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TEORIAS DA COMUNICAÇÃO Aula 01: O que é comunicação? Teorias da comunicação: por que esse plural? Mais de uma teoria? • A sociedade da informação não pode ser totalizada por uma única teoria; • A contemporaneidade é plural e múltipla: são diversas formas, práticas e linguagens; • A base da Comunicação está em múltiplos saberes: Antropologia, Sociologia, Psicologia, História, Filosofia, Biologia e pela Etnologia. Questões teóricas relevantes na contemporaneidade É preciso suscitar novas questões: • A Comunicação é uma ciência? • É possível conciliar tantas referências de outras áreas? • Como lidar com o híbrido em homem e tecnologia? • Como conciliar meios, multimeios e metameios? • Qual o novo papel do receptor, agora também produtor de informação? • Podemos falar em uma teoria nesse campo cada vez mais aberto a novas experiências e problematizações? Várias formas para a “comunicação”? Qual o objeto da Comunicação? • Dimensão empírica: os objetos técnicos • Comunicação como o que está disponível aos nossos sentidos • A Comunicação tem uma existência sensível: é do domínio do real, trata-se de um fato concreto do nosso cotidiano, dotada de uma presença exaustiva. • Comunicação, portanto, como objeto ou conjunto de objetos empíricos. MAS APENAS ISSO? Um exemplo a partir do objeto “TV”: quantas visões possíveis? TELEVISÃO Produção discursiva da TV (mensagens)? Aparelho técnico com qualidade de som e imagem? Desempenho e características dos profissionais? Diversidade de produtos gerados pela TV? Rotinas produtivas, produção e circulação das mensagens? Telespectador, seus hábitos e suas preferências? Características sociais que possibilitaram o surgimento da TV? A TV em relação aos outros meios que a procederam? Modificações tecnológicas? Entre a comunicação como objeto técnico e como prática social: “Comunicação Social e Meios de Comunicação, não obstante se confundam cada vez mais em nosso tempo, não são a mesma coisa: remetem a problemáticas de estudo que não se reduzem uma à outra na esfera do saber. [...] O termo comunicação deve ser reservado à interação humana, à troca de mensagens entre os seres humanos, sejam quais forem os aparatos responsáveis pela sua mediação. A Comunicação representa um processo social primário, com relação ao qual os chamados meios de comunicação de massa são simplesmente a mediação tecnológica: em suas extremidades se encontram as pessoas, o mundo da vida em sociedade”. RÜDIGER, F. Introdução à Teoria da Comunicação, São Paulo: Edicon, 1998 – p. 15-17. Assim, para além dos objetos técnicos, comunicação é um conceito: uma forma de apreensão, uma representação das diferentes práticas, uma forma de concebê- las e conhecê-las. É a partir desse prisma que a disciplina está estruturada. Objetivos da disciplina 1. Apontar o sentido e a abrangência das Teorias da Comunicação e sua relação com os fenômenos e práticas comunicativas, considerando seus respectivos contextos históricos. 2. Apresentar as teorias da Comunicação a partir de escolas, tendências e problematizações em torno da questão epistemológica advinda com a modernidade. 3. Apontar o sentido e a abrangência das Teorias da Comunicação em sua relação com os fenômenos e práticas comunicativas, considerando seus respectivos contextos históricos. 4. Apresentar as teorias da Comunicação e sua atualização frente aos novos meios, novos agenciamentos sociais e seus novos fenômenos da comunicação social. 5. Explicitar as novas correntes teóricas e as eventuais contribuições de outros campos para os estudos comunicacionais. 6. Refletir a cultura como elemento decisivo no atual estado do campo comunicacional. 7. Repensar o modelo unidirecional da comunicação em face de uma nova ordenação múltipla da comunicação, enfatizando temas diversos como a materialidade dos meios, os estudos culturais, as mediações. TEORIAS DA COMUNICAÇÃO Aula 02: Epistemologia da comunicação Epistemologia e ciência O que é Epistemologia? 1.Reflexão geral em torno da natureza, etapas e limites do conhecimento humano, especialmente nas relações que se estabelecem entre o sujeito indagativo e o objeto inerte, as duas polaridades tradicionais do processo cognitivo; teoria do conhecimento. 2.Estudo dos postulados, conclusões e métodos dos diferentes ramos do saber científico, ou das teorias e práticas em geral, avaliadas em sua validade cognitiva, ou descritas em suas trajetórias evolutivas, seus paradigmas estruturais ou suas relações com a sociedade e a história; teoria da ciência. O que é Ciência? Ciência(dolatimscientia, traduzido por "conhecimento") refere-se a qualquerconhecimentooupráticasistemáticos. Em sentido estrito, ciência refere-se aosistemade adquirir conhecimento baseado nométodo científicobem como ao corpo organizado de conhecimento conseguido através de taispesquisas. A ciência é o esforço para descobrir e aumentar oconhecimento humanode como oUniversofunciona. Refere-se tanto à (ao): •investigação ou estudoracionaisdoUniverso, direcionados à descoberta deverdadescompulsoriamente atreladas e restritas àRealidade. Tal estudo ou investigação é metódico e compulsoriamente realizado em acordo com ométodo científico–um processo de avaliar oconhecimentoempírico; •corpo organizado de conhecimentos adquiridos por tais estudos epesquisas. A ciência é o conhecimento ou um sistema de conhecimentos que abarca verdades, as mais gerais e abrangentes possíveis, bem como a aplicação dasleis científicas; ambas especificamente obtidas e testadas através do método científico. Nesses termos, ciência pode ser definida como o conjunto que encerra em si o corpo sistematizado e cronologicamente organizado de teorias científicas-com destaque normalmente dado para osparadigmas válidos-bem como ométodo científicoe todos os recursos necessários à elaboraçãodas mesmas. "A ciência só pode determinar o que é, não o que 'deve ser', e fora de seu domínio permanece a necessidade de juízos de valor de todos os tipos" (Albert Einstein). Conhecimento •Existem várias formas de conhecer o mundo: pela nossa vivência, pelas informações que recebemos, pela fruição artística, pelas experiências místicas ou espirituais. •No caso da ciência, trata-se de conhecer o mundo através de um trabalho sistemático de pesquisas e estudos que utilizam métodos científicos. COMUNICAÇÃO •Aprendizado que acontece também na prática, desde os primeiros dias de vida, e não apenas de forma sistemática; •Exposição constante aos meios de comunicação; •Conhecimento vivo, espontâneo e intuitivo, porque está enraizado no terreno da experiência, em sintonia com o nosso viver cotidiano. DESAFIO: Conciliar as formas intuitivas de apreensão da Comunicação com o conhecimento científico, fidedigno, aprofundado e sistemático da realidade. TEORIA -Ação no mundo separada de teoria é ação animalizada; -A teoria precisa produzir reflexões sobre o mundo, e não abstrações apartadas dele. PRÁTICA -Importância da vinculação da teoria ao mundo; -Teoria sem prática é pura abstração. -A prática é fundadora e problematizadora. O campo da comunicação A Ciência da Comunicação e a Modernidade A Modernidade transformou a Comunicação em problema: “A virada da modernidade se caracteriza, em primeiro lugar, no século XVII, pela desvalorização do enunciado e pela concentração sobre o ato de enunciar, a enunciação. Quando se tinha certeza quanto ao locutor (‘Deus fala ao mundo’), a atenção se voltava para o ato de decodificar os Seus enunciados, os ‘mistérios’ do mundo. Mas quando essa certeza fica perturbada pelas instituições políticas e religiosas que lhe davam garantia, pergunta-se pela possibilidade de achar substitutos para um único locutor: Quem falará? E a quem? Com o desaparecimento do Primeiro Locutor surge o problema da comunicação, ou seja, de uma linguagem que se deve fazer e não somente ouvir.” CERTEAU, Michel de. A Invenção do Cotidiano. 1. Artes de fazer. Petrópolis: Vozes, 2001, p.229. Comunicaçãocomo Ciência DESAFIOS: PRIMADO DA PRÁTICA: o próprio espaço acadêmico da Comunicação foi instaurado a partir da prática, com cursos profissionalizantes como os de jornalismo que antecederam as elaborações teóricas. Por tratar-se de uma atividade essencialmente envolvida com o processo produtivo, corre o risco de voltar-se apenas para o atendimento instrumental de demandas técnicas; DESCOLAMENTO INTELECTUAL: a crítica ao primado da prática também gerou o seu oposto, um distanciamento ou desprezo pela empiria. Importante: não existe teoria que se coloca fora do horizonte da prática, sob o risco de se converter em pura abstração; DIVERSIDADE EMPÍRICA: as inúmeras atividades profissionais do Campo da Comunicação, assim como os diferentes veículos e linguagens assumem configurações muito particulares, dificultando a construção de um esquema conceitual capaz de dar conta de todas essas possibilidades; MOBILIDADE DO OBJETO EMPÍRICO: constante mutação das práticas comunicativas, em especial pelas revoluções tecnológicas, colocam novas questões a serem teorizadas constantemente; HETEROGENEIDADE DOS APORTES TEÓRICOS: a comunicação suscita múltiplos olhares, muitas vezes inconciliáveis entre si. Ao mesmo tempo em que os diversos aportes enriquecem as investigações, dificultam a integração teórica do campo comunicacional; MODISMOS: pela pluralidade das práticas, também vivenciamos uma série de modismos, com diversas interpretações diferentes que se sucedem ao longo do tempo sem o aprofundamento necessário; QUADRO FRAGMENTADO: a heterogeneidade dos aportes teóricos e a diversidade das práticas dificulta que a Comunicação seja considerada um domínio científico específico. Consequência: •Não há um campo ou uma tradição de trabalho claramente definidos, mas em constituição; •Há um estoque ou patrimônio de estudos marcados principalmente pela relação com outras disciplinasde origem; •Temos um espaço INTERDISCIPLINAR. TEORIAS DA COMUNICAÇÃO Aula 03: A questão interdisciplinar O que é interdisciplinaridade? Movimento que busca a superação da disciplinaridade, de uma única disciplina do saber, e que no século XX ganhou força para atestaroutras e novasciências.De forma geral, hoje a interdisciplinaridade é vista como a interação entre disciplinas aparentemente distintas. Esta interação é uma maneira complementar ou suplementar que possibilita a formulação de um saber crítico-reflexivo, saber esse que deve ser valorizado cada vez no processo de ensino-aprendizado. É através dessa perspectiva que ela surge como uma forma de superar a fragmentação entre as disciplinas, proporcionando um diálogo entre estas, relacionando-as entre si para a compreensão da realidade. A interdisciplinaridade busca relacionar as disciplinas no momento de enfrentar temas de estudo. Contexto histórico •Desde o Renascimento, quando aciência e a pesquisa científica tomaram lugar entre a teologia e a filosofia, no sentido de explicar o mundo ao primado científico legado pela modernidade, a definição dos objetos de estudo sempre esteve em voga; •O século XX assistiu ao surgimento de várias disciplinas científicas, quando a organização dos saberes adquiriu grande importância; •Nesse contexto, surgiu um novo saber especializado, ou melhor, uma nova disciplina científica, com ênfase nos processos de Comunicação; •A esse novo saber ainda resta o desafio: Definir com precisão o seu objeto. Objeto da comunicação Mas, afinal, que objeto é esse? Para definir o objeto da Comunicação, é indispensável pensarmos a partir da noção de interdisciplinaridade: •O objeto da Comunicação tende a se confundir com o objeto das outras ciências; •Os processos comunicativos atravessam praticamente toda a extensão das Ciências Humanas. “Em outras palavras, a natureza dos estudos em Ciências Humanas –que têm no homem, um ser essencialmente comunicativo, seu objeto comum –faz com que a análise dos processos comunicativos seja um ponto de passagem quase obrigatório, o que dificulta a delimitação mais precisa do objeto da Comunicação, uma vez que ele se encontra misturado às análises de outras disciplinas” (Martino, 2010, p.28). Muitas abordagens que visam definir o objeto da Comunicação ora tendem a centrar-se nos meios de comunicação como objeto primordial desse campo, ora voltam-se para a cultura como o substrato dos estudos comunicacionais. Mas é possível pensá-los separadamente, sem complementaridade? MEIOS TÉCNICOS - Ênfase no determinismo tecnológico, em que a técnica prevalece sobre a cultura. CULTURA DE MASSA - Ênfase nas práticas culturais, independente da sua materialidade. “Os processos comunicativos no interior da cultura de massa constituem certamente o objeto da Comunicação, mas a característica inalienável, e portanto mais própria a esta disciplina, reside na perspectiva que ela adota, ou seja, na interpretação desses processos tendo como base um quadro teórico dos meios de comunicação. Trata-se de uma leitura do social realizada a partir dos meios de comunicação, o que equivale a dizer que meios de comunicação e cultura de massa não se opõem, nem podem ser reduzidos um ao outro, ao contrário, eles exigem uma relação de reciprocidade e complementação.” MARTINO, LuisC. Interdisciplinaridade: objeto de estudo da comunicação. In: HOLFELDT, Antônio e outros (orgs.).Teorias da Comunicação: Conceitos, Escolas e Tendências. Petrópolis: Ed. Vozes, 9ª edição, 2010, p. 29. Aprofundando a caracterização do objeto Dimensão filosófica •Comunicação enquanto fundamento do homem; •A consciência nasce da necessidade de comunicar; •Supera a dicotomia entre estudos psicológicos e estudos sociais; •“A consciência é uma rede de comunicação entre homens”. Dimensão histórica •Transição da comunidade para a sociedade; •Inserção em coletividades não mais determinada pela tradição, mas via comunicação como estratégia; •Comunicação como prática social que se exprime como estratégia racional de inserção do indivíduo na coletividade. “Em suma, é a partir da análise da Sociedade enquanto tipo de organização coletiva que podemos entender, de um lado, a necessidade de comunicação do indivíduo moderno em seu afã de engajamento coletivo; e, de outro lado, a presença notória e crescente que adquirem os meios de comunicação em nossa sociedade de massa, como parte importante do processo de instrumentalização da atividade individual face ao seu desafio de engajamento numa coletividade complexa.” MARTINO, LuisC. Interdisciplinaridade: objeto de estudo da comunicação. In: HOLFELDT, Antônio e outros (orgs.).Teorias da Comunicação: Conceitos, Escolas e Tendências. Petrópolis: Ed. Vozes, 9ª edição, 2010, p. 34. Assim, pensar no Objeto da Comunicação implica refletir sobre uma síntese de diversos saberes (Sociologia, Psicologia, Linguística, etc.) com um objetivo e um objeto particulares: Práticas sociais que envolvem os meios de comunicação. Interdisciplinaridade e objeto da comunicação “É preciso aceitar e acolher o caráter polimórfico desse objeto[...] Lógica, linguagem, cultura e imagem são apenas algumas da intercessões que surgem no interior do campo múltiplo da comunicação. Reduzir suas dimensões à esfera de apenas um desses setores resultaria em um injustificável empobrecimento. [...] Não há dúvida de que o campo da comunicação exige um envolvimento profundo com o social, com o cultural e com o presente histórico. Mas nenhuma dessas instâncias é imediata. Se afogar os estudantes em apresentações históricas de conceitos filosóficos, psicológicos ou sociológicos é improdutivo, apresentar-lhes fatos “puros” ou produtos culturais desvinculados de contextos históricos e sociais mais amplos seria ainda mais trágico, para não dizer em última instância impossível.” FELINTO, Erick. Isto não é um cachimbo nem um objeto de comunicação, In Trama,n. 3, Rio de Janeiro: Sete Letras: Jan-jun2002. Comunicação e literatura Uma interface cada vez mais discutida: Comunicação e Literatura Mais do que ênfasenos objetos e na busca exaustiva da sua delimitação, ênfase nas produções de sentido. “Deslocando o problema da pergunta pelo objeto específico para a utilização de umaabordagem comunicacional na análise dos vários objetos culturais, fazemos jus àcomplexidade da comunicação.” (Felinto, p.9)Fonte da imagem: http://freerangestock.com/ TEORIAS DA COMUNICAÇÃO Aula 04: Paradigmas da comunicação O que é paradigma? "Um paradigma é aquilo que os membros de uma comunidade partilham e, inversamente, uma comunidade científica consiste em homens que partilham um paradigma. O estudo dos paradigmas prepara, basicamente, o estudante para ser membro da comunidade científica na qual atuará mais tarde." “Esse conceito tornou-se clássico nas Ciências, elaborado por Thomas Kuhn em “A estrutura das revoluções científicas”. Fonte: http://freerangestock.com/ A um paradigma corresponderá um arquétipo(uma ideia geral); cada uma das teorias que venha a autorizar constituirá um protótipo(uma formulação específica); e os modelos, que tais teorias permitem criar e propor, serão assimiláveis a um estereótipo(uma norma coercitiva). Paradigma –Conceitos fundamentais Ao completar o ciclo da sua elaboração, uma TEORIA poderá resultar em um MODELO (medida a ser respeitada) passível de correção e de modificação. É por tal adoção e pela criteriosa aplicação do MODELO que a TEORIA se declara em medida de influenciar os resultados apurados quando da realização de uma PESQUISA. O Modelo pode ser: •ANALÍTICO: Proporciona operacionalidade imediata; •CONCEITUAL: Proporciona como vantagem a sua estrutura teórica. “O PARADIGMA reina, a TEORIA legisla, o MODELO governa. E a PESQUISA vota. O CAMPO é um reino, um domínio, uma circunscrição.” Trinta e Polistchuk, p. 65 Os riscos do senso comum •Senso comum: Reunião de sentidos comum à maioria; •Comunicação, no senso comum, como: Falar bem, dar bem o seu recado, capacidade de persuadir; relação com carisma e “charme” do enunciador, com boa oratória; “O senso comum confunde comunicação e comunicabilidade, preferindo a retórica(o encanto do discurso) à dialética (a pertinência da ideia)” •Ao senso comum interessa o que tem serventia imediata, critério através do qual faz a seleção de ideias, coisas e objetos. Ou seja, o senso comum é finalista;•Oculta elementos básicos de uma dada realidade. E a Comunicação? É uma disciplina específica? Um campo específico? Comunicação e seus paradigmas “Comunicação compõe o processo básico para a prática das relações humanas, assim como para o desenvolvimento da personalidade e do perfil coletivo. Pela comunicação o indivíduo se faz pessoa, indo do ser singular à relação plural.” Trinta e Polistchuk, p. 63 Comunicação na prática •Atitude de quem opina ou argumenta = Ethos •Racionalidade inerente à opinião ou argumento apresentado = Logos •Tornar apaixonante o fato de opinar ou argumentar = Pathos “A comunicação demonstra que a universalização do contato múltiplo é antídoto eficaz ao totalitarismo do sentido único. [...]A Comunicação é humana.” Trinta e Polistchuk, p.63 Comunicação e sentido •A comunicação busca encontrar sentidos para as coisas; •Toda mensagem porta sentidos; •Os destinatários atribuem novos sentidos a cada mensagem recebida; •Todo novo ato comunicativo providencia (ainda mais) sentido; •Comunicar é estar em condições de atribuir sentidos; •O sentido se afigura infinitamente negociável: essa é a sua razão de ser. Comunicação e seus paradigmas •A Comunicação é uma prerrogativa humana básica, regendo a vida de todo ser humano, seja em sua formação individual, seja em sua imersão no meio social. •“O acesso que tem (e mantém) a outros indivíduos empenha em cada indivíduo uma comunicação interindividual; por extensão, ela é grupal e comunitária.” (Trinta e Polistchuk, p.66) A comunicação é um BIOS VIRTUAL (Sodré, 2002), ou seja, um gênero de existência. •Assim, a comunicação é um fator básico de convivência e elemento determinante das formas que a sociabilidade humana adquire. Essa perspectiva da Comunicação como as relações que os indivíduos mantém no quadro da sua cultura impede que haja uma redução da Comunicação a uma visão tecnicista. Visão tecnicista: Reduzir a Comunicação ao estudo dos meios enquanto meros instrumentos. Logo, pensar a Comunicação implica pensar para além dos meios técnicos. Há muito mais a refletir do que apenas sobre os objetos técnicos. Por exemplo: •Relação entre Comunicação, Poder e Democracia –Primeiros estudos brasileiros e latino-americanos, no contexto das Ditaduras locais; •Função dos Meios de Comunicação –Reflexão sobre a estrutura de funcionamento dos meios; •Semiologia Linguística –Estudo crítico sobre o conteúdo e os modos da sua reprodução; •A indústria da Cultura –Suas tramas ideológicas, a banalização da arte e a mercantilização das práticas culturais. Visões opostas nos Estudos da Comunicação: Apocalípticos X Integrados Apocalípticos -Pessimistas; -Não há luz no fim do túnel; -Produção industrial da cultura; -Os meios representam a Barbárie Cultural e negam os processos de reflexão. Integrados -Visão mais tecnicista voltada para a prática; -Os meios podem pôr fim aos privilégios da educação e do monopólio cultural; -Os meios seriam socializantes e democratizantes. A partir desses dois polos principais, diversos paradigmas podem ser identificados: Paradigma Conflitual-Dialético Paradigma Culturológico Paradigma Crítico-Radical Paradigma Matemático-Informacional Paradigma Funcionalista-Pragmático Paradigma MidiológicoParadigma Tecnológico-Interativista TEORIAS DA COMUNICAÇÃO Aula 05: Escolas norte-americanas de comunicação Cinco perspectivas Escolas Americanas Palo Alto -Colégio Invisível FuncionalismoTeoria Hipodérmica Modelo Matemático Escola de Chicago As diversas perspectivas Dos anos 20 aos anos 60, os principais desenvolvimentos da Mass Communication Research–campo de estudos americano -apresentam quatro características em comum: Orientação empiricistados estudos, com ênfase quantitativa; Orientação político-pragmática, com vistas a otimizar os resultados dos processos comunicativos; Têm como objeto de estudo a comunicação midiática; Buscam definir um modelo comunicativo. A partir dessas premissas, três perspectivas teóricas principais se desenvolveram: FUNCIONALISMO Mass Communication Research Modelo Matemático Teoria Hipodérmica - Teoria matemática da comunicação •Também conhecida por Teoria da Informação; •Elaborada em 1949 por Shannon e Weaver (dois engenheiros matemáticos); •Perspectiva puramente técnica; •Comunicação vista como um sistema de forma fixa; •Modelo linear: elementos encadeados que não podem ser dispostos de outra forma; •Não há preocupação com a inserção social da Comunicação. CONCEITOS CENTRAIS: Informação: incerteza e probabilidade. Entropia: imprevisibilidade. Código: para a produção da mensagem. Ruído: o que atrapalha a transmissão. Redundância: repetição para garantir o entendimento. 2. Corrente funcionalista •Desenvolvida a partir dos estudos de Laswell; •Visa a reflexão sobre a função dos meios de comunicação de massa na sociedade; •Perspectiva sociopolítica: a sociedade é um todo composto por partes que devem cumprir as suas funções para o funcionamento deste todo; •Sai a ênfase da dinâmica interna do processo comunicativo de Shannon e Weaver para uma ênfase na dinâmica do sistema social; •Assim como no Modelo Matemático, há unidirecionalidade, pré-definiçãodos papeis e simplificação do processo comunicativo. Funções do processo comunicacional, para Laswell: 1 – Primeira função: •Vigilância •Função informativa, de alarme. 2 – Segunda função: •Integração •Correlação das partes da sociedade. 3 – Terceira função: •Educativa •Transmissão da Herança Cultural. Assim como a teoria defende quais seriam as funções da mídia, reflete sobre as possíveis disfunções, com destaque para a DISFUNÇÃONARCOTIZANTE: •O fato do fluxo informativo dos meios de comunicação de massa circular livremente pode ameaçar a estrutura fundamental da própria sociedade; •A exposição a grandes quantidades de informação pode provocar a chamada “disfunção narcotizante”: grande volume, mas com superficialidade e fragmentação; •Os meios podem colaborar para a inércia e a apatia das massas, impedindo-as de uma ação política efetiva, ou seja, a informação não se converte em ação. “O cidadão interessado e informado pode deleitar-se com tudo aquilo que sabe, não percebendo que se abstém de decidir e de agir. Em suma, considera o seu contato indireto com o mundo da realidade política, a leitura, a audição da rádio e a reflexão como substitutos da ação. Chega a confundir o conhecimento dos problemas do dia com o fazer qualquer coisa a propósito. É evidente que os meios de comunicação melhoraram o grau de informação da população. Contudo, pode acontecer que, independentemente das intenções, a expansão das comunicações de massa esteja a desviar as energias humanas da participação ativa para as transformar em conhecimento passivo.” (Lazarsfelde Merton) 3. Teoria hipodérmica •Voltada para os estudos sobre os efeitos da Comunicação sobre os indivíduos; •Outros estudos semelhantes ficaram conhecidos como Teoria da Bala Mágica ou Teoria da Correia de Transmissão; •Duas influências: 1.Teoria da Sociedade das Massas: na sociedade industrial do início do século XX os indivíduos estão isolados física e psicologicamente, com pouco valor atribuído às relações interpessoais; 2.Behaviorismo: A ação humana é uma resposta a um estímulo externo. Os meios de Comunicação são vistos como onipotentes, causa única e suficiente dos efeitos verificados.Os indivíduos são vistos como seres indiferenciados e passivos. Os efeitos são diretos. A partir dos anos 40, diversos estudos aperfeiçoaram ou superaram a Teoria Hipodérmica, apontando para realidades mais complexas e refinando a Escola Americana dos Efeitos: Abordagem da Persuasão; Teoria dos Efeitos Limitados; Modelo Two-Step-Flow; Correntes dos Usos e Gratificações; Agenda Setting. Abordagem da Persuasão •Investigações empírico-experimentais; •Entre a ação dos meios e os efeitos, atua uma série de processos psicológicos; •Mesmo dentro do modelo causa-efeito, essa corrente quebra com a percepção linear do processo de persuasão; •Os efeitos não são diretos e a resposta dos indivíduos aos estímulos da mídia se defrontam com fatores psicológicos. Teoria dos Efeitos Limitados •Abordagens Sociológicas e Psicológicas; •Orientação mais psicológica: estudos de Kurt Lewin –as relações dos indivíduos dentro dos grupos e seus processos decisórios, as pressões e normas vivenciadas e as atribuições do grupo interferem no efeito das mensagens; •As interações no âmbito interpessoal são tão (ou mais) eficientes do que as da comunicação de massa; a mídia é apenas mais uma das esferas da vida social, dentre outras, como escolas e igrejas. Modelo Two-Step-Flow; •A partir dos estudos dos fatores de mediação entre os sujeitos e os meios de comunicação de massa, descobre-se a importância dos “líderes de opinião”; •A comunicação se dá num fluxo de dois níveis: dos meios aos líderes e dos líderes às demais pessoas; •Os contextos sociais em que os sujeitos vivem e suas relações interpessoais passam a ser incluídos dos estudos da Comunicação; •Logo, os efeitos da mídia precisam ser pensados a partir das relações em sociedade. Correntes dos Usos e Gratificações •Da questão “O que os meios fazem com as pessoas” os estudos voltam-se para a pergunta: “O que as pessoas fazem com os meios”?; •Reflexão sobre as apropriações que os receptores fazem dos conteúdos; •O receptor passa a ser visto como agente, capaz de praticar processos de interpretação das mensagens recebidas e adequá-las às suas necessidades e contextos. Agenda Setting •Também conhecida como Teoria dos Efeitos a Longo Prazo; •Os meios não causam efeitos diretos, mas alteram a forma do indivíduo perceber o mundo; •O Agendamento pressupõe a capacidade da mídia de colocar os assuntos em pauta na sociedade; •Ao invés de ser capaz de dizer às pessoas “como pensar” sobre determinado tema (efeitos diretos), a mídia seria capaz de determinar “sobre o que pensar”, definindo a agenda. Ao longo de mais de 60 anos, portanto, a Corrente Americana dos Estudos sobre os Efeitos conheceu uma grande evolução em termos do aparato teórico a ser utilizado nos estudos. De um modelo de máxima simplicidade, que previa um processo linear partindo dos meios, onipotentes, a receptores passivos e isolados, determinando efeitos diretos, chegou-se a modelos que passaram a considerar a influência de diversos outros fatores: as características psicológicas dos receptores, as formas de organização das mensagens, a rede de relações interpessoais em que os indivíduos se inserem, elementos extramediaque atuam de forma concomitante nos meios de comunicação, os usos que as pessoas fazem desses meios e a natureza da ação dos meios na sociedade. (ARAÚJO, 2010, p. 130) As diversas perspectivas A desconstrução do paradigma hipodérmico possibilita o fortalecimento de correntes de estudo com pressupostos diversos, como: Escola de Palo Alto Escola de Chicago 4. Escola de Palo Alto •Anos 50:Gregory Batesone Paul Watzlawickaplicam a teoria cibernética à interação animal e humana e estudam um modelo circular retroativo da comunicação; •Modelo circular proposto por NobertWeiner: a informação deve poder circular e a sociedade da informação só pode existir sob a condição de troca sem barreiras; •Afastamento do modelo linear: a comunicação reside em processos relacionais e interacionais; •O receptor passa a ter um papel tão importante quanto o emissor das mensagens; •Também conhecido como “Colégio Invisível”: consensualismointelectual que uniu “espiritualmente”, mas quase nunca fisicamente –daí a sua invisibilidade –um grupo de pesquisadores norte-americanos, a partir de 1950, ao redor das Universidades de Palo Alto e da Filadélfia, nos EUA. Princípios fundamentais 1º A essência da comunicação reside em processos relacionais e interacionais; 2º Todo comportamento humano possui um valor comunicacional; 3º Observando a sequência de mensagens sucessivas e a relação entre os elementos e o sistema, é possível deduzir a lógica da comunicação. Os pesquisadores da Escola de Palo Alto usam a metáfora de uma orquestra para entender a comunicação, ou seja, um processo de canais múltiplos em que o autor social participa a todo momento a partir dos seus gestos, sua visão e até do seu silêncio, na qualidade de um indivíduoparticipante de uma certa cultura, assim como um músico é parte integrante de uma orquestra. 5. Escola de Chicago •ECOLOGIA –a cidade como "espectroscópio da cidade“; Robert Ezra Park e a observação sobreo laboratório social que a cidade se torna com os signos de desorganização, marginalidade, aculturação, assimilação e mobilidade (CfMattelart2001, p.31); A comunicação é o processo de troca de informações e também a própria estrutura simbólica sobre a qual se apoia a sociedade. Para os pensadores da Escola de Chicago, os indivíduos seriam capazes de entender e descrever os fatos sociais que os cercavam, no entanto, esses indivíduos agiriam em função do significado dado às coisas nos processos de comunicação, e não das coisas em si. INTERACIONISMO SIMBÓLICO Princípios do Interacionismopara Herbert Blumer: O ser humano orienta seus atos em direção às coisas em função do que elas significam para ele. O significado dessas coisas se deriva –ou surge como consequência –da interação social que cada um mantém com o outro. Os significados se manipulam e modificam mediante um processo interpretativo desenvolvido pela pessoa ao se deparar com as coisas. A vida social só pode ser compreendida por meio da interação social, ou seja, por meio da observação dos processos comunicacionais. A escola acredita que os símbolos possibilitam ao indivíduo osprocessos de interação, permitindo a interpretação do ambiente social, a divulgação das ideias, a elaboração e registro da sua história e de seus conhecimentos. Ou seja, partindo para os atores sociais, pode-se admitir que seus pesquisadores deixam os espaços restritos da mídia para entrar no campo vasto das mediações para entender todo o processo de recepção ante a diferentes receptores e que tais receptores comportam-se de forma diferente ante a informação veiculada; ante o discurso; ante a produção simbólica da comunicação. TEORIAS DA COMUNICAÇÃO Aula 06: Escola de Frankfurt O Instituto para Pesquisa Social de Frankfurt Criado em 1924, foi o berço do que ficou conhecido como Escola de Frankfurt.O Objetivo do IFS (InstitutfürSozialforschung, ou Instituto para Pesquisas Sociais), era tentar instaurar uma teoria social capaz de interpretar as grandes mudanças que estavam ocorrendo no início do século. Max Horkheimer, Felix Weile Friedrich Pollock foram os fundadores, junto à Universidade de Frankfurt, doInstitutfürSozialforschung. Horkheimer assumiu a direção do Instituto de Pesquisa Social em 1930[...] instalando-a na Filosofia e dando-lhe o nome de “Filosofia Social”. Propôs um ambicioso programa de pesquisa interdisciplinar que tinha como referência teórica fundamental a obra de Marx e o marxismo, inaugurando, assim, a vertente intelectual da “Teoria Crítica”. NOBRE, Marcos.A Teoria Crítica. 3. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2004, p. 07 INTERDISCIPLINARIDADE Uma das principais características do Instituto: Em seu texto “Teoria tradicional e teoria crítica”, provavelmente um dos mais importantes de todo o período da década de 1930, Horkheimer apresenta uma alternativa para se pensar criticamente a relação entre teoria e prática (Horkheimer, 1975). Essa alternativa ficou conhecida como omaterialismo interdisciplinar, um trabalho exercido em conjunto por diferentes perspectivas teóricas –filosofia, sociologia, psicanálise, economia, direito etc. –que se voltavam para as investigações sobre a sociedade, adotando aquela atitude da teoria com interesses práticos [...]. MELO, Rúrion.Teoria Crítica e os sentidos da emancipação.Caderno CRH, v. 24, n. 62, p. 249-262, maio/ago., 2011. p.253 Contexto histórico: •Pós-primeira Guerra; •Sociedade Industrial; •Problemas decorrentes do avanço do Capitalismo; •‘Nascimento’ do Nazismo e do Stalinismo. Nessa época surgem questionamentos sobre o tão propagado “progresso civilizatório” prometido pelo século XIX. •Crítica ao excesso de racionalidade que se materializou nesse contexto histórico complexo: a Razão e o Iluminismo nos levaram a uma nova forma de barbárie? •Esclarecimento/Iluminismo (conhecimento racional) é totalitário. •Prisioneiros da razão técnica, construímos ciência e tecnologia, vivemos melhor do ponto de vista técnico... Mas até que ponto vivemos melhor em termos de humanidade ou estamos em outro estágio de selvageria e dominação, como no nazismo? •Em outras palavras: a razão técnica usada para fins como o desenvolvimento de medicamentos, por exemplo, está ao lado da razão que serviu para desenvolver a bomba atômica e possibilitar a ascensão dos regimes totalitários. Teoria crítica A criticidade dos estudos desenvolvidos em Frankfurt é tributária da inspiração no pensamento marxista, especialmente do seu conceito de IDEOLOGIA, que possui conotação negativa. Teoria crítica –Ideologia A dominação de uma classe sobre a outra não ocorre apenas pela força física, mas também pela dominação simbólica.A ideologia de uma sociedade capitalista é a dominação no âmbito cultural de uma classe (ou classes) sobre outras classes. Ou seja, a cultura é um espaço de relações sociais economicamente condicionadas. Marx chama a atenção para as relações de dominação capitalistas, já que a ideologia conquista parte do espaço cultural. Assim, aquelas produções culturais que deveriam ser livres da determinação econômica para expressar sentimentos, experiências, formas de compreender o mundo, acabam sendo definidas pelo esquema econômico.A ideologia é a expressão da dominação de várias classes sociais nas mãos de outras, no âmbito cultural. A cultura se torna um instrumento para a manutenção das relações de dominação. A indústria cultural Adorno e Horkheimer, dois dos principais fundadores da Escola de Frankfurt, condensaram essa reflexão sobre o poder totalitário da cultura no clássico texto “A Indústria Cultural: O Esclarecimento como Mistificação das Massas”, publicado em 1947. Seu objetivo é compreender como a dimensão cultural das sociedades contribui para regimes de dominação. Adorno e Horkheimer usaram esse termo para demonstrar como é possível que uma dimensão da vida humana, a cultura, tenha se convertido em uma indústria, produzindo aquilo que é necessário, determinado pelo produtor, na quantidade e no tipo necessário. A CULTURA SE TORNA MERCADORIA. A cultura como conjunção de: símbolos, significados, maneiras de ser, de sentir, de compreender o mundo, de se expressar, música, arte, filosofia, estética, etc., encontra-se dominada por diversos interesses das classes dominantes. E ela funciona assim como um fator que produz legitimidade dos regimes políticos, sejam eles ditaduras ou democracias, porque tanto em um como em outro, a necessidade de legitimidade é igual. Adorno e Horkheimer fazem uma analogia entre a dimensão cultural e a indústria para destacar o fato de que ela é gerenciada pelas necessidades daquele que a possui. Segundo os autores, a indústria cultural se encontra a serviço dos interesses dominantes nos níveis econômicos e políticos. Indústria cultural –Algumas características DOMESTICAÇÃO DO ESTILO –a diferença é vista de forma negativa, dado o consumo de um único padrão; PADRONIZAÇÃO –baixo nível formal, estético e de conteúdo; DIVÓRCIO ENTRE ARTE E ARTISTA –alienação do artista em relação à arte por ele produzida, uma vez que esta passa a ser mediada por uma relação mercadológica e não mais como expressão da sua subjetividade; CULTURA COMO ENTRETENIMENTO –qualquer diversão se sobrepõe à reflexão; lazer torna-se sinônimo de consumo; FÓRMULAS PRONTAS –produtos culturais produzidos em série a partir de formatos e enredos padronizados; BANALIZAÇÃO DO SOFRIMENTO –dramas humanos usados para obtenção de audiência e lucro, como na imprensa marrom; MASSIFICAÇÃO DE ATITUDES, CONCEITOS E IDEIAS –uso político dos produtos culturais, como no cinema nazista; MANUTENÇÃO DA ORDEM –os poderes constituídos valem-se da mídia como forma de manutenção das estruturas de poder; TODA ARTE PASSA A SER REPRODUTÍVEL –a obra de arte perde a sua aura. Indústria Cultural X Cultura de Massa Adorno e Horkheimer substituem o termo “cultura de massa” por “indústria cultural”. Isso porque “Cultura de Massa” lembra algo que emana das próprias massas e é por elas valorizada, o que não é o caso. Nesse sentido, a expressão “indústria cultural” é mais apropriada, por refletir uma produção de cultura que é portadora da ideologia dominante. Indústria cultural -Características A cultura é produzida em série, uniformemente e afastada de qualquer vocação emancipatória para o homem. Indústria cultural A MISTIFICAÇÃO DAS MASSAS Os meios de comunicação de massa desestimulam a sensibilidade: têm apenas estímulo publicitário ao entretenimento e ao conformismo, não encorajando o público a pensar e tornando-o passivo. Por isso são elementos tão poderosos de dominação. Lucratividade Comercialização Produção em série Cidadãos convertidos em consumidores As visões de mundo são subsumidas na lógica do capital –tudo vira produto padronizado produzido em série e perde a profundidade. Qual o espaço da arte? Como passamos a conceber a arte, agora convertida em item de consumo? •Walter Benjamim e a reprodutibilidade: produção de “arte” em escala industrial; •A incorporação de obras de arte pela indústria faz com que elas percam sua essência e profundidade para serem usadas para venda de produtos; •Cultura se torna mercadoria, submetidaà lógica do capital; •Os momentos de fruição das obras de arte se perdem -teatro versus cinema, por exemplo; •A produção em grande escala não democratiza a arte, mas a banaliza. Walter Benjamim – A Reprodutibilidade Técnica PARA REFLEXÃO: •Há espaços, como a internet, que possibilitam manifestações culturais fora da lógica da indústria cultural? •A internet tende a ser apropriada pela grande indústria? TEORIAS DA COMUNICAÇÃO Aula 07: A contribuição francesa Há uma escola francesa? •Abordagens muito heterogêneas; •Grupos de pesquisadores autonômose/ou originários de diversas áreas de conhecimento; •Não há exatamente um campo da comunicação francês: Os franceses pensam mais a comunicação como intelectuais do que como cientistas, pesquisadores, especialistas, experts, peritos, instrumentos da objetividade”(Machado, 2010, p. 181). Unidade no pensamento francês: “O fenômeno da comunicação tornou-se, de maneira direta ou indireta, uma espécie de leitmotiv dos fenômenos sociais, econômicos, políticos, tecnológicos e culturais da nova era, onde se formatam os discursos, os sentidos e as interações humanas, e onde se tecem as redes e as interfaces entre os diversos campos do conhecimento humano. O consenso é de que a arena da comunicação midiática é a dimensão por onde operam e se imbricam as teias tecnológicas, estéticas ou econômicas da pós-modernidade, o que estaria hoje empurrando a humanidade para novas experiências em termos do saber, do sentir, do perceber e do fazer.”(Marshall, 2003, p. 35) Contexto: Pós-Modernidade A Pós-Modernidade pode ser compreendida como o movimento de transformação com o questionamento e superação dos fundamentos científicos, positivos e iluministas da modernidade. Desilusão com o mito de que o racionalismo gera o progresso. Transformações no homem gestado pelo Iluminismo –enfraquecimento do sujeito autônomo e racional •Publicação de “A Condição Pós-Moderna”, de Jean-François Lyotard:Pós-modernidade como uma situação de crise e perda de legitimidade das metanarrativas, dos discursos últimos que sustentaram a modernidade. “A pós-modernidade, demarcada como tendo nascida ora com o movimentode contestação e rebeldia estudantil e social em maio de 1968, ora com a queda do Muro de Berlim e o início do fim do mundo socialista em 1989, ou ainda com o lançamento das bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki, em 1945, inaugurou uma época de liberdade intelectual, relatividade epistemológica, rejeição ao método, diferença, pluralidade, niilismo, hedonismo presenteístae consumismo desenfreado, aspectos todos mergulhados em um ambiente livre em profusão tecnológica, em um frenético processo de midiatização e em uma agressiva onda de estetização do mundo. Entretanto, o traço fundamental, determinante e de natureza ubíqua, desta nova etapa histórica, subjacente a todos os processos sociais, acabou sendo o resgate dado aos valores da subjetividade humana.”(Marshall, 2003, p. 37) •O mundo empírico dá lugar para a ênfase na construção subjetiva da realidade: “O sentido deixa de se reduzir ao sujeito ou à composição das estruturas. O sujeito pós-modernopassa a ser examinado e compreendido em sua complexidade, em sua contingência e em sua singularidade.” •Todo esse conjunto de intelectuais, portanto, abre espaço para o pensamento das diferenças: “Nesta vertente, passa-se a exaltar as multiplicidades não-globalizantes e a derrubar uma a uma asmáscaras da modernidade, mostrando que não existe uma verdade única, inabalável, pétrea, mas que tudo faz parte de uma polissemia de verdades.” “Nesta nova vertente de pensamento, o texto dá lugar ao contexto e ao discurso, a realidade passa a aceitar a expansão de um espectro de virtualidade e simulação, o sujeito perde seu cetro, as sociedades incorporam as ideias de rede e de teias tecnológicas, os relógios modernos passam a ser ajustados pelas leis da dromologia, o estudo da superfície dá lugar à investigação dos subterrâneos da essência, os valores de uso e de troca são tragados pelo valor de signo, o consumismo torna-se uma patologia social, a análise da crescente mundialização é trocada pela abordagem de uma febril globalização financeira e tecnológica e o poder da mídia ganha ares de um verdadeira midiocracia, a merecer uma “disciplina científica” própria, talvez a Midiologia.”(Marshall, 2003, p. 37) Características do pensamento francês Três eixos no pensamento francês: Comunicação como fenômeno de Dominação; Comunicação como fenômeno extremo; Comunicação como vínculo social complexo. Pensadores centrais Pierre Bourdieu •Os estudos da Comunicação pertencem à Sociologia da Cultura; •Investigação sobre o Campo Jornalístico fora da Análise Estrutural; •Circularidade da Informação: A Mídia fala dela mesma; a mídia pauta-se por outros veículos da mídia; a Mídia saiu do acontecimento para entrar no culto à personalidade; •Espaços simbólicos ocupados de forma diferente por diversos agentes. Um campo é um espaço estruturado de relações onde agentes em disputa buscam a hegemonia simbólica das práticas, ações e representações. É uma expansão da ideia de espaço social, incluindo uma perspectiva de luta simbólica. O espaço simbólico é divido em níveis e hierarquizados. As posições são fixas, portanto, estruturadas, mas os ocupantes podem mudar de lugar. A existência de mais agentes do que posições de prestígio leva à disputa. Do campo da comunicação, por exemplo, fazem parte as empresas de mídia, os cursos de comunicação e os profissionais. Trabalhar em uma emissora que ocupa o primeiro lugar é um vínculo importante para qualquer profissional, trata-se de uma posição de prestígio. Esses agentes, no campo jornalístico, produzem e reproduzem um campo de jogo, um jogo que se encontra historicamente formado, reconhecido ou em luta para se fazer reconhecido. É um campo de forças, um espaço de lutas por posições, um espaço de tomadas de posição, um campo para o exercício da práxis jornalística. Jean Baudrillard •A Sociedade de Consumo (obra de 1970) e as “maiorias silenciosas” emergem como fatores decisivos para compreender a comunicação; •Pessimismo quanto à condição humana mediada pela técnica: não há mais troca, toda tentativa de contato resulta em difração (Machado, p.177); •A Mídia é um fenômeno extremo; •A ordem do simulacro torna-se imperativo: o hiper-real afasta os sujeitos de uma emancipação no real. Uma simulação bem feita é melhor do a realidade. É o domínio da hiper-realidade. Há um declínio na importância daquilo que se entendia como “realidade”. No simulacro, a semelhança é de tal ordem que não é possível discernir, à primeira vista, o falso do real, e o conceito de verdade é colocado em suspensão em um ponto de ilusão onde ele simplesmente perde o valor. O signo, transformado em elemento autônomo e desprovido de sua ligações com o significante/significado, torna-se autorreferente e pode significar o que bem se quiser –é a ideia do “simulacro” como construção sígnicada realidade. O signo vale por si só, não aponta para mais nada além dele mesmo. (Martino, 2012, p.232) “A imagem do homem sentado, contemplando, num dia de greve, sua tela de televisão vazia, constituirá no futuro uma das mais belas imagens da antropologia do século XX”(Baudrillard apud Machado, 2010, p.175) Pierre Lévy •Porta voz dos estudos franceses a partir das novas tecnologias, com o conceito de Cibercultura; •A internet pode superar a pirâmide um-todos por um processo comunicativo todos-todos; •Morte do Emissor –quando todos são emissores reina o sujeito enquanto emissor-receptor;•O internauta não é parte da massa; •Interatividade e Vínculo Social No ciberespaço a comunicação se libera da identidade e realiza-se de forma transitória, por identificação. Michel Maffesoli •Importância do Imaginário; •Estar-Junto, tribalismo, efervescência coletiva e o lúdico; •A comunicação e a técnica servem ao contato e ao cimento social, possibilitando a consolidação de umestilo comunitário; •A Mídia, sob a forma da imagem, representa uma forma de prática social que encarna desejos dos indivíduos. “A imagem funciona como um totem em torno do qual comungam os espectadores” (Machado, 2010, p. 176). •O que está além das análises sobre o individualismo? Novas formas de socialidade; •Socialidade–Experiência que se pauta na dimensão afetiva e sensível; •O neo-tribalismoé caracterizado pela fluidez, pelos ajuntamentos pontuais e pela dispersão; •Essa nova socialidadedesigna a saturação dos grandes sistemas e das macro-estruturas; •Esse socialidadeé eletiva, e não aleatória. É um tipo de atitude estética que corresponde a uma estetização da vida cotidiana, da vida diária; •Os laços de solidariedade e afeto selam as alianças. Há uma dimensão afetiva. A Impossibilidade da comunicação Baudrillard–atrofia do processo de troca simbólica entre sujeitos por força do totalitarismo absoluto das imagens; o espaço do contato, do diálogo e da empatia, entre os homens foi substituído por uma atividade meramente operacional. TAUTISMO–o neologismo combina a doença do “autismo” com a característica da “tautologia”, e expressa a ideia do nascimento do ser humano autômato, reduzido ao movimento da repetição em uma esfera irreversivelmente fechada para o mundo real. Na crítica de Sfez, a patologia do tautismodenota a confusão criada pela máquina da comunicação nos seres humanos quando estes passam a “tomar a realidade representada como realidade diretamente expressa, numa confusão primordial e fonte de todo delírio” (SfezapudMarshall, 2014). A Impossibilidade da comunicação O homem passa a agir, graças ao maquinismo da comunicação, apenas como máquina. Diz ele que “dos modelos teóricos às máquinas reais mais recentes, é o mundo maquinal que serve de referência. São máquinas que se fazem, máquinas de traduzir, de falar, de saber, de simular, de produzir a comunicação e a retransmiti-la”(SFEZ, 1994: 12).Sfeznota que a comunicação humana torna-se, para esta ideologia, uma impossibilidade, haja vista que a mediação está sustentada sob um modelo de interação em que não há mais sujeitos, apenas a forma simbólica representativa, o pensamento maquínico, as tecnologias do espírito.Na lógica dos sujeitos maquínicos, o produto terá se tornado produtor e a cópia terá devorado o próprio modelo. Viveríamos, enfim, num mundo em que Frankenstein passa a governar seu criador. A babel francesa Em resumo: “O mais interessante na babel francesa é que todos acertam e erram em proporções equilibradas. A comunicação é, ao mesmo tempo, fenômeno extremo, vínculo e cimento social, imagem ʻrelianteʼ, fator de isolamento, produtora de ʻtautismoʼ, espetacularização do jornalismo e do mundo, cristalização da técnica que acelera a existência e suprime o espaço e o tempo, fator de interatividade, nova utopia, velha manipulação, meio, mensagem, suporte e vertigem de signos vazios.” (Machado, 2010, p. 180) TEORIAS DA COMUNICAÇÃO Aula 08: Escola canadense –Innise Mcluhan Ênfase nos meios Principal característica: a importância dada aos meios Fica de lado a identificação dos processos comunicacionais comtodo e qualquer processo social ou cultural, que garantia a grande interdisciplinaridade do campo da Comunicação. Os processos comunicacionais são analisados a partir damediação tecnológica. DETERMINISMO TECNOLÓGICO: Os meios de comunicação passama ser tomados como eixo de análise, como uma alternativa à primazia do conteúdo. Precursores A obra de Harold Innispode ser concebida como um complexo conjunto de problemas , em que a comunicação é tomada como dimensão central que permite unificá-los e hierarquizá-los. A centralidade dos meios pode ser considerada como o ‘núcleo duro’ do programa comunicacional de Innis, de modo que eles passam a constituir umachave de interpretação para a organização social. “Tratava-se, portanto, de uma teorização dos meios de comunicação –não a escrita de forma isolada, como podem fazer os historiadores do livro e da imprensa; não o rádio ou a TV, como podem fazer os sociólogos da comunicação –mas os meios enquanto totalidade, enquanto conceito forte. Mais do que elemento constituinte, eles são tomados como vetor explicativo, que permite uma análise original da organização social (poder, cultura, império, conhecimento...) e uma perspectiva singular da história. O mediumpassa a ser a chave de leitura, o elemento central a partir da qual é operada a análise teórica dos processos sociais.” MARTINO, Luiz C. Pensamento comunicacional canadense: as contribuições de Innise McLuhan.XXXI Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação –Natal, 2008, pg. 15. Precursores -Harold Innis •Combinação de pesquisas teóricas e históricas com um alcance político pouco comum nas ciências da comunicação. •Sob o enquadramento da economia política, e no âmbito da suastaplestheory(o estudo dos recursos básicos), convenceu-se da importância das tecnologias do transporte e da comunicação para a circulação das mercadorias, para a formação do seu valor e para o poder que facultavam àqueles que controlavam o seu movimento. •Compreendeu como as inovações tecnológicas, em especial nos domínios do transporte e da comunicação, na sua relação com a geografia e osstaples, causam perturbações nos modelos estabelecidos de interação social. •A partir de uma perspectiva filosófica da história da tecnologia, concebe osmediacomo uma força poderosamente constitutiva da cultura e das civilizações. Para Innis, a mudança no modo de comunicação é um elemento-chave do processo histórico, com implicações profundas na organização social, cultural e política das civilizações. Logo, é uma escola que se interessa pelas transformações sofridas pela sociedade em função das tecnologias comunicacionais disponíveis. Mais do que pensar nos efeitos de certos meios, Innis reflete sobre os meios como estruturadores do conjunto da cultura das sociedades. Configuração operada pelos meios: no TEMPO e no ESPAÇO. Revoluções Tecnológicas da Comunicação, para Innis: Eletrônica – Imprensa – Escrita Precursores –Mcluhan •As premissas de Innisde que novos meios fazem emergir novas civilizações, formam a base do pensamento de Mcluhan. •Cria na Universidade de Toronto o Centre for CultureandTechnology, em 1963. •Apesar de grande destaque nos anos 60, fica em segundo plano nos anos 70 e 80. •Volta a ter evidência no meio acadêmico a partir dos anos 90, com a disseminação da internet. McLuhan e seus princípios da comunicação: Os meios de comunicação são extensões do homem; Aldeia global; O meio é a mensagem. Na concepção do determinismo tecnológico, a história da humanidade desenvolveu-se em três fases fundamentais: 1.“Sociedade tribal”, dominada pela oralidade, quando a comunicação envolve todos os sentidos; 2.“Galáxia de Gutenberg”, dominada pela escrita e, sobretudo pela imprensa. A comunicação privilegia o olhar; 3.“Aldeia Global”, dominada pelos mediaeletrônicos. A comunicação volta a envolver todos os sentidos, configurando uma verdadeira “tribo planetária”. Tribalização (oralidade) - Destribalização (escrita) - Retribalização(meios eletrônicos) A Aldeia Global depois de três mil anos de explosão, graças às tecnologias fragmentárias e mecânicas, o mundo ocidental está implodindo. Durante as idades mecânicas, projetamos nossos corpos no espaço. Hoje, depois de mais de um século de tecnologia elétrica, projetamos nosso próprio sistema nervoso central num abraço global, abolindo tempo e espaço (...). Estamos nos aproximando rapidamente da fase final das extensões do homem: a simulação tecnológica da consciência, pela qual o processo criativo do conhecimento se estenderá coletiva e corporativamente a toda a sociedade humana.” “Eletricamente contraído, o globo já não é mais do que uma vila. A velocidade elétrica, aglutinando todas as funções sociais e políticas numa súbita implosão, elevou a consciência humana de responsabilidade a um grau dos mais intensos (...). Esta é a idade da angústia, por força da implosãoelétrica, que obriga ao compromisso e à participação, independentemente de qualquer ponto de vista.” McLuhan, Marshall. Os Meios de Comunicação com Extensões do Homem, p. 19 Assim, em contraponto ao mundo visual do alfabeto ou à oralidade restrita ao compartilhamento do espaço físico, a civilização eletrônica consolidaria uma ALDEIA GLOBAL, onde a comunicação cessaria de ser unidirecional. O MEIO É A MENSAGEM O principal argumento de McLuhan é que as novas tecnologias exercem um efeito gravitacional sobre a cognição, afetando a organização social. As tecnologias mudam nossos hábitos de percepção e afetam as interações sociais. Assim, a importância de um meio está na capacidade de intervir em maior ou menor grau na sociedade. “Toda tecnologia, gradualmente, cria um ambiente humano totalmente novo. Os ambientes não são envoltórios passivos, mas processos ativos.” ELETRICIDADE Exemplo de meio que é “informação pura”, “meio sem mensagem” e, apesar disso, revolucionou toda a nossa existência, levando, nomeadamente, à eliminação das barreiras do tempo e do espaço. •O importante papel desempenhado pela mídia na sociedade deve-se à sua forma, e não ao seu conteúdo; •Toda tecnologia gradualmente cria um ambiente humano novo –“Uma lâmpada elétrica cria um ambiente graças à sua própria presença”; •Cada mídia exige uma maneira específica de ser consumida; •Para o autor, “o novo ambiente reprocessa o velho tão radicalmente quanto a tevê está processando o cinema, pois o ‘conteúdo’ da tevê é o cinema”; •O mais importante para o ser humano então, destaca McLuhan, é o novo ambiente criado, e não suas mensagens necessariamente; •O conteúdo de um meio é sempre outro meio (da imprensa é a palavra escrita, da televisão é o cinema, do cinema é a fotografia, e assim por diante). OS MEIOS DE COMUNICAÇÃO COMO EXTENSÃO DO HOMEM •O homem cria elementos tecnológicos que passam a funcionar como extensões de si mesmo e dos seus sentidos; •A ideia de que os meios de comunicação são os prolongamentos nervosos do corpo e a capacidade de um meio atingir seu público depende do número de canais sensórios em que ele atua; •Os media, longe de serem meros “meios” ou “instrumentos” de que o homem se serve, nomeadamente para “comunicar” uma “mensagem”, são uma espécie de prolongamento do homem sobre o que o rodeia; •Ao prolongar o corpo humano, os sentidos, os membros, o próprio sistema nervoso de uma certa maneira, cada meio acaba por também configurar, de certa maneira, a “realidade” –relação com a afirmação “O Meio é a Mensagem”. Meios quentes Prolongam um único (ou preferencialmente algum) dos sentidos humanos, e em “alta definição”. Alta definição significa um estado de alta saturação de dados. O rádio é quente, a fotografia é quente, o cinema é quente. Meios frios Acionam simultaneamente vários sentidos humanos, em baixa saturação de informação. Permitem maior interação com o meio, ou exigem que o indivíduo complete as lacunas de informação. Se os meios são uma espécie de prolongamento do homem sobre o que o rodeia, eles também são, inevitavelmente, um prolongamento do que rodeia o homem sobre si próprio. Com efeito, contemplar, usar ou perceber qualquer extensão tecnológica de nós próprios é “abraçá-la”, é aceitar estas extensões de nós próprios no nosso sistema pessoal e suportar os efeitos que em nós elas provocam. Os efeitos dos media, para McLuhan, não ocorrem no nível intelectual, das opiniões e dos conceitos, mas no nível mais primário dos sentidos, dos modos de sentir e perceber. Críticas à McLuhan •Aldeia Global pode ser uma forma preconceituosa de interpretar a atualidade, apagando as características locais e as comunidades distantes da tecnologia; •Os meios são inocentes, pois são parte (extensão) do homem; •A frase “o meio é a mensagem” desconsidera a capacidade de interpretação do receptor; •O Determinismo Tecnológico oblitera os demais fatores do processo comunicativo. TEORIAS DA COMUNICAÇÃO Aula 09: A análise de Umberto Eco Apocalípticos e integrados Filósofo, pesquisador e romancista italiano (1932 –2016), professor da Universidade de Bologna.Escreveu romances notórios como O Nome da Rosa e livros como Obraaberta(1962), Apocalípticos e integrados(1964) e A estrutura ausente(1968), dentre diversos outros. Públicos de Cultura X Mercado de Cultura Na virada do século XIX para o século XX, a industrialização e a massificação atingem também o campo da cultura. Se antes havia públicos de cultura, de acordo com suas necessidades e valores, a partir desse momento histórico, a cultura passa a ser regida por leis comerciais. Passam a prevalecer os valores econômicos e não os valores culturais. Temos, a partir desse contexto, uma CULTURA DE MASSA, produzida em série, com objetivo de consumo.A Cultura de Massa seria oposta aos dois tipos anteriormente conhecidos de cultura: •Sentido tradicional, a cultura é um fato aristocrático, a cultivação ociosa, assídua e solitária de uma interioridade que se afina e se opõe à da multidão; só atingida pelas classes que dispunham de ócio para se dedicarem à cultivação. Trata-se de uma cultura produzida por uma minoria de intelectuais das mais diversas especialidades e geralmente saídos dos segmentos superiores da classe alta. ALTA CULTURA/ TRADICIONAL •Conjunto de práticas, crenças e tradições oriundas do povo numa dada sociedade. Constitui-se, desta forma, num sistema de símbolos do modo de pensar da sociedade e de interagir socialmente e com o meio ambiente. Pressupõe o artista como membro ativo da sociedade, sem distinção em relação aos demais. Sua arte está incorporada ao contexto em que vive. BAIXA CULTURA /POPULAR Classificação em três níveis: Alta Cultura -"esfera do legítimo", ocupada pela música, pintura, escultura, literatura e teatro, onde os julgamentos dos consumidores são definidos por autoridades legítimas: museus, universidades, etc.; Média Cultura -"esfera do legitimável", ocupada pelo jazz, cinema e fotografia; Baixa Cultura -"esfera do arbitrário", onde o gosto individual é resultado de um livre arbítrio de escolha autoconsciente relativamente à moda, comida, decoração, etc. Para UMBERTO ECO, a classificação em níveis de CULTURA é problemática: •Os níveis não correspondem a um nivelamento classicista –o nível alto não corresponde necessariamente ao das classes dominantes ( por exemplo, os professores deliciam-se com histórias aos quadradinhos); •Os três níveis não representam três graus de complexidade –certos produtos culturais são consumidos pelo nível alto da cultura sem que isso signifique necessariamente uma classificação do produto como de alto nível; e •Os três níveis não coincidem com três níveis de validade estética. Logo, há uma complexidade de circulação dos valores culturais. A diferença de nível entre os vários produtos não constitui a prioriuma diferença de valor, mas sim uma diferença de relação fruitivana qual cada um de nós se coloca alternadamente. Gonçalves, 1998. Segundo o autor, o surgimento e disseminação da CULTURA DE MASSA possibilitou duas visões centrais: Apocalípticos X Integrados APOCALÍPTICOS Perspectiva pessimista da cultura de massas; Os produtos da cultura de massa dirigem-se a um público heterogêneo, mas utiliza-se das “médias de gostos” evitando as soluções originais; Nivelam os produtos de arte [cultura superior], agora submetidos à “lei da oferta e da procura” capitalista; Destroem as características culturais próprias de cada grupo étnico; Encorajam uma visão passiva e acrítica do mundo; passam informações sem contextualização histórica-social; Buscam o nível superficial da atenção e tem tendência a impor símbolos e mitos de fácil universalidade; favorecem o status quo. •A cultura de massas seria a anticultura, signo de decadência; •A ideia de uma cultura produzida e compartilhada por todos já é em si um contrassenso; •Uns poucos têm a capacidade de fugir disso: os super-homens. INTEGRADOS Perspectiva otimista da cultura de massas: representademocratização cultural; Não tomou o lugar da cultura superior, simplesmente se difundiu junto a massas que antes não tinham acesso aos bens culturais; A grande quantidade de informação pode levar a uma mudança qualitativa; A homogeneização do gosto contribuiria para eliminar as diferenças sociais e nacionais; As informações fornecidas tornam o ser humano contemporâneo mais sensível e ativo na sociedade; Por constituir um conjunto de novas linguagens, introduz também inovações estilísticas, influenciando a cultura superior. A difusão de produtos de entretenimentos considerados negativos não é sinal de decadência dos costumes, pois sempre a humanidade sentiu-se atraída pelo circo; A produção industrial e as múltiplas formas de difusão possibilitam várias formas de expressão a setores antes marginalizados; O desenvolvimento tecnológico é uma grande oportunidade de expansão cultural, pois coloca os bens culturais à disposição de todos. Crítica dos Apocalípticos Os media encorajam a uma visãoacrítica e passiva do mundo porque ao nível de conteúdo, dão grande informação sobre o presente, "entorpecendo" qualquer consciência histórica. Os mediatendem a provocar emoções em vez de a representarem; em vez de sugerirem uma emoção, entregam-na já confeccionada. Defesa dos Integrados A grande acumulação de informação não resulta em apatia, mas sim emformação, porque a variedade de informação sensibiliza o homem perante o mundo. Crítica dos Apocalípticos Os media estão inseridos num circuitocomercial sendo submetidos à lei da oferta e da procura, rebaixando a cultura superior ao mesmo nível dos outros bens de consumo. E quando difundem a cultura superior difundem-na "condensada" na forma mais econômica e mais facilmente assimilável, conforme Hannah Arendt: “Acultura de massas faz dos clássicos não obras a compreender, mas produtos a consumir”. Defesa dos Integrados A cultura de massas não veio tomar o lugar de uma cultura superior. Apenas se difundiu junto das grandes massas populacionais que antes não tinham acesso aos bens de cultura. A indústria cultural permitiu a democratizaçãoda cultura. INTEGRADOS Escola Canadense Nos anos 50 e 60, especialmente, McLuhane Innisidentificavam na própria forma do meio de comunicação o poder de influenciar a sociedade. Argumentavam estes teóricos que o desenvolvimento da mídia eletrônica criava um novo ambiente cultural interacional e unificador, interligado em redes globais de comunicação instantâne,adenominado por McLuhancomo “aldeia global”. APOCALÍPTICOS Escola de Frankfurt Via na comunicação de massa a capacidade de fornecer aos indivíduos meios imaginários de escape da dura realidade social, debilitando-os, portanto, de sua capacidade de pensar de forma crítica e autônoma. De inspiração marxista, essa corrente de análise entendia a comunicação de massa como um meio de ideologia, um mecanismo de difusão de ideias que promovia interesses das classes dominantes. PARA REFLEXÃO E DEBATE: •Como pensar a atualidade desses conceitos na contemporaneidade? •As novas tecnologias da informação não estariam alterando a lógica de uma reprodução homogênea de conteúdo no sentido um-todos? •Há, hoje, outras possibilidades para novas formas de expressão, diversidade de interesses, valores, imaginações e mesmo expressão de conflitos sociais? •A análise dos novos fenômenos comunicativos ainda reflete os dois polos dicotômicos entre apocalípticos e integrados? TEORIAS DA COMUNICAÇÃO Aula 12: Os estudos culturais: História e teoria Estudos culturais –História Os Estudos Culturais surgem, de forma organizada, pela fundação do Centre for ContemporaryCultural Studiesfundado em 1964 por RochardHoggartna Universidade de Birmingham.“As relações entre a cultura contemporânea e a sociedade, isto é, suas formas culturais, instituições e práticas culturais, assim como suas relações com a sociedade e as mudanças sociais vão compor o eixo principal de observação do CCCS” Três textos principais são fonte dos Estudos Culturais: 1º Texto •The Uses os Literacy–Richard Hoggart; •Olhar sobre os materiais culturais da cultura popular, até então desprezados; •Para além da submissão, no âmbito popular existe resistência. 2º Texto •Culture and Society–Raymond Willians; •Cultura é categoria chave para ligar Análise Literária e Investigação Social; •Impacto Cultural dos Meios Massivos. 3º Texto •The Making of the English Working-Class–E. P. Thompson. •Tradição Marxista. •Cultura como enfrentamento de modos de vida diferentes. Aos três textos “fundadores”, soma-se a atuação de Stuart Hall. •Substituiu Hoggartna direção do CCCS de 1968 a 1979; •Estimulou as investigações sobre as práticas de resistência das subculturas e sobre os meios massivos, reforçando seu papel central na direção da sociedade; •Foi catalisador de inúmeros projetos coletivos e incentivador de debates teórico-políticos. Estudos culturais -Princípios fundadores “O que os une é uma abordagem que insiste em afirmar que através da análise da cultura de uma sociedade –as formas textuais e as práticas documentadas de uma cultura –é possível reconstituir o comportamento padronizado e as constelações de ideias compartilhadas pelos homens e mulheres que produzem e consomem os textos e as práticas culturais daquela sociedade. É uma perspectiva que enfatiza a ‘atividade humana’, a produção ativa da cultura, ao invés do seu consumo passivo”. (Storeyapud Escosteguy, 2010, p. 155) Concepção particular de cultura: Cultura não é uma entidade homogênea. Ao contrário, manifesta-se de formas diferentes em cada momento histórico; Cultura não é uma experiência passiva, mas intervenções ativas, através de discurso e representação, que podem alterar o curso da história; A criação cultural se situa no espaço social e econômico: as práticas culturais são simbólicas e materiais, mas a cultura não pode ser totalmente explicada pela esfera econômica; “Autonomia Relativa” da Cultura: ela não é reflexo das condições econômicas, mas tem influência e sofre consequências das relações político-econômicas; Conceito expandido de cultura que inclui, além dos artefatos, textos e representações, as práticas vividas: dá relevo ao sentido da ação, da agênciana cultura. “No momento em que os Estudos Culturais prestam atenção às formas de cultura não-tradicionais, se descentra a legitimidade cultural. Em consequência, a cultura popular alcança legitimidade, transformando-se num lugar de atividade crítica e intervenção.[...] Logo, os Estudos Culturais construíram uma tendência importante da crítica cultural que questiona o estabelecimento de hierarquias entre formas e práticas culturais, estabelecidas a partir de oposições como cultura alta/baixa, superior/inferior, entre outras binariedades”. (Escosteguy, 2010, p. 157) Pilares dos Estudos Culturais Identificação das culturas vividas como projeto distinto de estudo; Reconhecimento da autonomia e complexidade das formas simbólicas; As classes populares possuem suas próprias formas culturais;Recusa das denúncias de barbarismo das camadas sociais mais baixas; O estudo da Cultura não pode ser confinado a uma disciplina única. Estudos Culturais –um projeto teórico e político Teórico •Construir um novo campo de estudos; •Insatisfação com algumas disciplinas leva a proposta da inter/transdisciplinaridade. Político •Construção de um projeto político: as análises devem funcionar como intervenção; •Identificados com a política cultural de vários movimentos sociais da época. Estudos Culturais –viés político •Na crítica que fazem das relações de poder numa situação cultural ou social determinada, os Estudos Culturais tomam claramente o partido dos grupos em desvantagem nessas relações; •Conceitos de Ideologiae Poder–inspiração em Althusser; •“Discordando do entendimento dos meios de comunicação de massa (MCM) como simples instrumentos de manipulação e controle da classe dirigente, os estudos culturais compreendem os produtos culturaiscomo agentes da reprodução social, acentuando sua natureza complexa, dinâmica e ativa na construção da hegemonia”. (Escosteguy, 1998, p. 91) •Noção de hegemoniaproposta por Gramsci: nunca é possível um domínio total de uma classe sobre outra (excluindo as ditaduras). Assim, cabe pensar opções contra-hegemônicasa partir dessa visão, associando-as à cultura. •Ateoria da hegemoniade Gramsci é fundamental para os Estudos Culturais, pois mostra como a mudança pode ser construída dentro do sistema. Propõe ele, grosso modo, o intercâmbio entre as diferentes culturas, uma troca entre as culturas dominantes (hegemônicas) e as culturas populares. Na prática o que acontece é um sutil jogo de intercâmbios entre elas. Elas não são vistas como exteriores entre si mas comportando cruzamentos, transações, intersecções. Em determinados momentos, a cultura popular resiste e impugna a cultura hegemônica, em outros, reproduz a concepção de mundo e de vida das classes hegemônicas. Os Estudos Culturais não configuram uma disciplina específica, mas uma área onde diversas disciplinas são atravessadas e diversas temáticas foram incorporadas em distintos momentos históricos: Década de 70 - Década de 80 - Década de 90 Estudos culturais -Década de 70 •Emergência de subculturas que resistiam à estrutura dominante de poder; •Cresce a visão dos meios de comunicação como aparelhos ideológicos do Estado; •Identidades coletivas e as dimensões de subordinação e resistência das classes populares; •Efeitos dos meios de comunicação estudados pela análise das mensagens; •Trabalho sobre as diferenças de gênero e sua relação com a categoria de poder: o FEMINISMO entra em cena no CCCS; •Como a categoria gênero estrutura e é ela própria estruturada nas formações sociais; •Amplia a noção de identidade para além da ideia de classe. Estudos culturais -Década de 80 •Expansão do projeto dos Estudos Culturais para além da Grã-Bretanha; •Foco sobre a desestabilização das identidades sociais frente ao processo de Globalização; •Ênfase na dimensão subjetiva e à pluralidade dos modos de vida dos “novos tempos”; •Atenção crescente à recepção das mensagens; •Pesquisas que combinam análise de textos com pesquisas de audiência –destaque para David Morley; •Maior visibilidade ao público –sujeitos geradores de sentido; •Euforia com a vitalidade da audiência, sua capacidade de negociar ativamente com os conteúdos e os meios; •Para alguns, cultura popular estava fora do campo hegemônico. Estudos culturais -Década de 90 •Amplia-se o leque de estudos sobre as audiências visando capturar a experiência e a capacidade de ação dos grupos; •Ênfase nos contextos domésticos de recepção das mensagens; •Questões como raça e etnia somam-se à temática do gênero; •Incorporação das Novas Tecnologias nos estudos; •Etnografia e Observação Participante como métodos; •Reflexão sobre o papel dos meios de comunicação na formação das identidades; •Ganha espaço em institutos de estudos em outros continentes; •As múltiplas identidades do indivíduo na contemporaneidade globalizada fomentam diversas pesquisas; •Relação entre identidades e pós-modernidade e o papel dos Estados-Nação.