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LEITURA Linguagem Profisional Jurídica

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FACULDADE INTERNACIONAL DA PARAÍBA
ANÁLISE E INERPRETAÇÃO DE TEXTOS
LINGUAGEM PROFISSIONAL JURÍDICA 
Profa. Ma. Diva Helena Frazão
LEITURA E SEUS ASPECTOS
A deficiência na leitura dificulta, sensivelmente, a compreensão textual e o aprendizado. Muitos não conseguem entender o que leem e apenas reproduzem, literalmente, o que está escrito na superfície textual. 
	Devido à potencialidade semântica das palavras, que se multiplicam em sentidos (polissemia), dependendo do contexto, certas expressões tomam sentidos bem diferentes de seu sentido real ou literal (denotativo), caracterizando o que se chama de linguagem figurada (conotativa).
	Uma das características mais marcantes da língua é ser um produto sociointerativo, ou seja, a sociedade que a utiliza partilha o significado do vocabulário utilizado, quer seja denotativo, quer conotativo. Cada comunidade “escolhe” seu modo de se expressar. Assim, não dominamos a língua, mas apenas parte dela. Esse fato leva aos regionalismos linguísticos que provocam, mais das vezes, a incompreensão do todo textual.	
	Nas diversas situações discursivas, nos deparamos com textos produzidos por falantes de comunidades diferentes da nossa e, não raro, nos é impossível compreender o significado da linguagem utilizada.
	Por esse motivo, a conotação, regionalismos e gírias não são recomendados na produção de textos científicos, jornalísticos, jurídicos, entre muitos outros contextos de produção, por estes exigirem uma linguagem transparente, que permita apenas uma possibilidade de sentido. A opacidade da linguagem figurada é um recurso enriquecedor da linguagem literária. 
	Muitas vezes lemos um texto e, no final, nossa interpretação não corresponde à sua ideia central por querermos interpretá-lo literalmente ou isolarmos palavras ou frases, sem olhar o todo. Assim, a totalidade de sentido de um texto não está somente naquilo que está escrito, conhecido como superfície textual (o que é mostrado), mas também, nos aspectos considerados não ditos.
	Pode-se dizer que, no texto, existem dois planos: o mostrado nas letras, palavras, figuras e gestos e o implícito, ou seja, aquilo que está além dessas estruturas.
	Vários outros aspectos são consideráveis na produção de sentido de um texto, ou seja, de sua compreensão/interpretação. Assim várias perguntas devem ser feitas:
Qual a intenção do autor? Informar, criticar, corroborar um ponto de vista? Relatar um fato? 
De que papel social o autor fala? De quem é o discurso? De quem é a “voz”? Entende-se por discurso o que nem sempre está explícito no texto, mas denota a formação discursiva (FD) de onde partiu a ideia. Por exemplo, um fato polêmico como o aborto legal pode ser tratado de várias formas dependendo da FD a que o autor se filia – igreja protestante, católica ou esfera jurídica, etc. Aspectos linguísticos são muito importantes nessa identificação.
Qual a ideia central? Os textos trazem muitas informações, mas uma ideia o conduz, embasa e torna-se o motivo de sua existência. 
Para fazer essa leitura e interpretação, é necessário que o leitor vá além desses aspectos e os associe a sua vivência. Portanto, para compreender o que está além daquilo que é visível, precisamos:
 Ativar nosso conhecimento de mundo. Isto implica a necessidade de conhecimento acerca do assunto tratado e, muitas vezes, a visão imparcial do texto, isto é, não deixar que nossos sentimentos e opiniões embotem nossa compreensão e aceitabilidade do texto.
Reconhecer o contexto sociocultural e histórico de sua produção – período histórico, aspectos morais, sociais, ideológicos e culturais da época de sua produção e do autor.
	Entende-se por conhecimento de mundo tudo que aprendemos durante a nossa vida, arquivado em nossa memória. Por isso, é fundamental que se busque ter acesso aos diversos produtos culturais como textos diversos, música, filmes, pois quanto maior for a experiência, maior será o conhecimento.
	É certo que à visão do autor incorpora-se a do leitor, e a interpretação vai sofrer essa influência, ou seja, será resultado dessa “conversa”, provocando o que se denomina intersubjetividade, a qual resulta na produção de um novo texto (hipertexto). Isto só ocorre se houver, necessariamente, a compreensão.
	Koch e Elias (2007) dizem que “a leitura de um texto exige do leitor bem mais que o conhecimento do código linguístico, uma vez que o texto não é simples produto da codificação de um emissor a ser decodificado por um receptor passivo”.
	Uma leitura ingênua não vai além das letras e imagens. No ato da leitura, não devemos ser leitores passivos, que apenas recebem informação, mas, pessoas ativas, que buscam preencher as lacunas que o texto tem e descobrir a intenção que está por trás dessa “superfície textual”. Essa ação é o que chamamos de posicionamento crítico. 
	Os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) nos dizem que a leitura é o processo no qual o leitor realiza um trabalho ativo de compreensão e interpretação do texto, a partir de seus objetivos, de seu conhecimento sobre o assunto, o autor, de tudo o que sabe sobre a linguagem, etc. Não se trata de extrair informação, decodificando letra por letra, palavra por palavra. Trata-se de uma atividade que implica estratégias de seleção, antecipação, inferência e verificação, sem as quais não é possível proficiência. É o uso desses procedimentos que possibilita controlar o que vai sendo lido, permitindo tomar decisões diante de dificuldades.
	Uma leitura crítica vai além da superfície e adentra na intimidade do texto, identifica o não dito, as entrelinhas. É importante lembrar que todo texto tem uma intenção, nasce de uma necessidade de expressão e, portanto, conduz-se por uma ideologia.
Leia o texto abaixo:
A gula que mal mastigo
Sorvo delícias em prazeres
Compenso-me em torrões mascavados de deleite
Repasto-me em trouxas douradas de ovos moles
Degusto ostras ovadas de luar e empanturro-me em iguarias às quais não ofereço resistência
E confesso-me pecadora e escrava desta gula, que leva à mesa, o banquete que me sacia, meu regozijo e conforto, prova das minhas fraquezas.
 (ESTEVES, Maria Fernanda Reis. Disponível em: http://w.luso-poemas.net)
	Como é vista a gula pelo eu lírico? Você acha que esse seria o discurso de um nutricionista ou cardiologista? Certamente que não, pois a poetisa fala de uma Formação Ideológica diferente daquela a que pertencem esses profissionais. Mas poderia ser o discurso de uma fábrica de alimentos em um comercial.
	Analisando-se o poema, vê-se uma pessoa que se declara pecadora e escrava da gula, embora consciente de que é algo condenado socialmente. Ela sente prazer no que faz e parece não ligar por transgredir valores sociais. Sabe que a gula é uma fraqueza dela, todavia, se sente confortável. Essa consciência e esse conforto vêm marcados no poema por expressões como “confesso-me pecadora e escrava”, “sorvo”, “repasto”, “degusto” e “empanturro-me”.
	Segundo Marilena Chauí (O que é ideologia, p. 113), “a ideologia é um conjunto lógico, sistemático e coerente de representações (ideias e valores) e de normas e de regras (de conduta) que indicam e prescrevem aos membros da sociedade o que devem pensar e como devem pensar, o que devem valorizar e como devem sentir, o que devem fazer e como devem fazer”.
	Todo ato discursivo permeia-se da ideologia de seu autor que, mesclada à intenção, dá o tom do texto. Isso é muito comum na publicidade. Com o propósito de vender um produto, a empresa mostra todas as qualificações desse produto, nos passando a ideia de que ele é importantíssimo e nós somos persuadidos de tal forma que queremos adquiri-lo, mesmo sendo danoso, como as bebidas alcoólicas.
	No discurso da publicidade, a realidade é distorcida a partir de um conjunto de intenções que geram representações pelas quais somos persuadidos a explicar e compreender nossa própria vida e a dos outros. A ordem social que nos governa nos impele a agir dessa forma. Por exemplo, as novas tecnologias criaram em nós necessidades que são “despertadas”