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pressupostos processuais e condições da ação

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Dos pressupostos processuais e das condições da ação no processo civil
1.ASPECTOS GERAIS
1.1. Considerações inicias
Desde os primórdios da civilização, o homem vive para satisfazer seus anseios. A partir do instante em que despertam, os indivíduos começam a manifestar desejos, exigências, necessidades, aos quais se dá o nome de interesses. [1] Na concepção de Moacyr Amaral Santos, interesse "é a relação entre uma pessoa e um bem". [2]
O ser humano encontra nos bens da vida a solução para atender alguma necessidade. Bens da vida "são todas as coisas, situações ou mesmo pessoas que de algum modo possam ser objeto de aspirações e de direitos". [3]
Quando o homem começou a conviver com outras pessoas, ou seja, a fazer parte de um grupo social, sua liberdade de ação foi limitada, pois os demais membros do grupo também eram dotados de interesses. No entanto, os bens existentes numa sociedade são insuficientes para atender a toda demanda de desejos dos indivíduos. Em razão desse contraste entre a infinidade de interesses e a escassez de bens, é comum que uma pessoa se oponha à pretensão [4] almejada por outra. Tal situação desencadeia um fenômeno social chamado lide, a qual, segundo Carnelutti, conceitua-se como "o conflito de interesses qualificado por uma pretensão resistida". [5]
A lide abala as estruturas da sociedade, instalando uma verdadeira crise. Diante dessa situação, é necessário o emprego de meios que solucionem esse conflito para que a desordem e o caos não comprometam a existência do próprio grupo social.
A eliminação dos conflitos ocorrentes na vida em sociedade, pode se dar pela atuação de um (autodefesa ou autotutela) ou de ambos os sujeitos dos interesses em conflito (autocomposição), ou por ato de terceiro (a mediação e o processo). [6]
Em épocas mais remotas predominava a autotutela, regime pelo qual um dos litigantes fazia valer sua pretensão através do emprego da força física. É fácil constatar a precariedade da autodefesa, pois ela não garantia uma decisão justa, senão "a vitória do mais forte, mais astuto ou mais ousado sobre o mais fraco ou mais tímido". [7] Hodiernamente, não se admite faça justiça por meios próprios, pois essa conduta é tipificada como crime de exercício arbitrário das próprias razões (CP, art. 345). A autotutela ou autodefesa só é admitida excepcionalmente pelo ordenamento jurídico, como, por exemplo, no caso de esbulho da posse (CC, art. 502). [8]
Sobre a autodefesa, o professor Carreira Alvim observa que esta forma de resolução dos conflitos é apontada como a mais primitiva, quando ainda não existia, acima dos indivíduos, uma autoridade capaz de decidir e impor a sua decisão aos contendores, pelo que o único meio de defesa do indivíduo (ou do grupo) era o emprego da força material ou força bruta contra o adversário, para vencer a sua resistência. [9]
Outra forma de solução de litígios também utilizada nos sistemas rudimentares e que perdura até hoje, consiste na autocomposição. Nesta, os indivíduos em conflito abrem mão de seus interesses ou de parte dele. Três são as formas de autocomposição: "a) desistência (renúncia à pretensão); b) submissão (renúncia à resistência oferecida à pretensão); c) transação (concessões recíprocas)". [10]
Num outro estágio da civilização, os indivíduos, percebendo que nem sempre se obtinha o concurso de vontades necessário à autocomposição, passaram a preferir que o litígio fosse solucionado por um terceiro desinteressado e imparcial, o árbitro. [11] Num primeiro momento, a arbitragem era facultativa, incumbindo aos contendores a eleição do árbitro. Tal função poderia recair sobre um sacerdote, cujas soluções representavam a vontade divina, ou sobre os anciãos, pessoas tidas como sábias pois conheciam os costumes do grupo social integrado pelos litigantes. Posteriormente, com o advento da arbitragem obrigatória, o Estado passou a ter uma pequena participação na solução dos conflitos, pois antes da atuação do árbitro, o litígio era submetido à apreciação do pretor, o qual indicava qual o preceito que prevaleceria no caso concreto. [12]
Vedada a autotutela e como nem sempre os litigantes eram tão altruístas a ponto de chegarem a um acordo (autocomposição), cedendo parte de suas pretensões, o Estado, percebendo que seria verdadeira temeridade deixar ao arbítrio dos particulares a solução das contendas, avocou para si o "monopólio da administração da justiça." [13] Daí surge a noção de Jurisdição.
Assim, em dado momento histórico, o Estado, atribuindo como sua a tarefa exclusiva de compor os litígios através do exercício da jurisdição, passou a intervir como terceiro imparcial, fazendo valer a ordem jurídica e, dessa forma, restabelecer a paz social com a composição da lide.
1.2. Elementos fundamentais do Direito Processual
1.2.1. A tríade processual
Para que se possa ter uma exata compreensão do direito processual, é preciso se dedicar ao estudo de três institutos basilares: Jurisdição, Ação e Processo. São, na expressão de Ramiro Podetti, a "trilogia estrutural do direito processual". [14]
A Jurisdição, expressão da potestade do Estado, fica impedida de atuar sem a observância de princípios e garantias determinadas pela lei. Ora, se o Estado retirou da esfera dos particulares a solução das contendas, justamente em razão das arbitrariedades e desmandos ocorrentes, seria um contra-senso se a atividade jurisdicional não fosse pautada conforme a lei. Destarte, ciente de que as decisões não seriam justas se sua tarefa exclusiva de julgar não fosse restringida, o próprio Estado limitou sua atuação, enunciando princípios e estabelecendo regras de cumprimento obrigatório.
Visando garantir a imparcialidade do órgão jurisdicional, o art. 2º do CPC preceitua: "nenhum juiz prestará a tutela jurisdicional senão quando a parte ou interessado a requerer, nos casos e formas legais". Nesse dispositivo está inserto o princípio da inércia (ne procedat judex ex officio), segundo o qual o juiz não pode dar início ao processo sem ser provocado. Dessa forma, é necessário que o titular da pretensão insatisfeita leve ao conhecimento juiz a questão para que ele possa apreciá-la. É a Ação o instrumento pelo qual se deduz uma pretensão em juízo, provocando a atuação do Estado-juiz.
Ademais, exercício da função jurisdicional é limitado pela garantia constitucional do devido processo legal. Este princípio determina, conforme ensina Humberto Theodoro Júnior, que a tutela jurisdicional seja prestada num Processo "traçado previamente pelas leis processuais, sem discriminação de parte, e com garantia de defesa, instrução contraditória, duplo grau de jurisdição, publicidade dos atos, etc". [15]
A máquina judiciária funciona através da conjunção da Jurisidição, da Ação e do Processo. A Jurisdição, uma vez provocada por meio da Ação, atua através do processo.
1.2.1.1. Jurisdição
Como uma das funções do Estado ao lado da legislativa e da administrativa, a jurisdição é chamada a atuar diante de conflitos desencadeados por um entrechoque de interesses, os quais têm por conseqüência a insatisfação de uma pretensão. Vista por esse ângulo, a jurisdição pode ser conceituada como "função que o Estado exerce para compor processualmente conflitos litigiosos, dando a cada um o que é seu segundo o direito objetivo". [16] É a jurisdição contenciosa.
Entretanto, há situações em que, embora não exista lide, a jurisdição interfere nas relações dos particulares. A importância social de determinados interesses, principalmente aqueles que envolvem direitos indisponíveis, fizeram com que o Estado os amparasse de forma efetiva, tornando a intervenção jurisdicional obrigatória para validade do ato ou negócio jurídico que abranger tais interesses. É o caso, por exemplo, da interdição, da venda de bens de incapazes, etc. Nessas hipóteses, jurisdição "é a atividade administrativa que o Estado exerce para a tutela de direitos subjetivos". [17] É a chamada jurisdição voluntária (graciosa, administrativa ou honorária).
A maior parte da doutrina, adepta da teoria administrativista