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A arquitetura Campestre na obra de Ramos de Azevedo A Arquitetura Rural Campineira – A Fazenda São Vicente Programa de Pós-Graduação em Urbanismo CEATEC Maria Rita Silveira de Paula Amoroso Arquitetura Campestre na Obra de Ramos de Azevedo. A arquitetura Rural Campineira: A Fazenda São Vicente em Campinas CAMPINAS 2009 Maria Rita Silveira de Paula Amoroso Arquitetura Campestre na Obra de Ramos de Azevedo. A arquitetura Rural Campineira: A Fazenda São Vicente em Campinas Dissertação apresentada como exigência para a obtenção do Título de Mestre em Urbanismo, ao Programa de Pós-Graduação na área de Arquitetura e Urbanismo do Centro de Ciências Exatas, Ambientais e de Tecnologias da Pontifícia Universidade Católica de Campinas. Orientadora: Profª. Drª. Ivone Salgado Ficha Catalográfica Elaborada pelo Sistema de Bibliotecas e Informação - SBI - PUC-Campinas t728.92 Amoroso, Maria Rita Silveira de Paula. A524a Arquitetura campestre na obra de Ramos de Azevedo. A arquitetura rural campineira: a Fazenda São Vicente em Campinas / Maria Rita Silveira de Paula Amoroso.- Campinas: PUC-Campinas, 2009. 261p. Orientadora: Ivone Salgado. Dissertação (mestrado) – Pontifícia Universidade Católica de Campinas, Centro de Ciências Exatas, Ambientais e de Tecnologias, Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo. Inclui bibliografia. 1. Construções rurais – Arquitetura. 2. Construções rurais – Arquitetura – Campinas (SP) 3. Arquitetura – História. 4. Fazenda São Vicente – Campinas (SP) 5. Fazendas de café – Arquitetura. I. Salgado, Ivone. II. Pontifícia Universidade Católica de Campinas. Centro de Ciências Exatas, Ambientais e de Tecnologias. Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo. III. Título. 22.ed.CDD – t728.92 Aos meus amados pais Antonio e Iolanda que sempre me incentivaram nesse amor pelo estudo e pela pesquisa. E ao meu amado companheiro de jornada neste planeta, Luiz Claudio, que sempre está a meu lado com seu amor. Agradecimentos À minha grande amiga e orientadora Ivone Salgado, que desde o primeiro dia me motivou e me ensinou a persistir com dedicação, empenho e muito trabalho dentro deste tema tão envolvente, me conduzindo com paciência e tranqüilidade por todos os caminhos da pesquisa. E também pela oportunidade e o privilégio de trilhar a seu lado em cada congresso que participamos, em cada artigo que escrevemos juntas, sempre me motivando a participar de todos os eventos, ir além do esperado para atingir a meta proposta. Ivone, gostaria que fosse possível que todos pudessem compartilhar a mesma experiência que tive ao seu lado com as trocas de todas as experiências e vivências. Ensinar é uma arte que só pode ser realizada por grandes mestres. Eu apenas posso dizer muito obrigada por ter você ao meu lado não só como mestra, mas como amiga. - A meus agradecimentos aos mestres e doutores abaixo, pela generosidade nas discussões sobre os grandes temas trabalhados durante o curso: Prof. Dr. Wilson “Caracol” Ribeiro dos Santos Junior Prof. Dr. Denio Munia Benfatti Profª. Dra. Doraci Alves Lopes Profª. Dra. Maria Cristina da Silva Schicchi Profª. Dra. Raquel Rolnik Profª. Dra. Laura Machado de Mello Bueno Prof. Dr. Manoel Lemes da Silva Neto Profª. Dra. Maria Cristina da Silva Leme Prof. Dr. Jean Louis Cohen - À CAPES, pela bolsa de mestrado concedida, a qual foi de extrema importância para a execução deste Mestrado. - À banca examinadora, Dra. Marisa V. T. Carpintéro, Dra. Andréa B. Loewen, Dr. Eudes Campos, e aos suplentes Dr. Wilson Ribeiro dos Santos Jr e Dra. Silvana Rubino, pela disponibilidade e dedicação que prestaram ao examinarem este trabalho, cujas sugestões foram muito enriquecedoras para a versão final desta dissertação. - À grande amiga Giovana Mastromauro, que me acompanhou em todos os momentos deste Mestrado, além de congressos, equipes de trabalhos do curso e nos muitos cafés com os irresistíveis bolos de chocolate. - À amiga e futura arquiteta Beatriz Torres. - À grande e velha amiga Dionete Santin, que continua ao longo destes anos – desde o nosso curso de Ecologia na Unicamp – participando de meu percurso profissional em vários projetos, como o Projeto do Jardim Botânico da UNICAMP, realizado com nosso querido e saudoso amigo prof. Dr. Hermógenes de Freitas Leitão Filho; o Projeto do Jardim Botânico de Paulínia; e o Projeto de Restauro Histórico e Ambiental da Fazenda São Vicente (meu objeto de estudo). - Meu agradecimento a Marjorie Helena Salim Rossignatti, bibliotecária da PUC Campinas (Campus I), pelo auxílio na revisão. - A todos os funcionários de Bibliotecas consultadas e que tiveram um enorme carinho para auxiliar nas pesquisas. - Ao Eng° Agrônomo Dr. Durval R. Fernandes, pela grande ajuda nas pesquisas sobre o café. - Ao Sr. Moracy Brandão Hofling e Ligia Camargo Andrade, minha querida amiga. - Ao querido Prof. Dr. Carlos Lemos, pelas dicas e sugestões sobre a busca dos documentos referentes à produção rural de Ramos de Azevedo. - E um agradecimento especial à pessoa mais importante da minha vida: meu marido Eng° Luiz Claudio Amoroso, que participou como engenheiro em todas as obras, assim como nas pesquisas técnicas que envolveram a restauração da Fazenda São Vicente. Quero também destacar que graças à sua compreensão, dedicação e carinho, conseguiu superar a minha ausência nos muitos momentos em que foi necessária a minha presença em congressos ou pesquisas, bem como na solidão necessária do momento de redigir este trabalho. - À Minha saudosa Nina, que partiu quando finalizei este trabalho e que esteve ao meu lado durante todo este período, assim como continuou fazendo sua companheira Blondie (minhas labradoras). - A todos aqueles que estiveram ao meu lado neste período e me ajudaram de alguma forma com este trabalho: meu muito obrigado! a DEUS, por toda a proteção divina que recebo. Resumo AMOROSO, Maria Rita S. Paula. Arquitetura Campestre na Obra de Ramos de Azevedo. A Arquitetura Rural Campineira: A Fazenda São Vicente em Campinas. 2009. 261f. Dissertação (Mestrado em Urbanismo) - Programa de Pós–Graduação em Arquitetura e Urbanismo, Pontifícia Universidade Católica de Campinas, 2009. O engenheiro-arquiteto Francisco de Paula Ramos de Azevedo produziu uma obra essencialmente urbana que recebeu nos últimos anos uma significativa atenção por parte dos historiadores da arquitetura. Todavia, a produção técnica deste profissional também possuiu uma dimensão rural, como é o caso da sede do antigo complexo cafeeiro da Fazenda São Vicente, em Campinas-SP,a qual passou por uma restauração concluída no ano de 2007, e que é objeto de estudo da presente dissertação. Objetiva-se colocar em evidência as relações entre o que seria uma arquitetura urbana e uma arquitetura rural, destacando como os saberes técnicos são apropriados por agentes sociais no contexto de uma cultura burguesa no auge do ciclo econômico do café no estado de São Paulo. Termos de indexação: arquitetura eclética – arquitetura rural – café. Resumé L´ingéniuer-architecte Francisco de Paula Ramos de Azevedo a produit une oeuvre urbaine qui a reçu ces dernnières années l´atention des historiens de l´architecture. Cependant, dans la production técnique de ce professionnel nous trouvons aussi des maisons de campagne, comme c´est le cas da la maison principale de la Fazenda São Vicente à Campinas, État de São Paulo. Cette maison a subi une restauration qui a été achevée en 2007 et qui est l´objet de cette communication. Notre objectif est celui de metre en evidence les rapports entre une architecture urbaine et une architecture rural dans l´ouvrage de cet architecte. Mots-clés: architecture éclectique – architecture rural – café. “À medida que fui envelhecendo e acumulando recordações, passei a me sensibilizar mais e mais com o desaparecimento de pessoas e referências urbanas. Para mim, eram especialmente perturbadoras as inexplicáveis demolições de prédios. Eu sentia como se, de alguma forma, eles tivessem alma. Agora, estou certo de que essas estruturas marcadas por risos e manchadas por lágrimas são mais do que edifícios inertes. É impossível pensar que, ao fazerem parte da vida, não tenham absorvido as radiações provenientes da interação humana. E eu me pergunto sobre o que resta depois que um prédio é demolido.” Will Eisner• • Texto citado pela Profª. Drª. Marisa Carpintéro no dia do Exame de Defesa desta dissertação. Lista de Ilustrações Figura 1 - Fazenda São Vicente em Campinas-SP durante o restauro............. 1 Figura 2 - Fazenda São Vicente em Campinas-SP depois do restauro.............2 Figura 3 - Fazenda Governo (Paraíba do Sul-RJ)........................................... 12 Figura 4 - Fazenda Pau D ‘Alho (São José do Barreiro-SP)............................ 13 Figura 5 - Fazenda Secretário (Vassouras-RJ)................................................ 14 Figura 6 - Fazenda Santa Justa (Rio das Flores-RJ)....................................... 15 Figura 7 - Fazenda Resgate (Bananal-SP)...................................................... 16 Figura 8 - Desenho planta inferior: casa do Padre Inácio. Plantas arquivo do IPHAN.............................................................................................................. 22 Figura 9 - Casa urbana de senhor de engenho Major Luciano Teixeira Nogueira em Campinas-SP. Taipa de pilão externamente e Taipa de mão internamente.....................................................................................................23 Figura 10 - Planta do 1° andar do sobrado urbano, obedecendo ao esquema zona de estar na frente, seguida da zona de repouso, da sala de jantar e, finalmente, da zona de serviços, nos fundos. Levantamento de Adelaide M. W. D. Esposito. Ao lado, sobrado que pertenceu ao Comendador Barros, onde morou D. Maria Paes de Barros: ficava pouco afastado do centro e dispunha de amplo quintal. ................................................................................................... 24 Figura 11 - Centro de Estudos do Museu, conhecido como “Casa do Barão”, inaugurado em 2005......................................................................................... 25 Figura 12 - Reconstituição digital da casa de Rafael Tobias de Barros, 2° Barão de Piracicaba, executada a partir de antiga documentação iconográfica....................................................................................................... 26 Figura 13 - Reconstituição digital das plantas (do primeiro e segundo andar) do palacete do 2º Barão de Piracicaba.................................................................. 27 Figura 14 - Interior da residência do 2° Barão de Piracicaba, segundo declarações anônimas grafada no verso da foto, que também apresenta a data de 1876 (data da foto ou da construção?). E diz ela também: “detalhe mobília francesa Garraux”............................................................................................. 28 Figura 15 - Aspecto interno do palacete do 2º Barão de Piracicaba (Rafael Tobias de Barros, neto de Bento Paes de Barro, irmão de Genebra de Barros, que foi casada com o Brigadeiro Luiz Antonio e que são os pais do Barão de Limeira VICENTE DE SOUSA QUEIROS, proprietário da fazenda São Vicente em Campinas-SP) com a presença do genro Washington Luís e sua esposa, Sofia, filha do proprietário................................................................................. 28 Figura 16 - Residência - Barbosa de Oliveira. PROJETO Ramos de Azevedo............................................................................................................ 30 Figura 17 - Sede da Chácara das Palmeiras que pertenceu ao Dr. Frederico Borghoff, e depois ao casal D. Angelica e Francisco Aguiar Barros. Acrescentou-se o primeiro andar à casa colonial primitiva. Arquivo de Paulo Barros de Ulhoa Cintra..................................................................................... 31 Figura 18 - Palacete Campos Elísios, antigo Palacete Chaves.........................33 Figura 19 - Palacete de D. Maria Angélica de Barros (1891-3) (inspirado no Palácio de Charlottenburg, na Alemanha), hoje desaparecido. Situava-se na Avenida Angélica com Alameda Barros. Arquivo de Paulo de Barros de Ulhoa Cintra................................................................................................................ 34 Figura 20 - Palacete de D. Maria Angélica de Barros (1891-3) (inspirado no Palácio de Charlottenburg, na Alemanha), hoje desaparecido. Situava-se na Avenida Angélica com Alameda Barros. Arquivo de Paulo de Barros de Ulhoa Cintra................................................................................................................ 35 Figura 21 - Chácara do Carvalho. Desenho da fachada datada 1892 assinado por Luis Pucci e Giulio Micheli, Arquivo Histórico Municipal “Washington Luís” DPH/SMC/PMSP............................................................................................. 36 Figura 22 - Foto abaixo mostra a fachada da Chácara do Carvalho, na Alameda Eduardo Prado. Foto Guilherme galensly, utilizada como cartão de “boas festas” pelo genro do proprietário em 1904.......................................................36 Figura 23 - Fazenda Fazendinha, do Brigadeiro Luiz Antonio de Sousa e Queirós............................................................................................................. 40 Figura 24 - Fazenda Fazendinha, residência assobradada.............................. 40 Figura 25 - Engenho Mato Dentro.................................................................... 42 Figura 26 - Engenho Quilombo......................................................................... 43 Figura 27 - Fazenda Fazendinha.......................................................................49 Figura 28 - Desenho original de Ramos de Azevedo, por ele autografado, onde se notaa fuga ao neoclássico frio e o desejo do bucolismo iniciado entre as construções de classe média no último quartel do século XIX. Esse projeto foi certamente copiado do álbum de Cesar Daly................................................. 51 Figura 29 - Vista da área central da cidade de Gand, hoje mostrando sua Torre sineira (Belfort) e catedral................................................................................. 53 Figura 30 - Vista da Avenida Brigadeiro Luís Antônio. À direita, residência da Baronesa da Limeira, na esquina da Rua Riachuelo e duas casas de aluguel pertencentes à mesma senhora. Foto de autoria de Guilherme Gaensly, 1900.................................................................................................................. 77 Figura 31 - Casa de Antonio Paes de Barros................................................... 78 Figura 32 - Sala de jantar de Antonio Paes de Barros..................................... 79 Figura 33 - Reconstituição digital da reforma da fachada da casa da Baronesa de Limeira, projetada no Banco União em 1890............................................... 80 Figura 34 - Vista da Avenida Brigadeiro Luís Antônio. À direita, residência da Baronesa da Limeira, na esquina da Rua Riachuelo e duas casas de aluguel pertencentes à mesma senhora. Foto de autoria de Guilherme Gaensly, 1900...................................................................................................................81 Figura 35 - Planta da área do Bosque dos Jequitibás em Campinas-SP......... 85 Figura 36 - Instituto Vacinogênico, em 1894.................................................... 87 Figura 37 - Prédio central do Instituto Vacinogênico de São Paulo, em 1894.................................................................................................................. 88 Figura 38 - Asilo do Juqueri ............................................................................. 88 Figura 39 - Asilo do Juqueri. Galeria de ligação entre os pavilhões............... 89 Figura 40 - Lateral da Fazenda Palmital........................................................... 91 Figura 41 - Sede da Fazenda São Vicente, onde se pode notar sua implantação numa leve colina ao lado das Palmeiras Imperiais............................................92 Figura 42 - Sede da Fazenda São Vicente. Fachada lateral com sua movimentação de telhados .............................................................................. 95 Figura 43 - Sede da Fazenda Palmital, onde se pode notar o trabalho de suas fachadas proporcionado pela movimentação dos telhados e a varanda principal............................................................................................................. 95 Figura 44 - Vista da área onde existia a colônia da Fazenda São Vicente, o muro de pedra delimitava o alicerce das casas da colônia situadas entre os dois lados capela.............................................................................................. 97 Figura 45 - Planta da sede da Fazenda Palmital, Ibaté-SP. Acréscimos à caneta feito pela autora.................................................................................. 101 Figura 46 - Estudo da planta dividida do projeto de Ramos de Azevedo. Acréscimos à caneta feito pela autora........................................................... 102 Figura 47 - Planta da sede da Fazenda São Vicente, Campinas-SP............ 104 Figura 48 - Planta do porão da sede da Fazenda São Vicente, Campinas-SP ........................................................................................................................ 104 Figura 49 - Elevação Oeste da sede da Fazenda São Vicente, Campinas- SP................................................................................................................... 105 Figura 50 - Elevação Norte da sede da Fazenda São Vicente, Campinas- SP................................................................................................................... 105 ... Figura 51 - Elevação Sul da sede da Fazenda São Vicente, Campinas- SP................................................................................................................... 106 Figura 52 - Elevação Leste da sede da Fazenda São Vicente, Campinas- SP................................................................................................................... 106 Figura 53 - Detalhe lateral do lambrequim e do forro no beiral da Fazenda Palmital ...........................................................................................................107 Figura 54 - Detalhe da empena da ala lateral com destaque para as bossagens de argamassa, e o lambrequim de madeira. Fazenda São Vicente............... 108 Figura 55 - Detalhe da empena da ala de serviços, aos fundos, com destaque para as bossagens de argamassa, e o lambrequim de madeira. Fazenda Palmital ...........................................................................................................109 Figura 56 - Detalhe alpendre e das ferragens da Fazenda São Vicente e da Fazenda Palmital ...........................................................................................110 Figura 57 - Vista frontal Fazenda Palmital. Janelas com vidro interno e venezianas externamente............................................................................... 111 Figura 58 - Vista frontal Fazenda São Vicente. Janelas com vidro interno e venezianas externamente................................................................................112 Figura 59 - Detalhe da maçaneta da porta da Fazenda Palmital................... 113 Figura 60 - Detalhe da maçaneta da porta da Fazenda São Vicente............. 113 Figura 61 - Corredor da sede da Fazenda São Vicente (Campinas-SP). Neste corredor existe a clarabóia em seu forro........................................................ 114 Figura 62 - Corredor da sede da Fazenda São Vicente (Campinas-SP) visto do forro através da clarabóia, onde se observa a pintura decorativa do corredor........................................................................................................... 115 Figura 63 - Detalhe do sótão da Fazenda São Vicente (verificar a passarela criada no restauro para manutenção) ........................................................... 116 Figura 64 - Detalhe do Porão da Fazenda São Vicente (verificar a espessura do baldrame e das paredes: piso e parede foram revestidos com ladrilho hidráulico a uma altura de 0,70cm para dar maior proteção nas áreas utilizadas para serviço atualmente) ........................................................................................ 118 Figura 65 - Ladrilho Hidráulico (observar as várias cores e formas encontradas no desenho deste ladrilho, situado no alpendre da Fazenda São Vicente)........................................................................................................... 119 Figura 66 - Forro inclinado do alpendre depois do restauro (observar também as colunas em ferro fundido) ......................................................................... 119 Figura 67 - Laje em abobadilha (observar os trilhos e os tijolos nos entremeios...................................................................................................... 120 Figura 68 - Porão da sede .......................................................................... 121 Figura 69 - Assoalhos que compõem os pisos dos cômodos, na parte superior, eram todos de peroba rosa............................................................................122 Figura 70 - Janelas possuíam caixilhos de Pinho de Riga com vidros importados..................................................................................................... 122 Figura 71 - Gradil de proteção do alpendre ....................................................123 Figura 72 - Gradil de proteção do alpendre com suas colunas adornadas foram trabalhados em ferro fundido e madeira no seu corrimão, além de receberem decoração em ferro na sua parte superior...................................................... 123 Figura 73 - Sala de jantar, onde se deixou à mostra toda a riqueza das faixas e do seu uso de cores........................................................................................ 126 Figura 74 - Faixa decorativa restaurada da sala de jantar da casa sede da Fazenda São Vicente em Campinas-SP.........................................................128 Figura 75 - Observar o canto da sala na foto: um pigmento rosa atribuído à cal deu a todas as paredes desta sala uma cor rosada, sobre a qual foram pintadas as faixas decorativas........................................................................ 129 Figura 76 - Faixa decorativa restaurada compondo a pintura mural do escritório da casa sede da Fazenda São Vicente (Campinas-SP), com recurso ao repertório Art Nouveaux e utilização da técnica de estampilha ..................... 130 Figura 77 - Faixa decorativa restaurada da sala de visitas com motivo floral de planta de brejo da sede da Fazenda São Vicente, Campinas-SP...................131 Figura 78 - Detalhe da decoração pictórica da Fazenda São Vicente: corredor com Palma de Santa Rita............................................................................... 132 Figura 79 - Decoração pictórica da Fazenda São Vicente no quarto rosa, utilizando a técnica de estampilha................................................................. 134 Figura 80 - Decoração pictórica da Fazenda São Vicente no quarto lilás...................................................................................................................135 Figura 81 - Detalhe da decoração pictórica da Fazenda São Vicente no quarto lilás ................................................................................................................. 135 Figura 82 - Sala de visitas da Fazenda São Vicente...................................... 136 Figura 83 - Remanescente do único exemplar de Pau D´Alho dentro da Fazenda São Vicente..................................................................................... .137 Figura 84 - Vista aérea da Fazenda São Vicente e sua localização na Região Metropolitana de Campinas............................................................................ 139 Figura 85 - Vista aérea da Fazenda São Vicente, mostrando sua mata ao lado direito do marcador..........................................................................................140 Figura 86 - Macrozona 2: Área de Controle Ambiental....................................141 Figura 87 - Mapa da vegetação remanescente.............................................. 142 Figura 88 - Óleo de Georg Grimm retratando a Fazenda Cataguá, mostrando o morro à direita com a maneira utilizada para o plantio do café...................... 148 Figura 89 - Pintura decorativa da sala de jantar do pintor Vilaronga, Fazenda Resgate. Aqui vemos as linhas do plantio do café..........................................149 Figura 90 - Cafezal da Fazenda São Lourenço. Técnica modernamente empregada no plantio de café, utilizando curvas de nível, que asseguram a longevidade da planta e a produtividade........................................................ 149 Figura 91 - Mapa dos latifúndios pertencentes ao Brigadeiro Luiz Antonio.....167 Figura 92 - Mapa dos latifúndios pertencentes ao Brigadeiro Luiz Antonio que passaram para seus descendentes................................................................ 172 Figura 93 - Estação Anhumas. Data da construção: 1875............................. 178 Figura 94 - Estação Pedro Américo construída em 1926, do lado oposto e em substituição à antiga estação Getty construída em 1875............................... 179 Figura 95 - Estação Tanquinho construída em 1875, com foto ao lado da mesma estação em 1926................................................................................ 179 Figura 96 - Foto superior com a Estação Desembargador Furtado construída em 1875, e a foto inferior da mesma estação reconstruída em 1926............. 180 Figura 97 - Estação Carlos Gomes na foto superior construída em 1875, e na foto inferior com sua construção de 1929...................................................... 181 Figura 98 - Estação Jaguariúna – antiga Jaguary – construída em 1875, e ao lado a estação reconstruída de 1945.............................................................. 182 Figura 99 - Mapa estradas de ferro: Carta das Estradas de Ferro da Província de São Paulo, publicada originalmente no Indicador de São Paulo para 1878 (reproduzido no Livro Lembranças do Trem de Ferro, de Pietro Maria Bardi).............................................................................................................. 184 Figura 100 - Tijolo fabricado na própria olaria da Fazenda São Vicente em Campinas-SP.................................................................................................. 185 Figura 101 - Máquina combinada MACHINA SÃO PAULO existente na Fazenda São Vicente em Campinas-SP, totalmente restaurada................... 188 Figura 102 - Máquina combinada MACHINA SÃO PAULO existente na Fazenda Salto Grande em Araraquara-SP......................................................188 Figura 103 - Despolpador Duplo Lidgerwood..................................................191 Figura 104 - Descascador Arens................................................................... 191 Figura 105 - Máquina combinada para Beneficiar café.................................. 192 Figura 106 - Machina Combinada Lidgerwood.............................................. 193 Figura 107 - Uma fazenda no Estado de São Paulo mostrando a secagem do café nos terreiros............................................................................................ 195 Figura 108 - Lavagem do café (observar o tanque de lavagem do café com sua distribuição por canaletas).............................................................................. 197 Figura 109 - Tanque de lavagem do café em primeiro plano e Funil de lavagem do café mais ao fundo antes do restauro. Fazenda São Vicente................... 198 Figura110 - Funil de lavagem do café e Terreiros de café ao fundo antes do restauro. Fazenda São Vicente.......................................................................198 Figura 111 - Tanque de lavagem do café, Funil e Terreiros de café em restauro. Fazenda São Vicente......................................................................................199 Figura 112 - Funil de lavagem do café e Terreiros de café em processo de restauro, Fazenda São Vicente (observar que o funil é totalmente feito em madeira maciça................................................................................................199 Figura 113 - Pisos dos terreiros da Fazenda São Vicente............................. 200 Figura 114 - Início dos trabalhos de inspeção das canaletas antes de restaurar os terreiros. Foi necessário colocar um corante não-tóxico para verificar como acontecia a descida correta da água juntamente com ocafé dentro destas canaletas......................................................................................................... 201 Figura 115 - Início dos trabalhos de inspeção das canaletas antes de restaurar os terreiros, com a utilização de corante não-tóxico para verificação do percurso do café e sua distribuição nos terreiros........................................... 202 Figura 116 - Trilho da vagonete que levava o café até a tulha antes do restauro. Este trilho tinha sido arrancado do caminho inicial e estava torto e sem fixação em algumas partes ........................................................................................ 203 Figura 117 - Trilhos DECAUVILLE da Fazenda São Vicente em restauro; fixação do trilho no tijolo com parafuso........................................................... 204 Figura 118 - Trilhos DECAUVILLE da Fazenda São Vicente restaurados, onde se pode vê-los totalmente fixados, alinhados e com os guarda corpos de madeira em suas laterais................................................................................ 204 Figura 119 - Trilho DECAUVILLE da Fazenda São Vicente restaurado, onde se pode ler o seu nome gravado e como eram realizadas as fixações de seus parafusos....................................................................................................... 205 Figura 120 - Restauro do piso dos terreiros com a remoção de suas lajotas de barro, que foram retiradas manualmente uma a uma, selecionadas, tratadas e recolocadas novamente.................................................................................. 206 Figura 121 - Restauro do piso dos terreiros, onde se pode ver as lajotas de barro já removidas e também o início de seu assentamento..........................207 Figura 122 - Fase final do restauro, onde se nota o trabalho artesanal de observação e avaliação de cada rejunte para iniciar e finalizar com a limpeza.............................................................................................................207 Figura 123 - Porta da tulha restaurada........................................................... 209 Figura 124 - Interior da tulha depois do restaurado (observar o piso em pranchões de madeira)....................................................................................210 Figura 125 - Interior da tulha depois do restaurado (observar o telhado visto internamente e o caminho da vagonete em madeira).................................... 211 Figura 126 - Plantas e elevação da tulha, casa de máquinas e serraria da Fazenda São Vicente, Campinas-SP............................................................. 212 Figura 127 - Remoção de todas as telhas do telhado durante o restauro, onde foram lavadas, impermeabilizadas, furadas e amarradas uma a uma com fio de cobre para não escorregarem com o vento................................................... 213 Figura 128 - Remoção das telhas durante o restauro (observar que, ao lado esquerdo da foto, já se apresenta restaurado). A colocação do plástico foi para proteger da chuva o maquinário de beneficiamento do café, mas não permaneceu depois da restauração ............................................................. 214 Figura 129 - O café era transportado para a casa de máquinas por um sistema que utilizava rosca sem fim............................................................................ 215 Figura 130 - Machina São Paulo, nº 2890. A máquina combinada fabricada em Limeira, pertencente à Fazenda São Vicente, antes do restauro (notar as correias soltas embaixo da máquina)..............................................................216 Figura 131 - Machina São Paulo, nº 2890. A máquina combinada fabricada em Limeira pertencente à Fazenda São Vicente, restaurada............................... 217 Figura 132 - Lateral da Machina São Paulo, nº 2890, pertencente à Fazenda São Vicente, depois do restauro......................................................................217 Figura 133 - Parte da Machina São Paulo, nº 2890, pertencente à Fazenda São Vicente, onde se observa a peneira e as correias restauradas.......................218 Figura 134 - Motor que movimentava toda a casa de máquina e a Serraria. Motor inglês antes do restauro, Fazenda São Vicente....................................219 Figura 135 - Motor. Pelo fato de não ser possível o restauro do primeiro motor utilizado na Fazenda São Vicente, em azul, como aparece na foto, este foi substituído por outro motor novo que está localizado no interior da caixa preta, abaixo dele. Esta caixa foi feita toda com tela preta para evidenciar o novo motor em contraste com o primeiro, e também para não gerar dúvidas quanto ao restauro do maquinário............................................................................. 220 Figura 136 - Porão antes do restauro, onde se nota a umidade de suas paredes e do piso. Fazenda São Vicente.....................................................................221 Figura 137 - Porão depois do restauro com paredes de tijolos impermeabilizadas, iluminação, madeiras restauradas, e onde se pode ver também as estruturas de ferro que passaram a suportar o vigamento, o qual estava cedendo pela grande umidade provocada em suas paredes. Fazenda São Vicente..................................................................................................... 222 Figura 138 - Porão antes do restauro, Fazenda São Vicente (observar as polias e a peneira antes do restauro, além dos tijolos, pisos e madeiramento comprometidos pela umidade e pelo cupim de solo)...................................... 223 Figura 139 - Porão depois do restauro na Fazenda São Vicente (observar as polias e peneira, depois do restauro, apoiadas no pilar de tijolos agora restaurado, além de suas correias recolocadas e as madeiras tratadas)...... 224 Figura 140 - Porão depois do restauro na Fazenda São Vicente (observar as polias depois do restauro e a guia de madeira que as prende)...................... 224 Figura 141 - Chave-Faca localizada na casa de máquinas da Fazenda São Vicente. Esta chave era responsável pela ligação das máquinas para beneficiamento do café e também pela serraria; atualmente, ela ficou apenas como depoimento histórico, pois foi substituída por uma ligação moderna com abotoeira de partida rápida, que permite o acionamento de todo o maquinário e da serraria, e que se encontra visível ao público numa caixa de aço............ 225 Figura 142 - Vista do prédio onde se encontra a tulha e casa de máquina da Fazenda São Vicente, totalmente restauradas (observar a beleza e a riqueza dos assentamentos dos tijolos, suas portas e janelas em arco pleno, com portas em escuros com vitrais coloridos dentro dos arcos e os esteios de madeira bruta. Nesta foto se observa também todo o piso do terreiro restaurado)...................................................................................................... 226 Figura 143 – Serraria, vista pelos fundos........................................................227 Figura 144 - Vista lateral da Serraria ............................................................. 227 Figura 145 - Serraria da Fazenda São Vicente (observar as toras de madeira que foram cortadas e deixadas sobre o carrinho no trilho. Elas foram deixadas neste mesmo lugar desde a última vez que houve corte de madeiras nesta fazenda. A grade preta, observada na foto, foi colocada por motivo de segurança para os visitantes ..........................................................................228 Figura 146 - Serraria da Fazenda São Vicente. Telhado com reforço metálicopara as tesouras e vigas (observar no detalhe, no alto à direita, a espessura da madeira que suportava a serra).......................................................................228 Figura 147 - Serraria da Fazenda São Vicente, depois do restauro (observar a grande serra posicionada na vertical ao centro da estrutura de madeira que a suporta)....................................................................................................... 229 Figura 148 - Detalhe da Serraria.................................................................... 230 Figura 149 - Serraria da Fazenda São Vicente (observar as vigas de madeira que sustentavam o piso de assoalho onde foi notado, durante o restauro, que já estavam totalmente comprometidas pelo cupim; elas foram todas restauradas e um piso de vidro foi colocado para a sua observação)................................... 230 Figura 150 - Piso de vidro para observação das madeiras ............................231 Figura 151 - Porão da Serraria da Fazenda São Vicente (observar pilar de madeira que sustentava o piso da serraria: ele estava com sua base apodrecida devido à grande quantidade de água existente dentro do porão e, durante o restauro, essa água foi completamente drenada e efetivada a sua recuperação)................................................................................................... 231 Figura 152 - Porão da Serraria da Fazenda São Vicente (observar reforço para o pilar de madeira com viga de concreto armado: este trabalho foi necessário, pois ele já não apresentava mais condições de suportar o peso e estava totalmente comprometido)...............................................................................232 Figura 153 - Porão da Serraria da Fazenda São Vicente (observar os pilares de madeira restaurados)..................................................................................... 232 Figura 154 - A Serraria da Fazenda São Vicente, onde se observa o piso de vidro sobre o assoalho e seu processo de restauro finalizado........................233 Figura 155 - Primeira casa da Fazenda São Vicente......................................237 Figura 156 - Mapa de Campinas, 1900...........................................................245 Figura 157 - Mapa de 1929. Demarcações das Sesmarias e latifúndios do Brigadeiro Luis Antonio de Sousa Queiros (pela autora).................................248 SUMÁRIO INTRODUÇÃO.................................................................................................... 1 CAPÍTULO 1 - Uma nova arquitetura residencial para a elite cafeeira: o estilo campestre na obra de Ramos de Azevedo.......................................... 8 1.1 A arquitetura das fazendas do Vale do Paraíba ......................................... 8 1.2 A arquitetura dos Barões do café em São Paulo........................................17 1.3 A arquitetura rural Campineira................................................................... 37 1.4 Ramos de Azevedo e a elite cafeeira de São Paulo.................................. 49 1.4.1 A formação do arquiteto-engenheiro Ramos de Azevedo............... 49 1.4.2 A atuação de Ramos de Azevedo em Campinas............................ 57 1.4.3 Ramos de Azevedo como “arquiteto oficial” da cidade de São Paulo..................................................................................................................61 1.4.4 Ramos de Azevedo e o ensino da arquitetura.................................70 1.4.5 Ramos de Azevedo e a família Paes de Barros..............................75 1.5 A arquitetura da sede da Fazenda São Vicente ....................................... 81 - A implantação..........................................................................................90 - O projeto..................................................................................................93 - Os aspectos construtivos.......................................................................110 - As pinturas murais.................................................................................124 - Implantação da Fazenda São Vicente: contexto ambiental...................137 CAPÍTULO 2 - O complexo cafeeiro da Fazenda São Vicente: o espaço da produção de uma fazenda de café em São Paulo...................................... 144 2.1 Os ciclos da economia do café: do Vale do Paraíba ao Oeste Paulista...144 2.2 A produção do café na região de Campinas: a mão de obra e a mecanização do processo produtivo...............................................................152 2.3 A origem do latifúndio da Fazenda São Vicente.......................................162 2.4 O complexo industrial da Fazenda São Vicente: patrimônio e restauro...173 2.4.1 Teoria e prática do restauro..........................................................173 2.4.2 A transformação da Fazenda São Vicente em patrimônio histórico da cidade de Campinas...................................................................................177 2.4.3 A formação do complexo industrial da Fazenda São Vicente......184 2.4.4 O patrimônio industrial da Fazenda São Vicente ........................ 194 - Terreiros..............................................................................................195 - Piso dos Terreiros...............................................................................205 - Tulha...................................................................................................208 - Casa de máquinas..............................................................................213 - Porão .................................................................................................219 - Serraria................................................................ ..............................226 CONCLUSÃO..................................................................................................235 ANEXOS..........................................................................................................244 -ANEXO 1: Mapa de Campinas 1900..............................................................245 - ANEXO 2: Genealogia...................................................................................246 - ANEXO 3: Mapa de 1929..............................................................................248 - ANEXO 4: Relação dos Latifúndios do Brigadeiro Luis Antonio de Sousa Queirós............................................................................................................249 -ANEXO 5: Relação de participações em Seminários e Congressos 2007- 2008.................................................................................................................250 REFERÊNCIAS.............................................................................................. 253 1 INTRODUÇÃO Todo processo de pesquisa e seus frutos (uma monografia, dissertação ou tese) envolve leituras e discussões acadêmicas; mas antes de tudo isso, qualquer estudo teórico começa com alguma experiência cotidiana que nos desperta para aspectos da realidade que merecem reflexão e estudo. Desta forma, antes de iniciar a apresentação de dados ou a discussão – propriamente dita – a que se propõe este trabalho, convém fazer um breve relato sobre quais foram os fatores mais relevantes que me levaram a escolher esse tema para minha dissertação de Mestrado. Tudo começou quando iniciei minha participação notrabalho de restauro da Fazenda São Vicente, situada na cidade de Campinas, no estado de São Paulo, trabalho este que começou em janeiro de 2003 e se prolongou até janeiro de 2007. Figura 1 – Fazenda São Vicente em Campinas-SP, durante o restauro. Fonte: Amoroso M.R. (2006) 2 Figura 2 – Fazenda São Vicente em Campinas-SP, depois do restauro. Fonte: Amoroso M.R. (2007) Foi neste período que comecei a analisar não apenas a história e a arquitetura dos seus edifícios, como também a pesquisar mais a fundo a genealogia de seus proprietários, a fim de fazer um levantamento documental com justificativas mais sólidas, e traçar objetivos de atuação mais rigorosos para a pesquisa que se iniciava frente aos trabalhos que ali seriam realizados. Ao analisar, então, um pouco da genealogia e algumas entrevistas realizadas com os proprietários, qual não foi minha surpresa quando descobri que esta fazenda ainda permanecia (e permanece, atualmente) nas mãos da mesma família que a fundou, em meados do século XIX: os Paes de Barros – Souza Queirós. Outro importante fato, ocorrido no início do trabalho de restauro e que me deu mais confiança para prosseguir nas pesquisas, foi o processo de tombamento, iniciado pelo Condepacc1, de vários edifícios desta mesma 1 CONDEPACC -Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Campinas. 3 fazenda, em especial de sua sede, citada no projeto como atribuída ao engenheiro-arquiteto Francisco de Paula Ramos de Azevedo. Embora o professor Carlos Lemos chame atenção para a existência de projetos de Ramos de Azevedo voltados para uma arquitetura campestre, ainda está por se fazer um estudo sobre o tema, e é esta a investigação que pretendo apresentar nesta dissertação. Lemos, em entrevistas, afirmou que Ramos de Azevedo fazia inúmeras fazendas para os Barões do Café e elas eram realizadas pelos seus engenheiros que estavam alocados ou nas usinas elétricas ou nas ferrovias que ele estava implantando. Porém, não se encontra ainda um estudo bibliográfico sobre a maioria destes projetos e construções. O fato de Ramos de Azevedo ter sido mencionado como autor do projeto da sede da fazenda não foi novidade para mim, pois esse fato já era de meu conhecimento, devido às inúmeras conversas (como já mencionado acima) com a família proprietária da fazenda. Porém, os atuais proprietários possuidores de inúmeros documentos desta fazenda não possuem o projeto assinado por Ramos de Azevedo propriamente. Isto se deve, talvez, devido ao período em que a fazenda ficou fechada para término do inventário e passou por um longo período de abandono, no qual alguns documentos e outros bens se perderam; ou também por este arquiteto, como mencionado pelo professor Carlos Lemos2, não ter o hábito de assinar esse tipo de projeto rural. Sabemos perfeitamente que a obrigatoriedade da assinatura nos projetos começou a partir de 1920. Depois de finalizado o inventário, e constatada a perda de documentos, não se alterou a crença da família de que o projeto da sede fosse de autoria de Ramos de Azevedo, já que haviam outras fontes de informação, como, por exemplo, a documentação que lhes informava que a primeira proprietária da fazenda, a Baronesa de Limeira (casada com o filho do Brigadeiro Luiz Antonio, Vicente de Sousa Queiros, o Barão de Limeira) já tinha com Ramos de Azevedo outros projetos na capital da Província, na mesma época da fundação da Fazenda São Vicente, assim como em diversas propriedades rurais da família. Isso motivou, inclusive, seus atuais proprietários 2 Entrevista realizada na FAU-MARANHÃO em outubro de 2007. 4 a iniciar o projeto de restauro antes mesmo de o CONDEPACC entrar com o pedido de tombamento. Assim, iniciei minha dissertação de Mestrado com uma pesquisa sobre a arquitetura rural, com estudo de caso da Fazenda São Vicente atribuída a Ramos de Azevedo, considerando o fato de que ele trabalhava para essa elite cafeeira tanto na cidade quanto na área rural. Pois será dentro deste quadro que iremos verificar, por parte desta elite, a busca de maior conforto e opulência também nas propriedades rurais, nos mesmos moldes dos palacetes urbanos. A vontade de empreender, através desta dissertação, um registro de estudo de mais uma obra do grande profissional que foi Ramos de Azevedo (trazendo ao público uma discussão não apenas acadêmica, mas importante para a sociedade em geral) acompanhou todo o processo de pesquisa. O fato de não existirem muitos estudos até o momento sobre a produção de uma arquitetura rural por Ramos de Azevedo me motivou a pesquisar uma obra pertencente a esse período. Acredito também que essa reflexão possa, de alguma forma, contribuir para a sociedade campineira contemporânea e para a construção da historiografia paulista. A proposta da pesquisa foi, então, a de realizar uma investigação no campo do urbanismo, tendo como objeto de estudo uma fazenda da cidade de Campinas, no estado de São Paulo, construída no período áureo da economia do café. Pretendeu-se investigar, a partir deste estudo de caso, questões relativas à construção, na área rural, em propriedades da aristocracia cafeeira, especificamente aquelas relacionadas ao engenheiro-arquiteto Ramos de Azevedo. O diálogo da história com outros campos do saber revelou, até o momento, que Ramos de Azevedo produziu uma obra essencialmente urbana. Todavia, esta produção técnica também possuiu uma dimensão rural; e são estas relações entre o que seria uma arquitetura urbana e uma arquitetura rural que queremos colocar em evidência, destacando como os agentes sociais se apropriam deste saber técnico em um contexto de uma cultura burguesa, no auge do ciclo econômico do café, no estado de São Paulo. 5 Assim, essa pesquisa se volta para a formação e mobilização dos saberes que fundamentam e orientam o pensamento no campo da arquitetura e do urbanismo, com destaque para as intervenções no meio rural. Objetiva-se entender o papel desse corpo de conhecimentos especializados nos discursos e nas ações dos agentes sociais que produziram esta arquitetura, sobretudo nas áreas rurais. A formação e implantação das grandes fazendas de café, no final do século XIX, revelam a sintonia com a cultura burguesa do período, através da atuação de profissionais qualificados no campo da engenharia e da arquitetura, e ligados à emergente burguesia e à aristocracia cafeeira. Este trabalho se propôs a investigar como as atuações desses especialistas chegaram ao meio rural e quais foram as soluções por eles propostas, subsidiadas por teorias e técnicas. Interessou-me acompanhar o desenvolvimento e a mudança nos projetos e partidos arquitetônicos adotados, bem como suas adaptações do meio urbano para o rural, as quais tinham como objetivo tornar a vida no campo tão intensa, charmosa e agradável, para a aristocracia cafeeira, quanto à vida urbana. O projeto visou à realização de um estudo de caso da Fazenda São Vicente, em Campinas, como um exemplar da arquitetura campestre na obra de Ramos de Azevedo. Este estudo possibilitou a organização e análise de uma documentação iconográfica e histórica, de todo o processo de restauro da Fazenda São Vicente, que ocorreu entre os anos de 2002 e 2007, e no qual atuei como arquiteta restauradora – motivo que norteou sua escolha como objeto de pesquisa. Além disso, este estudo de caso objetivou, também, investigar questões relativas ao higienismo no meio rural, já que os habitantes que lá se encontravam eram os mesmos que pautavam as suas ações urbanas nos conceitos de salubridade. Nesse sentido, a pesquisa inclui a análise doprocesso de alteração significativa no modo de viver da casa de fazenda e em seu programa arquitetônico, que determinou uma mudança singular nos hábitos existentes desde a colônia. Enfim, pretendeu-se identificar se a construção de uma fazenda cafeeira rural coloca ou não os mesmos desafios da produção de uma residência 6 urbana. É sabido que ambas exigem preocupações em relação à implantação, construção, acessos, saneamento, iluminação, água, comida, trabalho e lucro. Tudo isso, além de um novo saber técnico que o século XIX trouxe com a industrialização: novos materiais e técnicas inovadoras na área de engenharia. Todavia, o “pensar” a fazenda como uma pequena vila no meio rural traz especificidades, tais como os elementos voltados para funções específicas do trabalho e cotidiano de uma propriedade rural: casa do administrador, sede, maquinários de café, casas de colonos ou vilas operárias, capela, armazém, silos. A pesquisa partiu de uma documentação primária já encontrada previamente, que se constituiu no registro do processo de restauro da Fazenda São Vicente, em Campinas. Estas informações estão em plantas, desenhos, fotos e fichamentos que mostram o estudo da tipologia, do partido arquitetônico, dos materiais e técnicas construtivas. Foi realizado um levantamento e uma análise documental e bibliográfica dos estudos acadêmicos sobre a obra de Ramos de Azevedo, bem como sobre o tema da arquitetura campestre em geral – principalmente através de livros, periódicos, dissertações e teses, além de trabalhos e documentos editados ao longo do período em foco. Estes foram considerados documentação secundária e de referência. É importante citar também que esta proposta está inserida numa linha de pesquisa da Pós-Graduação do CEATEC-PUCCAMP, denominada História do Pensamento Urbanístico, e vinculada, especificamente, à pesquisa coordenada pela Profª. Dra. Ivone Salgado, “Saberes da medicina e da engenharia: o higienismo na configuração urbana da São Paulo Imperial”. Esta pesquisa, por sua vez, faz parte do projeto temático coordenado pela Profª. Dra. Maria Stella Martins Bresciani, do IFCH-UNICAMP, intitulado: “Saberes Eruditos e Técnicos na Configuração e Reconfiguração do Espaço Urbano – 7 Estado de São Paulo, Século XIX e XX”, que agrega ainda as seguintes instituições: FAAC-UNESP e Scuola Studi Avanzati-Venezia.3 Outro questão bastante relevante, para o atual estudo, é o fato de estar a fazenda inserida exatamente em áreas limítrofes entre o rural e o urbano do município de Campinas, especialmente num momento de grandes mudanças que estão sendo realizadas pelo “Plano Diretor de Campinas”, visando transformar esta parte da cidade em áreas destinadas a grandes condomínios horizontais, a saber, a “Macrozona 2”. Ao escolher como tema de estudo a Fazenda São Vicente, pretendi chamar a atenção também para o seu patrimônio industrial, não apenas arquitetônico e histórico, mas também ambiental, pois a fazenda se encontra numa condição muito fragilizada devido à valorização imobiliária da região pela inserção, nestes locais antes denominados rurais, de grandes condomínios residenciais. Na área de fazenda se encontra também uma mata centenária, no bairro rural denominado Carlos Gomes, também objeto de tombamento. Seus 70 hectares de vegetação nativa, remanescente de Mata Atlântica, têm sido objeto de estudos que visam justificar seu tombamento pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Artístico e Cultural de Campinas (CONDEPACC). 3 Este projeto justifica-se na constatação da distância entre o pensamento urbanístico e suas realizações. Distância também apreensível no contraste entre teorias e ações que visam tornar a cidade funcional e agradável aos seus habitantes. No caso da cidade de São Paulo, ao mesmo tempo em que se mostra digna de seu status de capital econômica do país (centro da vasta região metropolitana que estende seu poderio aos centros urbanos do estado e ultrapassa o próprio país), apresenta antigos e persistentes problemas que, há pelo menos dois séculos, vêm se repondo de modos diferentes, somados aos novos desafios enfrentados com ações de pouca eficiência. A intenção não é indicar uma solução para essas questões, mas perseguir os meandros do saber erudito proposto por técnicos e autoridades públicas, na crença de serem capazes de dar respostas adequadas aos desafios colocados por uma cidade. Foram esses especialistas em questões urbanas os que atribuíram à cidade sua configuração moderna, a partir de dispositivos legais subsidiados por teorias e técnicas arquitetônicas em estreita sintonia com o que se apresentava de mais avançado no conhecimento especializado internacional. Nossa preocupação, nesta pesquisa, se volta para a formação da disciplina curricular que pensa sobre a cidade e intervém nela, supondo o diálogo entre vários saberes e especialistas de diversos países. 8 CAPÍTULO 1 Uma nova arquitetura residencial para a elite cafeeira: o estilo campestre na obra de Ramos de Azevedo 1.1. A arquitetura das fazendas do Vale do Paraíba O caminho do café desde o Vale do Paraíba até sua entrada em São Paulo foi marcado por grandes mudanças, importantes do ponto de vista da implantação da própria fazenda de café até chegar ao próprio plantio. Quanto mais avançamos pelos caminhos onde foi introduzido este café em direção a São Paulo, mais fortemente podemos observar um melhoramento e um aprimoramento das técnicas, como, por exemplo, da utilização das curvas de nível, protegendo o solo da devastação feito pelos primeiros plantios, os quais foram responsáveis pelas grandes erosões das terras do Vale do Paraíba. A chegada da ferrovia foi o marco de todo esse desenvolvimento, pois passou a viabilizar o transporte mais rápido, seguro e barato para os portos, principalmente o Porto de Santos (que se tornou o maior exportador de café do Império), não dependendo mais das tropas de muares e das péssimas estradas – pode-se dizer caminhos e picadas – por onde era transportado o café. É possível encontrar ferrovias passando dentro das principais fazendas produtoras e das cidades que foram sendo criadas em seu percurso. A ferrovia não apenas transportava o café, mas também uma enorme gama de produtos importados. Os trens passaram a levar sertão adentro, principalmente para as áreas rurais, materiais importados tanto para a construção civil como para a decoração. Além, é claro, do “artigo” mais importante que eram os profissionais habilitados para se responsabilizarem pela execução de vastos projetos, então só vistos na corte e no estrangeiro. Dentre eles, profissionais como o Engenheiro Francisco de Paula Ramos de Azevedo, bem como outros artistas 9 Italianos, espanhóis, franceses, que participaram desta modernização – uma nova maneira de viver – introduzindo novos conceitos, como, por exemplo, o higienismo na maneira de morar. Há uma grande influência proporcionada por fortes e importantes famílias paulistas que vamos encontrar neste percurso (como os Paes de Barros e Sousa Queiros, além de outras que ajudaram a fazer esta história), através de suas grandes viagens à Europa, que implicam o contato com uma civilização com gosto mais apurado e estilos de vida desconhecidos (e, em certo sentido, esquecidos) pelos colonizadores e pioneiros destas vastas extensões de terras brasileiras. Esta influência foi encontrada e traduzida pelo grande arquiteto deste período, Ramos de Azevedo, tanto na área urbana como na área rural, e é possível ver isto acontecer em Campinas, na Fazenda São Vicente. A arquitetura do período colonial no Brasil surge com a terra, a taipa, o adobe, a cobertura de palha e a cerâmica primitiva. Nas casasmineiras, a partir do século XVIII, predominam as estruturas livres que trabalham sobre o terreno inclinado com montantes de madeira, pedras ou tijolos. As construções possuem grandes beirais para protegerem suas paredes do calor e da chuva. Os materiais desconhecidos, a influência das construções indígenas, os improvisos necessários para a adaptação às técnicas que se apresentavam, tudo isso contribuiu para dar mais liberdade e também alterar as soluções tradicionais das construções das províncias de origem ibérica dos povos que colonizaram o Brasil. As construções rurais, segundo Miranda e Czaikowiski (2004, p. 33): [...] são sempre de autores desconhecidos embora muitas vezes nos fizesse observar trabalhos mais apurados nas colunas, beiras encachorrados de recorte apuradíssimo denunciando a presença de caprichosos artistas. 10 Para melhor compreendermos a manifestação da arquitetura campestre na região de Campinas no período de auge do ciclo do café, torna-se importante reconstituirmos brevemente o caminho percorrido pela arquitetura rural do ciclo cafeeiro do Vale do Paraíba. Foi no ano de 1808, com a transferência da corte para do Rio de Janeiro, que ocorreu a ruptura com o passado. Grandes e notáveis artistas chegam ao Rio de Janeiro, como Lebreton (em 1816) ou Grandjean de Montgny, fundador do curso de Belas Artes, transformando a arquitetura do Rio de Janeiro em neoclássica: Será essa arquitetura neoclássica que iria influenciar profundamente as sedes das fazendas do vale do Paraíba cujos proprietários já os vivenciando e formados na Europa as aceita com grande facilidade aqui. Ao serem projetadas por profissionais que exigem dos mestres semelhança com os palácios e palacetes do Rio de Janeiro. (ALCIDES; CZAJKAWSKI, 1984, p. 34). Esta foi à razão do caráter urbano das casas de fazenda no ciclo do café no Vale do Paraíba. A influência neoclássica, vinda com os arquitetos que acompanharam o Príncipe Regente ao Rio de Janeiro, foi utilizada nas construções urbanas que depois foram transportadas para as fazendas, demonstrando assim um refinamento na arte de construir. A princípio, tentou-se trabalhar com a introdução de algumas mudanças como: escadarias, colunas, frontões de pedras, mas atrelado ainda a uma edificação que seguia os esquemas coloniais. Foram nas fazendas que as restrições apareceram mais fortes, devido à ausência de profissionais especializados, pois dependiam então da mão-de-obra escrava, grosseira e pouco requintada, fazendo com que os recursos neoclássicos ficassem mais restritos às fachadas. [...] obedeciam elas, na verdade, aos patrões urbanos. Idêntico acabamento externo, com ênfase nos portões de entrada, de um 11 estilo neoclássico, seguiu-se, no curso dos Oitocentos, para o Ecletismo. (MERCADANTE, 1984, p. 22). O gosto eclético foi sentido na ênfase que se deu aos elementos de ferros importados da Europa, e nos elementos decorativos da madeira recortada – como os lambrequins, que foram muito utilizados na arquitetura, quando o chalé substituíra o que restou do neoclássico. Foi em meados dos Oitocentos que as fazendas cafeeiras fluminenses passaram a apresentar seus palacetes elegantes, graças aos proprietários já enriquecidos pela lavoura. O solar destacava-se. Enorme, atarracado, com alpendre no centro da fachada, ladeado de janelas e com escadarias de acesso na varanda ampla, reuniam-se a tarde a família e os hospedes para observar o crepúsculo e o espetáculo do dia que findava. (MERCADANTE, 1984, p. 22). A decoração do solar passou a mostrar o grande salão de visitas, decorado com luxo como os da corte. Não faltaram pinturas em papéis decorativos com motivos variados, que iam de pilastras e colunas até paisagens do Rio de Janeiro e Paris, sempre sugerindo uma ambientação neoclássica, com muitos espelhos, cristais venezianos, baixelas de prata e de ouro, tapeçarias orientais e francesas, e pelos móveis de jacarandá lavrados em gosto inglês. Jardins bem traçados e cuidados, assim como inúmeras outras edificações, orbitavam entorno do solar para atender todas as necessidades, como dependências hospitalares, com pequena farmácia, maternidade e creche. Eram realizadas muitas festas, entre banquetes e bailes, que festejavam desde batizados a casamentos, cerimônias onde cada uma destas fazendas recebia para hospedagem, durante dias, seus vizinhos, parentes e amigos. Tudo acompanhado, ainda, por pajens, que ofereciam charutos Havana e café aos hospedes. 12 “Quando havia baile tudo era iluminado com velas de libra em lustres de cristal lapidado e candelabros de prata, os salões recebiam flores e recebia os pares para a valsa vienense, a polca, a mazurca ou a varsoviana” (MERCADANTE, 184, p. 25). Segundo análise arquitetônica de Joaquim Cardos – em artigo publicado na Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, em 1943 – a arquitetura das casas-grandes do Vale do Paraíba pode ser classificada em algumas categorias (CARDOSO apud MIRANDA; CZAIKOWSKI, p. 38): 1º tipo – Herdado dos engenhos do século XVIII. São casas com alpendres, capelas e puxados acoplados ao volume principal. Possuíam uma estrutura com esteios de madeira sobre baldrame de pedra e as paredes de taipa de sebe com telhado de quatro águas espalhado sobre os anexos em abas que prolongam o telhado principal, dando às fachadas laterais um perfil característico. Figura 3 – Fazenda Governo (Paraíba do Sul-RJ). Fonte: Cruz (2004, p. 90) 13 2º tipo – Volume compactado, cobertura feita por grande telhado de quatro águas que segue pelo alpendre de ponta a ponta na fachada principal, e caracteriza-se pela massa sólida do embasamento, um porão quase sem abertura. Figura 4 – Fazenda Pau D’ Alho (São José do Barreiro-SP). Fonte: Cruz (2004, p.130) 3º tipo – O casarão, com muitas portas e janelas. Ele não é exclusivo do meio rural; ao contrário, foi sempre utilizado também no meio urbano, quando se destinava à construção para os barões do café. Além de trabalhado tanto no meio urbano quanto no rural, foi um tipo encontrado tanto no civil como no religioso, recebendo grande influência neoclássica. Foram esses casarões que mostraram uma boa composição arquitetônica, como o acerto nas proporções e na relação dos cheios e vazios, bem como a eventual ornamentação. Possui fachadas longas com muitas janelas, sendo estas primordiais na evolução estética desses sobrados. 14 Figura 5 – Fazenda Secretário (Vassouras-RJ). Fonte: Cruz (2004, p. 131) 15 4º tipo – Casa de um pavimento com um sobrado ao centro da fachada, ocupando uma área menor que a do térreo. Figura 6 – Fazenda Santa Justa (Rio das Flores-RJ). Fonte: Cruz (2004, p.100) 5º tipo – o casarão de um só pavimento, ou pavimento sobre porão alto. Sua principal característica foi a horizontalidade, com a existência, ao centro da fachada principal, de uma escadaria formada por um ou dois lances, levando ao patamar geralmente coberto por um pequeno copiar. Em algumas casas, essa cobertura assumia as dimensões de um pórtico ou varanda, muitas vezes apoiado sobre colunas de ferro. A casa sobre porão alto ou “habitável” parece ser de origem mais antiga. São deste gênero, no século XVIII, numerosas quintas portuguesas e alguns solares brasileiros, como a casa do Conde dos Arcos, em Salvador. Na transposição desta tipologia para a fazenda, apesar de sofrer as implicações de praxe, mantém a relação hierárquica entre o térreo e o piano nobile, o que diferencia este tipo do sobrado, onde os dois pavimentos têm a mesma alturae geralmente são habitáveis, mostrando a evolução da casa rural.4 4 São exemplos do primeiro tipo a Fazenda Alliança, (Barra do Pírai-RJ), a Fazenda Governo (Paraíba do Sul,-RJ) e a Fazenda São Luiz da Boa Sorte (Vassouras-RJ). Um exemplo clássico do segundo tipo é a Fazenda Pau D’Alho(São José do Barreiro-SP). Podem ser destacados como exemplos do terceiro tipo a Fazenda Barra do Peixe (Além Paraíba-MG), a Fazenda 16 Figura 7 – Fazenda Resgate (Bananal-SP). Fonte: Cruz (2004, p. 82) Já o gosto pela casa térrea sobre o porão baixo se originou nas chácaras suburbanas, que se popularizam durante o século XIX, e daí se espalhou tanto para o campo, quanto para as cidades. Recreio (Bemposta-RJ), a Fazenda Bonsucesso (Cantagalo-RJ), a Fazenda Monte Alegre (Paty do Alferes,Vassouras-RJ), a Fazenda São Felipe (Belmiro Braga-MG) – com as pestanas em frontão triangular que disfarçam a simplicidade da construção –, a Fazenda Paraíso (Rio das Flores-RJ) – com as cercaduras enfeitadas das janelas que lhes dão identidade –, a Fazenda Pau Grande (Avelar, Vassouras-RJ) – dois corpos ligados pela nave do coro de uma capela colocada no centro da composição, possuindo nesta fachada a divisão assinalada pelas pilastras e os telhados independentes de cada corpo –, a Fazenda Secretário (Vassouras-RJ) – de acabamento impecável, e o emprego de dois frontões na fachada principal sugere a sua divisão em três corpos. Foram também evidenciadas as variantes na tipologia do casarão encontrados nas fazendas Vargem Grande (Areias-SP) e Areias (Cantagalo-RJ), sobrados compactados e verticais, bem mais urbanos. Ainda mais no estilo urbano foi o exemplar encontrado na Fazenda Santa Genoveva (Rio das Flores-RJ), em virtude de suas fachadas, onde se apresentam todas as características das grandes residências de arquitetura erudita do Rio de Janeiro da mesma época. Como exemplos do quarto tipo, temos: a Fazenda Santa Justa (Rio das Flores-RJ), a Fazenda Rio Novo (Paraíba do Sul-RJ) e a Fazenda São Policarpo (Rio das Flores-RJ). Podem ser tomados como exemplo do quinto tipo a Fazenda São Fernando (Vassouras-RJ), a Fazenda Resgate (Bananal-SP) e a Fazenda São Lourenço (Três Rios-RJ); e também o tipo Chalé Fazenda Santo Antonio (Rio das Flores-RJ) e Fazenda Alpes (Barra do Piraí-RJ). 17 1.2. A arquitetura dos Barões do café em São Paulo Ao ciclo econômico do café no oeste paulista corresponde uma arquitetura particular que, se por um lado encontra referências nos elementos da arquitetura das fazendas de café do Vale do Paraíba no ciclo econômico precedente, por outro, apresenta elementos da evolução da arquitetura paulista do ciclo do açúcar. As transformações no padrão da moradia da elite cafeeira revelam as mudanças sociais e econômicas de São Paulo. O aumento da exportação do café na Província de São Paulo, impulsionado, inclusive, pelo desenvolvimento industrial, proporcionou aos fazendeiros da região poder econômico e prestígio social. De acordo com Fernando Pires, a elite desta província recebia o título de “capitalistas e proprietários”, conforme podemos perceber no Almanaque de 1857 que indicava o endereço destes fazendeiros e suas titulações. Além de “capitalistas e proprietários”, boa parte dos produtores de café também recebiam títulos de nobreza no século XIX: Francisco Antonio de Souza Queiroz, Rua do Ouvidor (atual José Bonifácio), que futuramente receberia o título de Barão Souza Queiroz; [...] Rafael Tobias de Aguiar, Rua do Açu; Vicente de Souza Queiroz, futuro Barão de Limeira, Rua da Santa Casa (atual Rua da Glória). [...] Antonio de Queiroz Telles, o futuro Conde de Parnaíba, que morava em Jundiaí, e Joaquim Egydio de Souza Aranha, futuro Marquês de Três Rios, ainda residindo em Campinas. (PIRES, 2006, p. 31) (grifo nosso). Segundo Pupo (1980, p. 47), o primeiro Imperador do Brasil criou em oito anos de reinado, aproximadamente, 46 barões, 44 viscondes, 6 condes, 26 18 marqueses e 2 duques. Já o segundo reinado criou um total de 900 barões, 187 viscondes, 40 condes, 22 marqueses e 1 duque. Importante, ainda, é observar um aumento no número de produtores de café que passam a residir na capital paulista. Em meados do século XIX, 18,18% de todos os nobres que cultivavam café em toda a província estabeleceram residência na capital. [...] Luiz Antonio de Souza Barros habitava um sobrado não muito perto do centro tradicional [...] A partir da década de 1860, o caminho da Luz começou a receber residências mais sofisticadas” (PIRES, 2006, p. 33). De acordo com Pires, Taunay, em 1943, também consegue fazer uma ótima identificação entre os títulos de nobreza e a lavoura cafeeira em sua História do café no Brasil. (PIRES, 2006, p. 39) Esta nova maneira de viver também foi afetada após 1850, quando se deu a decisão sobre a extinção do tráfico negreiro e o incremento da cafeicultura, pois diminuiu o numero de escravos na cidade – sendo que muitos alforriados foram servir a lavoura cafeeira, enquanto outros ficaram a serviço dos grandes proprietários na cidade. Eles eram utilizados para serviços pessoais nas residências, como podemos observar neste período do século XIX onde as casas das classes mais abastadas mantinham uma média de sete a quatorze escravos, no sobrado, e de vinte a quarenta na fazenda. Os fazendeiros que se destacaram ficaram conhecidos como “barões do café”. Em 1873, havia vinte e cinco com a titulação de produtores; cinco anos mais tarde, em 1878, esse número sobe para trinta e seis, dos quais, na capital de São Paulo, residiam apenas cinco: o Barão de Souza Queiroz - Francisco Antonio de Souza Queiroz, o Barão de Três Rios, futuramente marquês - Joaquim Egydio de Souza Aranha, e as Baronesas de Itapetininga, de Limeira 19 e de Tietê, todas já viúvas. Nos últimos anos do Império a capital conheceu maior número de titulares: [...] o Conde de Itu (Antonio de Aguiar Barros), depois marquês; o II Barão de Piracicaba (Raphael Tobias de Barros); o Barão de Tatuhy (Francisco Xavier Paes de Barros) e a Baronesa de Limeira (Francisca de Paula Souza Queiroz). A partir da década de 1890, o número de titulares reduziu drasticamente, não apenas em virtude da mudança de regime [...] (PIRES, 2006, p. 41). Estes fazendeiros produtores de café também estreitavam seus laços com a sociedade urbana através da participação ativa em entidades filantrópicas e religiosas. Era comum pertencerem a uma ou mais irmandade religiosa. O Barão de Tietê era ministro da Ordem Terceira de São Francisco, assim como o comendador Luiz Antonio de Souza Barros era vice-ministro desta; e o Barão de Iguape, provedor da Santa Casa de Misericórdia. Aos poucos, podemos notar, inclusive pela própria genealogia das famílias que fazem parte deste objeto de estudo, que se formavam aglomerados familiares, mais do que de fazendeiros. É o caso dos Paes de Barros e dos Sousa Queiroz. Essa elite cafeeira, quando passa a morar e a ter seus palacetes na capital da província, juntamente com o fato de começarem a viajar mais para a Europa, adquire um gosto mais apurado. O que os torna mais exigentes, tanto com suas maneiras de se portar em sociedade, quanto com sua maneira de morar, evidenciando seu refinamento e cultura adquiridos com essa nova riqueza, que lhes possibilitou um acesso cada vez mais fácil a um novo mundo que se apresentou a ela de maneira tão fascinante. [...] a sofisticação começou primeiro pelo acessório:mobiliavam seus solares de taipa com os artigos de procedência francesa e a própria edificação recebia alguns refinamentos importados, como as 20 calhas nos beirais e os vidros coloridos das bandeiras das portas e janelas (PIRES, 2006, p.74). A chegada dessa elite à capital, vinda do interior, se deu principalmente depois da inauguração da ferrovia, com a construção da São Paulo Railway. Essa iniciativa fez com que os fazendeiros e capitalistas prolongassem os trilhos para as áreas já dominadas pelos cafezais: Assim, os Barões, de Limeira, os Souza Queiroz; o Visconde Luiz Antonio de Souza Barros surgem nas reuniões preliminares da Companhia Paulista, que, em 11 de agosto de 1872, inaugura o trecho de Jundiaí até Campinas, [...] de 45 Km. Em 1873, é inaugurada a Ituana [...] em 1875, a Sorocabana e a Mogiana, [...] de Campinas até Mogi-Mirim, por iniciativa das famílias Souza Aranha e Queiroz Telles (PIRES, 2006, p. 81). A maioria das famílias abastadas de São Paulo possuía fazendas no interior, onde todos os anos passavam alguns meses “fugindo do áspero e úmido inverno”. Na lavoura, principalmente café, tinha adquirido suas fortunas. Era, portanto, hábito quase geral irem os paulistanos, todos os anos, passar alguns meses em suas terras. Fugindo do áspero e úmido inverno, procurando novos ares, aproveitando ao mesmo tempo a oportunidade para acompanhar a gerencia dos administradores, nesse tempo homens rudes e de pouca cultura (BARROS, 1998, p. 60). As aproximações com a cultura francesa também podem ser observadas em alguns hábitos culturais novos, inclusive os alimentares: 21 Grandes e pequenos, todos no sobrado falavam francês, também eram nessa língua os livros didáticos, bem como os volumes das duas estantes que se viam na espaçosa sala de estudos. [...] Importavam alimentos, principalmente doces franceses servidos como sobremesa, e enviavam seus filhos à França ou Alemanha, para estudar (BARROS, 1998, p. 14; 60). Este contexto de transformação social e econômica em São Paulo se reflete na moradia dos fazendeiros de café. Segundo Homem (1996, p. 33): Nas casas rurais e semi-rurais do período colonial, o estar situava entre os cômodos destinados ao repouso e aos serviços: essa distribuição apresentava-se em um ou mais lances (seqüência de cômodos) e pôde ser encontradas nas casas sedes de chácaras durante o século XIX. Construída em taipa de pilão, esse tipo de morada, conhecida tradicionalmente como “casa paulista”, foi estudada pelos eruditos sob a designação de “casa bandeirista”. Sua rígida simetria dividia-se em três faixas: na frente, o alpendre era ladeado pelo quarto de hospede e pela capela. 22 Figura 8 – Desenho planta inferior: casa do Padre Inácio. Plantas arquivo do IPHAN. Fonte: Lemos (1999 p.51). Uma evolução destas moradias em São Paulo é registrada no clássico trabalho sobre Alvenaria Burguesa em São Paulo, de Carlos Lemos, onde se destacam três tipos de moradias, a saber: primeiro, “casas com alcovas escuras no miolo da construção da primeira fase do ciclo do café”, como aquelas que se encontram no Vale do Paraíba e em Itú; segundo, o “chalé assobradado”, denominado pelo autor “estilo imperial”; e terceiro, o “palacete imperial”, “palacete de aspecto neoclássico monumental”. Assim, segundo Lemos, no primeiro tipo tem-se que: [...] A casa antiga, ainda de taipa, dos primórdios do café, aquela com salas na frente, alcovas no miolo escuro e varanda com sua cozinha anexa, pelo lado de trás, estava ainda vinculada ao partido colonial [...] Os condicionantes culturais antigos, por exemplo, talvez remotamente ligados aos costumes mouros, determinavam uma segregação dos aposentos familiares, não só das camarinhas de dormir, mas de toda a zona de estar intima, livrando-as dos olhares e 23 convívios de estranhos, aquém se destinavam somente às salas da frente [...] (LEMOS 1989, p. 77; 94). Figura 9 – Casa urbana de senhor de engenho Major Luciano Teixeira Nogueira em Campinas-SP, Taipa de pilão externamente e Taipa de mão internamente. Fonte: Pupo (1969, p. 91) O segundo tipo foi a casa urbana do século XIX – assobradada – onde no início era alinhada a rua e, geminada, tinha a sua iluminação comprometida, pois só se fazia pela frente e pelos fundos mantendo suas alcovas sempre sombrias: O que caracterizava o sobrado eram também a superposição de funções e a localização do estar formal. Este, utilizado por hóspedes ou visitantes, permanecia separado, pelas alcovas, do estar informal ou familiar, que transcorria na sala de jantar. Um corredor no sentido frente-fundo levava os escravos, criados e membros da família a cruzar as diversas zonas. Nos grandes sobrados, esse esquema era mais amplo, destinando-se uma sala da frente para as mulheres e outra para os homens, de forma que no estar formal o convívio masculino se apartava do feminino [...] (HOMEM, 1996, p. 33-34). 24 A palavra “sobrado” veio substituir na nossa capitania e província a palavra “casa grande” usada no norte do país: Sobrado era utilizado como vocábulo comum às casas maiores e melhores, sempre com assoalhos de tabuas e não piso de terra batida. Camões usava assobradar para dizer forrar com tabuas de soalho, soalhar; o uso de sobrado para designar a casa grande das fazendas, permaneceu até quase a metade do século atual, entre a sua gente, distinguindo a sede da propriedade agrícola, assoalhada, no que diferenciava das casas de colonos. Em linguagem fiscal da primeira metade do oitocentismo, usavam-se em Campinas as classificações de “casa” simplesmente, para menores; ‘casa assobradada’ para as assoalhadas, e “sobrados” para as de dois pavimentos. (PUPO, 1969, p. 90) Figura 10 – Planta do 1° andar do sobrado urbano, obedecendo ao esquema zona de estar na frente, seguida da zona de repouso, da sala de jantar e, finalmente, da zona de serviços, nos fundos. Levantamento de Adelaide M. W. D. Esposito. Ao lado, sobrado que pertenceu ao Comendador Barros, onde morou D. Maria Paes de Barros: ficava pouco afastado do centro e dispunha de amplo quintal. Fonte: Barros (1943, p.19) apud Homem (1996, p.39) 25 Até 1880, poderemos notar casas feitas pelos fazendeiros, nas cidades do oeste paulista, não muito diferentes daquelas construídas nas cidades do Vale do Paraíba. Podemos nos reportar ao Museu Republicano da Convenção, sobrado existente em Itu, construído em 1867, onde encontramos as mesmas divisões internas, com alcovas escuras no miolo da construção (BARROS, 1998, p. 60). Figura 11 – Centro de Estudos do Museu, conhecido como “Casa do Barão”, inaugurado em 2005. Fonte: USP Mapas (2008) O chalé assobradado, uma nova tipologia arquitetônica para a arquitetura rural, pode ser observada, segundo Lemos, e era moda por essa época, fazendo triunfar o estilo imperial. Esse processo de mudança arquitetônica pode ser observado também em Campinas, por exemplo, no caso do palacete imperial pertencente a Joaquim Egydio de Souza Aranha, o qual possui um aspecto neoclássico monumental. O mesmo ocorreu também a outros membros da família Paes de Barros que ergueram seus palacetes nas ruas que servem à Estação Ferroviária. 26 Em São Paulo, um exemplo deste tipo de palacete é a casa de Rafael Tobias de Aguiar que, segundo Campos (2007): [...] constituía um amplo palacete neoclássico de um gêneroque começava a ficar fora de moda na Corte. O corpo principal tinha a forma de um imenso paralelepípedo de tijolos, isolado no meio do jardim, decorado externamente com elementos de estuque ou com os modernos ornatos de “pedra artificial” (pré-moldados de cimento) e com platibandas pontuadas de estátuas de feição greco-romana. [...] Edificada entre 1875 e 1877, inteiramente guarnecida com mobiliário e objetos de decoração selecionados e enviados de Paris por Anatole Louis Garraux. Figura 12 – Reconstituição digital da casa de Rafael Tobias de Barros, 2° Barão de Piracicaba, executada a partir de antiga documentação iconográfica. Fonte: Campos (2007). 27 Figura 13 – Reconstituição digital das plantas (do primeiro e segundo andar) do palacete do 2º Barão de Piracicaba. Fonte: Homem (1996, p.86) 28 Figura 14 – Interior da residência do 2° Barão de Piracicaba, segundo declarações anônimas grafada no verso da foto, que também apresenta a data de 1876 (data da foto ou da construção?). E diz ela também: “detalhe mobília francesa Garraux”. Fonte: Lemos (1989, p. 124). Figura15 – Aspecto interno do palacete do 2º Barão de Piracicaba (Rafael Tobias de Barros, neto de Bento Paes de Barro, irmão de Genebra de Barros, que foi casada com o Brigadeiro Luiz Antonio e que são os pais do Barão de Limeira VICENTE DE SOUSA QUEIROS, proprietário da fazenda São Vicente em Campinas-SP) com a presença do genro Washington Luís e sua esposa, Sofia, filha do proprietário. Fonte: Lemos (1989, p.124). 29 Grande e bela a casa em que residia o titio. Era ele um homem inteligente e instruído. Nas suas viagens pela Europa adquiria gosto pelas artes, no vasto salão da frente, de paredes ornadas com lindas litografias suspensas por cordões de seda, via-se um magnífico piano de cauda, ao lado ficava o escritório, com sua bela biblioteca de obras cientificas e literárias, em varias línguas [...] (BARROS, 1998, p. 21) Os integrantes dessa elite recebiam e eram recebidos com luxo e deferência. A alta sociedade e a aristocracia européia abriam-lhes os mais requintados salões e, em contrapartida, recebiam, em suas mansões de São Paulo, presidentes de vários países, príncipes e nobres de importantes estirpes (PIRES, 2006, p. 115). Um fato de grande importância foi o da passagem e hospedagem da princesa Isabel, do conde d’Eu e os príncipes D. Pedro, D. Luís e D. Antonio, no palacete do Marquês de Três Rios, no dia 7 de novembro de 1884. Com isso, houve a necessidade de se construir melhor e com mais luxo suas propriedades. Para tanto, eram contratados profissionais para executar suas vontades com a maior exatidão, os quais tinham conhecimento das obras de arte estrangeiras (isto é, quadros, esculturas, tapeçarias, lustres de cristal, mobiliários, louças etc.). É nesse momento que a moradia se transforma, passando a ser o símbolo pelo qual essa camada mais privilegiada expressa sua incontestável posição de elite econômica, social e, pela adoção do novo estilo de vida, também cultural. O novo refinamento também se manifestou diretamente na planta da casa que, graças ao surgimento da indústria e do respectivo comércio que se inicia, passam também a retirar a exclusividade da atribuição da riqueza apenas ao café. Será, portanto, a nova disposição espacial do terreno que identificará a mudança do partido arquitetônico, definindo um terceiro tipo de residência: o partido marcado pela construção isolada em seus quatro lados. 30 [...] Já que eram edifícios isolados, seus telhados poderiam participar com mais desenvoltura da composição arquitetônica, em vez de ficarem escondidos e acomodados atrás de altas platibandas. A tônica desses palacetes isolados eram as coberturas movimentadas, com seus beirais bastante recortados e nessa hora recorreu-se mesmo ao ecletismo desenfreado, com o abandono obrigatório do neoclássico, para serem escolhidos os mais variados estilos ou combinações de modernismos que permitissem com mais facilidade e sempre almejada personalização do imóvel rico. E surgiram telhados arrematados por caprichosas grimpas de ferro forjado, telhados inclinados à moda dos Luíses, com suas mansardas entre panos de ardósia, telhados de interseções esdrúxulas e de beirais ora horizontais, ora inclinados, compondo no ar hipotéticos frontões em balanço, protegendo óculos, medalhões, janelas de sótão, balcões e tantos outros elementos de composição arquitetônica (LEMOS, 1989, p. 99) (grifo nosso). Figura 16 – Residência - Barbosa de Oliveira, PROJETO Ramos de Azevedo. 31 Fonte: portfólio Ramos de Azevedo, biblioteca do CONDEPHAAT. Foto: João Mursa. Também foi Lemos que classificou as moradias da classe mais privilegiada deste período, situando-as como residências de luxo equipadas com tudo que havia de mais moderno (e caro), visando o conforto ambiental. Destaca, ainda, que essas residências eram localizadas dentro de grandes parques e chácaras, e que foi o café que estabeleceu estas diferenças qualitativas entre as residências ricas e as demais, diferenças estas apenas quantitativas: [...] A chácara das Palmeiras, de D. Angélica de Barros, foi a primeira a possuir vacas holandesas em São Paulo. Ainda em 1872, quando pertencia ao Dr. Frederico Borghoff, o anúncio em que o médico a colocou à venda dizia: ‘Esta chácara contém mais de 25 alqueires de terra, em partes cultivadas com grande pomar, plantações de chá, mandioca, capim e dá bom rendimento. A casa de moradia, reedificada e empapelada, dão cômodo para grande família, e outros edifícios, armazéns, cocheiras, estrebarias, senzalas, etc., acham-se em bom estado’ [...] (HOMEM, 1996, p. 37). Figura 17 – Sede da Chácara das Palmeiras que pertenceu ao Dr. Frederico Borghoff, e depois ao casal D. Angelica e Francisco Aguiar Barros. Acrescentou-se o primeiro andar à casa colonial primitiva. Arquivo de Paulo Barros de Ulhoa Cintra. Fonte: Homem (1996, p.68) 32 A mudança ocorreria também nos materiais empregados e no estilo adotado; tudo isso fez com que essa nova casa fosse aumentando seus cômodos de acordo com novas exigências funcionais nunca antes experimentadas. Surgiam espaços como: sala de fumoir, salas de visitas, saraus, além, é claro, das instalações sanitárias e elétricas, ou a gás, tudo graças a essa sofisticação dos hábitos. [...] Elias Chaves, por exemplo, casado com Silva Prado, que nos fins da década de 80 reformara seu sobrado à Rua de São Bento, dotando-o de luxuosíssimas instalações e caros acabamentos por obra e graça de Cláudio Rossi, o cenógrafo-arquiteto, já em 1896 estava, com o mesmo construtor, levantando o seu palácio nos Campos Elíseos projetado por Matheus Haüssler. Esse arquiteto alsaciano optou em sua obra por um estilo eclético baseado na arquitetura renascentista francesa, mas ostentando elementos de composição italianos, como as loggias [...]. Hassüler projetou varias casas magníficas na cidade para a sociedade influente, como a do conde Prates, a de Nothmann, e algumas das famílias Paes de Barros, Julius Ploy, outro alemão, fez os palacetes dos Souzas Queiroz [...] (LEMOS 1989, p. 132-133). 33 Figura 18 – Palacete Campos Elíseos, antigo Palacete Chaves. Fonte: Homem (1996, p.140) 34 Surgem também, graças aos recuos frontais e laterais, os jardins, principalmente os traçados por paisagistas franceses. Em 1891, D. Maria Angélica Souza Queiroz Aguiar Barros, filha do Barão de Souza Queiroz, casada com o filho do Barão de Itu, mandou construir um grande palácio na Avenida Angélica,esquina com a Alameda Barros Figura 19 – Palacete de D. Maria Angélica de Barros (1891-3) (inspirado no Palácio de Charlottenburg, na Alemanha), hoje desaparecido. Situava-se na Avenida Angélica com Alameda Barros. Arquivo de Paulo de Barros de Ulhoa Cintra. Fonte: Homem (1996, p.135) 35 Figura 20 - Palacete de D. Maria Angélica de Barros (1891-3) (inspirado no Palácio de Charlottenburg, na Alemanha), hoje desaparecido. Situava-se na Avenida Angélica com Alameda Barros. Arquivo de Paulo de Barros de Ulhoa Cintra. Fonte: Homem (1996, p.135) Em 1893, o Conselheiro Antonio Prado também mandou construir um palacete nos moldes da renascença italiana nas imediações da Barra Funda, na Chácara do Carvalho, tendo como encarregado do projeto e da construção o italiano Luigi Pucci. 36 Figura 21 – Chácara do Carvalho. Desenho da fachada datada 1892, assinado por Luigi Pucci e Giulio Micheli, Arquivo Histórico Municipal “Washington Luís” DPH/SMC/PMSP. Figura 22 – A foto abaixo mostra a fachada da Chácara do Carvalho, na Alameda Eduardo Prado. Foto Guilherme Galensly, utilizada como cartão de “boas festas” pelo genro do proprietário em 1904. Fonte: HOMEM (1996, p.121) Podemos dizer, portanto, que essa elite cafeeira atingiu o auge de um processo que podemos chamar de europeização, ocorrido, sobretudo, nas gerações seguintes, através dos descendentes daqueles primeiros fazendeiros. Foram eles que viveram a belle époque paulista e foram eles que conseguiram expressar essa mudança, especialmente vinculada a esse novo tipo de edificação residencial adotado. 37 1.3. A arquitetura rural campineira As análises apresentadas nos revelaram que houve dois momentos de grande importância para Campinas, pois alteraram enormemente a maneira de viver da população, através de fortes modificações que acompanharam todo o processo de transição, a rigor, entre dois ciclos econômicos geradores de riquezas. Nós pudemos observar que houve um movimento claro em direção à ocupação de toda a região norte de Campinas, principalmente com a presença dos grandes latifúndios, que se localizaram entre os principais rios – rio Jaguari e rio Atibaia – inseridos dentro desta área. Assim, o primeiro momento foi devido ao ciclo do açúcar, no qual Campinas se destacou principalmente pelo seu poder no final dos setecentos, quando então o açúcar era considerado seu principal produto. Isto pode ser observado pelas quantidades de engenhos presentes na região (já mencionados no item 1.1.), especialmente quando referidas as propriedades do Brigadeiro Luiz Antonio de Sousa. O segundo momento ocorreu com a substituição do ciclo do açúcar pelo ciclo do café, que passou a ser o ciclo mais importante a partir do início do século XIX. Quando principia este novo ciclo do café, se encerra a fase do engenho, resultando no surgimento das grandes fazendas cafeeiras. A chegada da ferrovia veio acelerar essas mudanças materiais tanto na área rural como na área urbana, ela acabou sendo o grande indutor destas mudanças, pois a velocidade juntamente com a riqueza gerada pelo café proporcionou uma alteração não apenas no espaço da moradia e do trabalho, mas no pensamento, nos hábitos enfim em tudo o que se chamou de “civilidade”. O conjunto de mudanças em vários aspectos, tais como Ferrovia, Café, Abolição da escravatura, Imigração, Industrialização, transformou radicalmente a maneira de viver e, efetivamente, alteraram também os métodos de produção 38 e beneficiamento do café a partir do século XIX. Campinas se transforma com a chegada de inúmeras indústrias que passaram a se instalar na região, a fim de fornecer máquinas de beneficiamento de café (ver item 1.2.), além de inúmeras outras indústrias que davam suporte e manutenção às já existentes. Todas essas mudanças só foram possíveis graças ao café, e a responsável pela geração de toda essa riqueza foi sem dúvida a fazenda. A fazenda de café se tornou, a partir de todas estas mudanças, extremamente complexa e competitiva, devido à necessidade da instalação de inúmeros edifícios necessários à produção cafeeira. Isto foi observado desde a eficiente implantação do setor industrial que se relaciona ao beneficiamento do café com seus terreiros, tulha, casa de máquinas, como também pudemos observar através da literatura agrária (já discutida). Essa abrangência se fazia na escolha das áreas para a instalação de todo este complexo, que foi denominada de “agenciamento”, cuja definição resumida seria: estar próximo de muita água, boa insolação para a secagem dos grãos nos terreiros, posicionamento da sede, casa de colono, apoios para os serviços da fazenda, boas estradas para o escoamento da produção, além de uma reserva de mata nativa para futura expansão do plantio. Enfim, o caso não era apenas o de possuir a terra; era preciso ter um agenciamento correto e utilizar técnicas agrárias perfeitas. Segundo Áurea Silva (2006), em seu artigo sobre os Engenhos e Fazendas de Café de Campinas referentes ao século XVIII a XX, o legado destes dois ciclos econômicos – o da cana-de-açúcar e o do café – foi responsável pelo aperfeiçoamento da importância do agenciamento de todos os edifícios necessários para o setor produtivo, como também referentes aos programas necessários às habitações. A questão tecnológica dos edifícios revelou a preferência pelos métodos e materiais tradicionais da cultura arquitetônica paulista, particularizada no domínio da taipa de pilão e da taipa de mão até a chegada da ferrovia, na década de 1870. Esta abordagem foi importante, pois como foi possível observar, muitos engenhos foram inicialmente adaptados para receber o novo 39 produto (o café), e com isso se tornou difícil identificar precisamente se as mudanças ocorridas foram sentidas por todos tão rapidamente como a própria evolução da riqueza cafeeira que chegava – visto também que vários desses engenhos acabaram apenas em vestígios, pois um ciclo se sobrepôs ao outro inclusive nas próprias edificações existentes. Contudo, saber sobre o processo construtivo utilizado nestas propriedades em Campinas pode nos elucidar, no sentido de saber como esta elite estava vivenciando todas as novidades relacionadas às riquezas deste ciclo cafeeiro. Trabalhar sobre algumas destas fazendas se faz necessário para compreender melhor o objeto do nosso estudo; ou seja, a “Fazenda São Vicente” com sua arquitetura eclética do último quartel da República, a qual foi totalmente construída utilizando não mais a taipa, mas o tijolo. E, também, se reportando às noções do higienismo que já estavam sendo implantadas nas áreas urbanas. Assim como fizemos na abordagem de alguns exemplares do Vale do Paraíba, neste momento vamos aplicar uma abordagem também para Campinas. Como a Fazenda São Vicente foi propriedade de um dos filhos do Brigadeiro Luiz Antonio, vamos começar com a análise de um exemplar pertencente ao Brigadeiro (já tombado pelo CONDEPACC) e que se encontra hoje também em processo de restauro. Considerado um dos mais belos e significativos do ciclo açucareiro, era conhecido como o antigo engenho de Atibaia, denominado posteriormente “Fazenda Fazendinha”.5 5 Segundo Silva (2006, p. 9). 40 Figura 23 – Fazenda Fazendinha, do Brigadeiro Luiz Antonio de Sousa e Queirós. Fonte: Silva (2006, p. 9) Figura 24 – Fazenda Fazendinha, residência assobradada. Fonte: Silva (2006, p. 9) [...] conserva, do período, um grande quadrilátero com pátio central erguido em taipa de pilão e pau-a-pique. Emboradesativado e posteriormente adaptado à cultura do café (e hoje abandonado), é possível identificar nesses espaços parte do programa de necessidades do antigo engenho: o tendal na parte soalhada, a 41 senzala na ala de pé-direito menor, e as fornalhas no amplo espaço oposto à porta de entrada. Fora do quadrilátero, ficava o engenho propriamente dito, com as moendas e a residência principal; somente esta última chegaria até nós embora muito modificada na época do café, quando teve duplicada sua área construída, ainda é possível reconhecer a antiga moradia na construção que ocupa toda a ala direita, que conserva a planta original em L e o esquema de organização espacial interno típico da arquitetura açucareira, que, na fachada frontal, dispunha as salas sociais; no miolo da casa, as alcovas e os quartos; na parte posterior, a varanda ou sala de jantar; deixando, na parte alongada do L, em uma espécie de puxado, a área de serviço. A julgar pelas suas dimensões, essa ala poderia acomodar outras funções além das atividades estritamente domésticas. Com a construção da nova moradia, apoiada tecnicamente na parede lateral preexistente, surgiram duas residências, que tiveram suas fachadas unificadas a partir da inserção do alpendre frontal, que dá acesso ao pavimento nobre. As alterações na planta (originalmente em L transformada posteriormente em E) acabaram gerando espaços duplos e complexos. Este importante exemplar da primeira metade do século XIX, mostra com nitidez a preferência pela implantação em meia encosta, que aproveitava o desnível do terreno para erguer a fachada frontal, tornando-a assobradada. A parte posterior, embora profundamente alterada, apresenta-se, na ala direita, com dois pisos; e térrea na ala esquerda. Assim, todo o rés-do-chão forma um vasto porão de pé-direito irregular, cujos cômodos serviam de depósito. Convém notar que esse espaço não se comunicava internamente com o pavimento superior (SILVA, 2006). Com relação aos sobrados, foram encontrados exemplares significativos. Nos sobrados temos todo o piso superior apoiado sobre o piso térreo, que em muitas fazendas foi utilizado mais como depósito e onde havia também uma escada interna de acesso à parte superior. Este sobrado também possuía externamente uma escada geralmente toda em madeira, que terminava com um patamar de ligação com o piso superior. Alguns destes 42 exemplares detalhados por Silva (2006) são as fazendas “Mato Dentro” e “Quilombo”: A residência da Fazenda Mato Dentro, localizada no atual Parque Ecológico, que pertenceu ao tenente-coronel Joaquim Aranha Barreto de Camargo, conserva fundações e paredes remanescentes do período da cana. Erguidas em taipa de pilão e pedra entaipada, elas formam as paredes externas e internas estruturais do pavimento inferior, sobre as quais se assenta a moradia do período do café. (SILVA, 2006, p.12) Figura 25 – Engenho Mato Dentro. Fonte: Silva (2006, p. 6) As Ruínas da sede do antigo Engenho Quilombo, também de propriedade do Brigadeiro Luís Antônio de Sousa. Assentado sobre um terreno plano, o edifício tinha todo o embasamento construído em taipa de pilão, definindo a presença de um amplo porão de altura homogênea, sobre o qual se ergueu o pavimento do sobrado em paredes externas de taipa de pilão, e pau-a-pique nas divisórias. (SILVA, 2000) 43 Figura 26 – Engenho Quilombo. Fonte: Silva (2000, p.10) Com relação às casas térreas, foi considerada uma sede de engenho, sendo que a análise recaiu sobre a casa da Chácara Proença, cujas terras pertenceram à primeira sesmaria da Freguesia das Campinas do Mato Grosso e estão hoje inseridas no tecido urbano campineiro. [...] trata-se de uma casa construída no final do primeiro quartel dos oitocentos, implantada numa espécie de platô, com pequeno desnível (frente-fundo), erguida em técnica mista (taipa de pilão e taipa de mão), onde se evidencia a tradição mineira de afastar o soalho do contato direto com a terra. A planta em L segue a tipologia tradicional dos espaços segregados, dispondo os serviços na parte alongada (hoje, demolida). Além da moradia, esse espaço conserva ainda uma construção retangular em taipa de pilão, sem divisórias, bastante apropriada às possíveis funções a ela atribuídas: de pouso real, de engenho e de tulha (armazém). (SILVA, 2006, p. 23) 44 Nestas fazendas, perdurou a tradição pelo sistema construtivo do uso da taipa de mão e de pilão e por dois partidos de implantação, o de terreno plano e o de meia encosta, gerando a casa de sobrado e a moradia assobradada. Com relação às casas assobradadas, sabe-se que os mineiros influenciaram fortemente o uso da implantação das casas em terreno à meia encosta, proporcionando o uso de técnicas mistas das taipas, em voga desde o final dos setecentos, o que fez com que surgissem muito mais casas assobradadas – e com o uso do seu porão para depósito. Segundo Lemos (1999 p. 84-91): [...] arribando aos poucos, de modo que houve um cordial confronto de culturas, com predominância evidente da paulista, mas nesse assunto de arquitetura residencial rural o mineiro acabou tendo influencia indiscutível. Sua contribuição foi na alteração do partido arquitetônico, com a manutenção da técnica tradicional local [...] a taipa de pilão, partido agora caracterizado pelo sobrado – sobrado no sentido original do termo – pelo visto elevado do chão feito de soalho de tábuas amparadas por grossos barrotes. Foi o partido que vingou, com a construção aproveitando o desnível do terreno – casa térrea atrás assobradada na frente como verá oportunamente. Mas também houve o sobrado “ortodoxo”, o térreo mais o pavimento elevado, plantado no terreno em nível, assumindo a forma de um grande paralelepípedo. [...] O esquema de casa mineira semi- assobradada, que entrou na zona do quadrilátero do açúcar para ficar, nem sempre estava implantado em terreno de pouca inclinação [...] Na maior parte das vezes, os grandes desníveis só podiam ser vencidos por altos muros de arrimo formando terraços. Mesmo as casas assobradadas ou térreas permaneceram por muito tempo carregando a segregação de seus espaços, mantendo a mesma distribuição já conhecida das salas na frente, alcovas no meio, varanda (atual sala de jantar) nos fundos e serviços no prolongo ou puxado. As modificações para os campineiros foram lentas, apenas ocorrendo realmente com a chegada da ferrovia. As únicas mudanças ocorridas antes disso foram em relação ao 45 tamanho, tanto externo quanto interno, nas quantidades de salas, enfim, adaptações necessárias para atender ao início das mudanças que se faziam necessárias observando-se um novo programa social. Isso só ocorreu no último quartel dos oitocentos. A entrada de novos programas veio, a princípio, para atender ao engenho, que passou a ser mais planejado, visando à industrialização, pois não se tratava mais de manter as antigas moendas (para a fabricação de açúcar mascavo e alguma cachaça). Segundo Lemos (1999, p. 76), o programa residencial dentro do dito quadrilátero do açúcar permaneceu praticamente o mesmo. A parte social a que se refere, a saber, a cozinha, as salas de receber, sala de jantar (varandas), tinha sua razão de ser: Aliás, em todo o Brasil rural de antigamente, é bom relembramos, esse zoneamento de casas fatalmente haveria de ocorrer; longas distâncias, a necessidade de pernoites ao longo dos caminhos vastos e desertos. Às vezes viajantes conhecidos, amigos ou até parentes, às vezes caminhantes suspeitos, “cometas”, ou mascates, que deviam ser tratados sem muitas intimidades, embora fossem extremamenteúteis com as novidades que periodicamente traziam da civilização, indicavam agenciamentos estratégicos, que resguardassem a intimidade e o decoro da família, isto é, das mulheres como já vimos bastante. O mineiro praticamente só usou a varanda alpendrada sob telhado de prolongo para satisfazer a sua hospitalidade de proverbial simpatia. (LEMOS, 1999, p. 97) A diferença do Vale do Paraíba para Campinas foi muito grande: enquanto naquele conseguimos observar a profusão da decoração em suas fachadas, com o emprego de platibanda, frontões e movimentação de corpos salientes na estruturação das fachadas, em Campinas podemos dizer que isto foi mais raro. De acordo com Silva (2006): [...] as fazendas Jambeiro e São Quirino ainda que timidamente começam a apresentar essa modificação de fachadas, apresentando com isso bonitos telhados também. (SILVA, 2006, p. 23) 46 É natural falarmos da chegada do café em São Paulo e, prontamente, nos remetermos também ao Vale do Paraíba e ao seu enriquecimento. Afinal, esta foi a região pioneira naquele cultivo, onde foi iniciado o plantio na região serrana fluminense lindeira às terras de Minas Gerais. [...] Por esse tempo, Campinas (naquela época São Carlos), enquanto explorava 93 engenhos de açúcar, possuía somente 9 fazendas de café de pequena produção. Jundiaí e Itu, nenhuma fazenda daquela espécie. E em Capivari, Porto Feliz e Piracicaba (então Constituição) há a menção de que nos engenhos também cultivavam café. (LEMOS, 1999, p. 205) Vale lembrar que a expansão cafeeira exigiu a procura de novas terras para seu plantio, unindo não apenas antigos proprietários de engenhos e os descendentes de mineiros que já estavam esparsamente distribuídos na bacia do Rio Grande. Sobretudo, havia a presença dos capitalistas de São Paulo, que realmente tinham nas mãos o poder econômico necessário para empreender tal tarefa expansionista, uma vez que em diversos lugares, onde a ferrovia ainda não havia chegado, era necessário arcar com os caríssimos desmatamentos. Essa diversificação de pessoas, no entanto, não propiciou nenhum confronto de expectativas na definição dos programas de necessidades. (...) E, quanto às moradias rurais, não nos esqueçamos da Fazenda Milhã, de 1850. (...) no Vale do Paraíba, também surgiram à volta de Campinas algumas construções suntuosas e, digamos, modernizantes, que se afastam da grande amostragem das casas medianas dos fazendeiros remediados. Mas foram poucas. (LEMOS, 1999, p. 206-207) 47 A partir da segunda metade do século XIX, ocorre a chegada das posturas municipais e dos engenheiros sanitaristas e médicos brasileiros, e também dos periódicos que passaram a divulgar notícias e lições sobre o tema da higiene das habitações em geral, dando ênfase as questões de ventilação e iluminação natural dos compartimentos. Foi neste período, com a chegada da República e do ecletismo, que acontecem as alterações nos partidos arquitetônicos, que trazem uma nova concepção na maneira de iluminar e ventilar as construções. Isso será imposto através das leis e códigos que exigiam e listavam as condições mínimas para atender a uma maior salubridade. É claro que os fazendeiros mais esclarecidos tratavam, dentro das possibilidades, de evitar, sobretudo as alcovas abafadas e escuras, já, inclusive, condenadas por engenheiros e tratadistas. Em 1880, por exemplo, César de Rainville publicou no Rio um livro, de ampla repercussão à volta da Corte, em que condenava aqueles locais de dormir. [...] O fato é que a partir da zona campineira vemos, mormente nas grandes casas de fazenda de café, um desejo expresso e voluntário de construir o menor número possível de alcovas. (LEMOS, 1999, p. 211) Lemos (1999) nos fala muito bem quando diz que era na sala de jantar, com seis varandas, onde tudo acontecia. Entende-se por “tudo”, inclusive como nos conta Maria Paes de Barros, que era ali naquele espaço, por exemplo, que se dava banho nas crianças. O que se observa também é que, em relação às refeições, houve alterações e maior racionalização neste período, através do afastamento da cozinha e dos cheiros do preparo culinário, além das adaptações modernas que se implantaram nestas construções (como o fogão de ferro importado, chamado “econômico”, que gastava menos lenha e passara a ser utilizado). É interessante ressaltar que estes fatos demonstram (também segundo Lemos) que a casa começou a se modificar a partir do seu interior. 48 Nessas fazendas da área de influência campineira também se organizou melhor a questão da elaboração culinária destinada à população ali existente. As cozinhas improvisadas desapareceram, ficando a de dentro de casa e a de fora, para trabalhos pesados. (LEMOS 1999, p. 213) Vamos analisar no último quartel do século outra alteração na programação da casa-sede da fazenda de café: o surgimento do alpendre6, que foi uma novidade em São Paulo. Este não foi o mesmo das casas bandeiristas, nem da mineira, mas o alpendre que conhecemos foi elaborado com a projeção do telhado externamente a parede mestra. Sua função era a de refrescar a casa do forte calor, e por isso foi muito utilizado na área cafeeira ao norte de Campinas, sendo um elemento marcante da arquitetura cafeeira (embora muito diferente dos profundos alpendres mineiros e nordestinos). Em Campinas existiram muitas fazendas com estes alpendres feitos totalmente em madeira, desde suas balaustradas, ao piso, corrimão, os pilares de suportes de telhados; enfim, foi realizado desta maneira até a chegada do ferro fundido, com suas colunas, guarda-corpos bem ornamentados e que vão substituindo gradualmente cada parte de sua execução, fazendo com que estas residências – com a utilização do ferro fundido e de materiais importados – já estivessem ligadas ao estilo eclético que começava a se impor nestas áreas rurais campineiras. Um bom exemplo comparativo é o alpendre encontrado na Fazenda Sete Quedas – totalmente em madeira – e o da Fazenda São Vicente – totalmente em ferro fundido. A diferença destes 6 O alpendre profundo, isto é, aquele cuja boca, ou a altura, é menor que a distância da frente ao fundo, fazendo com que um raio de sol inclinado 45° nunca atinja a parede da casa, a nosso ver foi introduzido em São Paulo por pessoas de fora, imbuídas da tradição de sua terra de origem, sem que tivesse havido alguma reflexão sobre a oportunidade ou não daquela providência termo-reguladora. Simples expressão saudosista, vontade de repetir soluções conhecidas, continuar usando uma dependência de onde se pudesse dar ordens sem sair de casa, posto de observação, enfim, uma herança cultural trazida na bagagem de qualquer migrante. ( LEMOS,1999, p. 220) 49 alpendres das antigas varandas é que serviam mais como passagem do que para acomodar a família de forma aconchegante. Figura 27 – Fazenda Fazendinha. Fonte: Silva (2006, p. 27) 1.4. Ramos de Azevedo e a elite cafeeira de São Paulo 1.4.1. A formação do arquiteto-engenheiro Ramos de Azevedo A manifestação desta nova maneira de morar da elite cafeeira de São Paulo se viabilizou também pela presença de profissionais habilitados no campo da arquitetura e da engenharia, presentes nesta cidade. Vários foram os profissionais que atenderam, portanto, essa camada abastada e cada vez mais exigente da sociedade, como Mateus Hausller, Luigi Pucci, Maximiliano Emilio 50 Hehl, mas nenhum foi tão solicitado e teve tanto apoio dessa elite como Ramos de Azevedo, conforme nos esclarece Carlos Lemos: [...] A maioria deles, dizia-se, filiava-seao “estilo Francês”, isto é, possuíam telhados geralmente muito inclinados e, se possível, de ardósia. Esse “estilo francês“, na verdade, era a linguagem plástica assumida pelos arquitetos que ajudaram Hausmann a redefinir Paris e seus arredores; estilo propagado pelo mundo todo graças à grande penetração dos nove volumes de preciosos desenhos editados pelo arquiteto César Daly, em 1870 [...]. Sua própria casa particular, de 1891, esta visivelmente calcada nos modelos de Daly. Ramos de Azevedo projetou assim centenas dessas casas de gente importante, criando até uma linguagem própria baseada nas paredes de tijolos à vista sempre arrematados nos cunhais e nos arcos das envasaduras por bossagens fingindo pedras angulares em massa de cal e areia, pois não havia aqui à disposição rochas brandas de fácil manejo [...] Raríssimos os alpendres, a não ser em algumas casas térreas de porão alto, ditas “bucólicas”, e de estilo “campestre”, não propriamente chalés lambrequinados, que isso era coisa do passado paulistano, mas casas de movimentados telhados que permitiam fundos alpendres guarnecidos de bons trabalhos de marcenaria, em que as colunas e guarda-corpo formava caprichosos desenhos que, às vezes, prolongavam-se ao alto, indo decorar até extremidade de cumeeiras em balanço. (LEMOS, 1989, p. 133) 51 Figura 28 – Desenho original de Ramos de Azevedo, por ele autografado, onde se nota a fuga ao neoclássico frio e o desejo do bucolismo iniciado entre as construções de classe média no último quartel do século XIX. Esse projeto foi certamente copiado do álbum de Cesar Daly. Fonte: Lemos (1989, p.101). A divulgação por César Daly da arquitetura produzida na França no século XIX é bem anterior, todavia, à publicação do referido tratado de 1870. César Daly foi o editor da Revue Générale de L´Architecture et des Travaux Publics, cujo primeiro número é editado em 1840, e se apresentava como o jornal dos arquitetos, engenheiros e arqueólogos, mas também dos industriais e proprietários. 7 Na edição de número 10 (de 1852) César Daly já publicara a sua classificação das habitações parisienses, que seria, posteriormente, sistematizada no tratado de 18708. 7 As sessões da revista, de tiragem anual, eram: “Science et Art”, que incluía: géologie stéréotomie, machines, terrassement, maçonerie charpente, couverture, ponts, routes, canaux, édifices publics, constructions particulières, peinture, sculture, décoration, ameublement, batiments ruraux, jardins & salubrité, legislation, jurisprudence; e “Histoire”. 8 Numa prancha explicativa da classificação, cujos exemplares são apresentados em belas pranchas e descrições preciosas, César Daly distingue as seguintes habitações: Ouvrières 52 A esse respeito, é significativo o fato de que Ramos de Azevedo tenha começado sua atividade com colaboradores portugueses, franceses e alemães, como o português Ricardo Severo, o francês Victor Dubugras, e o alemão Maximiliano Emilio Hehl. Contudo, com o tempo, passou a contar também com os italianos (PIRES, 2006, p.119). O professor Carlos A. C. Lemos, em sua clássica obra denominada Alvenaria Burguesa9, nos revela, sobretudo, a cultura profissional no campo da engenharia e da arquitetura existente na cidade de São Paulo na segunda metade do século XIX e nas primeiras décadas do século XX. Uma das personalidades que se destacam, neste percurso, é o arquiteto Francisco de Paula Ramos de Azevedo10, brasileiro, formado na Université de Gand11 (Bélgica), onde se matriculou em 1875. (cites, cottages, etc...); Mistes [entre as habitações Ouvrières e as Bourgeoises] ( Maisons à loyer por les familes d´ouvrier et dês petits fabricants); Bourgeoises (1º Maisons à loyer pour de petites fortunes; 2º Maisons à loyer pour de moyennes fortunes; 3º Maison à loyer pour les belle fortunes bourgeoises); Mistes [entre as habitações Bourgeoises e as Aritocratiques] (riches maisons consacrées aux établissements de luxe); e Aritocratiques (Hôtels.). 9 Publicada pela primeira vez em 1985, em São Paulo, pela Editora Nobel. 10 Francisco de Paula Ramos de Azevedo, filho primogênito do Major João Martins de Azevedo e de Dona Anna Carolina de Azevedo, nasceu na cidade de São Paulo no dia 8 de dezembro de 1851. Presume-se que, logo a seguir, veio para Campinas, cidade em que seus pais residiam e onde viveu por trinta e cinco anos. Ramos de Azevedo iniciou seus estudos na escola regida por Quirino do Amaral Campos. Criada em 1845, era a primeira e única Escola Pública que ministrava, em Campinas, o ensino do Latim e do Francês. Portanto, o fato de Ramos de Azevedo ter freqüentado uma escola com tais características evidenciava que seu pai, desde cedo, desejava uma educação diferenciada para seu filho, o que se confirmaria ao longo de sua trajetória acadêmica. Em 1869, Ramos de Azevedo, então com dezoito anos, seguiu para o Rio de Janeiro a fim de realizar o curso de artilharia na Escola Militar da Praia Vermelha. Lemos afirma que ele se dedicou com afinco aos estudos, tendo se transformado em escrevente e secretário pessoal do General Polidoro, diretor daquela instituição [...] (MONTEIRO, 2000, p. 13-14). 11 Na escola flamenga de Gand vigoravam as tendências artísticas e sociais européias na arquitetura: o academicismo clássico, o neogótico e o renascentista flamengo constituíam as tendências dominantes. 53 Figura 29 – Vista da área central da cidade de Gand, hoje mostrando sua Torre sineira (Belfort) e catedral. Fonte: (2008) Ramos de Azevedo morou em Gand12 (Figura 29) e lá cursou duas escolas: a de Belas Artes, paralelamente à Engenharia da Escola Politécnica de Gand. Foi considerado um estudante brilhante, pois ao se formar em 1878 obteve o grau Maximo de “distinção”, e antes de retornar à Campinas ainda permaneceu na Europa para se aperfeiçoar em seus estudos, visitando outros lugares – talvez a Itália e Grécia – pois estas viagens eram recomendadas a todos os alunos formados para que pudessem adquirir na pratica mais experiência ao observarem e estudarem os monumentos da antiguidade clássica. 12 Gante (em neerlandês “Gent” e em francês “Gand”) é uma cidade Belga da província da Flandres Oriental. Ao contrário das cidades flamengas tradicionais, Gand não nasceu em volta de uma praça principal. Seus edifícios mais importantes estão espalhados pelo centro histórico, em volta de uma enorme torre do século 14, e de duas igrejas. Dentro de uma delas, curiosamente a mais simples, está o maior trunfo da cidade. Nos fundos da Catedral de St. Baaf fica uma das obras religiosas medievais mais conhecidas do mundo: a Adoração da Ovelha Mística, dos irmãos Hubert e Jan van Eyck. Mas Gand é também uma respeitada cidade universitária, com milhares de jovens circulando por ela. 54 Sua formação foi completa, pois quando cursou a academia Real juntamente com a Politécnica seu aprendizado seguiu ofícios ligados diretamente à construção, ao acabamento e a decoração do edifício, foi com a carpintaria, serralheria, estereotomia e estocagem, que o currículo da Escola de Engenharia não contemplava. (CARVALHO, 1998, p. 6) Não devemos nos esquecer, ainda segundo Carvalho, da forte influência exercida pelo professor Arquiteto Adolphe Pauli (1820-1895) no estudante Ramos de Azevedo, através dos importantes projetos realizados por ele para a municipalidade de Gand– preocupado que era com os aspectos técnicos e construtivos, distributivos, de conforto e bem estar, estilistas e formais. Muitos edifícios neo-estilos inspirados na tradição local projetados em Gand para as habitações da alta burguesia edificadas em ricas propriedades nos arredores da cidade inspiraram Ramos de Azevedo nas suas muitas residências projetadas, inclusive a sua, remanescentes das casas de Gand e região. (CARVALHO, 2000, p. 73) Podemos observar nesta análise de Carvalho uma divergência daquela realizada por Lemos, para quem as casas de Ramos tiveram forte influência de Cesar Daly, inclusive no que se refere ao projeto de sua própria casa (que foi construída em 1891 na Rua Pirapitingui, em São Paulo). Para a historiadora da arquitetura, seria a cidade de Gand que marcaria profundamente o jovem arquiteto. Após concluir seus estudos, Ramos de Azevedo voltou ao Brasil e estruturou a sua vida profissional na cidade de Campinas, cidade onde se encontravam seus pais, e de onde havia partido para realizar seus estudos, tendo realizado algumas obras que lhe deram renome. Como exemplo, existe a obra de finalização da Catedral de Campinas; obra dificílima que (vale salientar) vários outros profissionais já haviam tentado finalizar, mas sem êxito. Isso pelo fato de ser uma construção toda de taipa, que exigia uma técnica apurada para a realização de sua fachada. Ramos de Azevedo interveio 55 realizando um projeto de uma fachada monumental e, assim, conseguindo realizá-la com a técnica da taipa – para o espanto geral dos que achavam que a solução para realização do seu projeto seria em tijolo, já que naquele momento muitas obras já estavam utilizando este material. Sendo a catedral realizada inteiramente de taipa e tendo ele, através de seus conhecimentos técnicos-estilísticos, encontrado a solução perfeita para a nova fachada, tal fato acabou por evidenciá-lo, devido ao alto grau de dificuldade enfrentada na obra, chamando a atenção mais uma vez do então governador da Província, o Visconde de Parnaíba13, que acabou por convidar o jovem e talentoso arquiteto para projetar obras oficiais na capital paulista. Portanto, foi em 1886 que Ramos de Azevedo foi convidado para construir a Sede do Tesouro Nacional, iniciando assim sua brilhante carreira na capital. Devemos também atentar para o fato de Ramos de Azevedo ter se tornado Maçom e participado da mais importante loja Maçônica de Campinas, a partir do dia 17 de Outubro de 1873, quando foi iniciado como aprendiz na Sublime Ordem da Maçonaria14 (“Grande Benemérita, Benfeitora, Sublime, Augusta e Respeitável Loja Simbólica Independência”). Ele foi apresentado pelo então venerável Francisco Quirino dos Santos, e contava ainda com o apoio de Francisco Glicério e de Bento Quirino dos Santos. 13 [...] Ramos de Azevedo trabalhou também com projetos ferrovias. Não se sabe ao certo quais trabalhos Ramos de Azevedo desenvolveu naquelas linhas férreas, mas afirma-se que na Companhia Paulista ele se destacou por sua inteligência e pela presteza com que desempenhava as funções que se lhe reescreviam. Ao que tudo indica, ele também marcou presença na Companhia Mogiana. Aí, impressionou tão bem seu presidente, Antonio de Queirós Telles, Barão de Parnaíba, que este viria a protegê-lo para o resto da vida [...] (MONTEIRO, 2000, p. 14) 14 [...] Loja Maçônica foi fundada no dia 23 de novembro de 1867, sendo que uma semana após faziam parte do seu, quadro dentre outros: Francisco Glicério de Cerqueira Leite, Jorge Miranda, Eloy Cerqueira, Antonio Benedito Cerqueira Leite, Bento Quirino Simões dos Santos, João Quirino do Nascimento, Joaquim Quirino dos Santos, Francisco de Paula Simões dos Santos, Francisco Quirino dos Santos, Rafael Sampaio e Manoel Ferraz de Campos Sales. Esses homens participavam ativamente da vida social e política da cidade. Muitos deles, como Francisco Glicério, os irmãos Quirino dos Santos, Campos Sales, tiveram decisiva participação na propaganda republicana, bem como na consolidação do novo regime [...] Há ainda que se observar que laços familiares uniam as famílias de Ramos de Azevedo e Francisco Glicério. Sabe-se que as irmãs daquele se casaram com os irmãos deste. Não obstante esse fato, em 1880 Ramos de Azevedo casou-se com Eugenia Lacaze, sobrinha de Francisco Glicério. Dessa forma, as famílias Azevedo e Cerqueira Leite se uniram pelos laços sagrado do matrimônio e também pelos secretos da maçonaria [...] (MONTEIRO, 2000, p. 15-16). 56 Participando, então, desta sociedade, Ramos de Azevedo pode tecer suas mais preciosas relações de amizades e parentescos, o que influenciou de maneira importante sua vida desde sua viagem para a Bélgica, pois acreditamos que a maçonaria ajudou Ramos de Azevedo durante todo a sua permanência na Bélgica. Inclusive, esta ajuda parecendo ir além do apoio via imprensa, através dos laços de conhecimentos proporcionados pela rede existente dentro da própria maçonaria, pois também pode haver ajuda financeira. Em um curto espaço de tempo, após mostrar seu talento na cidade de Campinas, vemos o jovem arquiteto chegando a São Paulo pelas mãos do Visconde de Parnaíba. Esta participação esteve inteiramente ligada aos ideais políticos de sua época, e influenciou grandemente vários setores da própria cidade. [...] Considera-se ainda que a construção do espaço urbano seja também uma questão política, já que a configuração formal da cidade tem em si um grande poder de comunicação, revelando como uma determinada sociedade quer se representar. Assim sendo, os republicanos campineiros, fossem ou não maçons, aliados a burguesia do café, agrária ou urbana, tinham um horizonte político, ao qual correspondia um ideal urbano de uma cidade salubre, dotada de monumentos que fossem dignos de expressar sua condição econômica e que ampliassem a imagem referencial, no Brasil e na Europa, de uma Campinas moderna [...]. (MONTEIRO, 2000, p. 20) Ramos de Azevedo trabalhou sua arquitetura utilizando seu conhecimento adquirido através dos estudos em Gand. Nesta arquitetura, ele dificilmente trabalhou algum elemento ou espaço que lembrasse a arquitetura tradicional brasileira: sua proposta foi a de inserir, naquele momento, um novo conceito na arte de projetar. Exemplo disso é sua participação no projeto para o Monumento do Ipiranga, em 1884, através do qual ele deixou claro sua posição enquanto arquiteto (mesmo perdendo o concurso). 57 O autor entende a arquitetura de um edifício como estabelecida pela função e pelo programa ao qual este deverá atender e que a forma, o estilo e a decoração são decorrentes do caráter adequado à função - nesse caso de uma escola e não elemento de escolha arbitraria e inconseqüente. (CARVALHO, 1998, p. 9) 1.4.2. A atuação de Ramos de Azevedo em Campinas A atuação de Ramos de Azevedo na cidade de Campinas foi objeto de estudo específico de Ana Maria Monteiro Góes, cujos resultados foram apresentados em sua dissertação de Mestrado15, intitulada Ramos de Azevedo: presença e atuação profissional. Campinas: 1879 – 1886. Neste trabalho, a autora desvendou toda a trajetória profissional de Ramos de Azevedo em Campinas, onde o arquiteto foi responsável pela conclusão das obras da Matriz (como já mencionado) e de diversos outros projetos. Inclusive, a autora destaca: “Ramos de Azevedo demonstrava uma capacidade de trabalho muito grande, pois ao mesmo tempo em que gerenciava as obras da Matriz Nova, estava envolvido com a construção da Escola Ferreira Penteado, com a Companhia Campineira do Matadouro Municipal e com o projeto do Bosque dos Jequitibás”. (MONTEIRO, 2000, p. 92) O Bosque dosJequitibás16 ficou localizado numa área rural de propriedade de Francisco Bueno de Miranda, que no ano de 1880 resolveu 15 Defendida em 2000. 16 Processo 003/93 tombamento CONDEPACC–Campinas, Bosque dos Jequitibás. Resolução 013 de 02/09/1993. 58 criar o primeiro parque de Campinas em sua própria propriedade, e o colocou à disposição da população. Dentre as diversas obras realizadas por Ramos de Azevedo em Campinas, destaca-se ainda o Matadouro Municipal: Por essa ocasião Ramos de Azevedo estava envolvido com a construção do Matadouro Municipal que, inserido dentro dos mais modernos conceitos de higiene e salubridade urbana, localizava-se fora do perímetro urbano, em sentido contrario ao da área em questão. Desse modo, a localização de um loteamento disposto a abrigar as opulentas chácaras dos ricos negociantes e capitalistas apontava para que sentido se desejasse que a cidade se expandisse e também, o tipo de ocupação que se pretendia no local. Talvez Ramos de Azevedo já imaginasse até o tipo de habitação que aí seria erigida – afastada dos limites do lote, com seus cômodos totalmente iluminados e ventilados naturalmente, com setores bem definidos, etc. [...] (MONTEIRO, 2000, p. 105) Foi Ana Maria Monteiro Góes quem apontou, também, a relação de Ramos de Azevedo com a Maçonaria e com os seus principais membros, destacando tal apoio na formação do arquiteto, bem como na construção de sua carreira profissional. Ele também encontrou apoio junto a um dos principais jornais da cidade, a Gazeta de Campinas17, cujos proprietários eram maçons. A autora também menciona o incentivo recebido por Azevedo, quando de seu estágio na Companhia Mogyana de estrada de ferro, por parte do Visconde de Parnaíba. 17 Existe também outro dado relevante, a fundação, em 1869, do jornal “Gazeta de Campinas”, que propaganda o ideário republicano, teria à frente o grupo que havia fundado alguns anos antes a Loja Maçônica Independência. Francisco Glicério dos Santos, redator chefe desse periódico, e parte do grupo de jornalistas colaboradores, como Francisco Glicério, Campos Sales e outros, de acordo com os almanaques da época, seriam por um longo período, os principais dirigentes das lojas maçônicas da cidade [...] (MONTEIRO, 2000, p. 22) 59 Ramos de Azevedo, já em Campinas, iria dar mostras de que saberia trabalhar com as vertentes complementares da sua formação. Em suas obras nessa cidade, ver-se-ia refletida a importância por ele dada aos aspectos técnicos e construtivos, à salubridade e ao conforto, mas também, à preocupação formal em concebê-las de acordo com os ideais de beleza acadêmicos (MONTEIRO, 2000, p. 21). Como visto, Ramos de Azevedo recebeu o apoio da Gazeta de Campinas, num importante período onde as decisões mais importantes, referentes à cidade, estavam nas mãos de seus irmãos da Maçonaria. Como é sabido, os Maçons tinham como principal propósito divulgar suas idéias republicanas e a modernidade que se instalava neste período, inclusive com a participação dos principais atores que foram os grandes proprietários rurais, que passaram também a representar um novo papel social. Isto é, eram também empresários, capitalistas, juntamente com a emergente burguesia urbana formada, entre outros, por comerciantes, profissionais liberais, intelectuais, que tinham como propósito o comando das pretendidas reformas urbanas. (ver anexo 1: mapa Campinas - 1900). Assim o olhar para a cidade resultante da implantação de seus edifícios, demonstra que ele procurou diluir, dentro dos reticulados urbanos existentes, novos referenciais simbólicos, como o que a remarcá-la e construí-la em vários pontos. Para tanto. Lançou mão de uma arquitetura, que calcada formalmente na corrente historicista, então em voga na Europa, evidenciava conhecimento técnico- científico, racionalidade e funcionalidade. Seu Código de Posturas, permeado de princípios sanitaristas, disciplinadores do espaço citadino, complementava tal pensamento, numa relação simbiótica entre arquitetura e urbanismo [...] (MONTEIRO, 2000, p. 198-199) No período entre 1886 e 1918, Monteiro identifica as seguintes obras de Ramos de Azevedo para a cidade de Campinas: Matriz nova (taipa), Bosque dos Jequitibás, Capela São Benedito, Circolo Italiani Uniti, Teatro Carlos 60 Gomes, Chalé dos Construtores, Asilo de Órfãs, 1º Grupo Escolar, Cemitério do Fundão, Mercado, Estrada de Ferro Funilense, Praça Carlos Gomes, Paço Municipal, Escola Bento Quirino, entre outras. (MONTEIRO, 2000, p. 205). Além disso, Carvalho nos apresenta as seguintes obras: Cadeia Pública, Matadouro Municipal, Igreja de Cosmópolis, Residência – Armando Rocha Brito (Rua 11 de Agosto, 495), Residência – Horácio Antônio Costa (Rua Saldanha Marinho, 5), Residência – Luiz Antônio Pontes Barbosa e Escola Ferreira Penteado. (CARVALHO, 1998, p. 114). Além de todo o trabalho acima relacionado para Campinas, estes principais biógrafos de Ramos de Azevedo e outros historiadores da arquitetura paulista do período, como Campos (1997), têm estudado a obra deste engenheiro-arquiteto através de uma concepção interdisciplinar, abrangendo diferentes campos do conhecimento, tais como a história, as técnicas construtivas, a formação profissional, o urbanismo, a arquitetura e a engenharia, (entre outras). [...] o que distingue Ramos de Azevedo de seus colegas predecessores não é tanto o brilho de seu talento, mas o fato de ter encontrado na capital paulista uma situação política, econômica e sociocultural bastante favorável ao vertiginoso florescimento de sua carreira - apoiada esta carreira, naturalmente, nas qualidades intrínsecas necessárias ao bom êxito profissional de um grande empresário da arquitetura e construção civil. (CAMPOS, 1997, p. 31) 61 1.4.3. Ramos de Azevedo como “arquiteto oficial” da cidade de São Paulo No início do século XX, Ramos de Azevedo passou a ser o “arquiteto oficial da cidade” de São Paulo, pois foi o responsável pelas principais obras públicas então realizadas. A relação é grande: Teatro Municipal, Secretaria da Agricultura e Justiça, Pátio do Colégio, Edifício dos Correios, Asilo dos Inválidos, Santa Casa de Misericórdia, Quartel da Força Pública, Penitenciária do Estado, Mercado Municipal (e outras). Ou seja, tornou-se um dos principais empresários da construção civil. O engenheiro-arquiteto passou a ser um personagem engajado no processo de modernização de São Paulo, processo este que visou colocá-la ao lado das principais cidades burguesas da época. (HASKEL; GAMA, 1998, p. 22). Devemos avaliar como estes novos estilos apresentados no século XIX vão fazer parte deste novo repertório arquitetônico da cidade de São Paulo, bem como de todas as outras cidades onde foram apresentados, influenciando assim enormemente o modo de habitar. Para se entender os conceitos presentes em teorias e práticas da arquitetura do século XIX, faz-se necessário observar que estes se devem às grandes reflexões do século anterior. São questões não superadas que voltam à tona para serem rediscutidas. A arquitetura dos séculos XVIII e XIX foi largamente condicionada por duas tradições de pensamentos, a tradição racionalista francesa, emergindo de um prazer cartesiano na clareza e na certeza matemática e a inglesa, ou mesmo na tradição empírica britânica, que iria sugerir outro sistema de ordenação, basicamente chamando pitoresco. (MIDDLETON; WATKIN, 1987, p. 7) Dessa forma, classe média passou a ser a nova burguesia. 62 Foi no finaldo século XIX que a arquitetura e as artes encontraram formas inéditas de expressão. O beaux-arts, o neogótico, o historicismo, a atitude pragmática frente à arquitetura e o ecletismo, sempre referenciados em idéias de beleza pré-existentes agora coexistentes com os nascentes movimentos de vanguarda que reivindicam os padrões e as formas contemporâneas de beleza “rompendo” com as formas pré-existentes. (CARVALHO, 2000, p. 12) A arquitetura do século XIX, portanto, anterior ao movimento moderno, remetia-se à antiguidade greco-romana, quando ensinada nas escolas e acadêmicas européias. Por isso, a idéia de qualidade na arquitetura é indissociável dos elementos que a compõem: colunas, frontões, entablamentos, frisos, cornijas, capitéis, simetria, proporção, modenatura. Nesse sentido, para Ramos de Azevedo a arquitetura foi considerada a “arte de construir”, onde se demanda formas estáveis e estabelecidas. Seus edifícios deram a São Paulo uma nova referência de um conjunto de critérios para a cidade – estes, eruditos, clássicos e disciplinados. Para Ramos de Azevedo, segundo Carvalho (2000, p.102): ‘As formas não são roupagens, que se trocam ao sabor da moda ou da vontade. São formas criadas por civilizações antigas, cujo emprego a história consagrou – São clássicos e modelares, portanto – cujos elementos e combinações devem ser conhecidos sob pena de erros inadmissíveis para a arquitetura da época’. Ramos de Azevedo (assim como nenhum outro arquiteto da tendência que expressa) não estava preocupado com a originalidade do projeto, com a autenticidade e inedistimo do traço criador de nova forma. Ao contrário, o projeto para estes profissionais surge do conhecimento do “tipo”, da informação sobre formas consagradas, a função do edifício a ser projetado. 63 A “composição” nada mais é que o trabalho de viabilizar o novo edifício dentro de determinados limites dados pelo programa, orçamento, terreno e o que possa representar uma barreira, a partir dos pressupostos das formas tidas como “corretas”, como que inerentes à sua função daí a importância do estudo da estética e da história. (CARVALHO, 2000, p. 103) Segundo Carvalho (2000, p.103), a “ciência da construção” e a “ciência histórica” dão-se as mãos a serviço de uma arquitetura feita para responder às necessidades, e não para provocar ou desafiar as convenções. A arquitetura de Ramos de Azevedo é sempre convencional, escapando de qualquer ato mais ousado e evitando traços pessoais surgidos da veleidade artística. Através de seu trabalho, Ramos de Azevedo mostrou que sempre esteve em total sintonia com as perspectiva arquitetônicas européias de seu tempo. Ele foi o promotor da modernidade de São Paulo sem deixar se levar pelo espírito investigador ou aventureiro de tendências não consolidadas como, por exemplo, seus contemporâneos americanos. Podemos também colocar que a sociedade paulistana esteve, a partir da Proclamação da República, em contato com todas as tendências da arquitetura ocidental da época. Todas as informações técnicas e artísticas (bem como os pensamentos) são compartilhadas e chegam de todo os lugares: das escolas Politécnicas e Beaux-arts de Paris, de Gand e as escolas belgas, a Inglaterra Vitoriana, a Alemanha, a Áustria, a Itália e os EUA. É importante analisar as preocupações e as evoluções que estavam acontecendo nos EUA. Também, nas devidas proporções, o que estava acontecendo aqui era devido à grande influência da escola Beaux-arts de Paris sobre os diversos alunos americanos que ali faziam seus estudos, como Richard Morris Hunt, Henry Hobson Richardson, Charles Follen Makin e Louis Henry Sullivan. Também estava surgindo a Escola de Chicago que trabalhava as tecnologias do ferro nos seus edifícios estruturados em ferro, de início na própria cidade de Chicago, e logo depois em Nova York. Devemos recordar 64 que, neste período nos EUA, também houve um grande enriquecimento e desenvolvimento no país, fato este que revelou a idéia de uma arquitetura que representativa. Isso foi conseguido com inúmeras doações particulares que forjam, assim, uma “aura de tradição e raízes” na construção de seus museus, galerias, escolas, universidade, bibliotecas e fundações. A arte foi patrocinada também por colecionadores imensamente ricos que compraram na Europa coleções inteiras de obras de arte. Há nomes como os de Rockefeller, Guggenheim, Frick, Ford, Carnegie, Vanderbilt, que através de suas fundações e museus perpetuaram suas ações e doações. Esses edifícios foram construídos seguindo os estilos históricos ou da Beaux-arts. Como os exemplos encontrados na cidade de Nova York, o Metropolitan Museum, de R. M. Hunt de 1891; o Grand Central Terminal de Warren & Wetmore, de 1913; New York Public Library, 1914, hoje museu, de Carrére e Hastings. Do escritório mais famoso naquela cidade o Mackim, Mead e White, são o United States General Post Office (1913) e o Municipal Bilding (1914). Em Chicago a Exposição Mundial Colúmbia (1893) construiu um vasto complexo à beira do lago Michegan do mais puro Beaux-arts. (CARVALHO, 1998, p. 13) Não que nos EUA não estivesse ocorrendo pesquisa numa arquitetura nova e própria – haja visto os arranha-céus, as habitações coletivas e as habitações individuais. O que se percebe é que tanto lá como aqui no Brasil, especificamente em São Paulo, não era nada excepcional, arquitetos como Ramos de Azevedo “formados no exterior” não estavam cometendo nenhuma traição as suas origens ou manifestando o deslumbramento Naiif do colonizado, quando propunham uma arquitetura com base na tradição européia. (CARVALHO, 1998, p. 13) 65 A arquitetura Ocidental era feita com base na história; como esses países não tinham tradição de ensino e seus profissionais realizavam sua formação superior no estrangeiro, logicamente a formação trazida incluía o “estilo arquitetônico da escola cursada”. O desejo de estarem sintonizados com essa cultura erudita européia, naquele momento, permitiu a estes países terem a sensação de igualdade com esses grandes centros. No acervo da biblioteca da Politécnica de São Paulo existe a Sala Ramos de Azevedo, onde podemos observar através da sua coleção particular (doada a esta instituição por seus familiares) vários livros que demonstram como Ramos de Azevedo estava sintonizado e sabia o que estava acontecendo tanto na América como na Europa. Na sua coleção, podemos encontrar livros que demonstram as idéias artísticas, arquitetônicas e urbanísticas que marcaram a segunda metade do século XIX e o início do século XX, na França, Itália e Alemanha. Encontramos diversos autores arquitetos, urbanistas, historiadores, políticos, além de diversos volumes de obras de artes, catálogos de museus, tratados, mapas, enfim, uma biblioteca particular que demonstra ao visitante seus diversos interesses nos assuntos referentes à sua época. Ramos de Azevedo tinha como obrigação estar bem informado das tendências e de todas as mudanças que estavam ocorrendo na Europa, e também nos E.U.A., por ser ele um profissional que, além de ser um grande engenheiro arquiteto, foi também banqueiro, industrial, comerciante e construtor, ou seja, um grande empresário – sendo, portanto, muito lógico o fato de ele estar bem informado sobre os acontecimentos mundiais. O que se fez, tanto no exterior como no Brasil (e observando as devidas proporções), foi demonstrar ou provar aquilo que ainda não havia sido totalmente conquistado: solidez, permanência, raízes e estabilidade. No Brasil ao falarmos e compararmos a produção arquitetônica paulista com a do Rio de Janeiro, por exemplo, vamos encontrar uma variedade maior no Rio, talvez por ter sido a capital do Império (como já mencionado)e possuir mais recursos e investimentos públicos, como os vistos na realização do projeto de urbanização 66 e remodelação da Avenida Central, com fortes marcas do modelo hausmanniano, caracterizando sua europeização no período, com fortes signos do urbanismo. Os edifícios idealizados e construídos (ou mesmo os não construídos) por Ramos de Azevedo nos dão os meios para avaliar sua produção arquitetônica. Serão eles que irão mostrar o desempenho deste engenheiro arquiteto para solucionar todas as solicitações que sua época requisitou. [...] A arquitetura de seus edifícios demonstra o domínio sobre as técnicas construtivas, o respeito ao programa estabelecido, a preocupação com a higiene e salubridade da edificação. Revela também que para Ramos de Azevedo projeto surge do conhecimento do tipo, entendido como um conjunto de constantes aplicáveis a construções diversas. Para a individualização de cada obra, consoante aos marcos referencial dos tipos: escola, teatro, palácio, matadouro, etc., concorrem o decoro, através do qual o edifício é dotado da conveniente magnificência, do concreto ornamento, de forma a espelhar o caráter que se representar. Se para Ramos de Azevedo o decoro propiciaria que o olhar identificasse a natureza do edifício, que seu caráter ficasse evidenciado pelo tipo, pelo ornamento, pela magnificência, pela articulação das partes, também aquele deveria estar presente na visibilidade que toda a urbe deveria expressar. Assim, a cidade como um todo deveria constituir-se como um organismo regular, salubre, funcional, gerido cientificamente e por assim dizer, belo. (MONTEIRO, 2000, p. 199-200) Segundo Carvalho (1998, p.14), através de sua produção Ramos de Azevedo conseguiu demonstrar as suas idéias sobre a organização social, o trabalho e a adequação de espaços aos novos programas vigentes, como: 67 A adesão a um princípio construtivo e seu correspondente formal clássico; a organização espacial a partir de modelos arquitetônicos os mais modernos; a preocupação com higiene, salubridade, conforto e, conseqüentemente, com a implantação do edifício; com os materiais de construção; com a organização do canteiro de obras; com o erguimento do edifício, questões até então estranhas à cultura paulista, demonstrando assim como deveria ser a nova cidade, os edifícios e os espaços públicos, a casa e o homem que os constrói e os habita. Ramos de Azevedo permitiu que São Paulo conhecesse e se integrasse aos programas e modelos mais caros que estavam sendo praticados no mundo, durante o século XIX: Hospitais, Asilos, Quartéis, Escolas, Jardins de infância, Laboratórios, Institutos, Matadouros, Edifícios públicos, Residências. Sua arquitetura traduziu e respondeu às necessidades da modernização. Essa modernização da arquitetura só foi possível também graças às novas técnicas e materiais apresentados pelo mundo industrial e que muito interessavam a Ramos de Azevedo. Vamos encontrar um arquiteto mais ocupado com a realização, com as técnicas os materiais e sua execução, integrado ao canteiro, ao ateliê de artes e ofícios. Para ele interessava a prática: A atenção nos mínimos detalhes que ele confere a seus projetos é observada nos memoriais descritivos de algumas de suas obras como: Hospital do Juqueri, reforma do Solar do Marquês de Três Rios e dos Laboratórios da Politécnica, também esse perfil se observa na organização da Escola Politécnica 1891 e na organização do Liceu de Artes e Ofícios 1895, a dedicação dada ao ensino no curso de arquitetura e, ali, sua participação pessoal como professor, o programa de ensino das duas disciplinas que ministrou na Escola Politécnica e a relação perseguida entre essas e as demais cadeiras. (CARVALHO, 1998, p. 15) 68 Quando Ramos de Azevedo reformou o Pátio do Colégio, apresentou através de uma unidade e linguagem clássicas, então, um espaço público que a São Paulo industrial estava precisando. Todos os seus edifícios se sucedem segundo um plano erudito perfeitamente elaborado, trazendo a sensação de equilíbrio e harmonia. Ramos de Azevedo tinha capacidade para realizar esse projeto do Pátio do Colégio, como todos os outros projetos que realizou, devido sua formação em Gand, pois já trazia dentro de si um repertório clássico analisado aos olhos de reflexões que estavam sendo discutidas tanto na Europa como nos Estados Unidos (inclusive o tratado de arquitetura de Julian Guadet). Sua preocupação não estava centrada apenas nos espaços públicos abertos da cidade, mas também quando ele trabalha brilhantemente os espaços do Quartel de Polícia e Hospital Militar no bairro da Luz. Ele trabalhou numa organização urbanística com complexos diferentes, aos quais depois ainda foi possível acrescentar o prédio do Liceu. Ramos de Azevedo também usou os tratados eruditos para trabalhar de forma correta os dois edifícios (Quartel e Hospital). Para o Quartel, ele apresentou sua distribuição em torno do pátio onde as tropas se reuniam; no Hospital, trabalhou a relação pavilhonar já utilizada na Europa. Sua relação entre a função e a estética dos edifícios foi alcançada em todos os detalhes e elementos construtivos. Assim também ele se preocupou com o conjunto da Politécnica, onde utilizaria o bloco compacto já demolido do casarão do Marquês de Três Rios, fazendo outras composições urbanísticas junto com os novos edifícios ali projetados. Ramos de Azevedo estava ciente das necessidades e utilizava os tratados mais avançados de Arquitetura já publicados – como, inclusive, o já citado Julian Guadet – que continha as recomendações sobre arquitetura escolar que ele utilizou na montagem da Politécnica de São Paulo. O que vemos é um arquiteto pautado em bases e ensinamento teóricos atuais para seu tempo. Ele se preocupava com o conjunto dos edifícios, porém não apenas com o seu interior: ele pensava na contemplação do visitante que lia a sua obra 69 tanto externa como internamente. Seu conhecimento dos princípios norteadores do projeto, como o Higienismo e o Sanitarismo, o levaram a empreender para São Paulo um complexo Hospitalar urbanístico impar. Ele foi capaz de criar, dentro dos muros do Hospital Juqueri, uma mini-cidade afastada da cidade de São Paulo e do seu centro urbano de acordo com os códigos de Postura de sua época. O arquiteto considerou e aplicou suas referências clássicas para cada edifício criado, dando a todos os prédios a importância que pediam. Ramos de Azevedo não descuidou de detalhes nem quando trabalhava a monumentalidade de cada edifício, conferindo a ele a importância real de suas atribuições internas. Para ele, o edifício deveria refletir externamente a função interna. Se fosse uma escola, cadeia, quartel, hospital ou teatro, a leitura do olhar do observador deveria facilmente reconhecer a beleza e a importância do seu interior. Ramos de Azevedo, além dos prédios públicos, também trabalhou intensamente com as residências – desde as residências de aluguel até os palacetes da elite. Ele colocou dentro do seu curso na Politécnica o estudo destas casas, inclusive das casas operárias, das casas simples e de grupamentos de casas. Em seu curso ele trabalhou os diversos partidos e tipologias destas casas, preocupado com sua distribuição interna, bem como organização e ampliação. E contribuiu enormemente ao implantar as fronteiras de dentro das casas entre áreas públicas e privadas e a separação dos cômodos. Ele vai trabalhar vários tipos de casas, inglesas, francesas, alemãs, suíças, etc. Em 1876, já tinha sido publicada a primeira edição de um manual com plantas de casas em diversos estilos, nos Estados Unidos, para residências. No período em que Ramos de Azevedo estudou em Gand (de 1875a 1878) já existiam vários periódicos, revistas, manuscritos, livros, e também já aconteciam vários congressos. Tudo isto, em circulação por vários países, leva-nos a acreditar que estas informações já estavam disponíveis a estes alunos e profissionais. Assim, instalou as moradias adotando partidos arquitetônicos específicos. Por exemplo, se fossem implantadas residências no centro, estas seguiriam o alinhamento conforme as normas de legislação 70 municipal; emprestava-lhes o aspecto da casa citadina parisiense, o hôtel, se mais afastadas; e adquiriam o aspecto de villas – tipicamente oitocentista – em meio a jardins. Ramos de Azevedo, segundo Carvalho (1998, p.17), realizará seus projetos apresentando as suas soluções. As plantas, invariavelmente, possuem disposição semelhante dos cômodos, os quais são nominados, hierarquizados e distribuídos do mesmo modo. A posição da entrada principal e do vestíbulo vai comandar os posteriores desdobramentos das plantas que, apesar de variarem na forma arquitetônica – são na maioria, discretamente irregulares – têm o sistema de circulação repetido. A casa, por meio de seus mirantes e balcões, também se apropria da cidade e seus horizontes. Ramos de Azevedo não teve a angústia de afirmação de autenticidade. Aceitou e tomou para si a herança da cultura arquitetônica que, como cidadão do mundo, tinha direito. Trouxe na sua bagagem de estudante a disciplina e o conhecimento adquirido. 1.4.4. Ramos de Azevedo e o ensino da arquitetura Este momento do presente trabalho deve ser visto como de extrema importância, pois se debruça, agora, sobre um profissional não apenas envolvido no ato de projetar e construir, mas também na sua atuação em ensinar como fazê-lo. Para isto, devemos recordar um pouco mais com detalhes como foi a carreira do professor arquiteto Ramos de Azevedo no curso da Politécnica da cidade de São Paulo, especificamente analisando as matérias ensinadas para preparar seus alunos (e futuros profissionais) no sentido de atenderem a demanda de habitações daquela nova cidade – que, de acordo com a definição de Benedito Lima de Toledo, foi chamada naquele momento de “a metrópole do café”, e que, para Nestor Goulart, era “a cidade européia (1889 a 1930)”. 71 A cidade de São Paulo, na Primeira República, já possuía os cursos de engenharia divididos em três escolas: o curso de Engenheiro Arquiteto da Politécnica (1894 a 1954); o curso Engenheiro Arquiteto da Mackenzie College 1917-1946; e o curso de Arquitetura da escola de Belas Artes (1928-1934). De acordo com Sylvia Fischer, o estudo da engenharia da Politécnica de São Paulo privilegiou os seguintes campos de atuação: o mercado de trabalho, o pensamento arquitetônico e a estética, a atuação na cidade, profissão e os aspectos legais do ensino superior referentes à profissão e a construção. Além disso, “havia também na Politécnica o curso especial com as cadeiras de História da arquitetura, Estudo dos Estilos Diversos, com aulas práticas de projeto de responsabilidade de Maximiliano Emílio Hehl”. (CARVALHO, 2000, p. 114) Nada era esquecido no seu curso, visto que Ramos de Azevedo ensinava a parte mais técnica-construtiva, que se referia desde a montagem do canteiro de obra, uso dos materiais, sua execução (enfim, da fundação a cobertura), e depois procurava mostrar e ensinar, a rigor, sobre instalações, drenagem dos resíduos, salubridade, conforto, insolação; até a última parte, com o arranjo final do edifício estudado juntamente aos conceitos de “solidez”, “beleza”, “caráter” e “decoração geral”. Os princípios de composição eram aplicados em todos os projetos de habitações e de edifícios públicos, classificando as residências em: “casas de operários, casas de aluguel e casas de luxo”. A outra cadeira de Ramos de Azevedo era Elementos de Arquitetura. O estudo dos detalhes era exclusivo do curso de arquitetura, e era composto conforme segue: [...] de uma introdução, em que era explicado o objetivo do curso e sua divisão, e de três partes, a primeira parte: intitulava-se Disposição e decoração dos elementos dos edifícios, a segunda parte: Estudos das diversas seções das habitações, e a terceira parte: Organização de projetos de detalhes das habitações. (CARVALHO, 2000, p. 116) 72 Foi especificamente na segunda parte que Ramos de Azevedo classificou as habitações em “casas operárias”, “casas civis”, “vilas e palácios”.; onde ele pode tratar melhor a organização de cada uma delas segundo suas necessidades apontadas em seus programas. Ia, portanto, da mais simples à mais complexa e suntuosa. Ramos de Azevedo foi considerado um professor exemplar, dedicado e adorado por seus alunos. Para facilitar a maior compreensão das partes de uma edificação por parte de seus alunos, ele criou um museu da construção localizado num gabinete onde mantinha suas maquetes e seus modelos – desde escadas, esquadrias, ferragens, modelos de instalação de esgoto, coleção de madeiras. A biblioteca da Politécnica mantinha uma bibliografia atualizada e pautada com as de outras escolas internacionais. Na bibliografia da Politécnica encontramos o Traité d’architecture, de Louis Cloquet, que foi professor na Universidade de Gand, o Petit Manuel d’architecture de A. Krafft, La Villa Moderne, de Th. Bourgeois; Projet M. Bérnard pour La construction de l’université de Berkeley (California) a historie de l”architecture, de A. choisy; I” enseignement à l’école nationale et Spéciale dês Beaux-arts. Section d’architecture, de autoria de H. Guedy, Manuel de perspective et trace dos ombres, à l’usage des architectes, ingénieurs et des élivies des E’coles Spéciales, de Paul Planat. (CARVALHO, 2000, p. 118) Em 1906, a biblioteca da Politécnica registrava 343 volumes para a arquitetura e construção. Ramos de Azevedo retratou nos seus projetos residenciais todo o repertório da habitação burguesa européia descrita por Guadet e Cloquet. Este repertório está na composição do programa, na implantação dos edifícios, nos desenhos de plantas, na organização das áreas social, intima e de serviço, nas volumetrias, nos desenhos de 73 fachadas e nos detalhes de decoração. Está nos materiais utilizados e no modo do seu emprego. Está, ainda, na atmosfera, que tanto pode ser entendida como marca do estrangeirismo como a assinatura do arquiteto que os projetou. (CARVALHO, 2000, p. 268) Ramos de Azevedo ensinava meticulosamente todos os passos do projeto e da construção. Da localização e orientação, projeto e construção de anexos, jardins, grades e portões às grimpas no alto dos telhados (CARVALHO, 2000, p. 269). É preciso lembrar também que a Politécnica de São Paulo seguiu o modelo germânico, que por sua vez foi influenciado pelo modelo francês. O seu fundador foi o engenheiro Antônio Francisco de Paula Souza que estudou em Karlsruhe em 1868, onde o curso foi baseado totalmente na escola germânica. Ele também estudou na escola técnica superior de Zurique. O prédio já anteriormente citado, onde se instalou a Politécnica, foi o Antigo Solar do Marquês de Três Rios na Av. Tiradentes (e que mais tarde foi completado em 1899). Foram de grande importância as disciplinas de arquitetura introduzidas no curso de engenharia por Ramos de Azevedo, sendo que ele elaborou o novo regulamento da Politécnica, além de ter sido o catedrático da seção de arquitetura dessa escola. A escola do Rio Janeiro formava os arquitetos mais integrados ao ensino artístico, enquanto a escola de São Paulo se especializou mais no campo da engenharia. Na arquitetura residencial, vamos encontrar no século XIX o ecletismo como a ordem estética mais utilizada. Todo o repertório utilizado, tanto na Europa como nosEstados Unidos no século XIX, também passou a ser usado aqui nas vilas, casas de cidades, de subúrbios, palacetes e bangalôs de moradias das famílias das camadas mais altas. 74 A mudança espacial apresentada por Ramos de Azevedo com todo o refinamento europeu era o que essa nova elite estava esperando. Os projetos para residências realizados por Ramos de Azevedo seguiram todos os parâmetros, construtivos, espaciais e formais compatíveis com as classes sociais vigentes e a industrialização. (CARVALHO, 2000, p. 251) A arquitetura doméstica na Europa e Estados Unidos mostrou uma mudança substancial graças ao processo de industrialização que se iniciou nesses países, e também devido ao desenvolvimento técnico e cientifico que estava sendo implantado. Tudo isto acabou influenciando os novos hábitos com relação à higiene e salubridade. Os profissionais passaram a desenvolver seus projetos contemplando melhor o zoneamento, a orientação e a circulação. “Havia outros arquitetos que estavam também trabalhando nesta área como os encontrados na França como Viollet-le-Duc (1814- 1879), nos Estados Unidos, Samuel Sloam, Andrew Jackson Doening e Caluert Vaux” (CARVALHO, 2000, p. 256). O desejo de sobressair levará essa camada privilegiada a adotar e empregar novas formas arquitetônicas totalmente estranhas ao repertório existente. Tudo será explorado – desde as novas técnicas, materiais, estilo de vida, hábitos, etc. – para se destacarem dentro deste novo século. Cada país, cada lugar, cada arquiteto: como diz Carvalho, “Não é possível dizer que exista apenas um modelo que sintetize a casa abastada do século XIX” (CARVALHO, 2000, p. 257). Os dois nomes de professores da Politécnica que mais se sobressaíram em São Paulo neste período foram os professores Francisco de Paula Souza e Ramos de Azevedo, mas é possível encontrar outros grandes nomes que também fizeram parte, como professores, desta mesma escola e que se destacaram também como profissionais: Domiciano Rossi (Itália, 1865 – 75 São Paulo, 1920), Victor Dubugras (Sartre/França, 1968 – Teresópolis, 1923), Maximiliano Emílio Hehl (Kassel/Alemanha, 1861 – São Paulo, 1916). 1.4.5. Ramos de Azevedo e a família Paes de Barros Como já foi possível perceber, ocorreu uma intensa febre construtiva na cidade de São Paulo entre os anos de 1870 e 1880. Paralelamente à produção oficial de Ramos de Azevedo junto ao governo de São Paulo, assim como os demais engenheiros atuantes no período, o profissional não deixa de atender à demanda do estrato mais elevado da sociedade paulistana, que desde alguns anos recorria a profissionais diplomados para projetar e construir edifícios das mais variadas naturezas. Estes engenheiros, como Mateus Haussler (alemão que já estava em São Paulo, em 1882, e seria escolhido pelo presidente da Província, em 1886, para idealizar a Hospedaria dos Imigrantes, construída entre 1888 e 1891) e Ramos de Azevedo, construíam para a família Paes de Barros. Eudes Campos também nos relata que vários dos projetos realizados por Ramos de Azevedo (ou pelo seu escritório) receberam também a contribuição de mais um colaborador, recém chegado da Alemanha: Maximilian Hehl. Outra contribuição inegável é a dos financiamentos colocados à disposição dessa elite cafeeira pelo Banco União, cujo diretor e acionista era também Ramos de Azevedo. Assim, acontece a ligação da sua trajetória profissional, social e política com a família Paes de Barros: “A Família Paes de Barros tinha dois acionistas, juntamente com Ramos de Azevedo, na direção do banco. Ramos de Azevedo assumiu em 1890 a carteira imobiliária do Banco União e pôs como chefe do escritório técnico de arquitetura um engenheiro havia dois anos chegados da Alemanha, Maximilian Hehl (... - 1916). Da 76 diretoria do banco, tomavam parte ao menos dois membros da família Pais de Barros: Antônio Paes de Barros e João Tobias de Aguiar e Castro. Por intermédio desse banco, falido em 1896, inúmeros projetos de palacetes paulistanos ou reformas de antigos prédios residenciais seriam então executados, alguns para os próprios membros da família Paes de Barros” (CAMPOS, 2007)18 Alem disso, também podemos concordar com Eudes Campos (1997, p. 278) quando afirma que a divulgação da arquitetura privada, em São Paulo, dava-se de forma oral, entre familiares e amigos dos encomendantes. Esse fato propiciou que determinados projetistas se tornassem praticamente exclusivos de certos círculos burgueses, como Häussler entre os Paes de Barros (depois ligado a Elias Chaves), Ramos de Azevedo entre os Paula Souza e os Sousa Queiroz e Pucci entre os Prado (CAMPOS, 1997, p. 278). Às vezes, uma obra era projetada por um arquiteto de uma nacionalidade, mas construída por outro de nacionalidade diferente. O palácio de Elias Chaves, nos Campos Elíseos, foi projetado pelo alemão Matheus Häussler, em 1896, e acabado, nos anos seguintes, pelo italiano Claudio Rossi. (PIRES, 1995, p. 123) Cabe, todavia, acrescentar que Ramos de Azevedo também freqüentava os círculos da família Barros, como visto no caso de sua participação no Banco União. E, principalmente, se observarmos a genealogia de tal família, podemos constatar que muitos o contrataram para projetar edifícios em suas propriedades. Vale lembrar que, neste momento, a própria Baronesa de Limeira, além de utilizar o escritório de Ramos de Azevedo para a reforma de 18 CAMPOS, Eudes. Os Paes de Barros e a Imperial Cidade de São Paulo Texto elaborado a partir de uma palestra dada pelo autor no Museu Republicano de Itu, em 15 de junho de 2007. INFORME: Arquivo Histórico Municipal São Paulo, janeiro/fevereiro de 2008. Ano 3, nº.16. 77 sua mansão em São Paulo, ainda o contratou para outros serviços em residências suas que serviam para aluguel, conforme cita o próprio Campos: Em 1890, a baronesa viúva enfrentou uma reforma no casarão em que habitava, cuja fachada desde então passou a apresentar características plenamente ecléticas, muito provavelmente já devidas a Hehl e não a Ramos de Azevedo. A baronesa, contudo, parece não ter ficado muito satisfeita com o resultado. Depois de mandar abrir a futura Avenida Brigadeiro Luís Antônio, em 1894, encomendou ao escritório de Ramos de Azevedo outro palacete, na esquina da via recém-aberta com a Rua Riachuelo, acompanhado de duas casas de aluguel. Das três construções então erguidas, só uma das casas de aluguel sobrevive hoje como sede do Cejur (Centro de Estudos Jurídicos), órgão pertencente à Prefeitura do Município de São Paulo. (CAMPOS, 2008) Figura 30 – Vista da Avenida Brigadeiro Luís Antônio. À direita, residência da Baronesa da Limeira, na esquina da Rua Riachuelo, e duas casas de aluguel pertencentes à mesma senhora. Foto de autoria de Guilherme Gaensly, 1900. Fonte: Kossoy (1988) 78 Os Paes de Barros, devido ao grande poder, fortuna e influência nos círculos políticos e sociais, passaram a encomendar inúmeros projetos luxuosos aos renomados profissionais da época, principalmente a nova geração após o 1°Barão de Piracicaba. Pelo fato de muitos membros da família terem estudado no exterior e terem também realizado diversas viagens à Europa, haviam adquirido o bom gosto num período de auge da economia cafeeira (nesta época, o café era chamado de “ouro verde”). Ramos de Azevedo também projetou e construiu, para os Paes de Barros, a bela Villa italiana em estilo Renascença, na Rua Florêncio de Abreu, por volta de 1887 e 1888. O projeto se encontra no álbum de realizações de Ramos de Azevedo, datado de 1904, (CAMPOS, 1998, p. 31).Figura 31 – Casa de Antonio Paes de Barros. Fonte: Azevedo (1904) 79 Figura 32 – Sala de jantar de Antonio Paes de Barros. Fonte: Azevedo (1904) Atendendo ainda à demanda desta família, Ramos de Azevedo projetaria a sede da Fazenda São Vicente, localizada em Campinas, para a Baronesa de Limeira, de acordo com relatos de Rubem Paes de Barros.19 (ver Anexo 2: genealogia). Segundo Eudes Campos, em 1890, a baronesa de Limeira, então viúva, enfrentou uma reforma no casarão em que habitava, cuja fachada desde então passou a apresentar características plenamente ecléticas, muito provavelmente já devidas a Hehl, e não a Ramos de Azevedo propriamente. A baronesa, contudo, parece não ter ficado muito satisfeita com o resultado (Figura 33). Depois de mandar abrir a futura Avenida Brigadeiro Luís Antônio, em 1894, encomendou ao escritório de Ramos de Azevedo outro palacete, na esquina da via recém-aberta com a Rua Riachuelo, acompanhado de duas casas de aluguel. Das três construções então erguidas, só uma das casas de 19 Rubem Paes de Barros, proprietário da Fazenda São Vicente em Campinas, em entrevista à Associação de Preservação do Trem Turístico (denominado “Maria Fumaça”). 80 aluguel sobrevive hoje como sede do Cejur (Centro de Estudos Jurídicos), órgão pertencente à Prefeitura do Município de São Paulo (Figura 34) (CAMPOS, 2008). Figura 33 – Reconstituição digital da reforma da fachada da casa da Baronesa de Limeira, projetada no Banco União em 1890. Fonte: Campos (1997). 81 Figura 34 – Vista da Avenida Brigadeiro Luís Antônio. À direita, residência da Baronesa da Limeira, na esquina da Rua Riachuelo e duas casas de aluguel pertencentes à mesma senhora. Foto de autoria de Guilherme Gaensly, 1900. Fonte: Kossoy (1988) 1.5. A arquitetura da sede da Fazenda São Vicente Como já observado na introdução deste trabalho, embora o professor Carlos Lemos chame a atenção para a existência de projetos de Ramos de Azevedo voltados para uma arquitetura campestre, este é um tema ainda pouco elucidado na historiografia da obra do arquiteto-engenheiro. Com a análise da arquitetura da sede da Fazenda São Vicente, pretendemos contribuir para o esclarecimento sobre este campo de atuação do profissional. Lemos, em entrevistas, afirmou que Ramos de Azevedo fazia inúmeras fazendas para os Barões do Café, as quais eram realizadas pelos seus 82 engenheiros, então alocados nas usinas elétricas ou nas ferrovias que o seu escritório estava implantando. Porém, não se encontra ainda um estudo bibliográfico sobre a maioria destes projetos e construções. Embora Ramos de Azevedo, na organização do curso de arquitetura na Escola Politécnica, classifique as residências em “casas operárias”, “casas civis”, “vilas e palácios” (como já observados), na sua formação estiveram presentes também o estudo e projetos de “casas de campo”. Segundo Carvalho (2000, p. 73), na escola de Gand foram encontrados alguns álbuns dos trabalhos realizados pelos alunos com as referências das provas realizadas por Ramos de Azevedo. Nestes álbuns consta a aprovação de Ramos no 1º ano em Gand, em 1877, onde foi observado, além da prova oral, um projeto de uma casa de campo; e para a finalização do seu curso, em 1878, para obter o título de engenheiro arquiteto, além da prova oral, mais uma vez a realização de um projeto de uma casa de campo. Percebe-se, dessa forma, que o tema da arquitetura campestre passa a fazer parte do ensino da arquitetura. Esta observação reforça a idéia da existência de um estilo campestre em sua obra, que não se limita à residência e também pode ser identificado como estilo chalé. A difusão deste estilo de arquitetura se fazia no final do século XIX, quer nas academias, quer junto aos construtores. Podemos lembrar o livro lançado em 1876 por Isaac H. Hobbs, intitulado Authentic Victorian Villas and Cottages. Como outros, é um exemplo de livros de projetos que foram copiados e construídos por toda a América. Neste livro aparecem informações rápidas sobre a história da arquitetura italiana, normanda e grega. Há explicações sobre a Villa Italiana, o cottage gótico, a vila no estilo debased gothic, a arquitetura Vitoriana; inclui ainda plantas, detalhes, desenhos, onde a intenção era apresentar procedimentos de bem projetar. Um dos primeiros projetos de que temos notícia que Ramos de Azevedo utilizaria este estilo campestre é no Bosque em Campinas. Portanto, é fundamental analisarmos este projeto, pois ele tem uma ligação muito forte com outros que estavam também sendo realizados em outras áreas rurais da 83 região, neste mesmo período. Podemos verificar que tanto o projeto quanto a sua realização foram executados por profissionais experientes e com profundo conhecimento técnico. Atualmente este bosque está situado dentro da área urbana e é um Parque Municipal. Para elaborar este trabalho, Francisco de Miranda convidou o arquiteto Francisco Ramos de Azevedo para projetar um parque, incluindo as edificações necessárias para atender ao público visitante, com áreas contemplativas, da forma como se fazia na época e seguindo o modelo dos parques ingleses. No projeto deste bosque, Ramos de Azevedo recorreu ao estilo campestre, ou estilo chalé, para realizar a arquitetura do restaurante, que seria construído por Amirat Pierren e Manoel Ferreira da Costa. Aqui já podemos observar como Ramos de Azevedo sabia atender seus clientes em todos os seus desejos. Ele utilizou seus conhecimentos técnicos para criar um estilo significativo para o fim a que se destinava. Este parque mudou grandemente a configuração da cidade, pois junto com ele foi iniciado também o parcelamento de outra área contigua que recebeu um loteamento denominado Campo das Caneleiras. Foi, portanto, um loteamento rural que passou a urbano, definindo assim os rumos do crescimento da cidade de Campinas, e, de certa forma, definindo também qual seria a parcela da população que iria ocupá-lo. No primeiro momento, por ser uma propriedade particular, o acesso para os visitantes era feito somente com convites especiais enviados pelo proprietário. Na verdade, o que Ramos de Azevedo estava fazendo tinha um caráter pioneiro para Campinas, pois transformava grandes glebas em loteamentos e em chácaras. Isso, em 1880, para atender uma camada da população bem definida; como foi feito mais tarde em São Paulo, quando da criação das diversas chácaras, como as chácaras do Carvalho (1893-29), de D. Angélica Aguiar de Barros (1891-3), de D. Veridiana da Silva Prado (1884). Ao observar precisamente estas datas, percebemos que quase todos estes lugares (que concentravam, naquele momento, uma grande riqueza, fruto do café) estavam 84 se transformando e alterando sensivelmente, não apenas quanto à sua paisagem, mas em muito na maneira de viver, pois seus habitantes, agora, queriam receber amigos enquanto mostravam a si e, ao mesmo tempo, ostentavam sua riqueza. Como podemos observar, também a influência e o prestígio de Ramos de Azevedo já era enorme devido à sua atuação neste período em São Paulo. Esse fato, porém, em nada impedia que este profissional, sempre que solicitado, pudesse atender aos desejos de sua cidade natal. Tem-se, como exemplos, o projeto do Mercado Municipal, o qual teve sua pedra fundamental colocada em 1907; o projeto do Paço Municipal20 para Campinas, solicitado em 1912, pelo prefeito Heitor Teixeira Penteado; além da belíssima Praça Carlos Gomes, também com projeto solicitado neste mesmo ano (e realizado). Estes projetos revelam, mais uma vez, a capacidade técnica de Ramos de Azevedo, indicando que esteprofissional também estava a serviço do poder municipal local. Esses indícios de sua presença na cidade nos esclarece que o arquiteto continuou atendendo solicitações de trabalho em Campinas, tanto no meio urbano quanto no meio rural. No caso do Bosque dos Jequitibás: [...] Ocupando uma extensa área de 101.000 m² de matas nativas e mistas, o traçado sinuoso parece ter sido projetado de forma a se apropriar da declividade acentuada da área e a contrapor-se intencionalmente, à malha ortogonal da cidade ao seu redor (MONTEIRO, 2000, p. 110). 20 O Paço Municipal, ao final, não foi construído. 85 Figura 35 – Planta da área do Bosque dos Jequitibás em Campinas-SP. Fonte: Tontoli (1957) É importante destacar mais uma vez, portanto, que este Bosque estava localizado numa área afastada da cidade, isto é, numa área de fazenda que estava sendo parcelada para fins de urbanização. Ao iniciar a criação de um parque público dentro de uma propriedade particular numa cidade como Campinas, Ramos de Azevedo conseguiu interferir nos hábitos desta classe dominante, da qual participavam muitos fazendeiros do café e com a qual o arquiteto sempre mantinha estreita relação. Seu projeto revela o novo modelo de parque urbano, denominado estilo inglês, bucólico, pitoresco, irregular, aonde a cada canto do caminho vamos encontrando algo diferente, no intento de desfrutar emoções diversas. Para a edificação do restaurante no interior do bosque, Ramos de Azevedo recorreu ao mesmo estilo utilizado no Campo das Caneleiras, onde foi projetado outro chalé21. Campos das Caneleiras: Informam-nos que na próxima semana será inaugurado o Lago de Prata daquele local, e também o botequim do Bosque dos Jequitibás. Consta-nos também que se acham 21 O chalé do Bosque foi construído por Amirat Pierren e Manoel Ferreira da Costa. 86 encomendadas ao Dr. Ramos de Azevedo as plantas para a construção do pavilhão, do chalé para o restaurante e para a casa de banhos, melhoramentos que o Sr. Francisco Bueno de Miranda vai realizar ali [...]. (MONTEIRO, 2000, p. 103 -104) [...] Ramos de Azevedo parecia também querer conservar a natureza selvagem do local, criando uma espécie de reserva. Dentro dela, os caminhos foram dispostos de forma a criar uma paisagem agradável, com locais específicos para se admirar formas e movimentos da natureza. Com isso, sugeria a impressão de fuga do burburinho da cidade. A arquitetura parte de um todo, era quase um incidente na paisagem, o que se pode presentear na sua localização [...]. (MONTEIRO, 2000, p. 110) Ainda em Campinas, Ramos de Azevedo projetou no mesmo estilo o chalé dos construtores para a Exposição Regional feita em Campinas, inaugurado no dia 25 de dezembro de 1885. Nesta oportunidade, Ramos de Azevedo projetou e recorreu ao estilo de chalé suíço. Ele serviu como espaço para divulgar os trabalhos de engenheiros e artesãos, onde ele expôs todos os tipos de madeira que se utilizava nas construções22. Na mesma época, Ramos de Azevedo trabalhou em áreas rurais para outros proprietários. Na região de Campinas, são atribuídas pelo CONDEPACC, a Ramos de Azevedo, algumas fazendas, tais como: Fazenda São Vicente23, Fazenda Alpes24, Fazenda Jambeiro25. O Chalé do Bosque de Campinas foi inaugurado em 1881. O uso deste estilo chalé também foi usado em outros projetos de Ramos de Azevedo 22Infelizmente não encontramos reproduções fotográficas deste edifício. 23Fazenda São Vicente. Processo nº. 003/03. 24Fazenda Alpes, Resolução n°. 051 de 12/08/2008. 25Fazenda Jambeiro. Processo Resolução nº. 014 de 22/12/1993. 87 em São Paulo, como o do Instituto Vacinogênio e o do Hospital do Juqueri, ambas as edificações construídas nas áreas suburbanas de São Paulo, o que revela a constituição de um estilo campestre, suburbano, não exclusivamente aplicado em edificações residenciais – quando assim aplicado, denominava-se chalé. Em 1894, o instituto ganharia uma sede definitiva no bairro do Cambuci. A edificação situava-se na esquina das ruas Pires da Motta e Mazini, e era composta por cinco pavilhões. Antes mesmo de iniciadas as obras, Arnaldo Vieira de Carvalho solicitou autorização para despender até a quantia de três mil contos de réis (3.000$000) na construção de um jardim entre os pavilhões, que foi elaborado com projeto de Ramos de Azevedo, no qual recorreu ao estilo campestre. Figura 36 – Instituto Vacinogênico, em 1894. Fonte: Teixeira e Almeida (2003) 88 Vale observar que Ramos de Azevedo, sempre que construía em lugares recuados, como no campo ou áreas rurais (pode-se dizer), trabalhava esta arquitetura estilo cottage ou chalé, como nas figuras a seguir: Figura 37 – Prédio central do Instituto Vacinogênico de São Paulo, em 1894. Fonte: Museu de Saúde Pública Emílio Ribas. Figura 38 – Asilo do Juqueri. Fonte: Portfólio Ramos de Azevedo, Biblioteca do Condephaat. Foto: João Musa 89 Figura 39 – Asilo do Juqueri. Galeria de ligação entre os pavilhões. Fonte: Portfólio Ramos de Azevedo, Biblioteca do Condephaat. Foto: João Musa Para discutirmos os aspectos da constituição dessa arquitetura campestre de Ramos de Azevedo, consideramos significativa a análise comparativa entre a sede da Fazenda São Vicente e a sede da Fazenda Palmital (na cidade de Ibaté, próxima a São Carlos), também projetada por Ramos de Azevedo, e que foi, recentemente, objeto de estudo de Vladimir Benincasa (2003). Foi através do vastíssimo trabalho de Vladimir Benincasa, e também por uma entrevista feita ao prof. Carlos Lemos, que se constatou a necessidade de trabalhar com a comparação de elementos construtivos que qualificariam essa arquitetura como sendo campestre. A identificação desses elementos colocou, por si só, a hipótese de autoria de Ramos de Azevedo à sede da Fazenda São Vicente. 26 O primeiro proprietário e fundador da Fazenda Palmital, aberta em 1870, foi Antonio Carlos de Arruda Botelho, o Conde do Pinhal. Em 1885, a fazenda 26 Novas perspectivas de análise se abrem com este estudo. Atualmente consideramos a possibilidade do engenheiro-arquiteto Ramos de Azevedo ter projetado, ainda em Campinas, a sede da Fazenda Jambeiro; todavia, ainda não existe estudos bibliográficos aprofundados e disponíveis sobre as mesmas. No momento da realização desta pesquisa, tomou-se conhecimento apenas do levantamento iniciado dentro da Fazenda Pau D’Alho. 90 se encontrava com os cafezais formados e produtivos, quando a administração é transferida para um dos filhos do Conde do Pinhal, José Estanislau. Anos mais tarde, em 1890, ela ficou pertencendo, a título de adiantamento de herança, à sua filha Elisa de Arruda Botelho (neta do conde) e seu marido, o comendador Antonio Moreira de Barros. A construção do edifício sede data de meados da década de 1890, quando, portanto, já pertencia à família Moreira de Barros, mesmo período no qual foi construída a Fazenda São Vicente, em Campinas, também pertencente à família Paes de Barros. - A implantação Segundo Vladimir Benincasa27, a sede da Fazenda Palmital“[...] tem sua imponência realçada pela localização, quase ao alto de uma colina, ligeiramente afastada do antigo conjunto de edificações [...] em meio a um magnífico jardim [...] e possui características fortemente influenciadas pelo ecletismo francês, notadamente pelas casas de Cesar Daly.” (Benincasa, 2003, p. 290) Sede da Fazenda Palmital, vista por um de suas laterais. 27 Vladimir Benincasa. Velhas Fazendas: arquitetura e cotidiano nos Campos de Araraquara 1830 a 1930. São Carlos: EdUFSCar ; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado, 2003. p.290. 91 Figura 40 – Lateral da Fazenda Palmital. Fonte: Botelho (1984, p.119) Na implantação da Fazenda São Vicente, nota-se a escolha de uma leve colina para a localização da sede e seu imponente jardim, igualmente afastada da área de trabalho (casa dos colonos, capela, tulha, casa de máquinas e terreiro de café). Essa escolha também já vinha sendo colocada anteriormente nas formações das primeiras fazendas de café descritas claramente por P.S Laborie (1799), exatamente no segundo capítulo da “Memória” de Laborie, em que se “trata dos vários estabelecimentos, como construções, casas d’obra, edifícios e máquinas, casa de moradias, e externas, ou fora, senzalas, e curros”. Laborie (1799) nos dá exatamente a noção da implantação da moradia quando cita: [...] quanto às casas, sua exposição deve ser nos montes os mais accessíveis, e de ordinário na sumidade de alguns outeiros os mais extensos, e largos e menos íngremes, que se acharem, e para onde 92 se possa conduzir água. Nelles se arranjão (sic) os diversos estabelecimentos, quanto pode ser a vista, e alcanse (sic) da casa de morada, e à indústria compete tirar da situação a mor vantagem possível. Figura 41 – Sede da Fazenda São Vicente, onde se pode notar sua implantação numa leve colina ao lado das Palmeiras Imperiais. Fonte: Amoroso (2007) Observa-se a utilização do recurso da localização do conjunto edificado na colina e tirando dela um partido privilegiado, de modo a garantir o domínio visual, para o proprietário, das instalações de todo o conjunto e controle da sua produção e atividades; este recurso pode ser observado na Fazenda São Vicente, assim como na Fazenda Palmital. Esta implantação e construção seguiram as recomendações descritas nas memórias de Laborie, que já neste final do século XIX utilizou claramente as posturas higienistas conhecidas pelo engenheiro-arquiteto Ramos de Azevedo, que também fez uso dos materiais trazidos pelo ecletismo, como o tijolo, e não mais a taipa. Essa imponência, além da localização na parte mais 93 alta do terreno, expressa todo o poder de uma aristocracia que sabia usufruir, também no meio rural, de todas as inovações que o século XIX estava lhe proporcionando. - O projeto Wladimir Benincasa (2003, p. 290) classifica a sede da Fazenda Palmital, em São Carlos, como um “verdadeiro palacete urbano”. Porém, se considerarmos os seus aspectos tipológico-estilísticos e observarmos com acuidade as diversas sedes de fazenda projetadas pelo engenheiro-arquiteto Ramos de Azevedo – principalmente em Campinas, como a Fazenda Jambeiro, e a Fazenda São Vicente –, poderemos argumentar pela construção de um tipo específico, que revela uma arquitetura campestre, diversa do palacete urbano. Não que isto não fosse possível, pelo contrário: Ramos de Azevedo estava atendendo às mesmas famílias que já o tinham como profissional tanto em São Paulo como em Campinas, em São Carlos e em outras cidades, e que, portanto, já o conheciam e também pertenciam a seu círculo de amizades. Ramos de Azevedo, apesar de trabalhar um ecletismo diferenciado no meio rural, não deixa de aplicar seus conhecimentos eruditos para conseguir equilíbrio e soluções arquitetônicas bastante próximas das utilizadas no meio urbano. Para Eudes Campos (2004, p. 231-232), a “dissociação entre a sintaxe compositiva e o vocabulário formal” era, desde os ensinamentos de J. N. L. Durand (1760-1834), um dos traços mais marcantes da arquitetura eclética. O autor afirma, ainda, que o uso da referência à arquitetura gótica estava intimamente ligado às convenções do ecletismo tipológico-estilístico e as concepções de modernidade e civilização, constituindo por este motivo uma sedutora tentação em relação aos estilos classicistas em voga. Esta tipologia 94 construtiva, utilizada nas fazendas de Ramos de Azevedo, se insere neste período de manifestação do ecletismo tipológico-estilístico. A descrição que Benincasa (2003, p. 291) faz da sede da Fazenda Palmital é muito semelhante àquela que podemos construir para a sede da Fazenda São Vicente, pois as mesmas características tipológicas estão presentes em sua implantação no terreno, mas também na formação de seu alpendre e, a partir dele, na distribuição dos cômodos principais, janelas e portas, no estilo de suas molduras, no volume da construção, no desenho da fachada, nos telhados, na utilização do ferro fundido, nas lajes de abobadilhas encontradas nas partes frias da casa como varanda, cozinha, e na existência do porão. Quando a arquitetura eclética passa a ser utilizada nas casas rurais, as fachadas vão se tornando cada vez mais assimétricas, proporcionada pela movimentação dos telhados e tendo ao centro a entrada principal, definida geralmente a partir de um alpendre, como na Fazenda São Vicente. Com a riqueza advinda do ciclo econômico do café, as casas de fazenda se tornam maiores e mais imponentes, sendo possível perceber o uso das casas assobradadas e também do sobrado em substituição à tipologia mineira, de padrão térreo com aproveitamento do declive do terreno. A nova tipologia desta arquitetura campestre apresenta uma casa elevada sob um porão alto, sobressaindo na paisagem e com maior requinte de decoração. Assim como a Fazenda Palmital, a Fazenda São Vicente apresenta suas belas fachadas com detalhes vários: nas escadarias, alpendres, ornamentos, molduras e ferragens. 95 Figura 42 – Sede da Fazenda São Vicente. Fachada lateral com sua movimentação de telhados. Fonte: Amoroso (2007) Figura 43 – Sede da Fazenda Palmital, onde se pode notar o trabalho de suas fachadas proporcionado pela movimentação dos telhados e a varanda principal. Fonte: Benincasa (2003, p.135) 96 De acordo com Benincasa (2003, p. 291), “a alteração da planta residencial, inspirada no padrão francês, cresceu com a inclusão de diversos cômodos, com funções inimagináveis em terras paulistas: vestíbulos, salas para música, salão de jogos, fumoir, escritórios, copa, etc.”. Seguindo as regras higienistas, então amplamente divulgadas no final do século XIX, todos esses cômodos deviam ser suficientemente iluminados, o que gerou inúmeras saliências na planta, cujos espaços restantes, ao serem cobertos, tornaram-se alpendres de vários tamanhos e nas várias faces das edificações Os mesmos procedimentos em relação à distribuição dos cômodos no interior da casa podem ser notados pela própria movimentação do telhado. Na sede da Fazenda São Vicente, tanto na fachada principal como na sua fachada lateral, são criados alpendres distintos. A Fazenda São Vicente se destaca na sua proporção e equilíbrio no trabalho de seus beirais, grimpa28 e pináculos de madeira torneada, que sobressaem à distância com delicadeza e requinte. De seus alpendres, com grades e colunas de ferro fundido, se tem a visão de toda a fazenda, não apenas do controle de suas áreas de trabalho (tulha, serraria e terreiros), como também da capela,dos jardins e dos lagos. Era da varanda principal da fazenda São Vicente que se podia ter o controle das casas de colonos que se encontravam enfileiradas ao longo da linha lateral da capela, e inclusive a vista da própria capela que ficava bem no centro deste alinhamento das casas de colonos. Atualmente só restou a primeira casa de colono localizada bem próxima do muro que cerca os terreiros de café (e que foi totalmente restaurada). 28 Grimpa: parte mais alta de um objeto, de uma árvore ou de um edifício. Cume, crista, agulha. Nas torres das igrejas em geral elas são metálicas assumindo a forma de cruzes ou de outros atributos religiosos. São famosas as grimpas simbólicas de algumas igrejas de Minas Gerais. O mesmo que catavento. (CORONA; LEMOS, 1972, p. 246). 97 Figura 44 – Vista da área onde existia a colônia da Fazenda São Vicente, o muro de pedra delimitava o alicerce das casas da colônia situadas entre os dois lados capela. Fonte: Brugier (2007) [...] internamente, no programa da habitação rural, ocorreu uma superposição do espaço público ao privado, sob influencia das regras da casa européia pós-Revolução Industrial (século XVIII), segundo as quais era falta de educação entrar sem ser convidado, mesmo na casa de amigos íntimos. Quando se planejava uma visita, era necessário deixar seu “cartão de visitas” e esperar resposta. A casa da fazenda cafeeira passou a desempenhar um papel social, transformando-se em espaço privilegiado de recepção a visitas selecionadas. Ela, que era, até então, um reduto quase exclusivamente familiar, passou a contar com salas e saletas destinadas à recepção de visitantes [...] (BENINCASA, 2003, p. 114). 98 Quanto à formação do alpendre e a distribuição dos cômodos principais, na Fazenda Palmital, Benincasa (2003, p. 291) afirma que [...] do alpendre, tem-se acesso a três cômodos: o vestíbulo, a sala de visitas e um terceiro cômodo que pode ter sido um escritório, uma biblioteca, ou mesmo um dormitório. [...] a porta principal, situada ao centro da parede do fundo do alpendre, dá acesso ao mencionado vestíbulo. Na Fazenda São Vicente foi utilizado os mesmos esquemas de distribuição dos cômodos a partir do alpendre. Ainda, o acesso ao alpendre, nas duas fazendas, se faz a partir de uma escada dupla. [...] A disposição dos cômodos nas casas rurais se alterou, assim como nas casas urbanas. Os novos cômodos de recepção voltaram- se para o alpendre fronteiro: salas de visita, de musica, escritório, bibliotecas, etc. As salas de jantar receberam grandes armários embutidos, com portas envidraçadas, de modo a mostrar os numerosos jogos de louças e cristais importados para a recepção dos muitos convidados a um só tempo [...] (BENINCASA, 2003, p. 108). Muitas inovações surgidas nas casas urbanas foram também utilizadas nas residências rurais durante este período de auge da economia cafeeira, em São Paulo. Quando a moradia passa a representar um símbolo de poder dessa nova elite cafeeira, isso se expressa de maneira clara em relação, principalmente, a tudo que pudesse se distanciar das casas de taipas da colônia. Não era apenas uma nova forma de morar, mas um novo estilo de refinamento. Agora, as diferenças estavam sendo mostrado pelos vários tipos de cômodos e suas diferentes funções trazidas da Europa, um luxo jamais experimentado pelas antigas gerações, indo desde objetos de decoração à iluminação a gás e 99 depois elétrica. Seus jardins agora serão exuberantes e refinados, projetados por paisagistas franceses. “Muitos fazendeiros passaram diretamente da taipa a imitações de castelos europeus. [...] D. Viridiana Silva Prado, filha do Barão de Iguape, que mandou construir um palácio em Higienópolis em 1884” (PIRES, 1995, p.117). D. Viridiana Silva Prado parece ter sido a pioneira na moda de morar com requinte, assim também como em 1891, D. Maria Angélica Souza Queiroz Aguiar Barros. O estudo de caso da fazenda São Vicente permite identificá-lo com um exemplar de uma tipologia específica para a arquitetura campestre. O que podemos verificar é que, apesar de reproduzir uma nova maneira de morar, a arquitetura campestre trabalhou com alguns elementos bem característicos para evidenciar a riqueza que então fazia parte do modo de vida também das fazendas. Uma das maiores características que vejo é a movimentação dos telhados mostrando, ao olhar do observador, os novos cômodos que agora faziam parte desse estilo de morar. Esse telhado agora não será mais adornado com a platibanda que esconde as telhas e as calhas das casas urbanas (que necessitam canalizar as águas de chuva e não deixá-las mais caírem nas calçadas, molhando os transeuntes). Agora serão utilizados os lambrequins para esconderem as calhas, mas que terão uma função mais nobre que essa, que será a de trazer a beleza da decoração realçada pelas ponteiras das cumeeiras torneadas na madeira, mostrando o trabalho artístico produzido por uma marcenaria especializada, com maquinários modernos como o torno (além da mão de obra estrangeira, principalmente italiana, que chega para apresentar as mais variadas formas e modelos para decorar essas fachadas). Os alpendres terão vez nesse modelo de arquitetura, trazendo sombra e deixando a entrada mais sofisticada. As grandes janelas envidraçadas serão executadas, como na cidade, com alguns vidros coloridos 100 importados. A entrada, geralmente, será feita por uma escadaria dupla. Também se pode notar a existência agora de porões não habitáveis, com ventilação cruzada, deixando as paredes longe do chão, conforme as normas do higienismo, e a decoração terão pinturas murais, quadros, tapeçarias, muita prataria, tapetes importados, além de louças, cristais, tecidos dos mais variados, piano, etc. Enfim, essa nova maneira de viver, precisa mostrar requinte, o que será razoavelmente fácil pelo fato dessas sedes de fazendas estarem implantados em lugares altos e arejados cercados com belíssimas Palmeiras Imperiais dentro de seus jardins franceses. De alguma maneira, essa arquitetura tenta se mostrar singela como um belo chalé francês, onde sua ausência de pretensão nada tem de real, já que tudo foi planejado para apresentar ao visitante o poder desse Barão – que agora nada tem do antigo latifundiário que desbravava os sertões paulistas, em busca de ouro e de alguma cultura que o levasse a esse novo estilo de vida tão europeizado. Nestas residências, jardins foram construídos, aos moldes franceses, com vários canteiros geometrizados. Às vezes, possuíam lagos e fontes com repuxos, envolvendo as casas e criando um cômodo distanciamento das outras edificações da fazenda. Em algumas delas, o velho casarão foi abandonado e os novos foram construídos ligeiramente afastados do núcleo de beneficiamento do café - tulhas, terreiros, etc. À moda das villas existentes em subúrbios paulistanos e cariocas, estas residências ficavam mais próximas da natureza e longe dos miasmas pútridos produzidos nas aglomerações urbanas, numa situação que privilegiava ainda a privacidade; elas ficavam protegidas do contato de estranhos. Essas tendências, que se observaram no mundo moderno, foram transportadas para o mundo rural paulista, comandado por uma elite que estava sempre atenta aos costumes, ditos civilizados, dos europeus e americanos. (BENINCASA, 2003, p. 113) 101 Planta da sede da fazenda Palmital - Ibaté-SP Figura 45 – Planta da sede da Fazenda Palmital, Ibaté-SP (acréscimos à caneta feito pela autora). Fonte: Benincasa (2003) O que me chamou a atenção na planta da Fazenda Palmital (projeto de Ramos de Azevedo)foi a possibilidade de, ao passarmos a linha vermelha sobre ela e fazermos poucas alterações – como a colocação de um alpendre na diagonal e ampliarmos o escritório – chegarmos muito próximo do projeto da sede da fazenda São Vicente. Ao analisarmos desta maneira, pode-se até dizer que seria uma variação sobre o mesmo tema. Segue o partido arquitetônico atendendo ao programa de cada proprietário e deixando uma marca característica. 102 Figura 46 – Estudo da planta dividida do projeto de Ramos de Azevedo (acréscimos à caneta feito pela autora). Fonte: Benincasa (2003) Ao acrescentarmos a escada dupla com o alpendre na diagonal na planta da fazenda Palmital, continuamos a dar acesso à sala de visitas do projeto original, mas agora este acesso também nos leva para o vestíbulo. A janela lateral da sala de jantar existente passa a ter em seu lugar uma porta que vai dar para o alpendre principal. O escritório, ao receber um pequeno aumento para a frente, acaba criando assim uma leve movimentação no telhado, fazendo com que as fachadas permaneçam no mesmo ritmo. Ao analisarmos os encontros de portas entre os cômodos, nota-se que estes permanecem iguais, inclusive no direcionamento de seus acessos (quarto com quarto, quarto–corredor-quarto). O banheiro esta posicionado na face sul para a Fazenda São Vicente e sudeste para a Fazenda Palmital (como pedem as 103 normas do higienismo). Vamos encontrar nas duas sedes um corredor sendo iluminado por uma clarabóia. Para o segundo alpendre, há o mesmo desenho na lateral norte para a Fazenda São Vicente e Noroeste para a Fazenda Palmital. A existência da copa próxima à cozinha, e próxima ao banheiro e ao ultimo quarto, também se repetem. Não posso afirmar que foi assim que o projeto aconteceu, mas como arquiteta posso dizer que geralmente todo profissional deixa uma marca muito clara nos seus projetos. É como uma assinatura na própria obra e, neste caso e em tantos outros trabalhos realizados por Ramos de Azevedo, não poderia ser diferente. Pois vamos encontrar a mesma distribuição na seqüência de seus projetos (já referenciados neste estudo), como, por exemplo: as casas de suas filhas, o Hospital do Juqueri, o Instituto Vacinôgenio, o Palacete do Barão de Parnaíba e muitos outros onde ele trabalhava com o modelo ideal para cada caso. Para Ramos de Azevedo, a obra deveria se representar só ao olhar de quem a observasse, a fim de notar a que ela realmente deveria servir. Podemos aceitar esta hipótese como plausível, já que sabemos que as ambas famílias envolvidas nestes projetos são parentes; e também pelo fato de que, naquela época, não se trocava de arquiteto ou engenheiro com freqüência, pois trabalhava-se bastante com os mais conceituados, sendo que naquele momento não havia outro entre a elite cafeeira que o engenheiro Francisco Ramos de Azevedo. Observar a planta da Fazenda São Vicente abaixo: 104 Figura 47 – Planta da sede da Fazenda São Vicente, Campinas-SP. Fonte: Amoroso (2006) Figura 48 – Planta do porão da sede da Fazenda São Vicente, Campinas-SP. Fonte: Amoroso (2006) 105 Figura 49 – Elevação Oeste da sede da Fazenda São Vicente, Campinas-SP. Fonte: Amoroso (2006) Figura 50 – Elevação Norte da sede da Fazenda São Vicente, Campinas-SP. Fonte: Amoroso (2006) 106 Figura 51 – Elevação Sul da sede da Fazenda São Vicente, Campinas-SP. Fonte: Amoroso (2006) Figura 52 – Elevação Leste da sede da Fazenda São Vicente, Campinas-SP. Fonte: Amoroso (2006) 107 Ainda, no estilo campestre, ou o estilo chalés, o recurso a alguns elementos decorativos, como os lambrequins de madeira, os adornos e os rendilhados, confeccionados a partir do novo maquinário disponível de torno, são fundamentais na sua concepção, dando-lhe parte do seu aspecto bucólico, campestre, como são os casos dos projetos tanto na Fazenda Palmital (em Ibaté), como na São Vicente (em Campinas). Figura 53 – Detalhe lateral do lambrequim e do forro no beiral da Fazenda Palmital. Fonte: Botelho (1984, p.121) 108 Esse elemento do telhado faz parte das fachadas das duas fazendas em questão, e foram soluções utilizadas com a finalidade de “modernizar” o aspecto dos casarões, permitindo ainda decorar os beirais. A composição, apoiada nos arremates dos beirais, formava um triângulo em cada extremidade, ocultando as calhas, e outro no vértice, junto à cumeeira, arrematada em geral por um mastro torneado e um trabalho rendilhado. (BENINCASA, 2003, p. 291). Figura 54 – Detalhe da empena da ala lateral com destaque para as bossagens de argamassa, e o lambrequim de madeira. Fazenda São Vicente. Fonte: Amoroso (2005) 109 Figura 55 – Detalhe da empena da ala de serviços, aos fundos, com destaque para as bossagens de argamassa, e o lambrequim de madeira. Fazenda Palmital. Fonte: Benicasa (2003, p. 290). Essas cumeeiras, prolongadas até a fachada em alguns corpos da casa, arrematadas por grimpa ou ponteiro (ou outros detalhes em madeira torneada) são marcas características do arquiteto Ramos de Azevedo. (BENINCASA, 2003, p. 291). 110 Figura 56 – Detalhe alpendre e das ferragens da Fazenda São Vicente e da Fazenda Palmital. Fonte: Amoroso M.R. (2006) - Os aspectos construtivos Foi o ecletismo que soube aproveitar todas as vantagens do uso do tijolo e foi o café, segundo Lemos, o responsável direto pela chegada do tijolo entre nós. Além do tijolo, vamos encontrar a entrada do vidro sendo montado primeiramente nos encaixes dos caixilhos das guilhotinas externas e depois entrando como soluções plásticas e decorativas para os postigos de portas, vitrais, bandeiras de portas e janelas, etc. O uso de diferentes texturas e cores contribuiu para levar mais luz aos ambientes internos. Ainda o ferro sofre uma mudança profunda, pois ele sai do plano do artesanal e entra para a indústria utilizando a fabricação em série de inúmeros componentes que são projetados para serem montadas e desmontados, mercadorias vendidas em balcões ou através de catálogos que atendem desde peças mais simples até estações ferroviárias inteiras. Foram estas peças que adornaram inúmeros edifícios tanto urbanos como rurais. 111 Com a Revolução Industrial, na Europa, o Brasil passou a importar grande quantidade de materiais de construção, desde elementos pré- fabricados, metálicos ou de madeira (como escadas, grades, portas, janelas, pilares, calhas e rufos, condutores de água e de cobre, vasos e lavatórios de louça para banheiros, etc.) até produtos decorativos (como lustres de cristal, arandelas, papéis de parede, cantoneiras, ladrilhos decorados, azulejos, pinhas e vasos de porcelana e louça, maçanetas). Dentre os diversos elementos importados, o vidro, trazido para cá em grande quantidade, se tornaria um item acessível para a construção, permitindo que a janela guilhotina envidraçada trouxesse mais iluminação e ventilação às casas brasileiras. Na Fazenda Palmital, segundo Benincasa (2003, p. 290): “as janelas se incluem totalmente nos padrões eclético e higienista da época: foram originalmente concebidas com folhas venezianas exteriores e folhas envidraçadas – com bandeiras também envidraçadas na parte interna”. Figura 57 – Vista frontal Fazenda Palmital. Janelas com vidro interno e venezianas externamente. Fonte: Benicasa(2003, p.293) 112 Figura 58 – Vista frontal Fazenda São Vicente. Janelas com vidro interno e venezianas externamente. Fonte: Amoroso M.R. (2006) Da mesma maneira, observa-se, na Fazenda São Vicente, essa preocupação com a janela veneziana que é colocada exteriormente ao vidro. Nas duas fazendas, todas as janelas estão envolvidas por molduras de argamassa em relevo. Esta solução das grandes janelas permite retirar a escuridão da casa, proporcionando um espaço arejado e iluminado, como exigiam os preceitos higienistas da época. A grande novidade, nas janelas, talvez tenha sido a utilização freqüente das venezianas que se vulgarizaram por possibilitarem uma eficiente ventilação, ao mesmo tempo em que escureciam os ambientes. A partir desse momento, as folhas envidraçadas começaram a ser colocadas na parte interna das janelas, e não mais externamente como era comum até então. Observa-se também, na Fazenda São Vicente, que todas as janelas utilizaram a madeira de Pinho de Riga na sua confecção. Porém, a restauração acompanhou a pintura original e, hoje, essa madeira poderá ser observada apenas em alguns fragmentos. 113 Também podemos observar nas portas esse detalhe da madeira remanescente, deixado à mostra, propositalmente, pelo processo de restauro. Elas aparecem altas, almofadadas e decoradas com duas folhas e bandeira envidraçada, além de possuírem ferrolhos, puxadores, fechaduras metálicas e maçanetas importadas de diversos materiais. Os ferrolhos existentes possuem mecanismo próprio, com haste, e as maçanetas são personalizadas iguais as encontradas na Fazenda Palmital. Observar também o detalhe do filete de madeira que aparece aplicado nas duas portas. Essas portas são todas em madeira maciça, muitas feitas com madeira da própria fazenda, mas utilizando de detalhes de uma marcenaria mais elaborada. Figura 59 – Detalhe da maçaneta da porta da Fazenda Palmital. Fonte: Botelho (1984, p.124) Figura 60 – Detalhe da maçaneta da porta da Fazenda São Vicente. Fonte: Amoroso M.R. (2006) 114 Figura 61 – Corredor da sede da Fazenda São Vicente (Campinas-SP). Neste corredor existe a clarabóia em seu forro. Fonte: Amoroso M.R. (2006) 115 Figura 62 – Corredor da sede da Fazenda São Vicente (Campinas-SP) visto do forro através da clarabóia, onde se observa a pintura decorativa do corredor. Fonte: Amoroso M.R. (2006) Novas técnicas na confecção de estruturas de telhado (com o advento das calhas e condutores metálicos e das telhas francesas) foram introduzidas com o ecletismo, com materiais mais leves e regulares que a tradicional capa e canal. Importados da Europa e Estados Unidos, esses novos materiais permitiram uma liberdade na execução dos telhados, motivando um aumento no numero de águas, o que pode ser notado em algumas casas rurais da região de São Carlos. (BENINCASA, 2003, p. 363) O uso de telhas francesas, importadas de Marselha, tornou esses telhados mais vistosos, por sua própria inclinação mais acentuada, e também por serem mais bem elaboradas e regulares. Na solução do telhado da Fazenda São Vicente, podemos notar a preocupação com os preceitos higienistas, pois, ao adotar esse tipo de telha, que exige uma inclinação muito maior do que a telha tradicional, cria-se uma nova alternativa para substituição ao uso da solução “capa e canal”, muito comum nos telhados brasileiros desde 116 a época da colônia. O telhado vai se constituir num novo elemento da casa, ao se formar as várias águas e se distanciar do forro com um pé direito alto que passa a formar um novo espaço, o sótão, de tal maneira que se pode circular por ele todo. É também o lugar onde se encontram as estruturas de sustentação das telhas como tesouras, vigas e caibros, que fazem parte agora desse novo desenho inserindo uma movimentação e uma variação nessas diversas águas ou panos que irão compor o telhado. Figura 63 – Detalhe do sótão da Fazenda São Vicente (verificar a passarela criada no restauro para manutenção). Fonte: Amoroso M.R. (2006) Para esconder agora todo esse madeiramento que antes ficava aparente passa a ser utilizado também, a partir de então, um forro em madeira “saia e camisa” ou “saia e blusa”, alterando assim os aspectos decorativos e funcionais das casas urbanas e rurais, já que este forro, ao esconder o telhado, criou elementos decorativos com seus desenhos, além de tornar a casa mais protegida da poeira e sujeiras que caíam desses telhados. Na Fazenda São 117 Vicente, utilizou-se esta solução: as tábuas do forro formavam os mesmos desenhos geométricos assoalho. Para o piso de alpendres e áreas frias, como cozinha e banheiros, utilizou-se o concreto armado, ou cimento armado. Na verdade, era composto de uma laje de abobadilhas de tijolos revestidos com ladrilhos hidráulicos: A sofisticação das casas deu-se em todos os níveis, inclusive no piso. Para o piso dos alpendres, que ficavam ao relento, exposição à ação do sol e das chuvas, trocou-se o uso do assoalho de madeira por ladrilhos hidráulicos mais resistentes e muito mais decorativos (BENINCASA, 2003, p.290). A nova técnica de lajes, construída a partir do sistema de abobadilhas de tijolos apoiadas em trilhos de estrada de ferro, usados como vigas, passa a ser utilizada na parte interior das casas, nos vestíbulos, em áreas molhadas, na cozinha e banheiros. Nestes, pisos frios passaram a serem usados também. Podemos observar que essa mesma técnica foi a utilizada nos tetos dos porões de outros edifícios projetados por Ramos de Azevedo, como aquele onde funciona atualmente o Arquivo Washington Luiz e no Teatro Municipal de São Paulo. Da mesma maneira, podemos observar a utilização destes mesmos recursos na Fazenda São Vicente, em todas as áreas frias: alpendres, cozinha e banheiros. Nas Fazendas Palmital e São Vicente, o porão, apesar de ser inteiramente aproveitável e com bom acabamento, não era utilizado pela família, mas ocupado por cômodos destinados a serviços domésticos. Na São Vicente, encontramos um porão que proporcionava uma maior salubridade a casa, pois não levava a umidade transmitida pela terra aos seus cômodos, já que o baldrame da casa era de pedra e as paredes de tijolos se iniciavam sobre ele. A grade desse porão, de ferro fundido trabalhado, garantia uma ventilação cruzada sob toda a casa, espalhando o ar de forma equilibrada e 118 propiciando uma agradável sensação de bem estar e higiene, como recomendavam os higienistas. Figura 64 – Detalhe do porão da Fazenda São Vicente (verificar a espessura do baldrame e das paredes: piso e parede foram revestidos com ladrilho hidráulico a uma altura de 0,70cm para dar maior proteção nas áreas utilizadas para serviço atualmente). Fonte: Amoroso M.R. (2006) Foi muito utilizado o ladrilho hidráulico decorado com motivos florais, no revestimento de seus alpendres superiores, além também de ter seu uso se estendido para as áreas de serviço como a sala de almoço, despensa, banheiros e cozinha, da mesma forma que na Fazenda Palmital. Os alpendres das duas fazendas também possuem forros inclinados, acompanhando o declive do telhado; gradil de proteção, executado em ferro fundido com acabamento na parte superior do corrimão em madeira; colunas delgadas com mãos francesas, em ferro, sustentando o telhado e empenas em madeira. 119 Figura 65 – Ladrilho Hidráulico (observar as várias cores e formas encontradas no desenho deste ladrilho, situado no alpendre da Fazenda São Vicente). Fonte: Amoroso M.R. (2005) Figura 66 – Forro inclinado do alpendredepois do restauro (observar também as colunas em ferro fundido). Fonte: Amoroso M.R. (2006) 120 O alpendre da Fazenda São Vicente possui uma laje executada com tijolos e trilhos de ferrovia, apresentando uma concretagem rudimentar. Figura 67 – Laje em abobadilha (observar os trilhos e os tijolos nos entremeios). Fonte: Amoroso M.R. (2005) O porão da sede da Fazenda São Vicente foi executado com piso de tijolos sobre base de terra batida. Se observarmos as paredes da casa a partir do porão, veremos perfeitamente o desenho dela toda se repetindo embaixo. Isto porque as paredes de tijolos nasciam ali no porão, não existindo vigas e pilares de concreto como hoje. Ela foi totalmente estruturada nas próprias paredes: a estrutura da casa era ela mesma. Isso foi constatado no início do restauro, ao se fazer a prospecção de sua fundação. As vigas de suporte do assoalho, juntamente com todas as madeiras de toda a casa, podem ser vistas e identificadas claramente, quando estamos em seu porão. Inclusive, é ali que também observamos a direção das tábuas corridas dos assoalhos. 121 Figura 68 – Porão da sede. Fonte: Amoroso M.R. (2007) Nesta obra, percebe-se um requinte no processo construtivo que revela a origem burguesa dos proprietários que a encomendaram. Os assoalhos que compõem os pisos dos cômodos, na parte superior, eram todos de peroba rosa, e suas janelas possuíam caixilhos de Pinho de Riga com vidros importados. Ainda, todo o gradil de proteção do alpendre com suas colunas adornadas foram trabalhados em ferro fundido e madeira no seu corrimão, além de receberem decoração em ferro na sua parte superior. 122 Figura 69 – Assoalhos que compõem os pisos dos cômodos, na parte superior, eram todos de peroba rosa. Fonte: Amoroso M.R. (2007) Figura 70 – Janelas possuíam caixilhos de Pinho de Riga com vidros importados. Fonte: Amoroso M.R. (2007) 123 Figura 71 – Gradil de proteção do alpendre. Fonte: Amoroso M.R. (2007) Figura 72 – Gradil de proteção do alpendre com suas colunas adornadas foram trabalhados em ferro fundido e madeira no seu corrimão, além de receberem decoração em ferro na sua parte superior. Fonte: Amoroso M.R. (2007) 124 - Pinturas murais As pinturas murais foram encontradas, segundo Silva (2006, p. 28), [...] nas fazendas Iracema, Mato Dentro, Recreio e São Vicente. Na sede da Fazenda Mato Dentro existem faixas decorativas com motivos florais e alguns murais representando animais e frutos. Na São Vicente, a decoração pictórica em faixa mostra motivos florais inspirados no art nouveau do início do século XX. A antiga varanda da residência da Fazenda Iracema conserva uma série de painéis parietais de inspiração acadêmica, representando natureza-morta e paisagem, e alguns retratam aspectos da própria fazenda. Segundo Pupo (1983), as pinturas murais da Fazenda Recreio foram executadas pelos pintores Hilarião da Cunha e José Pedro de Góis no ano de 1887, e representam naturezas-mortas de concepção acadêmica. Usou-se com parcimônia o estuque, reservado para algum detalhe de forro. O requinte dessas casas podia residir em algo fora da arquitetura propriamente: no modo de vida mais sofisticado, na numerosa criadagem, no mobiliário importado, nas festas. Dentre os temas importantes da arqueologia histórica, ligados ao povoamento do território e os seus ciclos econômicos, aqueles relativos às tradicionais mansões dos plantadores de café revelam que a quantidade de informações criadas nas últimas décadas já ultrapassou os estudos sobre os núcleos urbanos para se ocupar também dos rurais, o que permite a consolidação do conhecimento sobre os patrimônios do país. Neste contexto, os trabalhos técnicos de restauro permitem uma contribuição fundamental para visualizar o que a história oficial ainda não valorizou, mas que são fundamentais para o conhecimento da formação da sociedade brasileira. No processo de restauro é possível, ainda, através do uso de novas técnicas e enfoques, elaborar um trabalho de campo minucioso garantindo a 125 preservação dos sítios. Adotando-se uma combinação entre métodos de restauro e métodos de pesquisa histórica tradicional, este trabalho se propõe a discutir as pinturas murais artísticas originadas da fase paulista do ciclo cafeeiro, especialmente na região de Campinas com estudo de caso da Fazenda São Vicente, um antigo complexo cafeeiro. O processo de restauro da sede desta fazenda, concluído em 2006, permitiu uma observação minuciosa sobre as técnicas de pintura e sobre os motivos decorativos utilizados que podem revelar alguns aspectos da sociedade e da cultura burguesa no auge do ciclo econômico do café no estado de São Paulo. Os vestígios presentes nas faixas decorativas da casa sede da fazenda, onde se constatou o recurso a uma pintura mural a seco e o uso da técnica da estampilha abre pistas para investigações sobre a mão de obra utilizada no processo de decoração da residência, sobre a paisagem e meio- ambiente da região, no passado, em função dos motivos florais ali aplicados e sobre as técnicas de pintura adotadas no contexto de uma arquitetura eclética paulista e suas referências à cultura decorativa européia. Esta decoração mural era utilizada, principalmente, na sala de jantar e na sala de visitas, considerada um dos ambientes mais importantes da casa rural. No processo de restauração da Fazenda São Vicente, buscou-se deixar à mostra toda a riqueza das faixas e do seu uso de cores, que antes estavam encobertas pelas sucessivas camadas de tinta que as paredes receberam ao longo dos anos. O uso de cores nas paredes, nas portas, nas faixas, nos gradis, nos forros e nas fachadas nos mostra a importância da estética na construção rural desse período. Ramos de Azevedo soube tirar partido da decoração mural tanto ao projetar seus palacetes no meio urbano como na arquitetura rural, levando a esse meio um pouco de civilidade. 126 Figura 73 – Sala de jantar, onde se deixou à mostra toda a riqueza das faixas e do seu uso de cores. Fonte: Amoroso M.R. (2006) Nos cômodos, o uso de cores, com recurso aos pigmentos coloridos, e o trabalho realizado nas faixas decorativas, com a utilização da técnica de tromp- oiel, deram às casas rurais um aconchego maior, uma nobreza similar às salas européias, como podemos notar na Fazenda São Vicente. A decoração de 127 suas paredes internas, todas com decoração pictórica superiores, denota a preocupação em estar atualizado aos modelos decorativos europeus. No processo de restauração da Fazenda São Vicente, concluído em 2006, buscou-se deixar à mostra toda a riqueza das faixas decorativas e do seu uso de cores que antes estavam encobertas nas sucessivas camadas de tintas que as paredes receberam ao longo dos anos. A decoração dos cômodos destinados à parte social da casa, em contraposição às partes íntimas, limitadas estas ao uso da família e serviçais, recebiam uma decoração mais destacada, como é o caso da sala de visitas, do escritório e da sala de jantar. Nas faixas decorativas das paredes desta sala da sede da Fazenda São Vicente observa-se uma quantidade significativa de motivos decorativos: flores do brejo, mini bouquet de hortência ou violeta, desenho geométrico. Provavelmente, pelas pesquisas de cores realizadas durante o restauro, essa deve ter sido a primeira sala a ser pintada (sala de visitas), pois todas as cores encontradas nas outras faixas da casa parecem derivadas da mesma palheta de cores, a qual, como tudo indica, foiperdendo a vivacidade ao longo do processo de pintura da casa. Nesta sala estão presentes todas as cores da casa, provavelmente da palheta original. 128 Figura 74 – Faixa decorativa restaurada da sala de jantar da casa sede da Fazenda São Vicente em Campinas-SP. Fonte: Amoroso M.R. (2007) Esta sala apresentou-se, portanto, no processo de restauro, como um mostruário da arte do próprio artista. Nas faixas decorativas existentes nesta, o artista utilizou cores fortes e alegres, tamanhos e formas variadas dos desenhos e motivos florais. Um pigmento rosa atribuído à cal deu a todas as paredes desta sala uma cor rosada sobre a qual foram pintadas as faixas decorativas, já que o pigmento rosa era muito fácil de ser conseguido na época, misturando sangue de boi na cal, além de óxidos (quando se conseguia na época para realizar a coloração dos motivos). A restauradora e artista plástica Morgan Kaus, que trabalhou no processo de restauro e revitalização, realizou um trabalho artesanal na reconstituição das faixas decorativas a partir da prospecção das cores reais, procurando manter-se fiel às técnicas de pintura, inclusive no uso da pintura à mão livre. 129 Figura 75 – Observar o canto da sala na foto: um pigmento rosa atribuído à cal deu a todas as paredes desta sala uma cor rosada, sobre a qual foram pintadas as faixas decorativas. Fonte: Amoroso M.R. (2007) No restauro da faixa decorativa original do escritório, sala que se encontra na lateral direita do vestíbulo, revelou-se o recurso do repertório art nouveaux representando a influência européia no início do século. A faixa decorativa deste escritório já mostrava, portanto, uma sofisticação e uma preocupação maior de se posicionar atualizado com as referências art nouveaux do início do século, e davam mais luxo ao ambiente. Observa-se também a utilização das cores bem alegres, como rosa, anil, lilás e branco, se apropriando o artista da cultura decorativa francesa do período no motivo, da italiana nas cores e da brasileira no jogo de luzes. O desenho interno da faixa decorativa que se apropria de um repertório art nouveaux, está circunscrito entre uma linha superior e três inferiores, como que servindo de apoio ao motivo – tratamento este dado a todas as paredes da casa. 130 Figura 76 – Faixa decorativa restaurada compondo a pintura mural do escritório da casa sede da Fazenda São Vicente (Campinas-SP), com recurso ao repertório Art Nouveau e utilização da técnica da estampilha. Fonte: Amoroso M.R. (2007) Provavelmente, a técnica utilizada para a confecção da faixa decorativa desta sala – escritório – foi a estampilha, que consistia do uso de uma chapa delgada, de zinco ou papelão preparado, que tem recortado o ornato que se deseja estampar na parede. Esta técnica foi bastante utilizada no primeiro decênio do século XX em São Paulo (TIRELLO, 1999, p. 228). No processo de restauro foi utilizada a mesma técnica da estampilha; todavia, dado a existência de novos materiais disponíveis, foi possível (pela restauradora Morgan Kaus) a utilização da confecção da máscara ou molde em acetato na execução das faixas decorativas, da maioria da pintura mural, reservando o uso da técnica livre – pintura à mão – apenas para casos excepcionais. 131 Na sala de visitas, em um dos cômodos destinados à parte social da casa foi utilizado um motivo floral muito singelo na decoração: uma plantinha de brejo muito popular nas fazendas da região. Figura 77 – Faixa decorativa restaurada da sala de visitas com motivo floral de planta de brejo da sede da Fazenda São Vicente, Campinas-SP. Fonte: Amoroso M.R. (2005) Esta planta se encontrava com freqüência nos jardins e casas da região de Campinas no início do século XIX, conforme declarou a artista plástica Morgan Kaus (restauradora da pintura decorativa da fazenda). Esta informação foi confirmada pela pesquisadora Drª Dionete Santin, engenheira agrônoma responsável pela recuperação do patrimônio ambiental da fazenda. Apesar de estar encoberto por camadas de tinta, isso ajudou na sua preservação. Este afresco apresenta delicadeza nas suas ramagens, nos tons utilizados e na faixa de enquadramento do motivo. Uma faixa decorativa circunda todas as paredes do corredor principal da casa e foi pintada originalmente sem uso de técnica da estampilha. Neste afresco, a cor ocre funcionava como fundo – cor esta utilizada como base para todo o corredor. Foram encontradas três 132 camadas diferentes de cores: o ocre, um verde azulado e o cor-de-rosa. Estas diversas tonalidades eram conseguidas com pigmento natural misturado na cal. Na faixa floral deste corredor foi utilizada uma marcação superior e inferior com linhas horizontais definindo o campo decorativo do motivo floral. Na parte superior, apenas uma linha delicada e na parte inferior o traço é mais expressivo, com duas linhas delgadas delineando um traço mais forte, como se criasse uma base para apoiar a Palma de Santa Rita. A irregularidade dos traços revela sua execução com pincel à mão livre. Figura 78 – Detalhe da decoração pictórica da Fazenda São Vicente: corredor com Palma de Santa Rita. Fonte: Amoroso M.R. (2007) 133 Como nos revela Tirello (1999, p. 87), até a década de 1930, no Brasil, os múltiplos motivos pictóricos ornamentais na pintura mural [...] compuseram a gramática do muralismo decorativo, forjada, em grande parte, na representação das coisas da natureza. Junto com elementos e formas extraídos da arquitetura e da escultura, principalmente da clássica, as flores, folhas e os pássaros costumam ser representados em arranjos imprevistos. Na Fazenda São Vicente, o recurso aos elementos naturais locais se deu tanto na inspiração dos motivos florais utilizados nas faixas decorativas como na utilização da madeira existente para confecção de algumas peças, portas, janelas, telhado, forro, assoalho e adornos externos, como grimpas e tesouras. No processo de restauro, a raspagem total do piso do corredor da casa com máquina elétrica evidenciou a cor real da madeira original: a peroba rosa. Verificou-se que a mesma era existente na própria mata da fazenda na época de sua fundação. Esta madeira foi muito utilizada na construção da casa, onde uma serraria existente preparava todas as peças necessárias às construções da fazenda. Os quartos também receberam uma decoração, como é o caso do quarto rosa e do quarto lilás. A observação in loco permitiu verificar, quando da prospecção da pintura que a encobria, que a faixa decorativa mural superior do quarto lilás foi executada originalmente à mão livre, ou seja, sem a técnica da estampilha. Constatou-se ainda que na pintura original desta faixa decorativa mural foram utilizados pigmentos sobre a cal. Os motivos florais utilizados na faixa decorativa também reproduzem as plantas existentes na fazenda. As tonalidades utilizadas neste cômodo foram mais suaves, pois, segundo Tirello (1999, p. 88), na manualística artesanal, a pintura parietal dos quartos “deveriam ser claras, aplicadas em amplas superfícies monocromáticas 134 circundadas por ornatos matizados de tintas vivazes, desde que usados com parcimônia”. Figura 79 – Decoração pictórica da Fazenda São Vicente no quarto rosa, utilizando a técnica de estampilha. Fonte: Amoroso M.R. (2007)