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Não Chame Ninguém de Mestre - Joyce Collin-Smith

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tolo" escreveu Ouspensky. "Tinha aberto mão de 
minha carreira e de todos os meus projetos para ficar com G., e acabei por afastar-me 
dele."
Ouspensky encontrou um patrocinador na Inglaterra e se estabeleceu por conta 
própria, dando palestras regularmente e atraindo um número crescente de seguidores 
dentre a intelligentsia londrina. Gurdjieff, ao que parece, sempre tivera um grupo 
bastante variado de seguidores de diversas nacionalidades e preferia o que 
Ouspensky descreveu como "aquele estrato social de classe média baixa, do qual não 
se pode esperar nada de muito interessante".
Em contraste, Ouspensky atraía e cultivava os níveis aristocráticos, literários e 
artísticos da sociedade e, acima de tudo, os tipos mais inteligentes e dedicados, que 
na verdade levavam muito a sério a questão do desenvolvimento pessoal.
Quando Rodney Collin uniu-se ao grupo, Ouspensky estava vivendo em 
Gaddesdon, mas depois se mudou para uma casa de campo chamada Lyne Place em 
Virgínia Water. Janet, que em termos financeiros estava bastante confortável, comprou 
uma casa grande e moderna numa região arborizada próxima dali. Lá, dedicou-se 
como aprendiz a seu mestre Ouspensky, trabalhando todos os dias em atividades 
simples na cozinha de Lyne Place, fazendo os exercícios de 'pare' e de 'auto-
recordação' e assistindo a todas as palestras, levando o sistema de 
autodesenvolvimento realmente a sério.
Rodney, trabalhando de dia na rua Fleet, assistia às palestras de maneira 
espasmódica, mas passava mais tempo trabalhando nos jardins de Lyne Place, 
cultivando verduras e frutas para a casa.
Nessa época, a idéia de escola esotérica criara raízes em sua mente. Ele era 
um homem auto-impelido, um homem auto-realizador, usando a terminologia de 
Abraham Maslow. Quando ele se encantava com alguma coisa, dava o máximo de si, 
às vezes ao ponto de exaustão.
Um dos conceitos de Gurdjieff era o de que o auto-impulso vigoroso é 
necessário, e que se um homem pudesse trabalhar a ponto de cair, dar sua 'segunda 
corda' e ainda continuar, eventualmente deixaria de funcionar no nível de energia 
normalmente disponível, valendo-se do que chamava de "o grande acumulador". 
Neste, haveria um tipo mais sutil de energia à disposição, o que lhe permitiria ver-se 
como é, observar as diversas funções da mente e se desenvolver de algum modo.
Rodney apegou-se a esta idéia mais prontamente do que às palestras, e 
impôs-se rígida disciplina e exercícios de modo mais intenso do que se exigia de 
qualquer seguidor de Ouspensky.
Quando chegou a segunda guerra mundial, Ouspensky estava velho. Afastou-
se temporariamente de sua mulher, conhecida nos círculos de 'trabalho' como 
Madame. Ela decidiu se mudar para os Estados Unidos com todos os seguidores que 
preferissem sua própria abordagem, mais extrema e gurdjieffiana.
O próprio Ouspensky parecia mais hesitante com relação ao futuro. Depois, 
anunciou sua intenção de reunir-se a Madame, e o restante dos seguidores largaram 
seus empregos, venderam suas casas e foram com ele para Southampton. No cais, 
anunciou subitamente que não iria mais. "Pensei em tirar uns dias de folga, mas agora 
mudei de idéia", disse. O grupo entrou em caótica histeria. Alguns embarcaram sem 
ele, outros voltaram, sem casa e sem emprego, para suas próprias cidades e, com 
ansiedade, aguardaram as ordens do mestre.
Durante algum tempo, Rodney e Janet ficaram separados: ele escolheu ficar na 
Inglaterra, e ela foi para os EUA como previamente planejado, com a filhinha do casal. 
Além da herança deixada por seu pai, Janet dispunha de consideráveis recursos nos 
EUA provenientes do espólio de sua mãe, que foram usados em grande parte para 
ajudar na aquisição da Fazenda Franklin, perto de Mendham, Nova Jersey.
O trabalho com Madame parecia ficar cada vez mais bizarro. As pessoas eram 
sujeitas a períodos de disciplina quase absurdos ou a humilhação pública, numa 
tentativa de quebrar aquilo que Gurdjieff chamava de "falsa personalidade", por trás da 
qual todos ocultam sua verdadeira natureza, fazendo com que o verdadeiro eu emerja.
Quando o grupo se reunia para jantar, trajando roupas formais, exigia-se que 
se trocassem as roupas e jóias entre os membros, de acordo com os caprichos da 
Madame. As pessoas costumavam ser tratadas em públicos com desprezo ou extrema 
rudeza durante o jantar. Eram forçadas a suportar toda forma proposital de 
constrangimento. Janet aceitava tudo com firmeza, certa de que, através do método 
cruel, estaria aumentando seu auto-entendimento.
Madame costumava falar na forma de enigmas, copiando o hábito de Gurdjieff, 
cujos contos e fantasias já eram quase folclóricos nessa época. Certa vez, Gurdjieff 
assegurou a Ouspensky que estaria preparando uma grande representação, que seria 
chamada o Combate entre os Magos Brancos e Negros. Foi feita uma série de 
aparentes preparações prévias, até que Ouspensky percebeu que não seria um 
desempenho teatral, mas a descrição simbólica de eventos mundiais que ocorreriam 
em breve. Madame se regozijava com esse tipo de invenção, sempre com significados 
alegóricos ou ocultos por trás de suas palavras, o que deixava as pessoas pisando em 
ovos, elocubrando sentidos que às vezes nem existiam.
Minha amiga Irene Nicholson, autora de uma série de livros sobre civilizações 
pré-colombianas na América Central e do Sul, viajou certa vez de Londres para a 
Fazenda Franklin sem ter sido convidada e enviou uma mensagem: ''A senhorita 
Nicholson solicita uma entrevista com Madame, e aguarda". Ela esperou, esperou e 
esperou. Após algumas horas, chegou uma secretária com a resposta:
— Madame diz a senhorita Nicholson: "Não estou aqui para ajudar os fracos, 
mas os fortes".
Abalada, envergonhada, Irene partiu e voltou cheia de tristeza para o grupo de 
Ouspensky na Inglaterra. Só depois de alguns anos é que percebeu, conforme me 
contou, muito depois da morte de Madame, que esta não tinha se recusado a atendê-
la. Ela só precisaria enviar de volta a mensagem "a senhorita Nicholson ainda está 
esperando", e com quase toda certeza seria admitida. Ela mesma se rotulara de fraca.
Com o tempo, Ouspensky acabou decidindo sair da Inglaterra, antes que a 
situação da guerra tornasse a saída difícil ou impossível. Rodney e o restante do 
grupo zarparam com ele. Durante um longo e desconfortável período na Fazenda 
Franklin, Rodney, Janet e sua filha Chloe ficaram juntos.
Naturalmente, Rodney estava em idade para ser convocado para o serviço 
nacional, e, numa tentativa de não evitar esse dever, alistou-se na Comissão Britânica 
de Compras e foi mandado para o México. Logo depois, foi transferido de novo, 
aparentemente de modo espontâneo, para Nova York, e voltou a morar na Fazenda 
Franklin. A guerra foi tranqüila para ele, mas seu irmão mais novo, Derry, serviu o 
Exército Britânico na África ocidental e na Birmânia.
Quando me falava dessa época, mais tarde, Rodney disse que tinha retomado 
seu cargo auto-eleito de jardineiro, plantando verduras para o grupo todo fim de tarde. 
Ocasionalmente, freqüentava encontros e palestras.
Ouspensky estava agora dando palestras noturnas regulares em Nova York. 
Apesar de Rodney raramente comparecer, ficava acordado na cama até que visse as 
luzes do carro se aproximando, indicando o regresso. Elas se refletiam nas paredes do 
quarto. Ouspensky entrava pela cozinha e se sentava para tomar vinho com quem 
quer que estivesse com ele ou que tivesse aguardado a chance de estar em 
companhia do