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## Resumo: Ateísmo e comunismo — o lugar de Jean Meslier na filosofia política das LuzesO texto de Paulo Jonas de Lima Piva propõe uma revisão crítica do cânone tradicional do Iluminismo francês, especialmente no que tange à filosofia política do século XVIII. Enquanto os manuais acadêmicos e cursos de filosofia costumam destacar figuras como Montesquieu, Rousseau, Voltaire e Diderot, o autor chama a atenção para pensadores marginalizados, em particular Jean Meslier (1664-1729), um vigário de aldeia que, em torno de 1720, escreveu uma obra radical e subversiva. Meslier defendia a união dos oprimidos para derrubar o último rei com as tripas do último padre, uma metáfora extrema que simboliza a rejeição simultânea da monarquia absolutista e da Igreja. Diferentemente dos filósofos da elite nobre ou burguesa que sustentavam o deísmo, a propriedade privada e o despotismo esclarecido como fundamentos da civilização, Meslier antecipava o deicídio, o tiranicídio e o comunismo como bases para um novo mundo. Essa singularidade lhe confere um lugar de destaque e importância na filosofia política das Luzes, frequentemente negligenciado pela historiografia tradicional.O autor destaca que o Iluminismo francês não se resume aos nomes consagrados e suas obras mais conhecidas, como *O Espírito das Leis* de Montesquieu ou *O Contrato Social* de Rousseau. Pesquisas, como as do historiador Robert Darnton, revelam que muitos dos textos mais populares e influentes no período pré-revolucionário eram de autores marginalizados, cujas obras circulavam clandestinamente e eram debatidas nas tabernas e mercados parisienses. Esses autores, embora esquecidos hoje, tiveram papel fundamental na formação da opinião pública e no fermento ideológico que culminou na Revolução Francesa. Nesse contexto, Jean Meslier emerge como uma "jóia" do pensamento radical do século XVIII, um pensador que, apesar de sua origem humilde e condição de padre, desenvolveu um materialismo ateu e um comunismo utópico que o colocam em posição única entre os filósofos das Luzes.Jean Meslier rejeitava categoricamente a existência de Deus, a transcendência e a providência divina, posicionando-se como um ateu e materialista rigoroso. Para ele, tudo o que existe é matéria, única substância da realidade, e as ideias de alma imortal ou substância imaterial são fantasias. Criticava duramente a religião, especialmente o cristianismo, que via como um instrumento de dominação usado por reis e sacerdotes para oprimir os pobres e camponeses. Politicamente, Meslier era um inimigo ferrenho do absolutismo e de qualquer forma de monarquia, defendendo um governo dos mais esclarecidos e virtuosos, idealmente o baixo clero rural, que compartilhava as agruras do povo. Sua proposta social era um comunismo primitivo, inspirado nas comunidades cristãs originais e em ordens monásticas, baseado na fraternidade, no trabalho coletivo e na exploração comum da terra. Ele conclamava os oprimidos à revolta contra seus tiranos, antecipando em quase dois séculos o discurso revolucionário do Manifesto Comunista de Marx e Engels. Contudo, Meslier viveu sua vida mantendo suas convicções em segredo, e seus escritos só foram revelados postumamente, causando escândalo.Ao comparar Meslier com outros pensadores do Iluminismo, o autor evidencia sua radicalidade ímpar. Enquanto Montesquieu, Voltaire, Rousseau e Diderot, em sua maioria, defendiam o deísmo, a propriedade privada e o despotismo esclarecido, Meslier sustentava o ateísmo, o tiranicídio e o comunismo. Mesmo os ateus e materialistas do período, como Diderot e Holbach, aceitavam a propriedade privada e formas moderadas de governo, como a monarquia constitucional. Os utopistas críticos da propriedade, como Mably e Morelly, mantinham crenças deístas, diferentemente de Meslier, que rejeitava toda divindade. Sua biografia singular, a contundência do seu materialismo, a radicalidade da sua crítica social e a ousadia de sua proposta política o colocam como um precursor e uma figura original no pensamento político das Luzes. Além disso, sua influência pode ser percebida em pensadores posteriores, como Voltaire, Diderot e o revolucionário Sylvain Maréchal. Por essas razões, Meslier merece ser resgatado e reconhecido não apenas na história da filosofia política francesa, mas também nos estudos acadêmicos em língua portuguesa.---### Destaques- Jean Meslier, vigário ateu e comunista do século XVIII, propôs a união dos oprimidos para derrubar a monarquia e a Igreja, antecipando ideias revolucionárias.- Seu materialismo radical nega a existência de Deus e sustenta que tudo é matéria, rejeitando o dualismo cartesiano e a religião como instrumento de dominação.- Diferentemente dos filósofos do alto Iluminismo, que defendiam deísmo, propriedade privada e despotismo esclarecido, Meslier advogava o deicídio, tiranicídio e comunismo.- A obra de Meslier só foi conhecida postumamente, mas representa uma importante corrente do baixo Iluminismo, que influenciou a opinião pública pré-revolucionária.- Sua singularidade filosófica, política e ideológica o torna uma figura essencial para compreender a diversidade e radicalidade do pensamento político das Luzes francesas.