História da filosofia   III - Nicola Abbagnano
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História da filosofia III - Nicola Abbagnano


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sapiente e

vivente. Tem actividade perfeita e perfeita vontade. Goza de uma imensa

felicidade na sua própria substância e é o primeiro amante e o primeiro

amado". (Dieterici, Alfarabis philos. AbhandIungen, p. 93-96).

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A distinção entre o ser necessário e o ser possível será fundamental para

todo o pensamento árabe e também para a escolástica latina posterior. Do ser

necessário, e precisamente do acto com que o ser necessário se pensa a si

próprio (segundo o esquema de Plotino), nascem, afirma AI Farabi, os vários

intelectos, que se relacionam entre si como a matéria e a forma, a potência e

o acto. Do Ser necessário enquanto se conhece a si próprio, nasce o primeiro

Intelecto, que por sua vez conhece o Ser necessário e a si próprio. E na

medida em que conhece o Ser necessário, produz um segundo intelecto; no

entanto, enquanto se conhece a si próprio, produz o primeiro céu na sua

matéria e na sua forma, que é a alma. Do segundo intelecto dimana, do mesmo

modo, um outro intelecto e um outro céu que se situa abaixo do primeiro. E

assim, de cada intelecto nasce sempre um intelecto o um céu, até se chegar a

um intelecto privado de matéria e que por si não pode originar a formação de

uma nova esfera celeste. Este último intelecto é a causa da existência das

almas humanas e, em colaboração com as esferas celestes, é a causa dos quatro

elementos que compõem o mundo sublunar. Trata-se do intelecto agente, do qual

dependem os outros três intelectos (própriamente humanos): em potência, em

acto e adquirido, cuja distinção AI Farabi retoma de AI Kindi. O princípio

eficiente de todo o conhecimento humano é o Intelecto agente. À alma humana

pertence o intelecto em potência, que pela acção do intelecto activo, se

transforma em intelecto em acto e conhece as formas inteligíveis das coisas,

formas que se identificam com ele. A elaboração destas formas conceptuais,

dirigindo-se a noções mais gerais e mais elevadas é obra do intelecto

adquirido. Deste modo o intelecto adquirido é forma do intelecto em acto,

que, por sua vez, é forma do intelecto em potência (lb., p. 71-72). O total

meranismo do conhecimento vem assim a ser dependente

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da acção do Intelecto agente. A esta acção AI Farabi faz ligar também a

qualidade mais elevada que o homem pode alcançar, a sapiência e a profecia.

Com efeito, quando o Intelecto agente consegue transportar o intelecto

potencial de um homem ao seu grau mais alto, que é o intelecto adquirido,

então o homem torna-se num sábio-filósofo; mas quando o próprio Intelecto

agente actua, não sobre o Intelecto, mas sobre as faculdades representativas

de um homem, este homem pode transformar-se num profeta, num iluminado, num

vidente e esperar ser chefe na cidade ideal; porque nenhum está em posição de

o dirigir mas ele está em posição de dirigir todos (lb., p. 59). De tal modo

o Intelecto agente é considerado por AI Farabi que o considera um dom da

iluminação divina, fazendo do homem um profeta ou um chefe; e o mecanismo

atribuido ao intelecto é utilizado também para uma explicação racional da

revelação religiosa original.

Mas o Intelecto agente, como se viu, nasce pela reflexão do Ser necessário: e

assim também a sua acção se integra na necessidade própria deste ser. A

necessidade exclui toda a possibilidade de escolha: o conhecimento com que o

Ser necessário produz tudo está necessàriamente conexo com a sua própria

essência e não separa a necessidade (1b., p. 96). A necessidade reflecte-se

portanto em todas as coisas do mundo: a própria vontade humana surge

determinada pela cadeia das causas naturais que tem como origem primordial a

causa absoluta. O Ser necessário.

§ 235. AVICENA: A METAFíSICA

Ibri-Sina, que os escolásticos latinos cognominaram de Avicena, era persa de

origem e nasceu em Afshana (perto de Bokara) em 980. Dotado de inteligência

precoce, aos 17 anos era já famoso como

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médico e teve a sorte de curar o príncipe de Bokara, que o colmou de favores

e pôs à sua disposição a imensa biblioteca do seu palácio. Mais tarde,

Avicena foi para Sorsan, onde abriu uma escola pública e deu início ao seu

célebre Cânone de medicina. Obrigado a abandonar a cidade em virtude das

desordens que surgiram, dirigiu-se para Hamadan, onde foi designado Visir do

príncipe dessa localidade. A sua actívidade como tal quase o levou à morte, porque as tropas descontentes com

ele, haviam-no prendido e pedido a sua morte. No entanto, o príncipe salvou-

lhe a vida e manteve-o junto de si como médico. Avicena compõe então várias

partes da sua grande obra sobre A Cura (AI Scifà). Depois da morte do seu

protector, partiu para Ispahan, onde se torna secretário do príncipe, que

acompanhou frequentemente nas suas expedições. Estas viagens contribuiram

para perigar a sua saúde, já de si comprometida por uma vida agitada e

laboriosa: Avicena amava a vida, e dedicava-se de bom grado ao amor e à

bebida. Tendo acompanhado o seu príncipe numa expedição contra Hamadan, caiu

enfermo e morreu naquela cidade em 1307, com a idade de 57 anos. A Wa de

1bn-Sina, escrita pelo seu discípulo Sorsanus foi traduzida para o latim e

imprimida no início de diversas edições das suas obras.

A actividade de Avicena estende-se a todos os campos do saber. O seu Cânone

de medicina foi a obra clássica da medicina medieval. As obras que interessam

à filosofia são o Livro da Cura (AI Scífà) e o Livro da Libertação (AI-

Najah): o primeiro era uma vasta enciclopédia de ciências filosóficas em

dezoito volumes; o segundo, dividido em três partes, era um resumo do

primeiro. As edições latinas das obras de Avicena são traduções de uma ou de

outra parte das suas obras principais. No fim do século XII Gerardo de

Cremona traduz o Cânone de medicina; Domingo Gundisalvo e o judeu Avendeath

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traduzem a Lógica, uma parte da Física, a Metafisica, o De caelo e muitos dos

escritos científicos. Rápidamente, entre o fim do século X11 o o princípio do

século XIII, o Ocidente cristão vem a conhecer, através destas traduções de

Avicena, quase toda a obra de Aristóteles, de que apenas conhecia a lógica.

Mas com tudo isto, o ocidente latino conhece bem pouco a obra de Avicena. Com

efeito, a sua obra é vastíssima (provàvelmente mais de 250 obras); e o

reconhecimento da sua importância, quer pela filosofia oriental, como pela

ocidental e ainda pela ciência (e especialmente pela biologia e medicina),

levaram os estudiosos modernos a publicar e a traduzir algumas partes

inéditas. Entre estas têm importância para a filosofia: Tratados místicos;

Epístola das definições, Livro de ciência; Livro das directivas e das notas;

Lógica oriental, que é parte de uma grande obra perdida, Juizo imparcial

entre os orientais e os ocidentais. O título desta última obra levou a pensar

num ramo teosófico ou místico da filosofia de Avicena em contraste com as

directrizes filosóficas e racionalistas das obras que conhecemos. Na

realidade não existe qualquer base para uma tal laipótese: que é desmentida,

não só pelos fragmentos das suas obras que temos sobre a lógica, como também

pelo conteúdo do Livro das directivas que pertence aos últimos anos de

Avicena e que não testemunha qualquer mudança sensível nas conclusões da sua

filosofia. As fontes desta filosofia são Aristóteles, Plotino (que Avicena,

contudo, não distingue do primeiro e a que atribui a Theologia, e uma centena

de passagens das Eneadis) e AI Farabi; mas é sobretudo dos Estoicos que se

aproxima o seu conceito do mundo como o domínio de uma força racional que o

orienta com infalível necessidade.

Avicena descreve em termos nitidamente escolásticos o objectivo da filosofia:

o de demonstrar e esclarecer racionalmente a verdade revelada. Os fun-

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dadores da fé ensinaram e transmitiram a sua doutrina