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C
C
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Entendao significado
contidonasgrandesobras. I
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AlegoriadaSabedoriaedaForça:A EscolhadeHércules
FrançoisBoucher(sobreoriginaldePaoloVeronese)c.1750
.,;ou
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5"
!!; e
~"j If"~ VIRTUDE EAPARÊNCIA (ACAMINHO DO MODERNO).Todoo significadodeobrasdeBotticelli,Rafael,Tintoretto,Bosch,El Greco
eoutrosgrandesartistasdosséculosXIII aoXVIII.
De terçaadomingo, das 11às 18h:quinta atéas20h. Av. Paulista, 1578 :: (11) 3251-5644:: www.masp.art.br
~ IIMII
Mercedes-BenzMASP
SUMÁRIO
CAPA: O Ray Massey/Stone/Getty Images
6 A psicologiada forma
HELMUT E. LÜCK
A palavraGestalt,alemãesemtraduçãoexataem
português,refere-seaoqueé"expostoaoolhar";segundoa
teoria,o todo"ésempremaiorqueasomadesuaspartes"
12 A neurologiadaestética
VILAYANUR s. RAMACHANDRAN E DIANE ROGERS-RAMACHANDRAN
Apesardadiversidadedeestilos,háprincípiosuniversais
daarte- umaespéciede"gramática"daestética,análogaàs
sintaxespropostaspelolingüistaNoamChomsky
16 Paradoxos da percepção
VILAYANUR s. RAMACHANDRAN E DIANE ROGERS-RAMACHANDRAN
Seduasfontesdiferentesdeinformaçãosãoincoerentesentre
si,o cérebrodá importânciaàqueparecermaisconfiável,
com baseemexperiênciasacumuladas- evai ignorara outra
20 Buscasdo olhar
VILAYANUR S. RAMACHANDRAN E DIANE ROGERS-RAMACHANDRAN
Experiênciascompontoscegosindicamquenossosistema
nervosodetestaovácuo- eprocurafugirdele
26 O fascíniodo espelho
VILAYANUR s. RAMACHANDRAN E DIANE ROGERS-RAMACHANDRAN
Imagensespecularesajudampessoasamputadasaamenizar
oueliminaradorfantasma;experimentomostraa
importânciadacomparaçãodeinformaçõessensoriaispara
a imagemcorporal
32
..
. .
.., .. ..--
32 Imagensambíguas
VILAYANUR s. RAMACHANDRAN E DIANE ROGERS-
RAMACHANDRAN
Ilusõesvisuaisatiçamacuriosidadeepermitem
diversasinterpretações;o sistemanervoso,porém,
anseiaporrespostaseseconcentraem
umasóalternativa
36 Nuancesdo cinza
ALAN GILCHRIST
Jogosdesombraecontrastefazemcomqueuma
únicaformaacinzentadapareçaterdiferentestons,
dependendodoqueestiveraoredor
42 Ver paracrer
VILAYANUR s. RAMACHANDRAN E DIANE ROGERS-
RAMACHANDRAN
Ao alteraro sombreamentoeafontedeluzfazemos
comqueimagenspareçammudardeformaelugar.
Nãoacredita?Experimentei
46 Mecanismos da estabilidade visual
VILAYANUR S. RAMACHANDRAN E DIANE ROGERS-
RAMACHANDRAN
Porqueo mundonãoparecepularquandonossas
retinassemovem?Essaadequaçãoaparentemente
corriqueiraexigetrabalhocerebralespecífico
50 Ilusões móveis
VILAYANUR S. RAMACHANDRAN E DIANE ROGERS-
RAMACHANDRAN
Ao "enganar"neurôniosespecializadosemdetectar
estímulosquesedeslocam,certasimagensnosfazem
percebermovimentoondeelenãoexiste
www.mentecerebro.com.br3
...
....
54 A dançadaslistras
VILAYANUR S. RAMACHANDRAN E DIANE ROGERS-RAMACHANDRAN
Buscamospadrõesparaapreenderestímulosvisuais;alguns
experimentossimpleselucidamprocessosneurológicos
complexosusadosparacaptaro movimentodosobjetos
58 Filtrosdapercepção
VILAYANUR s. RAMACHANDRAN E DIANE ROGERS-RAMACHANDRAN
A manipulaçãodeimagenscomalgoritmospromoveilusões
visuaissurpreendentesetambémexplicacomonossosistema
visualdecompõeo quevêemdiferentesfreqüênciasespaciais
62 Brincandocompesose medidas
VILAYANUR s. RAMACHANDRAN E DIANE ROGERS-RAMACHANDRAN
A ilusãovisualconfundeoscentrosneuraisenosfazcrerque
umobjetosejadiferentedoquerealmenteé;experiências
simplesedivertidasmostramcomoissoacontece
66 No prumo certo
VILAYANUR s. RAMACHANDRAN E DIANE ROGERS-RAMACHANDRAN
Paracalcularaposiçãorelativadosobjetos,océrebrousa
estratégiascomplexasquecomparaminformaçõessensoriaisantes
dedecidiro queestádepéeo queestádecabeçaparabaixo
70 Transparentee óbvio
VILAYANUR S. RAMACHANDRAN E DIANE ROGERS-RAMACHANDRAN
Utilizamosrecursosneurológicossofisticadosparaprocessar
informaçõessobreacoreo brilhodosobjetos- masnem
semprenossasconclusõesseguemasleisdafísica
76 Cores ilusórias
JOHN S. WERNER, BAINGIO PINNA E LOTHAR SPILLMANN
Experimentosqueenvolvempercepções
visuaissugeremqueanoçãodeeor
estáassociadaàsformas
eàprofundidade;os
diferentestonssão
sensaçõescriadaspelo
cérebro
4 MENTE&CÉREBRO .ARMADILHAS DA PERCEPÇÃO
www.mentecerebro.com.br
DIRETORGERAL:ALFREDONASTARI
DIRETOREXECUTIVO:EDIMILSONCARDIAL
DIRETORADOGRUPOCONHECIMENTO:
ANACLAUDIAFERRARI
ESPECIALARMADILHASDAPERCEPÇÃO
REDAÇÃOMENTE&:CÉREBRO
(redacaomec@duettoedltoriai.com.br)
EDITORA:GláuciaLeal
REVISÃO:LuizRobertoMaltaelauraRocha
EDITORADEARTE:SimoneOliveiraVieira
ASSISTENTESDEARTE:TatianeSantosdeOliveira,
MarcellaShollejulianaFreitas
PESQUISAICONOGRÁFICA:SilviaNastari(coordenação),
GabrielaFarcettaeMarianaCarneiro
ASSISTEN]EDE~EDAÇÃO:ElenaReginaPucinelliRodrigues
PRODUÇAOGRAFICA:MoysesJesuseEduardoSantos
TRATAMENTODEIMAGEM:CarinaVieiraeCintiaZardo
.
~
SpektrumderWissenschaft
Verlagsgesellschaft,Slevogtstr.3-5
69126Heidelberg,Alemanha
EDITOR:CarstenKõnneker
DIRETORES-GERENTES:MarkusBossleeThomasBleck
Mente&CérebroéumapublicaçãodaEdiouro,
Segmento-DuettoEditorialLtda.,comconteúdo
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ScientificAmerican,Inc.
RuaCunhaGago,412- cj.33- Pinheiros- SãoPaulo,SP
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DIRETOR RESPONSÁVEL: AlfredoNastari
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ANER
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NEM SEMPREÉO QUE PARECE
guemnuncaolhouparaumafigura ejurouqueelasemovimentava,quandonaverdaeestavabemparadaàsuafrente?Ou ao
contrário:teve(aindaqueporalgunssegundos)
acertezadequeumcírculooucilindroestavam
parados,mas,defato,giravam?Sim,realmente
nossosolhospordiversasvezesseenganam- e
nosconfundem.Mastambémajudamacompre-
enderofuncionamentodocérebro.
Experiênciascompontoscegos,espelhos,
cores,figurasgeométricas,obrasdearteimpro-
váveistêmmostradoqueépossíveliludirosistema
cerebral.Nãoporacaso,imagensquedesafiama
lógica,comoasdoartistagráficoholandêsMau-
ritsCornelisEscher(1.898-1.972)conhecidopor
suasxilogravuraselitografiasquerepresentam
construçõesimpossíveis,preenchimentoregular
doplano,exploraçõesdoinfinitoemetamorfoses
depadrõesgeométricosqueseentrecruzamese
transformamgradualmenteemformascomple-
tamentediferentes(vejaimagensnositewww.
im-possible.info/english/art/index.html).
Essasinteraçõesentrepercepção,sistema
visual,leisdafísicaeestéticatêmsidotemade
estudodospesquisadoresdoCentrodoCérebro
edaCogniçãodaUniversidadedaCalifórnia,
emSanDiego,VilayanurS. Ramachandran
esuamulher,DianeRogers-Ramachandran
- autoresdamaiorpartedostextosdestaedição.
Segundoosneurocientistas,apesardaidéiatão
difundidaquecremosnaquiloquevemos,por
vezesnossocérebrotrabalhatambémnosentido
inverso:enxergamosaquiloemqueacreditamos.
O mecanismoperceptualnosfazcompreender
umaúnicaGestalt(ouforma),assimilando
aseventuaiscontradições.Ou seja:épossível
apreciarotodo,aindaquealgumasdesuaspartes
nosincomodemUustamenteemrazãodenossa
impossibilidadecognitivadeintegrá-Ias).Nas
páginasa seguir,osestudiososdessestruques
dapercepçãonosconvidamadesvendaralguns
mistérioseabrincarcomosprópriossentidos,por
meiodeexperimentossimpleseintrigantes.
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M. C. Escher
Boaleitura,boasdescobertas!
GláuciaLeal, editora
g/aucia/ea/@duettoedítoría/.com.br
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A psicologiaI a orma
A palavraGestalt,alemãesemtraduçãoexata
emportuguês,refere-seaoqueé "expostoao
olhar";segundoateoria,o todo"ésempre
maiorqueasomadesuaspartes"
POR HELMUT E. LÜCK
professor de psicologiada Universidadeà
Distânciade Hagen,Alemanha.
J JUmarosaéumarosaéumarosa."A poetisaamericanaGertrudeStein,autoradessecélebreenunciado,nãotinhamuitoaver
coma teoriadaGestalt.Não obstante,emseu
célebreverso(dopoemaSacredEmily,de 1913)
eladávazãoa umaconstataçãoquesobreveio
tambéma algunspsicólogosde seutempo.As
quatroletrasr,o, s,a nãoconstituememnossa
mentesimplesmenteumapalavra:evocamaima-
gemdaflor,seucheiroe simbolismo- proprie-
dadesnãoexatamenterelacionadasàsletras.Em
suma:criamumaforma,umaGestalt.A palavra,
alemã,significa"0 queé colocadodiantedos
olhos,expostoaoolhar".Adotadahojenomundo
todo(esemtraduçãoparao português),refere-
sea um processode dar forma,de configurar.
Deacordocomateoriagestáltica,nãosepode
terconhecimentodo"todo"pormeiodesuaspar-
tes- esimdaspartespelotodo,poiso todoémaior
queasomadesuaspartes.Issoequivaleadizerque
"A+B"nãoésimplesmente"(A+B)",massimumter-
ceiroelemento"C",quepossuicaracterísticaspró-
6 MENTE&CÉREBRO.ARMADilHAS DA PERCEPÇÃO
prias. A esseaspectosedáo nomedesupersoma.
Um segundoaspectoconsideradopelaGes-
talt é a transponibilidade:independentemente
dos elementosque constituemdeterminado
objeto,reconhecemosali umaforma(Gestalt).
Admitimos,porexemplo,queumacadeiraéuma
cadeira,sejaelafeitadeplástico,metal,madeira
ou qualqueroutra matéria-prima.Em outras
palavras,a formasobressai.
O psicólogoaustríacoChristianvon Ehren-
fels (1859-1932)apresentouessesdois cri-
térios, supersomae transponibilidade,pela
primeira vez em 1890, em uma disserta-
ção apresentadana Universidade de Graz.
Um dosprincipaisrepresentantesdaGestalt
daEscoladeGraz(quetambémrecebeuo nome
de "teoriada produção")foi Max Wertheimer
(1880-1943).Elegostavadeilustrarosprimórdios
experimentaisdapsicologiadaGestaltcomuma
históriaquedevetersepassadoporvoltade1910:
nofipaldoverão,Wertheimerviajavadetremde
VienaparaalgumlugardoestadodaRenânia.Du-
I.
AS LETRAS R, O, S, A
constituemmaisque
uma palavra:evocam
imagem,perfume e
simbologia da flor
Quandoa
ilusãode6ptica
eraesclarecida
aosvoluntários
do teste,a
impressãonão
sedissipava:
pareciase
tomarainda
maisnítida
ranteopercurso,meditavasobre
a visualizaçãodo movimento.
Quandolhe ocorreu,num
dadomomentodaviagem,que
podiaprovocaraquelaspercep-
çõesartificialmentecom uma
espéciederápidopiscarconse-
cutivodeluzes,comoépossível
fazernoestroboscópio,Werth-
eimer desceuintempestiva-
menteemFrankfurtecomprou
umaparelhoquenaépocaera
tidocomoumbrinquedopara
criançase começoua realizar
osprimeirosexperimentos.Em
seguidaentrouemcontatocom
psicólogoFriedrichSchumann
(1858-1940),da Universidade
de Frankfurt,queenviouseu
assistenteWolfgang Kõhler
(1887-1967)aoquartodehotel
deWertheimer.Nãofoipreciso
muitoparaquetodososenvol-
vidosseconvencessemdeque
osprofessoresdeveriamrealizar
oexperimentojuntosnolabora-
tóriodeSchumann.
É difícil saberse tudo se
8 MENTE&CÉREBRO.ARMADilHAS DA PERCEPÇÃO
passouexatamenteassim.Tal-
vezWertheimerjá tivesseanos
antesaintençãodedesenvolver
umnovotipodeestroboscópio
emparceriacomSchumann.De
qualquermodo,os primeiros
experimentosdo pesquisador
daGestaltdeFranfkurtassumi-
ramumaformaconcretanoiní-
ciodoséculoXX. Emumasérie
detestes,Wertheimermostrou
aosvoluntáriosdoestudodois
estímulos,emrápidaseqüência:
noprimeiropodiaservista,do
ladoesquerdodeumagravura,
umalinhahorizontal;nosegun-
do,haviaumalinhahorizontal
do mesmocomprimento,àdi-
reita.Seambasasimagensfos-
semmostradasalternadamente,
surgiaa intervalosdecercade
60 milésimosde segundosa
impressãode um movimento
aparente,como se as linhas
oscilassemdeum ladoparao
outro,comoum limpadorde
pára-brisa.
Nesse experimento,se a
mudançade imagensforainda
maisrápida,os estímulossão
vivenciadoscomosimultâneos
- ambasaslinhastremeluzem
aparentementeaomesmotem-
po.Sóquandoarepresentação
dedeterminadafreqüêncianão
étranspostasetemaimpressão
decontinuidade:vê-seorauma
linha,oraaoutra,cadaqualem
umlocaleposição.Wertheimer
deuao movimentopercebido
emseqüênciamaisrápidaade-
nominaçãode"fenômenophi".
A tentativadevisualização
do movimentopor Werthei-
mermarcao início da escola
maisconhecidada psicologia
da Gestalt.AlémdeWerthei-
mer,fizerampartedelaWol-
fgangKõhler e Kurt Koffka
(1886-1941).Nos anos20, as
pesquisasse expandirampela
Alemanhae numerosostraba-
lhos deramnovoimpulsonão
só à pesquisada percepção,
masàpsicologiadeformageral.
Nas origensdasescolasde
Frankfurte de Berlim- dife-
rentementedo quesetinhana
deGraz- estavamformas(Ges-
talten).Segundoseusteóricos,
aspessoasnãoas"produziam"
comodadosfundamentaisdos
sentidose, tampouco,elasse
constituíamparalelamentea
estes;asformaseramconside-
radaselasprópriasasunidades
fundamentaisdavidaanímica.
Desdeo começoWerthei-
merevitoufalaremilusãoda
percepçãocomo fenômeno
phi. Reconheceuque parao
observadornão importavase
o movimentopercebidoera
produzidopor doisestímulos
semelhantese sucessivosou
por um deslocamentoeficaz.
Nem mesmoquandoseescla-
reciao efeitoaosvoluntários
queparticipavamdostestesea
ilusãoera"desmascarada",elase
dissipava- pelocontrário:após
o esclarecimento,o fenômeno
phiera,nãoraro,percebidocom
maiornitidez.
Adeusaosdogmas
OspsicólogosdaGestaltdesen-
volveramumprogramateórico
pararefutardogmasda fisio-
logia dos sentidos.Pesquisas
pioneirasdeWolfgangKõhler
com antropóidesenfatizaram
quenãosóapercepçãohumana,
mastambémnossasformasde
pensare agir funcionam,com
freqüência,de acordo com
os pressupostosda gestalt.
Atendendo à solicitaçãodo
médicoberlinenseMax Roth-
mann,aAcademiaPrussianade
Ciênciasinstalouem 1913,na
ilhadeTenerife,nasCanárias,
I
~ -
umaestaçãoparao estudodo
comportamentode macacos.
No postode experimentação
eramestudadasascapacidades
dosanimaisemcondiçõesseme-
lhantesàsnaturais.O filósofoe
psicólogoalemãoCarl Stumpf
(1848-1936)nomeouKõhler
diretorda estação,apesarde
naépocaelenãotermaisque
26anosequasenenhumaexpe-
riênciaembiologiaepSicologia
deanimais.
Os experimentosdeKõhler
foramreconhecidosquando
g comprovaramqueoschimpan-
~ zéstêmcondiçõesderesolver
~problemascomplexos,como5
i conseguiralimentosqueestão
~ foradeseualcance:parape-~
~garbananasdeumcacho,por
i exemplo,empilhavamcaixas
~e usavamvaras.Um macaco
~ ruivochegoua acoplarduas
~ varetasdebambua fimdese
;aproximarde umaguloseima.
I Fatomenosconhecidoéque,
í mesmoantesde Kõhler,Leo-
I nardT. Hobhousehaviareali-
1zadoexperimentossemelhantes
~ naInglaterra.Kõhlerprocedeu
; demaneirasistemática,proto-
Icoloucuidadosamentetodos
~osresultadose filmoualguns.
~Maisdecisivoparao seuêxito,
~ entretanto,foi terencontrado
~ esclarecimentosconvincentes
paraas suasobservações.Se-
gundoométodode"tentativae
erro",parachegarmosàsolução
corretadedeterminadoproble-
manãoé necessárioumlongo
períododeexperimentação.
Paraosmacacos,pareceque
a"fichacai"muitorapidamente;
ajunçãodeobjetivoemeiosde
auxíliopermitemquesedê a
Gestalt.Kõhlerdenominouo
conhecimentoresultantedessa
experiênciade "perspectiva".
Quase concomitantemente
aosestudosde percepçãode
Wertheimer,comquemKõhler,
de Tenerife,manteveestreitocontatopor correspondência,
revelava-seaaçãosagaz,movida
pelousoda inteligência,como
fenômenodaGestalt.
No zoológico
Kõhlerjáhaviapesquisadogran-
de partede seuschimpanzés
submetidosa testequando,em
meadosde1914,irrompeuaPri-
meiraGuerraMundial.Mesmoa
Espanhatendosemantidoneu-
tradurantetodoo conflito,ele
sópôdedeixara ilhaem1920.
Vezporoutra,funcionáriosbri-
tânicoschegavamacogitarque
Kõhlerseriaumespiãoalemãoe
apesquisacomoschimpanzés,
nadamaisqueumpretextopara
queseconstruíssenasIlhasCa-
'\
náriasumapistadepousopara
aviõesalemães.
O planooriginalde cons-
truirumaestaçãoparaestudar
animaisdostrópicosnaufragou
coma inflaçãodo pós-guerra.
E em1920mesmoosmacacos
foramenviadosparao zoológi-
co de Berlim.QuandoKõhler
publicouum livro sobresua
pesquisa,noanoseguinte,obte-
vegrandevisibilidade.Durante
anoseleseesforçouparatera
comprovaçãode quenemsó
a percepçãoe o pensamento
seguiamos princípiosdaGes-
talt, mastambéma atividade
UMACADEIRAéumacadeira,
sejaelafeitadeplástico,metal,
madeiraouqualqueroutra
matéria-prima.Emoutraspalavras,
aformasobressai
,
8t
PIONEIROSDACESTALT:
KurtKoffka(1886-1941);
Kurt lewin (1890-1947);
WolfgangKõhler(1887-
1967)e MaxWertheimer
(1880-1943)
www.mentecerebro.com.br9
Naorigem
dasescolasde
Frankfurte
Berlimestava
apreocupação
coma
percepção
doqueera
captadopelos
olhos;seus
seguidores
evitavamo
t /I 'I - /Iermo 1usao
cerebralobedeciaaumalógica
fundamentalsemelhante.
Em1922,Kõhlerfoinomea-
do sucessorde Carl Stumpf
na direção do Instituto de
PsicologiadeBerlim.Comisso,
teveinícioadinastiadapsico-
logiadaGestalt.O periódico
Psych%gischeForschung(Pes-
quisapsicológica),co-editado
porKõhler,erao seuprincipal
veículodedivulgação.Outras
importantessedesdapesquisa
psicológicadaGestaltnaAle-
manhaforama Universidade
deGiessen,queem 1918con-
vidouKurtKoffkaparacompor
seuquadrodocente,bemcomo
a de Franfkurt,que acolheu
Wertheimerem1929.
Esteúltimotrouxecontri-
buiçõessignificativasparaa
psicologiadopensamento.Seu
livropóstumode 1945(edição
alemãde 1957)sobreo pensar
produtivo- hoje se falariaem
criatividade - documentao
intensointercâmbiointelectual
entreelee Freudaté1933.Já
Kurt Koffkasalientouautilida-
dedateoriada Gestaltparaa
psicologiadodesenvolvimento.
Com issosabe-sehoje quea
leituraéumprocessointegrale
queaseqüênciadeestágiosdas
letrastomadasindividualmente,
passandopelaspalavras,che-
Cartadeprotesto
Pacientenão!cliente
Nadécadade40,o psicanalistaberlinensedeorigemjudaicaFritz
Perls(1893-1970)deixouaAlemanhae mudou-seprimeiropara
aÁfricado Suledepoisparaos EstadosUnidos,ondedesenvol-
veua Gesta.lt-terapia,em oposiçãoà psicanálise.Com basena
fenomenologiae no existencialismoeuropeus,com influências
daobradeSartreeNietzsche,suafundamentaçãopartedaidéia
de queo homemé o principalresponsávelpor suasescolhase
pelaformacomoconduzsuavida.Segundoessaabordagem,a
pessoanãoé, portanto,um"paciente",masum"cliente".
gandoatéassentençasinteiras,
poucocorrespondeao quese
passanapercepçãohumana.
Aindaantesdachegadados
nazistasao poderKoffkaemi-
grouparaos EstadosUnidos,
ondesetornouumdosprimei-
rospartidáriosdapsicologiada
Gestalt.Depoisde o próprio
Wertheimere do psicólogoe
filósofoKurtLewin(1890-1947)
teremsidoobrigadosa deixar
aAlemanha,foiavezdeWolf-
gangKõhlersairdo país.Com
isso,a psicologiada Gestalt
perdiaospioneirosqueacondu-
ziamemterritórioalemão.
Sempromoção
Do outroladodo Atlântico,
seusrepresentantesdepararam
comumambientecientífico
completamentediferente.Nos
EstadosUnidos,haviaporpar-
tedosbehavioristasinúmeras
WolfgangKõhlerfoi o únicoprofessoracadêmicodepsicologiana
Alemanhaa criticarabertamenteo regimenazista,mesmonão
sendojudeu.Quandomuitosde seuscolegasda universidadese
aproximavam,daideologiade Hitlere váriosassistentesseusdo
InstitutodePsicologiadeBerlimforamobrigadosasedesligar,ele
publicou,em28deabrilde1933,umacartaabertano Deutschen
AllgemeinenZeitung,criticandoasperseguiçõesacientistaspormo-
tivosétnicosepolíticos.Doisanosdepois,porém,tambémemigrou
paraosEstadosUnidos,ondelecionouecoordenoupesquisasno
SwarthmoreCollege,Pensilvânia.Morreuem11dejunhode1967,
emsuafazendaemEnfield,NewHampshire.
10 MENTE&CÉREBRO'ARMADILHASDA PERCEPÇÃO
críticascontraos psicólogos
alemãesdaGestaltquediscor-
davamdasteoriastradicionais
daconsciênciadefendidaspor
Wilhelm Wundt. A situação
era agravadapelo fatode os
exiladosquasenãopoderem
trabalharem estabelecimen-
tosbemconceituados- e nas
pequenasinstituiçõesdificil-
mentetinhamdireitoaalguma
promoção.Por tudoisso,esse
ramoda psicologiatevepapel
irrelevantedurantemuitotem-
po nosEstadosUnidos.
No fim da décadade 50,
quandohouveintensadivulga-
çãodapsicologiaamericanana
Alemanha,aGestaltfoi "reim-
portada",emborao interesse
da geraçãomaisjovem fosse
direcionado principalmente
Q)e'''rã.
in 'Deutfcorcant'~..
I-r..r. .)". 'r"r' u. '''~hl..r.Unlo.~'I.
ti, m'l.1,IIIJtll 'Rilnnrf. blt '11," 7'Hlli41811)
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'1"111',6'" 11"'oJ.1,.''''.'Ir ~"t'II. )If' .i , IItf,il'
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1111)~.nJfj" hlUlh..t""'''' tDrrtn flnD. 1tI1I~ollrlll
tk'o1l1l1liU'QlIitirr 'Jro1~1rPClltt/o1h,)li.fJt'~:/"~I.
!J:IIJf '01111"""11tr/"",r". noo, fir ftrn~.all:~"
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I1I 1011.::'lllIa )111Hi..!l11I~"'I:I.r.11110~btr ZOll'lC'~"'I;~
11I11rllt:m (!Ihfl '111!lI, ~olll'lI, ~C'r,. t"",., '1:"Ui'
":'mrllllr" ~tt:':. tllll., 14'(11I.11"flllli ia "~O'h'r,.
'ltiulo'i,~ " If''')rll ibrt..: rrlui-ftitllllh 10llrll ti"r
".'AII.,. 2't rt71r)AtlOft, IIIrlu, Uf &rll'l "'trr.
_IIUI.U.. Iftil h~ Iclll,. rlll.1t1t),"1I"tl.trlfllt I\t.rr~r
fi" 1001'~lI",t"'r Gil (1Jt1'''''IfJ'l!1""10 'tltlbol'lrll flU.
1Iur'III.l.In'lIltlln,rr.blltll. "o'ri..
rI 00' fAit .r~,Jn,J'1I lil. "'Ir ,. "O,.
'6.lIft 'r'll '",1111.'11;fir totnt"nNI.."
""O~II*. hrdt l;trr.ttt'. !'rlltid!'lItlO I.
UII', Ifk:IlIIt,l1 '111l";ltl !ltrialo"'.rN.
' fll'l'Ii:,.h btn'''',olir.
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""IIIII4It", C'frjo1lt~tllil" '1I1I'h'II 2m. k,
!SD"t' "<lI/)/,jr :ti,'ilHAI"","'tllrq 11''1111,lllr'" "".
rr..~.~ SlOllttll"IIUI''' ,o. 1tlll.fl; ,iI ...r Ioi.:ltttlllt ar.
"'11 rUIUI.ltn. ... lIioit ~4~1 4.'j.wotT,. I" b.I:ltll.
"li' 'ur 1It" "'''brrr rlft, 2"bfnrtr/rll"bh.1tt~ir Irrll.
"~r ... tlr ".1("r'I..", '1:.'uII 1'1Ia.11 1Il4.:trllr1t11C'8
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,
~~
parateoriasbehavioristasdo
aprendizado,diagnósticose
classificaçõesdapersonalidade,
pSicologiasocialexperimental
epsicoterapias.
Cenasdecrianças
Nosanos20haviaoutra"escola
daGestalt":a dapsicologiada
totalidadegenéticadeLeipzig.
Felix Krueger (1874-1948),
assistentede Wundtem 1910,
nomeadoseusucessor,defen-
deu a concepçãode que os
sentimentostinham"qualidades
gestálticas".Kruegercontrapôs
aisso,porumlado,ateoriados
elementosde seu professor,
Wundt; por outro, criticou,
nosexperimentosdaEscolade
Berlim,o fatodeaintuiçãonão
serlevadaemconta.
Hoje,a psicologiada tota-
lidadedeLeipzigé tidacomo
metodologicamenteobtusae
conceitualmenteumtantoanti-
quada.Mesmoascontribuições
deKruegeredeseucolaborador
FriedrichSander(1889-1971)
caíramemdescrédito,poisam-
bosestavamvinculadosà ideo-
logianacional-socialista,paraa
qualchegaramatransferirsuas
idéias,imprimindonelaso viés
deum"todopopular".
Sander,por exemplo,es-
creveuem 1937quea "elimi-
naçãodovermeparasitáriodo
judaísmotinhasuajustificação
profundanessavontade de
umaforma(Gestalt)purapor
partedo ser alemão".Con-
siderandoisso,é de admirar
queele e outros psicólogos
datotalidadenãotenhamde-
moradoa recuperarsuasca-
deiraslogoaosprimeirosanosdaAlemanhado pós-guerra.
Há aindaoutra variante
significativada psicologiada
Gestaltquenãodeveseresque-
~
:."
I
cida:a teoriadoscampos.No
iníciodo séculoXX, asforças
de campojá eramconhecidas
dateoriadagravitaçãoedaeIe-
trodinâmica;nadécadade20,o
conceitoerautilizadopelafísica
e pelasciênciassociais.Kurt
Lewinseinteressoupelaidéia
e tentoulhedardenominações
específicas:no início falouem
"teoriadinâmica",depoisem
"psicologiadevetortopológi-
co"e,porfim,adotouo termo
"teoriadoscampos".
O cernedopensamentode
Lewiné bastantesimples:uma
pessoa(P) estáemumespaço
vital(Ev),ondehádeterminados
elementos- lugares,objetos,
outraspessoas- queapresentam
aeladesafiopositivoounegati-
vo(tambémchamadovalência).
A pessoase senteatraídaou
repelidaporeles.Algumasáreas
do espaçovitalnãooferecem
acesso'direto;naverdadesão
obstruídasporbarreirase,para
chegaraelas,éprecisotranspor
regiõescomvalêncianegativa.
Alémdisso,duasáreaspodem
~-
assumirumcaráterdedesafiode
forçaequiparável-eassimcon-
correremumascomasoutras.
Lewin mantevea descri-
çãomatemáticadosprocessos
psicológicosbemno cernede
suaproposta.Ele tendiapara
umalinguagem"Iogicamente
condicionada,que refletiria
todososoutrosmeiosdeauxí-
lioconhecidosdapsicologia"e
faziausodatopologia.Durante
muitosanosele filmoudocu-
mentáriosnosquaismantinha
pessoasem"camposdeforças"
deseusafetos,conflitoseações
davontade(emgeral,crianças
desuaprópriafamíliaemsitu-
açõesdeconflito),masamaior
partede seusfilmescaiu no
esquecimento.Lewin filmava
osseuspequenossemqueeles
o percebessem,influenciado
pelocineastarussoSergeiEi-
senstein(1898-1948).Por ter
registradocenasdascrianças
desdequeeramrecém-nasci-
dasatéa adolescênciaacabou
criandoum documentário de
caráterúnico. nec
o CINEASTA Sergei
Eisenstein(foto)
influenciouo trabalho de
Kurt lewin
IstoéGestalt.John
O.Stevens.Summus
Editorial,1977.
25anosdepois
- Gestalt-terapla,
pslcodramae
terapiasneo-
relchlanasnoBrasil.
S. Perazzo,S. Ciornai
e L. M. Frazão.Ágora,
1995.
ArteeGestalt
- Padrõesque
convergem.Janie
Rhyne.Summus
Editorial,2000.
www.mentecerebro.com.br11
A neurologia
da estética
Apesardadiversidadedeestilos,háprincípiosuniversaisda
arte- umaespéciede"gramática"daestética,análogaàs
sintaxespropostaspelolingüistaNoamChomsky
POR VlLAYANUR S. RAMACHANDRAN E
DIANE ROGERS-RAMACHANDRAN
Neurocientistas,trabalhamno Centro do Cérebroe da Cognição da Universidadeda
CalifómiaemSanDiego.FazempartedogrupodeconselheirosdaScientificAmericanMind.
TRADUÇÃO: Julio deOliveira
Oqueéarte?Ébemprovávelqueexistamtantasdefiniçõesquantoartistase críticos.E seapalavratemtantasconotaçõesémelhor- do
pontodevistacientífico- nosrestringirmosàneuro-
logiadaestética.Afinal,asformaspercebidascomo
belase artísticasvariamde umaculturaparaoutra.
E gostonãosediscute.O aromado marmite(pasta
feitadelevedurae extratosvegetais),porexemplo,é
procuradodemaneiraávidapelosingleses,masécon-
sideradorepulsivoparaamaioriadosamericanos.O
mesmoseaplicaàspreferênciasvisuais;pessoalmente,
nãoencontramosnenhumapeloespecialnasobrasde
PabloPicasso.Maséinegávelquemuitosseencantam
comseutrabalho.Apesardadiversidadedeestilos,
muitosseperguntamseháalgumtipo deprincípios
universaisqueregemproduçõesconsideradasartísticas.
Teríamosuma"gramática"inatadaestética,análoga
àssintaxesuniversaisparalínguaspropostapelolin-
güistaNoam Chomsky,do Institutode Tecnologia
deMassachusetts?
A respostapodesersim.Nós sugerimosqueleis
"universais"daestéticapodemtranscendernãoapenas
12 MENTE&:CÉREBRO .ARMADILHASDA PERCEPÇÃO
fronteirasculturais,mastambémdeespécies.Seriauma
coincidênciaacharmospássaroseborboletasatraentes
emboraelestenhamevoluídoparaagradarseusiguais
- e nãoanós?
Em 1994,meioqueporbrincadeira,criamosuma
listaumpoucoarbitráriadas'1eis"daestética,daqual
descreveremosseis:agrupamento,simetria,estímulos
hipemormais,mudançadepico,isolamentoeresolu-
çãodeproblemasperceptuais.
Vamosconsiderarprimeiroo agrupamento.EmA
(verPág.14),vocêtemasensaçãodeseusistemavisual
lutandoparadescobrirejuntarfragmentosaparente-
mentenãorelacionadosdeumúnicoobjeto- nesse
casoum dálmata.Quando os fragmentoscorretos
seajeitamem seuslugares,sentimosumasensação
gratificante.Sugerimosqueessaexperiênciaagradável
sejabaseadanasmensagensdiretasenviadasparaos
centrosdeprazerdosistemalímbicoquereconhece:
"Aquiestáalgoimportante,presteatençãol"- uma
exigênciamínimaparaaestética.Estilistaseconsultores
demodatrabalhamcomo princípiodoagrupamento
-, mesmosemsedarcontadequeestãoutilizandoum
princípiobiológicoancestralpara
sugerira combinação.E sugerem
umadeterminadaecharpepara
combinarcomo vestido.
O agrupamentoevoluiupara
derrotaracamuflageme,deforma
maisgeral,detectarobjetosem
ambientesbagunçados.Imagine
umtigreescondidoatrásdafolha-
gem(D/napág.15).Tudoqueseu
olhocaptasãofragmentosdetigre.
Mas seusistemavisualpresume
quetodasessaspartesnãopodem
serparecidaspor cOincidência,e
entãoeleasagrupapara"montar"
a figura- epassaentãoaprestar
atençãonela.
A evoluçãotambémtemum
dedonacriaçãodaatraçãoda
simetria.Na natureza,amaioria
dos"objetosbiológicos"(presas,
predadoreseparceiros)sãosimé-
tricos.Éfundamental,portanto,ter
umsistemadealertaprecocepara
chamaraatençãoparaasimetria
- o que favorecea açãorápida
e apropriadaemcadasituação.
Essaatraçãoexplicao fascínioda
simetria,sejaparaumacriança
quebrincacomumcaleidoscópio,
sejaparao imperadorJahan,que
construiuo Taj Mahal(B)para
imortalizarsuabelaesposa,Mu-
mtaz.Essacaracterísticatambém
podeseratraenteporqueparceiros
assimétricoscostumamtermaus
genesouparasitas.Já predadores
simétricosparecemmaissaudáveis
epodemrepresentarperigomaior,
portantoéprecisoficaratento;por
outrolado,presasqueapresentam
esseaspectocostumamparecer
maisapetitosas.
Umaleiuniversalmenosóbvia
é a do estímulohipemormal.O
etólogoNikolaas11nbergen, da
Universidadede Oxford, notou
hámaisde 50 anosque filhotes
degaivotasuplicavamporcomida
bicandoo bico da mãe,que é
castanho-clarocom um ponto
www.mentecerebro.com.br13
~.........-..
14 MENTE&CÉREBRO.ARMADILHASDA PERCEPÇÃO
Sefilhotesvennelho.Quandoseparadosda porseutrabalhosobrepadrõesde bomretrato.Característicasque
degaivota
mãe,ospássarosrecém-nascidoscomportamentoanimal.) fazemumrostoespecífico(por
tambémbatiamdemaneirafer- Nósnãosabemosporqueesse exemplo,o deTomCruise)dife-
tivessemuma vorosanumbicosemnenhuma efeitoocorre,masprovavelmenterenteda"média"decentenasde
galeria,talvez gaivota conectadaa ele, apre- resultadamaneirapelaqualneurô- rostosmasculinossãoamplificadas
sentadopelo pesquisador.Esse niosvisuaiscodificamainfonnação defonnaseletiva,demaneiraque
pendurassem comportamentoinstintivosurgiu sensorial.O modocomoelessão o resultadopareçamaiscomo
umavareta porque,como passardemilhões programadospodefazercom atordoqueseuprópriorosto.Em
com faixas
deanosdeevolução,océrebrodo querespondamdemaneiramais 1998,o filósofoWilliamHirstein,
filhote"aprendeu"queumacoisa poderosaaumpadrãoestranho, doElmhurstCollege,eumdenós
naparedee longacomumpontovennelho enviandocomissoumaespécie (Ramachandran)sugerimosqueas
provavelmente
significamãeecomida. dechoquedesatisfaçãoaosistema célulasnocérebrodomacacoque
Tinbergendescobriuquepo- límbicodopássaro. sesaberespondema rostosindi-
pagariamcaro deriaproduzirasbicadassemum Maso quetemumsuperbico viduais(taiscomoJoe,o macho'"iii
parater
bico.Umavaretalongacomum avercompercepçãodefonnas alfa)irãoresponderdefonnaainda
pontovennelhoservia.Osneurô- e arte?Se filhotesde gaivota
v
maisvigorosaaumacaricaturado
essaobra niosvisuaisnocérebrodo filhote tivessemumagaleria,talvezeles rostodoqueaooriginal.Essaforte ::E '"... ã;... '"
obviamentenão sãomuitodeta- pendurassemumagrandevareta respostafoi agoraconfinnadaem
fi: o-'
Ihistasquantoàsexigênciasexatas comfaixasnaparedee provavel-
... '"experimentospor Doris Tsao,da
< ...:z: 9v
doestímulo.Masentãoelefezuma mentepagariamcaroparateruma UniversidadeHarvard.
....<
.:.; S
descobertaincrível.Quandoera obra dessas.A arte,de maneira
<:z: :I:<
mostradoumlongopedaçofinode parecida,estimulacolecionadores Menos é mais ::E
...'"
cartolinacomtrêsfaixasvennelhas, ainvestirmilharesdedólaresnuma Nós nosvoltamosparaoutro prin-
j:..... ,-'
o filhotemostravapreferênciapor pinturasementenderporqueelaé cípio:o isolamento.Certamente,I:!
>
2'" ..
esseestímuloestranhoaumbico tãocativante.Por tentativae erro muitosartistasconcordarãoque,às
...'" !!... c
real. Sem perceber,Tinbergen - etambémporcriatividade-, os vezes,naarte,"menosémais".Um Q... ...Q ..
tinhatopadocomo quechama- artistasmodernosdescobriram pequenorabiscodeumnupodeser
a
a
mosde "superbico".(Mais tarde, fonnasdeutilizaraspectosidios- bemmaisbelodoqueumafotogra-
'" c'" ;...>
em 1973,ele recebeuo Prêmio sincráticosdagramáticaperceptual fia 3-D emcoresdeumamulher
:;
:;c
NobelemFisiologiaouMedicina primitivadocérebro,produzindoo nua.Porquê?Essefenômenonão
>'"
o
equivalente,parao sistemanervoso contradiz a mudançade pico?
... .'" .
01
"
humano,davaretacomfaixaspara Para resolveressacontradi- ...
!
Q
o filhotedagaivota. ção em particular,precisamos
'"<:z:
Um princípio relacionado, lembrar de que nosso cérebro
v
...
chamadode mudançade pico, tem recursosde concentração
Q
<
representaumpapelnaapreciação limitados- um "engarrafamento"
Vi...I-'"
da caricaturaou mesmode um deatençãoocorreporqueapenas
ov
umpadrãodeatividadeneural
podeexistiraomesmotempo.Aí
entrao isolamento.Um rabisco
ouesboçoplanejadodemaneira
inteligente(C)permiteaosistema
visualdeslocartodasuaatenção
parao queé necessário- istoé,
parao contornoouformadonu
~. - semser"distraído"portodosos;)
~ outroselementosirrelevantes(cor,
~ textura,sombraetc.)quenãosão
~ cruciaisparaa belezada forma;)
~ transmitidaporseustraços.o
~ Evidências desseponto dez
::J vistavêmdecriançasautistascom
} habilidadesespeciais,taiscomo
::J Nadia.A meninaproduziudese-Q
~ nhosincrivelmentebelos,talvez
~ porque,comoa maiorpartede
~ seucérebrofuncionademaneira
~ abaixodaideal,elapodetertido
~ umaespéciede ilha detecido
~ cortical"poupado"em seulobo..
f parietal,umaregiãoresponsável
~ pelosensodeproporçãoartística.
~ Portanto,elapodiaempregarde
~ fonnaespontâneatodososseus
g recursosde atençãoparaesse
Z " 'd I d " d d« mouo e arteresguara o.
~ (Depoisde ela ter crescidoe
ganhadooutrashabilidadesso-
ciais,suashabilidadesartísticas
desapareceram.)BruceMiller,da
UniversidadedaCalifómia,São
Francisco,mostrouqueatémes-
mopacientesadultosquesofre-
ramumadegeneraçãodoslobos
frontaisetemporais(chamadade
demênciafronto-temporal)de
repentedesenvolveramtalentos
artísticos,possivelmenteporque
agorapodemalocartodasua
atençãonoloboparietaL
Outra"lei"relacionadaà es-
téticaé o esconde-esconde(ou
resoluçãodeproblemaspercep-
tuais).No séculoIX, o filósofo
indianoAbhinavaguptadescobriu
oqueohistoriadordearteaustrí-
aco-britânicosirEmstGombrich
comprovounoséculoXX. Uma
pessoadesnudaquetemapenas
braçosoupartedoombroproje-
tando-sedetrásdeumacortinade
chuveiroouqueestáatrásdeum
véudiáfanoémuitomaissedutora
do queumnu completamente
descoberto.Da mesmaforma
queaspartespensantesdonosso
cérebrogostamdasoluçãode
problemasintelectuais,o sistema
visualparecegostardedescobrir
umobjetoescondido.A evolução
pareceterseencarregadodeque
opróprioatodebuscarumobjeto
escondidosejaagradável,não
apenasno"ahá"finaldereconhe-
cimento- paranãodesistirmos
cedodemaisemnossabusca.De
outraforma,nãoprocuraríamos
umapresaouparceiropotencial
vislumbradoparcialmenteatrásde
arbustos,deumanévoadensaou
detecidostransparentes.
Cadavislumbreparcialde
umobjeto(D)inspiraumabusca
-levandoaum"míniahá"- que
enviaumamensagemderetorno
parainfluenciarestágiosiniciais
do processamentovisual.Essa
mensagememrespostaincita
maisbuscase- depoisdevárias
dessasiteraçõese "míniahás"
- chegamosao prazerfinaldo
reconhecimento.O estilista
demodae artistasinteligentes
tentamevocartantasdessassen-
sações,ambigüidades,mudanças
de pico e paradoxosquanto
possívelnaimagem.
Essaconcepçãocomporta
aindaaspectosmaisevasivosda
estética,tal comoa "metáfora
visual"- umaressonânciapraze-
rosaentreoselementosvisuaise
simbólicosdeumaimagem.Entre
aestéticadosfilhotesdegaivota
eabelezasublimedeumMonet,
temosumalongajornadaatéreal-
menteentendero processamento
visuqlnocérebro.Enquantoisso,
nossosestudosnosproporciona-
ramvislumbresirresistíveisdoque
podeaparecer,inspirando-nosa
continuarnossabusca. ...
-==
Innervlslon:an
exploratlon01art
andthe braln.Semir
Zeki.OxfordUniversity
Press,2000.
A brleftour
01human
consclousness.V.
S.Ramachandran.Pi
Press,2005.
www.mentecerebro.com.br15
f "
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-t\ '\ \ \;':( 'Iv(
( I
Paradoxos,..;
daperCepçaO
Seduasfontesdiferentesde informaçãosão
incoerentesentresi,o cérebrodá importância
à queparecermaisconfiável,combaseem
experiênciasacumuladas- evaiignorara outra
POR VILAVANUR S. RAMACHANDRAN E
DIANE ROGERS-RAMACHANDRAN
P
aradoxos- nosquaisa mesmainformação
podelevaraduasconclusõescontraditórias
- nosoferecem,aomesmotempo,prazere
tormento.Sãofontedefascinaçãoe frustração,
querenvolvamfilosofia(considereo paradoxode
Russell,"Estafraseé falsa"),ciênciaoupercepção.
O ganhadordo PrêmioNobel,PeterMedawar,
disseumavezquetaisquebra-cabeçastêmomesmo
efeitoparaumcientistaouumfilósofoqueocheiro
deborrachaqueimandotemparaosengenheiros:
deflagramumavontadeirresistíveldedescobrira
causa.Nacondiçãodeneurocientistasquepesqui-
sampercepção,nossentimoscompelidosaestudar
anaturezadascontradiçõesvisuais.
Vamosexaminaro casomaissimples.Seduas
fontesdiferentesdeinformaçãonãosãocoerentes
umacomaoutra,o queacontece?Certamenteo
cérebrodaráimportânciaparaaqueformaiscon-
fiávelemtermosestatísticos,evaisimplesmente
ignoraraoutra.Porexemplo,sevocêolharaparte
dedentrodeumamáscaraocaà distância,verá
o rostocomonormal-istoé,convexo- embora
suavisãosinalizedemaneiracorretaqueamás-
16 MENTE&CÉREBRO. ARMADILHAS DA PERCEPÇÃO
caraé,naverdade,ocaecôncava.Nessecaso,a
experiênciaacumuladado cérebroemrelaçãoa
rostosconvexossobrepujaevetaapercepçãoda
ocorrência- incomum- deumrostooco.
Mais irresistíveissãoassituaçõesnasquais
a percepçãocontradiza lógica,levandoa "figu-
rasimpossíveis".O pintore litógrafobritânico
WilliamHogarthcrioutalvezumadasprimeiras
dessasfiguras,noséculoXVIll (A)(verpág.18).
Umabrevevisãodessaimagemnãosugerenadade
anormal.Masumainspeçãomaisatentarevelaque
elaéimpossívelemtermoslógicos.Outroexem-
ploéo"forcadododiabo",ouenigmadeSchuster
(B).Taisimagenslevantamquestõesprofundasso-
brearelaçãoentreapercepçãoearacionalidade.
Nos temposmodernos,o interessepor tais
efeitosfoi emparterevivido peloartistasueco
OscarReutersvard.Conhecidocomoo paidas
figurasimpossíveis,ele desenvolveuinúmeros
paradoxosgeométricos,incluindoa "escadaria
interminável"eo "triânguloimpossível".Essesdois
tan1bémforamdesenvolvidosdemaneirainde-
pendenteporLioneleRogerPenrose,osfamosos
paie filhocientistas;a figura
C, mostrasuaversãodo queé
agorachamadocomumentede
triângulodePenrose.
O artistaholandêsM. C.
Escherencaixoudeformadiver-
tidataisfigurasemsuasgravuras
explorandooespaçoeageome-
tria.Considerea escadariade
Escher,figuraD: nenhumaparte
isoladada escadariaparece
incoerenteouambígua,maso
conjuntotodoé impossívelem
termoslógicos.Você poderia
subira escadariaeternamente
eaindaassimandarsempreem
círculos,nuncachegandoao
topo.Issosimbolizaacondição
humana:procuramosdeforma
perpétuaaperfeição,masnunca
chegamosmesmolá!
Essaescadariaseriarealmente
umparadoxoperceptual?Istoé,
océrebroéincapazdeconstruir
umapercepçãocoerente(ousi-
naldepercepção)porqueeletem
desimultaneamenteconsiderarduaspercepçõescontraditórias?
Achamosquenão.A percepção,
quasepordefinição,temdeser
unificadaeestávelemqualquer
dadoinstante,porquetodoseu
propósitoé levara umaação
apropriadadanossaparteguiada
porumameta.Realmente,alguns
filósofossereferiramàpercepção
comouma"prontidãocondicio-~
nalparaagir",o quepodeparecer~
~
umexagero. ..
Apesar da visão comum ~
d " , .1 2
e nosvemosaquIo emque~acreditamos",osmecanismos:I
perceptuaisestãorealmenteI»
nopilotoautomáticoenquanto
computame sinalizamvários
aspectosdo ambientevisual.
Vocênãopodeescolhervero
quequerver.(Seeulhemostrar
um leãoazul,você vai vê-Io
comoazul.Vocênãopodedizer
"Euescolhovê-Iocomodourado
porqueé assimquedeveser".)
Ao contrário,o paradoxona
figuraD surgeprecisamente
www.mentecerebro.com.br17
o 10
18 MENTE&CÉREBRO'ARMADILHASDA PERCEPÇÃO
porqueo mecanismopercep-
tual realizaumacomputação
estritamentelocalquesinaliza
"escadasascendentes",enquanto
seumecanismoconceptual/inte-
lectualdeduzquêé impossível
em termoslógicos para tal
escadariaascendenteformar
umcircuitofechado.A metada
percepçãoécomputardeforma
rápidaasrespostasaproximadas
quesãoboaso suficientepara
asobrevivênciaimediata;você
nãopodeconsiderarseo leão
estápertooulonge.A metada
concepçãoracional- dalógica
- é tomaro temponecessário
paraproduzir umaavaliação
maisprecisa.
Em conflito
Sãoasfigurasimpossíveis(com
exceçãodo triângulo,ao qual
voltaremosmaistarde)parado-
xosgenuínosdentrododomínio
dapercepçãoemsi?É possível
argumentarqueapercepçãoem
sipermanece,oupareceperma-
necer,internamenteconsisten-
te,coerenteeestávelequeuma
percepçãoparadoxalgenuínaé
umoximoro.A escadarianãoé
maisumparadoxodo quever
umailusãovisualtal como a
Müller-Lyer(verfiguranocanto
inferioresquerdo),naqualduas
linhasdeigualcomprimentopa-
recemdiferir- massemedirmos
asduaslinhascomumarégua
poderemosnosconvencer,pelo
menosintelectualmente,deque
elassãodecomprimentoidên-
tico. O conflitoé justamente
entreapercepçãoeo intelecto,
nãoumparadoxogenuínoden-
tro da própriapercepção.Por
outrolado,"Estafraseé falsa"
éumparadoxointeiramenteno
campoconceitualllingüístico.
Outra percepçãocativante
é o efeitocolateralde movi-
mento.Sevocêencararporum
minutofaixasmovendo-seem
umadireção(ver"A dançadas ~
listras",nestaedição)eentãotrans-~
ferir o olhar paraum objeto i
estacionário,oobjetoparecerá~
se movernadireçãoopostaà ~
em queas faixasse moviam. ~
Esseefeito surgeporqueseu
sistemavisualtemneurônios
dedetecçãodemovimentoque
sinalizamdireçõesdiferentes,
e as faixasque se movemo
tempotodo emumadireção
"causamfadiga"nosneurônios
quenormalmentesinalizariam
aquelesentido.O resultado
é um "ricochete"quefaz até
objetosestacionáriosparecerse
moveremnadireçãooposta.
No entanto,curiosamen-
te, quandovocê olha parao
objeto,ele dáa impressãode
estarsemovendoparaumlado,
masnãoparecechegara lugar
Q
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I
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nenhum;nãoháprogressopara
umameta.Esseefeitoé, com
freqüência,apregoadocomo
umparadoxoperceptual:como
algo pode parecerse mover,
masnãomudardelugar?Mas,
denovo,apercepçãoemsinão
é paradoxal;emvezdisso,ela
sinalizacomsegurançaqueo
objetoestásemovendo.É seu
intelectoquededuzqueelenão
estáse mexendoe pressupõe
umparadoxo.
e
~
~
c
t
~
~
~ Fronteirasdacognição
~ Considerea situaçãoinversa
gbem mais familiar. Você sabe
~ (deduz) que o ponteiro das
5horas do seu relógio está se8
~ movendo, embora ele pareça
~ parado.Não estáse movendo
~ rápidoo suficienteparaexcitar
g osneurôniosdetectoresdemo-
~ vimento.Mas ninguémchama
§ o movimentodo ponteiro das~
:E:horas de paradoxo.
e
Há casos-limite,como o
exemplificadono forcadodo
diabo.Nessequadro,algumas
pessoaspodem"ver"o todo
numúnicoolhar.As próprias
deixasperceptuaislocaiseglo-
baissãopercebidascomouma
únicaGestaltcomcontradições
internas.Ou seja,é possível
compreendero todonumúnico
olhar e apreciarsuanatureza
paradoxalsempensarnisso.
Essesquadrosnos lembram
que,apesardanaturezamodular
quaseautônomadapercepção
e de suaaparenteimunidade
ao intelecto,a fronteiraentre
apercepçãoeacogniçãopode
tornar-seindistinta.
Com o triânguloimpossí-
vel acontecealgosemelhante.
Comomostradopeloneuropsi-
cólogoRichardL. Gregory,da
UniversidadedeBristol,naIn-
glaterra,vocêpodeconstruirum
complicadoobjetoem3-D (F)
queiráproduziraimagememG
só quandovistodeumângulo
particularmenteprivilegiado.
Desseânguloespecífico,oobje-
topareceserumtriângulonum
únicoplano.Massuapercepção
rejeitataiseventosaltamente
improváveis,mesmoquando
seuintelectoestáconvencido
desuapossibilidade(depoisde
tersidoapresentadoàvisãoem
G). Portanto,mesmoquando
entendemosconceitualmente
a formaincomumdo objetoF,
continuamosa vero triângulo
fechado(G),emvezdoobjeto
(F)quenaverdadeo origina.
Como alguémpodetestar
essasnoçõesdemaneiraempí-
rica?Na escadariadeEscher,é
possívelexploraro fatodequea
percepçãoévirtualmenteinstan-
tânea,enquantoacogitaçãoleva
tempo.Alguémpoderiaapre-
sentaroquadroporumperíodo
curto- umtempoinsuficiente
paraqueacogniçãoseative- di-
gamos,umdécimodesegundo
seguidopor umestímulomas-
carador(queevitaacontinuação
doprocessamentovisualdepois
daremoçãodafiguradeteste).A
previsãoseriaqueaimagemnão
maispareceriaparadoxala não
serqueo estímulofosseencom-
pridadode maneiraadequada.
O mesmopodesertentadopara
o forcadodo diabo,quetem
maiorprobabilidadedeserum
paradoxoperceptualgenuíno.
Nessecaso,a máscarapoderia
nãosercapazde "dissecá-Io"
emdoisestágios(percepçãoou
cognição)distintos,podendose
resumiraumaquestãodeescala
ou complexidade.Quaisquer
quesejamasorigensdo para-
doxo, ninguémdeixade ficar
intrigado por essesquadros
enigmáticos.Elesexcitamnos-
sossentidose desafiamnoções
derealidadeeilusão. nec
o artista
holandêsM.
C. Escher
utilizounoções
deespaçoe
geometriaem
suasgravuras,
criandoefeitos
inusitadosque
simbolizam
acondição
humana:
procuramos
aperfeição,
masnuncaa
atingimos
A Newamblguous
figure:athree-stlck
clovis. D. H. Schuster
emAmericanjoumalof
Psychology,vol.77,pág.
673,1964.
lhe Intelllgenteye.
RichardL Gregory.
McGraw-HiII,1970.
Maisfigurasambíguas
estãodisponíveisem
www.im-possible.info/
english/art/index.html
www.mentecerebro.com.br19
Buscasdo
olhar
Experiênciascompontos
cegosindicamque nosso
sistemanervosodetestao
vácuo- e procurafugirdele
POR VlLAYANUR S. RAMAOfANDRAN E
DIANE ROGERS-RAMAOfANDRAN
Vemoso mundode dois pontosprivi-legiadosligeiramentediferentes,quecorrespondemàs posiçõesde nossos
dois olhos. Há pequenasdiferençasentreas
imagenscaptadasporcadaumdeles;diferenças
quesãoproporcionaisà profundidaderelativa
dosobjetosno campovisual.O cérebropode
mediressasdiferenças,operaçãocujoresultado
éavisãoestéreoouestereopsia.
Paraterumaidéiadesseefeito,estendaum
braçoapontandoparaum objetodistante.En-
quantomantémo braçoestendido,abrae feche
cadaum dos olhos alternadamente.Perceba
comoseudedomudaemrelaçãoaoobjeto,fato
20 MENTE&CÉREBRO.ARMADIlHAS DA PERCEPÇÃO
que ilustraa disparidadehorizontalentreos
globosoculares.
Dispositivosde visualizaçãoque se apro-
veitavamda estereopsiaparacriar ilusõesde
profundidadeem imagensde paisagens,em
monumentosarquitetônicose atéemimagens
pornográficassetornarampopularesnossalões
vitorianos.AsobrasdoartistaholandêsMaurits
CornelisEscher(1898-1972)sãobomexemplo
daestereopsiaaplicadaàsartesgráficas.
Um fatopoucocomentadosobrea visãoes-
téreoé que,aindaquevejamosduasimagensde
ummesmoobjeto- umapormeiodecadaolho
-, percebemosapenasum.De formasimilar,se
tocamosamesmamaçãcomas
duasmãos,sentimosumafrutae
nãoduas.Assim,asimagensdos
olhosdevemser"fundidas"em
algumapartedocérebroparadar
origemàpercepçãodeumitemunitário.Podemosformularas
seguintesquestões:oqueocorre
quandoos olhoscontemplam
coisasinteiramentediferentes?
Perceberemosumamistura?
Tenteo seguinteexperi-
mento.Pegueunsdessesóculos
deleituraquesecompramem
farmácia.Fixenumadaslentes
umfiltrovermelhoe naoutra,
um verde;depoiscoloqueos
óculos. O que você verá se
olharparaumobjetobranco?
Se fecharum dosolhos,verá
verdeou vermelho,conforme
oesperado.Masesevocêabrir
osdoisolhos?As duascoresse
misturarãono cérebroprodu-
zindooamarelo,comoo fariam
se misturadasopticamente?
(Vale lembrarque vermelho
e verde produzem marrom
quandomisturamospigmentos,~
comotintas.Masquandomis- ~
turamosluzes,projetando-as1
numatela,essascoresresultam1
noamarelo.) ~
Vocêvaiverumacoisade!
cadavez.Surpreendentemente,
o objetosurgealternadamente
vermelhoeverde.Osolhospa-
recemgentilmenteserevezar,
comoseevitassemoconflito.O
fenômenoéchamadoderivali-
dadebinoculareoefeitoésimi-
laràquelequevemosno cubo
www.mentecerebro.com.br21
o cérebro
utilizapartes
dasimagens
de cadaolho
que fazem
IIsentidollcomo
umpadrão
holísticopara
combiná-Ias
corretamente
CUBODENECKER
(obaixo):revezanAento
dosolhosevita
rivalidadebinocular.
Ao lado,fusãode
inAagens:o cérebro
extraifragnAentosdas
ImagensquefazenA
sentido COnAOUnA
padrãoholístico
deNecker(verilustraçãoabaixo).
Para a pessoaque vê, pode
parecerqueessasexperiências
perceptivasdinâmicassurgem
porqueo próprioobjetoestá
mudando.Mas o estímuloé
perfeitamenteestável.O que
alteraé o padrãodeatividade
cerebral,queproduzasaltera-
çõesperceptivase a ilusãode
umobjetoinstável.
É possívelusara rivalidade
binocularcomoumapoderosa
ferramentapara explorar a
questãomaisgeral de como
o cérebroresolveconflitosde
percepção.Tentemosoutro
experimento.Emvez deduas
coresdiferentes,apresentemos
à visãoduassériesde listras
perpendicularesentre si. O
resultadoseráumagradeou
assériesentrarãoemconflito?
A respostaé:àsvezesveremos
as sériesalternadas,àsvezes
ummosaicode listras,comas
seçõesdas imagensdos dois
olhosentrelaçadas.Jamaisve-
remosumagrade.
Teoricamente,poderíamos
fazeresseexperimentoposi-
cionandolistrasverticaisparao
olhodireitoehorizontaisparao
esquerdoemumvisorestéreo.
Massevocênãotiverum,po-
demosimprovisaralgoparecido
(verilustraçãonapág.aolado).Basta
posicionarumadivisória,umpe-
daçodepapelão,porexemplo,
no limiteentreduasimagens.
Agoracoloqueseunarizperto
dadivisória,detalformaqueo
olho esquerdomireexc\usiva-
menteumaimagemeo direito,
aoutra.O quevocêvaiversão
listrasalternadasouummosaico
flutuante,nãoumagrade.Com
a prática,pode-sedispensara
divisóriae aprendera "fundir
livremente"as duasimagens,
convergindoou divergindoos
olhos.Olhar paraa pontade
umlápisameiocaminhoentre
asimagenseafacepodeauxiliar
esseaprendizado.
Depois de aprenderesse
truque,novosexperimentos
serãopossíveis.Sabemos,por
exemplo,quediferentesáreas
docérebroestãoenvolvidasno
processamentodacoredaforma
das imagens.Podemosassim
questionar:a rivalidadeocorre
separadaouconjuntamentepara
essesdoisaspectos?E seolhar-
mosaslistrasdoolhoesquerdo
atravésde um filtrovermelho
e asdo olhodireitoatravésde
um verde?Haveráentãouma
rivalidadede cor e outra de
forma.Elasocorremdemaneira
independente,de tal modo
que a cor do olho esquerdo
seemparelhacomaslistrasdo
'olho direito, ou elassempre
"concorrem"sincronicamente?
A respostaéqueasrivalidades
ocorremconjuntamente.Dito
de outra forma:a rivalidade
se dá entreos própriosolhos
e não no processamentodas
coresou formas.
Discose baldes
Masnemsempreissoéverdade.
Dêumaolhadanasimagensda
páginaanterior.A figuraapre-
«-a II II â'. ' ". _... ':-,",",...-. - .;'"
...'"
'"..z...
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u
o"
C
----- "...
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Z:J:
!2.
>-
zZ:J:
!2.
22 MENTE&CÉREBRO.ARMADIUiAS DA PERCEPÇÃo
~ ~%
w~
QUANDOCADAOLHOvêdiferentespadrões
delistras,o resultadonãoéumaimagem
entrelaçada,masummosaico
sentadaa cadaolho misturaa
facedeummacacocomfolhas
verdes.De formaintrigante,
seo cérebrofundeasimagens
há umaforte tendênciapara
completaro macacoou a fo-
lhagem,mesmoqueissoexijaa
reuniãodefragmentosdecada
umdosolhosparacompletaros
padrões.Nessecaso,océrebro
utiliza partesdasimagensde
cadaolhoquefazem"sentido"
comoumpadrãoholísticopara
combiná-Iascorretamente.
Retomemosà estereopsia,
isto é, o cálculo da profun-
didade relativa de imagens
provenientesde dois olhos
cujasposiçõesno espaçosão
~ ligeiramentediferentes.Neste
i casoas imagensse fundeme,Q
~emvezdarivalidade,temosa
1 profundidadeestéreo.É digno
5 de notaquedurantemilênios
~ aspessoasnãoreconheceram
~ a estereopsia,pressupondo,
~ provavelmente,queobenefício
~deterdois olhos resideno fato
Q
] deque,seperdermosum,nosIr .
;. restanaoutro.Esseargumento
~tempelo menos500anos,
~considerandoque foi usado
porLeonardodaVinci.O fato
dequeo cérebrofazusodela
foi descobertopelo médico
inglês Charles Wheatstone
(1802-1875).É possívelelabo-
rarumexemplodadescoberta
dele com o desenhode um
baldevistode cima.Quando
fundimosasimagensdosdois
olhos(usandoa fusãolivreou
um cartão divisório), surge
um discocinza quecircunda
o círculo externo,dando-nos
a impressãode que estamos
suspensosnoar.
Mas precisamosrealmente
dafusãoparaqueaestereopsia
ocorra?A questãopodeparecer
ingênua,pois nossaintuição
sugerequesim.No entanto,a
intuiçãoestáequivocada.Três
décadasatrás,AnneTreisman,
da Universidade Princeton,
L\oyd Kaufman,da Universi-
dadede Nova York, e um de
nós (Viláyanur) mostraram,
de formaindependente,quea
rivalidadepodecoexistircom
aestereopsia,pormaisqueisso
pareçaparadoxal.
Para entendero fenôme-
no, considereo diagramada
imagemacima.Ele apresenta
dois fragmentos de listras
dispostashorizontalmenteem
direçõesopostasem relação
aoscírculosexternos.Quando
o cérebrofundeessescírculos,
algoextraordinárioacontece.
Veremoso fragmentointeiro
flutuando,massomenteum
fragmentopor vez,porqueas
listrassãoortogonais.Em ou-
traspalavras,o cérebroextrai
o sinalestéreodosfragmentos
comoumtodo, interpretando
as porçõesindividuaiscomo
gotas,masos fragmentospa-
recemrivalizar.
A informaçãosobrea lo-
calizaçãodos fragmentosna
retinaé extraídapelocérebro
e produzestereopsiamesmo
queapenasa imagemde um
dosolhossejavisívelporvez.
É comosea informaçãosobre
umaimageminvisívelpudesse,
entretanto,gerarestereopsia.
Essa "forma de rivalida-
de" ocorre em umaáreado
cérebrodiferenteda estere-
opsia,de modo que as duas
podemcoexistiremharmonia.
A correlaçãoentreelasnavisão
www.mentecerebro.com.br23
o nívelde
informação
queo
cérebro
assimila
enquanto
observamos
o mundoé
pequeno
.
Atençãoparaovazio
Nossapercepçãodo mundode-
pende,numgrausurpreendente,
do trabalhode adivinhaçãoin-
teligentedocérebro.A imagem
brancaovalqueexcitasuaretina
podetersidoproduzidaporum
ovo, um discoindinadoperfei-
tamentedrcular,ouumnúmero
infinitodeformasintermediárias
colocadasno grauexato.Ainda
assim,nossocérebro"acolhe"
instantaneamentea resposta
certa.Fazissoutilizandocertas
premissasa respeitodasestatís-
ticasdo mundonatural- supo-
siçõesquepodemserreveladas
porilusõesvisuais.Omodocomo
lidacomvaziosinexplicáveisna
imagemretiniana- umproces-
so c"amadopreenchimento
-fomeceumexemploadmirável
desseprinápio.Vocêpodecom-
prová-Iousandoo pontocego
deseuolho.Examineailustração
(a).Comoolhodireitofechado,
olheparaocentrodoquadrado
brancoinferior.Segureapágina
a 30emdorostoe lentamente
aproxime-ae afaste-a.A uma
certadistândaodiscoàesquer-
dadesaparece.Elecainoponto
cegodoseuolhoesquerdo,um
pequenofragmentodaretina
chamadodiscoóptico,despro-
vidodereceptores.
O físicovitorianosi,David
Brewsterficouimpressionado
como fato de o desapareci-
mentododisconãodeixaruma
sombraescuraou umburaco
vazioemseulugar.Aregiãoque
correspondeaodiscoé"preen-
chida"pelofundocolorido.EleatribuiuesseprocessoaDeus,o
"ArtíficeDivino".
Atémesmoumalinhareta
quecorreatravésdoseuponto
cegonãoé interrompidano
meio,comosepodeverfazendo
o mesmoexerácio,destavez,
porém,olhandoparao qua-
dradobrancosuperiorem(A).
O segmentofaltanteda linha
aparececompleto.Écomoseo
cérebroconsiderassealtamen-
te improvávelqueduaslinhas
curtaspudessemficardecada
ladodopontocegoporsimples
acaso.Ascélulasnoscentros
visuaissãoestimuladascomo
seriamcasoa ba"a estivesse
completa,e dessaformavocê
vêumalinhacontínua.
O pontocegoé surpreen-
dentementegrande,quasedo
tamanhodenoveluascheiasno
céu.Experimentefecharoolho
esquerdoe olharemvoltada
salacomodireito.Comalguma
prática,vocêpoderá"mirar"
seupontocegoparaqualquer
objetopequenoefazê-Iodesa-
parecerdocampovisual.O rei
Carlos11daInglaterracostuma-
vamirarseupontocegopara
a cabeçadosprisioneirospara
"decapitá-Ios"visualmentean-
tesdaverdadeiradegola.
Qualéograudesofisticação
doprocessodepreenchimento?
Seo meiodeumacruzcairno
pontocego,eleserápreenchi-
do? E os padrõesrepetitivos
dotipopapeldeparede?Com
e
24 MENTE&CÉREBRO.ARMADILHASDA PERcEPÇÃO
41)
apenasalgunspincéisatômicos
coloridose folhasde papel,
vocêpodeexploraroslimitesdo
preenchimentoe as"Ieis"que
regemo processo.Voudescre-
veralgunsexemplos,mastente
inventarosseus.
Em(8),o seupontocego
cainocentrodeumX forma-
do porumalongalinhaverde
quecruzaumapequenalinha
vermelha.Sevocêfor comoa
maioriadaspessoas,veráque
somenteamaiordasduaslinhas
écompletadaatravésdoponto
cego.(Noentanto,nãoédlfídl
preenchera partefaltantede
linhacurtaseelaforconsiderada
emsimesma.)Esseexerááosim-
plesdemonstraque,sobcertas
condições,o preenchimento
baseia-semaisnaintegraçãode
informaçãoaolongodetodoo
comprimentoda linhaquena
informaçãoespadalmenteadja-
cente.Emoutrasdrcunstândas,
océrebropreencheapenasoque
estáimediatamenteemtomo
dopontocego.Sevocêmirao
pontocegodoseuolhoesquer-
donocentrodeumarosquinha
amarela,veráumdiscoamarelo
emvezdeumanel;o amarelo
faz o preenchimento.O mais
notávelé quea mesmacoisa
aconteceem(C);a maioriadas
pessoasvêodiscoamarelosaltar
visivelmentecontraumfundo
de papelde paredede anéis
amarelos.Emvezdeextrapolar
opadrãorepetitivodeanéis,seu
sistemavisualrealizaumcômpu-
toestritamentelocalepreenche
apenaso amarelohomogêneo
noentomoimediatododisco.
Porémissonemsempreé
verdade,comosevêem(D).Ob-
serveailusóriafaixaverticalque
correatravésdaslinhashorizon-
taisparalelas.Mireopontocego
doseuolhoesquerdonodisco
azulparafazê-Iodesaparecer.
Vocêpreencheos segmentos
ausentesdaslinhashorizontais
quecorrematravésdo ponto
cego?Oupreencheafaixailusória
vertical?A respostadependedo
espaçamentodaslinhas.
Porqueaconteceopreenchi-
mento?Époucoprovávelqueo
sistemavisualtenhadesenvolvi-
doessacapacidadecomo único
objetivode lidarcomo ponto
cego(afinal,o outroolhonor-
malmentefaza compensação).
Opreenchimentodeveantesser
manifestaçãodoquechamamos
interpolaçãodesuperfície,uma
habilidadequesedesenvolveu
paracomputarrepresentações
desuperfíciesecontornoscontí-
nuosdomundonatural-mesmo
aquelesàsvezesparcialmente
ocultos(porexemplo,umgato
vistoatravésde umacercade
tábuasespaçadas,pareceumgato
inteiro,enãoumfatiado).Fisio-
logistas(especialmenteLeslieG.
Ungerleider,doInstitutoNacional
deSaúdeMental,RicardoGatass,
daUniversidadeFederaldo Rio
deJaneiroe CharlesD. Gilbert,
daUniversidadeRockefeller)
começamaexploraro mecanis-
moneurológicodesseprocesso
monitorandoo modopeloqual
neurôniossimplesdoscentros
visuaisrespondemaobjetospar-
dalmenteencobertospeloponto
cegoouporocIusoresopacos.
Seficarenjoadode brincar
comseupontocegonatural,
tenteisto.Noladodireitodatela
dalV coleumpequenopedaço
(0,5cmdediâmetro)decartolina
brancacomumpontopretono
centro.Depois,ligueaTVemum
canalqueestejaforadoarpara
quevocêpossaverapenas"pin-
gos"brilhantes.Coleumpedaço
grossodepapel-cartãocinza(o
maispróximopossíveldotomda
chuvadepingosdaTV)acercade
12cmdocartãobranco.Fiquea
ummetrodoaparelho.Seabriros
doisolhoseolharfixamentepara
o pequenopontopretodurante
15segundos,o quadradocinza
desaparecerácompletamente,e
aárea"desocupada"serápreen-
chidapelospingos-vocêtemalu-
cinaçõescomospingosondeeles
nãoexistem!O extraordinárioé
queseagoravocêolharparauma
paredecinza,veráumpedaço
quadradodepingosbrilhandona
regiãoemqueo preenchimento
ocorreu.Atéumasolitáriabolha
vermelhavistacontraumfundo
debolhasverdesdesapareceda
mesmaforma- asverdesfazem
o preenchimento.O cérebro,ao
queparece,detestaovácuo.
Essasexperiênciasmostram
comoérealmentepequenooní-
veldeinformaçãoqueocérebro
assimilaenquantoobservamos
o mundoeoquantoelepróprio
fornece.Ariquezadanossaexpe-
riênciaindividualéimensamente
ilusória;naverdade,nós"vemos"
muitopoucoe dependemosdo
trabalhodeadivinhaçãotreinado
parafazero resto.
o
binocularnormaléumacoinci-
dência,nãoumanecessidade.A
descobertadequedeterminada
informaçãovisualpodeserpro-
cessadainconscientementeem
umcaminhocerebralparalelo
lembraaenigmáticasíndrome
neurológicadavisãoàscegas.
Um pacientecom lesão no
córtexvisualécompletamente
cego:nãopodeperceberum
foco de luz. Mas elepodeal-
cançá-Ioe tocá-Iousandoum
caminho paralelo que evita
o córtex visual (necessário
paraa percepçãoconsciente)
e projetadiretamenteparaos
centroscerebrais,quesãouma
espéciede piloto automático
queguiamamão.
Um experimentosimilar
poderia,emtese,serelaborado
para a rivalidadebinocular.
Quandoaimagemdeumolho
é inteiramentesuprimidadu-
rantea rivalidade,talvezfosse
possívelalcançare tocaruma
manchaapresentadaàquele
z olho,aindaqueelasejainvisível
~parao olhosuprimido.:z:
~ O fenômenodarivalidadez
~ éumnotávelexemplodecomoo
~ podemosusarexperimentos
~relativamentesimples para
~ obtergrandesinsightssobreo
2 processamentovisual. ner:
Stereopsls
generatedwlth
JuleszpattersIn
splteof rlvalry
Imposedby
colourfllters.V.S.
RamachandraneS.
Sriram,emNature,
vol.237,págs.347-
348,1972.
Blnocularvlslon
andstereopsls.lan
P.HowardeBrian
J.Rogers.Oxford
UniversityPress,1995.
Blnocularrlvalry.
DavidAlaise
RandolphBlake
(orgs.).MIT Press,
2004.
www.mentecerebro.com.br25
OY~dD~3dVOSVH1IOVV\jH'V.O~83~p~3IN3V\j9Z
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ofascíniodo
Imagensespecularesajudampessoasamputadasa amenizarou
eliminara dorfantasma;experimentomostraa importânciada
comparaçãode informaçõessensoriaisparaa imagemcorporal
POR VlLAYANUR S. RAMACHANDRAN E
DIANE ROGERS-RAMACHANDRAN
os espelhosinspiramfascíniopeculiardesdequeumdosprimeirosancestraishominídeosolhou seureflexonuma
poçade águae percebeuumamisteriosacor-
relaçãoentreosprópriosmovimentos(sentidos
internamentepor meioda propriocepção)e o
feedbackvisual.Mais misteriosaaindaé nossa
capacidadede"refletir"sobrenósmesmos,oque
nostornaos primeiroprimatasintrospectivos.
Estahabilidadeéexpostademaneirasmuitodís-
pares:desdeNarcisoolhandoo próprioreflexo
numlagoatéa realidadevirtualque,de certa
forma,nostransportaparaforadocorpo.
Uma dasmaisintrigantesdescobertasdas
neurociênciasforamos neurônios-espelho,que
nospermitem"adotaro pontodevistadooutro",
literalmente,e quemsabeaté"olhar"apartirda
posiçãoestratégicade outra pessoa.É como
seo cérebroestivesseexaminandoseupróprio
espelhointerno.
Há cercadedezanososneurocientistasEric
L.AltschulereSteveHillyer,daUniversidadeda
CalifórniaemSanDiego,eumdenós(Vilayanur)
descrevemosumanovasíndromeneurológica
chamadaagnosiaespecular.O problemaé ca-
racterizadopelaincapacidadedepacientes- que
sofreramderrameslevesnohemisfériodireito-
nãosaberemqueaimagemdeumobjeto,refleti-
danoespelho,ésóumaimagem.Surpreenden-
temente,elestentampegaro "objeto"repetidas
vezes,comosenãoconseguisseminibirumato
reflexo,embora,dopontodevistamental,essas
pessoassejamabsolutamentesaudáveis.Esse
fenômenonos faz pensarnosmistériosentrerealidadee ilusão,nafragilidadeimplícitanessa
relaçãoe no quantoos espelhossãoprofunda-
menteenigmáticos.
Sensações cruzadas
Vocêpodebrincarcomreflexosparaexplorara
magiadeles.Comececonstruindoumacaixade
espelho(verquadropág.28).Projetamosessacaixa
originalmenteparatratarpacientesquesofreram
derrameou que,apósumaamputação,sentem
dor nomembro-fantasma;masqualquerpessoa
podesedivertirfazendooexperimentoconsigo
próprioecomosamigos.
Normalmente,nossossentidos- comoa
www.mentecerebro.com.br27
PERCEPÇÃO DA
própriaimagem
éatualizadacom
exerádosnacaixa
deespelhos
visão,aaudiçãoeapropriocep-
ção - trabalhamemrazoável
concordância.Mensagensori-
ginadasnessesdiferentescanais
sensoriaisconvergemparaos
girosangulare supramarginal
do lobo parietaldo cérebro,
ondeconstruímosnossa"ima-
gem corporal". Nos demais
primatas,essasduasestruturas
estãofundidasnumúnicogiro,
no lóbuloparietalinferior.
Na espéciehumana,entre-
tanto,dadaa importânciadas
interaçõessensoriaiscruzadas
- tambémchamadasinter-
modais-, esselóbulocresceu
muitoesedividiuemdois.Foi
assimqueessemacacopelado
se tornoucapazde tão vasta
sofisticaçãotecnológica- um
macacoquenãotentaapenas
28 MENTE&CÉREBRO.ARMADIlHAS DA PERCEPÇÃO
alcançaros amendoins,mas
tambémasestrelas.
Voltemos à caixa de es-
pelho. Comece com o lado
reflexivovoltadoparaadireita.
Depoiscoloqueamãoesquerda
no ladoesquerdodo espelho,
de modoquefiqueocultada
suavisão;eponhaamãoclireita
no ladodireito,deformaami-
metizarcomprecisãoapostura
e localizaçãodamãoesquerda
escondida.Agoraolhenoespe-
lho o reflexodamãodireita;a
sensaçãoquesetemédeestar
vendoa mãoesquerdareal,o
queéobviamenteumailusão.
Continue olhando o es-
pelho e movaas duasmãos
de formasincronizada- em
círculosouabrindoefechando
os dedos,por exempio- de
maneiraqueamãorefletidae
a ocultaestejamem perfeita
sincronia.Entãoparedemovi-
mentarapenasamãoesquerda
(oculta)e, ao mesmotempo,
continue mexendoa direita
lentamente:gire-a, faça um
acenoouagiteosdedos- mas
mantenhaa esquerdaimóvel.
Agoravemo instantemágico:
por alguns momentosvocê
veráamãoesquerdasemover,
emboraa sinta imóvel.Sur-
preendente,não? O cérebro
abominacontradições.
Incongruência sensorial
Prepare-separaalgomaisdes-
concertante:movaa mãoes-
querda oculta e, ao mesmo
tempo, mantenhaa direita
imóvel. A sensaçãoé ainda
maisestranhaquandovisãoe
propriocepção"sechocam".
A seguir, ainda olhando o
espelho,peçaaumamigoque
~seguresuamãodireita.Você
~ verá sua"mãoesquerdavir-
tual"sendotocada,enquanto
a mãoesquerdareal,atrásdo
espelho,permanecelivre.Com
esteconflitosensorialpeculiar,
algumaspessoassentemamão
esquerdacomo se estivesse
anestesiada- porquevêemo
toque,masnãoo sentem.
Um outro tipo de incon-
gruênciasensorialacontece
quando você olha sua mão
atravésdeumalentecôncava,
o queadeixabemmaislongae
menor.Issoporsisójáprovoca
umestranhamento,massevocê
movê-Iaou agitaros dedos,a
sensaçãosetornaráaindamais
paradoxale fantasmagórica.É
comoseestapartedo corpo
não lhe pertencesse,umaes-
péciede experiênciafora do
corpo.O mesmoacontecese,
duranteumacaminhada,você
olhar seuspés atravésdesse
tipodelente.Elesvãoparecer
maislongos,magroseelásticos,
comoseestivessemseparados
docorpo.
Essasexperiênciaspodem
sermuitodivertidas,mastêm
tambémgrandeimportância
teóricae clínica.Quandoum
braçoé amputado,o paciente
continuaa sentirvividamente
suapresença,aconhecidasín-
dromedo membro-fantasma.
Muitos delesacreditampo-
der movimentá-Iolivremente.
Como explicaressasensação
ilusória?Quandovocêmovea
mão,centrosdecomandomo-
tornaregiãofrontaldocérebro
enviamumsinalqueatravessa
amedulaespinhale chegaaté
osmúsculos.Aomesmotempo,
umacópiadessecomandovai
parao lobo parietal, região
querecebefeedbackvisuale
proprioceptivo.Assim, se o
membroé perdido,nãoexiste
feedbacksensorial,mas,ainda
assim,a cópiado comandoé
enviadaao lobo parietale in-
terpretadapelocérebrocomo
movimentosdo fantasma.Por
razõesque nãocompreende-
moscompletamente,alguns
pacientessão incapazesde
"mover"seumembro-fantasma
e dizemque ele está"parali-
sado".Outros relatamdor ou
"congelamento"em posição
nãousual.
Mas como um fantasma
podeestarparalisado?Muitos
dessespacientestiveramante-
riormenteumalesãonosnervos
quesaemdamedulaespinhale
inervamosmúsculosdo braço,
oquedeixouo membropara-
lisado,porémintacto.Sempre
queocórtexpré-motorenvia-
vao comandoparamovê-Io,
recebiaumfeedbackvisuale
proprioceptivoquedizia:"Não
semova".Essamensagemacaba
sendogravadanocérebrocomo
umaformade"paralisiaapren-
dida",umaespéciedememória
queé transferidaaofantasma.
Paralisia aprendida
Seriapossíveltrazero fantas-
madevoltaàvidafornecendo
aopacienteumfeedbackvisual
todavezquetentassemovê-Io?
Essaestratégiapoderiaaliviar
ador?Emumartigode 1996,
descrevemosatécnicadacaixa
deespelho.O paciente"colo-
ca"seufantasmaparalisadode
um lado e a mãonormaldo
outro;depoisolhanoespelho
enquantorealizamovimentos
simétricos(batendopalmas,
por exemplo).O espelhoda
caixadáa ilusãovisualdeque
o fantasmafoi ressuscitadoe
semoveemperfeitasincronia
comoscomandosdocérebro.
Em muitospacientes,a sen-
sação de cãibra desaparece
pela primeiravez em anos;
em outros,o fantasmasome
completaepermanentemente,
juntocomador.
Sugerimosque tais pro-
cedimentospodemser úteis
tambémparaoutrosquadros
clínicos, como derrameou
distoniafocal,doençaneuro-
lógicaqueprovocacontrações
muscularesinvoluntárias.Estes
efeitos foram confirmados
recentementeemensaiosclí-
nicosrealizadoscomtécnicas
de imageamentocerebralpela
neuropsicólogaHerta Flor,
do InstitutoCentraldeSaúde
Mental da Universidadede
Heidelberg,Alemanha.
A dor fantasmaé muito
desagradável,masbemmenos
freqüentequeoderrame,ouaci-
dentevascularcerebral(AVC),
r
a principalcausade invalidez
nosEstadosUnidos.Causadas
porproblemasvasculares,lesões
nasfibrasnervosasquevãodo
córtexàmedulaespinhalpodem
levarà paralisiatotalde uma
das metadesdo corpo. Será
queexistealgumcomponente
daparalisiaaprendidanoAVO
Talvezo inchaçoe inflamação
iniciaiscauseminterrupçãotem-
poráriadatransmissãodesinais
que,combinadacomaevidência
visualde paralisia,levaa uma
formadeparalisiaaprendidaque
sesomaàparalisiarealcausada
pelalesãonervosa.
Em 1999, recorremos à
caixadeespelhoparatratara
paralisiasecundáriaao AVc.
Testamosnove pacientese
constatamosumarecuperação
incrível,considerandoqueesse
tipo de paralisiageralmenteé
incurável.Imaginávamosque
célulasmultimodais(direta-
menteconectadasà saídavi-
PLASTICIDADE
NEURAL: impacto
na reabilitação
de quemsofreu
amputaçãoou
derrame
www.mentecerebro.com.br19
A mãofantasma
Emalguns
casos,se
o médico
tocasseamão
verdadeira,o
pacientenão
apenasviaa
fantasmasendo
tocada,como
tambémsentia
essetoque
Vocêpodeserconvencidode
quesenteumafalsamãocomo
sefosseasuaprópria.Parades-
cobrirporsimesmo,peçaaum
amigoquesesenteaumamesa
pequena.Useumadivisãover-
tical,comomostraailustração
- umpedaçodecartolinaé o
bastante.Apóiea suamãodi-
reitanamesadeformaquenão
possavê-Ia,atrásdadivisória.
À vista,coloqueumamãode
plástico- dasquesecompram
emlojasdebugigangasoude
fantasias.Peçaaseuassistente
quetoquesuamãoescondida
usandoalternadamenteapon-
ta do dedoe, compequenos
tapas,a mãoaberta,numa
seqüênciaaleatóriadetoques
comotapa,tapa,tapa,ponta
dodedo,tapa,pontadodedo,
ponta do dedo. Ao mesmo
tempo,emperfeitasincronia,
eledevefazero mesmocoma
mãofalsa.
Se continuarnesseritmo
por 20ou 30segundos,algo
fantasmagórico acontece:
a estranhasensaçãode que
vocêrealmentesentea mão
falsa.Porqueaconteceisso?
MatthewBotvinickeJonathan
Cohen,entãona Universida-
30 MENTE&CÉREBRO.ARMADILHASDA PERcEPÇÃo
de de Pittsburghe na Uni-
versidadeCarnegieMellon,
reportarama chamadailusão
da mãodeplásticoem1998,
sugerindoquea similaridade
físicaentreamãoverdadeiraeadomodeloésuficientepara
enganarocérebroefazercom
queeleatribuaas sensações
detoqueaosmembrosfalsos.
Elesacreditamqueessailusão
éforteobastanteparasuperar
a pequenadiscrepânciaentre
a posiçãode suaverdadeira
mão,marcadapelaarticulação
deseucorpoe pelosrecepto-
resmusculares,ealocalização
damãodeplásticoregistrada
porseusolhos.
Mas a histórianãoacaba
aqui.Maisoumenosnamesma
épocaemqueBotvinicke Co-
henobservaramoefeitodamão
deplástico,nósenossoscolegas
WilliamHirsteine Kathleen
CarrieArmeida Universidade
da Califórnia,emSanDiego,
descobrimosoutrapeculiari-
dade:o objetotocadoporseu
ajudantenãoprecisasequer
parecercomsuamão.Épossível
produziro mesmoefeitosim-
plesmenteacariciandoamesa.
Façaa experiência:destavez
peçaa seucolegaqueacaricie
e toquea superfíciediantede
vocêenquantofazmovimen-
tosequivalentesemsuamão
escondida.(Sea utilizaçãoda
mesanãofuncionar,pratique
comumamãodebrinquedoe
depoisvámudandoparaomó-
velo)Compaciência,vocêvaiter
sensaçõesdetoqueproveniente
dasuperfíciedemadeiraàsua
frente.A ilusãoficaaindamais
intensasevocêcobriro tampo
da mesacomumatoalhade
plásticoparaimitarasqualida-
destáteisdapele.
Essailusãoé extraordina-
riamentearrebatadoranapri-
meiravezquevocêadescobre.
Mascomooscientistaspodem
tercertezadequevocêagora
assimilouamesaàimagemdo
seucorpode modoperceptí-
vel?No ano passado,Armei
e umdenós(Ramachandran)
descobrimosque, umavez
desenvolvidaa ilusão,sevocê
"ameaçar"amesaouamãofal-
safingindoquevaidesferir-lhe
umgolpe,apessoaestremece
e até começaa suar,como
fariaseestivesseenfrentando
umaameaçaverdadeiraaoseu
própriocorpo.Demonstramos
essareaçãoobjetivamente
registrandoumasúbitadimi-
nuiçãonaresistênciaelétricada
pelecausadapelatranspiração
- a mesmarespostada pele
galvânicausadaemtestesde
detectoresdementira.Écomo
sea mesafosseincorporadaà
imagemdocorpodeformaa
~ seconectarcomcentrosemo-
~
~cionaisdo cérebro;a pessoa
~senteaameaçacontraamesa
i comosefosseumaameaçaa
~elaprópria.
SENTE-SEÀ MESAeobstrua
avisãodeumdeseusbraços.
Coloqueàvistaumafalsamão.
Sealguémtocaramãoartificial,
vocêteráa impressãoilusóriade
perceberotoque
A SENSAÇÃOilusóriachegaa
provocaralteraçõescorporaiscomo
aumentodatranspiração
Essasilusõesdemonstram
dois princípios importantes
subjacentesà percepção.Em
primeirolugar, a percepção
baseia-seamplamentena ex-
traçãodecorrelaçõesestatísti-
casdosestímulossensoriais.Ao
sentirquesuamãoescondida
sofrepequenosgolpese vera
mãodeplásticoouamesasen-
dotocadasdamesmamaneira,
seucérebrosepergunta"Qual
éaprobabilidadedequeesses
dois conjuntosde seqüências
aleatórias(namãoescondidae
namesaoumãofalsavisíveis)
sejamidênticossimplesmente
poracaso?Nenhuma.Porisso,
a outrapessoadeveestarme
tocando".
Emsegundolugar,os me-
canismosmentaisquefazem
essascorrelaçõesbaseiam-seem
processosautomáticospouco
suscetíveisaointelectodenível
maiselevado.Cominformações
reunidasporsistemassensoriais,
o cérebrofazseusjulgamentos
semcogniçãoconsciente.Até
mesmooconhecimentodeque
umamesanãofazpartedoseu
corpoé abandonadoà luz da
decisãodapercepçãoilusóriade
queé.Oseu"conhecimento"de
queissoéimpossívelnãoimpe-
deailusão.
Essaexperiênciafoiinspirada
por umtrabalhoanteriorque
realizamoscompacientesque
tinhammembrosfantasmas.
Depoisqueumapessoaperde
umbraçopor acidenteou do-
ença,elapodecontinuarasentir
suapresença.Comfreqüência,
o membrofantasmapareceter
sidocongeladonumaposiçãoes-
tranhamentedolorosa.Pedimos
aumpacientequepusesseseu
braçoesquerdofantasmaà es-
querdadeumespelhocolocado
emposiçãoverticalnumamesa
àsuafrente.Depoiselecolocou
seubraçodireitointactonolado
direito,deformaqueseureflexo
eravistonoespelhosuperposto
aodofantasma,criandoailusão
visualde queo braçoquefal-
tavahaviasidorestaurado.Se
o pacientemovesseseubraço
direito,eleviao fantasmase
mover.O extraordinárioé que
isso"animava"o fantasmade
maneiraqueeleosentiamover-
setambém- aliviandoàsvezes
a câimbra.Aindamaissurpre-
endente:emalgunscasos,seo
médicotocasseamãoverdadei-
ra,o pacientenãoapenasviaa
fantasmasendotocada,como
tambémsentiaessetoque.Mais
umavezo cérebroconsidera
poucoprovávelqueessacombi-
naçãode impressõessensoriais
sejacoincidência;dessaforma,
eledefatosenteotoqueemsua
mãofantasma.
Considereas implicações
dessasilusões.Todosnósatra-
vessamosavidafazendoconjec-
turascomo"Meunomesempre
foi José"ou "EunasciemSão
Paulo".Todasessasconvicções
podemserquestionadaspor
váriasrazões.Porém,umapre-
missaquepareceestaralémde
qualquerquestionamentoé a
dequevocêestáancoradoem
seucorpo.Entretanto,subme-
tido durantealgunssegundos
aotipodeestimulaçãocorreta,
até mesmoessefundamento
axiomáticoé temporariamente
abandonado,quandoa mesa
parecetornar-separtedevocê.
ComodisseShakespearecom
propriedade,nósrealmenteso-
mos"amatériadequeossonhos
sual,proprioceptivae motora,
esimilaresaosneurônios-espe-
lho),dormentesapóso AVC,
estavamsendoreavivadaspelo
feedbackvisual ilusório do
espelho. Este resultado foi
tambémreproduzidoemen-
saiosclínicos realizadospor
doisgruposindependentes,um
deleschefiadopelapsicóloga
Jennifer A. Stevens,à época
naUniversidadeNorthwestern
e no InstitutodeReabilitação
de Chicago, e o outro pelo
neurologistaChristianDohle,
do HospitalUniversitáriode
Düsseldorf,Alemanha.
Tambémsabemosque,em-
borafibrasmotorasdo córtex
cruzematéo ladoopostodo
corpo (orientaçãocontralate-
ral),outrasinervamo mesmo
lado(orientaçãoipsilateral).Por
quefibrasintactasnãopodem
"substituir"aslesionadasquan-
do ocorreum derrameé um
enigmaquepersistehá muito
tempo.Umapossibilidadeéque
elassejam"recrutadas"pelouso
do espelho.Em casopositivo,
concluiremosqueos espelhos
nãosãoúteisapenasparaos
ilusionistas,mastambémpodem
revelarcomoo cérebrointegra
diferentesinformaçõessenso-
riais. Igualmenteimportante,
o feedbackvisual- vindode
espelhosouderealidadevirtual
- podeserclinicamenteútil
paraa recuperaçãode déficits
neurológicoshámuitoconside-
radosincuráveis. nec
~
Phantomlimbs,
neglectsyndromes,
repressedmemo-
riesandFreudian
psychology. V. S.
Ramachandran,em
IntemationalReviewof
Neurobiology,vai. 37,
págs.291-333,1994.
www.mentecerebro.com.br31
Imagens
ambí uas
Ilusõesvisuaisatiçama curiosidadee
permitemdiversasinterpretações;o sistema
nervoso,porém,anseiapor respostase se
concentraem umasó alternativa
POR VlLAYANUR S. RAMAOIANDRAN E
DIANE ROCiERS-RAMAOIANDRAN
Océrebrodetestaa ambigüidade.Apesardisso,somoscuriosamenteatraídosporela.Não é poracasoquetantasilusões
visuaisfamosasexploramaduplaconotaçãoeex-
citamnossossentidos.Resolverquestõesdeflagra
umaondadeprazernamente,semelhanteàquela
quevivenciamosnomomentoemqueresolvemos
umproblema.Taisobservaçõeslevaramo físico,
psicólogoe oftalmologistaHermannvonHelm-
holtz(1821-1894)amostrarqueapercepçãotem
muitoemcomumcomaresoluçãodeproblemas
intelectuais.Maisrecentemente,aidéiafoirevistae
defendidapeloneuropsicólogoRichardL.Gregory,
daUniversidadedeBristol,Inglaterra.
Aschamadasfigurasbiestáveis- comoailusão
dosrostos/vaso(verfiguraanapág.34)- sãocom
freqüênciaanunciadasnoslivrosescolarescomo
32 MENTt&CÉREBRO.ARMADIlHAS DA PERCEPÇÃO
.
exemplobásicodamaneiracomoinfluênciasde
cimaparabaixo(conhecimentoou expectativas
preexistentes)decentrossuperioresdo cérebro
- emquecódigosperceptuaissãoregistrados
- podeminfluenciarapercepção.
ConsidereosimplescasodocubodeNecker(ver
figuraenapág.35).Vocêpodeveressailusãodeduas
maneiras:como cuboviradoparacimaouvirado
parabaixo.Comumpoucodeprática,é possível
alternaràvontadeumaeoutradessaspercepções
intercambiáveis(aindaassim,ébastantedivertido
quandoessavariaçãosedádemaneiraespontânea,
provocandoasensaçãodequesecaiunuma"pega_
dinha").Na verdade,o desenhoécompatívelnão
apenascomduasinterpretações,comoemgeralse
acredita;defatoháumconjuntoinfinitodeformas
trapezoidaisquepodemproduzirexatamentea
..
mesmaimagemretiniana,maso cérebroseconcentraemum
cubosemhesitar.
Observequevocêvêapenas
um ou outro de cadavez.O
sistemavisualparecelutarpara
determinarqualdosdoiscubos
o desenhorepresenta,masjá
resolveuoproblemaperceptual,
muitomaior,ao rejeitarasdi-
versasoutrasconfiguraçõesque
poderiamsurgirdopadrãosegui-
dopelaretina(quechamamosde
cubodeNecker).A atençãode
cimaparabaixoeavontade,ou
intenção,podeapenasajudá-Ioa
selecionarentreduaspercepções
- vocênãoveránenhumadasou-
traspossibilidades,nãoimportao
quantoseesforce.
Emboraocubocomfreqüên-
cia sejausadoparailustraro
papeldasinfluênciasde cima
parabaixo, ele, na verdade,
provao exatocontrário:quea
percepçãoemgeralé imunea
tais influências.Realmente,se
todasascomputaçõespercep-
tuaissevalessemprincipalmente
dosefeitosdecimaparabaixo,
elasseriamlentasdemaispara
ajudá-loemtarefasrelacionadas
à sobrevivênciae àpropagação
degenes- escapardeumpre-
,
-
dador,porexemplo,caçaruma5
presaparasealimentaroucon-~
quistarumaparceiraouparceiro.~
É importantereconhecer§
quea ambigüidadenãosurge{~
apenasemquadrosplanejados~
de maneirainteligentecomo~
mostraafigurac (verpág.34),na
qualosombreamentopodefazer
oscírculospareceremconvexos
ou côncavos.Na verdade,ela
é a regraemvez da exceção
quandosetratadapercepção;
é normalmenteresolvidapor
outrasdicasdebaixoparacima
(diagonaistalvezsejao termo
maisadequado)queexploram
www.mentecerebro.com.br33
..
..
..r
.
.. .. ...
-.. - L
Vemosuma
fonnadecada
vez,mesmo
queafigura
ofereçavárias
possibilidades;
o sistema
visualsegue
o padrão
daretina
o
o "conhecimento"estatístico
embutidodomundovisual.Tal
conhecimentoé programado
no circuitoneuraldo sistema
visuale empregadodemaneira
subconscienteparaeliminar
milhõesdesoluçõesfalsas.Mas
asinformaçõesemquestãosão
relativasàspropriedadesgerais
domundo,nãoàsespecíficas.O
sistemavisualtemumconheci-
mentoestruturaldesuperfícies,
contornos,profundidade,movi-
mento,iluminaçãoe assimpor
diante- masnãodeperfumes,
uvasoudálmatas.
Controledemovimento
A ambigüidadetambémsurgeda
percepçãodo movimento.Em
d(verquadroabaixo)começamos
comdoispontosdeluzbrilhan-
do simultaneamenteemcantos
diagonalmenteopostosdeum
quadradoimaginário,mostrado
em 1.As luzessãoentãodesli-
gadase substituídasporpontos
queaparecemnosdoiscantos
restantesem2.Os doisquadros
sãoentãoalternadosdemaneira
contínua.Nessamostra,que
chamamosdequartetobiestável,
ospontospodemservistososci-
landonavertical(setasatravessadas)
ounahorizontal(setassólidas),
Figurasquebrincamcomosolhos
4)
34 MENTE&CÉREBRO.ARMADILHASDA PERCEPÇÃO
masnuncadasduasmaneirasao
mesmotempo- outroexemplo
deambigüidade.É precisoum
esforçomaior,mas,tal como
ocorrecomo cubo,vocêpode
passarintencionalmentedeuma
paraoutradessasduaspercep-
çõesalternativas.
Nósnosperguntamoso que
aconteceriasevocêespalhasse
váriosestímulosde taisquar-
tetosbiestáveisnumatelade
computador.Seráque todos
se mostrariamnamesmaper-
cepçãoquandovocêmudasse
mentalmenteapercepçãodeum
deles?Ou,dadoquequalquer
umdelestem50%dechancede
serverticalouhorizontal,todos
iriammostrarumapercepção
separada?Ou seja,seráquea
resoluçãodeumaambigüidade
é global (todosos quartetos
parecemiguais)ouocorrecaso
a casoempartesdiferentesdo
campovisual?
A respostaéclara:todaselas
semostramiguais.Devehaver
efeitossemelhantesaumcampo
globalnaresoluçãodaambigüi-
dade.Vocêpodequererexperi-
mentarissonoseucomputador.
E perguntar:"Essaregratambém
seaplicaàilusãodasogra/esposa?
E quantoaocubodeNeckeri'.
É incrível o quantose pode
aprendersobre a percepção
usandoexemplostão simples
- éjustamenteo quetornaesse
campodeestudotãosedutor.
Precisamostomarcuidado
paranãodizerqueasinfluências
de cima parabaixo não têm
nenhumpapel. Em algumas
figuras,vocêpodeficarpreso
emumainterpretação,mascon-
seguemudá-Iaquandoalguém
lhe diz, verbalmente,quehá
umainterpretaçãoalternativa.
É comose seusistemavisual
- utilizandoamemóriadealto
nível- "projetasse"ummodelo
(por exemplo,um rosto ve-
lho oujovem)nosfragmentos
parafacilitarsuapercepção.
É possívelargumentarque o
reconhecimentodeobjetospode
beneficiarprocessosde cima
parabaixoqueutilizamessa
seleçãoe memóriaatencionais.
Emcontraste,reconhecercon-
tornos,superfícies,movimento
eprofundidadeéalgoqueocor-Q
reprincipalmentedebaixopara!
cima(vocêpode"ver"todasas~
superfíciesecantosdeumcubo~
,. - ' I ~e ateestIcara maoe agarra-o ~
fisicamentee aindaassimnão~
percebê-Ioounãoreconhecê-Io~
comocubo). ~
e f
. ,t . tf .....e ..
t tt
t4
.~
-4 t
e
Naverdade,ambostivemos
aexperiênciadeexaminarneu-
rôniosnummicroscópioo dia
todoe então,no diaseguinte,
"alucinar",vendoneurôniospor
todo lugar:emárvores,folhas
e nuvens.O exemploextremo
desseefeito é observadoem
pacientesqueficaramcomple-
tamentecegose começama
ter alucinaçõesemquevêem
elfos,animaisdecircoeoutros
" objetos- o queéchamadode
~ síndromedeCharIesBonnet.
i Nesses indivíduos, apenas
~ dadosdecimaparabaixocon-~
~. tribuemparaa percepção- o
~ processode baixoparacima,
gausenteporque elessão cegos
~ (emvirtude de degeneração~
~macularoucatarata),nãopodeo
~ '!Iaislimitarsuasalucinações.
~E quasecomo se estivéssemos
~ tendo alucinaçõeso tempo~
:: todo e o que chamamosdeQ
3 percepçãoobjetivameramente
~ envolvesseselecionarumaalu-
~ cinaçãoquecombinemelhor
~comosdadossensóriosatuais,
inãoimportasesãofragmentá-
:I rios.Avisão,emresumo,éumaI;
ó alucinaçãocontrolada.
i Mas essadeclaraçãonão
~contradizo queafirmamosantes
~ sobreavisãosernamaiorparte
2 1
O~O
:.. : !. . .. : : ., : ,~
O~O
1 2
o
umprocessodebaixoparacima?
A respostaparaessacharadaé
quea"visão"nãoéumprocesso
único;a percepçãodeobjetos
- seucontorno,aprofundidade
desuperfície,comoquandovocê
vêqueumcubotemumaforma
cúbica- sedá,emgrandeparte,
debaixoparacima.
Comoeo quê
A fisiologiatambémapóiaessa
distinção.Sinaisdosglobosocu-
laressãoinicialmenteprocessa-
dosnocórtexvisualprimáriona
parteanteriordocérebroeentão
divergemem dois caminhos
visuais:o caminhodo "como"
no lobo parietaldo cérebroe
o caminhodo"0que",ligadoà
memória,noslobostemporais.
O primeiroestárelacionadocom
a visãoe a navegaçãoespaciais
- esticaramãoparapegaralgo,
evitarobstáculoseburacos,des-
viardeprojéteiseassimpordian-
te,nadadissoexigindoquevocê
identifiqueoobjetoemquestão.
Os lobostemporais,porou-
tro lado,permitemo reconhe-
cimentodo queo objetoé na
verdade(uva,dálmata,flor).
Há casoshíbridosnosquaishá
sobreposições.Por exemplo,
comailusãodosrostos/vaso:há
a tendênciade ficarmospresos
vendosó rostos.Você pode,
porém,mudarapercepçãoever
o vasosemquealguémlhediga
deformaexplícitapara"procurar
o vaso",sevocêfor instruídoa
seconcentrarnaregiãobranca
e vê-Iacomoumaimagemde
primeiroplanoemvezdeuma
imagemdefundo.
Vocêpodeexperimentarcom
seusamigos.É possíveltambém
conceberquadrosambíguos,tais
comoosdoartistaplásticoMau-
ritsCornelisEscher(1898-1972).
Essasfigurasparadoxaisevocam
assombro,prazerefrustraçãoao
mesmotempo- ummicrocosmo
daprópriavida. ne<
CUBO DE NECKER:
épossívelenxergar
váriosdesenhos,
dependendoda
formacomoseolha
SAIBA MAIS:~..;
lhe perceptlon
of apparent
motlon.Vilayanur
S.Ramachandrane
StuartM.Anstis,em
ScientificAmerican,vol.
254,(126,págs.102-
109,junhode1986.
www.mentecerebro.com.br35
Nuances.onza
Jogosdesombrae contrastefazemcomqueuma
únicaformaacinzentadapareçaterdiferentestons,
dependendodo queestiverao redor
POR ALAN GILCHRIST
Professorde psicologiada UniversidadeRutgersem Nova Jersey,
estudapercepçãovisual.É autor de Seeingblockond white(Oxford
UniversityPress,2006).
Q
uantasvezesvocê ouviu dizer que algo
simpleseevidenteé"pretonobranco"?Pro-
vavelmentemuitas.Masaaparentefacilidade
de perceberos doisextremosdo espectrodecores
escondeo formidáveldesafiocomo qualo cérebro
deparatodavez queolhamosparaumasuperfície.Nasmesmascondiçõesdeiluminação,porexemplo,
o brancorefletemaisluzqueopreto.Masumasuper-
fícieclaracostumarefletirmenosluz nasombraque
umasuperfícieescuranosol.No entanto,dealguma
formaconseguimosdiscernircom precisãoqualé
qual.Como?O cérebrousaocontextoparafazertais
julgamentos.O programaespecíficoparainterpretá-Io
écheiodemistériosquefascinamosneurocientistas.
Estudosrecentesofereceraminsightssobrecomo
osistemavisualhumanoanalisaospadrõesdelumino-
sidadequeentrampelosolhosecalculaassombrasde
objetosdemaneiracorreta.Alémdecontribuírempara
explicarcomonossocérebrofunciona,essaspesquisas
podemnosajudaraprojetarsistemasvisuaisartificiais
pararobôs.Os computadoressãoincrivelmenteruins
nessetipo dereconhecimentodepadrões,algotão
naturalparanós.Seoscérebroseletrônicospudessem
36 MENTE&CÉREBRO.ARMADILHASDA PERCEPÇÃO
"ver"melhor,poderiamexecutarmaisserviços,como
identificarfaces(oqueseriamuitoútilparaossistemas
de segurança),dirigir nossocarro,trazero jornal,
recolhero lixoetc.
Especialistasemvisãoconseguemfazero cérebro
revelarseussegredospor meiode métodospsico-
físicos.É comofazerperguntascomduasrespostas
possíveis:simou não.O idealé começarcompelo
menosduashipótesesconflitantes.Precisamosentão
criarnmaimagemquecontenhaumasuperfície-alvo
críticaquedeveaparecer,digamos,cinza-clarode
acordocomumahipótese,ecinza-escurosegundoa
hipóteseconflitante.Emgeral,o resultadosãoilusões
adoráveisquevocêveráaolongodesteartigo.
Começarcomalgumaspropriedadesfísicasbási-e
casvaiajudaraapreciaracomplexidadedeveruma~
superfíciecomonegra,brancaoucinza.Áreasbrancas.~
refletemamaiorpartedaluzqueasatinge- cercade I
90%.Jánasnegras,apenas3%daluzérefletida.De §
qualquerforma,essaluzarremetidacontranossas~
pupilasatingeosfotorreceptoresdaretina.Atéaí, ~
tudobem.Acontecequealuzprovenientedoobjeto~
parao qualolhamosnãocontémindicaçãoalguma~
~~
OSRETÂNGULOS
têma mesma
tonalidadede
cinza,maso
queestásobre
o fundopreto
parecemaior
sobreostonsdecinzaquetambém
foramrefletidos.Éaíqueascoisas
começama ficarinteressantes.
A quantidadetotal de luz
quechegaaoolhodependebem
maisdo níveldeiluminaçãodo
ambientequedaporcentagemde
luzrefletidaporumadadasuper-
fície.Emboraumaparedebranca
reflitacercade30vezesmaisluz
queumobjetonegropróximo
delae soba mesmailuminação,
à luzdo Solbrilhantea parede
poderefletirmilhõesdevezesmais
luzquequandosobaluzdaLua.
Realmente,umasuperfícienegra
bemiluminadapodefacilmente
enviarmaisluzparao olhoque
38 MENTE&CÉREBRO.ARMADILHAS DA PERCEPÇÃO
.
umasuperfíciebrancanasombra.
Éporissoquerobôalgumatéhoje
conseguiuidentificaro tomde
cinzadeumobjetoemseucampo
devisão.Elepodeapenasmedira
quantidadedeluzqueumdado
objetoreflete,o queé chamado
deluminância.
O psicólogoamericanoHans
Wallach(1904-1998)sugeriu,em
1948,queocérebrodeterminao
tomdecinzadeumasuperfície
comparandoa luz recebidade
superfíciesvizinhas.Wallach,
queeraprimodistantedeAlbert
Einstein,contribuiumuitoparaa
compreensãodapercepçãovisual
eauditivacomestudosquereali-
zoudurantesualongacarreirano
SwarthmoreCollegeemFiladélfia.
Eledemonstrouqueumcírculo
homogêneopodeparecerter
qualquertomentrebrancoepreto
apenasmudandoo brilhodaluz
emvoltadele,emborao círculo
emsinuncasealtere.
Emumailusãoclássica,umre-
tângulocinzarepousasobrefundo
brancoeumaformaidêntica,até
mesmonacor,ficasobrefundo
pretoaoladodaprimeira(ver
ilustraçãonestapág.).Seaclaridade
percebidadependesseapenasda
quantidadede luz refletida,as
duasfiguraspareceriamiguais.
No entanto,aqueaparecesobre
asuperfícieescuradáaimpressão
desermaisclara,mostrandoque
o cérebrorealizacomparações
comasadjacências.Evidências
maisrecentesindicamqueessa
comparaçãodesuperfíciespode
seraindamaissimplesdo que
Wallachimaginou.Emvezde
mediraintensidadedaluzemcada
pontodacena,oolhoparececo-
meçaramedirapenasamudança
naluminâncianasbordasdela.
O trabalhodeWallachmos-
trouquealuminânciarelativade
duassuperfíciesé umapeçaim-
portantedoquebra-cabeça.Mas
conhecerapenasessapropriedade
nãoresolveoutrasambigüidades.
Colocandodeoutraforma:seuma
partedacenaécincovezesmais
brilhantequeumapartevizinha,o
queissosignificaparaoolho?As
duasáreaspodemsercinza-claro
epreta,porexemplo.Ou branca
ecinza-escuro,quemsabe.Assim,
a luminânciarelativapodedizer
apenaso quantoduasregiões
sombreadassãodiferentesumada
outra,masnãoqualéatonalidade
específicadecadaumadelas.Para
calcularo tomexatodecinza,o
cérebroprecisadealgomais:um
pontodecomparaçãoemrelação
aoqualpodemedirváriasnuances,
oqueospesquisadoresagoracha-
mamderegra-âncora.
Duasregras-âncorasjá foram
propostas.O próprioWallach
e, depois,EdwinLand(1909-
1991),o inventorda fotogra-
fiainstantânea(maisconhecida
comopolaróide),sugeriramque
aluminânciamaisaltanumacena
automaticamenteaparececomo
branca.Severdadeira,essaregra
serviriacomopadrãopeloqualo
cérebrocomparatodasaslumi-
nânciasmenores.Segundoateoria
doníveldeadaptação,criadanos
anos40 pelopsicólogoHarry
Helson(1898-1977),a luminân-
ciamédianumacenasempreirá
aparecercomocinzamédio.Tons
maisclarosou maisescurosde
cinzaseriamreconhecidospor
meiodacomparaçãodeoutras
luminânciascomessevalormédio.
Aquelesquetrabalhamnavisãode
robôschamamissode''hipótese
domundocinza".
Quemestácerto?Tenteides-
vendaressemistérioem meu
laboratórioem1994.Eue meus
colegasdaUniversidadeRutgers
planejamosumamaneiradetestar
essasregrasnascondiçõesmais
simplespossíveis:duassuperfícies
cinzaquepreenchemtodoocam-
povisualdeumobservador.Pedi-
mosparavoluntárioscolocarema
cabeçanumagrandemeia-esfera
opacacomo interiorpintado
numtomdecinza-médiodolado
esquerdo,edepreto,noladodi-
reito.Suspendemosameia-esfera
dentrodeumacâmeraretangular
maiorcomlâmpadasquecriavam
iluminaçõesdifusasparaoobser-
vador(verfotonapág.aolado).
Lembre-se,o cérebroainda
nãosa'beoqueessesdoistonsde
cinzasão- eletemapenasalumi-
nânciarelativa.Searegra-âncora
for baseadanaluminânciamais
alta,entãoametadecinza-médio
irá parecerbrancae a metade
preta,cinza-médio.Massearegra
fossebaseadanaluminânciamé-
dia,entãoametadecinza-médio
pareceriacinza-claro,enquanto
apartepretasemostrariacinza-
escuro.O observadornãoveria
nenhumladopretooubranco.
Os resultadossãoóbvios.A
metadecinza-médioapareceuto-
talmentebrancaeametadepreta,
cinza-médio.Assim,nossaescala
decinzapercebidaéancoradano
"alto",nãonomeio.Essadesco-
bertanosfalamuitosobrecomo
océrebrocalculaostonsdecinza
emcenassimples.A luminância
maioraparecebranca,enquanto
o tomdecinzapercebidoem
superfíciemaisescuradependeda
diferença-ou,maisprecisamente,
daproporção- entresuaprópria
luminânciaeadasuperfíciecom
amaiorluminância.
E quantoàscenasbemmais
complexastípicasdavidacoti-
diana?Essealgoritmosimples
funciona?Talvezo leitornãose
surpreendaem descobrirque
não,queé maiscomplicado.Se
o cérebrocomparasseapenasa
luminânciadecadasuperfíciecom
adetodaacena(queébemmais
alta),entãoumaáreanegranaluz
brilhantepareceriatero mesmo
A quantidade
deluzque
chegaaoolho
dependemais
dailuminação
do ambiente
queda
luminosidade
refletidapela
superfície
TRÊScíRCULOS
IDÊNTICOS,aplicados
empontosda
fotografia,parecem
maisclarosou mais
escuros:o cérebro
captaâncoras
diferentesemcada
regiãodeiluminação
www.mentecerebro.com.br39
A quantidade
deluzque
chegaaoolho
dependemais
dailuminação
do ambiente
queda
luminosidade
refletidapela
superfície
.................................................
tomdasuperfíciebrancanasom-
bra,levandoemcontaapenasque
ambastêma mesmaluminância,
como geralmenteocorre. Mas
elasnãotêm,e nóspodemosdis-
cemi-Ias,masparaissoo sistema
visualprecisaaplicarumaâncora
diferenteacadaregiãodacena.
De fato, diversaspesquisas
nessecampomostramqueaâncora
variamesmo.Seeucolardiversos
discoscinzaidênticosnumafoto-
grafiacomváriasáreasbrilhantes
esombras,osposicionadosnasre-
giõessombreadasparecerãomuitomaisclarosqueaquelespróximos
daluzdosol(verilustraçãonapág.
anterior).Euoschamo"círculosde
sondas",porqueelesnospermitem
sondarcomoo sistemavisualcal-
culaostonsdecinzaemqualquer
local de uma cena.Dentro de
umadadaáreailuminada,o local
precisodo discopoucoimporta;
ele pareceter maisou menoso
mesmotomdecinza.
Em termosfuncionais,cada
região parece ter sua própria
âncora- a luminânciapelaqual
o cérebro percebe que uma
superfície é branca. Mas pro-
gramarumrobôparaprocessara
imagemdessaformaéumgrande
40 MENTE&:CÉREBRO .ARMADILHASDA PERCEPÇÃO
desafio.Segmentaracenaemre-
giõescomiluminaçõesdiferentes
exigequeo sistemavisualdeter-
mine quais bordas na imagem
representamuma mudançano
pigmentoda superfíciee como
a linha formadapeloesboçode
umasombrasignificaumaaltera-
ção no nível de iluminação.Tal
programapode, por exemplo,
classificara borda como uma
quebrade plano ou como uma
áreaborradaquedivideregiões
comdiferentesiluminações.
Os neurocientistasMarkMc-
CourteBarbaraBIakeslee,daUni-
versidadeEstadualdeDakotado
Norte,argumentamqueo sistema
visualhumanonãoprecisausaresse
tipodeclassificação.Segundoeles,
háumprocessomenossofisticado
quechamamdefiltragemespacial.
Emnossaimagemcomoscírculos,
porexemplo,elessugeririamqueo
tomdecinzadecadaumdepende
principalmentedo contrastede
luminâncialocalnabordadafor-
ma,demaneiramuitosemelhante
à propostaanteriorde Wallach.
Elespoderiamdestacarqueo tom
aparentedecadacírculonafoto-
grafiadependesódadireçãoe da
forçado contrastede luminância
entrecadacírculoe seufundo.
Podemostestaressaidéiaco-
locandoalguns"círculosdesonda"
numtabuleirode damascom
umasombracaindosobreele(ver
ilustraçãoabaixo).Nósdescobrimos
quecírculoscomcontrasteslocais
idênticosdãoaimpressãodeque
sãodetonsdiferentes.Poroutro
lado,círculoscomcontrasteslo-
caisdiferentesmuitasvezescom-
partilhamamesmatonalidade.
Existeoutrotruquevisualque
esclarececomoo cérebrodecide
queelementosagruparquando
estáordenandopadrõesde luz.
Imagineumsinaldemais(+)pre-
to,comdoistriânguloscinza(ver
ilustraçãoacima).Umdostriângulos
seencaixanacurvadaáreabranca
dapartesuperiordireitadafigura;
o outroseinseredentrodaárea
pretadeumadasbarras.Aquios
doistriânguloscinzasãoidênticos,
assimcomoa regiãopróximaa
eles.Cadatriângulofazfronteira
como brancopelahipotenusa
(o ladomaiscomprido)e com
o pretopeloscatetos.Maso tri-
ânguloinferior,dentrodabarra
preta,pertenceàcruzpreta,
enquantoo triângulo
superiorpareceparte
I"
................... . . .. . . . .............
do fundobranco.Percebaasin-
tersecçõesdasfronteiras.Quando
estasseunemparaformaruma
espéciedejunçãoem1;océrebro
defineasregiõespelahastedoT
comofazendopartedamesma
coisa,masnãoasregiõesdivididas
peloaltodoT
Essainterpretaçãodasjunções
emT comoumamaneiradeo
cérebroestabelecergruposéapoia-
dapor outrailusão,criadapelo
artistaaustralianoMichaelWhite.
Trata-sedeumasériedebarras
pretashorizontaisempilhadascom
espaçosbrancosentreelas.Nela,
barrascinzaestãomaisrodeadas
pelopretodoquepelobranco(ver
partesuperioresquerdanafiguraacima)e
parecemmaisescurasqueasbarras
cinzascircundadasnamaiorparte
pelobranco.AquiasjunçõesT nos
: cantosdasbarrascinza sugerem
~ queasdaesquerdaestãonomesmo
i planodofundobranco,enquanto
~. 5asdadireitaestãonomesmoplano
= ~
~~dasbarraspretas.
~ ~ A neuropsicólogaPaolaBres-
I
i & san,daUniversidadedePádua,-.
! ~Itália,crioua ilusãodeum"cala-
i ~ bouço"quedetalhaaindamaisosI ! ~
~~ mecanismoscerebraisdeagrupa-
~ ~ mento.Os quadradoscinzado
~ ~ ladodireitodoquadrodapágina
j ~ anterior,acima,circundadospor
~~preto,parecemmaisescurosque
Q ~
I~ aquelesdo ladoesquerdo,confi-
gi nadospelobranco.~~
;~ Esseefeitopodeocorrerpor-
o ~
1~ queoselementoscinzaàdireita
parecemestarno mesmoplano
dofundobranco,emvezdasbar-
raspretasdajaneladocalabouço.
Uma ilusãodecontrastereverso
do pesquisadorEliasEconomou,
da Universidadede Creta,Gré-
cia, defendeo mesmo.A barra
cinza(vernoaltodestapág.,àdireita),
emborasejarodeadapor preto,
parecemaisescura,possivelmente
porqueémembrodeumgrupode
barrasbrancas.
Essasilusõesdivertidastêmum
ladosério:mostramqueocérebro
nãopodecalcularosníveiscinza
que percebemossimplesmente
pelacomparaçãodasluminâncias
de duassuperfíciesvizinhas.Em
vezdisso,o contextoparticipade
maneiramuitocomplexa.O fato
deamaioriadaspessoasnãoestar
cientedadificuldadedoproblema
atestaa incrível sofisticaçãodo
sistemavisualhumano.
Filtragem espacial
O consensodecomoo cérebro
calculao brancoeo pretoainda
estádistantenohorizontecientífi-
co.Asteoriasatuaissedividemem
trêsníveis:baixo,intermediárioe
alto.Teoriasdenívelbaixo,base-
adasemmecanismosdefiltragem
neuralespacialquecodificam
o contrastelocal, falhamem
predizerostonsdecinzavistos
pelaspessoas.Teoriasdealtonível
tratamocálculodostonsdecinza
dasuperfíciecomoumtipode
processointelectualinconsciente
no quala intensidadeda luz que
iluminaumasuperfícieé automa-
ticamentelevadaem conta.Tais
processospodemserintuitivamen-
te atraentes,masnãonosdizem
nemoquebuscarnocérebronem
comoprogramarumrobô.Teorias
de nível intermediárioanalisam
cadacenaemmúltiplosquadrosde
referência,cadaumcontendosua
própriaâncora.Essasteoriasespe-
cificamasoperaçõespelasquais
tonsdepreto,brancoecinzasão
calculadosmelhordo quefazem
asteoriasde alto nível,ao passo
queexplicamapercepçãohumana
dassuperfíciescinzamelhorqueas
teoriasdenívelbaixo.
Masantesquepossamosreal-
mentecompreenderesseaspecto
davisão- ouprogramarumrobô
parafazero queo sistemavisual
humanofaz-, precisamosenten-
dermelhorcomoasfronteirassão
processadas.O olho humano,
comoacâmeradorobô,começa
comumaimagembidimensional
dacena.Como eledetermina
quaisregiõesdevemseragru-
padaseatribuídasaumacâmera
comum?Pesquisadoresdavisão
continuama proporhipóteses
e a testá-Iascomexperimentos.
Aospoucos,forçamoso sistema
visualanosrevelarseussegredos.
Decodificaracomputaçãovisual
humanapodeseramelhormanei-
radeconstruirrobôsquepodem
vere entendermelhorcomoo
cérebrofunciona. ~
An anchoringtheory
of Ilghtnesspercep-
tlon.A.Gilchristet
0/.,emPsych%g;ca/
Rev;ew,vol. 106,J124,
págs.795-834,l999.
Llghtnessdepends
on Immedlatelyprior
experience.V.Annan
eA.Gilchrist,emPer-
cept;on&Psychophys;cs,
vol.66,J126,págs.
943-952,2004.
Llghtnesspercep-
tlon. AlanGilchrist,
emM/TEncycloped;a
ofCogn;t;veSciences.
MIT,Press,1999.
www.mentecerebro.com.br41
Ver
paracrer
Ao alteraro sombreamentoe a fontede luz
fazemoscom que imagenspareçammudarde
formae lugar.Não acredita?Experimente!
POR VlLAVANUR S. RAMACHANDRAN E
DIANE ROGERS-RAMACHANDRAN
I
magensvisuaissãoessencialmenteambíguas.A
imagemdeumapessoanaretinatemomesmo
tamanhosevemosumanãobemdepertoou
umgigantedelonge.A percepçãodepende,em
parte,deempregarcertaspremissassobreomun-
dopararesolveressasambigüidades,epodemos
nosvalerde ilusõesparadescobrirquaissãoas
regraseproposiçõesocultasnocérebro.
Em(A)(verpág.44),osdiscossãoambíguos;
o leitorpodevera fileiradecimacomoesferas
convexas,ou"ovos,"iluminadospelaesquerda,e
afileiradebaixocomocavidades- ouvice-versa.
Essaobservaçãorevelaqueoscentrosvisuaisno
cérebroincorporamasuposiçãodequeumaúnica
fontedeluz iluminaa imageminteira,algoque
fazsentido,tendo'emvistaqueevoluímosemum
planetacomumúnicoSol.Aomudarconsciente-
mentea fontedeluzdaesquerdaparaadireita,
vocêpodefazercomqueosovoseascavidades
troquemdelugar.
Em (B),a imagemé aindamaisconvincen-
te.Aqui,os discosclarosnaregiãosuperior(ã
esquerda)sempreparecemovos,e os clarosna
42 MENTE&CÉREBRO.ARMADilHAS DA PERCEPÇÃO
regiãoinferior(ãdireita)sãocavidades.Assim,
descobrimosoutra premissautilizada pelo
sistemavisual:ele esperaquea luz brilhe de
cimaVirandoa páginade cabeçaparabaixo,
ovose cavidadesde imediatotrocamde lugar.
Surpreendentemente,aproposiçãosegundoaqualo brilhodaluzvemacimadenossacabeça
é preservadamesmoquandogiramoso olhar
t80graus.Peçaaalguémparasegurarapágina
na po~içãonormalde leitura.Depois,olhe de
cabeçaparabaixo.Vocêverificaráqueamudança
novamenteocorre,comoseoSolestivessepresoà
suacabeçaeprojetandoaluzdochãoparacima.
Sinaisdo centrodeequilíbriodeseucorpo- o
sistemavestibular - orientados pelas posições
de partículasdecarbonatode cálciopresentes
na orelha interna,denominadasotólitos, viajam g
atéoscentrosvisuaisparacorrigira imagem(de ~
modoqueomundocontinueaparecerdecabeça1
paracima),masnãocorrigemaposiçãodoSol. 1
Com basenesseexperimento,aprendemosi
que,apesarda impressãode perfeitaunidade,~
nossavisãoémediadapordiversosmódulosde~
AS GAZELAStêmbarriga
brancaedorsoescuro
- portanto,um"contra-
sombreamento"- que
neutralizao efeitoda luz
do Solincidentedecima
parabaixo.O resultado
é umareduçãono efeito
de "saltaraosolhos".Por
issoelasparecemmenos
apetitosasaosolhosde
umpredador
processamentodeinformações
paralelosexistentesnocérebro.
Algunsdosmódulosconectam-
se ao sistemavestibular;isso,
porém,não acontececom o
móduloquedeterminaformas
combaseemseusombreamen-
to.A razãodissotalvezsejaque
a correçãodo posicionamento
deumaimagememrelaçãoàs
chamadascoordenadascentra-
dasnomundoseriademasiado
dispendiosasoboaspectocom-
putacionale consumiriamuito
tempo.Nossosancestraisnor-
malmentemantinhamacabeça
naposiçãoereta,demodoque
o cérebropode improvisar
com essasimplificação(ou
premissasimpli/1cadora).
o
c c c C
t t t _
44 MENTE&CÉREBRO.ARMADILHASDA PERCEPÇÃO
Se o leitorolharpara(C),
verificaráque é capaz,qua-
se de imediato,de agrupar
mentalmentetodos os ovos,
distinguindo-osdascavidades.
Como os cientistas visuais
descobriramdécadasatrás,so-
mentedeterminadosaspectos
elementaresextraídoslogono
iníciodoprocessamentovisual
"saltamaosolhos"epodemser
agrupadosdessamaneira.Por
exemplo,seu cérebro pode
discernirumconjuntodepon-
tosvermelhossobreumfundo
~~
de pontosverdes,masnãoé ~
capaz de agrupar "/1gurinhas§
sorrindo"distribuídassobreum ~
fundode"/1gurinhaszangadas".~I"
As cores, portanto, são um:
aspectoprimitivoseparadono
início do processamento,mas
um sorriso,não.(Fazsentido,
do ponto de vistada sobre-
vivência,sercapazde reunir
fragmentosdecoressimilares.
Um leãoocultoatrásde uma
cortinadefolhagemverdeévi-
sívelapenascomofragmentos
dourados,masocérebrovisual
~
~~
~
'8"...,.'8"~
~
~~~ .~
montaosfragmentosdemodo
aformarumaimagemdourada
deleãointeiroeadverte:"Fuja
imediatamente!")
O fatodepodermosagru-
parosovosem(C)implicaquea
informaçãodesombreamento,
assimcomoascores,éseparada
no início do processamento
visual.Essaprediçãofoi con-
firmada,nosúltimosanos,me-
dianteo registrodaatividade
nosneurôniosdemacacose a
realizaçãodeexperimentosde
imageamentocerebralemseres
humanos.Em (D), onde os
círculosexibemamesmapola-
ridade"claroversusescuro"que
em(C),nãopodemosperceber
os agrupamentos;essefato
sugerea importânciada per-
cepçãodeprofundidadecomo
umindícioisoladonoiníciodo
processamentovisual.
Bichos magricelas
É evidenteque,no cursode
milhõesde anos,a evolução
"descobriu"e tirou proveito
dos princípios de sombrea-
mentoque os pesquisadores
começarama explorarapenas
recentemente.As gazelastêm
barrigabrancae dorsoescuro
~ ~
~
~
~"".",., ,.,
~ ~
~-~-'~.,..~-
- portanto,um "contra-som-
breamento"- queneutralizao
efeitoda luz do Sol incidente
de cimaparabaixo.O resul-
tadoé umareduçãono efeito
de "saltaraosolhos".Por isso
elasparecemmaismagricelas
e menosapetitosasaosolhos
de um predador.As lagartas
tambémexibemum contra-
sombreamento,e assimficam
maisparecidascom as folhas
planasquecomem.Um tipo
de polvoé capazatémesmo
de inverterseucontra-som-
breamento:se suspendermos
o polvodecabeçaparabaixo,
eleusarácélulasprodutorasde
pigmentosexistentesna pele,
denominadascromatóforos,
quesãocontroladasporseussi-
naisdeentradanosistemaves-
~ tibular,parainvertersuasáreas
~ maisescurasemaisclaras.
~ CharlesOarwinpercebeu
f um notávelexemplodo em-
~ pregodo sombreamento,pela
~ Natureza,nasproeminentes
a a
"a.,a .
a a.
.aaa.,
.,a.,
e
manchassemelhantesa olhos
existentesnaslongascaudasde
faisõesargos.Comaspenasda
caudaemrepousohorizontal,
os "olhos"são matizadosda
esquerdaparaadireita.Masao
seexibirembuscandoum par
parao acasalamento,aspenas
da caudaficameretas.Nessa
posição,as manchastornam-
se esmaecidasemcima,e seu
colorido maiscarregadofica
abaixo,demodoqueosdiscos
parecembojudos,como bri-
lhantesesferasmetálicas- são
o equivalenteavícoladasjóias
usadasporhumanos.
O fatode algunscírculos
sombreadossimplespoderem
evidenciaraspremissassubja-
centesa nossosistemavisual
- e até mesmocomo esses
princípiosdesempenharamum
papelnaformadeadaptações
evolucionárias- mostracomo
as ilusõesvisuaisnos ajudam
a compreendera naturezada
percepção. ~
-=
Onthe perceptlon
of shapefrom
shadlng.D.A.Kleffner
eV.S.Ramachandran
emPerceptionand
psychophysics,vol.52,02
1,págs.18-36,julhode
1992.
NeuralactlvltyIn early
visualcortexreflects
behavloralexperlence
andhlgher-order
perceptualsallency,Tai
SingLee,CindyF.Yang,
RichardD.Romeroe
DavidMumfordem
NatureNeuroscience,vol.
5,026,págs.589-597,
junhode2002.
íntegraemáudioe
transcriçãodaspalestras
ReithBBC2003com
Ramachandran:www.
bbc.co.uk/radl04/
relth2003/
www.mentecerebro.com.br45
Mecanismosda
estabilidadevisual
Por que o mundo não parece pular quando nossas
retinas se movem? Essaadequação aparentemente
corriqueira exige trabalho cerebral específico
POR VlLAYANUR S. RAMACHANDRAN E
DIANE ROGERS-RAMACHANDRAN
Oestudodapercepçãoé tãofascinante,entreoutrasrazõesporquepormeiodelepodemosobterins;ghtsprofundossobreofuncionamen-
to do cérebroutilizandoexperimentosrelativamente
simples.A experiênciasensorialdomundo,porém,não
envolvea transmissãofieldeumaimagemdaretina
paraumatelanocérebro,demodoqueelaseja"vista"
porumolho interior.Uma pequenaevidênciadesse
fatoéqueapercepçãodeumobjeto(figurana pág. 48:
sãoduasfacesouumataça?)podemudarradicalmente
mesmosea imagemnaretinaformantidaconstante,
o quesignificaqueatémesmoo ato maissimples
de observaçãodependedo julgamentodo cérebro.
Menos óbvio,masigualmenteimportante,é o
inverso.É possívelqueapercepçãodomundo- oude
umobjeto- tambémpermaneçaestávelsea imagem
mudarrapidamentenaretina.Um exemploéo modo
comointerpretamosumacenaquandoaobservamos.
Todavezquepercorremosumambientecomo olhar,
aimagemdançanaretinaaumavelocidadewarp(de
grandeintensidade,quelevaàdistorção),decentenas
demetrosporsegundo.Aindaassim,tudoparecefirme
comorocha.Porquê?
46 MENTE&CÉREBRO.ARMADilHAS DA PERCEPÇÃO
Numprimeiromomento,poderíamospensarqueo
mundonãoparecebalançarporquetodomovimento
é relativo.As nuvensplanamno céuao crepúsculo,
maspresumimosqueelassãoestáveis,e atribuímos
o movimentoao objetomenor,a lua.Uma simples
experiênciadesfazessaidéia.Fecheo olho esquer-
do. Então,mantendoo direitoaberto,useo dedo
indicadordireitoparadeslocaroglobooculardireito,
movendo-odelicadamentedeumladoparao outro
emsuaorbita.Vocêveráo mundopularcomonum
terremoto,emboranão hajanenhummovimento
relativonaretina.
Porquevemosummundoestávelquandogiramos
os olhos naturalmente,masnão quandomovemos
umadasórbitascom asmãos?A respostaveio do
grandemédicodoséculoXIX, o físicoeoftalmologis-
taHermannvonHelmholtz.Elesugeriuquequando
o comandoparamoverosolhoséenviadodoslobos
frontaisparaos músculosdosglobosoculares,uma
cópiafieldocomando(comouma"CC/ - comcópia
- nocasodeume-mail)tambémchegaaoscentros
visuaisdedetecçãodemovimentonaparteposterior
do cérebro.Como resultado,elessãoinformados
comantecedência:"Vocêsirão
receberalgunssinaisde movi-
mento,maselesnãosãocausados
pormovimentosreaisdomundo,
porissoignorem-os".
Podemosfalardedoissiste-masindependentesno cérebro
capazesdesinalizarasensaçãode
movimento.RichardL. Gregory,
professordeneuropsicologiada
UniversidadedeBristol,InglateJTa,
chama-osdesistemaimagem/reti-
na(causadopelomovimentoda
imagemnaretina)e desistema
olho/cabeça(geradopelasensação
domovimentoocular).Emgeral,o
cérebrosubtraiumsinaldooutro.
Quandomovemososolhos,esses
doissinaisanulam-semutuamente
eomundopermaneceestável.
Sabemosqueo sistemaima-
gem/retinaexistegraçasà expe-
riênciaemquemovimentamoso
olhocomo dedo.Porém,como
sabemosqueo sistemaolho/ca-
beça,independentemente,evoca
umasensaçãode movimento?
Penseno queacontecequando
os olhos seguema pontaem
brasadeumcigarroquesemove
emumasalacompletamentees-
cura.Corretamente,vocêa vê
movendo-seporváriosmetros,
emboraaimagemdocigarronão
semovaquasenadaemsuaretina.
Já seusolhosestãopercorrendo
umagrandedistância.Assim,o
cérebro"conclui"queo cigarro
devetersemovidonumadistância
equivalenteao movimentodos
olhos.Maisumavezfalamosdo
movimentofinalquepercebemos
comooresultadodasubtraçãodos
sinaisimagem/retina(próximosde
zeroporquevocêsegueocigarro)
dossinaisolho/cabeça(grandes,
porqueosolhosmovem-senuma~
distânciagrandeparamantera ~
imagemdo cigarrona fóvea).O i
resultadofinalé quevocê vê o ~
ponto avermelhadoincandes- ;
centepercorrendováriosmetros.~
Podemosproduzirumaversãog
maisinteressantedesseefeito
pedindoa umamigoquenos
fotografeenquantoolhamosdire-
tamenteparaoflash.O quevemos
emseguidaéumapós-imagemdo
bulbocausadapelaatividadecontí-
nuadosreceptores,quepermanece
bemdepoisquealuzjáseapagou.
Essaimagemdoflashfica"grudada"
naretina;elanãopodesemover
nemumpoucosequer.Mesmoque
fôssemosparaumquartoescuroe
movêssemosos olhos,veríamos
a pós-imagemmovendo-sevivi-
damentejunto comos olhos.O
sistemaolho/cabeçasinalizaum
www.mentecerebro.com.br47
Cadavezque
pensamos
desvelara
verdade,
tudoo que
conseguimos
"euma
provocante
ebrevevisão
dealgoquese
transformaem
"outroveu
valor grande,maso sinal ima-
gem/retinaé zero- assim,como
resultadoda subtração,vemosa
pós-imagemmovendo-se,embora
elaestejafixadaeimóvelnaretina.
Secriarmosumapós-imagem
imóvel e semelhantesemflash
fixandoo olhardurante30segun-
dosno"X"centraldafigurab,você
veráapós-imagemquandomover
o olharparaumafolhade papel
embranco.(Pisqueosolhospara
renovara imagem,senecessário.)
Próxima pergunta: Qual é
a fonte dos sinaisgeradospelo
sistemaolho/cabeça?Umapossibi-
lidade,conhecidacomofeedforward,
équeumacópiadocomandodos
centrosdo movimentoocularé
enviadaaoscentrossensoriaisde
detecçãodemovimento,demodo
queelesesperarão- e,emseguida,
anularão- sinaisde imagem/re-
Detectoresdemovimento
.Objeto.. ..O
I
I
I
I
I
I
I
.
tina falsos.Uma segundaopção,
chamadateoriadefeedback,é que
receptoresnosmúsculosoculares
sentemo graudomovimentodos
olhose enviama informaçãode
"cancelamento"aoscentrossen-
soriaisdedetecçãodemovimento.
Qualestácorreta?
Para descobrir, Helmholtz
paralisouos músculosdos pró-
priosolhosusandoumaanestesia
localinstiladaaoredordosglobos
oculares.Toda vez que tentava
moveros olhos (semsucesso,é
claro),o mundopareciasemover
na direção oposta- emboranem
a imagemnemos olhos estives-
semse movendo.Ele concluiu
queo modelofeedforwardestava
correto.Não poderiaserofeedba-
ck,porqueos músculosoculares
não semoviam.É comoseuma
cópia da intençãode moveros
olhos fosseenviada(feedforward)
àsáreasquesentemo movimento
parasersubtraídado movimento
imagem/retinaesperado.Porém,
como não há nadaparasubtrair,
o resultadofinalé o movimento
percebido na direção oposta.
Há outrapequenaevidência.
Crieumapós-imagememumare-
tinausandoj/ash(mantenhaooutro
olho fechado).O queacontecese
emumquartoescurovocêagora
movimentaro globo ocularcom
o dedo?A respostaé...absoluta-
mentenada.Você nãovê a pós-
imagempulando.A razãoéquena
escuridão,quandomovimentamos
o globo ocular, a pós-imagem
permaneceperfeitamenteimóvel
naretina.Assim,nãohásinaisde
imagem/retinanemnenhumsinal
decomandodoscentrosmotores
do movimentoocular.Subtraia
.;inais paraos '
p musculosoculares
Sinaisdosm'
~
USCUIOSocu la
.. res
_ Comparação
SinaisT" docérebro
daretinaoVlmento
~
Sinaisdemovimento
daretina
No sistemaimagem/retina(à esquerda),umobjeto
adonasucessivamenteos receptoresà medidaque
semoveaolongodaretinaenquantoo olhoestiver
imóvel.Poroutrolado,no sistemaolho/cabeça(à
direita),oolhoemmovimentomantémoobjetopara-
donaretina,masumapessoapercebeomovimento
porqueo cérebromonitoraseuspróprioscomandos
enviandosinaisparao olhosemover.
48 MENTE&CÉREBRO. ARMADILHASDA PERCEPÇÃO
Cópiado comando
4 Comparaçãodocérebro
Parajulgarseumobjetoestáemmovimento,o cérebrosubtrai
ossinaisdossistemasimagem/retinaeolho/cabeçadeduasformas.
A teoriadefeedforward(noalto)afirmaqueumacópiado comando
doscentrosdemovimentoocularéenviadaaoscentrossensoriaisde
detecçãode movimento,de modo queelesesperarão-e,em segui-
da,anularão- sinaisfalsos.A teoriade feedback(embaixo)sustenta
queosprópriosreceptoresnosmúsculosocularessentemo graude
movimentodosolhoseenviamainformaçãode"cancelamento."
zerodezero,evocêtemzero.A
experiênciatambémé umaevi-
dênciaindiretaa favordateoria
defeedfonvardecontraateoriade
feedback(porquequandogiramos
o globoocular,receptoresdees-
tiramentonosmúsculosoculares
sãoativados- sebemquenãode
maneiracoordenada).
Vamosimaginaroutrocenário.
Vocêentraemumadiscoteca
iluminadaporumaluzestrobos-
cópica.Coma freqüênciaestro-
boscópicacerta,sevocêapenas
mexerosolhos,o mundointeiro
- incluindoaspessoaseamobília
- parecerápular.Quandovocê
moveosolhos,oscomandosdo
sistemaolho/cabeçavãoparaas
áreasdesensaçãodemovimento.
Normalmente,essasmensagens
seriamcanceladaspelossinais
de movimentode imagem/re-
tina.Contudo,seusolhos,em
essência,registraminstantâneos
estáticosa cadalampejoestro-
boscópico,captandoamostras
da imagem.Essasamostrasse
comportamefetivamentecomo
pós-imagens.Se esseprocesso
falhar,teremosasensaçãodeque
o mundoestáemmovimento.
o mundoestápulando
Melhorainda,peçaaumamigo
quesegureumpequenoponto
luminoso- comoumcigarro
acesoouumaminúsculalanterna
- semsemover.Mexaseusolhos,
eapequenaluz,éclaro,parecerá
parada.Se,emseguida,vocêusar
luzestroboscópicanasala,toda
vez quevocêmexeros olhos,
seuamigoparecerásaltar,mas
o pontoluminosopermanecerá
exatamentenomesmolugar.Isso
aconteceporqueo pontolumi-
noso,tendoluzprópriaesendo
continuamentevisível,gerasinais
demovimentodeimagem/retina
quesãocanceladospeloscoman-
dos de olholcabeça.Por outro
lado,o restodasalae seuamigo,
captadoscomo"amostras"devido
à luz estroboscópica,não geram
movimentoretinianoe,assim,pa.
recemsaltarjuntocomosolhos.A
surpreendentepercepçãoparado-
xalquevocêveráéo pontolumi-
nosovoandoparalongedapessoa.
Nosso antigomentor,o fale-
cido FergusW Campbell,fisio-
logista da Universidade Cam-
bridge,descobriuumaengenhosa
aplicaçãoparaesseefeitoemuma
boatedeLondres.Eleorientouas
dançarinasausarexíguosbiquínis
luminososemsuasapresentações
sobluzestroboscópica.Quandoos
espectadoresmovessemosolhos,
elesveriamosbiquínisluminosos
voandotentadoramente,embora
nadarevelassem.A ilusãofezsuces-
so,alémdeserperfeitamentelegal,
pois não havianenhumanudez
verdadeira.Às vezes,desejamos
sabersea própriaciênciaé assim
também;cadavezquepensamos
desvelara verdade,tudo o que
conseguimosé umaprovocantee
brevevisãodealgoquesetransfor-
maemoutrovéu.
O leitor que seguiu nosso
raciocínio até aqui perguntará:
Quandomovemososolhosinten-
cionalmente,ossinais"voluntários"
são enviadosàsáreassensoriais
de movimentoparacancelaro
movimentode imagem-na-retina
falsamenteproduzido.Contudo,
por queo mesmotipo decance-
lamentoousubtraçãonãoocorre
quandousamosvoluntariamenteo
dedoparamovero globoocular?
Por quenãoenviarsinaisde"mo-vimentododedo"paraoscentros
visuais de movimento?Afinal
de contas,sabemosqueestamos
movendoo globoocular.
A respostarevelaalgomuito
importantesobre a percepção.
Emboraàsvezeselapareça"in-
o
teligente"e possase beneficiar
imensamentedo conhecimento
de alto nível quearmazenamos,
emgeralapercepçãotrabalhano
pilotoautomático,porqueevoluiu
parafazerascoisasdemodorápido
e eficiente.Emborasaibamosque
estamospressionandoogloboocu-
lar,nenhumcancelamentoocorre
porque- diferentementedos cen-
trosde comandode movimento
ocular- os centrosde movimento
dodedonocérebrosimplesmente
nãoenviamacópiadamensagem
(CC) paraasáreasde sensação
de movimento.Aparentemente,
nossosantepassadosdesenvolve-
ramconexõesentreoscentrosde
comandodemovimentooculare
asáreassensoriaisvisuais,porque
freqüentementemovemosnossos
olhos.Porém,nossosantepassados,
comcerteza,nãoandavamporaí
batendonosglobosocularescom
os dedos.Como conseqüência,
nuncahouvenenhumapressãono
processoevolutivoparamodificar
taisconexões. nec
Perceptualstabllltyof
a stroboscoplcallyIIt
visualfleldcontalnlng
self-IumlnousobJects.
D.M.MacKay,em
Nature,vol.181,págs.
507-508,15defevereiro
de1958.
Eyeandbraln:the
Psychologyof seelng.
RichardL Gregory.
Princeton University
Press, 1997.
www.mentecerebro.com.br49
Ilusões
~ .
movels
Ao "enganar"neurôniosespecializadosemdetectar
estímulosquesedeslocam,certasimagensnosfazem
percebermovimentoondeelenãoexiste
PORVlLAYANURS. RAMACHANDRANE
DIANEROCiERS-RAMACHANDRAN
OgrandesábioeartistarenascentistaLe-onardodaVinci deixouumlegadodepinturasquecombinamdeleiteestético
comum realismosemigual.Ele tinhagrande
orgulhode suaobra,mastambémreconheceu
queatelanuncapoderiacomunicaro sentidode
movimentoou de profundidadeestereoscópica
- queexigequecadaumdosolhosvejaaomesmo
tempoimagensligeiramentediferentes.DaVinci
reconheceuquehavialimitesclarosparaasima-
gensrealistasqueelepodiadesenharoupintar.
Cinco séculosdepois,os limitespararetra-
tar profundidadena arteaindapermanecem,
comexceção,é~Iaro,deediçõesnoestilo"olho
mágico"que,por meiode múltiploselementos
semelhantes,entrelaçamasduasimagensqueo
cérebrocapta,cadaumadeumolho.Da Vinci
tambémnãopoderiater previstoo movimento
Op Art dos anos60, cujo foco principalera
criar a ilusãode movimentousandoimagens
estáticas(verilustraçãonapág.52).Emborao mo-
50 MENTE&CÉREBRO.ARMADILHAS DA PERCEPÇÃO
vimentonuncatenhaalcançadostatusmuito
elevadoentreos críticosdearte,a maioriados
neurocientistasquetrabalhamcomvisãoadora
suasintrigantesimagens.Afinal,comoimagens
estáticaspodemserpercebidascomomovimento?
O psicólogoeartistajaponêsAkiyoshiKita-
oka,da UniversidadeRitsumeikan,emTóquio,
desenvolveuumasériede imagenschamadas
"cobrasgirando",quesãoparticularmenteeficazes
paraproduzirilusãode movimento.Conforme
vocêolhaparaaimagemaolado,seuolhoperce-
becírculosgirandoemdireçõesopostas.Olhar
desoslaio,istoé,usandoa visãoperiférica,faz
o movimentopareceraindamaispronunciado.
Mantero olharfixona imagempodediminuir
asensaçãodemovimento,masmudara posição
dos olhos brevementerenovao efeito.Nessa
imagemdeKitaoka,oscírculosgiramnadireção
dossegmentoscoloridosquevãodo pretopara
o azul,parao branco,parao amareloe,denovo,
parao preto.Ascores,entretanto,servemapenas
Mantero
olharfixo
naimagem
diminuia
sensaçãode
movimento,
masuma
piscada
renovao
efeito
OPART,nosanos
60,tinhacomo
focoprincipal
criarilusõesde
movimento
paraaumentaroapeloestético,
poisnãotêmrelevânciaparao
efeito.Umaversãoacromática
(pág.53)funcionaigualmente
bemdesdequeo mesmonível
decontrastedaversãocolorida
sejapreservado.
Essasadoráveisilustrações
nuncadeixamde intrigarho-
mense mulheresde qualquer
idade.Masporqueessailusão
acontece?Ninguém sabeao
certo.O quesabemoséqueos
estranhosarranjos baseados
emcontrastedevemdealguma
formaativar"porengano"os
neurôniosquedetectammovi-
mento.Istoé,ospadrõesdecla-
ro eescuroenganamo sistema
visual,fazendocomqueseveja
movimentoondenadasemove.
(Nãosepreocupecasonãoveja
o movimento;algumaspesso-
as realmentenãoconseguem
percebê-loe nempor issosão
menossaudáveis.)
Paraexplorara percepção
do movimento,é comumos
cientistasrealizaremtestescom
filmesmuitocurtos,comnomá-
ximodoisquadrosdeduração.
Nessesfilmes,noquadroumhá
umagrandematrizde pontos
pretosdispostosdeformaalea-
tóriasobreumfundocinza.Se,
no quadrodois,vocêdeslocar
todaamatrizligeiramentepara
a direita,veráumaporçãode
pontossaltandoparaa direita
- issoativadiversosneurônios
dedetecçãodemovimentoem
paralelo.Essefenômeno,chama-
domovimentophi,éabasepara
os filmes,ondenenhummovi-
mento"real"existe,apenasuma
sucessãodefotosestáticas.
Prosseguindono mesmo
experimento:se no segundo
quadrovocêdeslocarospontos
paraadireitaetambémreverter
o contrastedetodosospontos
demaneiraqueelesfiquembran-
cossobreum fundocinza(em
vezdepretossobrecinza),verá
o movimentonadireçãooposta
- umailusãodescobertapelo
psicólogoStuartAnstis,hoje
naUniversidadedaCalifórnia
em San Diego. Esseefeitoé
conhecidocomophi reverso,
masprefirochamá-lodeefeito
Anstis-Reichardt,emhomena-
52 MENTE&CÉREBRO .ARMADILHASDA PERcEPÇÃo
gemaospesquisadoresdavisão
queprimeiroo exploraram.(A
segundapessoafoiWernerRei-
chardt,doInstitutoMaxPlanck
paraCibernéticaBiológica,em
Tübingen.)Agorasabemosque
esseparadoxalmovimentore-
versoocorreporcausadecertas
peculiaridadesnamaneiracomo
osneurôniosdedetecçãodomo-
vimento,chamadosdetectores
Reichardt,operamemnossos
centrosvisuais.
Como os neurôniosdede-
tecçãodemovimentosão"con-
figurados"para identificara
direçãodo movimento?Cada
um delesrecebesinaisde seu
camporeceptor:umaseçãoda
retina,acamadadetecidoneu-
ralquerecobreinternamenteo
fundodogloboocular.Quando
ativado,umgrupodereceptores
- porexemplo,noladoesquer-
do do camporeceptor- envia
um sinal paraa detecçãode
movimento,maso sinalé fraco
demaisparaativaro neurônio
que detectamovimento.Um
grupoadjacentedereceptores
retinianos,no ladodireitodo
camporeceptor,tambémenvia
umsinalparao mesmoneurô-
nio,mas,denovo,osinalnãoé
forteo suficiente.
Somandoforças
Agora imagineque, entre a
primeiraregião(esquerda)e o
neurôniodetectordemovimen-
to,sejainseridoum"circuitode
atraso".Do ladodireito,nada
muda.Assim,seoalvosemover
paraadireitanocamporeceptor,
aatividadedasegundaregiãoda
retinairáchegaraoneurôniode-
tectordemovimentoaomesmo
~ tempoqueo sinalretardadoda
1 regiãoesquerda.Juntos,osdois
~ sinaisirãoestimularo neurônio
o demaneiraadequadaparaque
ele dispare.Tal arranjoexige
queossinaissejamprocessados
no circuito comcertoatraso
paragarantiraespecificaçãoda
direçãoedavelocidade.
Isso,porém,é apenasparte
da história.Temosdeassumir
tambémque,por algumara-
zão aindanãocompreendida,
quadros paradosproduzem
ativaçãodiferencialdentrodo
campode recepçãode movi-
mento,oqueresultanaativação
dosneurôniosde movimento.
O arranjopeculiarde alguns
parâmetrosda imagem,como
contraste,emcadasub-região
da mesma,pode ser crucial
paraa ativação"artificial"dos
detectaresde movimento.O
resultadofinaléqueseucérebro
é enganadoe vê movimentos
ondeelesnãoexistem.
Por fim, sabe-setambém
queimagenscomcertarepeti-
çãoe regularidadeestimulam
grandenúmerode detectares
demovimentoemparalelo,de
formaqueaimpressãosubjetiva
éexacerbada.Um pequenore-
cortedessequadroésuficiente
paragerarummovimentoper-
ceptível,emboraa imagemna
íntegraproduzaumailusãobem
maispronunciada(verilustração
acima).Qualquerpessoapode
realizaralgunsexperimentos
bemsimples:a ilusãoé mais
forte com dois olhos do que
comum?Quantasserpentessão
necessáriasparaqueasvejamos
secontorcendo?
Não secompreendetotal-
mentecomoimagensestáticas
criamimpressõesirresistíveisde
movimentodeumaformaquase
mágica.Sabemos,no entanto,
queelasativamdetectaresde
movimentono cérebro.Essa
idéia foi testadafisiologica-mentepormeiodagravaçãoda
atividadedeneurôniosdeduas
áreasdocérebrodemacacos:o
córtexvisualprimário(V1),que
recebesinaisdaretina(depois
de teremsido retransmitidos
pelotálamo),e a áreatempo-
ral média(MT), na lateraldo
cérebro,que é especializada
navisualizaçãodemovimento.
(DanosàMT causamcegueira
demovimento;objetosquese
movemaparecemcomouma
sucessãode objetosestáticos,
comoseestivessemiluminados
porumaluzestroboscópica.)A
questãoé:"Asimagensestáticas
comoasserpentesgirando'en-
ganam'osneurôniosdetectares
de movimento?".A resposta
inicialparecesersim,comofoi
mostradonumasériedeexperi-
mentospublicadosem2005pela
neurocientistaRevilR.Conway,
da FaculdadedeMedicinada
UniversidadeHarvard.
Assim,pormeiodomonito-
ramentodaatividadedeneurô-
niosdetectaresdemovimento
em animaise do estudo da
percepçãohumanacomenge-
nhososquadrosprojetados,tais
comoodeKitaoka,oscientistas
estãocomeçandoaentenderos
mecanismoscerebraisespecia-
lizadosnavisãodascoisasque
semovem.Do pontodevista
evolutivo,essacapacidadetem
sidoumrecursodesobrevivên-
ciavaliosoquefuncionacomo
um sistemade avisoantecipa-
do paraatrairatenção- seja
paradetectarpresa,predador
ou companheiro(osquaisse
movem,diferentementede
pedraseárvores).É umaprova
de comoa ilusãopodeabrir
caminhosparaa compreensão
darealidade. nec
RECORTE
SEMCOR
produzo
mesmo
efeito,mas
commenor
intensidade
SAIBA MAIS.,
Phlmovementasa
subtradlonprocesso
S.M.Anstis,emVisian
Research,vol.10,n212,
págs.1411-1430,1970.
Perceptlonof
Illusorymovement.
A. Fraser e K. J. Wilcox,
emNature,vol.281,
págs.565-566,1979.
Neuralbaslsfor
apowerfulstatlc
motlonlIIuslon.Bevil
R.ConwayetaI.,em
jaurnalafNeuroscience,
vol.25,n223,págs.
5651-5656,2005.
www.mentecerebro.com.br53
:!i" - T- - . -- i'u .
:.li U =-;a _
I" ... ,"!.,.t4' .
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C "1.cV"'..,.- _ 'ai.""!Ã.-
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3" YI: w J \)'(. ........."7 'I
A dança
daslistras
Buscamospadrõesparaapreenderestímulos
visuais;algunsexperimentossimpleselucidam
processosneurológicoscomplexosusadospara
captaro movimentodosobjetos
POR VlLAYANUR S. RAMACHANDRAN E
DIANE ROGERS-RAMACHANDRAN
os primeirospsicólogosgestaltistas- en-tre elesStuart Anstis da Universidadeda Califórnia, San Diego, e o falecido
Hans Wallach - ficaramintrigados com aquilo
que chamavamde llusão do Poste de Barbeiro
(A)(verimagemaolado).Um cilindro vertical,com
listrasvermelhase brancasem espiral pintadas
na superfície, que gira em um eixo maior. Em
algumas regiões, o objeto também costuma
ser usadoem entradasde garagensde edifícios
comerciaisou parquesdediversões.O curioso é
que mesmoque aslistrasestejamnaverdadese
movendo horizontalmente,em torno do poste,
parecequeelassemexemverticalmente(àsvezes
paracima,àsvezesparabaixo).
A ilusão é uma demonstraçãopoderosa do
argumentoquetemosdefendidorepetidasvezes:
apercepçãonãomimetizaafísica.Envolveainter-
pretaçãodo cérebro- derivadadeumaimagemna
retinalocalizadanaregiãoposteriordo olho- para
fazerumjulgamentodaquiloqueestáacontecendo
no mundoexterior.Mas o quecausaa ilusão?
54 MENTE&CÉREBRO.ARMADilHAS DA PERCEPÇÃO
Consideremosumcasomaissimples:umcartão
pintadocomlistrasverticaismovendo-sehorizon-
talmenteatrásde umorifício circular(B).Aqui, as
margensexternasdo cartãolistradosãomostradas
esquematicamentepara deixar claro o que está
acontecendoatrásdo orifício. Elas não seriam
visíveis,contudo, quando a apresentaçãoreal é
vista.Você podefazerestamontagemsimplesem
casa,recortandodeumagrandefolhadecartolina
um orifício circular,digamos,de 2,5 ou 5 em,de
diâmetro.Em seguida,useumasegundacartolina
menorcom listrasverticais,alternandobrancoe
vermelho,de quatro a seis listras paracada 2,5
em. Peçaa alguémque movaa cartolinalistrada
parafrentee paratrásao longo de qualquereixo
enquantovocêolhaaslistraspeloorifício ejulgaa
direçãodemovimentodelas.
Se a cartolinalistradafor movidahorizontal- g
mente,então,nãoénenhumasurpresa,vocêverá~
queas listrasparecemsemexerhorizontalmente.{
Mas, se as listras estivessemse movendo diagonal- ~
mentea grandevelocidade,o estímulona retina~
Mesmoque
o estímulo
visualseja
ambíguo,nos
esforçamospara
tomá-loclaro;
vemosfiguras
movendo-se
comoum
11 d ll " dato o , atn
quenãose
mexam
seriaexatamenteo mesmo.De
fato, existeuma"família"de
vetores(isto é, movimentos
direcionais)de velocidadese
orientaçõesvariadasquepro-
duziriamamesmaimagemmu-
tantenaretina.Essesvetoressão
indicadosnafiguraB pelassetas
de diferentescomprimentos,
querepresentamvelocidadee
direção.Contudo,mesmoque
opróprioestímulosejaambíguo,
a percepçãoquetemosnãoé:
vemoslistrasmovendo-sedia-
gonalmentea umavelocidade
maior.Ou seja,o cérebrore-
correa umaespéciee "truque"
paraapreendero movimento.
Dentrodacaixa
Reconsideremosagoraumes-
tímulo como o do poste de
barbeiro- istoé,umnoqualo
orifíciosejaretangularevertical
e aslistrastenhamorientação
diagonal(E).Ao tentaro mes-
moexperimentocomestanova
montagem,vocêpoderiaesperar
queapercepção-padrãofossea
mesma- demovimentoperpen-
dicularàorientaçãodaslistras.
Mas nãoé;vocênãovê movi-
mentodiagonal.Pelocontrário,
estaslistrasinvariavelmentepa-
56 MENTE&CÉREBRO" ARMADILHAS DA PERCEPÇÃO
o
recemsemoververticalmenteao
longodoeixomaiordoorifício
(comonopostedebarbeiro).Por
queissoacontece?
Umapossívelexplicaçãose-
riaqueexisteumfatoradicional
emoperaçãonestecaso.Perceba
quemesmoquea direção(ea
velocidade)naqualaslistrasse
movemsejaambígua,aspontas
(ouextremidadesafiadas)das
linhasvãoparacima,aolongo
do eixo(nocaso,o cilindrodo
postedebarbeiro).Essemovi-
mentopodeajudara "desfazer"
a ambigüidadeda direçãodo
movimento;aspontas"arrastam"
aslistrasparacima,efeitoque
algunspesquisadoreschamamde
"capturademovimento".Essefe-
t
t
t
\
nômenoexplicaailusãodoposte
debarbeiro.Vocêpoderiadizer
queo movimentonão-ambíguo
dáadicaparaocérebroeimpõe
quesejavistoo padrãointeiro
de listrassemovendo(setasemC)
juntamentecomocomprimento
doposte,querestesejahorizon-
talouvertical.
Podemosdesafiaro sistema
visualcom a criaçãode uma
montagemcomo aparecena
figuraD, ondeé representado
umgrupodeorifíciosverticais
e horizontaisaleatoriamente
dispersos,atrásdosquaisaslis-
trasestãosemovendodiagonal-
mente.Sevocêseconcentrarem
qualquerumdosorifícios,verá
listrassemovendohorizontalou
verticalmente,comooesperado.
Mascomumpoucodeesforço,
vocêpodesefazervera mon-
tageminteiracomoum todo.
Nessecaso,vocêperceberáum
únicoegrandeconjuntodelis-
trasmovendo-sediagonalmente,
vistoatravésde umacartolina
opacagiganteda qual foram
recortadosorifícioshorizontaise
verticaisemlocaisaleatórios.
Hierarquia visual
Tomemosum novo exemplo.
EmE, vocêtenderáavermo-
vimentode45grausparacima
e paraa direitae,emF, de45
....
e
«:)
grausparabaixoe paraa di-
reita,comoindicamas setas.
E se sobrepusermosas duas?
Você as vê deslizandouma
pelaoutraem ângulosretos?
A respostaé não;veremoso
xadrezse movendohorizon-
talmente(indicadopelasetaemG).
Os pesquisadoresde per-
cepção Edward H. Adelson
do InstitutodeTecnologiade
Massachusettse J. Anthony
Movshon, da Universidade
de NovaYork, fizeramalguns
experimentosinteressantespara
mostrarque,contrariamenteà
intuiçãoingênua,esseefeitonão
acontecesimplesmentetirando-
seamédiadosvetoresdasduas
listras.Acontecepor causado
princípioquebatizaramde"in-
terseçãodasrestrições".Cada
movimentodagradeécompatí-
velcomumafamíliadevetorese
aregiãodesobreposição- onde
asduasfamíliassesobrepõem
- é vistacomoa "verdadeira"
direçãodomovimento.
É intrigante que células
sensíveisao movimentonas
áreasdocérebroemfunciona-
mentono iníciodahierarquia
visual do processamentode
movimentosreajamseparada-menteàdireçãodecadagrade
de "movimentocomponente",
enquantoas células em um
nível superior respondamà
percepçãoda direçãoglobal
d '" d d " Éo movImentoo xa rez.
comoseascélulasestivessem
integrandoa saídadecompo-
nentessensíveis,empregando
o algoritmoda interseçãode
restrições.
Há ummodeloalternativo
à interseção de restrições.
Perceba em G que, mesmo
que o movimentodas listras
componentessejaambíguo,as
linhasestãosemovendohori-
zontalmentesemambigüidade.
Essespontosde cruzamento
poderiam"capturar"e arrastar
consigoasgradeshorizontal-
mente(analogamenteaopapel
daspontasafiadasno orifício
verticaloupostedebarbeiro).
Até agora,nãoexistene-
nhum motivo convincente
paraescolherum modeloem
detrimentodooutro;oprimei-
ro (interseçãode restrições)é
matematicamentemaiselegante
e poderiaagradaraum físico,
enquantooúltimo(um"atalho"
bagunçado)talvezfossemais
atraenteparaum biólogo.O
padrãooriginal do postede
barbeirosupostamenterepre-
sentariasanguee bandagens,
evocandoumaeraemqueos
barbeiroseramtambémcirur-
giões.Elesmaldesconfiavam
quea ilusãoeracapazdeofe-
recerconcepçõesdepercepção
humanado movimentotão
afiadascomoumanavalha.nec
...
Phenomenal
coherenceof movlng
visualpattems.E.
H.AdelsoneJ.A.
MovshonemNature,
vol.300,págs.523-
525,1982.
Transparencyand
coherenceIn human
motlonperceptlon.
G. R.Stoner,T.D.
Albright e V. S.
Ramachandran,em
Nature,vol. 344,págs.
153-155,8demarço
de1990.
www.mentecerebro.com.br57
Filtrosda ,..;
percepçao
A manipulaçãodeimagenscomalgoritmos
promoveilusõesvisuaissurpreendentesetambém
explicacomonossosistemavisualdecompõeo
quevêemdiferentesfreqüênciasespaciais
POR VILAVANUR S. RAMACHANDRAN E
DIANE ROGERS-RAMACHANDRAN
OpintorespanholEIGreco(1541-1614)cos-tumavaretrataremseusquadrosobjetose figurashumanasalongados.Combase
nissoalgunshistoriadoresdeartesugeriramque
eleeraastigmático,istoé,quesuascórneaseram
maiscurvadasnadireçãohorizontalquenavertical,
fazendocomqueaimagemnaretinafosseesticada
verticalmente.Essaidéiaétotalmenteabsurda.Se
fosseverdade,todosnósdeveríamosdesenharo
mundodeponta-cabeça,porqueaimagemretiniana
éassim:acórneaainverte,masocérebroprocessa
e interpretaosestímulosquechegamàretina,de
modoquevemosomundodecabeçaparacima.
Nãohá,nosentidoliteral,imagemnenhuma
projetadanaretina.Esseolho interiorsimples-
mentenãoexiste.Emvezdisso,precisamospensar
nosincontáveismecanismóSvisuaisqueextraem
informaçõesdaimageme asprocessam,passoa
passo,antesqueessaatividadeculminenaexperi-
58 MENTE&CÉREBRO.ARMADILHASDA PERCEPÇÃO
I~
ênciaperceptiva.Algumasilusõessãoformidáveis
parailustraro funcionamentodocérebrodurante
esseprocessamento.
Compareosdoisrostosmostradosnapág.60.
Sevocêolhá-Iosà distânciadecercade 30cm,
veráquea moçadadireitaestámuitozangada,
enquantoa daesquerdaestátranqüila.Agorase
vocêmoverapáginauns2metrosparalonge,verá
que,surpreendentemente,asexpressõesmudam.A
daesquerdasorrieadadireitaestámaiscalma. ~
Comoissoé possível?Parecequasemágico.~
Paraajudá-Ioa entender,precisamosexplicar ~u
como essasimagensforamconstruídaspelos ~
pesquisadoresPhilippeG. Schyns,da Uni- }
versidadedeGlasgow,Escócia,eAudeOliva, ~o
do Instituto de Tecnologia de Massachusetts. !
Um retratonormal,fotográficooudesenhado,~
contémvariaçõesdaschamadas"freqüênciasespa- ~o
ciais",quepodemserdedoistipos.As freqüências .;;;;
MUDANÇA DE
EXPRESSÃO:Sevocê
afastara revista
cercade 2 metros
veráquea mulher
da esquerda"sorri"
e a da direitaparece
"maiscalma"
osorrisoSÓ
épercebido
quandoas
freqüências
b3})(3Ssão
dominantes;
paraissoé
precisoolhar
desoslaio
paraabocada
MonaLisa
espaciais"altas"sereferemaos
detalhes,aos traçosfinos de
umaimagem.Já asfreqüências
espaciais"baixas"estão nas
linhaslargase nasbordasem-
baçadas,sobretudodeobjetos
grandes.A maioriadasimagens
contémumespectrodefreqü-
ênciasquevãodaaltaàbaixa,
emproporçõesvariáveis.
Usandoalgoritmosdecom-
putador,podemosprocessarum
retratonormalpararemover
seletivamentediferentesfreqüên-
ciasespaciais.Se removermos
asaltas,teremosumaimagem
borrada.Esteprocedimentode
embaçamentoé chamadofiltro
passa-baixo,porquebarraasfre-
qüênciasaltas(bordasprecisas,
linhasfinas)edeixapassarasbai-
xas.O filtropassa-alto,porsua
vez,fazexatamenteocontrário:
mantémasbordasdefinidaseos
contornosdelicadose remove
variaçõesde largaescala.O
resultadopareceumpoucoum
esboçosemsombreamento.
Esses tipos de imagens
processadaspor computador
são combinadas,de maneira
atípica, paracriar os rostos
misteriososmostradosacima).
Os pesquisadorescomeçaram
comfotografiasnormaisdetrês
faces,umacalma,outrabravae
a terceirasorrindo.Elesfiltra-
ramcadarostoparaobtertanto
imagenspassa-alto(contendo
linhasfinasedefinidas)quanto
passa-baixo(borradas).Depois
combinaramo rostocalmodo
passa-altocomafacesorridente
do passa-baixo,o queresultou
naimagemdaesquerda.No re-
tratoàdireita,ospesquisadores
sobrepuseramo rostocarran-
cudodopassa-altoàexpressão
calmadopassa-baixo.
O queacontecequandoos
retratossãovistosde perto?E
por queasexpressõesmudam
quandovocê movea página
paralonge?Pararesponderessas
perguntas,precisocontarmais
duascoisasimportantessobreo
processamentovisual.Primeiro,
a imagemprecisaestarpróxima
paravocêverascaracterísticas
maisdefinidas.Segundo,quando
visíveis,elas"mascaram"objetos
de largaescala(freqüências
espaciaisbaixas)ou desviama
atençãodeles.
Assim,quandovocêtraz a
imagemparaperto,ascaracterís-
ticasdefinidastornam-semaisvi-
síveis,mascarandoaquelaspouco
definidas.Como resultado,o
rostodadireitaparecenervoso,
enquantoo da esquerdaestá
relaxado.Você simplesmente
nãopercebeasemoçõesopos-
tasqueasfreqüênciasespaciais
baixastransmitem.Então,ao
deslocarapáginamaisparalon- ~
ge,seusistemavisualnãoémais~
H
capazdeprocessaros detalhesi:1~
finos;a expressãotransmitidai~
d S2poreles esaparecee apenasas § ~
freqüênciasbaixassãoexpostasS ~
epercebidas. § I
p
n
i I
~~~.-.
~ ~g.
~~
8.~
tO!~-
;:5'",,~
h-
~~
~~
! ~n
p
li !I!: .
U
60 MENTE&:CÉREBRO .ARMADILHASDA PERCEPÇÃO
oexperimentoilustrauma
idéiaoriginalmenteformulada
peloscientistasFergusCampbell
e]ohnRobson,daUniversidade~
Cambridge.Elesdemonstraramli
queinformaçõesde diferentes~
freqüênciasespaciaissãopara- g
lelamentecaptadasporvários ~
. " I'!
canaIsneuralS,cUJoscampos S
receptivossãodevariadosta- ~
manhos(ocamporeceptivode ~
umneurôniovisualéaporçãoda I
retinanaqualumestímulopreci- ~
saserapresentadoparaativá-Io).
Issotambémmostraqueosca-
naisnãofuncionamisolados.Ao
contrário,interagemdemaneiras
interessantes,por exemplo:as
bordasdefinidascaptadaspor
pequenoscamposreceptivos
mascaramasvariaçõesborradas
degrandeescalasinalizadaspe-
loscamposreceptivosmaiores.
EnigmadaGioconda
Experimentosdessetiporemon-
tamaoiníciodosanos60,quan-
do o cientistaLeon Harmon
(1922-1982),dos Laboratórios
Reli,projetouo famosoefeito
Abraham Lincoln. Harmon
produziua imagemdeLincoln
(verilustraçãonestapágina)apartir
deumafotocomumquefoigros-
seiramentedigitalizada(usando
pixelsenormes).Mesmoquando
vistade perto,há informação
suficientenasvariaçõesdebrilho
parareconhecero presidente.
Mas essesdadostambémsão
mascaradospor umabordara-
zoavelmentedefinida.Quando
vocêa afastaou fechae abre
osolhos,a imagemborra,per-
dendoo contornodasbordas,
e Lincoln fica imediatamente
reconhecível.
Filósofose historiadoresde
arteespecializadosemestética
comfreqüênciasereferemàex-
pressãodaMonaLisa,deLeonar-
do daVinci,comoenigmática,
emgrandeparteporquenãoa
compreendem.Muitosdelesna
verdadepreferemnãoentendê-
Ia,eresistemaqualquertentativa
de explicá-Iacientificamente,
talvezpeloreceiodequeesse
tipodeanálisequebreoencanto
desuabeleza.
Recentemente,a neurobi-
óloga MargaretLivingstone,
da UniversidadeHarvard,fez
observaçõesmuito intrigan-
tes.Ela percebeuquequando
olhavadiretamenteparaabocadaMonaLisa(veresquemadapág.
aolado,painelcentral),o sorriso
nãoeraevidente.Mas quando
olhavaparaa periferiada ima-
gem,elevoltava,e emseguida
desapareciaàmedidaqueseus
olhoso focalizavam.Porcausa
do sombreamentonoscantos
da boca,o sorrisoenigmático
só é percebidoquandoasfre-
qüênciasespaciaisbaixassão
dominantes,e issosó ocorre
quandovocê olha de soslaio
paraabocadaGioconda.
Parachegaraestaconclusão,
Livingstonepassouum filtro
passa-baixo(veresquemadapágina
aolado,painelesquerdo)e outro
passa-alto(nestapág.,paineldireito)
naMonaLisa.Percebaqueno
retratoborrado(passa-baixo)o
sorrisoémaisóbvioquenoori-
ginal-elepodeservistomesmo
quandoseolhadiretamentea
boca.Já naimagemqueparece
umesboço(passa-alto),o sorriso
nãoé evidente,mesmoquando
seolhaaoredordele.Acombina-
çãodasimagensrestauraaobra
originaleanaturezamisteriosa
desuaexpressão.
Agora entendemosaquilo
queDa Vinci pareceter des-
cobertohá muitosséculose
peloqualprovavelmenteficou
fascinado:umretratoqueparece
vivoporquesuaexpressãofugaz,
graçasapeculiaridadesdenosso
sistemavisual,hipnotizaosseres
humanoshágerações.Vistosem
conjunto,essesexperimentos
mostramque a percepçãoé
muitomaisdo queo olho vê.
Elesdemonstramquea infor-
maçãovisualem freqüências
diferentespodeserextraídade
umaimagemporcanaisneurais
independentese recombinada
emestágiosdiferentesdo pro-
cessamentoparacriaraimpres-
sãofinaldeumaimagemúnica
nasuamente. ..
QUANDOVOCÊ
aafastaoufecha
eabreosolhos,
aimagemborra,
perdendoocontorno
dasbordas,eLincoln
ficaimediatamente
reconhecível
Dr.Angryand
mr.Smlle- When
categorlzatlon
flexlblymodlfles
theperceptlonof
facesInrapldvisual
presentatlons.
PhilippeG.Schyns
eAudeOliva,em
Cognition,vol.69,n23,
págs.243-265,1999.
www.mentecerebro.com.br61
Brincando
com~esose
medidas
A ilusãovisualconfundeoscentrosneurais
e nosfazcrerqueumobjetosejadiferente
do querealmenteé;experiênciassimplese
divertidasmostramcomoissoacontece
POR VlLAYANUR S. RAMACHANDRAN E
DIANE ROGERS-RAMACHANDRAN
OgrandefísicoalemãoHermannvonHelm-holtz nãoapenasdescobriua primeiralei da termodinâmica(conservaçãode
energia)comoinventouo oftalmoscópio,e foi
o primeiroa medira velocidadedos impulsos
nervosos.É tambémreconhecidocomoo fun-
dadorda"ciênciadapercepçãovisualhumana".
Com freqüênciaressaltamosque,maisdoque
apenasleros daqossensoriaisenviadospelosre-
ceptores,omaissimplesatodepercepçãorequera
interpretaçãoativa- ouconjectura"inteligente"- do
cérebroarespeitodoseventosdomundo.Naver-
dade,seguidamenteapercepçãoimitaaspectosdos
processosdepensamentoindutivo.Paraenfatizara
naturezasemelhanteà do pensamentoqueaper-
cepçãotem,VonHelmholtzempregouaexpressão
62 MENTE&CÉREBRO.ARMADILHASDA PERCEPÇÃO
~
"inferênciainconsciente".Os dadossensórios(por
exemplo,umaimagemnaretinanofundodoolho)
sãointerpretadoscombaseemseucontextoe na
experiênciaeconhecimentodemundodoobserva-
dor.O físicousouapalavra"inconsciente"porque,
diferentementedemuitosaspectosdo raciocínio,
a percepçãonormalmentenãorequernenhuma
cogitaçãoconsciente.Em geral,elafuncionano
pilotoautomático.
Umafortedemonstraçãodopoderproféticoda
percepçãoé encontradanailusãotamanho-peso,
ouilusãoCharpentier-Koseleff(verfiguraA napág.
àdireita),queamaioriadaspessoaspodefacilmente
construireusarparafascinarosamigos.Essetruque
perceptualeraumdosfavoritosdeVonHelmholtz.
Paramontá-Io,bastapegardoisobjetosquete-
nhamformato,coretexturaseme-
lhantes,mastamanhosdiferentes
- comocilindrosocosdemetalou
plástico.Escondapesossuficien-
tesdentrodo objeto menor,de
modoqueo pesofiqueidêntico
aodoobjetomaior.Comoosdois
recipientesparecemiguais,com
exceçãodotamanho,osobserva-
doresirãonaturalmentepresumir
queomaioréproporcionalmente
maispesadoqueomenor.Depois,
ésópediraalguémparapegá-Ios
ecompararseupeso.
Muito provavelmentea pes-
soadiráqueos objetosnãotêm
o mesmopesofísico.Vaiinsistir
emdizer queo objetomaior
parecemaisleve.Continuaráa
afirmaressefatoincorretoainda
quevocêlhepeçaparadizero
pesoabsoluto,nãoa densidade
(pesopor unidadedevolume).
Experimentevocê. É im-
pressionante:emborasaibaque
os objetostêmo mesmopeso
(afinal,vocêosconstruiu),terá
a sensaçãode que o objeto
maioré"realmente"maisleveem
comparaçãoao menor.Como
acontececom muitasilusões,
o conhecimentodarealidadeé
FIGURA e
ExperiênciaCharpentier-
Koselefffazobjetomaior
parecermaisleve
insuficienteparacorrigirousu-
perarapercepçãoerrônea.Nós,
neurocientistas,dizemosquea
percepçãoé imuneà correção
intelectual- istoé,elaé"cogni-
tivamenteimpenetrável".
Além disso,a informação
visualsempresobrepujaosoutros
sinais.A ilusãoé impenetrável
nãoapenasparao conhecimen-
to de queos objetospesama
mesmacoisa,mastambémpara
sinaisbásicosdeoutrasfontes,
taiscomoasinformaçõesdos
receptoresmusculares,quelhe
afirmamqueo pesoéo mesmo.
www.mentecerebro.com.br63
Dapróxima
vezque
comprar
umamala
deviagem,
procureuma
bemgrande:
" .-voceteraa
sensaçãode
queelaé
maisleve
FIGURA0
Emboraas
duasbarras
horizontais
sejamiguais,
adecima
parecemaior
Vocêpoderepetiroexperimento
muitasvezes,masaindaassimterá
ilusãoidêntica.
Por queesseefeitoocorre?
Quando você pegao objeto
maior,esperaqueelepesemais
queo outro(dadaa suposição
dequeos doissejamfeitosdo
mesmomaterial)e,porteressa
expectativa,exerceumaforça
maiorsobreele.No entanto,
comoele temo mesmopeso
queo objetomenor(quevocê
esperavaquepesassemenos),
vocêtemasensaçãodequeele
émaisleve.
Fazendoumaanalogia,ima-
gineencontraralguémquenão
pareçainteligentee,assim,você
teráaexpectativainicialdeque
essapessoarealmentenãoé lá
muitoesperta.Seelacomeçara
falarnormalmente,vaiparecer
aindamaisinteligentedo que
a médiaI Sevocê"calibrar"seu
julgamentodascapacidadesde
umapessoade acordocomo
quepareceser,sua"leitura"final
dashabilidadesreaisdessapes-
soa- apartirdesuaexpressão
verbal- serásuperestimada.
64 MENTE&CÉREBRO.ARMADILHASDA PERCEPÇÃO
A ilusãotamanho-pesopode
sermaisfácil de entenderse
utilizarmosumailusãovisual
maisfamiliar,a chamadailusão
Ponzo,oudotrilhodetrem(ver
figuraB,embaixo).Duasbarras
horizontaissãomostradasentre
duaslinhasconvergentesmaiores.
Emboraasbarrassejamiguais,não
éessaa impressãoquesetem:a
decimaparecemaiorquea de
baixo.Essaconstataçãoequivo-
cadaéumefeitovisualchamado
deconstânciado tamanho:se
doisobjetosdetamanhofísico
idênticoestiveremcolocadosem
distânciasdiferentesemrelação
aoobservador,serãopercebidos
corretamentecomodemesmo
tamanho,emboraas imagens
lançadasporelesnaretinatenham
dimensõesdiferentes.
Delonge,deperto
De formabemsimples,o cérebro
"entende"queháumacompensa-
çãoentreo tamanhoda imagem
formadanaretinaeadistância- e,
naprática,conclui:"Estaimagem
do objetoé pequenaporqueestá
longe,masnaverdadeeleé bem
maior".Paraavaliaradistância,o
sistemavisualusaváriasfontesde
informação,sãoas"dicas"- pers-
pectiva,paralaxede movimento,
gradientesdetexturae estereop-
sia.E,combasenelas,aplicaacor-
reçãoapropriadaparaadistânciaa
fimdejulgaro tamanhoreal.
Na ilusãoPonzo,noentanto,
asduasbarrashorizontaissãodo
mesmotamanhofísiconaretina.
As linhasconvergentesfuncio-
namcomoumpoderosoaciona-
dorparavocêasler- demaneira
falsa,nessecaso- comoseesti-
vessemem distânciasdiferentes
(comosevocêolhasseo trilhodo
tremevisseosdormentesnuma
distânciacrescente).Uma vez
queseusistemavisual"acredita"
quea linhadecimaestejamais
longe,elesupõequeeladeva
sernaverdademaiordo queo
tamanhoquearetinaindica(em
relaçãoàoutralinha).
Para explicarde maneira
diferente:aescaladeconstância
do tamanhopermitequevocê
noteadimensãodosobjetosde
maneiraprecisaquandopercebe
corretamenteadistânciadesses
objetos.Na ilusãoPonzo,no
entanto,adicadeprofundidade
enganadoradaslinhasconver-
gentesfaz comquevocêapli-
queerroneamenteo algoritmode
constância,demodoquealinha
decimaévistacomomaior.Onotávelé quea ilusãoignora
os sinaisvisuaisdaretina,que
informamaoscentrosde jul-
gamentodetamanhovisualno
cérebroqueasduasbarrastêm
o mesmocomprimento.Como
essesmecanismosfuncionam
todos no piloto automático,
saberqueelassãoidênticasnão
corrigeailusão.
Canecasdevidro
Eseusarmoscomoobjetosdetes-
teumdiscoeumaneldomesmo
diâmetroexterno(verfiguraC ao
lado)e,damesmaformaquecom
a ilusãotamanho-pesopadrão,
osajustarmosparaquetenhamo
mesmopesofísico?É claroque,
comoantes,qualquerpessoaque
pegaro anelvaiesperarqueele~f
pesebemmenos,já queparece~
terumvolumetotalmenor.Mas 1
você(oexperimentador,cienteda ~
ilusãotamanho-peso)preveriao ~
inverso- queo anelocoseriabemi
maispesadoqueodiscosólido. ~
Porém,emcolaboraçãocom~
o neurocientistaEdwardM. !
Hubbard,atualmentedo Insti-I
tutoNacionalFrancêsdeSaú-~
dee PesquisaMédica(lnserm),~
ôI
descobrimosque,nestecaso,a ~
pessoanãovivenciaráa ilusão
de tamanho-peso;elajulgará,
demaneiracorreta,queosdois
objetospesamamesmacoisa.O
cérebropareceutilizarmeramente
o diâmetroexteriorparafazero
julgamento,enãoovolumegeral.
Esseexperimentomostraqueo
sistemavisualnãoé sofisticado
o suficientepara"entender"que
o queimportaéamassatotal,e
nãoapenasodiâmetro.
Paraanteciparopeso,océre-
brolevaemcontaoutrosaspectos
alémdotamanho.Porexemplo,se
vocêpegarumacanecadecerv~a
deplástico,elavaiparecerexcep-
cionalmenteleve.Novamente,
esseefeitoocorreporquenão
esperamosqueelasejafeitade
vidroe,portanto,pesada.A ilu-
sãotamanho-pesooriginalpode
semostrarabsolutamenteinata
(nãosabemos),mascomcerteza
a ilusãodo pesodacanecade
cervejaprecisaseraprendida,já
quenossosancestraishominídeos
nãoforamexpostosacanecas.
Queoutrosinsightspodemos
tera partirdessailusão?Talvez
hajaumaaplicaçãoprática.Se
estamosdiantedemuitasescadas,
esperamosnoscansarmaisrapida-
mentesecorrêssemosparacima
eparabaixocomcargaspesadas
do quesecarregássemoscargas
leves.O esforçofísicoaumenta
à proporçãoquetransportamos
pesosmaiores:o coraçãobate
maisdepressa,apressãosangü-
íneasobee transpiramos.Nor-
malmente,presume-sequeesse
esforçoextraaconteçaporqueos
músculosconsomemmaisglicose,
e essainformaçãoé enviadaao
cérebroparagerara respostade
taxacardíacaacelerada,aumento
da pressãosangüíneae suora
fimdepermitir- eantecipar- o
aumentodoconsumodeoxigênio
resultantedotrabalhopesado.
Masseriapossívelqueparte
dessapreparaçãoenvolvatambém
opesosentidodoobjeto,enviando
sinaiscerebraisdiretosparao
corpo?Imaginecorrerparacima
eparabaixonumaescadariacarre-
gandoumobjetograndee,então,
compareo graudecansaçoque
vocêsentecomaqueleproduzido
quandolevaumobjetobemme-
nor,masdepesoidênticoaodo
maior(e,portanto,comasensação
dequeessacargaé maispesada
porcausadailusão).Seráqueo
pesoadicionalsentido,emvez
FIGURAe
Cérebroconsidera
odiâmetroexterior
enãoovolume
parainferirque
figurastêm
pesosiguais
dopesoreal,aumentaseusenso
deesforçooucansaço?Emoutras
palavras,a fadigaé determinada
peloesforçofísicoreal?
Sefosseassim,o esforçoex-
cessivofariacomqueo cérebro
meramenteenviassemaissinais
paraocoraçãoafimdeaumentar
apressãosangüínea,a freqüên-
ciacardíacaeaoxigenaçãodos
tecidos.Algunstrabalhosjá re-
lataramquerepetidosexercícios
imaginadospodemaumentar
a forçamuscular,masaindahá
poucaevidênciadisso.(Come-
çamosrecentementeaexplorar
essaáreaemcolaboraçãocomo
neurocientistaPaulMcGeoch,
da Universidadeda Califórnia
emSanDiego.)
No casodeconstatarqueo
pesosentidodeterminaquão
cansadonossentimos,dapróxima
vezquevocêcomprarumamala
de viagemprocureumabem
grande:assim,teráasensaçãode
queelaé maisleve,mesmose
enchê-Iacoma mesmaquanti-
dadedebagagemdesempre!As
peculiaridadesdapercepçãotêm
implicaçõesteóricasprofundas
- mastambémpodemacarretar
conseqüênciaspráticas. ne<
Theslze-welght
IlIuslon,emulatlon,
andthe cerebellum.
EdwardM. Hubbard
eVilayanurS.
Ramachandran,em
BehavioralandBrain
Sciences,vol.27,págs.
407-408,2004.
www.mentecerebro.com.br65
No prumo
....
Paracalcularaposiçãorelativadosobjetos,o
cérebrousaestratégiascomplexasquecomparam
informaçõessensoriaisantesdedecidiro queestá
depéeo queestádecabeçaparabaixo
POR VlLAYANUR S. RAMACHANDRAN E
DIANE ROCERS-RAMACHANDRAN
muitodifundidaa idéiadequeasimagens
queentrampornossosolhossãoprojetadas
de formainvertidanasretinas,o quenão
implica,felizmente,vero mundodecabeçapara
baixo.Muitaspessoasacreditamqueessaimagem
retinianaseja"girada"emalgumapartedocérebro
paraqueenxerguemosomundocomodefatoele
é,ouseja,decabeçaparacima.Mas issoé uma
falácia.Essasupostarotaçãonãoocorreporque
simplesmentenãohá imagemalgumaprojetada
naretina- tudonãopassadeumpadrãodeim-
pulsosnervososquecodificaalgoqueo cérebro
interpretacomoimagem,e nãofazsentidogirar
impulsosnervosos.
Deixandodeladoessaarmadilhaquecompara
o olhohumanoaodeumamáquinafotográfica,
verascoisasdecabeçaparacimaenvolveestra-
tégiascerebraismuitomaiscomplexasdo quese
podeimaginare quecomeçarama serestudadas
nadécadade70pelopsicólogoIrvinRock(1922-
1995),daUniversidadeRutgersemNovaJersey,
66 MENTE&CÉREBRO.ARMADILHASDA PERCEPÇÃO
umdospioneirosnoestudodapercepçãohumana.
Taisestratégiaspodemserinvestigadaspormeio
dealgumasexperiênciasmuitosimples.Emprimei-
ro lugar,inclinesuacabeça90 graus,mantenha
osolhosabertose observeascoisasaoseuredor.
Comoeradeesperar,osobjetosnãoparecemter
seinclinadoderepente;elescontinuamnavertical.
Agora,imaginevirarumamesa90 graus,de
modoqueelapermaneçadelado.Vocêveráque
eladefatoparecevirada,comodeveria.Nóssabe-
mosqueapercepçãocorretadamesanavertical
nãoédecorrentedealguma"memória"daposição
habitualdascoisas;o efeitofuncionaigualmente
bemparaesculturasabstratasemumagaleriade
arte.O contextoao redortambémnãoé a res-
posta:seumamesaluminosafossecolocadadepé
emumasalatotalmenteescuraevocêinclinasse
suacabeçaaoolharparaela,amesaaindaassim
pareceriaestardepé.
Seucérebrodescobrequalé o ladodecima
dascoisasporquerecebeinformaçõesdefeedback
.J
enviadaspelosistemavestibular
- queélocalizadodentrodoou-
vidoeregistraatodomomento
o grauderotaçãodacabeça-
atéasáreasvisuais.Em outras
palavras,o cérebro leva em
contaa rotaçãodacabeçapara
interpretaraorientaçãodamesa.
-
A expressão"levaemconta"é
muitomaisprecisadoquedizer
queocérebro"gira"aimagemin-
clinadadamesa.Nãoháimagem
nocérebroquepossaser"girada",
emesmosehouvesse,quemseria
a"pessoinha"nocérebroolhando
paraaimageminvertida?Daqui
parafrente,usarei"reinterpretar"
ou "corrigir"em vez de "gi-
rar".Emboranãosejamtermos
totalmenteprecisos,servem
de atalhoe evitamequívocos.
Há limitesdefinidosparaa
correçãovestibular.Um texto
impresso,comoestarevista,por
exemplo,torna-semuitodifícil
delerseestiverdecabeçapara
baixo.Virearevistaagoramesmo
paraconferir.Segure-ado lado
certodenovo,curveo corpoe
olhe-aporentreaspernas- de
formaquesuacabeçaearevista
fiquemde cabeçaparabaixo
emrelaçãoaomundo.A página
continuadifícildeler,mesmoque
o sistemavestibularlheinforme
claramentequeo textoestávi-
radoparacimaemcomparação
comaorientaçãodasuacabeça.
Dopontodevistaperceptivo,as
letrassãomuitodetalhadaspara
seremauxiliadaspelacorreção~
:li
vestibular,mesmoqueaorienta-E
çãogeraldapáginasejacorrigida~:!
paraestarvoltadaparacima. i
Examinemosessesfenôme-;
nosmaisdeperto.Observeo ~
<0
quadradoda figuraA, (verpág.
68).Gire-o45grausevocêverá
umlosango.Mas,seinclinara
cabeça45 graus,o quadrado
continuaparecendoumquadrado
- mesmoquenasuaretinaeleseja
umlosangojacorreçãovestibular
estáemaçãodenovo.
Agoraconsidereos dois10-
sangosvermelhoscentraismais
abaixo,namesmafigura.EmB
o losangopareceumlosangoe
emC,umquadrado,mesmoque
a suacabeçapermaneçaereta,
situaçãoparaa quala correção
www.mentecerebro.com.br67
D
0+0
€I
+0O~
Quadradooulosango:
percepçãodaforma
vermelhaéinfluenciada
pelacorreção
vestibular.FiguraD:
asfacesinclinadas
sugeremqueo
efeitodo"contexto"éenganoso.
FiguraE:A forma
vermelhaéambígua,
dependendode
comoapercebemos
emrelaçãoàslinhas
adjacentes.FiguraF:
édifícilsaberqual
faceestázangadaou
sorridente,atéquese
girea imagem
180graus
vestibularnãoé necessária.Essa
simplesdemonstraçãomostraos
efeitospoderososdo eixogeral
da"grande"figura,queengloba
ospequenosquadrados(oulosan-
gos).Seriaenganosochamaresse
efeitode"contexto"porquena
figuraD acima,comcincofaces
inclinadas45graus,o quadrado
centralcontinuaparecendoum
quadrado,emboratalvezmenos
quequandoisolado.
Tambémé possíveltestar
os efeitosda atençãovisual.
Os losangosdafiguraE,acima,
formamumacombinação.Neste
caso,aformavermelhacentralé
ambígua.Sevocêprestaratenção
nacolunavertical,a formaver-
melhapareceumlosango;mas
sepercebê-Iacomointegranteda
linhaoblíqua,elaseassemelhaa
umquadrado.
Mais interessanteaindaé a
ilusãodeópticacomopresidente
dosEstadosUnidosGeorgeW.
68 MENTE&CÉREBRO.ARMADIlHAS DA PERCEPÇÃO
D
&
Bush,napág.aolado.Trata-se,
naverdade,deumavarianteda
ilusãodeópticacriadapelopsi-
cólogoPeterThompson,daUni-
versidadedeYork,ReinoUnido,
coma ex-primeira-ministrabri-
tânicaMargaretThatcher.Você
nãonotaránadadiferenteentre
asduasfotosseambasestiverem
decabeçaparabaixo.Noentanto,
seasgirar180graus,perceberá
imediatamentecomoumadelas
foi grotescamenteadulterada.
Comoexplicaresseefeito?
TrclC\):'o>oasicos
Apesardehavercertaunidade
nos processosperceptivos,o
cérebrosempreanalisaasima-
gensporetapas.Nessecaso,a
percepçãodeumrostodepende
emgrandemedidadasposições
relativasdosprincipaistraços
fisionômicos:olhos,narizeboca.
A facedeBush,mesmoinvertida,
é percebidacomoface,assim
comoumacadeiradecabeçapara
baixoéidentificadarapidamente
comocadeira.Em contraste,a
expressãotransmitidaporcarac-
terísticassecundáriasdepende
exclusivamenteda orientação
delas(cantosda bocavirados
parabaixo,distorçãodasso-
brancelhas),independentemente
o
000.
000
03
da orientaçãogeralpercebida
dacabeça,istoé,o "contexto".
O cérebronãoé capazde
fazera correçãodos traçosfi-
sionômicos;elesnãosãoreinter-
pretadosdeformacorretacomo
ocorrecoma imagemgeraldo
rosto.O reconhecimentode
certascaracterísticas,comoos
cantosda bocae assobrance-
lhas,é algomuitoprimitivona
escalaevolutiva;talveza habi-
lidadecomputacionalexigida
paraa reinterpretaçãosimples-
mentenãotenhaevoluídoneste
caso.Parao reconhecimento
globaldo rostoapenascomo
rosto,poroutrolado,osistema
podesermais"tolerante"com
o tempocomputacionalextra
exigido.Essateoriaexplicaria
porqueosegundorostoparece
normalemvezdedeformado;as
feiçõessãodominantesatéque
elesejainvertido.
O mesmoefeitoé demons-
tradodemodomuitosimplesnas
carinhasacima.De cabeçapara
baixonãoémuitofácilsaberqual
estáfelizouzangada,aindaque
vocêasreconheçacomorostos.
(Pode-sededuzirpelalógicaqual
éosorridenteequalestácarran-
cudo,masissonãoé resultado
de percepção.)Gire a revista
> 180grause asexpressõesserão
reconhecidasfacilmente.
Porfim,sevocêseinclinare
olharasduasfotosdeBushpor
entreaspernas,asexpressõesvão
se tornarsurpreendentemente
claras,aindaqueasfacescon-
tinueminvertidas.Esseefeitoé
decorrentedacorreçãovestibular
aplicadade formaseletivaao
rosto,massemafetarapercep-
çãodasfeições(queagoraestão
decabeçaparacimanaretina).
Independentementedacorreção
vestibular,o quecontaéaforma
dostraçosnaretinaeascoorde-
nadas"emsintoniacomomundo"
quetaiscorreçõespermitemao
cérebrocalcular.
Movimento ignorado
A correçãovestibulartambém
não ocorrequandopercebe-
mosformaeprofundidadecom
baseempistasfornecidaspelo
sombreamento.Ao lado,você
vêumasériede"ovos"convexos
espalhadospor cavidades.Os
centroscerebraisenvolvidos
nacomputaçãodesombreados
tomamporregraqueo Solem
geralbrilhadecima,portanto
as saliênciasseriamclarasno
topoeasáreascôncavas,claras
embaixo.Sevocêgiraapágina,
os ovos e as cavidadestro-
camdelugarinstantaneamente.
É possívelverificar esse
efeitoaorepetira experiência
deolharporentreaspernasen-
quantoapáginaestádecabeça
paracima(emrelaçãoà força
da gravidade).Umavezmais,
os ovose ascavidadestrocam
delugar.Mesmoqueo mundo
comoumtodopareçanormal
e de cabeçaparacima (por
causada correçãovestibular),
os módulosdo cérebroque
extraemasformascombasenas
premissassobreossombreados
nãosãocapazesdeusaracor-
reçãovestibular.Essefenômeno
faz sentidodo pontodevista
evolutivoporqueemgeralnão
seandapor aí decabeçapara
baixo- deformaqueépossível
evitaro cálculoextradecorri-
girainclinaçãodacabeçatoda
vezqueseinterpretamimagens
sombreadas.Como resultado,
suamaquinariaperceptivanão
temsintoniafinaperfeita,masé
confiávelestatisticamente,além
de freqüentee rápidao sufi-
cienteparapermitirquevocê
produzaresultados,mesmose
aadoçãodetais"atalhos"tornar
o sistemafalívelvezporoutra.
A percepçãoé confiável,mas
não infalível;é uma"caixinha
desurpresas".
Umúltimoponto:dapróxima
vezquesedeitarnagrama,ob-
APARENTEMENTEIDENTICOS,os retratosde Bush (acima)serevelam
bem distintossevistosao contrário
~
~
~
~~
FIGURA~ PARJ\O
CE.PIBRO,a luzvem
sempredecima,por
issooscírculoscôncavos
e convexostrocamde
lugarinstantaneamente
quandoa imagemé vista
de cabeçaparabaixo
~
~
serveaspessoasandandoaoseu
redor.Parecequeelasestãode
péeandamnormalmente,claro.
Masagoraolheenquantovocê
estiverdecabeçaparabaixo.Se
vocêpraticaioga,podetentar
a posiçãodocachorroolhando
parabaixo.Ou apenasdeitede
ladocomumaorelhanochão.As
pessoasaindavãoparecerdepé,
comoesperado,masderepente
vocêasverábalançandoparacima
eparabaixoenquantoandam.Esse
movimentoficaclaroinstantane-
amenteporque,apósanosvendo
aspessoasdepé,vocêaprendeu
aignorara fIutuaçãoparacimae
parabaixodecabeçae ombros.
Umavezmais,ofeedbackvestibular
nãoconseguefazeracorreçãoda
cabeçabalançando,mesmoque
forneçacorreçãosuficientepara
permitiravisãodaspessoasdepé.
Vocêpodeestarconfusocomtan-
tosgiroseinversõesparaentender
tudo isso,masno fim perceberá
quevaleuoesforço. me-:
Orientatlonandtono.
Irvin Rock.Academic
Press,1973.
MargaretThatcher:
a newlIIuslon.
PeterThompson,em
Perception,vol.9,págs.
483-484,1980.
www.mentecerebro.com.br69
TranSDarente
eobvio
u
Utilizamosrecursosneurológicossofisticados
paraprocessarinformaçõessobrea core o
brilhodosobjetos- masnemsemprenossas
conclusõesseguemasleisda física
PORVlLAYANURS. RAMACHANDRANE
DIANEROGERS-RAMACHANDRAN
Acapacidadehumanade percebercenas eimagenssemesforçodependedaorganização.nteligentedosconhecimentosquetemossobre
o mundo.Masquão"esperto"é nossosistemavisual?
Qual é seuQI? Ele trabalha,porexemplo,segundo
asleisdafísica?Usa apenasa lógicaindutiva(como
muitosespecialistassuspeitam)outambémpodefazer
deduções?Como lida com paradoxos,conflitosou
informaçãoincompleta?Quãoadaptáveleleé?
Um insightdainteligênciaperceptualvemdo
estudo sobre transparências,um fenômenoex-
plorado pelo psicólogoda GestaltFabio Metelli
(1907-1987).Ele chamoua atençãoparao fatode
queilusõesconvincentesdetransparênciapodemser
produzidaspelousodedisplaysrelativamentesimples.
A palavra"transparência",porém,emgeraléusada
de formavaga.Porvezessereferea verumobjeto,
comoumalentedeóculosdesol;outrasvezes,significa
apossibilidadedeveralgoatravésdevidrofosco,um
fenômenoconhecidocomotranslucência.Nesteartigo
vamosnosateraoprimeiro.
Vamosconsiderarprimeiroafísicadatransparên-
cia.Sevocêcolocarumfiltroretangulardedensidade
70 MENTE&:CÉREBRO .ARMADILHASDA PERCEPÇÃO
neutra,digamosóculosescuros,sobreumafolhade
papelbranco,essefiltro permitiráa passagemde
apenascertaproporçãode luz- porexemplo,50%.
Colocadodeoutraforma,seo papeltembrilho,ou
luminância,de100candelas(cd)pormetroquadrado,
aporçãocobertapelofiltroteráluminânciade50cd.
Sevocêentãocolocaroutrofiltro,demaneiraqueele
parcialmentesesobreponhaaoprimeiro,aregiãode
sobreposiçãoreceberámetadedos50%originaisdeluz
- ou'seja,25%.A relaçãoésempremultiplicativa.Issobasta,noqueserefereàfísica.E apercepção?
Se,comoema(verPág.72),vocêtemapenasumafigura
geométricaescurano meio de um quadradoclaro
(o primeirocom50cd e o segundocom 100cd),o g
quadradodedentropodeserouumfiltroquecortaa !
luzem50%,ouumaformaescuraquerefleteapenas ~
50%daluzincidentenoambientecircundante.Sem ~
informaçãoadicional, nãohá meio deo sistemavisual ;
saberqualcondiçãoexiste- pelofatodeoúltimocaso ~
g
serdelongeomaiscomumnanatureza,istoé,oque ~
estamosmaisacostumadosaver. ~
Masagoraconsideredoisretângulosqueformam
umacruzcomumaregiãosobrepostanomeio(ver
zo
~
~
11; i1"
,
\I
www.mentecerebro.com.br71
www.mentecerebro.com.br71
pág.72).Nestecasoéconcebível
- e atémaisprovável- queessa
configuraçãorealmenteconsista
em maisde duaspeçasretangu-
laressobrepostasdoquedecinco
blocos arranjadospara formar
umacruz.Mas,sefor o primeiro
caso,ocoeficientedeluminância
devesertalqueo quadradocen-
tral (a regiãode sobreposição)
seja maisescuroque os outros
quadradose,evidentemente,mais
escuroqueo fundo.Emparticular,
aluminânciadoquadradocentral
deveriaserumafunçãomultipli-
cadoraemrelaçãoaosdoisfiltros.
Seasregiõesnão-superpostasdos
doisretângulosrepresentam,por
exemplo,respectivamente66%e
50%dofundo,o quadradointer-
no portantodeveter50%desses
66%,ou aproximadamente33%
(ouseja,33cd,considerandoque
o papeltenhatOOcd).
Agoraaquestãoé:osistemavi-
.
o
1-
00
«» o
72 MENTE&CÉREBRO.ARMADILHASDA PERCEPÇÃO
sualtemum"conhecimentotácito"
de todosessesfatores?Podemos
descobrirutilizando uma série
de displays(B, C e D) nosquais
o fundoe os retângulostenham
luminânciafixa(taiscomo t00 e
50cd,respectivamente),enquanto
mudamosapenasa luminância
do quadradointerior.Em termos
de luminânciaqueexistiacom a
transparênciafísica,o quadrado
internodeveser escurodemais
(B), apropriadamenteescuro(C)
ouclarodemais(D).Sevocêolhar
paraessasfigurassemsabernada
defísica,veráosretânguloscomo
transparentesemc,masnãoemBe
D. É quasecomoseseusistemavi-
sualsoubesseo quevocênãosabe
(ounãosabiaatéleresteartigo).
Esseexperimentosugereque
duascondiçõestêmdeserpreen-
chidasparaquea transparência
sejavista.Primeiro,devehaver
uma complexidadeda figura e
umasegmentaçãoquejustifiquem
essainterpretação(e daí a não-
transparênciaemA). Segundo,os
coeficientesdeluminânciatêmde
sercorretos(nenhumatransparên-
ciaévisívelemB eD).
As transparênciassão bem
menosfreqüentesqueassombras.
Épossívelqueas"leis"dapercep-
çãoqueexploramosatéagora
tenhamevoluídoprincipalmente
paralidarcomassombrasedis-
tingui-Iasdeobjetos"reais",que
tambémproduziriamdiferenças
de luminânciana cenavisual
comoresultadodediferençasna
reflexãodaluz(porexemplo,as
listrasdazebraouumgatobranco
emumacolchanegra).
A sombraprojetadaporum
objetocomoumaárvorepoderia,
pelomenosemteoria,sertotal-
menteescurasehouvesseuma
únicafontedeluzdistante,sem
dispersãooureflexos.Comumen-
te,noentanto,aluzambientedo
entornocaisobrea sombra,de
modoqueresultaumasombra
escura,masnãonegra.Seasombra
daárvorerecaisobreumacalçada
e umagramamaisescura(E),a
maneirapelaqualamagnitudeeo
sinaldeluminânciavariamaolon-
godasbordasdasombraéidêntica
emambososlados,o dasombra
e o da luz.Essaco-variaçãoda
luminânciaindicaaocérebroque
setratadeumasombra,nãodeum
objeto,oudeumatextura.
Acontecequeasmudançasde
brilhonatransparência"imitam"
o
aquelasquesãovistasnassombras.
O sistemavisualpodeterevoluído
paradescobrirereagirapropriada-
menteàssombras,maisqueafiltros
transparentes.Se issonãotivesse
ocorrido, você poderia tentar
agarrarumasombra,oucautelosa-
mentepulá-Ia,paraevitartropeçar,
nãopercebendodejeitonenhum
queaquilonãoeraumobjeto.
O interessanteé que,embora
nossosmecanismosdepercepção
pareçamconscientesda físicada
transparênciarelativaàluminância,
deformageral,elesparecemcegos
às leis relativasà transparência
específicada cor.Em F e G, temos
duasbarrasquecruzam,ambas
comluminânciade,digamos,50%
dofundo.Nósasprojetamospara
queemG aregiãodesuperposi-
Q çãotenha25%daluminânciado
! fundo,comodeveriaserseestivés-~
; semosapenaslidandocompro-
~ priedade.Mas,seascoresdosdois~
& filtrosfossemdiferentes- comode
i'!
~ fatosão-, azonadesuperposiçãor deveriasertotalmentenegra,ef
~ nãocinza.A razãoparaissoéque~
~ ofiltrovermelhotransmiteapenas
.~ comprimentosdeondalongos(ver-
~ melhos)quandoaluzoatravessa,e
i o filtroazultransmiteapenascom-"
~ primentosdeondacurtos(azuis).
~ Então,sevocêcruzarosfiltros,
o
nenhumaluzatravessará- azona
de superposiçãoseria,portanto,
negra.Naverdade,atransparência
é percebidanão quandoa zona
do meioé negra,masquandoé
de 25% (G). Aparentemente,o
sistemavisualcontinuaa seguir
a regrada luminânciae ignoraas
incompatibilidadesdecor.
Um efeitocuriosoocorrese
vocêcolocarumacruzcinzasobre
umfundobrancocomo meioda
cruztendoumtomdecinzamais
leve.Emvezdereconheceracruz
maisclarapeloqueelaé,océrebro
prefere"vê-Ia"como sefosseum
pedaçocircularde vidro tingido
oudeumpergaminhosuperposto
sobre a cruz cinza maior. Para
conseguiressapercepção,o siste-
manelVosotemde"alucinar"uma
áreadeumvidrofoscoilusóriona
porçãoquecercaaregiãocentral
da cruz.E o efeitoseráespecial-
menteconvincentesevocêtiver
umconjuntodecruzescomoaque
aparecenafigurai.
Mais umavez, o coeficiente
de luminânciaentre o entorno
(branco),a cruz(cinzaescuro)e a
regiãocentral(cinzaclaro) tem
de sercorretoparaqueo efeito
ocorra- seestiverincorreto,o
efeitodesaparecerá(1).Emoutras
palavras,oscoeficientesdevemser
compatíveiscomo queocorreria
com assuperfíciestraJlslúcidasver-
dadeiras(porexemplo,névoaem
vidrofosco).O efeitoseráainda
maisimpressionantesehouverum
componentecromático(K).
Assim,mesmoqueo sistema
visual"nãosaiba"sobreasubtração
decores,seoscoeficientesdelumi-
nânciaforemcorretos,ascoresse-
rãoreconhecidasjuntamentecom
o espalhamentodaluminância.
Da frente para o fundo
Outrofenômenointrigante,pro-
postopelo psicólogoitaliano
CaetanoKaniza,podeservisto
emI: oefeitodoqueijosuíço.Se
olharparaelecasualmente,você
veráumlargoretânguloopaco
comburacossuperpostosporum
retângulocinzamenorsobreum
fundonegro.Mas,comalgum
esforçomental,pode-secomeçar
a imaginaro retângulocinza-
claroportrásdosburacoscomo
naverdadeumretângulobranco
translúcidoemfrentedosbura-
cos,ecomeçardaíaperceberum
retângulotransparente,atravésdo
qualseenxergammanchasnegras
nofundo.Essailusãodemonstrao
efeitoprofundodasinfluências"da
frenteparaofundo"napercepção
desuperfícies- o quesevênãoé
totalmentedirigidodofundopara
afrente,pormeiodeumprocesso
hierárquicoserialprocessadona
entradafísicadaretina.
Tomadascoletivamente,essas
demonstraçõesnospermitem
concluirquenoprocessovisual
Sistemavisual
evoluiupara. "
reagIras
variaçõesde
luz;porisso
percebemosas
sombrasenão
tentamospulá-
Ias,paraevitar
tropeçar
www.mentecerebro.com.br73
I
I I, ..-I-'I-I=C _ 8
o I -1--1 I._._J_.-. 8 8_I I I .. '
A realidadedoscontornosilusórios
Ascélulasficam
IIf ti da 11a ga s com
o olharfirme
"
econtinuo,
queastoma
hiperativas;
então,umnovo
grupocelularé
recrutadopara
o IItrabalho"
Os computadorespodem
fazercálculosaumaassom-
brosavelocidade,masnão
sãopáreoparaa misterio-
sa capacidadedo sistema
visualhumanode montar
umquadrocoerenteapartir
de fragmentosambíguos
deumaimagem.O sistema
nervosopareceacertarsem
nenhumesforçoainterpre-
taçãocorreta,utilizandoo
conhecimentoembutidonas
estatísticasparaeliminaras
soluçõesimprováveis.
Esseaspecto"solucio-
nador" de problemasda
percepção é admiravel-
mente ilustrado pelo fa-
mosoretânguloilusóriodo
psicólogoitalianoGaetano
Kanizsae do neuropsicó-
logo Richardl. Gregory,
ambosdaUniversidadede
Bristol, na Inglaterra. O
cérebroconsideraaltamen-
te improvávelque algum
cientistamaliciosotenha
deliberadamentealinhadoquatro peças(chamadas
,.
"
o
r
L
G
~
.
,
...J
74 MENTE&CÉREBRO.ARMADilHAS DA PERCEPÇÃO
pac-men)destamaneirae,
pelo contrário,interpreta
parcimoniosamenteque é
umretângulobrancoopaco
cobrindoparcialmentequa-
trodiscospretosemsegun-
doplano.Oimpressionante
équeatépreenchemos,ou
"alucinamos",as bordas
do retângulo-fantasma.O
principalobjetivodavisão,
aoqueparece,ésegmentar
acenaedescobriroslimites
dosobjetosparaque seja
possível identificá-Ios e
reagiraeles.
Ora, poderíamospen-
sar que a merapresença
de bordas bastaria para
o cérebro"preencher"o
vazio,masb derrubaeste
argumento.Ao comparar-
mosaausênciadoscontor-
nosilusóriosembcomsua
presençaema,concluímos
queapistacrucialéa oclu-
são implícita.
Em c e d, sobrepomos
a emumfundode tijolos.
Percebamosque,emd,os
contornosilusóriosdesapa-
recem.O cérebropercebe
queumretângulodeveser
opacoparaocluir os qua-
tro discospretos.Mas se
for opaco,comoos tijolos
podemser vistosatravés
dele?Portanto,o cérebro
rejeitaessapercepção.Em
c, os tijolossãoalinhados
para que as bordascoin-
cidamcomas bordasdas
peças.O retânguloocluso
voltaa emergir;de fato,é
realmentemaisvívidoque
o contornoilusóriopor si
só. Quandováriasfontes
de informaçõessobreuma
borda(nestecaso,oslados
definidospelaluminância
dos tijolos e os ilusórios
implícitos pela oclusão)
coincidemespacialmente,
o cérebroconsideraesta
concomitânciaumaevidên-
cia contundentede que a
bordaé real.
Como,então,explica-
mos o desaparecimento
do retânguloilusório em
e - que poderia ser inter-
pretadologicamentecom
um retângulotexturizado
ocluindoquatrodiscoscin-
zanosegundoplano?Para
entender esta anomalia,
precisamosrecorrerauma
explicação por meio de
máquina(hardware)emvez
depormeiode"programa"
("software").Percebaque
equiparamosa luminância
médiada textura àquela
das peças.Os neurônios
do cérebro que extraem
as bordasilusóriaspodem
identificarapenasaquelas
bordasdefinidaspor dife-
rençasnaincidênciadaluz,
porcausadomodocomoos
neurôniosevoluíram.Por
serempeçasda exposição
definidasporumadiferen-
ça de granulação,não de
luminância,não se vêem
contornosilusórios,mesmo
quealógicadasituaçãode-
terminequeelesdevessem
servistos.
Em f, sobrepomosum
círculo ilusório sobre um
simplesgradiente de lu-
minância.É intriganteque
a região encerradapelo
círculopareçaseavolumar
diretamenteem nossadi-
reção, especialmentese
apertarmosos olhospara
borrarligeiramentea ima-
gem.O cérebrodeduzque
o gradiente deve ter se
originado de uma super-
fície curva iluminadade
cimaparabaixo,eocírculo
ilusóriointeragecomesta
impressãopara produzir
a interpretaçãofinal de
uma esfera.Contudo, se
.. ,..
sobrepusermosumcírculo t. " . ""real",finoe decontornopreto,feitodeumaborda
realbaseadaemluminân- 8 «I)
cia, não surgirá nenhuma
protuberância.Esteachado
levaao aforismoparadoxal "I. . .queinventamosparairritarosfilósofos- a saber,que - - .
oscontornosilusóriospare-
cemmaisreaisqueosreais.
Taisbordaspodemsurgir
nocenáriovisualporvários
motivos- apresençadeuma
sombra,porexemplo,oude
listrasde umazebra.Não
precisamnecessariamente
implicarlimitesdeobjeto.
Em1961osneurobiólo- a existênciadetaiscélulas seencontramligadosumgrau
gosDavidH.HubeleTorsten noprópriocérebro.Sevocê impressionantede"sabedoria"
N.Wiesel,ambosentãona olharfixae continuamente sobreasestatísticas,eleisfísicas
UniversidadeHarvard,des- nopontovermelhoàdireita datransparência,pormeiodecobriramoalfabetobásicoda emc,perceberáque,depois
visão(maistarde,dividiram dealgunssegundos,oretân- umacombinaçãodeseleção
umPrêmioNobelemFisio- guioilusóriodesaparecerá naturale aprendizado.Mashá
logiaouMedicinaporseus gradualmente,mesmoque limitesparaessasabedoria.O
esforçosdeentendero pro- vocêaindaenxergueostijo- sistemavisualparecenãotolerar
cessamentodeinformações lose ospac-men.Ascélulas coresincompatíveis.É incapaz
nosistemavisual);neurônios sinalizadorasdasbordasilu- deaplicarafísicadasubtraçãode
individuaisdaárea17e da sóriasficam"fatigadas"com cores,emparteporqueacapaci-
área18(dolobooccipital) o olharfirmee contínuo,o dadedepercebermatizesevoluiu
disparamsomentequando queastornashiperativadas
linhasdeumadeterminada e esgotaseusneurotrans- muitodepoisdoaparatovisual
orientaçãosãoexibidasnum missoresquímicos.Sevocê emprimatasenãoseestruturou
localespecíficoda tela(o moverosolhos,elasreapare- adequadamente,emparteporque
"camporeceptivo").Muitos cerãoporqueserárecrutado nodomíniodaluminância,aso-
delesreagirãosomentea umnovogrupocelular.Apa- breposiçãodecorémuitomenos
umalinhade umcompri- rentemente,essascélulasde comumnomundonaturalquea
mentoespecífico- seela for contornoilusóriosefatigam transparênciaeatranslucência.
maislonga,interromperão maisfacilmentequeaquelas
osdisparos(end-stoppedcells, sinalizadorasdasbordas Podemosconcluirquemesmo
célulasinterrompidaspela reaisdostijolosedaspeças. queo sistemavisualpossafazer,.
extremidade).O neurofi- Nasimagensmaiscomple- usosofisticadodetaisproprie--
siologista Rudiger von der xas, as células nos estágios Q dadesabstratas,como os coefi-z
Heydt,daUniversidadeJohns iniciaisdo processamentovi- cientesda física da luminância lhe perceptlonof
Hopkins, sugeriu que elas sualpodem sinalizar bordas
z
e asestatísticasde segmentação transparency.Fabio<u
estivessemsinalizando uma ilusórias, mas a modulação Metelli,emSdentific... requeridaspelatransparência,ele
oclusãoimplícitaqueestives- de cima para baixo baseada American,vol.230,rPI4,< é"burro"noqueserefereaoutrasseefetivamenteretalhandoa naatençãovisualpode rejei-
u págs.90-98,1974.iA:
linhae assim,realmente,as tar ouaceitaroscontornos, características,comoacor,por Pen:eptlonofIrans-z...
causadamaneirafortuitapelaqualcélulasreagiriamaoscontor- dependendo da coerência
ij parencyIn statlonaryVI
nos ilusórios. global da cena.
...
seuhardware(ou sua"imprecisão") andmovlngImages.QVI
Cada um de nós, po- .g evoluiupormeiodaseleçãonatu- D. J. Plummere V. S.
rém, só pode demonstrar - TraduçãodeVeradePaulaAssis
< Ramachandran,emral- umaforteevidênciacontrao
VI " Spatial Vision,vol. 7,;;;)
projeto inteligente".= ore< págs.113-123,1993.
www.mentecerebro.com.br75
Cores
ilusórias
Experimentosqueenvolvempercepçõesvisuais
sugeremquea noçãodecorestáassociadaàs
formaseàprofundidade;osdiferentestonssão
sensaçõescriadaspelocérebro
POR JOHN S. WERNER, BAlNCIO PlNNA
E LOTHAR SPlLLMANN
Wemer é Ph.D. em psicologia,e professorda Universidadeda
Callfómia em Davls.Pinna é professorda Universidadede Sassarina
Itália.Spillmann é coordenador do Laboratório de PslcofísicaVisualda
Universidadede Freiburg, Alemanha.
I
mportantesinformaçõessãoperdidasquando
sevê o mundoempreto-e-branco.As cores
nãoapenasnospermitemenxergaro mundo
commaisprecisão,mastambémcriamqualidades
emergentesquenãoexistiriamsemelas.A foto-
grafiadapágina78,porexemplo,revelafolhasde
outononasplácidaságuasdeumafonte,juntamen-
tecomreflexosdeárvorese umcéuvespertino
azul-escuroatrásdelas.Na mesmacenavistaem
preto-e-branco,asfolhassedestacammenos,os
reflexosdeluzsãofracos,aáguaéquaseinvisível
e a diferençaaparentedeprofundidadeentreo
céu,asárvoreseasf<;llhasboiandonãoexistemais.
Aindasim,essepapelqueascoresexerceme
mesmosuaverdadeiranaturezanãosãobemreco-
nhecidos.Muitaspessoasacreditamqueacoréuma
propriedadedefinidoraeessencialdosobjetos,que
dependeinteiramentedoscomprimentosdeonda
de luz específicosquesãorefletidosdeles.Mas
essacrençaé equivocada.A coré umasensação
76 MENTE&CÉREBRO.ARMADIlHAS DA PERCEPÇÃO
criadapelocérebro.Seascoresquepercebemos
dependessemapenasdocomprimentodeondada
luz refletida,acordeumobjetopareceriamudar
drasticamentecomvariaçõesdeiluminação,com
névoa,fumaçae luzdefundo.Pelocontrário,os
padrõesdeatividadenocérebromantêmacorde
umobjetorelativamenteestável,apesardevariações
noseuambiente.
Muitos pesquisadoresqueestudama visão
sustentamquea cor meramentenosauxilianadiscriminaçãodeobjetos,quandodiferençasno
brilhosãoinsuficientesparataltarefa.Algunsvão
aindamaislongeedizemqueacoréumluxo,e
nãorealmenteumanecessidade:afinaldecontas,
pessoascompletamentedaltônicasemuitasespé-o
ciesdeanimaisparecemsedarbemsemo grau~
depercepçãodecorqueamaioriadoshumanos~
tem.A viadereaçõescerebraisresponsávelpela1
navegaçãoemovimento,porexemplo,éessencial-2
menteinsensívelàscores.Pessoasquedeixamde:
----.......- '"- '"' . ......' ,' ,' ,' ,/ ,/ ,; ,; ,; ,
I \
I \I ,I ,
I \
I \
I \
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FOLHAS DE
OUTONO E
REFLEXOS em uma
fonterevelam
ariquezade
informações
transmitidas
pelascores.
Muitosdetalhes
desaparecemna
versãoempreto-e-
brancodafoto
enxergarcoresapósumacidente
vascularcerebralparecemter,
foraesseproblema,percepção
visualnormal.Taisobservações
têmsidousadasparadefender
aidéiadequeo processamento
dascorestemnaturezainsular
e nãoauxilianapercepçãode
característicasvisuaiscomo
profundidadeeforma- ouseja,
queascorestêmaverapenas
commatiz,saturaçãoebrilho.
Masoestudodascoresilusó-
rias- queo cérebroé induzido
a enxergar- demonstraque
o processamentode coresno
cérebroestáatreladoaoproces-
samentodeoutraspropriedades,
taiscomoformasebordas.Por
dezanos,tentamoscompreender
comoascoresinfluenciamaper-
cepçãodeoutraspropriedades
dosobjetos.Paraisso,testamos
uma série de novasilusões,
muitasdelascriadaspor nós.
Elastêmnosajudadoaentender
comooprocessamentoneuralde
coresresultaempropriedades
emergentesenvolvendoformas
e bordas.Antes de começar
nossadiscussãosobre essas
78 MENTE&:CÉREBRO .ARMADilHAS DA PERCEPÇÃO
ilusões,entretanto,precisamos
relembrarcomoo sistemavi-
sualhumanoprocessaascores.
A percepçãovisualcomeça
coma absorçãode luz- mais
precisamente,a absorçãode
pacotesdiscretosde energia
chamadosfótons- pelosconese
bastoneteslocalizadosnaretina
(verquadronapág.80).Oscones
sãousadosparaavisãodiurna;
os bastonetessãoresponsáveis
pelavisãonoturna.Umfotorre-
ceptordotipoconerespondede
acordocomonúmerodefótons
quecaptura,e suarespostaé
transmitidaadoistiposdiferen-
tesdeneurônios,aschamadas
célulasbipolaresoneoff(palavras
eminglêsparaligadoedesliga-
do,respectivamente).Essesneu-
rônios,por suavez,fornecem
inputparacélulasganglionares
oneoff,queseencontramlado
aladonaretina.
As célulasganglionarespos-
suemos chamadoscampos
receptorescentro-periferia(em
inglês,center-surround).O campo
receptorde qualquerneurônio
relacionadoàvisãoé a áreade
espaçono mundofísico que
influenciaa atividadedesse
neurônio.Umneurôniocomum
camporeceptorcentro-periferia
respondedemaneirasdiferentes
dependendodaquantidaderela-
tivadeluznocentrodocampoe
naregiãoemvoltadocentro.
Umacélulaganglionaron
dispara intensamente(com
freqüênciamaisalta)quando
o centro é maisclaro que a
periferia,e fracamentequando
o camporeceptoré uniforme-
menteiluminado.Célulasoffse
comportamdamaneiraoposta:
respondemquandoo centroé
maisescuroquea periferia,e
quasenãodisparamquandoo
centroea periferiasãounifor-
mes.Esseantagonismoentre
o centroe a periferiasignifica
queascélulasganglionaresres-
pondemao contraste,e dessa
maneirarefinama respostado
cérebroamargensebordas.
Os axôniosdascélulasgan-
glionares(fibras)transmitemseus
sinaisparaocérebro,especifica-
menteparao núcleogeniculado
lateraldo tálamo(próximoao
\o
..
...
..
'-
centrodo cérebro),e daípara
o córtexvisual(napartedetrás
docérebro).Diferentespopula-
çõesdecélulasganglionaressão
sensíveisa atributosdistintos
dosestímulosvisuais,taiscomo
movimentoe forma, e suas
fibrasconduzemos sinaiscom
velocidadesdiferentes.Ossinais
decor,porexemplo,sãolevados
pelasfibrasmaislentas.
Acredita-seque cercade
40%oumaisdocérebrohumano
estejaenvolvidono processa-
mentodeestímulosvisuais.Nas
áreasestimuladasno princípio
do processamentovisual(par-
tesdo córtexvisualchamadas
VI, V2 e V3), os neurônios
I sãoorganizadosemmapasque
i fornecemumarepresentação
1 pontoapontodocampovisual.
~ Daí,ossinaisvisuaissedispersam
~ paramaisde30áreasdiferentes,
~ interconectadaspormaisde300
~circuitos.Cadaumadessasáreas
~ temfunçõesespecializadas,
~ comoo processamentodecor,
i movimento,profundidadee
~ forma,emboranenhumadelas
~sejaa mediadoraexclusivade
umaqualidadeperceptual.De
algumamaneira,no finaltodas
essasinformaçõessãocombi-
nadasnumapercepçãounitária
deumobjetocomcore forma
particulares.Os neurocientistas
aindanãoentendemcomdeta-
lhescomoissoacontece.
É interessantenotar que
danosbilateraisadeterminadas
áreasvisuaislevamadéficitsna
percepçãodeformaecor,oque
forneceaindamaisevidências
dequeacornãoédesincorpo-
radadasoutraspropriedadesde
umobjeto.A misturadossinais
decoresnocérebrocomsinais
contendoinformaçõessobrea
formadosobjetospoderesultar
empercepçõesqueumaanálise
dos comprimentosde onda
refletidosdessesobjetosnão
prevêqueocorram.As ilusões
que utilizamos demonstram
issoclaramente.
o efeito aquarela
Um dos nossosprimeirosex-
perimentoscom cor ilusória
ilustraa importânciadascores
paradelineara extensãoe a
formadeumafigura.Sobcertas
condições,acorpercebidamuda
emrespostaà corcircundante;
elapodetornar-semaisdistinta
(oqueéchamadocontraste)ou
maissemelhante(oqueéchama-
doassimilação).O espalhamento
decoressemelhantes(sensação
dequeumacorseespalhapor
umaáreamaiordo quea que
elarealmenteocupa)já tinha
sidonotadoemdistânciaspe-
quenas,emconcordânciacom
o achadodequeamaiorparte
dasconexõesentreneurônios
visuaisnocérebrotemumalcan-
ce relativamentecurto.Assim,
ficamossurpresosao descobrir
quequandoumaáreasemcoré
encerradaporduaslinhaslimi-
tantesdecoresdiferentes- com
a linhainternamaisclaraquea
externa- acordalinhainterna
pareceseespalharepreenchero
espaçoadjacente,mesmoatravés
dedistânciasbastantelongas(ver
ilustraçãonestapág.).
Porqueacorpercebidacomo
espalhadaseassemelhaaumvéu
o EFEITO AQUARElA
mostraa importância
dascoresnadefinição
daextensãoeforma
deumafigura.O mapa
domarMediterrâneo
sedestacaquandoa
tintaqueanteriormente
seespalhavapelomar
(acima)passaacobrira
áreadocontinente
www.mentecerebro.com.br79
Experimentos
commacacos
mostramque
metadedos
neurôniosdo
córtexvisual
respondeà
direçãodo
contraste;
essascélulas
têmo papel
deperceber
profundidadee
distinguir
figuraefundo
diáfano,comoo queévistoem
algumaspinturascomaquarela,
demosa essailusãoo nomede
efeitoaquarela.Descobrimos
que o espalhamentorequer
que os dois contornossejam
contíguos,demaneiraqueacor
maisescurapossaagir como
umabarreiraqueconfinao es-
palhamentodacormaisclaraao
interior,aomesmotempoque
impedequeessaseespalhepara
oexterior.A figuradefinidapela
aquarelailusóriaparecedensae
levementeelevada.Quandoas
coresdocontornoduplosãoin-
vertidas,amesmaregiãoparece
levementeafastada,ecomuma
friacorbranca.
O efeitoaquareladefineo
quesetornafigurae o quese
torna fundomaisclaramente
queaspropriedadesdescobertas
pelospsicólogosdaGestaltna
viradadoséculoXX, taiscomo
proximidade,boacontinuidade,
fechamento,simetriae assim
pordiante.O ladodocontorno
duploquetemacormaisclara
preencheo interiorcomaaqua-
rela,eépercebidocomofigura,
enquantoo ladoquetemacor
maisescuraé percebidocomo
fundo.Assim,essaassimetria
eliminaambigüidadesnapercep-
çãodeumafigura.O fenômeno
éreminiscentedanoçãodeEd-
garRubin,umdospioneirosda
pesquisasobrefigura-fundo,de
queabordapertenceàfigura,e
nãoaofundo.
Umaexplicaçãoneurológica
possívelparaailusãodaaquarela
équeacombinaçãodeumcon-
tornomaisclaroladeadoporum
contornomaisescuro(sobreum
Comoo cérebropercebeascores
A percepçãodascorescomeçacomaabsorçãodeluzporcélulas
chamadascones,localizadasna retina. A respostadoscones
é transmitidaparacélulasbipolaresone off.Por suavez,estas
forneceminputparaascélulasganglionaresone offtambémna
retina. As célulasganglionarestêmcamposreceptores-espaços
domundofísicoquedeterminamaatividadedoneurônio- do
tipocentro-periferia.Umacélulaganglionarondispara ~
comaltafreqüênciaquandoocentroémaisclaroque / ...aperiferiaecombaixafreqüênciaquandoocampo /...
receptoréiluminadodemaneirauniforme.Uma l' ,/
célulaoffdisparaintensamentequandoo cen-
tro é maisescuroqueaperiferiaefracamente
quandoocentroeaperiferiasãouniformes.Os
axôniosdascélulasganglionarestransmitem
seussinaisaocérebro,primeiroaonúcleoge-
niculadolateral,edaíparao córtexvisual.
J
I
80 MENTE&CÉREBRO.ARMADilHAS DA PERCEPÇÃO
Retina
I.
G
fundoaindamaisclaro)estimula
neurôniosquerespondemapenas
aumcontornoqueémaisclaro
nointeriordoquenoexterior,ou
aumcontornoqueémaisescuro
nointeriorquenoexterior,mas
nãoaambos.A possedaborda
(seelapertenceà figuraou ao
fundo)é provavelmentecodi-
ficadanasáreascerebraisVt e
V2, responsáveispelosestágios
iniciaisde processamentono
córtexvisual.Emexperimentos
commacacos,neurofisiologistas
descobriramqueaproximada-
mentemetadedosneurôniosdo
córtexvisualrespondeàdireção
do contraste(seesseficamais
clarooumaisescuro),eportanto
poderiadelinearaborda.Esses
mesmosneurôniostêmumpapel
napercepçãodeprofundidade,
quepodecontribuirparaadis-
tinçãoentrefiguraefundo.
Nossasinvestigaçõesmostra-
ramquelinhascurvasetortuosas
produzemumespalhamentoem
aquarelamaisfortequeaslinhas
retas,provavelmenteporqueas
bordasondulantesativammais
neurôniosque respondemà
I
..
~
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y
~
4
I
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Nervo óptico
Núcleo geniculado
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<{VI IVI
:; /.w li
..
I
I
,.
..
. orientação.A corsinalizadaporessasmargensdesiguaisdeve
serpropagadapor regiõesdo
córtexquesupremgrandesáreas
docampovisual,continuandoo
espalhamentodacoratéquecé-
lulassensíveisabordasdooutro
ladodaáreafechadaforneçam
umabarreiraao fluxo.Cor e
formasão,portanto,ligadas
inextricavelmenteno cérebro
e napercepção,nessenívelde
análisecortical.
A ilusãodalinharadialfor-
necemaisevidênciassobreo
papelquea corexercenadis-
tinçãoentrefigurae fundo.Em
1941,o psicólogoalemãoWal-
terEhrensteindemonstrouque
umafiguracircularbrilhante
preenchevisivelmenteoespaço
centralentreumasériedelinhas
radiais.A figuraeabordacircu-
larqueadelimitanãopossuem
nenhumcorrelatono estímulo
físico;elassãoilusórias.A su-
perfícieilusóriabrilhanteparece
encontrar-selevementeàfrente
daslinhasradiais(verilustração
nestapág.acima).
O comprimento,a largura,
o númeroe o contrasteentre
aslinhasradiaisdeterminama
intensidadedessefenômeno.A
configuraçãoespacialdaslinhas,
necessáriaparaquea ilusãote-
nhaefeito,implicaa existência
deneurôniosquerespondemà
~terminaçãodeumalinha.Tais«
=scélulas,chamadasend-stopped,já
~foramidentificadasno córtex'"
~ visual,e talvezexpliquemesseI-
9 efeito. Essessinaislocais se
~ combinameviraminputspara
~umoutroneurônio(desegundao
~ordem),quepreencheaáreacen-
~traIcombrilhoaumentado.
~- Em nossosestudossobrea
~ ilusãodeEhrenstein,avaliamos
~variaçõesno número,compri-
§. mentoe larguradaslinhasra-
!.
I
..
f
.
I.
j
.
I
..
oFIGURAS
CIRCULARES brilhantes
preenchemo espaço
centraldeumafigurade
Ehrensteinmodificada
paraaumentara ilusão
debrilho.A figurade
Ehrenstein(diagrama
superioraolado),
desenvolvidapelo
psicólogoalemãoWalter
Ehrenstein,em1941,foi
abaseparaainvenção
denovasilusões.
Quandoseadicionaa
elaumcírculo(diagrama
inferioraolado),ailusão
deumcírculocentral
brilhantedesaparece
diais,eosexemplosqueapresen-
tamosnesteartigorepresentam
osarranjosmaisimpressionantes
queencontramos(verasilustrações
numeradas).Umavezquedeter-
minamosascaracterísticasdas
linhasradiaisqueproduziamo
círculocentralmaisbrilhante(A),
experimentamoscomvariações
naspropriedadescromáticasdo
espaçocentral.Primeiro,adicio-
namosumânulo,ouanel,decor
pretaàfiguradeEhrenstein,eo
brilhodoespaçocentraldesapa-
receucompletamente- ailusão
foi destruída,comoEhrenstein
tambémjá havianotado(ver
figuraacima).Suspeitamosque
esseefeitosurgeporqueo anel
silenciaascélulasquesinalizam
asterminaçõesdaslinhas.
Contudo,seo ânuloécolo-
rido,outrascélulaspodemser
excitadaspor essamudança.
Quando adicionamoscor ao
ânulo,o discobranconãoape-
naspareceumuitomaisclaro
(autoluminoso)quenafigurade
Ehrenstein,mastambémtinha
umaaparênciamaisdensa,como
seumapastabrancativessesido
aplicadaàsuperfíciedopapel(B).
Essefenômenonossurpreendeu;
qualidadesdeautoluminosidade
eINDUÇÃODE
brilhoanômala:
aadiçãodeanéis
coloridosfazcom
queasfiguras
ilusóriaspareçam
aindamaisbrancas.
G Lustro cintilante:
discoscinza
produzemfiguras
circularescomum
brilhotrêmulono
espaçocentral
"
\ '
I"I[o
\'
4,.
.,
..
J
( I
, J,
(
J""::;..
:!E
..
I
01NDUÇÃO
DEESCURIDÃO
anômala:discos
pretosdentrode
anéiscoloridos
parecemainda
maispretos.
GContraste
anômalodecor
cintilante:discos
cinzaenvoltos
porumanelroxo
aparecemcomo
luzespiscantes
amarelo-
acinzentadas
quandoo
desenhoouos
olhossemovem
paraumladoe
outro
p
Thewatercolor
effect:a new
principieof grouplng
andflgure-ground
organlzatlon.B.
Pinna,J. S.Wemere L
Spillmann,emVis;on
Research,vol.43,n21,
págs.43-52,janeirode
2003.
Thevisual
neurosclences.
EditadoporL M.
ChalupaeJ.S.Wemer.
MIT Press,2004.
Figureandground
Inthevisualcortex:
V2combines
stereoscoplccues
wlthgestaltrules.
F.T.Qiu e R.von der
Heyt,em Neuron,vol.
47,n21,págs.155-166,
7 dejulho de 2005.
e superfícienormalmentenão
aparecemjuntas,esãoatémes-
moconsideradasmodosopostos,
ou mutuamenteexcludentes,
de aparência.Chamamosesse
fenômenodeinduçãodebrilho
anômala.Comonoefeitoaqua-
rela,acredita-sequecélulasnas
áreascorticaisprimáriascausem
essailusão.
Em seguida,inserimosum
discocinzano espaçocentral
de umafigurade Ehrenstein
(C). Surgiu outro fenômeno
chamadolustrocintilante,no
qualobrilhoilusóriodálugarà
percepçãodeumbrilhotrêmulo
queocorrecomcadamovimento
do padrãooudoolho.A cinti-
laçãopodesurgirporcausada
competiçãoqueocorreentre
os sistemason e oII:o brilho
induzidopelalinha(incremento
ilusório)competecomo disco
cinzaescuro(decrementofísi-
co). Quando substituímosos
discosbrancoscentraisdentro
dosanéiscoloridospor discos
pretoseutilizamosumcontorno
preto(D),os discosganharam
aspectoaindamaisescuroque
a áreacircundantefisicamente
idêntica.O negrumeparece
82 MENTE&CÉREBRO.ARMADILHASDA PERCEPÇÃO
gerarumvazio,ouumburaco
negro,queabsorvetodaa luz.
Quandoodiscocentralden-
trodoanelcromáticoeracinza
emvezde pretoou branco,o
discopareciapiscare setingir
com a cor complementardo
ânuloquandoos olhos eram
movimentadosou o padrãose
movia- porexempl07deverde
quandoo anelcircundanteera
roxo(E).O contrasteanômalo
de cor cintilantedependedas
linhasradiaisedoânulocromá-
tico,damesmamaneiraqueos
outrosdependem,mastambém
possuiqualidadesúnicasquenão
parecemsersimplescombinação
de outrosefeitosconhecidos.
Nessailusão,acOfinduzidapa-
recetantoautoluminosaquanto
cintilante.Surpreendentemente,
elapareceflutuaracimadoresto
daimagem.A cordasuperfície
e a cor autoluminosanão se
misturam;pelocontrário,uma
pertenceao disconapágina,e
a outraemergedeumacombi-
naçãodasoutrascaracterísticas
dosestímulos.
No contrasteanômalodecor
cintilante,épossívelqueaslinhas
radiaisativemneurôniosend-
stoppedlocais,comofoiproposto
parao preenchimentodeespa-
ços peloscontornosilusórios,
masa atividadedessascélulas
nãoexplicacompletamentea
combinaçãodecintilaçãoe cor
complementar.Não estáclaro
seaslinhasradiaisexercemum
efeitodiretosobreo contraste
de cor,ou se a vivacidadeda
coréderivadaindiretamentedo
lustroe dacintilaçãocausados
pelacombinaçãoentreaslinhas
radiaiseocentrocinza.Os conhecimentosatuais
sobreo cérebronãopermitem
explicar tudo o que ocorre
nesseprocessoilusório.A com-
plexidadeda ilusãosugereque
é improvávelqueelaresultede
umprocessounitário,esimque
elarepresentaumatentativado
cérebrode reconciliarsinais
provenientesde múltiplasvias
especializadasque rivalizam
entresi.Muitotrabalhoaindaé
necessárioparaentendercomoo
cérebropercebeomundofísico.
Felizmente,pesquisasemanda-
mentosobrecoresilusóriascon-
tinuarãoa oferecerinstigantes
vislumbresdascomplexidades
dosistemavisualhumano....
~~tJÓl
JJIJillLffi :61J1g~ h~
1:J~
MENTE,CÉREBROE FILOSOFIA.
UMA OBRAPARAIER,PENSARE COLECIONAR.
COMPLETESOACOLEÇÁOPELOSITE
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MAISQUEREVISTAS.CONHECIMENTO.
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