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Artigo Cegueira Deliberada

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Spurr	vs.	United	States,	ou
seja,	com	uma	explícita	restrição	à	noção	de	que	o	agente	entende	que	“é	melhor	não	saber”.	Parece	ignorar-se,	no
entanto,	 o	 evoluir	 restritivo	 da	 cegueira	 delibera	 no	 que	 tange	 ao	 aspecto	 das	 considerações	 sobre	 a	 “alta
probabilidade”	(trazidas	pelo	Model	Penal	Code)	que	esse	estado	de	ignorância	pode	gerar.
Assim,	existe	uma	parcial	 falácia	da	 inicial	afirmação	posta,	quando	se	verifica	que	a	 jurisprudência	espanhola
não	utiliza	a	cegueira	deliberada	indistintamente	a	todas	as	situações	e	que,	muito	menos,	idealmente	explica	o
que	se	pretende	com	seu	emprego.	Afinal,	seria	de	se	perguntar	sobre	o	que	se	está	a	falar	quando	se	pontua	por
cegueira	deliberada.	Note-se,	pois,	que	as	considerações	referenciais	hispânicas	devem	ser	vistas	sob	esse	cuidado.
A	 transcrição	 efetuada	 anteriormente	 pela	 sentença	 da	 AP	 502612-82.2014.404.7000	 é	 correta	 em	 sua	 essência,
mas	 deve	 ser	 repensada	 por	 não	 se	 atentar,	 justamente,	 nessa	 consideração	 sobre	 a	 “alta	 probabilidade”,	 ou,
ainda,	por	algumas	particularidades	daquela	realidade	jurídica. 33
Impera,	no	entanto,	outra	dúvida.	Poderia	ser	admitida	essa	 forma	de	abandono	de	uma	consideração	do	dolo,
como	um	querer	volitivo,	na	dimensão	brasileira?	Recorde-se,	uma	vez	mais,	que,	diferentemente	da	Espanha	(ou
que	muitos	dos	países	europeus	afiliados	à	civil	law), 34	o	Brasil	formalizou	o	seu	entendimento	sobre	dolo	no	art.
18,	 I,	 do	 Código	 Penal.	 Lá,	 como	 repetidamente	 se	 menciona,	 tem-se,	 expressamente,	 que	 se	 considera	 crime
doloso	quando	a	agente	quis	o	resultado	(vontade)	–	dolo	direto	–	ou	assumiu	o	risco	de	produzi-lo	–	dolo	eventual.
Essa	sorte	de	considerações	passa	absolutamente	ao	largo	da	preocupação	de	aceitação	da	cegueira	deliberada	na
Espanha,	como	exemplo	e	aval	para	sua	aplicabilidade	em	sede	nacional.	Como	por	lá	não	existe	uma	definição
mais	estreita	sobre	o	que	vem	a	ser	do	dolo,	não	houve	qualquer	dificuldade	por	parte	da	jurisprudência	daquele
país	em	expandir	suas	fronteiras.	O	mesmo,	contudo,	não	pode	ser	admitido	em	sede	de	um	Direito	Penal,	como	o
brasileiro,	no	qual	a	configuração	do	dolo	é	limitada	a	uma	vontade	(querer	o	resultado),	ou,	ainda	a	assumir	o
risco	da	produção	do	resultado.	Embora	possa	ser	verdade	que	esse	“assumir	o	risco	da	produção	do	resultado”
comporte	até	mesmo	leituras	normativistas,	isso	deve	restar	devidamente	explicitado,	sob	pena	de	se	macular	a
construção	jurídica	pretendida.
Importante	 ressaltar,	 derradeiramente,	 que	a	 jurisprudência	 espanhola	não	pode	 ser	 tida	 como	genericamente
aplicável	a	qualquer	caso,	porque,	além	dos	problemas	de	adequação	do	conceito	de	dolo	naquele	país	e	no	Brasil,
tem-se	 que,	 mesmo	 na	 Espanha,	 não	 se	 verificam	 aplicações	 em	 casos	 tidos	 como	 mais	 difíceis, 35	 pois	 isso
implicaria	em	uma	consideração	quase	em	termos	de	uma	responsabilidade	objetiva. 36	Para	tanto,	deve-se	ter	em
conta	 as	 advertências	 de	Blanco	Cordero,	 ao	 atestar	 que	devem	 ser	 vistas	 situações	pontuais,	 nas	quais,	 quiçá,
pudesse	se	imaginar	uma	situação	de	lavagem	por	imprudência	–	presente	na	legislação	espanhola,	mas	excluída
da	 legislação	brasileira. 37	 Sem	 se	 ater	 a	 essas	 particularidades,	 poder-se-ia	 imaginar	 uma	 simples	 equiparação
das	duas	legislações.	No	entanto,	ao	se	ater	as	diferenças	anotadas,	não.
4.	As	aparentes	falhas	metodológicas	de	emprego	do	instituto	da	cegueira	deliberada	na
jurisprudência	nacional
Face	todo	o	exposto,	poder-se-ia	sustentar,	agora,	sobre	a	validade	dogmática,	ou	não,	da	opção	jurisprudência	em
relação	 à	utilização	do	 instituto	da	willful	blindness	em	 sede	nacional.	 A	 resposta,	 contudo,	 e	 inexoravelmente,
parece	ser	em	sentido	negativo.
Observe-se,	pois,	que	existem,	sim,	situações	em	que	pode	haver	uma	eventual	justaposição	entre	os	institutos	do
dolo	eventual	e	da	cegueira	deliberada.	É,	aliás,	o	que	se	verifica	no	mencionado	caso	levado	à	cabo	em	algumas
outras	 decisões	 jurisprudenciais,	 onde	 se	 cuida	 de	 casos	 equiparáveis	 à	 posse	 da	 maleta	 com	 dinheiro,	 tão
mencionada	 pela	 jurisprudência	 e	 doutrina	 estadunidenses.	 Os	 casso	 derivados	 da	 Operação	 Lava	 lato,	 no
entanto,	vão	além,	e	mencionam	a	possibilidade	de	aplicação	ao	contorno	do	crime	de	 lavagem	de	dinheiro,	 e,
nesse	momento,	parecem	incorrer	em	equívoco.
Isso	 fica	 claro	 porque	 simplesmente	 não	 se	 menciona	 a	 ideia	 necessária	 da	 aludida	 alta	 probabilidade,	 como
requerido	 no	 sistema	 de	 common	 law.	 Essa	 situação	 não	 é,	 contudo,	 desconhecida	 pelo	 Juízo	 oficiante	 nos
processos	de	primeiro	grau	derivados	da	Operação	Lava	Jato,	senão	por	ele	ressaltada,	quando	este	destaca	que	as
cortes	norte-americanas	a	aceitam	quando	o	agente	tinha	conhecimento	da	elevada	probabilidade	de	que	os	bens
direitos	 ou	 valores	 envolvidos	 eram	 provenientes	 de	 crime;	 e	 que	 o	 agente	 agiu	 de	 modo	 indiferente	 a	 esse
conhecimento. 38
Nesse	diapasão,	a	própria	doutrina	exposta	por	Moro	parece	entender	que	 “tais	 construções,	em	uma	ou	outra
forma,	assemelham-se	ao	dolo	eventual	da	 legislação	brasileira.	Por	 isso	e	considerando	a	previsão	genérica	do
art.	 18,	I,	do	 CP,	e	a	falta	de	disposição	legal	específica	na	lei	de	lavagem	contra	a	admissão	do	dolo	eventual,
podem	elas	 ser	 trazidas	para	a	nossa	prática	 jurídica”. 39	 Se	 assim	o	 é,	no	entanto,	 em	que	pese	a	discordância
colocada	 com	 o	 entendimento	 preliminar	 acerca	 do	 art.	 18,	 I,	 do	 Código	 Penal,	 dever-se-ia	 sustentar	 pela
obrigatoriedade	da	percepção	do	 conhecimento	 e	 da	 alta	 probabilidade,	 algo,	 aqui,	 não	necessariamente	 claro.
Caso	 assim	não	 se	 entenda,	 estar-se-ia	 a	 caminhar	 para	 além	dos	 limites	 do	 dolo	 eventual,	 o	 que	 não	 se	 pode
imaginar. 40	Essas	colocações	não	presentes	em	eventuais	decisões	anteriores	se	mostram	fundamentais,	se	é	que
se	pretende	o	firmamento	de	uma	nova	e	bem	posta	construção	dogmática	e	segura	linha	de	precedentes	judiciais.
Ainda	assim,	é	de	se	ver	que	muitos	Tribunais	norte-americanos	atualmente	questionam	a	própria	aplicabilidade
da	 cegueira	 deliberada.	 Indagam-se,	 verdadeiramente,	 se	 ela	 não	 implicaria	 em	 uma	 violação	 de	 exercício	 de
defesa	ou	do	due	process,	 sendo	de	se	ver	que	algumas	cortes	de	 justiça	chegaram	a	 limitar	seu	uso	para	evitar
abusos	 de	 interpretação. 41	 Sob	 tais	 abusos,	 seria	 de	 se	 ponderar,	 como	 já	 fez	 Hamdami,	 se	 isso	 não	 seria,
simplesmente,	uma	forma	da	justiça	penal	em	aceitar	uma	responsabilidade	penal	objetiva. 42	Opiniões	como	de
Charlow 43	ou	Husak 44	devem	ser,	também,	tomadas	em	conta	para	a	percepção	de	que	as	considerações	sobre	a
cegueira	deliberada	não	são	 tão	unânimes	e,	 tampouco,	podem	ser	utilizadas	 indistintamente,	nem	nos	Estados
Unidos	da	América,	nem,	muito	menos,	no	Brasil.
Nesse	 sentido,	 parece	 ficar	 clara	 a	 existência	 de	 uma	 contradição	 na	 aplicação	 indiscriminada	 da	 cegueira
deliberada	em	sede	brasileira.	As	moções	de	“saber”	(vontade)	e	de	“dever	saber”	(risco),	nem	sempre	se	amoldam
ao	 que	 seria	 “fechar	 os	 olhos”,	 muito	 menos	 a	 uma	 alta	 probabilidade.	 Existem	 situações	 em	 que	 uma	 alta
probabilidade	pode	até	implicar	em	dever	saber,	mas	nem	sempre.	Quando	isso	se	der,	dispensável	o	socorro	ao
instituto.	Quando	não	se	der,	impensável	seu	uso. 45
Diga-se,	 pois,	 que	 não	 existe,	 verdadeiramente,	 a	 possibilidade	 de	 simples	 acoplamento	 de	 uma	 noção	 de	 alta
probabilidade	com	a	ideia	de	risco,	e	mais.	Os	limites	da	cegueira	implicariam	uma	leitura	de	algo	diverso	do	dolo,
como	já	pontuou	Ragués	I	Vallès.	Se	isso	é	verdade,	estar-se-ia,	aqui,	a	pretender	uma	imputação	para	além	do	que
permite	o	Código	Penal	brasileiro,	o	que	seria,	em	si,	ilegal	e	ilegítimo. 46
Além	 disso,	 a	 própria	 consideração	 da	 assunção	 da	 ideia	 de	 risco	 para	 a	 configuração	 do	 dolo	 eventual	 na
lavagem