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Arbitragem em direito societário   Pedro A. Martin   fls. 1 até 119

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deixa de produzir todos os efeitos legais. 
Obriga as partes e o próprio E stado ao cumprimento dos termos fixados 
na transação. Destarte, não será mais possível o exercício de ação judicial que 
tenha por frm o objeto de uma controvérsia já superada pelas partes por força 
do pacto privado. A transação opera efeitos constitutivos e, assim, cria, extin-
gue e modifica direitos. 
Na mesma linha de exclusão do Poder Judiciário, não raro o cidadão 
renuncia ao direito de ação, inobstante crer na existência e na consistência de 
seu direito material. Essa renúncia pode ter por causa um interesse negociai 
ou, mesmo, a noção de que o Estado não será capaz de lhe assegurar o bem 
jurídico pretendido, por força de uma hipossuficiência econômica ou pela 
antevista demora na realização da justiça. 
Seja qual for a razão que sustenta a renúncia, o fato que importa é que a 
existência de um monopólio Judiciário não tem caráter absoluto. Ao contrá-
rio, a transação e a renúncia restam por autorizar essa afirmação. 
No entanto, poderão os defensores do Estado monopolista contra-argu-
mentar que a exclusividade na prestação jurisdicional não redunda na obriga-
ção da utilização do Poder Judiciário sempre que um direito é violado. M as, 
funciona, sim, como a única opção para aqueles que tencionam resolver as 
demandas através de um terceiro investido do necessário poder de decidir. Em 
outras palavras, só o Estado é capaz de prover a jurisdição. 
Aqui, me parece, reside o outro equívoco. Confunde-se monopólio da 
justiça com monopólio do Poder Judiciário3 . Essa confusão, repita-se, advém 
do firme posicionamento da prevalência do Estado sobre a vontade das partes, 
em flagrante redução do alcance do princípio da autonomia privada. 
3 O monopólio do Poder judiciário, por princípio, se resume aos di reitos indisponíveis. 
30 · ARBITRAGEM NO D IREITO SOCIETÁRIO 
E, com esse vetor não posso concordar, sobretudo quando a realidade 
sociopolítica exige maior participação do cidadão nas atividades estatais. 
O Estado, como prestador de serviços, tem sido extremamente criticado 
pelos seus usuários. As queixas variam, mas atingem, praticamente, todas as 
áreas em que ele funciona (ou, melhor, não funciona), notadamente a saúde e 
a educação. 
E é por esse sentimento, ao menos em parte, que o Estado-empresário 
resumiu sua atuação, revertendo-a, em sua grande maioria, para as mãos dos 
particulares. Com isso, tende o Estado a focar seus objetivos nas funções que 
lhe são inerentes e básicas ao atendimento dos anseios primários da sociedade. 
Com a desregulamentação e o processo de privatização o Estado confirma 
sua inaptidão para o exercício de atividades mais complexas e de maior esforço 
econômico. E, também, talvez inconscientemente, demonstra maior confiança na 
atuação do particular. Ao menos, pode-se dizer, faz uma aposta na capacidade do 
indivíduo de cooperar na melhoria das condições do Estado. Aposta na sociedade 
e na utilidade para o Estado das múltiplas qualidades individuais nela latentes. 
E é justamente essa cooperação que o Estado busca e o indivíduo reclama na 
relação social. Essa cooperação é expressão de um viés da nova geração do direito, 
voltada para a solidariedade. Estado e indivíduo agem, solidária e harmonicamen-
te, na definição das questões administrativas, políticas e, também, jurídicas. 
Esse fato encontra sustentação na própria concepção do Estado Dem o-
crático de Direito que atua sob a égide da cidadania. Traduz-se no exercício 
da democracia participativa, onde o indivíduo coopera no gerenciamento das 
atividades públicas4 • 
Ao se defrontar com o seu gigantismo e a sua improdutividade, aliados à 
demanda por resultados eficazes nas áreas sociais básicas, constatou o Estado 
sua incapacidade para suprir todas as necessidades da sociedade, seja pelo dis-
tanciamento da realidade social provocado pela própria atuação dos represen-
tantes do povo, seja pela pouca agilidade e mobilidade de seu quadro pessoal; 
4 Segundo Maria Sylvia Zanella di Pietro, "(d)uas idéias são inerentes a esse tipo de Estado: uma 
concepção mais ampla do princípio da legalidade e a idéia de participação do cidadão na 
gestão e no controle da Administração Públ ica." In: Inovações no Direito Administrativo 
Brasileiro, Interesse Público - Revista Bimestra l de Direito Público, IP30, p. 47. 
De ressa ltar que, de acordo com a sua Consti tuição (art. 1 °), a Espanha também se sustenta na 
premissa do Estado Democrático de Direito. 
PEDRO A. BATISTA MARTINS- 31 
ou, mesmo, pela inexistência de recursos suficientes (ou sua inadequada alo-
cação) ao desiderato popular. 
Daí seu encontro com a individualidade social que muito tem a dar e a 
colaborar com o Estado na realização de seus serviços e na concretização de 
várias proposições e políticas de alcance sociais. 
São várias as manifestações nesse sentido, podendo citar o balanço social 
das companhias e a crescente participação dos cidadãos na definição da polí-
tica urbana. 
Também na área legal, cidadãos têm sido chamados a colaborar na ativi-
dade jurisdicional. Como exemplo, temos os institutos da ação popular e da 
ação civil pública, onde cidadãos ou associações detém capacidade processual 
para a propositura de ações de interesse geral. 
Na área da realização da justiça, exemplo clássico é o do Tribunal do Júri, 
onde simples indivíduos, sem qualquer vínculo com o Estado, ditam o direito 
e solucionam o caso concreto, de natureza criminal. 
Registre-se, ainda, que esse encontro Estado-indivíduo, conquanto in-
formado pelo repúdio da sociedade quanto à insuficiência e à ineficiência na 
prestação dos serviços públicos resulta, na verdade, de uma exigência dos ci-
dadãos como usuários dos serviços estatais. 
A sociedade reclama do Estado melhor nível no exercício de suas ativi-
dades, através de uma atuação mais intensa e direta do próprio indivíduo. 
Desse repúdio e dessa exigência resulta um movimento no inconsciente cole-
tivo em proveito da ampliação da autonomia privada. Esse movimento ganha 
corpo como um direito pressuposto para se tornar realidade e, acima de tudo, 
um direito da sociedade. 
Como assinala José de Oliveira Ascensão, "{o} D ireito é o que está na 
sociedade, não é o que é produzido pelo Estado'6 . 
Ou, nas palavras de Eros Grau, "O Estado põe o direito - direito que dele 
emana -, que até então era uma relação jurídica interior à sociedade civil Mas essa 
relação jurídica que preexistia, com o direito pressuposto, quando o Estado põe a lei 
torna-se direito posto (direito positivo}'16 • 
5 
6 
O Direito - Introdução c Teoria Geral, 2• ed., Rio de Janeiro: Renova r, 2001, p. 54. 
O Direito Posto e o Direito Pressuposto, 2' ed. São Paulo: Malheiros, p. 43. 
32- ARBITRAGEM NO DIREITO SOCIETÁRIO 
O direito surge da cultura da sociedade, de sua relação interior e de sua 
dinâmica. Da sociedade brota o direito. É dela que o legislador extrai a norma, 
positivando o direito. 
E, no que toca à justiça, a sociedade reclama da ineficiência na atividade 
dos serviços judiciários. Reclama da inadequação ou, pior, da usurpação de seu 
direito fundamental de acesso à justiça. 
Há tempos que se buscam portas que atendam, de forma efetiva (no 
sentido jurídico de efetividade); a pacificação dos conflitos. 
E, justamente aqui, retorno ao ponto central da questão do monopólio 
do Poder Judiciário. Não há, a meu ver, exclusividade desse poder do Estado 
no que tange à concretização da justiça. Os indivíduos são livres para solucio-
narem suas divergências por todas as formas lícitas, inclusive (mas, nunca, 
exclusivamente), através do Poder Judiciário. 
O monopólio que o Estado deve perseguir é o da salvaguarda e proteção 
da justiça, visto este sob o prisma do devido processo legal substantivo. Sob o 
prisma da observância plena dos direitos fundamentais do cidadão.

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