforto, tensão interna, necessidade de dar presentes ou gastar dinheiro, ter a aprovação dos outros, ou generosidade exagerada. Sintomas relacionados ao mundo externo e a busca por reconciliação com este mundo. No entanto, o sentimento de culpa pode aparecer de outras formas: sentimentos de inferioridade, sofrimentos, desejos de ser punido, sacrifícios e compulsão por purificação. Estes já estão dirigidos não ao mundo externo, mas ao próprio ego, na representação de tentativa de punir alguém. Algumas formulações de Freud em “O Mal-Estar na Civilização” caracterizam o sentimento de culpa por uma inadequação ao ideal universal que é imposto por próprias construções sociais. Esse sentimento de culpa estabelece um critério para a satisfação do sujeito, excluindo aquilo que não se submete a ele (FREUD, 1930/1974). Em “Totem e Tabu”, Freud (1913/1974) apresenta o conflito entre as exigências sociais e as pulsões libidinais. Ele conclui que a sociedade, de uma forma ou de outra, consegue dominar seus desejos agressivos. É por isso que a sociedade é beneficiada pelo superego, a instância psíquica que condena o sujeito através do sentimento de culpa. É a partir do complexo de Édipo que o sentimento de culpa é revivido – nos desejos de morte ao pai que configuram o medo consciente da própria morte como vingança, graças a dissolução do Édipo. Freud retorna a infância para elaborar a hipótese da culpa inconsciente e cita um exemplo de fácil observação: quando uma criança acusada de um erro aleatório nega a sua IV Congresso de Pesquisa e Extensão da Faculdade da Serra Gaúcha (FSG) Caxias do Sul – RS, de 04 a 06 de outubro de 2016 328 culpa, mas chora descontroladamente. Freud menciona que mesmo que a criança parece ter mentido muitas vezes ela de fato não cometeu a transgressão. Todavia, esse choro pode estar a serviço de outra transgressão, como, por exemplo, do complexo edipiano. Ou seja, a culpa de um dia ter desejado a mãe e ter odiado e rivalizado o pai. Aplicando a questão a outro exemplo, um indivíduo que deseja o mal a outros, mesmo tendo sido educado com valores morais, recalca a sua hostilidade no Inconsciente. Desta forma, o mesmo, inconscientemente esperará o castigo por sua “maldade”. Esse castigo se configura a uma necessidade de punição, associada a culpa inconsciente, ou seja, o termo “sentimento de culpa inconsciente” quer dizer que o representante psíquico original da culpa foi recalcado (GELLIS e HAMUD, 2011). Freud não mencionava culpa como inconsciente, porém, ao se deparar com os conteúdos inconscientes – atos falhos, formação dos sonhos – ele pode observar expressões de culpa. Essa análise se inicia, sobretudo na neurose obsessiva, na forma de auto recriminação do sujeito que luta contra as ideias imperativas que são consideradas irrepreensíveis. Para um obsessivo, quando os comandos não são obedecidos, a culpa emerge e acreditam que são merecedores de punição. Pode-se dizer que aquele que sofre de compulsões ou proibições se comporta como dominado pela culpa, a qual não tem sentido para si (LAPLANCHE e PONTALIS, 1988). Nas contribuições de Nasio (2007), a obsessão se configura a partir do deslocamento da angústia de castração do inconsciente para o consciente, o qual se cristaliza como culpa. A autopunição e o sofrimento estão presentes nesses sujeitos e a intensidade desses sentimentos pode dominar o indivíduo ao ponto de ele cometer delitos somente para ter uma justificativa para esses sentimentos. Desta forma, recebendo alívio da tensão através da punição. Em suma, o sentimento de culpa surge na vida do neurótico através de um processo de constituição da personalidade, sendo as manifestações desta culpa de diferentes formas na contemporaneidade. Através da instância psíquica reguladora superego, a culpa pode ser considerada como ambivalente: auxilia o sujeito a se estabelecer e comportar socialmente, porém, no seu outro extremo, pode ser castigador por não se atingir ideais anteriormente estabelecidos. 4 CONSIDERAÇÕES FINAIS IV Congresso de Pesquisa e Extensão da Faculdade da Serra Gaúcha (FSG) Caxias do Sul – RS, de 04 a 06 de outubro de 2016 329 Para melhor compreensão do sentimento de culpa, fez-se necessário realizar uma viagem por vários outros conceitos psicanalíticos de Freud. Com a delimitação do sujeito psíquico neurótico, precisou-se compreender como o sujeito se estrutura dentro da neurose, sendo que essa estruturação compreende a constituição e a permanência do sentimento de culpa. O desenvolvimento de uma psique neurótica nos remete aos primórdios da vida infantil, onde o bebê, por sua vez, não tem uma estrutura egóica consolidada, apenas impulsos e desejos sem restrições do id. Tal estruturação é nomeada por ideal de ego, instância que apenas se aceita o que é prazeroso para si, rejeitando tudo aquilo que pode promover o desprazer. Com o crescimento da criança, ela passa por um processo identificatório com esses pais. Percebe que a mãe não se trata apenas de uma extensão de si, mas como um sujeito, bem como, um novo componente na relação, o pai. Esse movimento produz influências no aparelho psíquico da criança, o qual toma os pais como ideais – sem falhas. Esses ideais reformulam e transformam o ego ideal em ideal de ego, configuração que leva o sujeito a absorver esses ideais perfeitos dos pais. Porém, este ideal é impossível de ser atingido na realidade, o que resulta em um narcisismo ferido, emergindo no ego como vergonha por não corresponder às próprias expectativas. O ideal de ego é um primeiro indício do superego, estrutura psíquica essencial como organizadora do sujeito. Porém, ele é resultado de outro processo psíquico que acontece na fase fálica da criança, o complexo de Édipo. No complexo, inconscientemente o menino se apaixona pela mãe e rivaliza o pai, destilando sentimentos ambivalentes quanto a ele – ao mesmo tempo em que amo, também o odeia –, pois ele é a representação da lei, o impedimento à realização do desejo de incesto. É a partir da entrada desse outro, deste pai, que as regras e a moral começam a ser internalizadas na criança. Esse processo se dá por outro complexo, o de Castração. O menino sente medo de ser castrado pelo pai, de perder o seu pênis. É através desse medo que existe o recalcamento dos desejos incestuosos que irão retornar futuramente, na fase genital. A castração e a dissolução do complexo de Édipo são alguns componentes essenciais para a constituição do superego. O superego começa a surgir e se situa entre o ego e o id, exercendo um papel de limitador nos impulsos vindos do id e um organizador da personalidade no ego. Sua base de constituição é o sentimento de culpa, que pode aparecer no sujeito de diversas formas. O superego pode se comportar como um massacrador do ego, impondo regras e leis morais ao qual o ego precisa se adaptar independentemente dos desejos IV Congresso de Pesquisa e Extensãoda Faculdade da Serra Gaúcha (FSG) Caxias do Sul – RS, de 04 a 06 de outubro de 2016 330 do id. Tal instância precisa ser vista de dois pontos de vista – ela é a base para estruturação de uma civilização a qual segue leis, e não vive apenas pelo princípio do prazer. Por outro lado, quando se torna patológico, as cobranças exacerbadas do superego, pode levar o sujeito a um adoecimento psíquico que, em casos extremos, pode chegar ao suicídio. Quando o sujeito não consegue corresponder as suas expectativas morais, constituídas no ideal de ego, ele se sente culpado. Essa culpa não precisa ser necessariamente consciente, quando o sujeito sente um mal- estar por não estar dentro do próprio padrão estabelecido. Porém, pode aparecer através de comportamentos onde o sujeito se autossabota, provocando delitos para que possa realmente ser culpado, promovendo a realização da culpa inconsciente. Pode-se observar esse comportamento nos neuróticos obsessivos, o qual precisam cumprir tarefas que aparentemente não possuem lógica para sentirem alívio da culpa. O sentimento de culpa é proveniente pela ação do superego nos desejos recalcados de incesto para com a mãe e no parricídio, o homicídio para com este pai que fora odiado e rivalizado. Esse sentimento de culpa leva o sujeito a uma tentativa de reparação e ainda, fortalecimento desde recalcamento que tenta emergir na consciência através de seus substitutos. Por fim, importante mencionar algumas limitações do estudo. Dentre elas, cita-se que as reflexões com relação ao sentimento de culpa e suas formações foram provenientes apenas da teoria freudiana e não compreenderam possíveis contribuições de outros teóricos da psicanálise. Além desta, a explanação do funcionamento do sentimento de culpa ter ocorrido apenas na neurose obsessiva, não compreendendo o campo de outras neuroses ou, até mesmo, de outras estruturas psíquicas. Para futuros estudos, interessante seria a articulação entre outros teóricos da área e diferenciações da gênese e implicações do sentimento de culpa em outras estruturas psíquicas. 5 REFERÊNCIAS BOCK, Ana Mercês. Psicologias: uma introdução ao estudo da Psicologia. São Paulo: Saraiva, 1999. CARVALHO FILHO, João Gualberto Teixeira de. A acepção de família na teoria psicanalítica: sigmund freud, melanie klein e jacques lacan. Dissertação (Mestrado em Psicologia) – Universidade Federal de São João Del-Rei, 2010. IV Congresso de Pesquisa e Extensão da Faculdade da Serra Gaúcha (FSG) Caxias do Sul – RS, de 04 a 06 de outubro de 2016 331 FREUD, S. (1900). A Interpretação de Sonhos. Rio de Janeiro: Imago, 2001. FREUD, S. (1913). Totem e Tabu. In: FREUD, S. 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