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APROXIMAÇÕES ENTRE DIREITO E ANTROPOLOGIA

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Antropología Jurídica, 2008, [Material 
por e-mail pessoal], p. 9. 
161
 HOLANDA, op. cit., p. 44. 
162
 HOLANDA, Marianna Assunção Figueiredo. Quem são os humanos dos direitos? Sobre a 
criminalização do infanticídio indígena. 2008. 157 f. Dissertação. (Mestrado em Antropologia 
Social) – Instituto de Ciências Sociais, Universidade de Brasília, Brasília, 2008, p. 44. 
163
 Ibidem, p. 60. 
164
 Rita Laura Segato é antropóloga e professora da UnB e, em agosto de 2007, foi convocada pela 
Comissão de Direitos Humanos e Minorias do Congresso Nacional para participar da Audiência 
 
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direito, tais como: (a) a necessária superação do pensamento monista do Estado; (b) o 
ideal universalista dos Direitos Humanos; (c) as práticas, as quais o Projeto de Lei n° 
1.057/2007 denomina como “nocivas”, não possuem o mesmo significado para as 
comunidades indígenas; (d) o Projeto de Lei “ultra-criminaliza” as práticas, pois legisla o 
que já foi legislado; (e) o caráter intervencionista e colonizador do Projeto de Lei; (f) as 
comunidades indígenas devem participar efetivamente na deliberação sobre uma lei, a 
qual elas estão englobadas; (g) o papel do Estado e a necessidade de um projeto de 
pluralismo jurídico no Brasil. 
Segundo Holanda, o direito ao reconhecimento à diversidade cultural só 
poderá ser efetivamente garantido se for superado o pensamento monista do 
Estado, ou seja, de que ele não é o único produtor de juridicidade. Tendo em vista 
as diferenças culturais, é de notar-se que não existe apenas uma única concepção 
do que é a vida, morte, ética e ser humano.165 Ressalta a autora que o problema 
está na interpretação desses direitos tidos como universais, isto porque “a teia moral 
que balizou e sustenta os Direitos Humanos foi se constituindo também pela 
imposição de inumanidade às alteridades, sempre portadora de falhas morais a 
serem corrigidas”.166 Assim, a imposição de valores universais tem por conseqüência 
a minimização das diferenças. Esse ideal de igualdade sustentado pelo Estado e 
dissociado da compreensão da alteridade reflete um racismo institucional,167 que 
abafa a voz do “outro” e exige ao mesmo uma adaptação à forma do Estado, que 
nem sempre corresponde a sua própria forma de organização.168 Em outras 
palavras, evidencia-se a postura etnocêntrica do Estado em relação às 
peculiaridades culturais dessas comunidades indígenas. 
Nesse sentido, algumas comunidades indígenas revelam possuir outra 
significação de vida e de morte, razão pela qual suas práticas não deveriam ser 
consideradas pelo Projeto de Lei n° 1.057/2007 como “nocivas”. Como já referido, 
pode-se dizer que a elaboração da vida para algumas comunidades indígenas se dá 
através da construção da rede social, na qual os indivíduos precisam ter condições 
de viver em comunidade.169 Acerca deste tema, sustenta Segato: 
 
Constatamos una vez más, que no es la ignorancia lo que se esconde 
detrás de la diferencia en el tratamiento de la vida recién nacida en 
sociedades originarias del Nuevo Mundo, sino otra concepción de lo que es 
humano y de las obligaciones sociales que lo manufacturan.170 
 
Pública sobre o Projeto de Lei n° 1.057/2007. Maria nna Holanda é antropóloga e foi orientada por 
Rita Segato em sua dissertação de mestrado, trabalho já referido aqui. Por serem as pessoas 
envolvidas neste assunto e que possuem material publicado a respeito, exporemos suas idéias e 
críticas em relação ao referido projeto de lei. 
165
 HOLANDA, Marianna Assunção Figueiredo. Quem são os humanos dos direitos? Sobre a 
criminalização do infanticídio indígena. 2008. 157 f. Dissertação. (Mestrado em Antropologia 
Social) – Instituto de Ciências Sociais, Universidade de Brasília, Brasília, 2008. p. 143. 
166
 Ibidem, p. 10. 
167
 STAVENHAGEN, apud HOLANDA, Marianna Assunção Figueiredo. Quem são os humanos dos 
direitos? Sobre a criminalização do infanticídio indígena. 2008. 157 f. Dissertação. (Mestrado em 
Antropologia Social) – Instituto de Ciências Sociais, Universidade de Brasília, Brasília, 2008, p. 10. 
168
 HOLANDA, Marianna Assunção Figueiredo. Quem são os humanos dos direitos? Sobre a 
criminalização do infanticídio indígena. 2008. 157 f. Dissertação. (Mestrado em Antropologia Social) – 
Instituto de Ciências Sociais, Universidade de Brasília, Brasília, 2008, p. 10-11. 
169
 Ibidem, p. 135. 
170
 SEGATO, Rita Laura. "Que cada pueblo teja los hilos de su historia: El argumento del Pluralismo 
Jurídico en diiálogo didáctico con legisladores". In: CHENAUT, Victoria; GÓMEZ, Magdalena. 
 
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Ademais, para Rita Segato, o referido projeto de lei “ultra-criminaliza” as 
práticas indígenas, uma vez que estabelece diretrizes já previstas no ordenamento 
jurídico brasileiro, como as normas da Constituição Federal e do Código Penal, além 
das reconhecidas internacionalmente.171 Assim, para a antropóloga, não haveria 
sentido promulgar uma lei com este conteúdo, porque isso implicaria em legislar 
sobre o que já está devidamente legislado.172 Em sua opinião, o projeto de lei ligado 
às campanhas humanitárias promovidas por algumas organizações não-
governamentais (como ATINI e JOCUM), que atuam em prol da vida das crianças 
indígenas, mascaram uma propaganda anti-indígena. Isso porque eles criam uma idéia 
de que os povos indígenas são bárbaros, ignorando a significação de seus sistemas 
simbólicos, com o fundamento de que as crianças devem ser salvas da incapacidade 
cultural de seus povos. Tal fato origina uma abertura para a intervenção, na qual muitas 
vezes ocorre de maneira inadequada. Nesse sentido, alega Rita Segato: 
 
Tanto las noticias plantadas por esta organización en diarios y revistas de 
amplia distribución nacional como la conmovedora entrada en el auditorio 
del Congreso en que se desarrollaba la sesión resultan naturalmente en una 
imagen de las sociedades indígenas como bárbaras, homicidas y crueles 
para con sus propios e indefensos bebés. Imagen contrapuesta a la de un 
movimiento religioso que afirma “salvar los niños” de pueblos que los 
asesinan. La legítima defensa de la vida de cada niño y el deseo de una 
buena vida para todos se transformaba así en una campaña proselitista 
anti-indígena y en la prédica de la necesidad de incrementar la supervisión 
de la vida en las aldeas.173 
 
Igualmente, Marianna Holanda refere que: 
 
Isso faz das missões e da forma de atuação das missões um debate que 
deve ser posto na cena política nacional. A violência com que muitas delas 
atuam em aldeias indígenas no Brasil é encoberta por uma filantropia e 
protegida por uma moralidade que não se sustenta mais [...] Mudar as 
culturas “em seus aspectos sombrios e negativos” é o desejo trágico destas 
missões. [...] Um humanismo que insiste no que, por séculos, os Povos 
Indígenas no Brasil vêm demonstrando: que não se dobram à colonização 
persistente.174 
 
ORTIZ, Héctor; SIERRA, María Teresa. (Coords.). (Org.). Justicia y diversidad en tiempos de 
globalización. México: CIESAS e Red Latinoamericana de Antropología Jurídica, 2008. p. 12. 
[Material por e-mail pessoal]. 
171
 Em relação às diretrizes de proteção à criança que já possuiriam previsão legal, se poderia 
destacar: artigo 1°, inciso III (dignidade da pesso a humana); artigo 5°, caput (direito à vida); artigo 
5°, inciso III (tratamento desumano ou degradante); artigo 227, caput (dever do Estado em 
assegurar o direito à vida e à saúde às crianças) – todos da Constituição Federal; artigo 121 
(homicídio); artigo 129 (lesão corporal); artigo 135 (omissão de socorro); artigo 136 (maus-tratos) – 
todos do Código Penal; o artigo 7° (direito e prote ção à vida e à saúde); artigo 13 (maus-tratos); 
artigo 15 (dignidade da pessoa