Ética na Comunicação   Apostila de Códigos
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Ética na Comunicação Apostila de Códigos


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o nome dela é Ângela Abreu.

Pouco me lembrava do jeito de Ângela porque ela era mais nova do que eu,
embora tivéssemos sido contemporâneas no Sacré Coeur de Marie. No dia marcado
fui para o apartamento de Cazuza, para ouvir o que ele iria dizer. Ele não permitiu
que eu ficasse na sala, então fui para o quarto com o Bineco, e só a secretária
Nandinha permaneceu com Cazuza e a jornalista. Um tempo depois, Ângela Abreu
entrou no quarto para dizer que seu colega de Veja, ambos da sucursal carioca,
Alessandro Porro, também estava chegando para acompanhar a entrevista. Não me
importei porque já o conhecia \u2013 era amigo de Claude Amaral Peixoto e, com ela,
esteve uma vez em nossa casa de Angra dos Reis, além de deixar uma mensagem
elogiosa à casa no livro de visitas que mantemos lá.

Colei o ouvido na porta para ouvir as declarações de Cazuza, que, no
momento, vivia sua melhor fase do "soro da verdade". Não media as palavras. Na
sala, na frente dos jornalistas, Cazuza dizia absurdos que me deixaram bastante

preocupada. Claro, eles iriam publicar as piores coisas que ele falara, eu tinha
certeza. Liguei para o João confessando meus temores, durante a entrevista. Ele
disse que não poderíamos fazer nada e a entrevista terminou num clima bastante
cordial. Ângela Abreu se despediu alegremente e Alessandro Porro deu até um
presente para o Cazuza antes de sair: um isqueiro Zippo. Naquela noite, voltei ao
assunto com o João e, para nos tranqüilizarmos, ele telefonou para Maria Lúcia
Rangel, também amiga de Porro. Depois, ligou diretamente para o jornalista. Pediu

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que, por favor, levassem em conta o estado de saúde de Cazuza e os efeitos dos
remédios em seu comportamento. Nas duas tentativas, a resposta foi a mesma:
fiquem tranqüilos, a matéria vai estar na banca no domingo e está tudo bem!

O encontro de Cazuza com os jornalistas de veja aconteceu numa quarta-

feira e, na sexta, ainda encontramos Porro num restaurante de Ipanema, que
voltou a dizer que nada iria nos aborrecer na matéria. No final de semana, viajamos
para nossa casa de Petrópolis. Cazuza misturava sentimentos de expectativa e
euforia em relação à veja. A edição da semana, com data de 26 de abril de 1989,
foi às bancas com uma foto agressiva, que o fazia pior do que ele realmente
estava, e um título arrasador: Cazuza; Uma Vítima da Aids Agoniza em Praça

Pública. Em sua capa, veja sentenciou a morte de meu filho sem qualquer
constrangimento. Como deuses, jornalistas decidiram seu destino e, aí sim, o
exibiram em praça pública.

Na tarde de domingo, estávamos tomando sol na piscina quando João
chegou com sinais de preocupação no rosto e a revista nas mãos. Ele não sabia
como entregá-la a Cazuza e sofreu muito ao perceber suas primeiras reações. Ao
ver a veja nas mãos do pai, meu filho a agarrou imediatamente e leu a reportagem

inteirinha. Quando acabou, seus olhos estavam cheios de lágrimas:
\u2013 Eu só não perdoo eles terem posto em dúvida a qualidade de meu

trabalho!
As declarações de meu filho na matéria publicada não foram distorcidas. A

não ser o fato de ter opinado sobre o estado de saúde do ator Lauro Corona ("Ele
deve estar com aids, sim!"), nada do que ele disse me espantou, pois Cazuza nunca

escondeu sua maneira de pensar e encarar o mundo. Alguns trechos do que foi
publicado:

* "É a minha criatividade que me mantém vivo. Meu médico diz que eu sou
um milagre porque tenho tanta energia, tanta vontade de criar que é isso que me
deixa vivo. Minha cabeça está muito boa, ela comanda tudo."

* "Me sinto livre, sem medo de morrer. Da última vez em que fui para a
clínica, vi a cara da morte, entrei nela e saí, não sei como. É claro que eu não
quero morrer, mas também não quero sofrer. Já pensei em suicídio, mas agora isso
nem me passa pela cabeça. Falei com meu médico: se alguma coisa acontecer
comigo, eu não quero ver. Que ele me dê morfina, muita morfina, porque quero ir
embora dormindo. Estou pronto para assinar um papel nesse sentido. Mas não vai
ser preciso. Tenho certeza de que vou viver muito tempo ainda. Já perdi a
oportunidade de morrer, passou a minha vez."

* "Meus pais não saíram do meu lado um minuto. Minha mãe foi uma leoa,

ficava ao lado da minha cama e nem deixava que as enfermeiras me tocassem. Eu
queria sair do hospital, queria acabar logo com tudo aquilo, mas ela me mandava
ficar quieto, e eu ficava."

* "Quando eu estava no hospital de Boston, pensei muito e acabei
descobrindo que ficar calado me deixava ainda mais traumatizado. É uma situação
ambígua, de esconde-esconde. Mostrar aos outros que com a aids pode-se

continuar vivendo, trabalhando, produzindo me pareceu o caminho mais certo.
Agora me sinto mais aliviado."

* "Na última vez que me internei foi por puro álcool. Eu, que deveria ter
uma vida tranqüila, sem beber nem me cansar, passei dois dias numa praia
enchendo a cara de cachaça, de caninha 51 mesmo. Me dei mal, fui para a Clínica
São Vicente e foi um milagre não ter morrido."

O real problema da matéria se concentrava em seu parágrafo final,
editorializado, à maneira comum no comportamento da revista, quando emite um
juízo de valor em cima do personagem que acabou de retratar. Uma postura que
nos
faz pensar na autoritária posição em que a Veja se coloca, como se coubesse a um
só jornalista sentenciar com tanta convicção a obra alheia, em nome de uma
revista de respeito:

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"Cazuza não é um gênio da música. É até discutível se sua obra irá perdurar,
de tão colada que está no momento presente. Não vale, igualmente, o argumento
de que sua obra tende a ser pequena devido à força do destino: quando morreu de
tuberculose em 1937, Noel Rosa tinha 26 anos, cinco a menos que Cazuza, e

deixou compostas nada menos que 213 músicas, dezenas delas obras-primas que
entraram pela eternidade afora. Cazuza não é Noel, não é um gênio. É um grande
artista, um homem cheio de qualidades e defeitos que tem a grandeza de alardeá-
los em praça pública para chegar a algum tipo de verdade".

Em oito anos de carreira, Cazuza deixou 126 músicas gravadas por ele, 34
por outros intérpretes e mais de 60 inéditas.

Meu filho não aguentou. As lágrimas tristes se transformaram em choro
convulsivo. A pressão baixou quase a zero. Não conseguimos controlar a crise em
Petrópolis e decidimos levá-lo imediatamente para o Rio. Na estrada, com a
enfermeira e Zélia, nossa caseira de Petrópolis, ao lado, Cazuza passou por
momentos críticos. Meu desespero era tanto que temi por sua vida, imaginando que
ele não resistisse às curvas da Rio-Petrópolis. Era uma hora da madrugada quando
meu filho, já internado e medicado na Clínica São Vicente, saiu da crise e a pressão

foi estabilizada. Nesse momento, peguei o telefone e toquei para a casa da
jornalista Ângela Abreu. Ela não estava. Falei então para uma de suas filhas:

\u2013 Diga à sua mãe que estou ligando do hospital, que meu filho quase
morreu. E que eu espero que nunca ninguém faça com vocês o que ela fez a meu
filho! Diga a ela que suma da minha frente porque vou odiá-la para o resto da vida
e você devia ter vergonha de ser sua filha. Ângela abusou da generosidade de meu

filho, que lhe abriu as portas de sua casa, e depois escreveu aquela matéria
horrorosa.

Pouco depois, a própria Angela Abreu ligou e falou com João. Disse que,
apesar de seu nome estar assinado nos primeiros parágrafos da matéria \u2013 ao lado
de Alessandro Porro \u2013, ela não era a responsável pelo texto final. Para nós, que
nunca trabalhamos numa redação de jornal, mais especificamente a redação da
revista Veja, era impossível entender como uma jornalista pode assinar um texto
que não é de sua autoria.