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Fundamentos da Psicopatologia e Diagnóstico
Psiquiátrico
Introdução à Psicopatologia
A psicopatologia é o estudo dos fatores e processos envolvidos no surgimento e
desenvolvimento dos transtornos psicológicos. É crucial distinguir entre descrever um
transtorno e explicar sua origem.
Modelos Etiológicos
Modelos Unidimensionais
Buscam compreender a psicopatologia a partir de uma única dimensão causal predominante
(ex: biologia, experiência, aprendizagem).
Biologia: Fatores genéticos, neurotransmissores e funcionamento cerebral. O risco reside no
determinismo biológico; um correlato biológico não é necessariamente uma causa única.
Psicologia: Experiências de infância, conflitos psíquicos, pensamentos, aprendizagem ou
experiências ambientais. Reducionismo psicológico ignora a participação biológica.
Modelos Multidimensionais
Entendem a psicopatologia como resultado de interações complexas entre diferentes sistemas
de influência:
Biologia (genes, neurobiologia)
Psicologia (emoções, cognição, comportamento, aprendizagem)
Relações interpessoais e contexto social/cultural
Desenvolvimento ao longo do tempo
Interação Gene-Ambiente
Vulnerabilidade Genética: A predisposição genética não é um destino. A influência genética
interage com condições ambientais e experiências.
Epigenética: Experiências ambientais podem influenciar a expressão genética.
Cérebro em Desenvolvimento: O funcionamento cerebral é moldado por experiências,
aprendizagem e relações.
Fatores na Etiologia dos Transtornos Mentais
Vulnerabilidade: Fatores que aumentam a probabilidade de adoecer.
Precipitação/Gatilho: Fatores que desencadeiam o transtorno em um momento específico.
Manutenção: Fatores que contribuem para a persistência do problema. A causa do início
pode não ser a mesma causa da manutenção.
Síndromes Psicóticas
Síndromes psicóticas são caracterizadas por distorções graves da realidade, como delírios e
alucinações, desorganização do pensamento e/ou comportamento, ou catatonia. O "teste de
realidade" (função do ego de avaliar objetivamente o mundo externo) costuma estar prejudicado,
e o insight sobre a doença é precário.
Esquizofrenia
Incidência e Prevalência: Incidência anual de cerca de 15-42 por 100.000 habitantes;
prevalência pontual de 0,4%; risco ao longo da vida de cerca de 0,7-0,8%.
Conceito Histórico:
Kraepelin (1896): "Dementia praecox" - enfatizava a evolução deteriorante, alterações da
vontade, embotamento afetivo, alucinações.
Bleuler (1911): "Esquizofrenia" - focava no afrouxamento das associações, ambivalência
afetiva, dissociação ideoafetiva e "autismo" (isolamento psíquico).
Jaspers: Ideias delirantes primárias, humor delirante, quebra na curva existencial.
Schneider: Sintomas de primeira ordem (percepção delirante, vozes comentando/
comandando, eco/difusão/roubo do pensamento, vivências de influência).
Critérios Diagnósticos (DSM-5):
Critério A: Presença de 2 ou mais sintomas (delírios, alucinações, discurso
desorganizado, comportamento grosseiramente desorganizado ou catatônico, sintomas
negativos) por parte significativa do tempo durante 1 mês.
Critério B: Prejuízo no funcionamento social, ocupacional ou nos estudos.
Critério C: Sinais contínuos do transtorno por pelo menos 6 meses (incluindo o mês de
sintomas do Critério A e períodos prodrômicos/residuais).
Subtipos Clássicos (Abandonados no DSM-5/CID-11): Paranoide, catatônica, hebefrênica,
simples. Foram abandonados por instabilidade, falta de poder preditivo de evolução ou
resposta a tratamento.
Dimensões Sintomáticas Atuais:
Sintomas Negativos: Embotamento afetivo, retração social, alogia (empobrecimento da 1.
linguagem), avolição (diminuição da iniciativa/vontade), anedonia.
Sintomas Positivos: Alucinações (principalmente auditivas), delírios (frequentemente 2.
persecutórios, autorreferentes, de influência). Conteúdos bizarros ou incongruentes com o
humor são fortes indicadores.
Sintomas de Desorganização: Pensamento progressivamente desorganizado 3.
(afrouxamento das associações à incoerência), discurso tangencial/circunstancial,
comportamento bizarro, afeto inadequado/incongruente ("dissociação ideoafetiva").
Sintomas Psicomotores e Catatonia: Lentificação, estereotipias, maneirismos, posturas 4.
bizarras. Catatonia (estupor, flexibilidade cerácea, ecolalia/ecopraxia, excitação
catatônica).
Sintomas e Prejuízos Cognitivos: Atenção, memória, velocidade de processamento, 5.
funções executivas, cognição social (teoria da mente, percepção de emoções).
Frequentemente precedem os sintomas psicóticos e são preditores da evolução funcional.
Sintomas de Humor: Expressão emocional reduzida com reatividade aumentada 6.
("paradoxo emocional"), ansiedade e depressão mais frequentes.
Curso e Prognóstico: Geralmente crônico, em três fases (pré-mórbida, psicótica, crônica).
Expectativa de vida menor. Risco aumentado de suicídio.
Outros Quadros do Espectro Psicótico
Transtorno Delirante (Paranoia): Presença de um ou mais delírios sistematizados e não
bizarros por pelo menos 1 mês. Personalidade e funcionamento preservados fora do tema do
delírio. Geralmente de início mais tardio.
Transtorno Psicótico Breve: Início agudo de sintomas psicóticos floridos, duração breve (dias
a 1 mês), com remissão completa e retorno ao funcionamento prévio. Frequentemente
desencadeado por estresse significativo.
Transtorno Esquizoafetivo: Presença de sintomas psicóticos (delírios/alucinações)
concomitantes a um episódio de humor (depressivo ou maníaco). Diferencia-se de transtorno
de humor com sintomas psicóticos pela persistência da psicose isolada do humor por pelo
menos 2 semanas.
Medicalização da Vida
Definição: Processo de apropriação da vida humana pela medicina, interferindo em
conceitos, regras de higiene, normas morais e comportamentos sociais através da
prescrição e disseminação de medicamentos, especialmente psicoativos.
Crítica (Illich):
A medicalização é nociva por:
Interferência técnica no organismo que retira características de saúde.1.
Organização sanitária que mascara uma sociedade destrutiva.2.
Aparelho biomédico que retira o poder de cidadania do indivíduo.3.
Implicações: Cria dependência da medicação, pode levar à dependência química/física,
transforma usuários em consumidores farmacológicos, foca na eficácia em detrimento do
significado do sofrimento. O biopoder (Foucault) se manifesta através da medicalização
como ferramenta de controle e normalização.
Transtornos de Humor
Depressão Maior
Epidemiologia: Prevalência mundial significativa (16,2%), alta no Brasil (19,9% em SP).
Impacto Clínico: Risco aumentado de suicídio (20x mais, 15-40% tentaram, 60% dos suicídios
completos).
Quadro Clínico:
Humor e Psicomotricidade: Tristeza/apatia persistente, choro fácil, irritabilidade,
anedonia (incapacidade de sentir prazer), lentificação psicomotora.
Pensamento, Corpo e Cognição: Pessimismo, culpa, baixa autoestima, ideação de morte,
fadiga, alterações do sono/apetite/peso, déficits de atenção/concentração/memória. Em
formas graves, delírios congruentes com o humor.
Critérios Diagnósticos (DSM-5-TR): Pelo menos 5 sintomas (incluindo humor deprimido OU
perda de interesse/prazer) por pelo menos 2 semanas, com prejuízo funcional ou sofrimento.
Formas Clínicas: Distimia (humor deprimido crônico ≥ 2 anos), Melancólica (anedonia total,
piora matinal), Atípica (hipersonia, aumento do apetite, sensibilidade à rejeição), Psicótica
(delírios/alucinações congruentes), Ansiosa/Mista (sintomas ansiosos proeminentes, maior
risco suicida).
Diagnóstico Diferencial: Luto intenso (tristeza em ondas, ligada a lembranças, tende a
diminuir) vs. Depressão (humor constante, não melhora com tempo, ruminações
autocríticas).
Transtorno Bipolar
Epidemiologia: Prevalência no Brasil de 1,0-1,5%. Idade média de início aos 21 anos. Alta taxa
de recorrência.
Episódio Maníaco (DSM-5-TR): Humor elevado/irritável ou expansivo por ≥ 1 semana, com ≥
3 sintomas (4 se humorapenas irritável): autoestima inflada, redução do sono, loquacidade,
fuga de ideias, distratibilidade, aumento de atividades de risco.
Diagnóstico Diferencial: Uso de substâncias, causas orgânicas (ex: hipertireoidismo),
transtorno de humor secundário a outra condição médica.
Transtornos de Ansiedade
Conceitos Fundamentais
Medo: Resposta a uma ameaça conhecida, externa, definida.
Ansiedade: Resposta a uma ameaça desconhecida, interna, vaga ou conflituosa.
Ansiedade Normal/Adaptativa: Proporcional à ameaça, prepara para a ação, diminui quando
a ameaça cessa.
Ansiedade Patológica: Desproporcional à ameaça, persistente, compromete o
funcionamento e o bem-estar.
Epidemiologia Geral
Os transtornos de ansiedade são os transtornos mentais mais frequentes. Cerca de 1 em 4
pessoas atendem ao critério para algum transtorno de ansiedade na vida. Mais comum em
mulheres. Alta comorbidade com outros transtornos mentais.
Principais Transtornos de Ansiedade
Transtorno de Pânico:
Ataque de Pânico: Período súbito de medo intenso, pico em minutos, duração de 20-30
minutos (raramente mais de 1 hora). Sintomas físicos (palpitações, sudorese, tremores,
falta de ar, dor no peito, náusea, tontura), perceptivos (desrealização/despersonalização),
cognitivos (medo de perder o controle, enlouquecer ou morrer). Requer pelo menos 4 dos
13 sintomas possíveis.
Diagnóstico (DSM-5): Ataques recorrentes e inesperados, seguidos por ≥ 1 mês de
preocupação persistente com novos ataques ou mudança comportamental evitativa.
Epidemiologia: Prevalência ao longo da vida de 1-4%, mais comum em mulheres (3x). Alta
comorbidade.
Diagnóstico Diferencial: Condições médicas (cardiovasculares, pulmonares, neurológicas,
endócrinas), substâncias.
Agorafobia: Medo ou ansiedade em relação a 2 ou mais de 5 situações (transporte público,
espaços abertos, espaços fechados, filas/multidões, sair de casa sozinho). Evitação dessas
situações ou suportadas com intenso medo. Frequentemente se desenvolve como
complicação do transtorno de pânico.
Fobia Específica: Medo ou ansiedade acentuados de um objeto ou situação específica
(animal, ambiente natural, sangue-injeção-ferimento, situacional, outro). Prevalência de cerca
de 10%. Alta comorbidade.
Transtorno de Ansiedade Social (Fobia Social): Medo de situações em que a pessoa está
exposta à possível avaliação de outros. Medo central de embaraço ou humilhação.
Prevalência de 3-13%.
Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG): Ansiedade e preocupação excessivas com
várias áreas da vida, na maioria dos dias, por ≥ 6 meses. Preocupação difícil de controlar,
com tensão muscular, irritabilidade, insônia, inquietação. Prevalência de 3-8% em 12 meses.
Alta comorbidade.
Transtornos de Personalidade
Definição: Padrão persistente, rígido, abrangente e mal-adaptativo de traços de
personalidade que causa sofrimento significativo ou prejuízo funcional. Início na infância/
adolescência, configurado na vida adulta. Abrange afetividade, cognição, controle de
impulsos e relacionamentos interpessoais.
Prevalência: 10-15% na população geral; mais de 50% em serviços de saúde mental.
Grupos (DSM-5/CID-11):
Grupo A ("Esquisitos e/ou Desconfiados"):
Paranoide: Desconfiança constante, sensibilidade a críticas, rancoroso, sente-se
prejudicado.
Esquizoide: Indiferença emocional, distanciamento social, vive em seu mundo interno,
prefere atividades solitárias.
Esquizotípico: Crenças estranhas, desconforto em relações próximas, pensamento
vago/excêntrico.
Grupo B ("Instáveis e/ou Manipuladores"):
Borderline (TPB): Instabilidade acentuada em relações, autoimagem e humor.
Impulsividade, atos autolesivos, sentimento crônico de vazio. Alta prevalência e
impacto em serviços de saúde mental.
Antissocial (Dissocial): Frieza emocional, ausência de compaixão, agressividade, não
sente culpa, irresponsável, mente, se aproveita dos outros.
Histriônico: Busca constante de atenção, dramatização, teatralidade, sugestionável,
discurso vago.
Narcisista: Necessidade intensa de admiração, sensação de superioridade,
grandiosidade.
Grupo C ("Ansiosos e/ou Controlados"):
Obsessivo-Compulsivo (Anancástico): Rigidez, metodicidade, perfeccionismo,
escrupulosidade excessiva, controlador.
Dependente: Dependência excessiva dos outros, necessidade de agradar, baixa
iniciativa e autonomia.
Evitativo: Evita interações sociais, sentimentos de inadequação, hipersensibilidade à
crítica.
Limites do Diagnóstico Categorial: Sobreposição diagnóstica frequente (um indivíduo pode
preencher critérios para múltiplos TPs), carga moral nos critérios (termos como "mentir",
"arrogante").
Evolução: TPs do Grupo B tendem a atenuar com o envelhecimento; Grupos A e C tendem a
ser mais estáveis.
Transtornos de Humor e Ansiedade: Apresentações
Clínicas na Vida Adulta
Este material se sobrepõe às seções anteriores sobre Transtornos de Humor e Transtornos de
Ansiedade, reforçando a importância da epidemiologia, quadro clínico, critérios diagnósticos e
diagnóstico diferencial. O foco na vida adulta enfatiza a relevância desses transtornos no
cotidiano e a necessidade de uma anamnese cuidadosa para o diagnóstico diferencial. A
atividade prática com estudo de casos ilustra a aplicação desses conceitos.
Estudo de Casos (Exemplos)
Vinheta Clínica 1 (Depressão Maior): Mulher de 34 anos com tristeza persistente, perda de
interesse, insônia terminal, perda de peso, culpa e ideação de morte passiva. Apresenta 6
sintomas em 3 meses, excedendo os critérios do DSM-5-TR para Episódio Depressivo Maior (≥ 5
sintomas por ≥ 2 semanas). A ideação de morte, mesmo passiva, é um sinal de alerta para risco
de suicídio.
Vinheta Clínica 2 (Transtorno de Pânico com Agorafobia): Homem de 28 anos com ataques de
pânico recorrentes (palpitações, sudorese, sufocamento, medo de morrer) que o levaram a evitar
o metrô e filas de banco. Os ataques de pânico (≥ 4 sintomas, pico em minutos) e a mudança
comportamental evitativa por mais de 1 mês configuram Transtorno de Pânico. A evitação de
locais de difícil escape (metrô lotado, filas) sugere agorafobia associada.
Vinheta Clínica 3 (Episódio Maníaco): Homem de 45 anos com comportamento acelerado há
uma semana: poucas horas de sono, fala excessiva, compras impulsivas, grandiosidade ("plano
genial"), irritabilidade. Apresenta 4 sintomas (humor irritável, menos sono, loquacidade,
atividades de risco) que atendem aos critérios para Episódio Maníaco (≥ 1 semana, ≥ 3
sintomas). O comportamento de risco exige intervenção imediata.
Uma Abordagem Integrada da Psicopatologia
A compreensão da psicopatologia requer ir além da simples descrição de sintomas e buscar a
explicação multicausal dos transtornos mentais. A interação entre fatores biológicos,
psicológicos, sociais e de desenvolvimento é fundamental.
A Pergunta Clínica Ampliada
Em vez de perguntar apenas "o que ele tem?", a abordagem integrada foca em:
O que aconteceu?
Por que agora?
Por que com esta pessoa?
O que mantém o sofrimento?
Etiologia vs. Diagnóstico
O diagnóstico organiza padrões de sinais e sintomas.
A formulação etiológica busca compreender como diferentes fatores contribuíram para o
quadro clínico específico de um indivíduo. Nomear um transtorno não explica sua origem.
Vulnerabilidade, Gatilho e Manutenção
Compreender a interação entre a predisposição (vulnerabilidade), os fatores desencadeantes
(gatilho) e os elementos que perpetuam o problema (manutenção) é essencial para uma
compreensão completa da psicopatologia.