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HISTÓRIA DA LITERATURA BRASILEIRA

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o seu demasiado respeito das tradições literárias, e obliterou-lha o abstrato e o fluido do seu estilo poético. A
diplomacia, carreira em que apenas estreado em letras entrou, com a sua gravidade protocolar, a sua artificialidade, a sua
futilidade, a sua compostura de mostra, não devia ter pouco contribuído para sufocar em Magalhães, ou amesquinhá-los, os
dons poéticos mais vivazes que porventura recebera na natureza. Influências de filosofia escolástica e livresca e do decoro
da situação social fazem-no versejar os mais triviais lugares-comuns:
Um Deus existe, a Natureza o atesta:
A voz do tempo a sua glória entoa,
De seus prodígios se acumula o espaço;
E esse Deus, que criou milhões de mundos,
Mal queira, num minuto
Pode ainda criar mil mundos novos.
Se a sua emoção poética, a sua inspiração, carece de profundeza, pobre é também a sua expressão. Raro se faz nalguma
forma sintética, conceituosa ou intuitiva. Por via de regra se derrama em um longo fraseado, com exclamações e apóstrofes.
Roma lhe não inspira senão banalidades da sua história corriqueira e dos seus mais triviais aspectos:
Roma é bela, é sublime, é um tesouro
De milhões de riquezas; toda a Itália
É um vasto museu de maravilhas.
Eis o qu’eu dizer possa; esta é a Pátria
Do pintor, do filósofo, do vate.
O prosaico escandaloso destes versos não é uma exceção ou uma raridade. De todo este grosso volume dos Suspiros
poéticos (mais de 350 páginas) apenas vive hoje, e merece viver, o Napoleão em Waterloo, que sem ter a profundeza, a
intensa emoção humana e poética do Cinque magio, de Manzoni, salva-se por um alevantado sopro épico e sem embargo de
alguns desfalecimentos, uma bela forma eloqüente e comovida.
O que os contemporâneos acharam de novo no livro, e o pelo que ele os impressionou, foi, com a ausência dos fastidiosos
e safados assuntos antes preferidos, mitológicos e clássicos, dos rançosos tropos da caduca retórica, a personalidade do
autor. Não se revelava esta no vigor do sentimento ou no ressalto da expressão, como com Victor Hugo em França ou Garrett
em Portugal, mas se apresentava nas numerosas referências a si mesmo, nas suas declarações de fé e de princípios, nas suas
confissões e lástimas. Por pouco que tudo isso fosse realmente, ou por pouco que nos pareça a nós, foi então, com ajuda do
sentimento nacionalista predominante, achado muito. A despeito das restrições que podemos fazer hoje, havia ainda nos
Suspiros poéticos, e se não enganaram os contemporâneos, a exalação de uma alma, tocada da nova graça romântica,
influída, por pouco que fosse, pelo sopro da liberdade estética que agitava a atmosfera européia e tão bem se casava com o
de liberdade política que soprava em sua pátria. E às vezes exalava-se linda e sentidamente:
Castas Virgens da Grécia,
Que os sacros bosques habitais do Pindo!
Oh Numes tão fagueiros,
Que o berço me embalastes
Com risos lisonjeiros
Assaz a infância minha fascinastes.
Guardai os louros vossos,
Guardai-os, sim, qu’eu hoje os renuncio.
Adeus ficções de Homero!
Deixai, deixai minha alma
Em seus novos delírios engolfar-se,
Sonhar com as terras do seu pátrio Rio;
Só de suspiros coroar-me quero,
De saudades, de ramos de cipreste;
Só quero suspirar, gemer só quero.
E um cântico formar co’os meus suspiros.
Assim pela aura matinal vibrado
O Anemocórdio, o ramo pendurado,
Em cada corda geme,
E a selva peja de harmonia estreme.
Renunciando às musas clássicas, é, entretanto, na sua língua que lhes refoge. Distingue o Magalhães dos Suspiros
poéticos da geração poética precedente e do mesmo Magalhães dos versos de 32, outra feição muito do Romantismo, a
soberba do poeta, o senso da nobreza da sua missão, a alevantada ambição que se lhe gera deste pressuposto. São manifestações
do individualismo romântico, embora nele contidas, mais discretas do que acaso cumpria, sem os entusiasmos, transbordantes
até à descompostura, de muitos dos corifeus da escola. Leiam-se o Vate, A Poesia, A Mocidade. Este poema sobretudo revê,
e não sem intensidade, aquela “tragédia da ambição” que, segundo Brandes, se apresentava na alma da juventude romântica
francesa. Como quer que seja, esse grosso volume de poesias teve, de 1836 a 1865, três edições, fato aqui extraordinário.
Que no fundo de Magalhães, porém, havia permanecido o árcade retardatário das Poesias de 1832, provam-no os
poemas posteriores a 1836, publicados sob o título de Poesias várias, como segunda parte das Poesias avulsas, em 1864.
Neles volta à poética apenas esquecida nos Suspiros. Prova-o mais, de desde o título, a sua posterior coleção de versos,
Urânia, em que tudo lembra mais a poética obsoleta que a em voga.
A inspiração poética, como a forma que a realiza, ou o estilo, é função do temperamento do poeta que a condiciona. O
de Magalhães era evidentemente mais consoante ao pensamento geral e à poética dos últimos cinqüenta anos, do que com as
idéias e a poética do seu tempo. Pode ser que, como ele próprio insinua através de Wolf, fosse o Romantismo alemão,
simplesmente como expressão do sentimento nacional, como revolta contra a servidão de todo o mundo ao classicismo
francês, que lhe atuasse o estro. Em todo caso, sob uma forma comedida e reportada, revendo o seu medíocre entusiasmo
pelo movimento, cujo promotor e chefe, mais por força das cousas quer por íntima persuação, foi aqui.
Se Magalhães houvera ficado nos Suspiros poéticos, talvez fosse apenas um nome a mais no comprido rol dos nossos
poetas. Quaisquer que fossem os méritos dessa coleção, não eram tais que só por ela pudesse o autor tomar na literatura
brasileira a importância que alcançou. Deu-lha mui justamente o volume e a variedade da sua obra, provando nele capacidades
que, sem serem sublimes, eram menos comuns, aptidões literárias diversas e vocação literária incontestável.
Magalhães, e o seu exemplo influiria os seus companheiros e discípulos da primeira geração romântica, sentiu que o
renovamento literário de que as circunstâncias o faziam o principal promotor, carecia de apoiar-se em um labor mental mais
copioso, mais variado e mais intenso, do que até então aqui feito, e que uma literatura não pode constar somente de poesia,
e menos de pequenos poemas soltos. Com esta intuição, senão inteligência clara do problema, que para ele e os jovens
intelectuais seus patrícios se estabelecia, Magalhães colaborou em revistas com ensaios diretamente interessantes ao movimento
literário e ao pensamento brasileiro, criou, com Martins Pena, o teatro nacional, iniciou, com Teixeira e Sousa, o romance,
reatou com os Tamoios a tradição da poesia épica do Caramuru e do Uraguai, fez etnografia e história brasileiras, deu à
filosofia do Brasil o seu primeiro livro que não fosse um mero compêndio, e ainda fez jornalismo político e literário, e
crítica. Pela sua constância, assiduidade, dedicação às letras, que a situação social alcançada no segundo reinado, ao contrário
do que foi aqui comum, nunca lhe fez abandonar, é Magalhães o primeiro em data dos nossos homens de letras, e um dos
maiores pela inspiração fundamental, volume, variedade e ainda mérito da sua obra. Pode dizer-se que ele inicia, quanto é
ela possível aqui, a carreira literária no Brasil, e ainda por isso é um fundador.
Os preconceitos pseudoclássicos de Magalhães e a sua índole literária, sempre mais arcádica que romântica, levaram-no
no teatro à tragédia, na poesia ao poema épico. Em ambos os casos inspirou-o o espírito nacionalista da época, o propósito
de fazer literatura nacional, de assunto e sentimento. Declara ele próprio o seu desejo de encetar a carreira dramática com
um assunto nacional. A sua estética confessada no prefácio da tragédia de Antônio José lhe oscila entre “o rigor dos clássicos
e o desalinho dos românticos”. Como eclético de temperamento e de filosofia,