A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
185 pág.
HISTÓRIA DA LITERATURA BRASILEIRA

Pré-visualização | Página 34 de 50

de sapiência na abertura das aulas.82
Por esse tempo teria começado o seu poema, cuja composição continuaria quando, acaso receoso da reação antipom-
balina, recolheu à casa de sua ordem em Lisboa, em 1779. Aí concluído ou limado, foi publicado em 1781.
Em nenhum dos poetas da plêiade mineira, ou quaisquer outros seus contemporâneos, o nativismo que preludiou aqui o
nacionalismo e o patriotismo, como estímulo de inspiração literária, manifesta-se tão claramente como em Santa Rita Durão.
O seu poema tinha já, por volta de 1778 a 80, quando foi imaginado e escrito, um propósito patriótico. “Os sucessos do
Brasil, escreveu o poeta nas Reflexões prévias, antepostas ao seu livro, não mereciam menos um poema que os da Índia.
Incitou-me a escrever este o amor da pátria.” Como por trás de Camões, trazido aqui à memória por Durão, vemos a João de
Barros, o insigne historiador do descobrimento e conquista da Índia, assim atrás de Santa Rita Durão enxergamos Rocha
Pita, o autor vanglorioso da História da América portuguesa. Não precisava Durão confessar que o lera. O seu poema
bastaria para o atestar e certificar-nos de que dele principalmente derivam não só passos, incidentes e digressões do Caramuru,
mas principalmente o seu entusiasmo patriótico. Patriotismo, porém, que não era ainda o brasileirismo estreme, senão um
sentimento misto, comum a todos esses poetas, de lealdade portuguesa e de amor à terra natal, sentimento que se dividia
entre a nação, que era Portugal, e a pátria, que era o Brasil.
Sobre ser impertinente fazer do descobrimento da Bahia, ou ainda do Brasil, uma epopéia, à luz da estética não era
muito melhor que o de Basílio da Gama o tema de Durão. Tinha, porém, sobre o daquele a vantagem do maior recuo do
tempo, menor precisão ou maior incerteza histórica, dando ao poeta ensanchas a desenvolvimentos em que aproveitou a
História do Brasil do descobrimento ao governo-geral e ainda a previsão da luta contra os holandeses. Como todos sabem,
o assunto do poema do episódio meio histórico, meio lendário, do naufrágio do aventureiro português Diogo Álvares
Correia, que, soçobrando nas costas orientais do Brasil, justamente no recôncavo da Bahia, escapou do naufrágio e caiu nas
mãos dos índios que aí havia. Guardado para servir-lhes de repasto, conseguiu esquivar a sua triste sorte e dominar-lhes com
o pavor que lhes causou matando no vôo um pássaro, e fazendo outras façanhas com um arcabuz que acertara salvar da
catástrofe. Sobre esse fato verossímil, e que se teria repetido entre navegadores e selvagens, ignorantes das armas de fogo,
bordou a imaginação popular circunstâncias e acrescentou desenvolvimentos que a história mais tarde, por mão do operosíssimo
Varnhagen, provaria lendários, como a viagem de Diogo Álvares à França em companhia da gentia Paraguaçu, sua noiva, o
batismo desta em Paris e o casamento deste casal, sendo padrinhos em ambas as cerimônias Henrique II e a sua mulher, a
célebre Catarina de Médicis, que deu o seu nome à sua exótica afilhada. Diogo Álvares, dizia a lenda, perfilhada pelos
cronistas, recebeu dos índios, por causa da arma flamante com que dava a morte, a alcunha de Caramuru. Este nome, que é
simplesmente o de um peixe, e que lhe deram por o terem apanhado no mar, a nossa fantasia etnológica o interpretou de
vários modos, todos evidentemente falsos. Não havia aliás em Diogo Álvares, nem houve nos seus atos, os predicados de um
herói de epopéia, e a mesma lenda não lhos dá. Nem o poeta lhos soube emprestar que os relevassem.
Pela sua concepção e execução era o Caramuru, mais do que o Uraguai, um dos muitos poemas saídos da fonte
camoniana. Sem embargo desta falta de originalidade inicial, da mesma forma e estilo poético, e de reminiscências do
poema de Camões, tem o Caramuru qualidades próprias e estimáveis. Como poema nacional leva a primazia ao Uraguai,
apesar da sua inferioridade poética. Além da intenção manifesta que o gerou como a epopéia do descobrimento do Brasil, é
o Caramuru mais nosso pela sua ação e teatro dela, o Recôncavo, o berço por assim dizer da nacionalidade que se ia criar
aqui, e ainda pelos múltiplos testemunhos do seu interesse e amor do país. Descreve-o e conta-o Durão já com o desvanecimento
de sua grandeza e excelência e a previsão de seus altos destinos. Estes, porém, se lhe não antolhavam ainda na formação de
uma nacionalidade distinta, mas apenas no concurso decisivo que a sua pátria de nascimento traria à restauração da grandeza
da nação cuja era parte
O Brasil aos lusos confiado
Será, cumprindo os fins do alto destino,
Instrumento talvez neste hemisfério
De recobrar no mundo o antigo império.
Infelizmente o modo, imposto pelo seu estado de frade, e frade de bons costumes, por que tratou o drama amoroso, e
que serve de núcleo ao seu poema, privou-o de dar-lhe a emoção que nos poderia ainda comover. Gravíssima falta de senso
estético foi o fazer de Diogo Álvares e Paraguaçu, o aventureiro português e a índia sua namorada e depois sua mulher, um
casal de castos amantes. É uma situação contra a natureza, contra os fatos, contra a verossimilhança, e mais que tudo
inestética. Não se imagina um rude aventureiro português do século XVI, ardente e voluptuoso, quais se mostraram na
conquista, na situação singular, e como quer que seja esquerda, descrita por Durão, com uma formosa índia, moça e amorosa,
em meio desta natureza excitante e dos fáceis costumes indígenas, e sem nenhum estorvo social, comportando-se qual se
comportou o seu, isto é, como um santo ou um lendário cavaleiro cristão, e a reservando, num milagre de continência, para
sua esposa segundo a Santa Madre Igreja e ainda em cima doutrinando-a que nem um missionário profissional sobre as
excelências da castidade. Não obstante o seu profundo catolicismo, Camões não caiu neste erro, e ao contrário enalteceu o
seu poema com os conhecidos passos de uma tão artística voluptuosidade.
Como o Uraguai, o Caramuru insinua o americanismo na poesia portuguesa, abre aos índios e às cousas indígenas
maior espaço na brasileira do que o fizera aquele, e funda o primeiro indianismo. Não os acompanharam os outros poetas do
grupo. Nestes mesmos, porém, sentimentos e inspirações mais nativos e mais nativistas do que até aí, as suas repetidas
alusões ou referências a cousas pátrias, a nostalgia dela em alguns deles entremostrada, procedem incontestavelmente de
Basílio da Gama e Durão, mormente do primeiro, do qual há claras impressões em quase todos estes poetas. Durão parece
não os haver tocado tanto. Não se encontram reminiscências, e menos memória deles, em seus poemas. É que o seu trazia
ainda muito da velha fórmula que o arcadismo desses poetas menosprezava. Sem embargo do propósito patriótico de Durão,
e das manifestações eloqüentes do seu brasileirismo, eles, mais artistas que patriotas, lhe preferiram, como nós hoje, Basílio
da Gama, a quem Cláudio da Costa, Alvarenga Peixoto e Silva Alvarenga louvaram com admirativa estimação e imitaram,
mostrando sentirem o que de novo, inspirado e alto havia no seu gênio.
A três dos representantes da plêiade mineira, Cláudio da Costa, Alvarenga Peixoto e Tomás Gonzaga, tem sido atribuído
o poema satírico das Cartas Chilenas, composto em Minas, na segunda metade do século XVIII. É mais que uma sátira, uma
diatribe contra o governador D. Luís da Cunha Menezes e sua administração. Ele figura como o herói burlesco sob o
pseudônimo de Fanfarrão Minésio. Fingem-lhe a ação e sucessos passados em Santiago do Chile, nomes que, conforme já
notara Varnhagen, cabem no verso tanto como Vila Rica e Minas.
Escrito em forma de cartas dirigidas por um tal Critilo e certo Doroteo, ambos poetas, tem este poema, se assim se lhe
pode chamar, real valor literário. Saíram à luz pela primeira vez, em edição da revista Minerva Brasiliense, no Rio de
Janeiro, em