Prévia do material em texto
1 DOI: 10.55905/rdelosv18.n74-063 ISSN: 1988-5245 Originals received: 10/10/2025 Acceptance for publication: 11/7/2025 Revista DELOS, Curitiba, v.18, n.74, p. 01-21, 2025 jan. 2021 Síndrome de Wernicke-Korsakoff: um distúrbio neurológico desencadeado pela falta de tiamina e sua correlação com pacientes bariátricos Wernicke-Korsakoff syndrome: a neurological disorder triggered by thiamine deficiency and its correlation with bariatric patients Síndrome de Wernicke-Korsakoff: un trastorno neurológico desencadenado por la falta de tiamina y su correlación con pacientes bariátricos Guilherme Courradesqui de Araujo Graduando em Medicina Instituição: Universidade do Grande Rio Endereço: Rio de Janeiro – Rio de Janeiro, Brasil E-mail: gcourradesqui@gmail.com Brunno Alexander dos Santos Graduando em Medicina Instituição: Universidade do Grande Rio Endereço: Rio de Janeiro – Rio de Janeiro, Brasil E-mail: brunnoalexander28@gmail.com Jonas Martins Rodrigues Graduando em Medicina Instituição: Universidade do Grande Rio Endereço: Rio de Janeiro – Rio de Janeiro, Brasil E-mail: jonasmr5301@gmail.com Júllia Lima de Carvalho Graduanda em Medicina Instituição: Universidade do Grande Rio Endereço: Casimiro de Abreu – Rio de Janeiro, Brasil E-mail: carvalhojullia00@gmail.com Maurício Cupello Peixoto Doutor em Biologia Instituição: Universidade do Estado do Rio de Janeiro Endereço: Rio de Janeiro – Rio de Janeiro, Brasil E-mail: mauricio.peixoto@afya.com.br RESUMO A obesidade é uma doença crônica multifatorial associada a elevada morbimortalidade e frequentemente tratada por meio da cirurgia bariátrica em casos graves. Apesar de eficaz na perda de peso e melhora das comorbidades, esse procedimento pode ocasionar deficiências nutricionais, destacando-se a deficiência de tiamina (vitamina B1), responsável pelo desenvolvimento da Síndrome de Wernicke-Korsakoff (SWK), condição neurológica mailto:gcourradesqui@gmail.com mailto:brunnoalexander28@gmail.com mailto:jonasmr5301@gmail.com mailto:carvalhojullia00@gmail.com mailto:mauricio.peixoto@afya.com.br 2 Revista DELOS, Curitiba, v.18, n.74, p. 01-21, 2025 potencialmente grave. Este estudo teve como objetivo investigar a correlação entre a cirurgia bariátrica e o surgimento da SWK, enfatizando fatores de risco, manifestações clínicas e estratégias de prevenção. A metodologia adotada foi uma revisão integrativa de literatura, com busca realizada nas bases PubMed, BVS e SciELO, utilizando descritores relacionados à SWK, cirurgia bariátrica e deficiência de tiamina. Foram incluídos artigos publicados entre 2015 e 2025, em português, inglês e espanhol, totalizando 24 estudos após aplicação dos critérios de elegibilidade. Os resultados mostraram predominância de casos em mulheres jovens (75%), com média de 28,5 anos, surgimento dos sintomas nos três primeiros meses pós-operatórios e manifestações oculares como principal achado clínico. A reposição precoce de tiamina em altas doses endovenosas apresentou melhor resposta terapêutica. Observou-se, ainda, subdiagnóstico decorrente de sintomas inespecíficos e da ausência da tríade clássica. Conclui-se que a deficiência de tiamina representa um risco relevante no pós-operatório bariátrico, sendo fundamental o diagnóstico precoce, a reposição imediata e o acompanhamento nutricional contínuo. Protocolos de prevenção e educação em saúde devem ser implementados para reduzir complicações neurológicas e promover um cuidado integral aos pacientes bariátricos. Palavras-chave: cirurgia bariátrica, síndrome de Wernicke-Korsakoff, deficiência de tiamina, encefalopatia de Wernicke, complicações neurológicas, suplementação vitamínica. ABSTRACT Obesity is a chronic multifactorial disease associated with high morbidity and mortality, often treated through bariatric surgery in severe cases. Although effective for weight loss and improvement of comorbidities, this procedure can lead to nutritional deficiencies, particularly thiamine (vitamin B1) deficiency, which is responsible for the development of Wernicke- Korsakoff Syndrome (WKS), a potentially severe neurological condition. This study aimed to investigate the correlation between bariatric surgery and the onset of WKS, emphasizing risk factors, clinical manifestations, and preventive strategies. The methodology adopted was an integrative literature review, with searches conducted in the PubMed, BVS, and SciELO databases using descriptors related to WKS, bariatric surgery, and thiamine deficiency. Articles published between 2015 and 2025 in Portuguese, English, and Spanish were included, totaling 24 studies after applying the eligibility criteria. The results showed a predominance of cases in young women (75%), with a mean age of 28.5 years, symptom onset within the first three postoperative months, and ocular manifestations as the main clinical finding. Early thiamine replacement with high intravenous doses showed the best therapeutic response. Underdiagnosis was also observed, resulting from nonspecific symptoms and the absence of the classic triad. It is concluded that thiamine deficiency represents a significant risk in the postoperative period of bariatric surgery, making early diagnosis, immediate replacement, and continuous nutritional monitoring essential. Preventive protocols and health education should be implemented to reduce neurological complications and promote comprehensive care for bariatric patients. Keywords: bariatric surgery, Wernicke-Korsakoff syndrome, thiamine deficiency, Wernicke encephalopathy, neurological complications, vitamin supplementation. RESUMEN La obesidad es una enfermedad crónica multifactorial asociada con una alta morbilidad y mortalidad, que frecuentemente se trata mediante cirugía bariátrica en casos graves. Aunque es eficaz para la pérdida de peso y la mejora de las comorbilidades, este procedimiento puede 3 Revista DELOS, Curitiba, v.18, n.74, p. 01-21, 2025 ocasionar deficiencias nutricionales, destacándose la deficiencia de tiamina (vitamina B1), responsable del desarrollo del Síndrome de Wernicke-Korsakoff (SWK), una condición neurológica potencialmente grave. Este estudio tuvo como objetivo investigar la correlación entre la cirugía bariátrica y la aparición del SWK, enfatizando los factores de riesgo, las manifestaciones clínicas y las estrategias de prevención. La metodología adoptada fue una revisión integrativa de la literatura, con búsqueda realizada en las bases de datos PubMed, BVS y SciELO, utilizando descriptores relacionados con el SWK, la cirugía bariátrica y la deficiencia de tiamina. Se incluyeron artículos publicados entre 2015 y 2025, en portugués, inglés y español, totalizando 24 estudios tras la aplicación de los criterios de elegibilidad. Los resultados mostraron predominio de casos en mujeres jóvenes (75%), con una edad media de 28,5 años, aparición de los síntomas en los tres primeros meses posoperatorios y manifestaciones oculares como principal hallazgo clínico. La reposición temprana de tiamina en altas dosis intravenosas presentó la mejor respuesta terapéutica. También se observó un subdiagnóstico derivado de síntomas inespecíficos y de la ausencia de la tríada clásica. Se concluye que la deficiencia de tiamina representa un riesgo relevante en el posoperatorio bariátrico, siendo fundamental el diagnóstico precoz, la reposición inmediata y el seguimiento nutricional continuo. Deben implementarse protocolos de prevención y educación en salud para reducir las complicaciones neurológicas y promover una atención integral a los pacientes bariátricos. Palabras clave: cirugía bariátrica, síndrome de Wernicke-Korsakoff, deficiencia de tiamina, encefalopatía de Wernicke, complicaciones neurológicas, suplementación vitamínica. 1 INTRODUÇÃO A obesidadeé uma doença crônica multifatorial caracterizada por adiposidade excessiva que leva a uma condição inflamatória generalizada que potencializa riscos de doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs) (Frühbeck et al., 2019). Tal condição é influenciada por fatores combinados, como genética, ambiente, hormônios e comportamento. Estima-se que nos últimos anos a obesidade tem aumentado de forma significativa, sobretudo em função da adoção de alguns hábitos alimentares e estilos de vida. O tratamento com cirurgia bariátrica tem se mostrado mais efetivo para pacientes com obesidade extrema, visto que medidas não invasivas como estímulo à mudança de estilo de vida e medicamentos se mostram ineficazes (Jelakovic et al., 2023). A cirurgia bariátrica trata-se do método de tratamento para obesidade mórbida mais eficaz a longo prazo atualmente, sendo constatados avanços nas técnicas e diminuição de riscos relacionados, com mais de meio milhão de procedimentos bariátricos realizados anualmente no mundo todo, com aumento exponencial na última década. Mesmo com a minimização de riscos 4 Revista DELOS, Curitiba, v.18, n.74, p. 01-21, 2025 referentes à prática do procedimento, essa alternativa de tratamento pode gerar alterações metabólicas relevantes para a manutenção da saúde do paciente, como a influência negativa na absorção gástrica de vitaminas e micronutrientes (Oudman et al., 2018). Quando a tiamina é afetada por essa condição, o corpo privado dessa molécula após cirurgias bariátricas, seja pela má absorção, pelos episódios de vômitos recorrentes ou pela não adesão à suplementação vitamínica, pode sofrer com o desenvolvimento de patologias relacionadas, como a Síndrome de Wernicke-Korsakoff. O desenvolvimento da síndrome tendo a cirurgia bariátrica como fator etiológico é considerada rara e pode promover inobservância diagnóstica devido a isso. No entanto, casos que correlacionam as duas condições estão sendo descritos nos últimos 40 anos, com desenvolvimento dentro dos primeiros seis meses após realização da cirurgia, com desdobramento mais precoce em pacientes que já apresentavam deficiência tiamínica previamente (Chang et al., 2019). A incidência dessa síndrome após os casos de cirurgias bariátricas, gerando sinais e sintomas neurológicos, é de menos de 1% dos pacientes que se submetem aos procedimentos operatórios de perda de peso (Punchai et al., 2017). No entanto, deve-se considerar o subdiagnóstico dessa síndrome de sinais e sintomas neurológicos inespecíficos, com possível velação do número real de casos referentes à Síndrome Wernicke-Korsakoff atrelada à cirurgia bariátrica. Além do mais, tal problema pode ser devido a diagnósticos rejeitados por manifestação de apenas um sintoma ou por não cumprir os critérios da tríade clássica: confusão mental, sinais oculares e ataxia (Chang et al., 2019). A síndrome de Wernicke-Korsakoff (SWK) é um distúrbio neurológico debilitante associado à deficiência de tiamina, também chamada de vitamina B1, que afeta o Sistema Nervoso Central e Periférico (Isenberg-Grzeda et al., 2016). A causa mais conhecida é o alcoolismo crônico, mas pode estar relacionada a outros fatores, como a cirurgia bariátrica. Essa síndrome neuropsiquiátrica foi descoberta no final do século XIX, tendo sido descrita por Carl Wernicke e Sergei Korsakoff (Chandrakumar et al., 2019). Em 1881, Carl Wernicke descreveu pela primeira vez uma patologia de início súbito, caracterizada por paralisia dos movimentos oculares, marcha atáxica e confusão mental, ao atender três pacientes: dois etilistas e um com vômitos persistentes após ingestão de ácido sulfúrico, os quais se apresentaram com estupor progressivo, evoluindo para coma e morte. Seis 5 Revista DELOS, Curitiba, v.18, n.74, p. 01-21, 2025 anos depois, em 1887, Sergei Korsakoff, realizou um estudo ressaltando a relação entre a polineuropatia e a desordem de memória (Blansjaar et al., 1991). Ocasionada pela deficiência de tiamina no organismo, a doença é dividida em dois momentos. O estágio inicial consiste na chamada encefalopatia de Wernicke (fase aguda da síndrome), caracterizada por ataxia, distúrbios dos movimentos oculares e alterações do estado mental, as quais, juntas, compõem a tríade clássica da manifestação desse estágio da síndrome. Posteriormente, caso não ocorra um diagnóstico e tratamento adequado, o processo patológico progride para uma cronificação, a qual caracteriza a síndrome de Korsakoff, que envolve um quadro de amnesia anterógrada e retrógrada e alucinações. Caso esse momento não seja tratado, pode levar o indivíduo à morte (Day et al., 2013). A tríade sintomatológica que caracteriza essa síndrome neuropsiquiátrica, embora clássica, está presente em apenas 16% dos casos, sejam esses oriundos de fatores alcóolicos, bariátricos, jejum prolongado, desnutrição, dentre outros. Isso dificulta de forma significativa o diagnóstico, sendo necessário um preparo do profissional da saúde em relação aos sinais e sintomas da doença, objetivando implementar intervenções emergenciais para melhorar o prognóstico do paciente (Silva; Enes, 2013; Dhir et al., 2019; Kotha; De Souza, 2013). A vitamina B1 é um micronutriente que deve ser obtida pela alimentação, uma vez que não é produzida pelo próprio organismo. Carne bovina, cereais, leguminosas, nozes e leveduras secas são as principais fontes dessa vitamina (Dhir et al., 2019; Kotha; De Souza, 2013). A tiamina é uma vitamina hidrossolúvel integrante do complexo B, desempenhando função essencial no organismo devido a sua participação na produção de neurotransmissores e a sua função em reações metabólicas. Quanto ao metabolismo dos carboidratos, por exemplo, a tiamina é essencial para a quebra e conversão de carboidratos, sobretudo glicose, em energia. Ela é, portanto, um importante cofator enzimático do catabolismo da glicose-6- fosfato, uma vez que apresenta associação com alfacetoglutarato desidrogenase e piruvato desidrogenase do ciclo de Krebs e a transcetolase da via das pentoses fosfato (Júnior; Lemos, 2010). A vitamina B1 assume também papel preponderante na síntese de acetilcolina – neurotransmissor vital para a comunicação de células nervosas (Dhir et al., 2019). A espoliação de tiamina promove uma redução dos níveis de produção aeróbica, gerando um acúmulo de ácido lático e espécies reativas de oxigênio e, por conseguinte, morte celular. Esse quadro 6 Revista DELOS, Curitiba, v.18, n.74, p. 01-21, 2025 metabólico, no cérebro, resulta em lesões nos núcleos mediais do tálamo, placa tectal do mesencéfalo, corpos mamilares, regiões periventriculares do terceiro ventrículo e área periaquedutal (Isenberg-Grzeda et al., 2016). Por conta do seu papel energético, a disfunção de tiamina reduz o metabolismo dos componentes celulares de carboidrato e trifosfato de adenosina (ATP), acarretando no aumento da concentração de lactato, o que gera edema, gliose reativa no cérebro e perda de neurônios (Covell; Siddiqui, 2019; Donnelly, 2017; Van Tilborg et al., 2011). A SWK, portanto, pode ser suspeitada em pacientes que apresentam sintomas característicos e um distúrbio que cause deficiência de tiamina, como na cirurgia bariátrica. O diagnóstico é majoritariamente definido pela clínica do paciente, pois não existem exames de rotina específicos que forneçam resultados precoces e eficazes quanto à presença da doença. No entanto, métodos de imagem - como a ressonância magnética e tomografia computadorizada - podem ser valiosos para detectar lesões típicas da síndrome, a exemplo do edema citotóxico e vasogênico, atrofia na área talâmica, nos copos mamilares ou na substância cinzenta periaquedutal (Silva; Enes, 2013). O tratamento da SWK, que é considerada uma emergência médica, consiste na administração intravenosa ou intramuscular de tiamina, cuja finalidade é reverteros déficits neurológicos agudos associados à encefalopatia de Wernicke e prevenir a progressão para a síndrome de Korsakoff. Além da terapia com tiamina, o suporte nutricional e a eliminação de outros fatores de risco, como o alcoolismo, são essenciais para o tratamento de longo prazo (Oudman et al., 2019; Yoon et al., 2019). A síndrome de Wernicke-Korsakoff é frequentemente subdiagnosticada. Sob essa perspectiva, a relevância do tema escolhido pauta-se na necessidade de aprofundar o entendimento sobre seus mecanismos fisiopatológicos, manifestações clínicas e abordagens terapêuticas no contexto da deficiência de tiamina em pacientes submetidos à cirurgia bariátrica. Essa investigação detalhada possibilita não apenas compreender a relação entre intervenções cirúrgicas e déficits nutricionais críticos, mas também identificar precocemente sinais de encefalopatia de Wernicke e sua progressão para a psicose de Korsakoff. Ademais, o aprofundamento do conhecimento da SWK permite conscientizar profissionais de saúde e a sociedade sobre a importância da nutrição adequada, da suplementação vitamínica e da vigilância clínica contínua, contribuindo para estratégias terapêuticas mais eficazes. Nesse 7 Revista DELOS, Curitiba, v.18, n.74, p. 01-21, 2025 sentido, a disseminação desse conhecimento favorece a capacitação de profissionais, a implementação de protocolos clínicos aprimorados e a promoção de melhores desfechos clínicos, reafirmando a relevância do estudo como ferramenta essencial para prevenção de complicações neurológicas e otimização do cuidado integral ao paciente. Desse modo, o objetivo do presente trabalho trata-se da investigação acerca da correlação entre a cirurgia bariátrica e o desenvolvimento da síndrome de Wernicke Korsakoff, avaliando os impactos das deficiências nutricionais, especialmente de tiamina, e a importância da prevenção e manejo para minimizar riscos associados a essa condição em pacientes pós- operatórios. 2 METODOLOGIA O presente trabalho consiste em uma revisão integrativa de literatura, método que permite reunir, organizar e sintetizar de forma crítica o conhecimento já produzido acerca do tema investigado, favorecendo a utilização prática dos achados de pesquisas significativas. Essa abordagem permite uma análise crítica e sistemática das informações disponíveis na bibliografia. Assim, a revisão integrativa oferece uma perspectiva ampla ao contemplar diferentes tipos de estudos, sejam eles de natureza quantitativa ou qualitativa. A busca bibliográfica foi realizada nas bases de dados PubMed, Biblioteca Virtual em Saúde e SciELO, utilizando-se os principais descritores em inglês, devidamente cadastrados no DeCS e MeSH: “Wernicke Encephalopathy”, “Korsakoff Syndrome”, “Wernicke-Korsakoff Syndrome”, “Bariatric Surgery”, “Gastric Bypass”, “Obesity Surgery”, “Thiamine Deficiency”, “Vitamin B1”. Para ampliar a precisão dos resultados, os termos foram combinados por meio dos operadores booleanos AND e OR, possibilitando identificar estudos que contemplassem a inter- relação entre as temáticas. Desse modo, a seguinte combinação foi aplicada nas bases de dados supracitadas: (“Wernicke Encephalopathy” OR “Korsakoff Syndrome” OR “Wernicke- Korsakoff Syndrome”) AND (“Bariatric Surgery” OR “Gastric Bypass” OR “Obesity Surgery”) AND (“Thiamine Deficiency” OR “Vitamin B1”). Foram incluídos trabalhos publicados nos últimos dez anos (2015–2025), em português, inglês e espanhol, disponíveis na íntegra e gratuitamente. Excluíram-se trabalhos duplicados, revisões de literatura e que não contemplassem a inter-relação trazida pela temática da pesquisa. 8 Revista DELOS, Curitiba, v.18, n.74, p. 01-21, 2025 3 RESULTADOS A busca resultou em um total de 230 artigos, sendo 106 artigos do PubMed, 121 artigos da BVS e 3 artigos da SciELO. Após a aplicação dos critérios de inclusão e exclusão foram selecionados 17 artigos no Pubmed, 18 artigos na BVS e 2 artigos na SciELO. No entanto, foram encontrados 5 artigos duplicados nos bancos de dados que foram excluídos, conforme apresentado na figura 1. Figura 1. Sistematização dos resultados obtidos nas bases do PubMed, BVS e SciELO. Fonte. Elaborado pelos autores (2025) A Tabela 1 apresenta uma análise integrada de vinte e quatro estudos que investigaram a corrrelação entre a deficiência de tiamina em pacientes submetidos à cirurgia bariátrica e o desenvolvimento da Síndrome de Wernicke-Korsakoff. A análise dos casos reportados na literatura revela padrões clínicos, demográficos e terapêuticos que permitem uma compreensão 9 Revista DELOS, Curitiba, v.18, n.74, p. 01-21, 2025 mais aprofundada da apresentação e manejo desta condição. Entre os pacientes avaliados, predominou o sexo feminino (75%), refletindo a maior frequência de cirurgias bariátricas nesse grupo populacional, com idade média de 28,5 anos, variando de 11 a 61 anos. Notavelmente, a maioria dos casos (≈79%) ocorreu em indivíduos com idade entre 20 e 40 anos, sugerindo que a faixa etária jovem-adulta representa um grupo de risco significativo. O intervalo entre a cirurgia e o início dos sintomas apresentou ampla variabilidade, com 71% dos pacientes manifestando sinais clínicos nos primeiros três meses pós-operatórios. Entretanto, relatos de início tardio, até 11 meses após o procedimento, demonstram que a vulnerabilidade à deficiência de tiamina persiste por períodos prolongados, sobretudo na presença de fatores predisponentes, como vômitos recorrentes, dieta restritiva ou suplementação inadequada. As manifestações clínicas foram predominantemente neurológicas, com 83% dos pacientes apresentando sinais oculares, incluindo nistagmo, diplopia e oftalmoplegia, corroborando a literatura que aponta os sintomas oculares como o marcador mais sensível da EW. Alterações cognitivas, como confusão mental, foram observadas em 46% dos casos, enquanto vômitos persistentes ou recorrentes ocorreram em 42%, fraqueza em membros superiores e inferiores em 37%, e ataxia em 29%. Casos menos frequentes envolveram déficits visuais abruptos e perda auditiva, evidenciando a diversidade de apresentações clínicas que podem complicar o diagnóstico precoce. Os achados radiológicos apresentaram considerável heterogeneidade. Aproximadamente 38% dos pacientes exibiram alterações na ressonância magnética compatíveis com EW, afetando predominantemente tálamos, corpos mamilares e região periaquedutal. Em contraste, 42% dos casos apresentaram exames normais, e 20% não realizaram a RM ou tiveram resultados inconclusivos, ressaltando que a normalidade radiológica não exclui o diagnóstico. Em alguns casos, alterações mais específicas, como hiperintensidade simétrica em T2 e restrição à difusão nos corpos mamilares, foram correlacionadas a apresentações clínicas mais severas, incluindo tetraplegia, coma e déficits visuais significativos. O tratamento com reposição de tiamina revelou-se eficaz na maioria dos casos, mas com variação dependendo da dose, via de administração e tempo de intervenção. Altas doses intravenosas (≥500 mg/dia) foram utilizadas em 54% dos pacientes, associando-se a melhora clínica rápida, frequentemente observada entre 12 e 72 horas. Esquemas moderados (100–200 10 Revista DELOS, Curitiba, v.18, n.74, p. 01-21, 2025 mg/dia) ou terapias escalonadas de EV para VO foram observados em 38% dos casos, apresentando resposta variável, especialmente em pacientes com início tardio dos sintomas. Um caso não recebeu tratamento, posteriormente identificado como transtorno conversivo, destacando a importância do diagnóstico diferencial. A evolução clínica rápida (≤3 dias) ocorreu em 54% dos pacientes, evolução moderada (4 dias a 2 semanas) em 29%, e evolução prolongada (≥1 mês) em 12%, evidenciando que a rapidez da reposição de tiamina é um determinante críticopara a recuperação neurológica. Comparando os casos entre si, observa-se que pacientes tratados precocemente com altas doses de tiamina EV, independentemente da normalidade da RM, apresentaram melhora consistente e rápida dos sintomas, reforçando a premissa de que o tratamento deve ser baseado na suspeita clínica e não apenas em achados radiológicos. Casos com início tardio ou evolução prolongada de sintomas tendem a apresentar recuperação mais lenta, como ilustrado por pacientes com melhora apenas após quatro semanas, e podem apresentar complicações adicionais, incluindo déficits visuais ou auditivos permanentes. Em síntese, a análise integrativa dos 24 casos reforça que a encefalopatia de Wernicke pós-cirurgia bariátrica é predominantemente observada em mulheres jovens, com início precoce de sintomas neurológicos e oculares nos primeiros meses após o procedimento. A heterogeneidade dos achados radiológicos, aliada à eficácia comprovada da reposição imediata de tiamina em altas doses, enfatiza a necessidade de vigilância nutricional rigorosa e de intervenção terapêutica precoce, independentemente da normalidade da ressonância magnética. Estes achados têm implicações clínicas diretas, destacando que a prevenção, o diagnóstico precoce e o manejo adequado da deficiência de tiamina são fundamentais para evitar sequelas neurológicas permanentes em pacientes submetidos à cirurgia bariátrica. Tabela 1. Caracterização dos artigos conforme principais resultados. N Título Autor e ano Sexo e idade Tempo pós- cirurgia Principais sintomas RM Tratamento Evolução I Wernicke Encephalopathy Following Gastric Bypass: A Case Report (Glisan; Khan, 2022) F, 40a 2 meses Nistagmo, fraqueza MMII, ↓ expressão facial Lesões em corpos mamilares e tálamos Tiamina EV altas doses Melhora em dias (não detalhado) II Case Report: Wernicke- Korsakoff (Bento et al., 2024) F, 24a 2 meses Diplopia, nistagmo, vertigem Normal Tiamina EV 100mg ×3d Melhora em 3 dias 11 Revista DELOS, Curitiba, v.18, n.74, p. 01-21, 2025 Syndrome After Bariatric Surgery III Beri-Beri And Wernicke Encephalopathy In A Thirty- Year-Old Male (Lobao et al., 2022) M, 32a 10 meses Amnésia, nistagmo, ataxia grave Lesões em tálamos, placa tectal, periaquedutal, mamilares Tiamina 500mg ×5d Melhora em dias (não detalhado) IV Wernicke’s Encephalopathy Following Roux En Y Gastric Bypass Surgery (Zafar, 2015) M, 40a 3 meses Confusão, desorientação Tálamos hiperintensos Tiamina 500mg 3x/dia, depois 250mg/dia Melhora em 3 dias V Case Report: Wernicke Encephalopathy Following Roux-en-Y Gastric Bypass (Dung; Chien; Ma, 2020) F, 27a 3 meses Vômitos, fraqueza, vertigem, nistagmo, visão turva Inconclusiva Tiamina 500mg 8/8h ×3d Melhora em 12h VI Nystagmus and Abducens Nerve Palsy as an Early Presentation of Non-alcoholic Wernicek Encephalopathy (Darussalam et al., 2024) M, 38a 1 mês Confusão, sonolência, fraqueza MMSS/MMII, nistagmo Normal Tiamina 500mg 3x/dia Melhora em 3 dias VII Functional Neurological Symptoms Masquerading as Wernicke Encephalopathy Following Bariatric Surgery (Kiselica; Rosen; Benge, 2019) F, 36a 11 meses Sintomas sugestivos → não confirmado (transtorno conversivo) Normal Sem tratamento Não era EW VIII “Bariatric Beriberi”: A Rare Case of Wernicke Encephalopathy Two Weeks After Laparoscopic Sleeve Gastrectomy (Bathobaka et al., 2023) F, 23a 2 meses Confusão, disartria, nistagmo, vômitos Compatível com EW Tiamina 500mg 8/8h ×3d Melhora em 2 dias IX Wernicke’s Encephalopathy After Bariatric Surgery With Atypical Magnetic Resonance Imaging: A Case Report (Chen; Chen, 2017) M, 24a 2 meses Vômitos persistentes, marcha instável, coma, tetraplegia Compatível com EW Tiamina 500mg 8/8h ×3d Melhora em 3 dias; RM normal em 73d 12 Revista DELOS, Curitiba, v.18, n.74, p. 01-21, 2025 X Micronutrient Deficiency nd Wernicke’s Encephalopathy in the Settingof Over the Counter Transcutaneous Multivitamin Patch Use Following Bariatric Surgery (Babu et al., 2025) F, 61a 8 meses Confusão, fraqueza MMII, parestesia, ataxia, nistagmo, vômitos Normal Tiamina 500mg 3x/dia, depois 250mg/dia ×5d Melhora em 4 semanas XI Pediatric Non- Alcoholic Wernicke’s Encephalopathy: a Case Report (Corso et al., 2025) M, 11a 2 meses Vômitos, estrabismo, diplopia, paralisia do olhar, nistagmo Normal Tiamina 500mg 3x/dia ×3d, depois VO 300mg/dia Melhora em 12h XII Visual Loss, Retinal Hemorrhages, and Optic Disc Edema Resulting From Thiamine Deficiency Following Bariatric Surgery Complicated by Prolonged Vomiting (Lawton; Frisard, 2017) F, 37a 1 mês Vômitos persistentes, déficit visual abrupto Normal Tiamina 30mg 3x/dia IV, por 7 dias Melhora em dias (não detalhado) XIII Dry Beriberi After Sleeve Gastrectomy: an Undiagnosed Case Report (Eghbali et al., 2022) F, 20a 2 meses Vômito, fraqueza debilitante Não realizada Cloridrato de tiamina 200mg/2ml ao dia durante 10 dias; depois 100mg de tiamina 1x ao dia por VO durante 1 mês Melhora total em um mês XIV Wernicke Encephalopathy After Roux-en- Y Gastric Bypass in a Yong Patient (Kalbi et al., 2022) F, 20a 6 semanas Diplopia intermitente, visão turva, nistagmo, perda de memória de curto prazo Anormalidade de sinal simétrico nas sequências ponderadas em T2, com restrição à difusão e ausência de realce normal nos tálamos bilaterais Tiamina intravenosa 200mg 3x/dia durante 4 dias; em seguida, foi trocada por tiamina oral 100mg 2x/dia Melhora da visão no dia seguinte e dos demais sintomas em poucos dias 13 Revista DELOS, Curitiba, v.18, n.74, p. 01-21, 2025 XV Fundus Findings in Wernicke Encephalopathy (Serlin; Moisseiev, 2017) F, 37a 10 semanas Confusão mental, desequilíbrio postural, deficiência visual Não realizado Tiamina intravenosa (não especificado) Melhora total em 3 meses XVI Dry Beriberi Preceded Wernicke’s Encephalopathy: Thiamine Deficiency After Laparoscopic Sleeve Gastrectomy (Samanta, 2015) F, 17a 2 meses Vômitos formigamento, diplopia Prolongamento T2 anormal e difusidade estritiva dos corpos mamilares bilaterais e realce pós- contraste com hiperintensidade periaquedutal leve Tiamina intravenosa 500mg 3x/dia Melhora do quadro oftálmico após duas doses XVII Wernicke’s Encephalopathy Mimicking Multiple Sclerosis in a Young Female Patient Post- Bariatric Gastric Sleeve Surgery (Ala; Farrel; Krishnurth, 2021) F, 22a 2 meses Nistagmo bilateral, fraqueza de MMIIS Sinais inespecíficos em T2 FLAIR nas regiões periventricular, justacortical e talâmica medial bilateral. Tiamina intravenosa 500mg 2x/dia Melhora em dias (não detalhado) XVIII Don’t Seek, Don’t Find: The Diagnostic Challenge of Wernicke’s Encephalopathy (Kohnke; Meek, 2021) F, 22a 6 semanas Vômitos persistentes, nistagmo, distúrbio de marcha Inconclusivo Tiamina intravenosa 500mg 3x/dia Melhora ao longo de várias semanas XIX A Case of Wernicke’s Encephalopathy in a Pregnant Woman With a History os Sleeve Gastrectomy (Kandlakunt et al., 2020) F, 21a 4 mesesAtaxia, confusão, oftalmoplegia Anormalidade no sinal simétrico na região pulvinar e dorsomedial dos tálamos Tiamina intravenosa 500mg 3x/dia, seguida de 250mg diariamente por 5 dias Melhora em dias (não detalhado) XX Wernicke’s Encephalopathy Presenting as Senrorineural Hearing Loss (Bryant et al., 2020) F, 22a 2 meses Fraqueza de MMIIS, perda auditiva Aumento do sinal na imagem FLAIR em T2 nos corpos mamilare Tiamina intravenosa (não especificado) Melhora em 10 dias XXI The Hidden Cost of Bariatric Surgery: Wernicke’s Encephalopathy and Polyneuropathy (Mishu et al., 2025) F, 27a 3 meses Fraqueza de MMIIS, oftalmoplegia, diplopia Normal, mas com leves alterações nos corpos mamilares Tiamina intravenosa (não especificado) Melhora gradual em meses XXII Diplopia After Sleeve Gastrectomy: (Whitham; Bhowmick; Freeman, 2023) F, 26a 2 meses Diplopia binocular, oftalmoplegia, Normal Tiamina intravenosa 500mg 8/8h; Melhora após sexta dose 14 Revista DELOS, Curitiba, v.18, n.74, p. 01-21, 2025 Fonte. Elaborado pelos autores (2025) 4 DISCUSSÃO A cirurgia bariátrica tem se mostrado uma medida eficaz no enfrentamento da atual pandemia de obesidade. Em comparação com dietas e programas de exercícios, ela oferece resultados mais duradouros e consistentes (Makarewicz et al., 2007; Kaka et al., 2022). O termo ―cirurgia bariátrica‖ abrange diferentes tipos de procedimentos voltados à perda de peso, como a banda gástrica, o bypass gástrico em Y de Roux e a gastrectomia vertical (Jeong et al., 2011). Apesar dos benefícios alcançados, esse tipo de intervenção pode levar a complicações tanto cirúrgicas quanto metabólicas, entre elas as deficiências de micronutrientes (Jethava; Dasanu, 2012). A tiamina é uma vitamina hidrossolúvel essencial nas vias metabólicas da glicose. A Síndrome de Wernicke-Korsakoff é um distúrbio cerebral grave causada pela deficiência dessa vitamina B1 (Hoyumpa JR, 1980). Embora a SWK seja principalmente induzida por desnutrição devido à dependência de álcool, outras questões não alcoólicas também estão atreladas a essa doença, como a cirurgia bariátrica, sobretudo o pós-operatório (Freund, 1973). A tiamina (vitamina B1), por ser um nutriente hidrossolúvel e não sintetizado pelo organismo humano, depende inteiramente da ingestão adequada e da sua absorção eficiente no trato gastrointestinal (Habas et al., 2023). Em cirurgias como o bypass gástrico, há uma redução significativa na capacidade de absorção, além de fatores agravantes como vômitos The Canary in the Coal Mine ataxia, vômitos recorrentes na alta prescrição de tiamina oral 100mg por dia XXIII Peripapillary Retinal Haemorrhages in Wernicke’s Encephalopathy Following Bariatric Surgery in a Young Patient (Alarfaj et al., 2022) F, 17a 8 meses Diplopia, fraqueza em MMIIS, nistagmo Restrição à difusão linear do tálamo medial bilateral Tiamina intravenosa 500mg 3x/dia por 3 dias, seguido de tiamina 100mg VO por dia por toda vida Melhora em poucos dias XXIV Encefalopatía de Wernicke y Cirurgía Bariátrica (Riquoir; Paul; Quezada, 2024) F, 23a 1 mês Vômitos, diplopia Normal Tiamina intravenosa 500mg de 8/8h Melhora em 48h 15 Revista DELOS, Curitiba, v.18, n.74, p. 01-21, 2025 persistentes, restrição alimentar severa e baixa adesão à suplementação vitamínica (Kalbi et al., 2022). A análise dos casos apresentados na literatura aponta para a relevância clínica e epidemiológica da Síndrome de Wernicke-Korsakoff (SWK) no contexto pós-operatório de pacientes submetidos à cirurgia bariátrica. Embora a incidência documentada da SWK seja inferior a 1% nesses indivíduos, a possibilidade de subdiagnóstico, em razão da inespecificidade dos sintomas iniciais e da ausência da tríade clássica (confusão mental, oftalmoplegia e ataxia), sugere que o número real de casos pode ser substancialmente maior (Sechi; Serra, 2007). O predomínio da síndrome em mulheres jovens, conforme evidenciado nos relatos de caso apresentados nos resultados desta revisão, corrobora com a tendência demográfica observada nos procedimentos bariátricos atuais, que são majoritariamente realizados por esse público (Araújo et al., 2017). Estudos indicam que fatores como vômitos persistentes, baixa ingestão alimentar e menores reservas corporais de tiamina contribuem para esse predomínio feminino, tornando essencial o acompanhamento nutricional rigoroso e a reposição adequada dessa vitamina no pós-cirúrgico (Stroh et al., 2014). As manifestações clínicas da encefalopatia de Wernicke, quando a síndrome acomete pacientes submetidos à operações de controle de obesidade, costumam ter seu início dentro dos primeiros seis meses após a realização do procedimento cirúrgico (Jeong et al., 2011; Walker; Kepner, 2012). Segundo os resultados obtidos nesta revisão de literatura, mais de 70% dos casos considerados expuseram início de quadro sintomatológico compatível com EW nos primeiros 3 meses seguintes à cirurgia realizada. Tal dado enfatiza a importância de maior atenção ao estado físico/neurológico, perfil dietético e reposições vitamínicas desses pacientes nesse período inicial após alteração radical de perfil alimentar/nutricional. No entanto, os resultados mostraram, também, situações menos restritas de surgimento de sintomas iniciando até 11 meses depois da realização de cirurgia bariátrica, o que implica na necessidade de monitoramento contínuo desses pacientes por períodos mais prolongados. Dessa forma, mantém-se uma atenção maior nos primeiros meses após submissão ao procedimento cirúrgico mas não deixa descoberto aqueles com quadros clínicos tardios. A ressonância magnética cerebral é um exame que pode ser fundamental no auxílio ao diagnóstico de SWK. O exame apresenta especificidade de aproximadamente 93% e sensibilidade de 53% (Sullivan; Pfefferbaum, 2009). No entanto, apenas metade a dois terços dos 16 Revista DELOS, Curitiba, v.18, n.74, p. 01-21, 2025 pacientes mostram alterações compatíveis com a síndrome na RM, o que significa que um resultado negativo não exclui completamente o diagnóstico, tendo em vista que alguns casos são confirmados mesmo sem a realização de RM ou esta apresentando resultado inconclusivo (Sinha et al., 2019). Assim, embora os exames de imagem, como a ressonância magnética, possam auxiliar na identificação da SWK ao revelar alterações nos corpos mamilares, tálamo e substância cinzenta periaquedutal, sua ausência de alterações não descarta a síndrome (De Lorenzo et al., 2022). Isso ressalta a importância de que o início da reposição de tiamina seja imediato sempre que houver suspeita clínica, visto que a demora no tratamento pode acarretar danos neurológicos permanentes ou até mesmo o óbito (Aasheim, 2008). A deficiência de tiamina constitui um risco significativo em pacientes submetidos à cirurgia bariátrica, em especial quando associado a vômitos persistentes, má ingestão alimentar ou complicações de absorção intestinal. Apesar da evidente gravidade da deficiência de tiamina pós-bariátrica, não existe consenso universalmente aceito sobre a dosagem ideal de tiamina para tratamento ou profilaxia da SWK nesse contexto específico. A Royal College of Physicians recomenda 500 mg IV três vezes ao dia por 2-3 dias, seguido por 250 mg IV/IM por mais alguns dias, e então oral de 100 mg/dia (Thomson et al., 2002). Por sua vez, a European Federation of Neurological Societies (EFNS) recomenda 200 mg IV três vezes ao dia até resolução dos sintomas (Galvin et al., 2010). Essa variabilidade é evidenciada nos diferentes relatos de caso citadosnos resultados deste trabalho, nos quais os tratamentos foram mais bem adaptados de acordo com as características clínicas dos pacientes. Assim, devido à ausência de protocolo padronizado, a reposição de tiamina em pacientes pós-bariátricos deve ser individualizada, mas considerando a importância da suplementação contínua dessa vitamina naqueles acometidos pela síndrome. A heterogeneidade dos achados de imagens e a variabilidade na resposta ao tratamento sugerem que a personalização do manejo clínico, baseada na gravidade dos sintomas e no tempo de início da suplementação, pode melhorar os desfechos clínicos. Portanto, é essencial que os profissionais da saúde estejam capacitados para reconhecer os sinais precoces da deficiência de tiamina e implementar protocolos que priorizem tanto a prevenção quanto a intervenção terapêutica imediata (Landais, 2014). 17 Revista DELOS, Curitiba, v.18, n.74, p. 01-21, 2025 Além disso, a baixa adesão ao uso contínuo de polivitamínicos por parte dos pacientes — muitas vezes por desinformação, negligência ou custo — aponta para uma lacuna educacional importante no processo de cuidado pós-operatório. A educação em saúde, com foco em suplementação e monitoramento nutricional, deve ser parte integrante da rotina clínica de acompanhamento de pacientes bariátricos (Silva et al., 2021). 5 CONCLUSÃO A presente revisão integrativa permitiu compreender a complexa relação entre a cirurgia bariátrica e o desenvolvimento da Síndrome de Wernicke-Korsakoff, destacando a deficiência de tiamina como um fator etiológico central na fisiopatologia dessa condição neurológica grave. Embora rara, a SWK representa um risco real e significativo para pacientes submetidos à cirurgia bariátrica, especialmente em casos de má adesão à suplementação vitamínica e presença de fatores predisponentes, como vômitos recorrentes e dietas restritivas. O estudo evidenciou que o diagnóstico precoce, aliado ao tratamento imediato com altas doses de tiamina por via parenteral, é essencial para a reversão dos sintomas e prevenção de sequelas neurológicas permanentes. Entretanto, a ausência de exames específicos e a variabilidade clínica tornam o diagnóstico desafiador, exigindo preparo técnico e sensibilidade clínica dos profissionais de saúde envolvidos no acompanhamento desses pacientes. A discussão também reforça a importância da prevenção, por meio da educação em saúde, da adesão rigorosa à suplementação vitamínica e do acompanhamento nutricional contínuo no pós-operatório de cirurgias bariátricas. Essas estratégias são fundamentais para minimizar os riscos associados à deficiência de tiamina e, consequentemente, à SWK. Dessa forma, conclui-se que a SWK, embora subdiagnosticada, deve ser amplamente considerada no contexto bariátrico. A implementação de protocolos clínicos padronizados, capacitação das equipes multidisciplinares e políticas públicas que garantam acesso à suplementação adequada são medidas urgentes e indispensáveis para a promoção de um cuidado integral, seguro e eficaz aos pacientes submetidos à cirurgia bariátrica. 18 Revista DELOS, Curitiba, v.18, n.74, p. 01-21, 2025 REFERÊNCIAS AASHEIM, E. T. Wernicke encephalopathy after bariatric surgery: a systematic review. Annals of Surgery, v. 248, n. 5, p. 714-720, 2008. ALARFAJ, M. A.; et al. Peripapillary Retinal Haemorrhages in Wernicke’s Encephalopathy Following Bariatric Surgery in a Young Patient. Neuro-Ophthalmology, v. 46, n. 6, p. 409- 412, 2022. ARAÚJO, G. B.; et al. Perfil clínico-epidemiológico de pacientes submetidos à cirurgia bariátrica. Pará Research Medical Journal, v. 1, n. 4, p. 1-8, 2017. BABU, H. M.; et al. Micronutrient Deficiency and Wernicke’s Encephalopathy in the Setting of Over the Counter Transcutaneous Multivitamin Patch Use Following Bariatric Surgery. AACE Clinical Case Reports, v. 11, n. 1, p. 36-39, 2025. BATHOBAKAE, L.; et al. “Bariatric beriberi”: a rare case of Wernicke encephalopathy two weeks after laparoscopic sleeve gastrectomy. Cureus, v. 15, n. 4, 2023. BENTO, M. A.; et al. Case report: Wernicke–Korsakoff syndrome after bariatric surgery. Frontiers in Nutrition, v. 10, p. 1321275, 2024. BLANSJAAR, B. A.; ZWANG, R.; BLIJENBERG, B. G. No transketolase abnormalities in Wernicke-Korsakoff patients. Journal of the Neurological Sciences, v. 106, n. 1, p. 88-90, 1991. BRYANT, B. S. H.; et al. Wernicke’s encephalopathy presenting as sensorineural hearing loss. Cureus, v. 12, n. 3, 2020. CHANDRAKUMAR, A.; BHARDWAJ, A.; T JONG, G. W. Review of thiamine deficiency disorders: Wernicke encephalopathy and Korsakoff psychosis. Journal of Basic and Clinical Physiology and Pharmacology, v. 30, n. 2, p. 153-162, 2019. CHANG, H.-W.; et al. Wernicke encephalopathy concurrent with polyradiculoneuropathy in a young man after bariatric surgery: a case report. Medicine, v. 98, n. 10, p. e14808, 2019. CHEN, B.-A.; CHEN, L. C. Wernicke’s encephalopathy after bariatric surgery with atypical magnetic resonance imaging: a case report. Acta Neurol Taiwan, v. 26, n. 1, p. 29-32, 2017. CORSO, L.; et al. Pediatric non-alcoholic Wernicke’s encephalopathy: a case report. Italian Journal of Pediatrics, v. 51, n. 1, p. 240, 2025. DARUSSALAM, S. H.; et al. Nystagmus and Abducens Nerve Palsy as an Early Presentation of Non-alcoholic Wernicke Encephalopathy. Cureus, v. 16, n. 1, 2024. DAY, E.; et al. Thiamine for prevention and treatment of Wernicke‐Korsakoff Syndrome in people who abuse alcohol. Cochrane Database of Systematic Reviews, n. 7, 2013. 19 Revista DELOS, Curitiba, v.18, n.74, p. 01-21, 2025 DE LORENZO, C.; et al. Thiamine Deficiency in the Pathophysiology and Diagnosis of Wernicke-Korsakoff Syndrome: Case Report and Literature Review. SN Comprehensive Clinical Medicine, v. 4, n. 1, p. 239, 2022. DHIR, S.; et al. Neurological, psychiatric, and biochemical aspects of thiamine deficiency in children and adults. Frontiers in Psychiatry, v. 10, p. 447129, 2019. DONNELLY, A. Wernicke-Korsakoff syndrome: recognition and treatment. Nursing Standard, v. 31, n. 31, 2017. DUNG, D.; CHIEN, K.; MA, L. Case report: Wernicke encephalopathy following Roux-en-Y gastric bypass. American Family Physician, v. 102, n. 4, p. 197-199, 2020. EGHBALI, F.; et al. Dry beriberi after sleeve gastrectomy: an undiagnosed case report. International Journal of Surgery Case Reports, v. 96, p. 107357, 2022. FREUND, G. Chronic central nervous system toxicity of alcohol. Annual Review of Pharmacology, v. 13, n. 1, p. 217-227, 1973. FRÜHBECK, G.; et al. The ABCD of obesity: an EASO position statement on a diagnostic term with clinical and scientific implications. Obesity Facts, v. 12, n. 2, p. 131-136, 2019. GALVIN, R.; et al. EFNS guidelines for diagnosis, therapy and prevention of Wernicke encephalopathy. European Journal of Neurology, v. 17, n. 12, 2010. GLISAN, S.; KHAN, N. Wernicke encephalopathy following gastric bypass: a case report. Case Reports in Neurology, v. 14, n. 1, p. 179-184, 2022. HABAS, E.; et al. Wernicke encephalopathy: an updated narrative review. Saudi Journal of Medicine & Medical Sciences, v. 11, n. 3, p. 193-200, 2023. HOYUMPA JR, A. M. Mechanisms of thiamin deficiency in chronic alcoholism. The American Journal of Clinical Nutrition, v. 33, n. 12, p. 2750-2761, 1980. ISENBERG-GRZEDA, E.; et al. Nonalcoholic thiamine-related encephalopathy (Wernicke- Korsakoff syndrome) among inpatients with cancer: a series of 18 cases. Psychosomatics, v. 57, n. 1, p. 71-81, 2016. JEONG, H. J.; et al. Wernicke's encephalopathy after sleeve gastrectomy for morbid obesity-a case report. Annals of Rehabilitation Medicine, v. 35, n. 4, p. 583, 2011. JETHAVA, A.; DASANU, C. A. Acute Wernicke encephalopathy and sensorineural hearing loss complicating bariatric surgery. Connecticut Medicine, v. 76, n. 10, 2012.JELAKOVIĆ, B.; et al. Worldwide trends in underweight and obesity from 1990 to 2022: a pooled analysis of 3663 population-representative studies with 222 million children, adolescents, and adults. The Lancet, v. 16, n. 403 (10431), p. 1027-1050, 2023. JÚNIOR, H. P. L.; LEMOS, A. L. A. de. Vitamina B1. Diagnóstico e tratamento, 2010. 20 Revista DELOS, Curitiba, v.18, n.74, p. 01-21, 2025 KALBI, D.; et al. Wernicke encephalopathy after Roux-en-Y gastric bypass in a young patient. BMJ Case Reports CP, v. 15, n. 3, p. e247710, 2022. KANDLAKUNTA, H.; et al. A Case of Wernicke’s encephalopathy in a pregnant woman with a history of sleeve gastrectomy. Cureus, v. 12, n. 8, 2020. KAKA, A. S.; et al. Major update 2: remdesivir for adults with COVID-19: a living systematic review and meta-analysis for the American College of Physicians practice points. Annals of Internal Medicine, v. 175, n. 5, p. 701-709, 2022. KISELICA, A. M.; ROSEN, S.; BENGE, J. F. Functional neurological symptoms masquerading as Wernicke encephalopathy following bariatric surgery. In: Baylor University Medical Center Proceedings. Taylor & Francis, 2019. p. 607-609. KOHNKE, S.; MEEK, C. L. Don’t seek, don’t find: The diagnostic challenge of Wernicke’s encephalopathy. Annals of Clinical Biochemistry, v. 58, n. 1, p. 38-46, 2021. KOTHA, V. K.; DE SOUZA, A. Wernicke's encephalopathy following hyperemesis gravidarum: A report of three cases. The Neuroradiology Journal, v. 26, n. 1, p. 35-40, 2013. LAL, D.; FARRELL, M. C.; KRISHNAMURTHY, M. Wernicke’s encephalopathy mimicking multiple sclerosis in a young female patient post-bariatric gastric sleeve surgery. Journal of Community Hospital Internal Medicine Perspectives, v. 11, n. 5, p. 658-661, 2021. LANDAIS, A. Neurological complications of bariatric surgery. Obesity Surgery, v. 24, n. 10, p. 1800-1807, 2014. LAWTON, A. W.; FRISARD, N. E. Visual loss, retinal hemorrhages, and optic disc edema resulting from thiamine deficiency following bariatric surgery complicated by prolonged vomiting. Ochsner Journal, v. 17, n. 1, p. 112-114, 2017. LOBAO, M.; et al. Beri-Beri and Wernicke Encephalopathy in a Thirty-Year-Old Male. Cureus, v. 14, n. 5, 2022. MAKAREWICZ, W.; et al. Wernicke’s syndrome after sleeve gastrectomy. Obesity Surgery, v. 17, n. 5, p. 704-706, 2007. OUDMAN, E.; et al. Preventing Wernicke encephalopathy after bariatric surgery. Obesity Surgery, v. 28, p. 2060-2068, 2018. OUDMAN, E.; et al. Wernicke’s encephalopathy in hyperemesis gravidarum: a systematic review. European Journal of Obstetrics & Gynecology and Reproductive Biology, v. 236, p. 84-93, 2019. PUNCHAI, S.; et al. Neurologic manifestations of vitamin B deficiency after bariatric surgery. Obesity Surgery, v. 27, n. 8, p. 2079-2082, 2017. RIQUOIR, C.; PAUL, I.; QUEZADA, N. Encefalopatía de Wernicke y cirugía bariátrica. Revista de Cirugía, v. 76, n. 4, p. 392-396, 2024. 21 Revista DELOS, Curitiba, v.18, n.74, p. 01-21, 2025 SAMANTA, D. Dry beriberi preceded Wernicke's encephalopathy: thiamine deficiency after laparoscopic sleeve gastrectomy. Journal of Pediatric Neurosciences, v. 10, n. 3, p. 297-299, 2015. SECHI, G. P.; SERRA, A. Wernicke's encephalopathy: new clinical settings and recent advances in diagnosis and management. The Lancet Neurology, v. 6, n. 5, p. 442-455, 2007. SILVA, A.; ENES, A. Síndrome de Wernicke-Korsakoff: revisão literária da sua base neuroanatómica. Arq Med, v. 27, n. 3, p. 121-127, 2013. SILVA, M. M.; et al. Nutritional guidance, monitoring, and supplementation before and after bariatric surgery—Are we doing this correctly? Nutrición Hospitalaria, 2021. SINHA, S.; et al. Wernicke encephalopathy—clinical pearls. In: Mayo Clinic Proceedings. Elsevier, 2019. p. 1065-1072. STROH, C.; MEYER, F.; MANGER, T. Beriberi, a severe complication after metabolic surgery-review of the literature. Obesity Facts, v. 7, n. 4, p. 246-252, 2014. SULLIVAN, E. V.; PFEFFERBAUM, A. Neuroimaging of the Wernicke–Korsakoff syndrome. Alcohol & Alcoholism, v. 44, n. 2, p. 155-165, 2009. THOMSON, A. D.; et al. The Royal College of Physicians report on alcohol: guidelines for managing Wernicke’s encephalopathy in the accident and emergency department. Alcohol and Alcoholism, v. 37, n. 6, p. 513-521, 2002. VAN TILBORG, I. A. D.; et al. Spatial and nonspatial implicit motor learning in Korsakoff’s amnesia: evidence for selective deficits. Experimental Brain Research, v. 214, p. 427-435, 2011. WALKER, J.; KEPNER, A. Wernicke's encephalopathy presenting as acute psychosis after gastric bypass. The Journal of Emergency Medicine, v. 43, n. 5, p. 811-814, 2012. WHITHAM, A.; BHOWMICK, K.; FREEMAN, S. Diplopia after Sleeve Gastrectomy: The Canary in the Coal Mine. Rhode Island Medical Journal, v. 106, n. 7, p. 15-17, 2023. WOOD, B.; CURRIE, J.; BREEN, K. Wernicke's encephalopathy in a metropolitan hospital: A prospective study of the incidence, characteristics and outcome. Medical Journal of Australia, v. 144, p. 12–16, 1986. YOON, C.; GEDZIOR, J.; DEPRY, D. Wernicke–Korsakoff syndrome: Focus on low- threshold diagnosis and prompt treatment in the primary care setting. The International Journal of Psychiatry in Medicine, v. 54, n. 3, p. 172-180, 2019.