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ZOURABICHVILI, François. O Vocabulário de Deleuze

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nem por isso deixa de derivar de dois 
constituintes igualmente enunciáveis, e cuja enunciação cabe ao filósofo "re-tratista" 
ou "historiador", no sentido de história natural: taxinomista ou clínico, perito na 
demarcação e na diferenciação dos regimes de signos (P, 67, 186; QPh, 55): de um 
lado, uma nova imagem do pensamento, definida pela seleção de certos 
"movimentos infinitos" (novo corte no caos, novo plano de pensamento); de outro 
lado, os personagens conceituais que o efetuam (QPh, caps. 2-3 e particularmente 
p. 54, 72,78-80). 
Primeira conseqüência: o horizonte do sentido não é universal ver PLANO 
DE IMANÊNCIA; UNIVOCIDADE DO SER). Segunda conseqüência, ou vertente 
deontológica: discutir em filosofia, isto é, opor a um autor objeções somente e 
obrigatoriamente compreendidas do ponto de vista de um outro problema e sobre 
um outro plano, é perfeitamente vão, não passa da parte frívola ou vingativa da 
atividade intelectual. Não que a troca deva ser proscrita nem que o pensamento seja 
autárquico - há em Deleuze todo um tema da "Solidão povoada" -, mas o diálogo só 
tem interesse no modo da colaboração desorientadora, do tipo Deleuze e Guattari, 
ou então no modo da conversa livre, cujas elipses, descontinuidades e outras 
telescopagens podem inspirar o filósofo: D, primeira parte. QPh, 32-3, 132-3, 137-
99). Terceira e última conseqüência: a argumentação, se for plenamente exigível do 
filósofo, permanece subordinada ao ato fundamental de colocar um problema. 
 
** Esse ato de posição é a parte irredutivelmente intuitiva da filosofia, o que não 
quer dizer arbitrária, nem desprovida de rigor: simplesmente, a necessidade 
responde a critérios distintos daquele do racionalismo, isto é, de um pensamento 
que se possuiria a si mesmo; e o rigor, a virtudes distintas daquelas da inferência 
válida. Mais uma vez, esta última deve ser objeto de uma preocupação secundária, 
ou seja: subordinada e não facultativa. Se fosse facultativa, compreender-se-ia mal 
o caráter demonstrativo da enunciação deleuziana, inclusive em seus aspectos 
alusivo e digressivo, seja sob a forma polifônica, profusa e descontínua de Capi-
talismo e esquizofrenia, seja quando adota uma postura intermitente e elíptica, 
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como nos textos tensos dos últimos anos (sobre o alusivo e digressivo como 
características positivas da enunciação filosófica, cf. QPh, 28 e 150-1). Mas, se a 
validade do raciocínio fosse o primeiro critério, seria a filosofia inteira que cairia na 
armadilha das contradições aparentes, isto é, de paradoxos insustentáveis na 
medida em que não se percebe seu sentido nem sua necessidade. A filosofia 
encontra-se então diante da escolha, já que isso dá no mesmo, irracional ou 
fundadora de racionalidades heterogêneas. Irracional: a palavra só causa medo, ou 
justifica amálgamas aflitivos, do ponto de vista de uma nostalgia do racionalismo, 
isto é, de um pensamento que não teria percorrido o círculo do fundamento e não se 
teria convencido de dever sua necessidade apenas ao de fora, isto é, a um encon-
tro com o que obriga a pensar (OS, 25, 118; DR, 182). Tal encontro tem como 
critério gtie o pensamento se veja obrigado a pensar o que não obstante ainda não 
pode pensar, não dispondo de esquema disponível para reconhecê-lo, não dispondo 
da forma que lhe permitiria a priori colocá-lo como um objeto. Sob esse aspecto, a 
filosofia mostra-se inseparável não apenas de uma crença propriamente imanente, 
como também de uma parte de compreensão não-conceitual, que é também o viés 
preciso pelo qual a filosofia pode pretender dirigir-se a todo mundo (em lugar de se 
contentar com uma pretensão genérica e vaga, que "todo mundo" lhe atribui embora 
pretendendo, em contrapartida, julgá-la de acordo com seus critérios). E sem dúvida 
a filosofia pode muito bem se atribuir essa forma universal do objeto possível: ela 
revestirá então o que se apresenta com uma indumentária por demais ampla, que 
suprimirá sua singularidade em lugar de a enfrentar. Eis por que o pensamento que 
pensa seu próprio ato pensa ao mesmo tempo as condições da "experiência real", 
por mais rara que seja esta; isto é, as condições de uma mutação da condição na 
medida do que ela deve condicionar, de modo que não haja forma universal do 
objeto possível mas irredutíveis singularidades, efrações de não-reconhecível às 
quais responde, a cada vez, ao longo de uma "experimentação tateante" (QPh, 
44), uma redistribuição original dos traços que definem o que significa pensar e, 
justamente a partir disso, uma nova posição de problema. A posição de problema 
é injustificável por argumentos: os argumentos são indispensáveis, mas 
logicamente internos à problemática. E mais, se por um lado servem para 
desdobrar sua coerência, para traçar os caminhos dentro do conceito ou de um 
conceito ao outro, seria ilusório separálos do ato de colocar o problema: é que a 
consistência que eles adquirem não provém senão negativamente das regras de 
validade lógica por eles respeitadas, assim como a possibilidade lógica só 
condiciona por ausência o que chega. É evidente que, se há contradição, não se 
fala: não há interesse algum em salientar isso. Em contrapartida, as condições de 
verdade de uma proposição, a validade de um raciocínio, em outras palavras, seu 
caráter informativo, não garantem absolutamente que tenham sentido ou interesse, 
isto é, que se reportem a um problema. Isso significa que o ponto de vista da 
lógica não protege da tolice, da indiferença caótica das afirmações válidas que 
solicitam diariamente o espírito sob o nome de "informações": a filosofia não pode 
se contentar com o critério de consistência dos lógicos (sobre a questão da tolice 
como negativo do pensamento mais es sencial que o erro, cf. NPh,118s; DR,192s, 
207, 353; P, 177). Positivamente, a consistência será então definida como 
inseparabilidade de componentes conceituais de natureza estritamente do âmbito 
do acontecimento, remetendo ao ato de posição de problema cujas motivações ela 
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desdobra, e que um ponto de vista estritamente formal é de fato impotente para 
fundar, além de sequer pretender fazê-lo (QPh, 25, 233). Não há, em suma, diferença 
efetiva entre conceitualizar e argumentar: trata-se da mesma operação que precisa e 
resolve um problema. Não há lugar, em filosofia, para uma problemática autônoma da 
argumentação. O leitor pode então começar a compreender por que Deleuze pode 
dizer que "o conceito não é discursivo" (ou que o filósofo "não encadeia 
proposições"), embora "a filosofia proceda por frases" (QPh, 27-9). Compreendamos, 
em definitivo, o sentido da posição deleuziana: irracionalismo, não ilogismo; ou ainda 
lógica do irracional. "Irracional" remete, de um lado, ao encontro em que se engendra 
o ato de pensar (a esse título, ele é o correlato de "necessário"); de outro, ao devir, às 
linhas de fuga que todo problema comporta, em si mesmo e no objeto informe que se 
apreende através dele. "Lógica" refere-se à coerência do sistema de signos ou sinto-
mas - no caso, conceitos - que a filosofia inventa para responder a esse desafio. 
 
R I T O R N E L O ( D I F E R E N Ç A E R E P E T I Ç Ã O 
[ritournelle (différence et répetition)] 
 
"O ritornelo vai em direção ao agencialmento territorial, ali se 
instala ou dali sai. Num sentido genérico, chama-se ritornelo todo 
conjunto de matérias de expressão que traça um território, e que 
se desenvolve em motivos territoriais, em paisagens territoriais 
(há ritornelos motrizes, gestuais, ópticos etc.). Num sentido 
restrito, fala-se de ritornelo quando o agenciamento é sonoro ou 
dominado pelo som - mas por que esse aparente privilégio?" (MP, 
397) 
 "O grande ritornelo ergue-se à medida que nos afastamos de 
casa, mesmo que seja para ali voltar, uma vez que ninguém nos 
reconhecerá mais quando voltarmos." (QPh,181) 
 
 
* O ritornelo se define pela estrita