História da filosofia   III - Nicola Abbagnano
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História da filosofia III - Nicola Abbagnano


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cuja primeira parte é constituída por uma história da

filosofia greco-romana. Escreve também numerosas Epistolae, uma Historia

pontificalis, de que existe um fragmento, uma Vida de Anselmo de Cantuária e

uma Vida de Tomás Becket. Em 1159, ou seja vinte anos depois do início dos

seus estudos, escreve as suas principais obras: o Policratus, que é a

primeira obra medieval de teoria política, e o Metalogicus que se apresenta

como uma defesa do valor e da utilidade da lógica contra um tal que ele

designa com o nome fictício de Cornifício. Em Cornifício podemos ver, segundo

os intérpretes modernos, a corrente que se opunha aos estudos humanísticos em

proveito da física; ou que propunha uma extensão da pesquisa lógica da

palavra às coisas. Mas, a acreditar nas declarações de João de Salisbúria,

Cornifício era um sofista que escarnecia do saber autêntico e da técnica das

artes para se entregar a exercícios confusionistas e à discussão de questões

como esta: "Se o porco conduzido ao mercado é levado pelo homem ou pela

corda" (Metal., 1, 3).

Toda a doutrina de João de Salisbúria é animada de um espírito autenticamente

crítico: o seu objectivo é o de estabelecer claramente os limites e os

fundamentos das possibilidades cognoscitivas humanas. João de Salisbúria

afirma-se um académico e sustenta que a investigação se deve contentar, a

maior parte das vezes, com o provável: "Como académico, em todas as coisas

que possam ser para o filósofo objecto de dúvida, não juro que é verdadeiro

aquilo que afirmo: no entanto, verdadeiro ou falso, contento-me apenas com a

probabilidade". E ainda: "Prefiro duvidar com os Académicos sobre as coisas

individuais, do que definir temerariamente, com simulação consciente e

perniciosa, o que permanece oculto e ignorado" (Metal., prol.). Esta prudente

posição é justificada por João de Salis-

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búria com as próprias limitações da ciência humana, às quais se subtraem as

coisas futuras. "Sei com certeza que a pedra ou a seta que lanço às nuvens

deverá cair por terra, porque assim exige a natureza das coisas, todavia, não

sei se elas apenas podem cair no chão e porquê; com efeito, elas poderão cair

ou não. Também a outra alternativa é verdadeira, ainda que não

necessariamente, como é verdadeira aquela que eu sei que acontecerá... Aquilo

que ainda não é, não é ciência, mas apenas opinião" (Policrat., 11, 21).

Daqui deriva que todas as afirmações que implicitamente e explicitamente

digam respeito ao futuro têm um valor provável, não necessário: a sua

probabilidade é baseada na indeterminação do seu objecto e é por isso

impossível de eliminar. Com efeito, deve-se chamar provável àquilo que

acontece frequentissimamente: o que não acontece nunca de outra maneira é

ainda mais provável: e o que se crê que não pode acontecer de outra maneira

adquire o nome de necessário (Metal., 111, 9). Donde se conclui que o

"necessário" segundo João de Salisbúria é limitado à "crença"; enquanto que o

"provável" exprime a uniformidade objectiva dos eventos e baseia-se na

frequência com que acontecem. João de Salisbúria tira todas as consequências

implícitas neste ponto de vista. A dialéctica, como lógica do provável, é o

instrumento indispensável de todas as disciplinas (,Metal., 11, 13). A

pretensão da astronomia divinatória de predizer infalivelmente o futuro é

absurda porque o futuro não é necessariamente determinado e é por isso

imprevisível (Policrat., 11, 19). A infalível presciência que Deus tem das

coisas futuras não implica de forma alguma a sua necessidade (lb.,

11, 21).

No entanto, se o conhecimento humano se mantivesse encerrado no círculo do

provável, isso significaria para João de Salisbúria, um abandono à

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dúvida radical do cepticismo. Tem de haver um ponto firme qualquer onde

possamos apoiar o edifício das nossas limitadas certezas. Os sentidos, a

razão e a fé fornecem o ponto firme dessa natureza. Afirma João de

Salisbúria: "Parece ser importante aquilo que a autoridade dos sentidos, da

razão o da religião nos persuade a admitir; e a dúvida em torno do ser tem o

carácter de doença, do erro ou do crime. Perguntar se o sol brilha, se a neve

é branca, se o fogo aquece, é próprio do homem privado de sensibilidade.

Perguntar se três é mais que dois, se o todo contém a metade, se quatro é o

dobro de dois, é próprio de quem não tem discernimento ou possui uma

razão ociosa ou completamente doentia. Quem levanta o problema da existência

de Deus, do @@eu poder, da sua sabedoria ou da sua vontade é não apenas

 irreligioso como também pérfido e merecedor de uma pena que o castigue"

(Policrat., VII, 7).

Os primeiros princípios da ciência estão entre estas coisas indubitáveis

(1b.); e entre as ciências, a matemática é a única que atinge a necessidade

pelo seu carácter demonstrativo (Metal., 11, 13). E no que se refere à

religião, João de Salisbúria, sustenta que é tão impossível demonstrar a

existência de Deus como negá-la. Reconhece, no entanto, o valor da prova

cosmológica que vai de causa em causa até à causa primeira (Policrat., 111,

8); e sustenta, por outro lado, que a ordem finalista do mundo revela

claramente a sabedoria e a bondade do criador (Metal., IV, 41). Que Deus seja

poderoso, sapiente, bom, venerável e amável é princípio único de toda a

religião, princípio que todos admitem gratuitamente, sem provas, por puro

espírito de religiosidade (Policrat., VIII, 7). Mas outras determinações são

alheias à razão. A própria Trindade é, para a razão humana, um mistério

impenetrável (1b., 11, 26). No entanto, pode-se reconhecer que

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Deus é o fundamento da ordem do mundo, mas não se pode conceber essa ordem

como um facto inelutável, segundo a concepção dos Estóicos, porque isso não

exclui a mobilidade das coisas e a liberdade da vontade humana (1b., 11, 20).

João de Salisbúria insiste no carácter prático e de devoção da fé religiosa.

Tal como a alma é a vida do corpo, também Deus é a vida da alma. Tal como o

corpo morre se a alma o abandona, também a alma perde a sua verdadeira vida

se Deus a abandona (Entet.,

181). Por isso o destino da alma o a sua felicidade consiste em entregar-se à

acção da graça de Deus (Policrat., 111, 1).

Como se depreende, João de Salisbúria introduziu drásticas limitações à

especulação teológica e cosmológica ou, para melhor dizer, estabeleceu como

linha de princípios, a possibilidade e a eficácia. Debrucemo-nos sobre os

três campos em que a investigação humana pode aplicar-se com uma certa

possibilidade de sucesso: a matemática, a lógica, a política. Destes três

campos, as obras principais de João de Salisbúria tratam dos dois últimos. O

Metalogicus é o documento de interesse que João de Salisbúria escreveu sobre

os problemas lógicos do seu tempo; além disso, é nesta obra que pela primeira

vez se utiliza os livros Tópicos de Aristóteles. No que se refere ao problema

dos universais, João de Salisbúria ao mesmo tempo que dá notícia das soluções

mais importantes oferece-nos importantes informações sobre as escolas lógicas

do tempo. A sua posição pessoal perante este problema é ecléctica mas

inclina-se bastante para a doutrina de Abelardo. Considera os universais como

formas ou qualidades comuns imanentes das coisas, formas que o intelecto

abstrai das próprias coisas. Os universais (géneros e espécies) não são

substâncias que existam como natureza; na -realidade, só as substâncias

singulares existem, substâncias a que Aris-

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tóteles chamou substâncias primeiras, e que são objecto do conhecimento

sensível. Os géneros e as

espécies são produto da abstracção, figmenta rationis, que a razão cria a fim

de melhor proceder na sua investigação sobre as coisas naturais (Metal., U,

20). No entanto não são privados de verdade objectiva,