Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.

Prévia do material em texto

Isabella de Oliveira 
COMENTÁRIO CRÍTICO DO CAPÍTULO 12 DO LIVRO “CULTURA, SAÚDE E DOENÇA” DE CECIL G. HELMAN: “OS FATORES CULTURAIS EM EPIDEMIOLOGIA”
	A epidemiologia preocupa-se com o estudo da distribuição e das causalidades das doenças nas sociedades. Foca-se em doentes e saudáveis, em seus hábitos diários e em fatores que possivelmente tem relação com enfermidades. Para uma análise completa do histórico do doente deve-se investigar as possíveis causas que resultaram na doença, como o hábito de fumar, comumente associado ao câncer de pulmão. 
	Um caso clínico raramente surge sem precedentes, principalmente nos dias de hoje com a realidade estressante do cotidiano e com as cobranças da sociedade, surgiram doenças da modernidade que apresentam causas comuns, são elas depressão, distúrbios alimentares – a saber, anorexia e bulimia -, transtornos e déficits de atenção e hiperatividade (TDAH), transtorno obsessivo compulsivo (TOC), entre outras. 
	A credibilidade das pesquisas baseia-se nos métodos usados para chegar as conclusões, como uma relação entre um hábito e uma doença. Um dos métodos usados é o “caso-controle” que utiliza dois grupos de pessoas, geralmente uma população vitimada com alguma doença e outra população saudável. 
Uma relação causa-consequência muitas vezes é encontrada quando observa-se uma correlação estatística entre alguns fatores e a ocorrência da doença. Outro método é o “estudo de corte”, na qual observa-se uma população saudável durante um determinado período de tempo à espera da ocorrência de uma doença. Todos os métodos e etapas da comprovação científica possuem uma algo em comum quando trata-se de semiologia, a incerteza. Já que a investigação trabalha com suposições, ainda que levem a resultados muito específicos, os resultados possuem imprecisão pois são previsões. 
	O surgimento de uma doença está relacionado à diversos fatores: genéticos, físicos, sociais e culturais, psicológicos e a interação entre os mesmos. É importante entender que não existe uma sequência linear de acontecimentos pois eles se relacionam e alternam-se com rapidez. A antropologia busca montar um quadro de “causas”, tratando a enfermidade como a “consequência”. As principais causas de doenças estão relacionadas com faixa etária, gênero, classe social, escolaridade, disponibilidade de um sistema de saúde e saneamento básico de qualidade, posição econômica, crenças e práticas culturais. 
	É necessário entender que dificilmente existem causas e consequências isoladas, uma vez que uma causa pode se tornar consequência e uma consequência pode se tornar a causa de um outro evento. Um exemplo dessa fusão de conceitos seria um quadro clínico de uma criança que vive em condições miseráveis, por exemplo. Pelo fato de ingerir uma água não potável – a “causa”, a criança contamina-se com um protozoário – a “consequência”. Devido a ingestão de um parasita, a criança passa a não alimentar-se corretamente - uma “sub-consequência” que também enquadra-se em “causa” , gerando um quadro de desnutrição – uma “consequência”. 
	Após a observação e estudos diante do fato de que nossas atitudes tem reflexos em nossa saúde, alguns “fatores de risco” passaram a chamar atenção: tabagismo, ingestão de bebidas alcoólicas e narcóticos, mutilação, alimentação inadequada, hobbies perigosos e um estilo de vida estressante são alguns exemplos. Uma pessoa que possui um comportamento de risco não necessariamente sofrerá com enfermidades relacionadas aos seus hábitos, porém as estatísticas são impressionantemente mais altas. Da mesma forma, uma pessoa que alimenta-se nutritivamente e possui uma dieta saudável pode sofrer de uma avitaminose, alguém que não ingere bebidas alcóolicas pode sofrer com doenças hepáticas. 
Portanto o estilo de vida influencia no surgimento de quadros clínicos porém não em todos os casos. É extremamente difícil mensurar essa influência de fatores culturais devido as diferentes denominações das doenças ao redor do mundo, a complexidade do ser humano, suas relações com o meio externo e as diferentes respostas dos organismos das pessoas. 
Foi constatada uma grande incidência de “bronquite crônica” no Reino Unido e de “enfisema” nos Estados Unidos, porém os dois quadros possuem um mesmo conjunto de sintomas. As diferentes nomenclaturas e a habilidade de diagnosticar as doenças em locais distintos influenciam na análise dos fatores culturais em epidemiologia. 
Um sintoma pode ser compreendido como algo preocupante para um grupo social como pode parecer normal para outro, a mesma situação acontece entre os profissionais da saúde que interpretam diferentemente as patologias. A incidência de uma doença depende da sua incidência real e de seu reconhecimento como anormal pela população e pelo pesquisador.
Os fatores culturais têm influência inegável na epidemiologia, porém não é possível medir essa influência com precisão. A situação econômica, a estrutura familiar, os papéis de gênero, os padrões matrimoniais, o comportamento sexual, os padrões contraceptivos, a política demográfica, as práticas relacionadas à gravidez e ao nascimento, os hábitos na educação infantil, as alterações na imagem do corpo, a alimentação e o vestuário, a higiene pessoal, as condições de moradia e saneamento, as profissões, a religião, os costumes funerários, o estresses culturogênico, a situação do imigrante, o uso de confortos químicos, as atividades de lazer, os animais domésticos e pássaros e as estratégias de automedicação e terapias leigas são alguns dos fatores culturais abordados por Helman. 
A situação econômica é um fator cultural intrinsicamente ligado à moradia – incluindo uma construção, localização e divisão interna do espaço habitacional -, questões profissionais e adequação em padrões como vestuário, cultura e tecnologia. Algumas patologias estão ligadas à habitação assim como as catástrofes que destroem conjuntos habitacionais e causam mortes. Na mesma questão de moradia pode-se incluir a privacidade e a falta da mesma e a exposição a doenças infecciosas quando divide-se um cômodo para várias pessoas, por exemplo. 
Quanto à profissão, vários debates bioéticos procuram investigar as enfermidades ligadas à vida do trabalhador, como a pneumoconiose em mineiros de carvão, câncer de bexiga em tintureiros ou a silicose em polidores de metal. Essas doenças estão em uma outra classificação quanto à análise antropológica dos fatores culturais na epidemiologia já que é comprovada a relação causa-consequência, uma vez que os trabalhadores estão expostos diariamente à metais pesados e outras substâncias tóxicas.
o, ﷽﷽﷽﷽﷽﷽﷽ao lucas estfunl para bordados por Helman. 
ade masculinas sue homens n que a obriga a cumprir determinadas funl para Outro fator importante é a estrutura familiar, visto que famílias disfuncionais podem não garantir uma educação de qualidade, prover alimentação e cuidados para crianças e idosos e atenção e assistência à doentes ou doentes terminais. Os padrões matrimoniais também inferem na saúde do indivíduo como por exemplo nos casos de casamentos cossanguíneos, a endogamia, que podem gerar descendentes com doenças genéticas, tais como hemofilia, talassemia e doença de Tay-Sachs.
Os papéis de gênero envolvem os papéis sociais do homem e da mulher, criações sociais que acompanham o gênero masculino e feminino, respectivamente. A mulher possui um papel na sociedade que a pressiona e obriga a cumprir determinadas funções como tarefas domésticas, cuidar da cozinha e dos filhos do casal. Já do homem é esperado papel de provedor do sustento da família. 
Quando esses papéis invertem-se ou não são bem desempenhados acontece uma marginalização do indivíduo, ele fica à margem de um sistema que funciona com boa parte da sociedade mas que não encaixa-se para si. Os papéis de gênero influenciam inclusive na saúde da população, já que criam-se estigmas acerca do homem e da mulher, como por exemplo que homens não precisam atender à consultas médicas de rotina como as mulheres. As taxas de mortalidademasculinas são muito superiores às femininas por uma série de fatores incluindo a falta de cuidado com a saúde e a baixa frequência de consultas médicas rotineiras. 
O comportamento sexual influenciam certamente quando trata-se de doenças sexualmente transmissíveis, como gonorreia, sífilis, hepatite, AIDS e HPV. A tolerância ou proibição do comportamento homossexual tanto feminino como masculino podem gerar distúrbios emocionais, assim como os tabus que a sociedade carrega sobre relações sexuais na adolescência e durante a gravidez, a menstruação desde a menarca até a menopausa e a lactação. 
Acerca de comportamento sexual estão também os padrões contraceptivos que por exemplo podem impedir o surgimento de uma família ainda desestruturada como em casais jovens e adolescentes ou numerosas famílias com descendentes que vivem em situações precárias. Tais medidas contraceptivas também encaixam-se em outro fator cultural importante, a política demográfica. 
O uso de confortos químicos como cigarro, álcool, chás, cafeína e drogas em geral têm incontestável relação com a saúde do homem. As pesquisas mais divulgadas da influência de fatores culturais em casos clínicos são as que envolvem substâncias nocivas ao corpo humano como as supracitadas. Tornou-se conhecimento popular que cigarro e álcool “fazem mal” pois é sabido que desgastam o indivíduo quanto a saúde dos pulmões e fígado, respectivamente. 
Em outra esfera social estão também as questões do imigrante e das culturas. O estresse culturogênico pode originar-se em diferenças de valores, metas, hierarquias, tabus e expectativas e pode isolar o imigrante ou emigrante da sociedade, impedindo uma adaptação. Uma vez estagnada ou retrocedida essa adaptação, casos de racismo e preconceito, por exemplo, podem acontecer, prejudicando psicologicamente o indivíduo, já que os distúrbios da mente são tão prejudiciais quanto os do corpo.
Porém, da mesma forma que a cultura e um contexto social pode “disseminar’’ uma doença, ela pode impedir que a mesma se dissemine. Um exemplo disso é a relação entre a anemia falciforme e a malária descoberta por um grupo de pesquisadores europeus. A anemia falciforme é uma doença genética recessiva, que transforma o formato das hemácias do enfermo, mudando seu formato bicôncavo para em forma de foice, dificultando o transporte de gases. A malária é uma doença infecciosa causada por protozoários parasitas transmitida pela picada de um mosquito, a doença é responsável pela morte de cerca de 1 milhão de mortes anuais segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS). A malária ou paludismo mata cerca de uma criança a cada trinta segundos na África. 
Descobriu-se que aqueles portadores da anemia falciforme possuiam tolerância à malária, provavelmente porque a anemia falciforme humana ativa uma via de sinalização celular que impede o acúmulo de heme livre, dificultando, assim, a infecção pelo parasita. Dessa maneira, muitas famílias africanas procuraram estratégias para a concepção de descendentes portadores da doença de genes recessivos ainda que, muitas vezes, as submetam a casamentos entre parentes ou famílias de tribos distintas.
Após apresentar diversos fatores culturais e como podem interferir na saúde do homem, Cecil G. Helman apresenta a nova proposta das pesquisas em epidemiologia e antropologia: como a cultura e a sociedade prejudicam não só o indivíduo mas também a saúde da espécie humana como um todo. Essa nova abordagem tem forte ligação com a ecologia, o desenvolvimento sustentável, a saúde do homem e do planeta e a busca por um novo modo de vida da população mundial.

Mais conteúdos dessa disciplina