Não Chame Ninguém de Mestre - Joyce Collin-Smith
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Não Chame Ninguém de Mestre - Joyce Collin-Smith


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Janet 
e Chloe, então com 18 anos, e um grupo de ajudantes costuravam saias coloridas e 
blusas bufantes para dar às mais pobres, que usavam quase que simples trapos.
A água foi finalmente canalizada, e foram implantados jardins que receberam 
vegetais em terraços estreitos, dotados de pequenos arbustos e árvores jovens para 
dar abrigo ao sol quente. O solo vulcânico mostrou-se muito fértil.
Na época de minha visita, o trabalho no planetário estava se tornando 
prioritário em relação aos outros projetos. Dirigíamo-nos para lá quase todos os dias. 
O impulso criativo e a imaginação de Rodney, além de suas habilidades manuais, 
eram consideráveis, e sua energia parecia ilimitada. Ele era tão constantemente 
requisitado para responder dúvidas, fazer comentários e lidar com questões de 
natureza filosófica, que era difícil conseguir conversar com ele. Para fazê-lo, era 
preciso pegar nas ferramentas ou implementos agrícolas e ficar ao seu lado em 
qualquer atividade que estivesse exigindo sua atenção.
Senti que queria aprender com ele. Havia nele a qualidade da dignidade e da 
autoridade. Suas palestras, pelo que eu pude captar, estavam se desviando cada vez 
mais dos ensinamentos de Gurdjieff e Ouspensky, entrando numa esfera onde a ação 
e o serviço aos povos do mundo, a atenção às necessidades do planeta, eram de 
importância capital.
Cada vez mais agitada pela dificuldade de comunicação, pela sensação de que 
estava perdendo alguma coisa importante, acabei pondo-o contra a parede em seu 
estúdio no grande apartamento em Rio Nazas, onde morava. Sua casa anterior, uma 
hacienda comunitária em Tlalpam, fora abandonada logo antes de minha chegada por 
ter perdido o seu sentido inicial.
Rodney costumava sentar-se de pernas entrecruzadas ou na posição de meio-
lótus quando dava aulas ou conversava em casa, a postura que eu mesma sempre 
assumi. Assim, estava sentado numa grande cadeira, com as venezianas de tabuinhas 
brancas cortando os raios quentes do sol da tarde, cobrindo tudo com listras de luz e 
sombra. Sobre sua escrivaninha, uma variedade de papéis, cartas e manuscritos. 
Numa das paredes, um grande retrato de Ouspensky sentado numa cadeira com seus 
dois gatos, que o próprio Rodney havia pintado.
Eu sentei num longo sofá e tentei questioná-lo sobre a base de seu 
pensamento atual, cheia de urgência e exasperação.
\u2014 Não entendo nada! Estou esperando algum tipo de revelação sobre o que 
seu trabalho é na realidade \u2014 acabei por dizer. Seus olhos azuis me olhavam com 
bondade.
\u2014 Joyce, nada pode acontecer enquanto você não ficar quieta \u2014 disse ele.
Até aquele momento, não havia me dado conta da extensão e profundidade de 
minha própria agitação interior.
Fiz algum esforço para relaxar meu corpo, numa atitude de auto-recordação: 
ouvi minha voz interior à maneira do RM: estar mais consciente, de algum modo, da 
situação atual. Ficamos em silêncio.
Subitamente, a sala começou a ondular de modo alarmante. Pensei que o 
contraste de luz e sombra criado pela veneziana estava me dando uma enxaqueca, a 
quais sempre estive um pouco sujeita. Disse, trêmula:
\u2014 Poderia fechar a persiana, Rodney?
Ele se estendeu e puxou o cordão. As linhas pretas e brancas desaparecem, e 
a sala ficou razoavelmente escura. Continuamos a nos olhar, e nada foi dito.
Então, lentamente, o rosto de Rodney começou a mudar de forma e tipo. Não 
conseguia entender o que estava acontecendo.
\u2014 Você está parecendo um velho \u2014 murmurei. \u2014 Está com um pouco de 
barba, e ...
\u2014 Deve ser porque não me barbeei nestes últimos dias \u2014 veio a voz da boca 
de Rodney, que não era a voz de Rodney.
Assustada, olhei confusa para a sala e depois olhei para ele novamente. O 
rosto do homem de pernas entrecruzadas na cadeira à minha frente era a face 
quadrada, de maxilar pesado, de óculos, de Piotr Damianovitch Ouspensky, o amado 
mestre de Rodney, sempre conhecido pelo grupo simplesmente como O.
\u2014 Você é o sr. Ouspensky!
\u2014 Chamavam-me assim \u2014 respondeu numa voz diferente e gutural.
Pouco depois, o rosto de O. mudou completamente, e, como nesses 
programas de televisão em que uma imagem é superposta a outra, surgiu uma 
fisionomia oriental.
\u2014 Agora você é chinês.
\u2014 Tibetano \u2014 respondeu.
Então, rapidamente, uma série de faces diferentes se sobrepunham uma à 
outra \u2014 pele escura, levantina, mediterrânea, do norte da Europa, de diversas idades 
e tipos diferentes, algumas usando chapéus variados. Meu coração batia forte 
enquanto observava.
\u2014 Quem é você? \u2014 acabei perguntando.
\u2014 Todos esses e muitos outros também \u2014 respondeu a voz de Rodney Collin, 
e seu rosto do século XX, bronzeado, de cabelos grisalhos e olhos azuis surgiu, tão 
normal quanto se tivesse estado sempre ali.
\u2014 Suas outras vidas?
\u2014 A cortina do tempo fica mais tênue \u2014 respondeu.
Mais tarde, interroguei-me, examinando e reexaminando em minha mente o 
estranho fenômeno. Teria sido apenas um truque de luz e sombra? Uma perturbação 
visual causada por um problema neurológico similar à enxaqueca? Pura imaginação? 
Acabei perguntando a muitas outras pessoas do grupo e a diversos de seus 
seguidores se já haviam experimentado algo parecido com Rodney.
Para meu espanto, ninguém tinha. Depois de algum tempo, percebi que o 
fenômeno estava centralizado em mim mesma. Janet, sentada em sua cama, 
penteando os cabelos, subitamente assumiu uma série de rostos diferentes, e quando 
comecei a falar-lhe sobre isso, ela se transformou numa criança tibetana.
\u2014 Creio que sou sua filha \u2014 disse sua voz, a voz da própria Janet. \u2014 Você 
prometeu que iria fazer algo por mim, alguma coisa por meu peso. Você disse que iria 
carregá-lo por mim.
Vinha tendo problemas com meu próprio peso recentemente. De menina 
magricela, fiquei evidentemente cheinha após o nascimento de minha única filha e o 
término de meu primeiro casamento. Esse problema se acentuara nos últimos anos, 
de modo que estava seguindo dietas quase que permanentemente, chegando a 
pensar que poderia ser um desequilíbrio hormonal. De repente, tive a impressão de 
estar ativando alguma memória parcial. O planalto de Lhasa novamente, os sinos da 
lamaseria \u2014 como eu poderia conhecer tão bem o curioso tom seco que emitiam? O 
vento constante, as rodas de oração, as bandeirolas tremulando sobre os pilares de 
pedra. E eu, agora uma senhora de idade, com uma filha gorda de meia-idade, em 
roupas espessas, perturbada com seu peso. "Gostaria de poder carregá-lo por você", 
tive a impressão de dizer.
Hoje estou ciente de que esse fenômeno, conhecido geralmente nos meios 
psíquicos como 'transfiguração', é uma ocorrência conhecida, não muito incomum para 
aqueles que têm certa clarividência. Aconteceu comigo repetidas vezes no México, 
tornou a se repetir quando voltei para a Inglaterra e acabou se tornando algo que eu 
conseguia \u2014 embora nem sempre \u2014 induzir à vontade.
Noutra ocasião, uma mulher da Obra em Londres viu diversos rostos sobre o 
meu, enquanto lia um livro em sua cama, recostada em almofadas, no seu 
apartamento em Sussex Gardens.
\u2014 Você parece grega \u2014 disse subitamente. \u2014 Posso vê-la até a cintura, e 
você está usando uma túnica branca. \u2014 No instante seguinte: \u2014 Agora você tem um 
rosto egípcio.
Em ambas as ocasiões, ouvi-me dizer "sim", como se a palavra viesse de uma 
vaga memória nas profundezas do meu ser. Senti o peso de um grosso traje de linho 
branco sobre um dos ombros e senti meu cabelo repuxado para o alto, preso por uma 
faixa. Depois, senti o rosto egípcio todo maquiado, o kohl negro
Jessica
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