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APROXIMAÇÕES ENTRE DIREITO E ANTROPOLOGIA

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lógica própria. A 
transposição da lógica de um sistema cultural para outro caracteriza um ato etnocêntrico. Por essa 
razão, um traço cultural deve ser observado em conformidade com a coerência de seu próprio 
sistema cultural. (LARAIA, Roque de Barros. Cultura: um conceito antropológico. 22. ed. Rio de 
Janeiro: Jorge Zahar, 2008, p. 87 e 91). 
87
 ROCHA, Everardo P. Guimarães. O que é etnocentrismo. São Paulo: Brasiliense, 1984, p. 20. 
88
 Ibidem, p. 46. 
89
 Ibidem, p. 54, 73 e 93. 
90
 DAMATTA, Roberto. Relativizando: uma Introdução à Antropologia Social. Rio de Janeiro: Rocco, 
1987, p. 157. 
91
 Ibidem, p. 157-158. 
92
 Ibidem, p. 26-27, 158 e 162. 
 
20
Clifford Geertz, diante desse polêmico tema, assume a posição Anti Anti-
Relativista.93 Esta expressão quer indicar que o autor não possui a pretensão de 
defender o relativismo cultural, mas a de atacar o medo infundado que é mantido em 
relação a ele. Assim, a dupla negativa [Anti Anti-] refere-se, estritamente, a sua 
oposição ao pensamento anti-relativista.94 Tal pensamento, para Geertz, além de 
atribuir conseqüências infundadas ao relativismo cultural, como, por exemplo, o 
niilismo (“ou tudo ou nada”) e o subjetivismo (“tudo depende da maneira como você 
vê as coisas”), dá uma solução errada a este problema antropológico, qual seja, a de 
que precisamos encontrar um aspecto (imutável) do ser humano que esteja acima 
da cultura, como a moral ou o conhecimento (a Razão), para, só assim, afastar os 
supostos fantasmas da abordagem relativista.95 Todavia, mesmo que Geertz rejeite 
a posição anti-relativista, ele não quer assumir uma posição relativista como uma 
teoria antropológica. Nesse sentido, ele destaca que a inclinação relativista dos 
antropológicos recebe impulsos não tanto das teorias construídas a partir dos dados 
antropológicos (costumes, vestígios arqueológicos, crânios, léxicos, etc.), mas, sim, 
a partir destes mesmos dados.96 Ou seja, o alerta dos relativistas sobre o perigo de 
nossas concepções teóricas e atitudes práticas estarem demasiadamente 
arraigadas em nossa cultura e, assim, impossibilitarem-nos de entrar em um diálogo 
autêntico com outras culturas, não precisa ser erigido ao status de uma teoria, 
porque a questão encontra-se em como viver com estes dados antropológicos, que 
colocam em questão, constantemente, a cultura na qual advém o antropólogo.97 
Logo, retomando a idéia central do presente capítulo, pode-se afirmar que o 
relativismo cultural é um princípio metodológico ou, ainda, um exercício no qual se 
busca compreender como os povos deram e dão sentidos diversos aos modelos “da” 
e “para” a realidade. Relativizar significa abandonar a forma radical da visão 
etnocêntrica, na medida em que se busca interpretar a outra cultura a partir de seu 
próprio universo de significação. 
 
 
2 O PRINCÍPIO DA DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA NA ORDEM JURÍDICO-
CONSTITUCIONAL BRASILEIRA 
 
Antes mesmo de adentrarmos na discussão propriamente dita do Projeto de 
Lei n° 1.057/2007, objeto deste trabalho, teceremos alguns breves delineamentos 
sobre a importante função do Princípio da Dignidade da Pessoa Humana na ordem 
jurídico-constitucional brasileira, eis que ela está diretamente relacionada à 
justificação do referido projeto de lei. Cumpre ressaltar também que não nos 
deteremos a examinar a totalidade das normas que estão relacionadas ao problema 
proposto em nosso tema, pois isto envolveria uma análise teórico-jurídica muito mais 
ampla do que a prevista, como, por exemplo, a análise da relação entre os direitos 
previstos em convenções e declarações internacionais e a respectiva abertura 
material do catálogo dos direitos fundamentais da Constituição Federal, bem como 
as disposições do Estatuto da Criança e do Adolescente. Dessa forma, limitar-nos-
 
93
 GEERTZ, Clifford. Anti Anti-Relativismo. In: _____. Nova luz sobre a antropologia. Rio de Janeiro: 
Jorge Zahar, 2001, p. 47-67. 
94
 Ibidem, p. 47. 
95
 Ibidem, p. 61-63. 
96
 Ibidem, p. 49. 
97
 Ibidem, p. 49 e 65. 
 
21
emos em refletir sobre o Princípio Fundamental da Dignidade da Pessoa Humana, 
uma vez que ele irradia diretrizes a todo o ordenamento jurídico brasileiro. 
 
2.1 A NOÇÃO DE DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA NA ORDEM JURÍDICO-
CONSTITUCIONAL BRASILEIRA 
 
Definir o que seja a dignidade da pessoa humana não é uma tarefa fácil, 
tendo em vista a complexidade desta idéia. Isto se deve ao fato de que a dignidade 
possui um conceito extremamente impreciso, genérico, vago e ambíguo.98 Contudo, 
há a necessidade de conceituá-la, da maneira mais explícita possível, mesmo que 
em linhas gerais.99 
A dignidade da pessoa humana pode ser tida como a qualidade intrínseca de 
todo o ser humano, sendo o elemento que o identifica como tal,100 sem distinções, 
ou seja, independentemente de suas características.101 Como algo inerente a todo e 
qualquer ser humano, a dignidade é insubstituível, inalienável e irrenunciável,102 não 
podendo, dessa forma, ser ela substituída, transferida ou mesmo abdicada. Note-se 
que a principal tarefa, aqui, é a procura de critérios de delimitação do conceito de 
dignidade da pessoa humana. 
Nesse sentido, ressalta Sarlet, a dignidade da pessoa humana não é criada, 
concedida ou retirada, mas sim reconhecida e protegida pelo Estado.103 Em outras 
palavras, a qualidade que uma pessoa seja digna, não depende do Direito, já que a 
dignidade preexiste a ele. Ao mesmo tempo, a dignidade da pessoa humana pode 
ser violada e, por essa razão, ao Estado incumbe protegê-la e promovê-la.104 Assim, 
a dignidade é tida como um princípio e não um direito em nosso ordenamento 
jurídico, já que não é concedida, mas reconhecida.105 Sarlet explicita que a 
dignidade da pessoa humana deve ser entendida como norma (princípio e regra) e 
valor fundamental na ordem jurídico-constitucional.106 
 
98
 SARLET, Ingo Wolfgang. Dignidade da pessoa humana e Direitos fundamentais na Constituição 
Federal de 1988. 7. ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2009, p. 44. 
99
 Não nos ateremos em expor aqui a perspectiva histórica da construção da noção de dignidade da 
pessoa humana, sendo que, para isso, pode ser consultada a obra de Ingo Wolfgang Sarlet: 
(Ibidem, p. 31-44). 
100
 SACHS, apud SARLET, Ingo Wolfgang. Dignidade da pessoa humana e Direitos fundamentais na 
Constituição Federal de 1988. 7. ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2009, p. 45. 
101
 No contexto dos direitos humanos, Fábio Konder Comparato afirma que se trata de “algo que é 
inerente à própria condição humana, sem ligação com particularidades determinadas de indivíduos 
ou grupos”. (COMPARATO, Fábio Konder. A afirmação histórica dos direitos humanos. 4. ed. São 
Paulo: Saraiva, 2005, p. 57). 
102
 DÜRIG; STERN, apud SARLET, Ingo Wolfgang. Dignidade da pessoa humana e Direitos 
fundamentais na Constituição Federal de 1988. 7. ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 
2009, p. 47. 
103
 SARLET, Ingo Wolfgang. Dignidade da pessoa humana e Direitos fundamentais na Constituição 
Federal de 1988. 7. ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2009. p. 47. 
104
 Ibidem, p. 77-78. 
105
 Ibidem, p. 78. 
106
 Sobre o status jurídico-normativo da dignidade da pessoa humana como norma (princípio e regra) 
e valor fundamental, Ingo Sarlet remete o pensamento a Robert Alexy e, em virtude da 
complexidade deste raciocínio, não o desenvolveremos aqui. Para isso, conferir: SARLET, Ingo 
Wolfgang. Dignidade da pessoa humana e Direitos fundamentais na Constituição Federal de 1988. 
7. ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2009, p. 74-84. 
 
22
Em função disso, afirma-se que a dignidade da pessoa humana é, ao mesmo 
tempo, limite (função defensiva) e tarefa (função prestacional) do Estado. Limite, 
pois, como uma qualidade intrínseca e indisponível de todo o ser humano, obsta que 
o poder estatal venha ofendê-la, atuando como uma defesa. E, tarefa, pois ao