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Aula 02: Ciência do Direito, Linguagem Jurídica e noções fundamentais FUNDAMENTOS DO DIREITO E CIDADANIA Prof. Me. Igor Gomes A SOCIABILIDADE HUMANA ❑ A experiência tem demonstrado que o homem (espécime) é capaz, durante algum tempo, de viver isolado. Todavia, isso não será possível durante toda a sua existência. ❑ Aristóteles considerou que o homem fora da sociedade seria “um bruto ou um deus”. Para ele, na primeira hipótese, ele viveria como um alienado, sem discernimento próprio. Na segunda hipótese, ele viveria como um ser perfeito, condição ainda não alcançada. A SOCIABILIDADE HUMANA ❑ Tomás de Aquino enumera 03 hipóteses para a vida humana fora da sociedade: 1) Mala fortuna: isolamento se deu por conta de um naufrágio ou situação análoga, como a queda de um avião em plena selva. 2) Corruptio naturae: o homem, desprovido de inteligência, vai viver distanciado de seus semelhantes; 3) Excellentia naturae: hipótese de quem possui uma grande espiritualidade, como São Simeão, chamado de “Estilita”, por tentar isolar- se, construindo uma alta coluna, no topo da qual viveu algum tempo. A SOCIABILIDADE HUMANA ❑ Portanto, é na SOCIEDADE que o homem (espécime) encontra o complemento necessário ao desenvolvimento de suas faculdades e potências que carrega em si. ❑Por não conseguir a autorrealização, concentra esforços para construção da sociedade. INTERAÇÃO SOCIAL 1) Processo de mútua influência, de relações interindividuais e intergrupais; 2) Pressupõe conhecimento das diferentes espécies de normas de conduta adotadas no corpo social; 3) Apresenta-se sob as formas de COOPERAÇÃO, COMPETIÇÃO E CONFLITO. DIREITO SOCIABILIDADE HUMANA: CONFLITOS DIREITO O conflito se instaura quando há um impasse, ou seja, os interesses opostos não logram êxito pelo diálogo. Conflito pode ser definido como “oposição de interesses, entre pessoas ou grupos, não conciliados pelas normas sociais”. Os conflitos são fenômenos naturais à sociedade. Quanto mais complexa a sociedade, mais sujeita a novas formas de conflitos. Surge com a função social de favorecer o amplo relacionamento entre as pessoas e os grupos sociais, seja ditando as regras de convivência, segundo valores que a própria sociedade elege, seja disciplinando a competição, estabelecendo as limitações necessárias ao equilíbrio e à justiça nas relações. SOCIABILIDADE HUMANA: CONFLITOS DIREITO Busca apresentar uma solução de acordo com a natureza do caso, seja para definir o titular do direito, determinação a restauração do status quo ou aplicar penalidades de diferentes tipos. UBI HOMO, IBI SOCIETAS; UBI SOCIETAS, IBI JUS; ERGO, UBI HOMO, IBI JUS “Onde o homem, aí a sociedade; onde a sociedade, aí o Direito; logo, onde o homem, aí o Direito”. SILOGISMO DA SOCIABILIDADE: elo entre Homem, Sociedade e o Direito A característica fundamental da sociedade é a submissão de um agrupamento de pessoas a iguais leis ou sistema jurídico, sem o que não poderia haver entendimento e convivência. A sociedade sem o Direito não resistiria, seria anárquica, teria o seu fim. O Direito é a grande coluna que sustenta a sociedade. Criado pelo homem, para corrigir a sua imperfeição, o Direito representa um grande esforço para adaptar o mundo exterior às suas necessidades de vida. ❑Mútua dependência entre o DIREITO e a SOCIEDADE. ❑ O Direito não tem existência em si próprio. Ele existe por causa da sociedade, sua causa material está nas relações de vida. ❑ A Sociedade, ao mesmo tempo, é fonte criadora e área de ação do Direito, seu foco de convergência. ❑ O DIREITO deve ser estabelecido, portanto, à imagem da sociedade que o constitui. Deve refletir os fatos sociais! ❑ Fatos Sociais: criações históricas do povo. Refletem seus costumes, tradições, sentimentos e cultura. ❑ Sua elaboração é lenta, imperceptível e espontânea pela vida social: costumes diferentes implicam em fatos sociais diferentes. ❑ Cada povo tem a sua histórica e seus fatos sociais. O Direito, como fenômeno de adaptação social, não pode ser alheio a isso e deve refletir os fatos sociais! ATENÇÃO: Os fatos sociais exercem forte influência no Direito (notadamente no Jus positum), todavia, não são condicionamento absoluto! Falhando a sociedade em estabelecer fatos sociais que contrariem, inclusive, à natureza social do homem, o Direito não deve acompanhá-la no erro. O PAPEL DO LEGISLADOR ❑ O DIREITO é criado pela sociedade para reger a própria vida social! ❑ No passado, ele se manifestava exclusivamente pelos costumes, quando era mais sensível à influência da vontade coletiva. ❑ Atualmente, o DIREITO ESCRITO é a forma predominante, com exceção de alguns países como a Inglaterra, Estados Unidos e alguns povos muçulmanos. ❑ O Estado moderno dispõe de um PODER PRÓPRIO para formulação do Direito: o Poder Legislativo. A ele compete a difícil e importante função de estabelecer o Direito. ❑ O legislador não é um mero espectador do PANORAMA SOCIAL. Quando da elaboração da lei, o legislador deverá considerar não apenas os FATORES SOCIAIS, mas também os HISTÓRICOS, NATURAIS E CIENTÍFICOS. Mas, afinal, o que é DIREITO? Para Nader (2026), as definições podem ser NOMINAIS ou REAIS(LÓGICAS). Nominais (significado em função do nome do objeto) Etimológica: origem, genealogia da palavra Direito. Semântica: explora os diversos sentidos da palavra ao longo do tempo. Reais ou lógicas (concentram-se na essência do objeto) “Direito é um conjunto de normas de conduta social, imposto coercitivamente pelo Estado, para a realização da segurança, segundo critérios de justiça” (Paulo Nader). “Conjunto de normas imperativas que regulam a vida em sociedade, dotadas de coercibilidade quanto à sua observância” (Gustavo Garcia). Mas, afinal, o que é DIREITO? Por viverem em sociedade, os seres humanos necessitam de regras e princípios que possibilitem esse convívio, permitindo evolução, harmonia e paz nas relações sociais. O Direito é exatamente esse conjunto de normas (Miguel Reale). CARACTERÍSTICAS 1. Normas de conduta social: fixam condutas de comportamento social; estabelecem os limites de liberdade para os indivíduos em sociedade. A norma Jurídica estabelece o limite entre o LÍCITO e o ILÍCITO. Impõem obrigações/permissões do ponto de vista social; 2. Imperatividade: obrigatoriedade na sua aplicação; 3. Coercibilidade: possibilidade de aplicação de mecanismos de COAÇÃO (ação de constranger, compelir, mediante força organizada, o cumprimento obrigatório da norma jurídica). 4. Sanção: consequência pelo descumprimento da norma, aplicada de forma organizada e predeterminada com o objetivo de garantir o respeito à ordem jurídica. Acepções da palavra DIREITO Doutores, o vocábulo DIREITO é polissêmico e saber distinguir cada um de seus sentidos é fundamental não apenas na esfera teórica, mas igualmente na prática! Vamos nessa! 1. Ciência do Direito: em lato sensu, ramo científico que investiga e sistematiza os CONHECIMENTOS JURÍDICOS. Em stricto sensu, é a particularização do saber jurídico, que toma por objeto de estudo o teor normativo de um determinado sistema jurídico. Dogmática Jurídica Investiga o Direito vigente em determinada sociedade e as questões relativas à sua interpretação e aplicação. Revela o SER DO DIREITO, aquele que é obrigatório, que se encontra posto. Dedica-se, portanto, às LEIS e aos CÓDIGOS. Zetética Jurídica Exemplos: Ciência do Direito Civil; Ciência do Direito Penal, etc. Não parte de verdades prontas, assumindo uma atitude de dúvida sistemática diante do Direito. Questiona fundamentos, analisa pressupostos, problematiza conceitos aparentemente óbvios. Revela o DEVER SER do DIREITO. Analisa o Direito com outras áreas do conhecimento como a Filosofia, Sociologia, História, Ciência Política e Antropologia. CIÊNCIA DO DIREITO ❑ Classificada entre as ciências culturais, humanas e sociais, tendo como objeto de estudo o comportamento humano, opondo-se às ciênciasnaturais, as quais estudam os fenômenos físicos ou naturais (Miguel Reale); ❑ A Ciência do Direito é uma ciência social normativa: estuda como as condutas dos homens devem se realizar, conforme determinação nas normas jurídicas. Acepções da palavra DIREITO DIREITO NATURAL: não é escrito, tampouco criado pela sociedade ou Estado. É um Direito espontâneo, que se origina da própria natureza social do homem e que é revelado pela conjugação entre a experiência e a razão. É constituído por um conjunto de princípios, e não de regras, de caráter universal, eterno e imutável. Exemplos: Direito à vida, à liberdade, à autodeterminação, à dignidade, etc.. DIREITO POSITIVO: aquele institucionalizado pelo Estado. É a ordem jurídica obrigatória em determinado lugar e tempo. O Direito Positivo pode ser escrito ou não! As normas costumeiras, que se manifestam pela oralidade, também constituem o Direito Positivo. Acepções da palavra DIREITO DIREITO OBJETIVO: É o direito como norma da organização social, em sentido teórico- científico. Chamado de norma agendi, designa o conjunto de preceitos que organiza a sociedade. DIREITO SUBJETIVO: É o direito que se projeta na relação jurídica (concretizado/individualizado), ou seja, em que a norma, perdendo seu caráter teórico, passa a permitir uma conduta ou estabelecer consequências jurídicas. Denominado como facultas agendi, consiste na possibilidade de agir e de exigir aquilo que as normas de Direito (objetivo) atribuem a alguém como próprio. É a partir do conhecimento do DIREITO OBJETIVO que deduzimos os DIREITOS SUBJETIVOS de cada parte dentro de uma RELAÇÃO JURÍDICA. Aula 04: Escolas do Pensamento Jurídico FUNDAMENTOS DO DIREITO E CIDADANIA Prof. Me. Igor Gomes Escolas e Teorias do Pensamento Jurídico 1) Jusnaturalismo (ou Escola do Direito Natural); 2) Escola da Exegese; 3) Escola Histórica do Direito 4) Escola do Direito Livre; 5) Realismo Jurídico; 6) Positivismo Jurídico; 7) Culturalismo Jurídico; 8)Pós-positivismo; Escolas e Teorias do Pensamento Jurídico: 1) JUSNATURALISMO PRINCIPAIS PONTOS Quando ocorreu: Da antiguidade clássica, passando pela Idade Média, até o século XVIII Nomes: Aristóteles, Tomás de Aquino, John Locke, Hugo Grócio, Samuel Pufendorf, Thomas Hobbes, Jean-Jacques Rousseau. Características: ▪ Existência de um Direito Natural, anterior e superior ao Direito Positivo; ▪ Fundamento na razão, na natureza humana ou na vontade divina; ▪ A lei injusta não é verdadeiro direito; ▪ Forte vinculação entre o Direito e a Moral; Janela de Contexto: Direito à vida e à liberdade como direitos que (devem) existem mesmo sem previsão legal; Crítica às leis que autorizavam a escravidão ou discriminação racial; Escolas e Teorias do Pensamento Jurídico: 1) JUSNATURALISMO Divide-se em: Teológico (Idade média) = Direito Natural com forte vinculação a vontade divina. Tomás de Aquino (Séc. XIII), Suma Teológica, estabelece uma hierarquia entre as leis. Lei eterna Lei divina Lei natural Lei humana Racional (Séc. XVII) = Direito Natural fundado na razão humana. Estado de natureza Estado Civil Pacto Social Hugo Grócio; John Locke; Thomas Hobbes; Jean-Jacques Rousseau Escolas e Teorias do Pensamento Jurídico: 2) Escola da Exegese PRINCIPAIS PONTOS Quando ocorreu: Século XIX, especialmente após as Codificações Napoleônicas (1804; 1808) Nomes: Jean-Étienne-Marie Portalis Características: ▪ Direito reduzido à Lei; ▪ Centralidade absoluta da lei escrita; ▪ Interpretação preponderantemente literal e gramatical, com pouca abertura para interpretação histórica e lógico-sistemática; ▪ O Juiz é visto como a “boca da lei”; ▪ Função judicial como um processo de dedução lógica (subsunção de fatos concretos à lei abstrata); ▪ Rejeição de qualquer criatividade/inovação judicial; Janela de Contexto: Aplicação estrita do texto legal mesmo quando o resultado pareça injusto; Decisões judiciais que se limitam a repetir o artigo da lei; Escolas e Teorias do Pensamento Jurídico: 3) Escola Histórica do Direito PRINCIPAIS PONTOS Quando ocorreu: Século XIX Nomes: Friedrich Carl Von Savigny (maior expoente da escola) Características: ▪ O Direito nasce da história e da cultura do povo (Volksgeist); ▪ Valorização dos costumes e da tradição; ▪ Crítica à codificação abstrata e artificial; Janela de Contexto: ▪ Defesa do Direito Consuetudinário; ▪ Crítica à importação de modelos jurídicos estrangeiros sem adaptação cultural; 1779-1861 Escolas e Teorias do Pensamento Jurídico: 4) Escola do Direito Livre PRINCIPAIS PONTOS Quando ocorreu: Final do Século XIX e início do Século XX Nomes: François Gény (na França); Ernst Kantorowicz (na Alemanha); Características: ▪ Contesta-se o primado da Lei; ▪ Reconhecimento das lacunas da lei; ▪ Valorização da atividade criativa do Juiz (Pode decidir de acordo com critérios de Justiça); ▪ Uso de critérios sociais, econômicos e morais; ▪ A Lei não esgota o Direito; Janela de Contexto: Juiz decide com base em costumes e realidade social quando a lei é omissa; Soluções equitativas em conflitos não previstos pelo legislador; Escolas e Teorias do Pensamento Jurídico: 5) Realismo Jurídico PRINCIPAIS PONTOS Quando ocorreu: Primeira metade do Século XX, principalmente em países como os Estados Unidos e países escandinavos (Noruega, Suécia e Dinamarca); Nomes: Oliver Wendell Holmes Jr. (estadunidense, considerado pai dessa corrente); Karl Llewellyn; Características: ▪ O Direito é aquilo que os tribunais efetivamente decidem; ▪ Ênfase nos fatos sociais e no comportamento dos Juízos; ▪ Crítica ao formalismo jurídico; ▪ Direito como prática e não abstração; ▪ Afasta-se de qualquer investigação metafísica, considera apenas a realidade jurídica; Janela de Contexto: Previsão do resultado de um processo com base no perfil do tribunal; Estudo estatístico das decisões judiciais; Escolas e Teorias do Pensamento Jurídico: 6) Positivismo Jurídico PRINCIPAIS PONTOS Quando ocorreu: Século XIX e início do Século XX Nomes: Hans Kelsen (austríaco); Jeremy Bentham (inglês); John Austin (inglês – “The Province of Jurisprudence Determined [1832]); Características: ▪ Separação entre o Direito e os valores morais, políticos, religiosos, filosóficos; ▪ Direito como norma posta pelo Estado; ▪ Direito como conjunto de normas (sistema normativo, ordenamento jurídico); ▪ Defesa da neutralidade do conteúdo do Direito; ▪ Validade formal da norma, não seu conteúdo moral; ▪ Centralidade da hierarquia normativa; Janela de Contexto: Aplicação da lei válida mesmo que considerada injusta; Controle de constitucionalidade baseado na forma e competência; 1881-1973 Escola Normativista do Direito Teoria Pura do Direito Escolas e Teorias do Pensamento Jurídico: 7) Culturalismo Jurídico PRINCIPAIS PONTOS Quando ocorreu: Século XX, especialmente no Brasil. Nomes: Miguel Reale (1910-2006) Características: ▪ Direito como fenômeno cultural; ▪ Integração entre FATO, VALOR e NORMA (Tridimensionalidade do Direito); ▪ Superação do normativismo puro; ▪ O Direito precisa ser compreendido dentro da cultura e da realidade social; Janela de Contexto: Intepretação da Lei à Luz dos valores sociais; Análise jurídica que considera contexto histórico e cultural; Escolas e Teorias do Pensamento Jurídico: 8) Pós-Positivismo PRINCIPAIS PONTOS Quando ocorreu: Segunda metade do século XX até os dias atuais. Nomes: Ronald Dworkin (estadunidense) e Robert Alexy (alemão) Características: ▪ Reaproximação entre Direito e Moral; ▪ Centralidade dos princípios jurídicos; ▪ Valorização da Constituição e dos direitos fundamentais; ▪ Uso da ponderação e da proporcionalidade; Janela de Contexto: Decisões judiciais baseadas em dignidade da pessoa humana; Ponderação entre liberdade de expressão e honra, vida privada, etc; Aula 05: Teoria da Norma Jurídica Prof. Me. Igor Gomes FUNDAMENTOS DO DIREITO E CIDADANIA Toda Norma é JURÍDICA? O conceito de NORMA é jurídico?Toda REGRA é uma NORMA? Toda LEI é uma NORMA? Noções iniciais ❑ Norma não é um conceito especificamente jurídico! Tem como sinônimos as palavras “regras” ou “comando”, p. ex. ❑ Existem normas que prescrevem uma técnica (“normas do fazer”) que, se seguidas, levarão a um resultado que é um produto. ❑ As normas jurídicas são as “normas do agir” e estabelecem comportamentos, prescrevem comandos de como a vida deve ser vivida. ❑ A norma jurídica pode ser apontada, ab initio, como uma “norma de agir” dotada de juridicidade e impessoalidade, o que possibilita sua exigência, ou, ao menos a criação de uma expectativa, de que seja cumprida em caráter de obrigatoriedade. Conceito de Norma Jurídica: ❑ O Direito Positivo, em todos os sistemas, compõe-se de NORMAS JURÍDICAS, que são padrões de conduta ou de organização social impostos pelo Estado, para que seja possível a convivência dos homens em sociedade. ❑ São fórmulas de agir, determinações que fixam as pautas do comportamento interindividual: a conduta exigida ou o modelo imposto de organização social. NORMA LEIREGRA Conceito de Norma Jurídica “Norma Jurídica é uma norma de conduta, tendo como fim regular o comportamento das pessoas e grupos, prescrevendo como cada um deve conduzir-se” (Garcia, 2026, p.132). Norma Jurídica Imperativo Autorizante “A norma jurídica é imperativa porque prescreve as condutas devidas e os comportamentos proibidos e, por outro lado, é autorizante, uma vez que permite ao lesado pela sua violação exigir o seu cumprimento, a reparação do dano causado ou ainda a reposição das coisas ao estado anterior” (Maria Helena Diniz). Classificação Preliminar das Normas Jurídicas 1. Quanto à imperatividade: 1.1. Normas cogentes ou de ordem pública (normas de imperatividade absoluta): ordenam ou proíbem algo de modo absoluto, não podendo ser modificadas pelas partes; 1.2. Normas dispositivas (normas de imperatividade relativa): não ordenam nem proíbem de modo absoluto, mas sim permitem ação ou abstenção. Exemplos: 1.2.1. Art. 1.640 do CC/02: “Não havendo convenção, ou sendo ela nula ou ineficaz, vigorará, quanto aos bens entre os cônjuges, o regime da comunhão parcial”. 1.2.2. Art.287 do CC/02: “Salvo disposição em contrário, na cessão de um crédito abrangem-se todos os seus acessórios”. Classificação Preliminar das Normas Jurídicas 2. Quanto ao autorizamento: 2.1. Normas mais que perfeitas: quando violadas autorizam a aplicação de 2 sanções: 1) nulidade do ato praticado e o restabelecimento do status quo; 2) aplicação de pena àquele que violou a norma; Ex: Art.235 do CPB (nulidade + sanção penal) 2.2. Normas perfeitas: quando violadas autorizam apenas a declaração de nulidade do ato ou a sua anulabilidade; Ex: Art.1548,II, c/c art.1521, VI, ambos do CC/02; art.166 CC/02 (apenas nulidade do ato); 2.3. Normas menos que perfeitas: quando violadas autorizam apenas a aplicação de pena àquele que as desrespeitou; Ex: art.1.523 c/c art.1641,I, ambos do CC/02 (apenas consequência jurídica). 2.4. Normas imperfeitas: a violação não acarreta qualquer consequência jurídica; Ex: Art.814 do CC/02: “As dívidas de jogo ou aposta não obrigam a pagamento;[...]”. Funções da Norma Jurídica: 1) Normas de Conduta: finalidade de disciplinar/regular comportamentos e atividades das pessoas e dos grupos na sociedade; 2) Normas de organização: apresentam natureza instrumental, tem como finalidade estabelecer a estrutura e o funcionamento dos órgãos, bem como disciplinar processos e procedimentos de aplicação de outras normas jurídicas; “As normas de organização podem, de uma forma relativa, ser consideradas secundárias ou de segundo grau, pelo fato de pressuporem as que estabelecem as formas de atividade ou de comportamento obrigatórios, isto é, as primárias ou de primeiro grau, mas essa essa qualificação não deve significar uma escala de importância: no fundo, todas as regras jurídicas têm maior ou menor grau de instrumentalidade, como os meios que são à consecução de valores e interesses individuais e coletivos (Miguel Reale). Norma Primária e Norma Secundária ❖ Para Hans Kelsen, da estrutura lógica da Norma Jurídica decorrem uma “norma primária” (define o dever jurídico em face de determinado fato jurídico) e uma “norma secundária” (estabelece uma sanção para a hipótese de violação do dever jurídico). NORMA PRIMÁRIA: “Dado FT, deve ser P” = Em determinado fato/circunstância deve ser feita a prestação/dever. Ex: O homem que possui filho menor de idade, deve prestar-lhe assistência moral e material. FT P Norma Secundária: “Dado ñP, deve ser S” = Dada a não prestação, deve ser aplicada a sanção. Ex: O pai que não prestou assistência moral/material ao filho deve ser submetido a uma penalidade. ñP S Estrutura Lógica da Norma Jurídica e a Teoria Tridimensional do Direito Se A é, B deve ser; Se ñB, então C. ❖ A = fato/situação/circunstância (ou hipótese normativa); ❖ B = conduta (preceito; aquilo que a norma jurídica prescreve para a hipótese normativa); ❖ C = sanção aplicável (ou consequência jurídica); Primária Secundária E COMO ISSO SE APLICA A TEORIA TRIDIMENSIONAL DO DIREITO? FATO VALOR NORMA DIREITO Estrutura lógica das NORMAS – Quadro comparativo TIPO DE NORMA ESQUEMA INTERPRETAÇÃO Moral Deve ser A Impõe-se por si própria. Técnica Se A é, tem que ser B Ao escolher um fim(A), tem-se que adotar um meio (B). Jurídica Se A é, B deve ser, sob pena de C Sob determinação situação/condição/fato (A), deve-se agir de acordo com o que for previsto em B, sob pena de sofrer uma sanção (C). Classificação das Normas Jurídicas 1) Quanto ao Sistema a que pertencem 2) Quanto à fonte de origem 3) Quanto ao âmbito de validade 4) Quanto à qualidade A. Nacionais B. Estrangeiras C. De Direito Uniforme A. Legislativas B. Consuetudinárias C. Jurisprudenciais A. Gerais B. Locais A. Positivas (ou permissivas) B. Negativas (ou proibitivas) Dimensões da Norma Jurídica ❑ A norma jurídica não deve ser analisada apenas sob o ponto de vista FORMAL, mas também de incidência real na sociedade. ❑ Para compreensão do funcionamento do DIREITO, a Teoria da Norma Jurídica costuma distinguir quatro dimensões fundamentais da norma, são elas: VIGÊNCIA EFICÁCIA EFETIVIDADE LEGITIMIDADE Norma existe juridicamente Norma pode produzir efeitos Norma realmente produz efeitos na prática; Norma é aceita socialmente; A norma está em vigor? A norma pode ser aplicada? A norma é obedecida? A norma é justa? VIGÊNCIA DA NORMA JURÍDICA ❑ É a existência formal da norma no ordenamento jurídico, isto é, o período em que ela possui validade jurídica e obrigatoriedade normativa. ❑ Uma norma está vigente quando: ❑ Vigência significa que a norma faz parte do sistema jurídico e deve ser obedecida. ❑ A vigência depende da entrada em vigor da lei, que pode ocorrer: 1) imediatamente após a publicação; ou 2) após um período de vacatio legis. 1. foi criada de acordo com o processo legislativo competente; 2. foi promulgada e publicada; 3. entrou em vigor. VIGÊNCIA DA NORMA JURÍDICA ❑ A Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro (Decreto-Lei nº 4.657/1942) disciplina que: Art. 1o Salvo disposição contrária, a lei começa a vigorar em todo o país quarenta e cinco dias depois de oficialmente publicada. § 1o Nos Estados estrangeiros, a obrigatoriedade da lei brasileira, quando admitida, se inicia três meses depois de oficialmente publicada. § 3o Se, antes de entrar a lei em vigor, ocorrer nova publicação de seu texto, destinada a correção, o prazo deste artigo e dos parágrafos anteriores começará a correr da nova publicação. § 4o As correções a texto de lei já em vigor consideram-se lei nova. Art. 2o Não se destinando à vigência temporária, a lei terá vigor até que outra a modifique ou revogue. § 1o A lei posterior revoga a anterior quando expressamente o declare, quando seja com ela incompatível ou quando regule inteiramente a matéria de que tratavaa lei anterior. § 3o Salvo disposição em contrário, a lei revogada não se restaura por ter a lei revogadora perdido a vigência. EFICÁCIA DA NORMA JURÍDICA ❑ Capacidade da norma jurídica de produzir efeitos jurídicos. ❑ Uma norma jurídica eficaz é aquela que pode ser aplicada pelos órgãos do Estado; ❑ A doutrina constitucional brasileira (José Afonso da Silva) costuma classificar as normas em: 1) Eficácia plena; 2) Eficácia contida; 3) Eficácia limitada; CF/88: Art. 5º [...] XIII - “É livre o exercício de qualquer trabalho, ofício ou profissão, atendidas as qualificações profissionais que a lei estabelecer.” Análise: Norma com vigência; mas de eficácia contida (pode produzir efeitos imediatamente, todavia pode sofrer restrições por lei posteriormente editada). EFETIVIDADE DA NORMA JURÍDICA ❑ É o grau de cumprimento real da norma na vida social. ❑ Uma norma é efetiva quando ❑ Significa que a norma existe “no papel” e também influencia a realidade social. ❑ Uma norma pode ser vigente juridicamente, eficaz e, mesmo assim, não ser efetiva . Isso decorre, por exemplo, de 1) baixa fiscalização; 2) resistência social; 3) dificuldades estruturais. Exemplo Lei que proíbe dirigir utilizando telefone celular. 1. É observada na prática; 2. Orienta o comportamento das pessoas; 3. Produz resultados concretos na sociedade; LEGITIMIDADE DA NORMA JURÍDICA ❑ Refere-se à aceitação social e moral da norma jurídica. ❑ Uma norma é legítima quando é percebida como JUSTA; quando possui reconhecimento social; ou seja, é compatível com os valores da comunidade. ❑ A legitimidade está relacionada ao fundamento ético e social do Direito, envolve aspectos: políticos; sociais; morais. ❑ Mesmo uma norma 1) vigente; e 2) eficaz; pode enfrentar questionamentos de legitimidade se a sociedade a considerar injusta. ❑ Exemplos: Leis autoritárias em regimes ditatoriais. Essas normas podem ser: 1) formalmente vigentes; 2) juridicamente aplicáveis; mas podem carecer de legitimidade democrática, pois não refletem a vontade social. Instituto Jurídico ❑ É a reunião de normas jurídicas afins, que rege um tipo de relação social ou interesse e se identifica pelo fim que procura realizar. ❑ Atributos: Harmonia, coerência, lógica e unidade de finalidade. ❑ Tem por finalidade regulamentar uma categoria/tipo de relação ou de interesse. ❑ Exemplos: Adoção, Poder Familiar, Naturalização, hipoteca, etc. ❑ A reunião de diversos institutos jurídicos formam um RAMO JURÍDICO. Slide 1 Slide 2 Slide 3 Slide 4 Slide 5 Slide 6 Slide 7 Slide 8 Slide 9 Slide 10 Slide 11 Slide 12 Slide 13 Slide 14 Slide 15 Slide 16 Slide 17 Slide 18