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13 Re vi sã o: N om e do re vi so r - D ia gr am aç ão : L uc as M an sin i - d at a ESTÉTICA DO PROJETO Unidade II Em busca de novas perspectivas: as dissidências dos anos 1960 Como vimos, a ruptura do paradigma da cidade moderna é fundamental para que possamos entender quais as diretrizes para a configuração da cidade contemporânea. O modelo moderno se fundamenta no idealismo da crença no progresso, na racionalidade científica e na solução dos problemas sociais a partir de uma lógica mecanicista radicalmente racional. Trata-se da cidade da era da máquina, planejada a partir do zoneamento funcional, padronizada a partir da produção industrial, fundamentada na premissa de um homem-tipo, cujas necessidades são universais. Em correlação a tal paradigma, resultam a obsolescência das formas urbanas antigas e históricas, a rejeição ao passado, a busca pela eficiência, a segregação espacial/social urbana, a divisão da cidade em zonas estritamente funcionais e o movimento mecânico da circulação entre elas e sua logística intrínseca. Essa concepção da cidade não admite o imprevisto, o acaso, a mudança. Trata-se de uma tentativa de realizar uma utopia planificada que prevê e organiza o tempo futuro, devidamente declarada na Carta de Atenas. Portanto, seria de se esperar que a reação surgisse necessariamente na forma de uma ruptura de paradigma, que longe de se colocar como consenso, expressa-se de forma polifônica e diversificada, refletindo o contexto de pluralismo de um mundo em pleno ensaio de um processo que mais tarde se consolidaria como a globalização. Assim, talvez fosse mais conveniente considerar essas primeiras manifestações como dissidências do movimento moderno, uma vez que surgem no período de crise do paradigma da cidade industrial, configurando perspectivas alternativas para um projeto de cidade contemporânea. 1. ARCHIGRAM: A CIDADE “MUTANTE” A produção do grupo Archigram é um reflexo da interação de dois fenômenos importantes dos anos 1960: de um lado, a velocidade do desenvolvimento tecnológico, sobretudo na comunicação, transportes e informação; e de outro, a afirmação da cultura pop como uma nova linguagem cultural, influenciada pelos novos meios de comunicação. As grandes mudanças sociais, culturais e econômicas da época provocaram a necessidade de encontrar alternativas espaciais correspondentes aos novos desafios. Esse novo contexto colocava em cheque os fundamentos tradicionais da arquitetura a partir da rigidez, da estabilidade e da durabilidade. Os princípios fundamentais apontavam agora pela mutabilidade, a instantaneidade, a efemeridade, a obsolescência programada e a reciclagem, uma afronta consciente e crítica aos princípios do racionalismo moderno. 14 Re vi sã o: N om e do re vi so r - D ia gr am aç ão : L uc as M an sin i - d at a Unidade II Assim, o Archigram, grupo surgido na Inglaterra, defendia uma abordagem high-tech, explorando o universo das estruturas infláveis, computadorizadas, ambientes descartáveis, cápsulas espaciais e imagens de consumo de massa, explorando a fronteira entre o real e a ficção científica, um exercício de exploração das potencialidades da era tecnológica. A cidade é vista como rede (um conceito pioneiro), lugar não estruturado hierarquicamente e capaz de se expandir, transformar e mover-se indefinidamente. Assim, a necessária reformulação da arquitetura, compatível com as novas necessidades da vida urbana, era fundamentada na mobilidade e na adaptabilidade. Uma de suas propostas mais significativas é o projeto de Peter Cook, Plug-in City (1964), que propunha uma cidade “tentacular”, estruturada a partir de uma megaestrutura em rede com vias de comunicação, abastecimento e transporte. Suporte de um sistema sofisticado de serviços, essa cidade- rede admite, além das unidades básicas de habitação, unidades inteligentes mutáveis, colocadas em nós estratégicos da rede, oferecendo todo o tipo de serviços. O planejamento da Plug-in-City inclui o crescimento e a transformação do espaço urbano, devidamente previsto e programado para mudanças ao longo do tempo. Assim, as unidades arquitetônicas são criadas para serem reprogramadas e reutilizadas para se adequarem à mudança inerente à vida urbana. 2. O MOVIMENTO METABOLISTA Surgiu no Japão na década de 1960 e buscou solucionar a questão da expansão urbana das metrópoles em face da escassez de território a partir da tecnologia construtiva. A alternativa mais imediata era a ocupação dos oceanos para o desenvolvimento de um espaço urbano afinado com as novas possibilidades tecnológicas. A pré-fabricação era considerada a solução mais adequada e a elaboração de sistemas de expansão utilizando adições sucessivas de componentes modulares, que fundamentou a concepção de espaço de grande parte dos arquitetos. O conceito metabolista considerava que tanto o espaço urbano como os edifícios e as populações estariam sujeitos aos mesmos processos de crescimento e transformação, em uma analogia orgânica. O contexto daquele momento histórico incluía a rápida modernização e capitalização das grandes cidades face à ineficiência do planejamento urbano, tornando caótica a vida urbana e dando origem a uma sucessão de métodos emergenciais que buscavam resolver problemas complexos com métodos sistemáticos de projeto. Ao mesmo tempo, surgia a valorização de necessidades e desejos individuais, em contraste com o idealismo universalista proposto pelo projeto da modernidade. Os projetos metabolistas consideram que, por meio da sistematização dos métodos projetuais, cada indivíduo poderia criar sua própria habitação de acordo com o seu gosto e capacidade econômica. Esse ciclo de adaptação das edificações ao gosto individual justificava o conceito metabolista de que vastas estruturas modulares poderiam acompanhar ciclos de crescimento, mudança, expansão e retração. Os projetos metabolistas tinham um ideal de expressar uma visão de sociedade em constante desenvolvimento e mutação. Dentre as propostas principais, cidades oceânicas, aéreas (suspensas), com unidades diferenciadas para alocação de residências, espaços produtivos que incluíam agricultura, indústrias, centros comerciais e de serviços. 15 Re vi sã o: N om e do re vi so r - D ia gr am aç ão : L uc as M an sin i - d at a ESTÉTICA DO PROJETO 3. A CIDADE DA MEMÓRIA: ALDO ROSSI O pensamento de Rossi parte de uma argumentação histórica aprofundada, apontando no sentido contrário à ideia de planejamento urbano moderno. Em uma crítica ao funcionalismo, Rossi recusa o princípio de que a arquitetura está submetida às relações forma-função, apontando a forma como essência. Essa independência da função apoia-se na categoria de permanência, presente tanto no monumento quanto no traçados de ruas ou da malha urbana, para descrever a capacidade de transformação e variação das funções dentro de uma mesma forma. A ideia de permanência afirma o processo histórico como referência de uma tipologia formal/estrutural constante. Para Rossi, o tipo é uma forma elementar não redutível, é o registro de uma estrutura persistente na morfologia urbana à medida que ela se desenvolve com o passar do tempo. Para Rossi, o tipo integra os traços da vida e do uso de gerações inteiras, elaborados ao longo de séculos, mantendo-se durável e apto a se transformar. Dessa forma, a cidade é assim valorizada como processo, em que diferentes tempos coexistem no espaço urbano, e o que a enriquece é a sua constante transformação correlata à dinâmica cultural. Essa cidade dinâmica compreende a continuidade e o desenvolvimento tanto da cidade histórica como das suas expansões e adaptações como partes da continuidade do processo histórico. A contribuição de Rossi aponta a crítica à cidade moderna a partir da valorização dos centros históricos e a salvaguarda de monumentos como ponto de partida para uma cidade contemporânea essencialmente humana. A partir dessas dissidênciase de novas perspectivas conceituais, todas originadas nos anos 1960, abrem-se novas possibilidades para pensar a arquitetura e o espaço urbano contemporâneos. A cidade genérica e o não lugar Se as dissidências dos anos 1960 abriram caminho para pensar a cidade para além dos limites funcionalistas, a tentativa de compreender a cidade contemporânea acabou por gerar um debate teórico rico e instigante. O período moderno foi marcado pela concepção de um tempo longo, no qual eram possíveis a conquista do espaço e o planejamento do futuro, ao contrário da contemporaneidade que apresenta como temas principais a instantaneidade e a simultaneidade. Contraditório e múltiplo, o significado do tempo na sociedade contemporânea é uma composição de distintos tempos e espaços que, longe da homogeneidade pretendida pela modernidade, interpenetram e entrelaçam; mas essa nova percepção do tempo, fluido, subjetivo, não linear que se manifesta na vida urbana como complexidade, deve ao mesmo tempo ser submetido às exigências do mundo globalizado, em cuja lógica estão assumidos a produção em tempo real e o horizonte dos objetivos a curto prazo. Assim, a criação plena de um novo projeto urbano contemporâneo enfrenta o paradoxo do futuro- presente e o espaço em fluxo. Compreender o mundo contemporâneo assim posto, demanda o diálogo e a diversidade como premissas. Imaginar o funcionamento da cidade-rede, multipolar e policêntrica, inserida em sistemas urbanos macrorregionais, eixos continentais e fluxos globais, exige a formulação de novas perspectivas teóricas mais afeitas à complexidade e escala em foco. Sua dinâmica se desenvolve a partir de processos contraditórios que provocam o espalhamento pelo território, resultado da adição de densidades concentradas, sistemas 16 Re vi sã o: N om e do re vi so r - D ia gr am aç ão : L uc as M an sin i - d at a Unidade II viários dispersos, periferização, suburbanização e a presença de polos comerciais localizados. Ao mesmo tempo em que os núcleos históricos das cidades tornam-se obsoletos e deteriorados, cresce a tensão de uma vivência urbana desprovida de referências duráveis e lugares públicos integradores. A cidade como centralidade simbólica parece uma fórmula do passado e os antigos centros vão se restringido apenas a algumas funções culturais e turísticas. É nesta direção que Rem Koolhass propõe a noção de cidade genérica, a partir da constatação da persistência de certas características da metrópole contemporânea, com destaque para a perda de identidade histórica, o turismo mundial e a homogeneização dos centros urbanos, fenômenos associados à globalização. A cidade genérica recusa as restrições de uma identidade enraizada no passado e na história: ela é multirracial e multicultural, permanentemente aberta, flexível, capaz de responder instantaneamente às necessidades que se impõem. Trata-se de uma cidade em que a renovação, a expansão, a substituição ocorrem sem obstáculos, sem dilemas morais, mesmo quando admitindo a falta de importância da história: o passado pode ser “produzido” por meio de intervenções urbanas temáticas, cenográficas, pronta para ser consumida de imediato pela voracidade turística. Na cidade genérica, o espaço público tende a desaparecer como consequência da passagem de importantes setores da atividade urbana para o ciberespaço, mas persistem as estruturas de transporte e circulação: plataformas, pontes, túneis, estradas e principalmente aeroportos. A cidade genérica é a cidade sem história. Submetida a um processo interminável de autodestruição e de renovação, sua arquitetura está voltada para os grandes edifícios e equipamentos. Trata-se, portanto, de uma cidade insubstancial, indiferente, que nos remete ao conceito de não lugar proposto por Marc Augé, antropólogo francês, para designar um espaço de passagem incapaz de dar forma a qualquer tipo de identidade. O não lugar se produz a partir da velocidade e do movimento, da incerteza e da ambiguidade. Os não lugares são o oposto da noção de lugar antropológico: se um lugar pode se definir como identitário, relacional e histórico; um espaço que não pode se definir nem como identitário, nem como relacional, nem como histórico definirá um não lugar. O não lugar é descaracterizado e impessoal e representa-se essencialmente por espaços curta permanência e circulação, o universo do provisório e do efêmero, do transitório e da solidão: o espaço do viajante. Seria este o destino da cidade contemporânea? Vimos que a cidade genérica definida por Koolhaas é destituída de identidade, ou por outro modo, constitui sua identidade a partir de logomarcas de corporações globais. Na cidade genérica, o corpo, a presença física é posta em segundo plano, uma vez que as atividades realizadas em seu espaço são eminentemente virtuais, não necessitando de deslocamento ou da presença material. Nessa cidade, “estar em trânsito” é o modo de ser. Diante de tal contexto, cabe indagar: qual seria a arquitetura da cidade genérica? Koolhaas aponta que o pós-moderno sempre será seu estilo característico, o que não deixa de ser uma definição coerente, uma vez que a relação entre a história, o tempo e esta cidade não é linear ou convencional. Assim, valida- se a cópia, a citação, a colagem e a sobreposição de estilos, formas e referências diversas e desconexas, características do ideário da pós modernidade. Essa arquitetura efêmera corrobora a definição de uma cidade que prescinde de uma identidade própria. 17 Re vi sã o: N om e do re vi so r - D ia gr am aç ão : L uc as M an sin i - d at a ESTÉTICA DO PROJETO O conceito de cidade genérica aponta para uma nova fase de produção arquitetônica, na qual o tempo, o amadurecimento da obra e a sua permanência perdem a importância, abrindo novas possibilidades menos sólidas, mais flexíveis ou mais dinâmicas de intervenção. Se Koolhaas propõe sua cidade genérica como um texto-manifesto, ou como um protesto a respeito do que se produz contemporaneamente como arquitetura, é uma discussão válida e proveitosa. Mas não há dúvida que se trata de uma posição de uma superestrela da arquitetura global, afinado com seu tempo, ocupado em propor uma nova maneira de se apreciar a arquitetura fora dos cânones e rigores históricos ou teóricos, aceitando o desafio do novo como proposta e assumindo a polêmica como componente desse processo. As máquinas celibatárias: lugares x fluxos Conforme vimos, a estética pós-moderna, mais flexível, permissiva e adaptável, conforma-se facilmente à dinâmica da cidade contemporânea, na qual os fluxos predominam sobre os lugares; mas é importante lembrar que essa adequação entre a proposta urbanística e a arquitetura nem sempre se caracterizou pela convergência. Já nas origens do urbanismo moderno, como consequência da industrialização acelerada, as cidades passam a ser concebidas como um conjunto de redes interconectadas (circulação, abastecimento etc.), passíveis de controle por meio de regras e princípios. Trata-se de uma proposta de urbanismo como disciplina científica, sujeita a parâmetros, modelos e fórmulas universalmente aplicáveis. Assim, as duas principais propostas da modernidade, a tradição funcional e progressista dos CIAM e a tradição culturalista da Cidade-Jardim de E. Howard buscam sua fundamentação em modelos pragmáticos, científicos e universais. De outro lado, o exercício projetual da arquitetura mantém a tradição criativa, o fazer artístico. Assim, a pretensão científica do urbanismo moderno instaura uma cisão com a arquitetura, no papel de objeto estético autônomo, desligado de compromissos e relações com os demais elementos componentes do espaço urbano. Na expressão de Marcel Duchamp, o arquiteto passa a ser o produtor de “máquinas celibatárias”, objetos estéticos solitários em meio ao espaço urbano. Põe-se em jogo a dicotomia entre urbanismo e a arquitetura, ciência e arte, devidamente incorporada nas atividades do engenheiroe do arquiteto. O urbanismo proposto pelo movimento moderno parte do princípio de segregação espacial a partir da perspectiva funcionalista, privilegiando o zoneamento e a circulação. Dessa forma, a arquitetura da cidade moderna passa a ser uma coleção de objetos autônomos, microcosmos singulares sujeitos a suas próprias condições e limites, mera cenografia do espaço de fluxos em que progressivamente vai se convertendo a cidade. Os ecos do urbanismo científico moderno ainda se mostram presentes na cidade contemporânea. A noção de espaço urbano como conjunto de redes, por exemplo, é revitalizada pela proposta da “sociedade em rede”, de Manuel Castells. Para ele, a sociedade global contemporânea está centrada no uso e aplicação da informação e do conhecimento, resultando em profundas mudanças nos sistemas de valores, nos sistemas políticos e na vida das cidades. Trata-se de uma redefinição histórica das relações de produção, poder e experiência individual e social, a partir da admissão de uma fundamentação na estrutura em redes, em uma convergência com a crescente complexidade das interações, formas de produção e desenvolvimento, com a flexibilidade de organização e reorganização de processos, organizações e instituições, e com o acelerado desenvolvimento tecnológico. 18 Re vi sã o: N om e do re vi so r - D ia gr am aç ão : L uc as M an sin i - d at a Unidade II De forma simplificada, o conceito de rede pode ser entendido como um conjunto de nós interconectados que, pela sua flexibilidade e adaptabilidade, podem ser aplicados ao entendimento da complexidade das sociedades contemporâneas. Uma estrutura social organizada em redes é um sistema dinâmico e aberto, onde a expansão é possível por meio da simples integração de novos nós que partilhem os mesmos códigos de comunicação que os demais. É a partir disso que se pode admitir uma nova lógica de organização espacial: o espaço de fluxos. Mercadorias, capitais, informação, pessoas, decisões; enfim, a atividade humana passa a estar submetida a essa forma de organização. Ao admitir o espaço de fluxos, torna-se necessário aceitar sua correlação com a noção de uma temporalidade fundamentada no instantâneo e no simultâneo. No funcionamento das redes, o tempo é binário, não expressa sequência, conhece só dois estados - presença e ausência - tudo o que existe é “agora” (está na rede e é imediatamente acessível), tudo o que não existe tem de ser introduzido do exterior (está fora da rede e é inacessível). O espaço dos fluxos dissolve o tempo, desordenando a sequência de eventos, tornando-os simultâneos, instalando a sociedade em uma espécie de eterna efemeridade. Tudo pode acontecer a qualquer momento. Considerando que a experiência da cidade é indissociável de uma experiência efetiva do tempo e que o espaço de fluxos progressivamente se sobrepõe aos lugares, a produção da arquitetura em tal contexto torna-se mais problemática e complexa. Estaríamos condenados a reproduzir máquinas celibatárias como modelo cenográfico de paisagem urbana da cidade pós-industrial? Mongin (p.158-9) sugere que a revalorização da experiência urbana passa pela reconquista dos lugares a partir da reabilitação do tempo material e de uma arquitetura como vetor de imagens e ideias, devidamente alinhada com toda a produção cultural, artística e literária, também referências históricas exemplares, como experiência multidimensional capaz de admitir o espaço de fluxos como componente estrutural. As possibilidades de uma experiência urbana contemporânea A experiência urbana contemporânea, diretamente relacionada à sociedade em rede e ao processo de globalização, apresenta algumas características únicas: a primazia da circulação e dos fluxos sobre os lugares, a reestruturação das relações público-privadas, a imprecisão dos limites entre materialidade e virtualidade. Por outro lado, a experiência urbana, o mundo vivido é necessariamente material, passa pela existência corpórea, pelo universo sensorial. Cabe, portanto, examinar a questão a partir desses dois polos complementares. Sabemos que é a partir da experiência de mundo vivido que a materialidade do corpo-sujeito em relação ao mundo circundante se manifesta e, por consequência, determina a noção existencial de lugar. O lugar e o indivíduo se definem mutuamente através de suas relações, e, assim definida, essa noção de lugar aproxima-se da definição de ponto nodal (nó) da sociedade em rede, das conexões que se estabelecem entre o indivíduo e o mundo. É importante notar que essa relação só é possível se admitirmos um protagonista: o habitante. O radical latino habeo indica uma relação de constância e permanência, significado que se conserva nas palavras hábito, habitualidade e também em habitar e habitante. Esse mesmo raciocínio de contraposição entre lugares e fluxos implica um segundo 19 Re vi sã o: N om e do re vi so r - D ia gr am aç ão : L uc as M an sin i - d at a ESTÉTICA DO PROJETO personagem: o transeunte. Se a noção de habitante implica em cotidianidade, a de transeunte implica a não permanência, a inconstância. O prefixo trans indica travessia, movimento, impermanência. Assim, se habitar corresponde à relação fundamental entre o homem e lugar, referência para a mútua construção de identidades, transitar traduz a própria experiência do espaço em fluxo. “Habitar é bem mais um demorar-se junto às coisas” (HEIDEGGER, 2001, p. 13), e dentro dessa perspectiva, torna-se útil lançar mão de outro conceito para compreendermos a importância existencial do lugar. Heidegger afirma que “ser-no-mundo” (Dasein) implica na espacialidade inerente à existência humana: ser é necessariamente ser em algum lugar. Essa espacialidade de Dasein compreende a situação do sujeito, não como localização geometricamente determinada em um espaço homogêneo e neutro, mas em termos de lugares qualitativamente diferenciados, carregados de significados que emergem dessa relação: o Dasein não habita o espaço, ele espacializa, abre o espaço a ser ocupado pelo ser no mundo. Por sua vez, o espaço da sociedade em rede, o espaço de fluxos, pode ser examinado mais concretamente a partir do desenvolvimento acelerado que vem ocorrendo por conta do processo de globalização e reestruturação econômica mundial, sobretudo na China. Chai-na, em mandarim, significa “demolir aí”, e dá o título a um instigante estudo de Otilia Arantes sobre a cidade contemporânea. Temos visto diversas tentativas de sintetizar a cidade contemporânea a partir de diferentes conceitos: “cidades mundiais”, “planejamento estratégico”, “cidade-empresa”, “city marketing”, tentativas que refletem a intenção de capturar o dinamismo das transformações da cidade contemporânea, mas que se tornam quase que instantaneamente insuficientes pelas mutações do próprio objeto que se tenta apreender. Arantes argumenta que não é novo o fato de que o sistema econômico mundial funciona cada vez mais de forma “imaterial” e “espectacularizado”, convertido em “forma-publicitária”, vitrine midiática destinada a reencantar o mundo dos negócios e o imaginário mundial, no qual a arquitetura passa a ser (como já afirmava W. Benjamin) a mais antiga arte de massa. A recente hiperurbanização chinesa evidencia a convergência de diversos interesses e dinâmicas, sejam os interesses do capital globalizado ou interesses políticos através da produção arquitetônica de grandes signos midiáticos (como a torre da CCTV, China Central Television, de OMA/Koolhass e Olen Sheere). As consequências aparecem nos escombros e na massa de desassistidos, também produzidos à exaustão por essa lógica. Para Arantes, trata-se de uma política de “acumulação” territorial sintetizada no processo em que os interesses e o poder da classe dirigente central, das agências estatais de desenvolvimento e incorporação e dos dirigentes locais criaram aquilo que David Harvey chamou de “privatizações com características chinesas”. Essa conjunçãode fatores deu origem a uma configuração urbana bastante estratificada: estamo-nos confrontando com a combinação de números astronômicos com implantes na escala social de um aldeamento. A hiperurbanização chinesa se desenrola como necessidade de absorver, depois de um longo período de desurbanização, o numeroso exército de reserva de mão de obra oriundo das regiões rurais. Para tal, a necessidade de uma ampla infraestrutura capaz de antecipar o crescimento urbano pretendido, 20 Re vi sã o: N om e do re vi so r - D ia gr am aç ão : L uc as M an sin i - d at a Unidade II junto a uma política de estímulo à poupança via propriedade privada com a formação de um crescente e importante mercado de consumo. Tais necessidades são um fértil campo para o desenvolvimento de uma produção cultural considerável, que implica o espaço urbano e a arquitetura. A “destruição criativa”, implícita na expressão Chai-na, evoca as Olimpíadas de Pequim, vendidas mundialmente como símbolo da nova China, e o discutível paradigma da estratégia dos “megaeventos” associados a grandes obras para os grandes centros urbanos mundiais: equipamentos, infraestruturas e intervenções urbanas numa escala inédita, cuja espetacularização midiática supera o simples fenômeno de city marketing. O megaevento que interessava à elite política chinesa era uma virada histórica para a qual a vitrine olímpica era estratégica, contando com a arquitetura das grandes obras como instrumento privilegiado. O pano de fundo teórico desse fenômeno não é novo e está intimamente ligado aos grandes acontecimentos de consumo de massa: o sonho coletivo de bem-aventurança, felicidade e poder. No caso chinês, sonhos olímpicos, precisamente capturados e devidamente monetarizados pela coalizão entre interesses econômicos globais e políticos, reafirmam a crença moderna de que a remodelagem do mundo pela industrialização-urbanização levaria as massas ao paraíso. Esse vertiginoso processo de aceleração econômica e social de alcance histórico-mundial levou Rem Koolhaas a forjar um novo conceito para pensá-la: “unidade de crescimento abrupto”. Na verdade, na grande transformação urbana da China, tanto em escala quanto em velocidade do processo, beiram as distopias tantas vezes focalizadas pela literatura e o cinema. Os espaços de fluxos que caracterizariam a globalização financeira, migratória, tecnológica etc., quando confrontados à recente hiperurbanização chinesa evidenciam a liquefação dos limites urbanos: fluxos borram fronteiras e lugares se desfocam diante da experiência da velocidade onipresente. Informações: www.sepi.unip.br ou 0800 010 9000