Metageografia nas RI
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Metageografia nas RI


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Revista Espaço Acadêmico, nº 87, agosto de 2008
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O paradigma como metageografia: argumentos em favor da ciência geográfica nos cursos de relações internacionais
Paul Sutermeister*
Introdução
A exclusão da ciência geográfica em muitos cursos universitários de relações internacionais (\u201cR.I.\u201d) no mundo justifica um novo posicionamento. Nossa hipótese é que cada paradigma das relações internacionais se distingue/destaca por uma metageografia própria. A motivação para este atrevimento vem de um dilema que surgiu durante nossa graduação em Genebra. Para muitos de nossos colegas, estudar as relações internacionais serviu simplesmente para achar um bom emprego em uma das organizações e empresas multi- e internacionais presentes naquela cidade. Tal atividade profissional promove, conscientemente ou não, a interdependência entre os países. Ora, veremos, um dos paradigmas da disciplina das relações internacionais se chama interdependência; há uma contradição: como é possível estudar outros paradigmas nesse contexto? Qual a probabilidade de um aluno de relações internacionais considerar uma pesquisa objetiva sobre o paradigma da dependência, quando os melhores empregos oferecidos são da Organização Mundial do Comércio, das Nações Unidas ou de empresas multinacionais? Abordar metageografias em vez de paradigmas pode tornar as relações internacionais mais inteligíveis. 
A ciência geográfica e as relações internacionais
Antes da metageografia, falamos brevemente da geografia.
Com o termo relações internacionais, nos referimos tanto à disciplina acadêmica que surgiu no começo do século XX como às próprias articulações histórico-geográficas. A disciplina acadêmica é geralmente trans e interdisciplinar, e como tal sustenta-se \u201cinicialmente de conhecimentos oriundos dos enfoques disciplinares 'tradicionais'\u201d (MORAES 2000:6). O comportamento complexo dos elementos que compõem esse campo de conhecimento é evidenciado no panorama do ensino mundial e brasileiro, onde aparece de forma heterogênea porque ainda não se conseguiu \u201cchegar a um denominador comum acerca do objeto\u201d, do estatuto teórico ou do estatuto institucional da disciplina (MARTIN 2007:6).
Entre os enfoques disciplinares tradicionais que sustentam o estudo das relações internacionais se situa a geografia. Enquanto ciência, essa faz parte do ensino em muitas instituições universitárias no mundo, paralelamente a outras disciplinas como as ciências políticas, o direito internacional, a economia e a história. Mas existem também muitas instituições universitárias relevantes nas quais a geografia não está contida, por exemplo, na Universidade de São Paulo, na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, e tampouco na Universidade de Genebra, na Universidade Estadual de São Petersburgo (Rússia)\ufffd, na Universidade de Seul (Coréia do Sul)\ufffd e em outros tantos membros da representativa associação de escolas profissionais das relações internacionais APSIA\ufffd.
Uma análise curricular dos cursos de relações internacionais cadastrados no Ministério da Educação do Brasil\ufffd mostra que quase todas as ementas curriculares atreladas à geografia abordam aspectos geopolíticos ou ambientais. Consideram-se, então, essenciais para esses cursos os campos de estudos de geopolítica e meio ambiente, por sua vez trans e interdisciplinares.
No que diz respeito à geopolítica, considera-se que a sua essência é a análise das relações internacionais (VESENTINI 2003:44). A geopolítica \u201cfoi responsável pela elaboração de teorias sobre o poder do espaço, e no espaço, que se revelaram extremamente úteis para a condução das \u2018relações internacionais\u2019\u201d (MARTIN 2007:10). Trata-se de um campo de estudo que surgiu ligado ao estudo da geopolítica.
Considera-se a geopolítica como um campo de estudos interdisciplinar em que se avaliam os diversos atores e as inúmeras facetas das relações de poder dentro das relações internacionais na sua dimensão espacial; não existe uma lista exaustiva de atores, porque são muitos: OIGs (organizações internacionais governamentais como a ONU), ONGs (organizações não-governamentais como a Cruz Vermelha ou o Fórum Econômico Mundial), mídia, indivíduos (por exemplo, \u201cterroristas\u201d), empresas multi ou transnacionais, blocos ou mercados regionais, civilizações, nações e Estados (VESENTINI 2003:178); também as facetas das relações de poder (sobre o espaço) são inumeráveis. 
O campo de estudo do meio ambiente, por sua vez, é essencial para o estudo das relações internacionais. Concebe-se a relação entre sociedade e ambiente \u201ccomo a relação entre a sociedade e o espaço, que num enunciado de corte fortemente empirista apareceria como a relação entre a humanidade e a superfície terrestre, o qual numa ótica mais naturalizante poderia ser a espécie humana e o planeta Terra\u201d (MORAES 2000:5).
O que poder-se-ia denominar sistema global está marcado por \u201cuma crescente interdependência dos sistemas produtivos, do saber, dos regimes políticos e da problemática ambiental\u201d (VESENTINI 2003:36). Segundo VESENTINI, desenvolveu-se uma \u2018consciência ecológica planetária\u2019, uma \u201cidéia holística da biosfera como território comum da humanidade em contraposição aos territórios nacionais autônomos\u201d. Seguindo esta argumentação, e tendo em vista esta perspectiva planetária sugerida, o estudo das relações internacionais torna-se essencialmente geográfico.
Qual é então o problema da inserção da ciência geográfica no ensino de relações internacionais? Seria sua especificidade, sua limitação teórica a dois campos de estudos, à geopolítica e ao meio ambiente respectivamente? Teriam as outras disciplinas (história, direito etc.) abordagens teórico-metodológicas mais importantes? Queremos mostrar brevemente que a importância da ciência geográfica para a disciplina das relações internacionais vai muito além da geopolítica e do meio ambiente.
Em MARTINS encontramos algumas respostas implícitas à pergunta por que se deveria incluir a ciência geográfica em cada curso de relações internacionais. Essa ciência teria, no nosso contexto, \u201ccomo objeto a investigação da geograficidade\u201d (MARTINS 2007:39) das relações internacionais. Essas últimas emergem da co-existência e alteridade das \u201cnações\u201d (admitimos que o termo \u201cnação\u201d pode ser problemático; trata-se de um problema ontológico das \u201crelações internacionais\u201d) na superfície terrestre (idem:39). A geograficidade estaria dada pelo fato de que a compreensão das relações internacionais demanda uma \u201cdescrição\u201d (observe-se \u201caí o fundamento etimológico da palavra\u201d \u3b3\u3b5\u3c9-\u3b3\u3c1\u3b1\u3c6\u3af\u3b1; idem:39) dessa superfície, ou seja, \u201cum procedimento cognitivo em que ... as [nações] necessitam ser percebidas em sua localização e, por conseguinte, em sua distribuição\u201d (idem:39).
A localização, de seu lado, não deve ser entendida estritamente a partir das coordenadas geográficas, mas ela remete à situação das nações \u201cdentro de uma estrutura relacional, dentro de uma estrutura de co-habitações, na qual a distância não é tomada em termos métrico-quantitativos, mas sim em termos da intensidade qualitativa da relação\u201d (idem:48) que uma nação tem com outras \u201cnações\u201d. Num passo mais adiante, MARTINS (2007:48) conclui que \u201cter consciência geográfica é ter compreensão do Sentido de Localização\u201d; como temos identificado essa localização como pré-requisito para entender as relações internacionais, não ter consciência geográfica significaria então não entender as relações internacionais?
O conceito de metageografia
Para localizar entidades na Terra, precisa-se de um sistema esférico de coordenadas: paralelos e meridianos. A rotação do planeta causa que um equador divide o corpo em dois hemisférios, e a obliqüidade da eclíptica causa as zonas térmicas: tropical, temperada e polar. Até aqui não faz sentido falar de geografias imaginárias. Mas quanto mais detalhada a descrição geográfica, tanto (mais) é subjetiva,