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Tese Professor titular Crocco

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é aqui sugerido é que 
o sistema financeiro desempenha um papel crítico neste processo. 
Por fim, caberia discutir como a moeda se relaciona com o processo de 
construção de centralidades em espaços periféricos. Como visto anteriormente, 
existem três fatores que tornam o território mais desigual em regiões periféricas, a 
saber: i) a pequena densidade urbana determinada pela pior distribuição espacial 
desta renda; ii) entorno do núcleo urbano geralmente de subsistência, significando 
que o núcleo urbano não é capaz de desaglomerar atividades econômicas 
complementares para seu entorno; e, iii) porosidade da demanda local, que resulta 
 
 
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em uma área de mercado regional geograficamente extensa, mas com baixa 
intensidade da demanda por unidade de distância. 
Todas estas caracteríscas determinam a construção de um espaço 
fortemente fragmentado em regiões atrasadas, com uma estrutura urbana 
fortemente hierarquizada. É possível, portanto, argumentar que quanto mais 
hierarquizada for uma estrutura urbana, maior será o diferencial de preferência 
pela liquidez entre as regiões. Ou seja, em regiões periféricas, o diferencial de 
preferência pela liquidez entre regiões é significativamente maior devido à 
fragmentação do espaço, fazendo com que este diferencial se torne cada vez maior. 
Além disso, a distribuição espacial do sistema financeiro também se torna 
extremamente fragmentada, não só com grandes diferenciais entre regiões na 
concessão de crédito, como também na oferta de serviços bancários. Nas palavras 
de Dow 
As financial systems develop, the non-bank financial intermediaries expand 
relative to the banks; […] Together, the banks and the non-banks financial 
intermediaries provide financial services to non-financial bussines. The 
nature, terms and availability of these services are the fundamental economic 
significance. To the extent that these services and their availability differ from 
one locality to another, the economic development of these localities is bound 
to be affected. These differences can arise from the local character of financial 
institutions, and from the degree to which local bussiness is dependent on 
such local financial institutions (Chick and Dow, 1988) (Dow 1999, p. 43 -44), 
 
 
 
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PARTE II - DUAS INVESTIGAÇÕES EMPÍRICAS: MOEDA, 
DESENVOLVIMENTO REGIONAL E HIERARQUIA URBANA 
NO BRASIL 
 
Nesta parte da tese procurar-se-á subsidiar a discussão teórica efetuada na 
Parte I com uma investigação empírica acerca do comportamento do sistema 
bancário brasileiro, a partir da perspectiva Pós Keynesiana discutida 
anteriormente. Duas abordagens de investigação serão desenvolvidas. O primeiro 
recorte será o regional, através da divisão político – administrativa, do Brasil 
(grandes regiões). Como mostrado, a abordagem Pós Keynesiana para economia 
regional tem como elemento central a hipótese da existência de preferências pela 
liqüidez diferenciadas no território, determinada pelas características econômicas 
das regiões. Neste sentido, a investigação empírica a ser realizada pode ser 
considerado um contribuição para a validação ou não desta teoria a partir da 
utilização de dados do Brasil. 
 O segundo recorte será urbano, através da hierarquia do tipos de serviços 
financeiros oferecidos no país. Neste caso, procura-se contribuir para suprir uma 
deficiência da abordagem Pós Keynesiana apontada na Parte I, qual seja, o diálogo 
com categorias típicas tanto da economia regional quanto da geografia econômica. 
Neste caso, a categoria seria a centralidade. Assim, como será visto, procura-se 
analisar a relação entre preferência pela liqüidez e distinto níveis de centralidade. 
Além disto, buscando aprofundar a discussão acerca das relações entre moeda e 
desenvolvimento urbano, ao final uma pequena análise é efetuada tendo como 
recorte a escala urbana. 
Vale salientar aqui uma contribuição que esta tese traz: o banco de dados 
utilizado. Serão utilizado dados relativos aos balancetes das agencias bancárias 
copilados pelo Laboratório de Estudos em Moeda e Território – LEMTe -, do Centro 
de Desenvolvimento e Planejamento Regional (CEDEPLAR) da UFMG. A fonte 
primária destes dados é o Sistema de Informações Contábeis do Sistema Financeiro 
(COSIF), Desde 1988 o Banco Central do Brasil tornou obrigatório para cada 
 
 
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agência bancária no país enviar ao Banco Central o balancete mensal de sua 
contabilidade. Estas informações são disponibilizadas de forma agregada por 
município. O LEMTe coletou, tabulou e deflacionou tais informações para todos os 
municípios do Brasil.43 Este banco é único no Brasil, sendo que somente o Banco 
Central do Brasil possuí um banco similar. Vale ressaltar que esta instituição não 
disponibiliza tais dados de forma agregada, razão pela qual o LEMTe se dedicou 
nos últimos cinco anos na montagem deste banco de dados. 
Uma forma de avaliar o ineditismo e a importância deste banco de dados 
são os prêmios recebidos por trabalhos que o utilizaram. Até o momento, foram 
dois primeiros lugares no Prêmio IPEA / Caixa (derivados de uma monografia de 
conclusão de curso e uma dissertação de mestrado); melhor trabalho categoria 
profissional do último Encontro de Economia do Nordeste (ANPEC – Nordeste), e 
melhor trabalho de iniciação científica (UFMG – 2008). 
Esta Parte da tese está assim estruturada. Na próxima seção, uma breve 
revisão da evolução recente do sistema financeiro brasileiro é efetuada. Busca-se 
aqui contextualizar o ambiente macroeconômico e seus rebatimentos sobre o 
sistema financeiro brasileiro. A seção seguinte trata da investigação empírica com 
o recorte regional. Finalmente, a última seção trata do recorte urbano. 
II.1 EVOLUÇÃO RECENTE DO SISTEMA FINANCEIRO BRASILEIRO 
Para entender a recente evolução do sistema financeiro no Brasil, com 
atenção especial ao seu gerenciamento, é necessário retornar no tempo ao início 
dos anos 80. A resposta do sistema financeiro ao meio ambiente macroeconômico 
daquele período teve repercussões sobre o seu comportamento, com implicações 
que se estenderam até a década seguinte. 
Como é amplamente conhecido, os anos 1980 começam sob a influência de 
choques externos, que determinaram alterações significativas nas condições 
internas, associadas com a crise da dívida, que se traduziram no fenômeno 
 
43 Para se ter uma idéia da dimensão do banco de dados utilizados, basta lembrar que cada balancete mensal 
possui cerca de 140 informações. Foram coletadas informações de cerca de 3500 municípios que possuíram 
pelo menos uma agência bancária durante todo o período. Assim sendo, mensalmente foram armazenadas 
cerca de 490.000 informações. Se considerarmos o período de 21 anos, atingem-se a marca de 123.480.000 
informações disponíveis no banco de dados. 
 
 
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denominado estaginflação (inflação com pequeno crescimento econômico) e na 
drástica deterioração das contas públicas. Adicionalmente, a industrialização por 
substituição de importações passou a ser duramente criticada. De acordo com a 
ortodoxia neoliberal – baseada nas diretrizes do Consenso de Washington – a 
liberalização econômica era considerada a política apropriada para enfrentar a 
crise, promover a estabilidade e a competitividade internacional e, em decorrência, 
restaurar o crescimento econômico. A liberalização financeira, em particular, era 
considerada condição sine qua non para superação das dificuldades enfrentadas 
pelo país. 
Apesar da crise econômica, o sistema financeiro foi capaz de sustentar uma 
alta lucratividade relativamente a outros agentes econômicos. Essa lucratividade 
foi, principalmente,