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03   Filosofia do Direito   Os Sofistas

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pública (agorá), povoada por homens dotados da técnica (techne) de utilização das palavras, funcionava como oficina da intelectualidade em sua expressão oralizada. A muitos interessava o domínio da linguagem pois os discursos forenses eram encomendados a homens que se incumbiam de escrevê-los para serem lidos na tribuna perante os magistrados.
 As palavras tomaram-se o elemento primordial para a definição do justo e do injusto. A techne argumentativa facultava ao orador, por mais difícil que fosse sua causa jurídica, suplantar as barreiras dos preconceitos jurídicos e demonstrar aquilo que aos olhos vulgares não era imediatamente visível. 
 Isso favorece o desenvolvimento do discurso judiciário, pois, conquanto que bem articulado, pela força da expressão oral, e bem defendido perante os magistrados, o efeito a ser produzido pode favorecer aquele que deseja por ele ver-se beneficiado.
Prof. Jorge Freire Póvoas
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Prof. Jorge Freire Póvoas
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Filosofia do Direito
 No plano do debate filosófico, o resultado dessa mudança de eixo da cultura grega, com relação à tradição anterior ao século V a.C. (Homero, Hesíodo), não foi senão a relativização da justiça. 
 Os Sofistas foram mesmo radicais opositores da tradição, e grande parte dos esforços teóricos e epistemológicos deles recaiu exatamente contra definições absolutas, conceitos fixos e eternos das tradições inabaláveis. O que surge é o relativo, o provável, o possível, o instável. Essa posição diante dos fatos e valores desencadeou reflexão acerca do justo e do injusto. 
 Isso porque, no debate entre o prevalecimento da natureza das leis (physis - Φysis) e o prevalecimento da lei humana (nómos), os Sofistas optaram, em geral, pela segunda hipótese, sobretudo os partidários das teses históricas acerca da evolução humana, a lei seria responsável pela libertação humana dos laços da barbárie.
Prof. Jorge Freire Póvoas
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Prof. Jorge Freire Póvoas
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Filosofia do Direito
 Muitos dos cultores de movimento sofístico, embasados em tal dicotomia, advogaram a idéia de que existiria uma oposição intrínseca entre a lei da natureza (physis), o que equivale a dizer a lei do mais forte sobre o mais fraco, e a lei convencionada pelo homem (nómos), lei esta que seria artificial e que atentaria contra a ordem natural das coisas. 
 Pois coerentemente com seus ideais, que defendiam ser o homem o princípio e a causa de si mesmo, e não a natureza, a deliberar sobre qual será o conteúdo das leis é atividade preponderantemente humana, pois a natureza (physis) faria com que as leis fossem idênticas em todas as partes, tendo-se em vista que o fogo arde em todas as partes da mesma forma. 
 Preconizavam também que os homens deveriam submeter-se ao poder daquele que ascendesse ao controle da cidade por meio da força, a justiça é vantagem para aquele que domina e não para aquele que é dominado.
Prof. Jorge Freire Póvoas
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Prof. Jorge Freire Póvoas
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Filosofia do Direito
 Para os Sofistas “a noção de justiça é relativizada, na medida em que seu conceito é igualado ao conceito de lei. Logo, o que é o justo é o que está na lei. 
 O que está na lei é o que está dito pelo legislador, e é esse o começo, o meio e o fim de toda justiça. Nada do que se pode dizer absoluto (imutável, perene, eterno, incontestável) é aceito pela sofística. Está aberto o campo para o relativismo da justiça. 
Eis aí o início de um debate que haverá de se perpetuar na tradição filosófica grega pós-socrática, sobretudo evidenciada em Platão e Aristóteles, tendo-se em vista que deram azo à formação da questão: é a lei natural ou convencional? 
 Outro debate acendeu-se com o fomento dessa questão, a saber: são os gregos superiores aos bárbaros?
Prof. Jorge Freire Póvoas
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Prof. Jorge Freire Póvoas
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Filosofia do Direito
 A emergência do discurso, a proliferação de escolas de ensino de técnicas retóricas, a construção de práticas políticas e jurídicas que requeriam a sapiência de recursos persuasivos levaram ao nascimento, fortalecimento e a divulgação do vento sofístico. 
 Esmaecidas essas condições, no século IV a.C., deixaram de representar um dado prevalecente da cultura grega, quando se iniciou a polêmica com os pensamentos socráticos. 
 Nem as deusas da justiça, Thémis e Diké, dão origem às leis humanas, mas somente os homens podem fazer regras para o convívio social. 
 As leis são atos humanos e racionais que se forjam no seio de necessidades sociais, o que só é possível por meio da discussão comum, da deliberação consensual, da comunicação participativa e do discurso. 
Prof. Jorge Freire Póvoas
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Prof. Jorge Freire Póvoas
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Filosofia do Direito
 No campo do direito e da justiça, a sofística mobilizou conceitos no sentido de afastar todo tipo de ontologia ou mesmo todo tipo de metafísica ou mistificação em tomo dos valores sociais. 
 De fato, o que há de comum entre os Sofistas é o fato de, em sua generalidade, apontarem para a identidade entre os conceitos de legalidade e de justiça, de modo a favorecer o desenvolvimento de ideias que associavam à inconstância da lei e do justo.
 Confronto maior ainda se evidencia com a interlocução dos Sofistas com Sócrates, que haverá de construir todo um conjunto de ideias claramente antagônico ao dos Sofistas.
Prof. Jorge Freire Póvoas