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DEFICIENCIA VISUAL E MODA Larissa Trintin Pereira1 Resumo: Vestir-se bem trás ao individuo bem estar e status social. O individuo que não possui a capacidade de vestir-se de acordo com a roupa que gostaria por motivos funcionais, precisa de ajuda especializada. Tal ajuda vem sendo desenvolvida com novas tecnologias que possibilitam ao deficiente visual total autonomia. o termo “ajuda de outra pessoa” vêm sendo esquecido e cada vez mais substituído por “independência”. A sociedade impõem barreiras a quem é fisicamente diferente, mas felizmente só torna-se dependente quem não exige autonomia, e acomoda-se em seu meio. Ao longo deste artigo, serão feitas menções a autores relevantes, propondo soluções para o que diz-se ser “difícil” perante a sociedade atual. Palavras-chave: Deficiência visual, Moda inclusiva, Independência, Autonomia. 1introdução: A moda vem sendo cada vez mais ampliada no mercado mundial e vem em pregando a bandeira da democratização nos últimos tempos, entretanto no quesito moda inclusiva a caminhada vem se dando a passos lentos. A moda vista pluralmente, deve ser para todos sem distançao de raça, cor, gênero, e necessidade especial, pois hoje sua principal característica é dar significado e identidade visual ao indivíduo em questão. Uma pessoa com dificuldades especiais, não passa a ser incapaz, e não é diferente psicologicamente, ela tem os mesmos desejos de autoaceitação e aceitação perante a sociedade, porem seu maior desejo é a autonomia, o que seria facilmente alcançado se houvessem mais roupas adaptadas no mercado de moda. 1 Aluna do sexto semestre do cruso Design de Moda da Univates larissatrintinpereira@gmail.com, ministrado pela professora Cláudia Foletto. mailto:larissatrintinpereira@gmail.com Solomon (1996) considera o comportamento de consumo uma ato bem mais complexo do que o simples prazer em comprar. O estudo do comportamento simbólico, mostra como ter ou deixar de ter coisas afeta a vida das pessoas, e como esses bens influenciam nas emoções destas sobre elas mesmas e sobre uma em relação à outra. O reino da moda generalizada leva a seu ponto culminante o enigma do ser em conjunto próprio à era democrática. Trata-se de compreender como uma sociedade fundada na forma moda pode fazer coexistir os homens entre si. Como pode ela instaurar um elo de sociedade quando não cessa de ampliar a esfera da autonomia subjetiva, de multiplicar as diferenças individuais, de esvaziar os princípios sociais reguladores de sua substância transcendente, de dissolver a unidade dos modos de vida e das opiniões? (LIPOVETSKY, 1989, p. 265). Ser “igual” é o que quase todas as pessoas desejam, almejam fazer parte da sociedade. O que entra em contradição com o ser “diferente” na moda, algo tão almejado também, pois nos humanos queremos nosso lugar de destaque na sociedade, e buscamos esse caminho na moda, se diferenciando na hora de vestir algo que ninguém tenha, ou que seja totalmente diferente. Os indivíduos querem pertencer a um determinado grupo, porém querem se destacar ao mesmo tempo, ou seja, estão completamente confusos pela ambiguidade, que de acordo com Mesquita (2010, p.66): ora à padronização, ora à diferenciação. “Se extremos estímulos à diferenciação atravessam a subjetividade contemporânea, não é de se estranhar as condições privilegiadas da Moda, agenciadora de diferenças, neste momento da História”. Um familiar ou o cuidador, que deseje auxiliar a pessoa com deficiência a encontrar peças adaptadas à sua realidade terá muita dificuldade, e no final conseguirá encontrar provavelmente apenas algumas peças pela internet. Segundo GRAVE (2010), é muito importante que as roupas a serem usadas por este portador de deficiência visual, seja aceitável na sociedade, e que possua características da moda que viabilizem a participação do indivíduo em algum segmento sociocultural, dando ênfase com o cuidado e comprometimento da sua saúde. No Brasil, o foco “moda inclusiva” ainda não está tao bem estabelecido como nos EUA e na Europa, onde a moda inclusiva já é foco dos estilistas há mais tempo que no Brasil. Aqui no país, ainda nota-se grande desenvolvimento nesta área, com um crescimento em pequena escala ainda, mas que futuramente tem grandes chances de abrangência maior. É um mercado à espera de desenvolvimento, contudo, tende a ser um bom negócio, dada à demanda e a carência do setor, segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde), em torno de 10% da população mundial é de pessoas com deficiência. Segundo Avelar (2011, p. 157): “O corpo híbrido integra, portanto, o orgânico e o inorgânico através de processos biotecnológicos, redesenhando nossos corpos, tornando imprecisos os limites entre homem e máquina”. Nomes importantes internacionalmente, e que fazem a diferença no quesito moda para todos, devem ser citados: Chris Ambraisse, estilista e criador da grife francesa A & K Classics. Chris une design às necessidades de PcD (pessoas com deficiência). Chris desde criança adorava moda, quando um dia, sentado no metro, fazia um desenho e deparou-se com uma mulher cadeirante que o observava. Ela então declarou adorar moda, porem não ter condições físicas de se sentir bonita, pois as peças sempre tinham que ser adaptadas ou eram extremamente básicas. Foi então que Chris olhou para este publico com outros olhos, iniciou pesquisas sobre o assunto e nunca mais parou, fazendo suas roupas com tecidos sustentáveis e renováveis. Ambraisse define sua moda como tendo um estilo mutável e divertido. Visando o valor estético, porém o conforto com diversão também. Para que seus clientes possam se vestir sozinhos com autonomia e orgulho. Sua moda é de suma importância no meio, e remete à alta costura, podendo ser utilizada por qualquer pessoa. Minimalismo e tons monocromáticos fazem parte de sua assinatura, sustentabilidade, ética e inclusão são pontos sempre presentes e destacados também. Puket, QW Surf, Elo Avelar, Luy são algumas das marcas que trabalham a inclusão no modo de vestir no Brasil. A estilista Vitoria Cuervo de Porto Alegre lançou sua coleção para pessoas com deficiência (PcD) no Donna Fashion Iguatemi em 2010. Sua coleção foi inspirada na África, trazendo diversas estampas aliadas a zíperes em locais estratégicos a fim de proporcionar verdadeiro conforto e praticidade às roupas, além da estética. Durante as várias edições do concurso moda inclusiva, muitas alternativas criativas foram criadas para facilitar a vida de pessoas com deficiência, como por exemplo: manga comprida destacável por velcro; porta-almofada nas costas para um conforto maior; velcro no lugar de zíper na calça, facilita o ato de vestir e despir; abertura com velcro no decote para facilitar a passagem da cabeça. A moda está intimamente ligada ao consumo e realização pessoal, por tal motivo, todos merecemos sentir-se bem consigo mesmo. A moda é um sistema de comunicação onde reflete o indivíduo na sociedade em que ele vive, e partindo deste princípio, é possível avaliar a importância da moda e seu papel nas relações sociais, ressaltando a diferença e semelhança entre cada ser humano. [...] perspectivas fundamentais sobre a cultura de consumo... A primeira tem como premissa a expansão de produção capitalista de mercadorias, que deu origem a uma vasta acumulação de cultura material na forma de bens e locais de compra e consumo. Isso resultou na proeminência cada vez maior do lazer e das atividades de consumo nas sociedades ocidentais contemporâneas, fenômenos que embora sejam bem vistos por alguns, na medida em que teriam resultado em maior igualitarismo e liberdade individual, são considerados por outros como alimentadores da capacidade de manipulação ideológica e controle sedutor da população, prevenindo qualquer alternativa"melhor" desorganização das relações sociais. Em Segundo Lugar, há a concepção mais estritamente sociológica de que a relação entre a satisfação proporcionada pelos bens e seu acesso socialmente estruturado é um jogo de soma zero, no qual a satisfação e o status dependem da exibição e da conservação das diferenças em condições de inflação. Nesse caso, focalizase o fato de que as pessoas usam as mercadorias de forma a criar vínculos ou estabelecer distinções sociais. Em terceiro lugar, há a questão dos prazeres emocionais do consumo, os sonhos e desejos celebrados no imaginário cultural do consumo e em locais específicos de consumo que produzem diversos tipos de excitação física e prazeres estéticos. (FEATHERSTONE, 1995. p. 31) 2 Deficientes visuais O atual mercado de moda desenvolve novas estratégias de criação de produtos para atender diversos tipos de necessidades e consumidores. Por isso as empresas vêm se preocupando em direcionar seus trabalhos a um determinado tipo de necessidade, o que se reflete no desenvolvimento de projetos de criação de produtos para consumidores portadores de falta de mobilidade, sejam físicas, psíquicas e /ou visuais. Através da percepção dos consumidores com deficiência visual e das suas dificuldades, o mercado tem tomado iniciativas para adaptar os produtos às dificuldades deste público. O problema comum de todos os deficientes visuais no momento da compra, sempre surge com as perguntas básicas: “Quanto custa “, “ que tamanho” “cor” etc.. Suas dificuldades estão diretamente relacionadas com a linguagem de informação utilizada para descrever as características dos produtos pois eles não podem visualizar as principais características da peça. Dessa forma, essas pessoas somente poderão comprar um produto com o auxilio de outra pessoa, dificultando o processo de compra, gerando prejuízo para o comercio e, acima de tudo, tirando totalmente a autonomia de um deficiente visual, isso significa que nem sempre estará a adquirir um produto que atenda as suas reais necessidades. Porém foi criada uma solução para este empecilho, foi desenvolvido um projeto que pretende contribuir para o desenvolvimento de uma etiqueta para vestuário destinado a pessoas com deficiência visual. Com esta etiqueta, o objetivo é que os utilizadores consigam perceber, avaliar e comprar o produto pretendido, sendo de extrema ajuda no dia-a-dia do deficiente visual, o que irá gerar uma maior independência e, consequentemente, numa maior autoestima. A primeira etiqueta (INMETRO 2004) foi desenvolvida, tendo em consideração as informações recolhidas no inquérito exploratório. Imagem 1: Etiqueta em braile Fonte:http://www.cutedrop.com.br/2012/11/etiquetas-de-roupas-em-braille/ A etiqueta é feita com uma maquina de bordar. Na primeira linha está representado o tamanho com letra convencional em alto-relevo (Barker2004). Na segunda linha está representado o tamanho escrito em Braille. Na terceira linha está desenhado o modelo, por exemplo: blusa masculina, ou feminina, manga longa, ou curta. Na quarta linha está representado o símbolo de cor com a descrição da cor em Braille. Esses símbolos são referencias dos botões comprados na Biblioteca RNIB (Royal National Institute of Blind People) em Londres. Cada botão tem uma forma geométrica que representa uma cor. Composição do tecido Instrução de lavagem. Esta etiqueta foi criada com o proposito de facilitar, ajudar e aumentar a qualidade de vida das pessoas com deficiência visual no momento em que necessitam ter autonomia para vestir-se bem. A escolha da roupa tem sido o grande problema enfrentado por essas pessoas quando se deparam frente a inúmeras escolhas em uma loja, ou ate mesmo em sua própria casa e em seu guarda roupas, porém não podem fazê-las sozinhos. Neste instante é necessário que o indivíduo estabeleça um relação de aprendizado, na qual ele começa a interagir com o mundo de forma efetiva, e para isso ocorrer, tecnologias como a etiqueta, vem sendo criadas. Para Roncolleta (2004) a relação do universo da moda com a pessoa com deficiência, só é possível a partir do momento em que este indivíduo começa a fazer parte desta sociedade definitivamente e isso ocorre de forma gradual, com estudos e tecnologias voltadas para esta inclusão na área da educação, design pensado para a acessibilidade em locais públicos, na área médica e psicológica, com o propósito de possibilitar ao deficiente o desenvolvimento de suas capacidades tornando-o produtivo e por isso mesmo reconhecido em seu meio. Relacionando com a moda, essas tecnologias tornam possível a aproximação da moda e seus signos, buscando alternativas que possibilitam a solução para a maioria dos obstáculos que deficientes visuais encontram no momento de vestir-se. Novas estratégias, sempre bem vindas, buscam soluções para englobar a todos no mundo da moda, com autonomia independência, oferecendo acessibilidade e possibilidades de escolhas. Assim a moda pode auxiliar beneficamente os aspectos psicológicos e sócios culturais destes indivíduos. O fato de essas pessoas possuírem deficiência visual, não pode ser um problema levado tapo seriamente, poia a moda é um universo amplo, complexo, sem distinção, que torna as pessoas livres, e não prisioneiras de si mesmas, impossibilitando oportunidades novos rumos. A moda deve ser vista como um agente que comunica e une as pessoas, juntando suas escolhas, gosto e modo de pensar, em uma mesma sociedade, onde todos precisar conviver de maneira pacifica, ou seja, a moda une o mundo, promove a diversidade, instiga o bem- viver, o prazer e a satisfação pessoal. Bourdieu (2007, p. 112), afirma que onde todos têm acesso às inovações, a moda ainda pode indicar também posição social ou status, uma vez que pessoas emitem julgamentos a respeito da importância das outras de acordo com o que vestem. Por tal motivo, uma limitação no caso visual, em hipótese alguma pode privar um individuo de se inserir no meio em que deseja. CONSIDERAÇÕES FINAIS Conclui-se, tendo em vista os estudos realizados, que moda esta intimamente ligada à autoestima e que o vestuário é um elemento de fundamental importância para a inclusão social de pessoas com deficiência, devido à importância social e cultural dos símbolos que ela proporciona e da forma múltipla como a moda é capaz de usar o corpo como suporte de expressão e comunicação não verbal. A moda é o meio de adaptação, é ela quem deve se adaptar as pessoas com necessidades especiais através da ergonomia, substituições de aviamentos e tecidos tecnológicos, amplia-se o conceito social de normalidade e beleza, onde o bem estar, sensação de status, poder, conforto e integração social devem estar em foco. É visível que iniciativas vêm sendo tomadas para que essa nova realidade se torne efetiva, como desfiles, concursos, pesquisas acadêmicas e iniciativas de mercado. O deficiente está cada vez mais, sendo visto como o público-alvo, um nicho de mercado e um segmento da Moda, afinal eles fazem parte da sociedade, e, além disso, exercem um grande numero sobre ela, possuindo os mesmo desejos que qualquer outro individuo. Por tal motivo não devem ser ignorados, mas sim, serem incentivados a querer fazer parte ativamente do meio em que vivem. Uma sociedade que se adapta ao que é diferente do comum vive melhor, portanto, facilitando a vida dessas pessoas consequentemente facilitará a vida de todos. REFERENCIAS AVELAR, Suzana. Moda, Globalização e Novas Tecnologias. 2ª ed. São Paulo: Estação das Letras e Cores Editora, 2011, Rio de Janeiro: Senac Rio. Barker 2004. Peter Barker, June Fraser. Sign Design Guide, a guide to inclusive signageJMV and The sign Design Society Access Partnership, 2004. BOURDIEU, Pierre.A distinção: crítica social do julgamento. São Paulo: Edusp; Porto Alegre: Zouk, 2007. CONCURSO MODA INCLUSIVA. Moda Inclusiva. Disponível em: . Acesso em: 29 de junho, 2016. CONCURSO MODA INCLUSIVA. Pesquisa Audiovisual sobre Moda Inclusiva. Disponível em:. Acesso em: 28 de junho, 2016. GRAVE, Maria de Fátima. A moda-vestuário e a ergonomia do hemiplégico. São Paulo: Escrituras, 2010. INMETRO 2004: Instituto nacional de metrologia, normalização e qualidade industrial. Conheça a importância da etiqueta de produto têxtil, Abril 2004. LIPOVETSKY, Gilles. O império do efêmero: a moda e seu destino nas sociedades modernas. São Paulo: Cia. Das Letras, 1989. MESQUITA, Cristiane. Moda Contemporânea: Quatro ou cinco conexões possíveis. 1ª Ed. 3ª reimpressão. São Paulo: Anhembi Morumbi, 2010. (Coleção Moda e Comunicação/ Kathia Castilho Coordenação).