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Sidney Ferreira de Moraes Neto Módulo Dor Campo Grande 2017 Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Resumo de Dor Problema 1 A dor é vivenciada por quase todos os humanos, pois é um instrumento de proteção que possibilita a detecção de estímulos físicos e químicos nocivos, estabelecendo situações com limiares específicos e organizados, além de sensibilizar sistemas que protegem o indivíduo contra futuras lesões, de acordo com vários mecanismos. A dor é conceituada pela Associação Internacional para o Estudo da Dor (IASP) como “experiência sensitiva e emocional desagradável decorrente ou descrita em termos de lesões teciduais reais ou potenciais”. A dor é subjetiva, cada indivíduo aprende a descrevê-la individualmente, com base em suas experiências. Entretanto essa definição é inapropriada já que não se aplica aos indivíduos com transtornos cognitivos e a outras condições particulares. Entretanto a definição tem o mérito de reforçar o conceito de que, como outras sensações conscientes, a dor inclui a participação de mecanismos relacionados aos aspectos discriminativos, às emoções e ao simbolismo das sensações em geral. A dor é classificada em dois tipos: ➔ Aguda – apresenta valor biológico fundamental, pois constitui um alerta para a possibilidade de uma lesão tecidual se instale ou já estar instalada, além de induzir reações de defesa, fuga ou remoção do agente causal. ➔ Crônica – não tem esse valor biológico, pois é constituída por reações musculoesqueléticas e psicocomportamentais que induzem incapacidade e repercussões biopsicossociais desfavoráveis. Fisiopatologia da Dor Na formação do fenômeno sensitivo doloroso, o primeiro passo é a transformação dos estímulos ambientais, físicos ou químicos em potenciais de ação, que são transferidos, das fibras nervosas do sistema nervoso periférico (SNP) para o sistema nervoso central (SNC). O processo de transdução dos eventos térmicos, mecânicos e/ou químicos intensos em potenciais de geração e de ação nos aferentes primários é limitado à região da membrana axonal, que ocupa poucas centenas de micrômetros da terminação axonal distal, constituindo o nociceptor ou a terminação nervosa livre. O restante da Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 membrana axonal não tem a propriedade de gerar os potenciais repetitivos frente aos estímulos naturais. As moléculas do meio ambiente atuam por segundos mensageiros ou ligam-se aos canais iônicos ou aos receptores. Estímulos químicos (radicais ácidos, capsaicina, bradicinina), mecânicos (pressão) ou térmicos (calor ou frio) intensos alteram as propriedades da membrana dos nociceptores e deflagram potenciais de geração, que são somados, deflagrando os potenciais de ação. Outros canais sensitivos adaptados morfologicamente e distribuídos espacialmente para capturar, veicular ou processar determinadas informações podem, em certas condições, adaptar-se, modificar-se e participar de funções para as quais não foram constituídos em condições normais. Há uma subpopulação de neurônios somatossensitivos que são ativados somente com estímulos intensos e com possibilidade de lesar os tecidos. Os receptores sofrem fadiga e sensibilização. A aplicação repetitiva de estímulos reduz a percepção de muitas sensações. Entretanto, em lesões teciduais, há sensibilização dos nociceptivos e instala- se a hiperalgesia, que é a exacerbação da sensibilidade à dor. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Neurônios aferentes Os neurônios aferentes são classificados em três classes, de acordo com a dimensão do corpo celular e seus axônios: ➔ Fibras C – fibras de pequeno diâmetro, amielinizadas e com velocidade de condução inferior a 2 m/s. ➔ Fibras A-delta – fibras de médio diâmetro, discretamente mielinizadas e com velocidade de condução de 25 a 50 m/s. ➔ Fibras A-beta e A-alfa – fibras de grande diâmetro, intensamente mielinizadas e com elevada velocidade de condução. Cerca de 20% das fibras A-alfa e A-beta são nociceptivas, por outro lado a maior parte das fibras C e A-delta também é nociceptiva. 45% das fibras C contêm neuropeptídeos, como a substância P (sP) e o peptídeo geneticamente relacionado à calcitonina (CGRP), expressam o neuropetptídeo TrkA e têm elevada afinidade para o fator de crescimento neural (FCN). Outras fibras expressam o receptor TrkA e são dependentes de FCN para sua atividade no indivíduo adulto. Os neurônios de pequeno diâmetro, negativos para neuropeptídeos, expressam c-ReT e apresentam fator neurotrófico derivado da glia (GDRF). Outros nociceptores C não expressam neuropeptídeo TrkA, mas têm na sua superfície o carboidrato a-D-galactose, que se liga à lectina IB4 e expressa o receptor P2X3, subtipo do canal iônico ligado ao ATP. Os nociceptores podem ser classificados como: ➔ Terminações nervosas livres das fibras A-delta e C; ➔ Terminações nervosas das fibras A-delta e C sensibilizadas por processos inflamatórios; ➔ Terminações das aferentes A-beta e de limiar reduzido quando ocorre sensibilização neuronal. As fibras peptidérgicas C geram uma corrente induzida pelo calor nocivo mais intenso, sendo mais reponsíveis à estimulação nociva química, como a capsaicina e prótons, enquanto as fibras C, ligadas à IG4, são sensibilizadas de forma seletiva por prótons. Há controvérsia se a as duas populações de nociceptores serem capazes de mediar a dor inflamatórios ou dor decorrente de lesão nervosa. Na vida pós-natal, as fibras C, contendo peptídeos, dependem do FCN para sobreviverem, e a população IB4 depende de fatores neurotróficos derivados da glia. Os Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 nociceptores relacionados às relacionados às fibras C respondem à estimulação mecânica, térmica e química. A maioria dos receptores não-algogênicos dos aferentes C são interoceptores apropriados para detectar os mediadores intrínsecos da inflamação. Há mecanorreceptores relacionados às fibras C que são ativados pelo frio intenso e não pelo calor; e há, provavelmente, receptores químicos que são específicos. As fibras nociceptivas C são classificadas em relação aos agentes químicos e aos fatores neurotróficos. OS receptores químicos (polimodais) são análogos aos receptores de neurotransmissores, alguns são exteroceptores de pH e reagem às toxinas vegetais ou animais. Cerca de 80 a 90% das fibras nervosas periféricas do grupo C são ativadas por receptores polimodais inespecíficos. As fibras termomecânicas C são comuns nos aferentes cutâneos, evocando sensação de queimor e apresentam campos receptivos com cerca de 100 mm2 em humanos. Os nociceptores relacionados às fibras A-delta reagem à estimulação mecânica e à estimulação térmica. Foi observado que 46% das fibras amielinizadas do SNP reage à estimulação mecânica e térmica não-nociva, e 54% reage à estimulação mecânica, térmica e/ou polimodal. A atividade dos nociceptores polimodais aumenta gradualmente, conforme aumenta a temperatura, entretanto, a sensibilidade à estimulação mecânica não está relacionada ao limiar térmico. Os mecanorreceptores do grupo C reagem à estimulação tátil de forma consideravelmente inferior ao limiar da dor. Os nociceptores do grupo C, mecanicamente insensíveis, são heterogêneos em relação à estimulação química e térmica; e alguns respondem somente aos estímulos mecânicos de elevada intensidade. Têm mecanorreceptores de baixo limiar nas fibras C que não respondem ao calorem animais, concentrados especialmente nas regiões próximas do tronco, mas não nas extremidades. As fibras C medeiam a dor secundária ou alentecida descrita como queimor ou peso vagos. Muitas fibras A-delta reagem à estimulação mecânica nociva de elevada intensidade e à estimulação térmica e, em número menor, à estimulação mecânica de baixo limiar dos folículos pilosos. Os nociceptores A-delta são divididos em dois tipos: ➔ Tipo I – reagem à estimulação térmica intensa (cerca de 52°C), mas não à capsaicina e são sensibilizados pela lesão térmica do tegumento. ➔ Tipo II – não são sensibilizados pelo calor intenso e reagem apenas ao calor moderado (± 43°C) e à capsaicina. Os aferentes nociceptivos A-delta medeiam a dor primária, que é bem delineada, rapidamente induzida e precisamente descrita como picada. As subunidades dos receptores A-delta reagem ao GDNF no adulto. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Os aferentes sensitivos primários exercem também outras funções além de codificar informações nociceptivas, como a liberação retrógrada de substâncias neurotransmissoras no ambiente tecidual, que modulam a sensibilidade, a inflamação e a reparação tecidual, e o transporte ortodrômico de substâncias químicas a partir dos tecidos. As fibras A-beta que estão relacionadas aos receptores táteis, como os de Merkel, os corpúsculos de Meissner e os folículos pilosos medeiam as sensações mecânicas de baixo limiar e também podem veicular informações nociceptivas em condições normais ou após a ocorrência de lesão tecidual ou sensibilização dos mecanorreceptores por substâncias inflamatórias. A grande maioria das fibras C reage à estimulação termomecânica, ao calor e ao frio em alta intensidade, e um número menor, à estimulação mecânica de baixa intensidade na faixa não-nociva. As fibras A-delta e A-beta reagem aos estímulos inócuos que acionam mecanorreceptores de baixo limiar; algumas reagem a estímulos mecânicos relativamente inócuos e a estímulos na faixa dolorosa; e outras, à estimulação térmica. Isso significa que há vias dolorosas e não-dolorosas nas três faixas de velocidade de condução dos nervos periféricos. Deve ser considerado também os vários peptídeos e as várias enzimas que coexistem nessas mesmas fibras nervosas. A composição dos neurotransmissores se modifica de acordo com o tecido e com o estado funcional do órgão avaliado. Quase todos os nociceptores são ativados pela estimulação mecânica, mas alguns são mecanicamente insensíveis (nociceptores polimodais). Os potenciais de ação dos nociceptores são prolongados em relação aos oriundos dos fusos neuromusculares. Nocicepção Em condições normais, a informação sensorial é captada pelas estruturas do sistema nervoso periférico (SNP) e transmitida para as unidades do sistema nervoso central (SNC) onde é descodificada e interpretada. Há mecanismos modulatórios que sensibilizam ou suprimem a nocicepção em todas as estações onde é processada. Há uma integração da nocicepção nos tecidos e no SNC. À medida que ascende no neuroeixo, a redundância anatômica das vias sensitivas aumenta de modo significativo e a especificidade se reduz. A ação dos neurotransmissores excitatórios, liberados na medula espinhal pelos aferentes primários nociceptivos, sofre influência de sistemas neuronais excitatórios e inibitórios em várias regiões do sistema nervoso. É provável que, na dependência da modulação da nocicepção na medula espinhal, a informação Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 nociceptiva seja ou não transferida pelos neurônios de segunda ordem para os centros rostrais do neuroeixo. O encéfalo não é passivo às mensagens coletadas no meio exterior e interior. Aspectos da vida pregressa e presente e experiências pessoais interagem de modo significativo com a percepção da dor. Sistemas neuronais supraespinhais permitem ao organismo utilizar a experiência passada para controlar a sensibilidade nas várias estruturas do neuroeixo e reagir de modo variado e autodeterminado. Em doentes com dor intensa ou prolongada ocorrem modificações anatômicas, eletrofisiológicas e neuroquímicas significativas das vias nervosas periféricas e dos núcleos e tratos implicados no processamento sensitivo Há evidências de que estas modificações morfofuncionais estejam correlacionas com a dor persistente. O primeiro passo na sequência de eventos que dão origem ao fenômeno sensitivo- doloroso é a transformação dos estímulos ambientais em potenciais de ação que são transferidos das fibras nervosas periféricas para o sistema nervoso central (SNC). Os receptores nociceptores são representados por terminações livres presentes nas fibras mielínicas finas A-delta e amielínicas C. A estimulação dos aferentes A-beta pode também provocar sensação dolorosa quando há sensibilização central. A porção terminal do axônio é especializada em transformar eventos físicos e químicos que ocorrem nos tecidos em potenciais de ação, interpretados como dolorosos após processamento das informações no SNC. O processo de transdução de informações é limitado a poucas centenas de micrômetros da terminação axonal. O restante da membrana axonal não apresenta propriedades adequadas para a geração de potenciais repetitivos frente a estimulação natural. No começo, os estímulos alteram a atividade das membranas nos receptores e, desse modo deflagram potenciais de geração. Quando os estímulos são mecânicos, a corrente de geração é devida ao fluxo iônico em canais ativados pelo estiramento, presentes praticamente em todos os neurônios, principalmente nos aferentes nociceptivos. O sódio (Na+) é um íon importante presente nesse fenômeno. O mecanismo de transdução térmica ainda não é bem conhecido e, provavelmente, envolve proteínas das membranas ou moléculas efetoras intracelular com elevado coeficiente de temperatura, os receptores vanilóides reagem ao calor e à capsaicina. Os receptores químicos (fibras polimodais) estão presentes em moléculas de receptores específicos, análogos aos neurotransmissores alguns são exterorreceptores de pH e reagem frente a toxinas vegetais ou animais. A maioria dos receptores não- algiogênicos dos aferentes C são interorreceptores apropriados para detectar mediadores intrínsecos à inflamação. Os receptores sensitivos podem, portanto, ser classificados Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 como terminações nervosas das fibras A-delta e C, terminações nociceptivas sensibilizadas pelo processo inflamatório e terminações nervosas livres das fibras A-delta e C de baixo limiar quando há sensibilização central; quando há lesões axonais, potenciais ectópicos podem surgir ao longo das vias aferentes de neurônios nociceptivos A-delta e C, dos gânglios sensitivos das raízes nervosas e nos correspondentes dos aferentes A-beta, quando há sensibilização central. Quase todos os nociceptores são pela estimulação mecânica, sendo que os nociceptores relacionados com as fibras C respondem à estimulação mecânica, térmica e química. Os nociceptores relacionados com as fibras C respondem à estimulação mecânica e térmica. Há mecanorreceptores C ativados pelo frio intenso e não pelo calor. Há, provavelmente, receptores químicos específicos. Cerca de 80% a 90% das fibras nervosas periféricas do grupo C são ativadas por receptores polimodais inespecíficos. Os receptores nociceptivos são sensibilizados pelas substâncias chamadas de algiogênicas, presentes no ambiente tecidual.Dentre elas estão, estão ➔ Acetilcolina, ➔ Bradicinina, ➔ Histamina, ➔ Serotonina (5-HT), ➔ Leucotrieno, ➔ Substância P (SP), ➔ Fator de ativação plaquetário, ➔ Radicais ácidos, ➔ Íons potássio, ➔ Acetilcolina, ➔ Prostaglandinas (prostaglandina E2/PGE2), ➔ Tromboxano, ➔ Interleucinas (IL-1 b, lL-6, lL-8), ➔ Fator de necrose tumoral – alfa, ➔ Fator de crescimento nervoso, ➔ Adenosina monofosfato cíclica (AMPc) O fato de os nociceptores serem sensíveis a uma grande variedade de outras substâncias não implica que estas apresentem atividade funcional. As substâncias algiogênicas são liberadas no ambiente tecidual do interior dos mastócitos e outros leucócitos, vasos sanguíneos e/ou células traumatizadas, sendo responsáveis pela hiperalgesia termomecânica e pela vasodilatação observada em lesões traumáticas, inflamatórias e isquêmicas. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 A SP, a neurocinina A e B e o peptídeo relacionado geneticamente à calcitonina (PGRC), entre outros, são liberados nos tecidos pelas terminações nervosas dos aferentes nociceptivos e interagem com elementos celulares envolvidos na inflamação (neutrófilos. linfócitos. plasmócitos, macrófagos, fibroblastos, células de Schwann, etc.) atraindo-os ou ativando-os, gerando vasodilatação e instalação de processo inflamatório de origem neurogênica (inflamação neurogênica). Os aferentes primários não são apenas vias de condução de estímulos do ambiente tecidual para o SNC, pois colaterais das fibras nervosas não são apenas vias de condução de estímulos do ambiente tecidual para o SNC, pois colaterais das fibras nervosas periféricas parecem participar da regulação da atividade dos gânglios da cadeia nervosa autonômica e da vaso-atividade. Os neurotransmissores, liberados retrogradamente pelas terminações nervosas em situações anormais, podem, indiretamente, participar da liberação de vários mediadores químicos nos tecidos, incluindo-se, entre eles, a histamina. As vias periféricas do sistema nervoso autônomo simpático (SNAS), frente a ação da bradicinina ou por mecanismos reflexos, libera nos tecidos noradrenalina (Nadr) e prostaglandinas (Pgs), que sensibilizam os nociceptores. Quando ocorrem processos inflamatórios, devido à ação das substâncias algiogênicas muitos receptores “silenciosos” e condições normais, em especial os relacionados com as fibras C são recrutados. As alterações inflamatórias e imunológicas estão relacionadas com a ativação de enzimas proteolíticas e colagenolíticas que causam degradação da matriz tecidual. A liberação tecidual de neuropeptídeos media a degeneração progressiva das unidades funcionais, estimulando a síntese de agentes inflamatórios (citocinas, PGE2) e enzimas degradativas (proteases, colagenases). Como resultado direto e indireto das interações químicas, podem ocorrer alterações secundarias nas propriedades mecânicas que perpetuam o processo degenerativo. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 A liberação de ATP no tecido lesado atua nas células vizinhas, incluindo os neurônios sensitivos e células inflamatórias especialmente os macrófagos que apresentam receptores para este neurotransmissor. A ativação dos macrófagos resulta na liberação de várias citocinas e protanóides que sensibilizam os neurônios sensitivos. O glutamato despolariza os neurônios sensitivos, abrindo os canais iônicos produzindo inflamação e hiperalgesia. A serotonina (5-HT) é liberada pelas plaquetas e pelos mastócitos durante a lesão tecidual, atuando de modo variável sobre os neurônios sensitivos e reduz o limiar dos aferentes primários aos estímulos nociceptivos. A histamina é liberada pelos mastócitos e atua nos neurônios sensitivos evocando dor na dependência de sua concentração. Vários mediadores pró-inflamatórios, especialmente os prostanóides como a prostaglandina (PG) G2, H2. I2, E2 e tromboxano A2 são metabólitos do ácido araquidônico, liberado dos proteolipídeos das membranas pela ação da fosfolipase A2. A fosfolipase A2 produz hiperalgesia mecânica, mas não hiperalgesia térmica. As PGs sensibilizam os neurônios aferentes aos estímulos nocivos químicos. ao calor e à estimulação mecânica. O óxido nítrico (NO), produzido a partir da L-arginina devido à ação de sintetase de óxido nítrico. Ca++ e outros co-fatores, é elemento de comunicação intercelular nos tecidos e no SNC; altera a atividade da guanilatociclase e a produção de 3,5-monofosfato de guanosina cíclica (cGMP) e, indiretamente, altera a sensibilidade dos neurônios sensitivos, mediando a hiperalgesia crônica produzida pelas lesões compressivas dos nervos periféricos. A IL-I b e a IL-6 promovem a liberação de PGs dos monócitos e fibroblastos. É provável que muitos eventos envolvidos no fenômeno doloroso de causa inflamatória sejam devidos a reações secundárias que utilizam outros mediadores e unidades celulares. Os mediadores causam hiperalgesia mais que dor. o que está de acordo com o achado de que elevadas doses de bradicinina e de PGE2 resultam em hiperalgesia somente quando administradas nas camadas vascularizadas sub-epidérmicas do tegumento, mas não no tecido subcutâneo frouxo. A bradicinina atua em receptores BI e B2. A SP pertence a uma família de peptídeos chamada de taquicininas ou neurocininas. Existem três classes de receptores de neurocininas: NKs. 2NK e NK3. A SP é o neurotransmissor mais específico para o receptor MKI. A SP e a neurocinina A são aumentadas após condições inflamatórias. O peptídeo geneticamente relacionado a calcitonina (PGRC) é metabolizado pela mesma Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 enzima envolvida no metabolismo da SP. Isto significa que a SP pode difundir-se a longa distância no corno posterior da substância cinzentada da medula espinal (CPME), uma vez que o PGRC ocupa a enzima, permitindo que a SP não sofra ação enzimática. O ácido glutâmico e o aspartato atuam em vários receptores, incluindo o NMDA, o AMPA, o metabotrópico e o cainato. Grande número de aferentes primários contém glutamato e aspartato, uma vez que 70% dos que contêm SP contêm também glutamato. A penetração de Ca++ nos neurônios via receptores NMDA pode ativar genes sensibilizadores 15 minutos após a estimulação nociceptiva Os receptores periféricos não apresentam função em condições normais, mas passam a ser ativos após condições inflamatórias, significando que ocorre considerável redução de receptores opioides na medula espinal em condições inflamatórias. Cerca de 70% dos receptores opioides centrais desaparecem durante a inflamação. Em casos de neuropatias de pouca expressão, pode haver redução dos receptores funcionalmente ativos. Em condições anormais, pode ocorrer alteração na função opióide caracterizada por redução de receptores nos locais de lesões teciduais em decorrência da atividade de células imunitárias. A ação periférica pode ser útil nos locais de inflamação e a redução central reduz alguns efeitos indesejáveis dos opiáceos. Quando os receptores opioides, especialmente, os micro e delta são acionados ocorre hiperpolarização das terminações das fibras C devido à abertura dos canais de K* e a redução da sua estabilidade e redução na liberação de neurotransmissores excitatórios o que reduz a transferência de estímulos sensitivos. Portanto muitos mediadores inflamatórios, incluindo a bradicinina. PGs. 5-HTe histamina reduzem o limiar dos nociceptores e recrutam receptores silenciosos.A PGE, e outros prostanóides apresentam propriedades mecanossensibilizadoras. A bradicinina ativa as vias periféricas do sistema nervoso autônomo simpático (SNAS) aumenta a atividade dos receptores aos movimentos e à deformação mecânica. A sensibilização à bradicinina é muito mais intensa nos nociceptores das fibras C. Cerca de 85% das fibras C apresentam sensibilização induzida pela bradicinina e pelo calor. A PGE potencializa o efeito da bradicinina. A bradicinina excita nociceptores diretamente e induzir sensibilização intensa ao calor (hiperalgesia ao calor) em concentrações muito menores do que aquelas necessárias para a excitação nos nociceptores. A interação entre o calor e a sensibilidade à bradicinina é recíproca: o calor aumenta a reação dos nociceptores à bradicinina e vice-versa: desta interação resulta a sensibilização que reduz o limiar à dor. A 5-HT, a histamina e a PGE2, em níveis fisiológicos, não sensibilizam significativamente os nociceptores ao calor mas facilitam a ação sensibilizadora da bradicinina: concentrações elevadas de AMPc reduzem o limiar dos receptores Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 polimodais. O aumento fisiológico in vitro do AMPc nas terminações nervosas pode ser resultado da ação da PGE2 . A PGE2 não influencia o limiar dos nociceptores mecânicos tegumentares, mesmo quando combinada com outros mediadores como bradicinina, %- HT e histamina. A hiperalgesia mecânica induzida por estes mediadores pode ocorrer muito tempo após o início do experimento, o que significa que a inflamação é induzida mais do que mimetizada por mediadores químicos. Esses mediadores, isoladamente, não justificam a atividade basal dos nociceptores inflamados. O efeito excitatório da bradicinina e a sensibilização induzida pela PGE2 sofre taquifilaxia e é bloqueado por antagonistas da bradicinina do subtipo B2. A sensibilização gerada pela 5-HT é potencializada por outros mediadores (histamina, PGE2). O pH intersticial reflete-se na ação de condições como anóxia e hipóxia, assim como na inflamação. O pH reduzido prolonga a ativação dos neurônios sensitivos. A acidose extracelular resulta em excitação dos nociceptores e em dor que perdura durante o período em que é mantida. A bradicinina e outros mediadores inflamatórios podem aumentar a atividade dos nociceptores e ativar nociceptores silenciosos; não apresentam efeito excitatório mas facilitam a despolarização evocada pela acidose. A sensibilização ao calor e à acidose justifica o fato de um tecido inflamado ser indolor em repouso e ser doloroso quando solicitado; condição em que há sensibilização pelos mediadores inflamatórios. Muitos mediadores inflamatórios atraem leucócitos, ativam plaquetas, desgranulam mastócitos e induzem vasodilatação e extravasamento plasmático. O edema resultante da permeação vascular causa grande impacto na transmissão bioquímica nos tecidos e reduz o limiar dos receptores mecânicos. As plaquetas ativadas podem sensibilizar os nociceptores ao calor e induzir dor e hiperalgesia mecânica. As citocinas (polipeptídeos que afetam as funções de outras células) são proteínas tróficas e regulatórias que podem influenciar grande variedade de funções celulares, incluindo a proliferação, diferenciação, expressão genética, regulação de componentes relacionados ao processo imunitário e inflamatório e ao controle da matriz proteica envolvidos no crescimento celular e no reparo tecidual e no processo de degeneração e regeneração do tecido nervoso. São classificados em 4 grupos: ➔ Fatores de crescimento ➔ Interleucinas ➔ Interferons ➔ Fator de necrose tumoral Quando há lesão tecidual, os neutrófilos atraem os monócitos, que se diferenciam em macrófagos. As células de Schwann e as células gliais reagem quando há lesão Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 nervosa, fagocitando os resíduos da lesão celular e regenerando as bainhas de mielina ao redor dos axônios lesados. Os macrófagos ativados e as células de Schwann sintetizam citocinas e fatores de crescimento nervoso envolvidos na regeneração nervosa. As citocinas podem ser transportadas retrogradamente pelo fluxo axonal ou por mecanismos não axonais até o SNC; podem acumular-se nos gânglios das raízes dorsais, nos neurônios do CPME ou estruturas perivasculares, onde interferem com a atividade neural, quando há lesão nervosa periférica. São também produzidas no SNC pela micróglia ativada e pelos astrócitos. A micróglia atua semelhantemente aos macrófagos quando há lesão do SNC, produzindo interleucinas (lL-I, lL-6), fator de necrose tumoral – alfa (TMF-alfa), interferon gama (IFN-gama) e fator de transformação de crescimento – beta (TGF-beta), envolvidos na ativação astrocitária e na indução de reações celulares e no recrutamento das células- T para o local das lesões. Além de sintetizar mediadores inflamatórios, a micróglia atua como elemento efetor tóxico para as células, graças à liberação de substâncias lesivas, como proteases, intermediários reativos de oxigênio e óxido nítrico°'. Provavelmente algumas citocinas estam envolvidas na plasticidade sináptica e na hiperexcitabilidade neural que produz a potencialização da dor de longa duração. Os fatores de crescimento controlam a proliferação celular e regulam os processos celulares como a diferenciação da expressão proteica e a sobrevida celular. O fator de crescimento nervoso é responsável pela sobrevida e manutenção dos neurônios centrais e periféricos durante o desenvolvimento e a maturação, processo que envolve diferenciação das células inflamatórias, modulação fenotípica axonal, expressão e secreção de neuropeptídeos, neurotransmissores, proteínas de canais iônicos e outras citocinas, tanto no SNC como no SNP. Os fatores de crescimento nervoso são elementos importantes para a relação entre a inflamação e a hiperalgesia. Além do fator de crescimento, o fator neurotóxico derivado do cérebro e as neurotrofinas estão envolvidas neste processo. As neurotrofinas iniciam a dimerização e a fosforilação de resíduos de tirosina. que por sua vez ativam as cascatas citosólicas, o transporte retrógrado dos fatores ativados do corpo celular e a regulação da expressão genética específica43. O fator de crescimento nervoso é produzido nos tecidos e capturado pelas terminações nervosas e pelos processos axonais e modela o brotamento e a inervação periférica dos elementos nervosos sensitivos e neurovegetativos em crescimento. Esse fator não é muito expressado nos tecidos maduros. Quando há lesão do tecido nervoso, há aumento do RNA-mensageiro envolvido na síntese do fator de crescimento nervoso ao longo do Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 segmento nervoso distal e nos tecidos periféricos e liberação de IL-1 pelos macrófagos, que invadem o nervo comprometido. Graças à ação do fator de crescimento nervoso colaterais de neurônios do SNA brotam a partir das estruturas perivasculares e fazem contato com neurônios de médio e grande diâmetro nos gânglios sensitivos fenômeno que está envolvido no mecanismo da “dor mantida pelo simpático”. O aumento da expressão do fator de crescimento nervoso em condições de desaferentação (tipo de dor neuropática causada por lesão no sistema somatossensorial) parcial ou inflamação é causa da hiperalgesia por sensibilização das fibras C aos estímulos térmicos ou da liberação de autocóides prolongamento dos potenciais de ação nos neurônios aferentes e hiperalgesia térmica mediada pela sensibilização que envolve os receptores NMDA.O fator de crescimento nervoso aumenta a síntese. o transporte axonal e o conteúdo neuronal de neuropeptídeos algésicos (SP. PGRC) e reduz a atividade do ácido gama-aminobutírico (GABA) tanto nas terminações nervosas periféricas como centrais. O fator básico de crescimento de fibroblastos estimula a mitogênese e atua como fator neurotrófico na regeneração dos neurônios. O TGF-B está presente nas meninges. gânglios sensitivos e troncos nervosos. E induzido pela axonotomia e inibe a ativação macrofágica e a proliferação das células T. contrastando com os efeitos pró-inflamatórios das citocinas (IL-6) e do NO produzido pelos macrófagos. As interleucinas (lLs) são secretadas pelos linfócitos e macrófagos e induzem o crescimento e a diferenciação celular. As IL-1, IL-6. IL-10 estão envolvidas na gênese da dor. A IL-1 é secretada no plasma. no fluido intersticial e no encéfalo (micróglia e astrócitos). Sua produção é aumentada após traumatismos de nervos periféricos e do SNC. A IL-1 beta induz a produção de SP causa hiperalgesia e exerce potente efeito anti- nociceptivo nos tecidos inflamados. mas não nos não inflamados, talvez porque estimule a liberação de peptídeos opióides das células imunitárias e aumente os receptores opióides transportados pelos axônios. A IL-6 é sintetizada pelos monócitos. células endoteliais. fibroblastos e outras células, como reação à IL-1 e TNF, centralmente (astrócitos. Microglia) e perifericamente (células de Schwann), quando há lesão nervosa e é importante para a ativação astrocitária em casos de neuropatias periféricas: parece estar envolvido na alodinea que se segue à lesão de nervos periféricos. Está aumentada porção medial e lateral da substância gelatinosa e no corno anterior da substância cinzenta da medula espinhal, após lesões de nervos periféricos, quando ocorre alodínea. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Em condições crônicas, a IL-6 aumenta na medula espinhal. A IL-10 suprime a atividade macrofágica, a adesão celular e a síntese de algumas citocinas (IL-1beta, IL-6, IL-8, TMF/alfa), limitando a hiperalgesia inflamatória. A IL-1beta inibe a potencialização a longo prazo da atividade nervosa em baixas concentrações e causa liberação de NO e ácido araquidônico em concentrações elevadas aumentando a potencialização prolongada. O interferon IFN-õ parece estar envolvido na hiperalgesia pós-traumática”-"'. Em casos de traumatismos agudos de raízes nervosas foi constatada abundância de macrófagos expressando IL-1gama. FGF e TGF-beta. Os neurônios sediados nos gânglios são sensibilizados também quando há estimulação nociceptiva. Os receptores de colecistocinina são pouco expressos nos neurônios da raiz posterior. A colecistocinina habitualmente ausente nos gânglios sensitivos torna-se presente em cerca de 30% destas estruturas em condições inflamatórias. O PGRC está presente em cerca de 50% dos neurônios dos gânglios sensitivos. Os receptores de neurotensina ocorrem em neurônios positivos para o PGRC e são expressos em cerca de 30% dos neurônios de calibre fino das raízes posteriores; sua expressão é reduzida em condições inflamatórias. Os receptores de galanina estão presentes em 20% dos neurônios de calibre fino das raízes posteriores. Os receptores de morfina mu (u), delta e kappa estão presentes em alguns neurônios da raiz posterior. Quando há inflamação, ocorre aumento da densidade de receptores e redução da proporção de receptores delta e kappa. Os neurônios dos gânglios sensitivos contêm pequena quantidade de NADH- diaforese/NOS. O fator de crescimento nervoso é importante para a expressão da SP e da PGRC, mas não para a galanina. Virtualmente todos os neurônios que sintetizam SP sintetizam também PGRC e contêm o RNA-mensageiro para a somatostatina. Muitos deles expressam neuropeptídio Y (NPY) e receptor YI. O NPY é identificado em mais da metade dos neurônios de calibre fino da raiz sensitiva. Os receptores do NPY-I estão presentes em neurônios positivos para o PGRC, mas os dois neurotransmissores não coexistem na mesma raiz. A proteina receptora YI da raiz positiva não é transportada centrifugamente. Os receptores da neurotensina ocorrem em populações neuronais diferentes. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Na zona de entrada das raízes nervosas as fibras mielínicas finas e as fibras C destacam-se das fibras aferentes mais calibrosas e concentram-se no feixe ventrolateral das radículas, embora algumas permaneçam no feixe dorsomedial. Na medula espinal, os aferentes primários bifurcam-se em ramos rostrais e caudais e entram na constituição do trato de Lissauer. As vias aferentes C alcançam a porção lateral da substância branca lateral da medula espinal e os aferentes primários do grupo A situam-se medialmente. A penetração dos aferentes primários na substância cinzenta da medula espinal faz-se por toda a superfície de contato com a substância branca, há evidências de que a extensão da superfície de projeção dos aferentes C seja menor que a dos aferentes A-delta. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Já foram identificadas projeções para a substância cinzenta da medula espinhal contralateral. O conceito de duas vias aferentes no SNP, a epicrítica e a protopática, é usado para explicar as diferentes qualidades de dor que ocorrem após lesões teciduais. A dor epicrítica, primária ou rápida é localizada, não permanece após cessar o estímulo e está envolvida envolvida no mecanismo da codificação e discriminação do estímulo nociceptivo. A dor protopática acompanha-se de sensação desagradável e menos localizada, tem início lento e perdura além do tempo de aplicação do estímulo. Os aferentes A-delta estão relacionados à dor primária ou epicrítica e, os aferentes C com a dor secundária ou protopática. O trato de Lissauer é comporto de fibras amielínicas e de menor número de fibras mielinizadas. As fibras originam-se das vias aferentes primárias e das projeções axonais dos neurônios localizados no CPME. Nesse trato predomina numericamente os aferentes primários. Nesta estrutura, as fibras aferentes nociceptivas com projeção rostral (frontal) se deslocam lateralmente e as caudais medialmente. Na porção interna deste trato há predomínio das fibras mielínicas finas e amielínicas que se projetam no CPME e, na porção externa, predominam as fibras inter-segmentares. oriundas principalmente da substância gelatinosa da medula espinal. A secção da porção medial do trato de Lissauer causa aumento do campo receptivo das unidades nociceptivas do CPME, e a secção da sua porção lateral causa redução do campo. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Os aferentes primários A-delta formam plexos transversais sobre a superfície do CPME e, nas porções profundas são orientadas longitudinalmente. As fibras aferentes C terminam exclusivamente nas lâminas superficiais do CPME como um plexo longitudinal ou como feixes originados sagitalmente. Os aferentes primários A-beta e A-delta veiculam a informação dos receptores de baixo limiar das estruturas superficiais e compõem o trato de Lissauer, dividindo-se em rostrais e caudais, e dão origem a colaterais que penetram na porção medial do CPME e alcançam as lâminas intermediárias e profundas dessa estrutura. O CPME, além de coletar informações transmitidas pelos aferentes primários, contêm interneurônios que interferem no processamento das informações sensitivas, inibindo ou facilitando a transmissão dos potenciais veiculados pelos aferentes primários para os sistemas deprojeções suprassegmentares. Além das aferências originadas dos nervos periféricos, recebem projeções originadas no córtex cerebral, nas estruturas subcorticais e no tronco encefálico, que participam do mecanismo de modulação segmentar da atividade sensitiva. O CPME se localiza atrás do canal central da medula espinhal e é dividido em lâminas de acordo com a morfologia celular, bioquímica das unidades celulares, atividade celular frente a estímulos diferentes naturezas ou função das fibras de projeção suprassegmentares que origina. Rexed dividiu a substância cinzenta da medula espinhal em 10 lâminas, de acordo com o padrão arquitetônico de suas unidade celulares. O CPME corresponde às 6 primeiras lâminas da organização proposta por Rexed. As porções proximais do organismo estão representadas lateralmente e as distais, medialmente. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 ➔ Lâmina I ou lâmina marginal de Waldeyer – constituída de uma camada delgada de células localizadas no ápice do CPME. Feixes de axônios mielinizados penetram-na, gerando aspecto esponjoso ou reticular, composta por neurônios grandes e por maior número de células de pequenas dimensões, células dispostas transversalmente e os dendritos orientados longitudinalmente no plano mediolateral. Células grandes com dendritos longos, e poucas arborizações, que permanecem na mesma lâmina ou projetam-se profundamente na lâmina II. Neurônios da lâmina I recebem aferências do plexo marginal e do trato de Lissauer, que se projetam na porção proximal dos dentritos e no corpo celular das células grandes. Os aferentes primários, constituídos por fibras finas, fazem sinapse nos dendritos distais. Os aferentes nociceptivos A-delta projetam-se nesta lâmina. Nela há sinapses de axônios amielínicos de grosso calibre fazendo contato com dentritos de pequenas e grandes dimensões, sobre os quais projetam-se terminais axonais delgados. Essas estruturas são similares aos glomérulos presentes nas lâminas Il e Ill. Unidades celulares da lâmina I entram na constituição do trato espinotalâmico contralateral, trato proprioespinal homo e contralateral e trato de Lissauer. ➔ Lâmina II – forma a substância gelatinosa propriamente dita. O padrão histológico, as características espaciais da árvore dendrítica e os resultados da Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 rizotomia sensitiva demonstram haver aspectos morfológicos diferentes nestas duas lâminas, o que justifica a distinção de ambas. Está ventralmente à lâmina I. Células de dimensões menores e mais compactas que as da lâmina III. Disposição radial e conformação variada. Subdividida em lâmina II interna e lâmina II externa. Há duas classes importantes de unidades celulares: as células limítrofes ou em haste, que estão na transição entre a lâmina I e a lâmina II, e as células em ilha ou células centrais, que estão na porção central da lâmina ll. As células centrais são numerosas, têm pequenas dimensões e apresentam muitos dendritos finos que se ramificam entre os lóbulos da substância gelatinosa, que são devidos à arborização em chama dos colaterais dos aferentes primários mielinizados grossos que emergem das porções mediais do funículo posterior e penetram na face ventral da substância gelatinosa. Os dendritos destes neurônios têm disposição longitudinal e projetam-se apenas nas unidades neuronais da lâmina II. Um grande número de fibras mielínicas e amielínicas destaca-se, em ângulo reto, da porção medial do trato de Lissauer 6 do trato proprioespinal, atravessa a lâmina I e penetra na face dorsal da substância gelatinosa. Parte destas fibras é constituída pelos aferentes primários C e A-delta. As fibras C térmicas e nociceptivas se projetam na divisão externa da lâmina II e as fibras C e A-delta não se projetam na divisão interna da lâmina II. Colaterais das fibras aferentes primárias de calibre grosso que entram na constituição dos funículos posteriores, penetram na porção dorsomedial do CPME e curva-se lateralmente atingindo a substância gelatinosa, onde se arborizam em chama no plexo transversal e na direção craniocaudal. A lesão das raízes nervosas resulta em degeneração mais precoce dos terminais na lâmina II do que na lâmina III. Na lâmina II há sinapses axodendríticas, axoaxonais e em glomérulos. Os glomérulos, em ME, consistem de complexas organizações sinápticas axodendríticas e axoaxonais. A porção central do glomérulo é constituída por colaterais em chama das fibras aferentes de calibre grosso ou das projeções dorsais das células piramidais presentes nas lâminas profundas do CPME. Contatos sinápticos axoaxonais com aferentes primários do grupo A ocorrem nesta estrutura. Contatos dendríticos são observados regularmente, mas em número reduzido, no interior dos glomérulos. Os glomérulos correspondem a menos de 5% das sinapses da substância gelatinosa mas tem papel integrativo muito importante. As unidades celulares da lâmina II projetam-se no trato de Lissauer, fasciculo próprio lateral e dorsal. lâmina II e lâmina III contralateral. via comissura posterior, e lâminas I, Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 III, IV e V homolaterais. Neurônios da lâmina II contêm axônios curtos. características morfológicas sugestivas das células do tipo II de GoIgi, não emergem da substância gelatinosa e constituem um sistema axonal intrínseco. A substância gelatinosa é um sistema fechado, constituído de elementos que realizam conexões intrínsecas intrassegmentares e transcomissurais e extrínsecas inter-segmentares. Mediante as projeções que se fazem dos dendritos apicais dos neurônios das lâminas IV e V, a lâmina II se projeta nas vias espinorreticulares, espinotalâmicas e nos neurônios do corno anterior da substância cinzenta da medula espinhal. As células limítrofes são grandes e semelhantes aos neurônios da lâmina I e dão origem a dendritos que se projetam anteriormente, lateralmente e tangencialmente na porção superficial do CPME originando projeções semelhantes aos neurônios da lâmina I ➔ Lâmina III – junto as lâminas IV e V, constituem o núcleo próprio da substância cinzenta da medula espinal. Os neurônios que a constituem são menos densos que os da lâmina II contêm pouco citoplasma e orientam-se verticalmente em relação à superfície do CPME. Os dendritos são mais longos e numerosos e projetam-se nas células da lâmina I à lâmina V do CPME, e fazem contatos com os aferentes primários, representados pelos colaterais das fibras de calibre grosso, projetando-se em chama. Há representação somatotópica nos neurônios da lâmina III: as regiões dorsais do corpo são representadas na porção lateral do CPME e as ventrais nas porções mediais. Os aferentes primários de fino calibre do plexo apical e fibras proprioespinais se projetam nas porções basais da lâmina III. Nessa lâmina ocorre sinapses axodendríticas, axossomáticas, axoaxonais e em glomérulo. Os neurônios da lâmina III parecem ser ativados por estímulos mecânicos de baixo limiar aplicados a receptores de adaptação rápida ou lenta. As unidades celulares da lâmina Ill se projetam no trato de Lissauer, tratos proprioespinais e estruturas intrassegmentares da substância gelatinosa. ➔ Lâmina IV – maior das lâminas do CPME, com limites precisos e aspecto heterogêneo. Alguns neurônios de sua composição são grandes, apresentam dendritos dorsais com disposição espacial cônica, dendritosventrais, frequentemente únicos e longos. Contém também células estelares pequenas. Recebe aferências de fibras de calibre grosso, que se projetam nos corpos celulares e em chama, nos dendritos e de fibras finas ativadas por receptores Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 mecânicos de velocidade de adaptação rápida ou lenta. Os neurônios da lâmina IV recebem aferências oriundas do trato corticoespinal e do fascículo cornocomissural e dão origem a fibras que trafegam pela substância branca lateral e dirigem-se para o núcleo cervical lateral, constituindo o trato espinocervical homolateral, e fibras que entram na constituição do trato espinotalâmico. Dendritos dos neurônios da lâmina IV se projetam na substância gelatinosa, sendo esta via importante para a transferência das informações da substância gelatinosa para outras unidades da medula espinhal. As projeções dorsais das células da lâmina IV que alcançam a substância gelatinosa são constituídas por dendritos dos glomérulos ao redor do botão central. Os aferentes primários exteroceptivos originam-se na porção dorsal dos funículos posteriores e constituem o plexo longitudinal aferente. Os campos receptivos dos neurônios com que fazem sinapse são pequenos, alguns polimodais e outros específicos. O plexo longitudinal localiza-se nas lâminas III e II, talvez na porção posterior da lâmina V e ramifica-se na lâmina VI. Os aferentes da lâmina IV projetam-se principalmente nos dentritos dorsais que alcançam a substância gelatinosa. As vias corticoespinais projetam-se nos dendritos mediais. Há aferências oriundas dos feixes comissurais da substância branca adjacente e do CPME contralateral, assim como de colaterais dos aferentes primários. Os plexos longitudinais são constituídos de aferentes primários ou de colaterais de interneurônios. A organização sináptica da lâmina IV é semelhante à das laminas V e Vl, tendo as sinapses axossomaticas, axodendriticas e axoaxonais. Não existem glomérulos nesta lamina. ➔ Lâmina V – corresponde ao colo do CPME. O terço lateral tem aspecto reticular e dois terços mediais são mais claros. Nesta lâmina, há menor densidade de axônios mielinizados. A porção lateral é reticulada, devido à presença de fibras mielinizadas. Os dendritos e seus neuronios tem disposição dorsoventral e mediolateral; poucos apresentam disposição longitudinal. Recebe fibras mielinicas A-delta originadas do tegumento, das vísceras, das estruturas musculares e do plexo longitudinal. A porção medial recebe aferências de fibras grossas, que aí se projetam sem distribuição somatotópica. Recebe também aferências da lâmina IV, das vias corticoespinais motoras e sensitivas, rubroespinais, tetoespinais e retículo-espinais. As projeções caudais fazem-se via sinapses axodendriticas e axossomáticas. Em virtude da intensa convergência das informações periféricas e do grande número de neurônios Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 multimodais nesta lâmina, admite- se que o fenômeno da dor referida seja aí processado. Os neurônios da lâmina V dão origem a fibras que entram na constituição do trato espinotalâmico contralateral, trato espinocewical homolateral e trato do funículo posterior homo e contralateral '°°. Alguns axônios dos neurônios mediais da lâmina V originam colaterais próximos ao corpo celular que podem alcançar as lâminas Il, III e IV. com função possivelmente semelhante àquela das células do tipo II de Golgi. ➔ Lâmina VI – está presente apenas nos segmentos cervicais e Iombossacrais da medula espinal. Dividida em porção media e lateral. Contém menor número de neurônios que a lâmina V. Os dendritos dispõem-se mediolateral e dorsoventralmente, são longos, pouco ramificados e bastante disperso. Os neurônios recebem projeções de aferentes primários de grosso calibre do tipo Ia e Ib, que veiculam informações proprioceptivas e aferências de sistemas rostro-caudais. Os neurônios da lâmina VI originam projeções para o trato espinotalâmico contralateral, trato espinocervical e trato próprio-espinal. As unidades celulares da porção medial da lâmina VI originam projeções para as lâminas I\/, V e VII e colaterais recorrentes próximos aos corpos celulares que lhes dão origem. Além das unidades que compõem o CPME, os aferentes primários nociceptivos alcançam também os neurônios motores presentes no corno anterior da medula espinal e neurônios da coluna intermediolateral”. Portanto, os aferentes primários do grupo A-delta formam um plexo transversal sobre a superficie do CPME, projetam-se nas porções profundas da lâmina I e originam colaterais para porções externas da lâmina Il. O aferentes primários do grupo C terminam no plexo longitudinal sobre a lâmina I ou como feixes orientados sagitalmente. Os aferentes primários A-beta e A-delta dividem-se em ramos rostrais e caudais no trato de Lissauer e originam colaterais, que penetram na porção medial do CPME, alcançam as lâminas IV, V, VI e IX e recorrem, para terminar nas lâminas Ill e II; na lâmina III terminam em arborizações em chama. Os aferentes primários A-beta fazem sinapses simples com dendritos ou com arranjo glomerular. Os aferentes oriundos dos folículos pilosos fazem contato direto com terminais contendo ácido glutâmico, o que sugere serem responsáveis pela inibição pré-sináptica, via GABA. Os aferentes primários A-delta se projetam nas lâminas I, II e V e os aferentes C, nas lâminas I e II. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Os neurônios da lâmina IV reagem à estimulação mecânica de baixo limiar e os da lâmina V, à estimulação de receptores mecânicos de baixo e alto limiares. Os neurônios da lâmina III reagem à estimulação de mecanoceptores de baixo Iimiar. No CPME existe organização somatotópica dos aferentes primários. As regiões proximais do corpo estão representadas lateralmente e as distais, medialmente, nas lâminas do CPME. Existem neurônios nociceptivos específicos na lâmina I e na substância gelatinosa. As lâminas Ill e IV não recebem aferências viscerais e musculares, o que sugere haver estratificação das projeções medulares dos aferentes cutâneos e das estruturas profundas. A divisão citoarquitetônica de Rexed não apresenta significado funcional, pois os neurônios apresentam árvores dendríticas muito extensas, não existe relação entre a forma das células e sua funçao e vários neurotransmissores estão envolvidos na fisiologia do CPME, atuando, muito deles, em pontos distantes do local em que são liberados. Além disso, vários sistemas neuronais se projetam em diferentes sítios do CPME. Mais de uma dezena de neuropéptides foram identificados nos gânglios das raízes sensitivas e nos aferentes primários. incluindo entre eles: ➔ SP, ➔ Substância K, ➔ Octapeptídio-colecistoquina, ➔ Somatostatina, ➔ PGRC, ➔ Peptidio vaso-ativo intestinal (PVI), ➔ Dinorfina, ➔ Encefalinas, ➔ Fator de liberação de corticotrofina, ➔ Arginina. ➔ Vasopressina, ➔ Oxitocina, ➔ Peptidio Iiberador de gastrina, ➔ Bombesina, ➔ Angiotensina II, a galanina ➔ Fator de crescimento do fibrobIasto, Além de aminoácidos, como os ácidos glutâmico e aspártico; aminas como a 5-HT e a dopamina alem da tirosina e a adenosina. Alguns dos neurotransmissores dos aferentes primários apresentam precursores similares e muitos deles estão presentes nas mesmas vesículas das terminações nervosas. Os principais neurotransmissores Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 excitatórios dosaferentes primários são o glutamato e o ATP. A maioria dos neurotransmissores é produzida nos corpos celulares dos gânglios sensitivos. Cerca de 10% dos neutrotransmissores são transportados, ao longo da raiz proximal, para as suas terminações nas lâminas do CPME e cerca de 80% distalmente. Os aminoácidos e outras substâncias excitatórias com ação rápida são liberados junto com neuropéptides de ação lenta, pelas mesmas terminações nervosas aferentes no CPME. Esses neurotransmissores se difundem facilmente no tecido nervoso e no líquido cefaloraquidiano, podendo atuar em pontos distantes daqueles em que foram liberados. A existência de muitos neurotransmissores está relacionada com a codificação do estímulo nociceptivo perférico. Assim sendo, a atuação simultânea de vários péptides e aminoácidos é necessária para ocorrer transmissão adequada de uma determinada modalidade sensorial. É provável que os mesmos neurotransmissores relacionados a nocicepção estejam envolvidos também na transmissão de informações não nocivas. Além da sua ação como neurotransmissores, os péptides tem ação neuromodulatória, modificando a sensibilidade dos receptores de medula espinhal aos neurotransmissores rápidos ou alterando sua liberação pré-sinaptica. .Assim foi observada a liberaçao de SP frente a estimulos aplicados aos nociceptores mecanicos e receptores polimodais e de somatostatina, frente a estimulaçao termica nociceptiva. A SP e a neurocinina tem os mesmos precursores e são liberadas frente a estímulos similares e atuem em receptores distintos nos neurônios de medula espinal. A SP e o PGRC facilitam a transmissão da informação dos aferentes primários para os neurônios do CPME. A estimulação mecânica dos gânglios e das raízes nervosas aumenta a concentração da SP nos corpos celulares dos gânglios das raízes sensitivas e na substância gelatinosa CPME O PGRC é encontrado nas lâminas I e ll do CPME e, além de atuar nos neurônios do CPME, ativa a endopeptidase que sintetiza a SP. A somatostatina é liberada por estímulos térmicos e participa de transmissão nociceptiva e inflamatória, exerce atividade inibitória nas células das lâminas I, Il, e V do CPME e potencializa a ação da SP. O PVI está presente no trato de Lissauer, nas lâminas I, V, VII e X do CPME e nos aferentes primários nociceptivos, principalmente oriundos da região sacral; parece estar envolvido no mecanismo de aferência nociceptiva visceral, e está relacionado à nocicepção visceral via AMPc e apresenta atividade trófica. Uma vez que melhora a perfusão sanguínea, causa glicogenólise e aumenta a sobrevida neuronal. Esta aumenta nos gânglios das raízes sensitivas, em áreas da medula espinal em que outros Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 neuropeptídeos são depletados após neuropatias periféricas e participa da reorganização do sistema nervoso lesado; parece ter efeito na desmielinização óssea. O NPY tem atividade inibitória. A galanina exerce efeito trófico na hipófise, inibe a transmissão sináptica no CPME, contrapõem-se ao efeito da SP, do PVI e da PGRC e potencializa o efeito da morfina, evento revertido pela naloxona e potencializado pelos antagonistas das taquicininas. A colecistocinina exerce atividade antagonista sobre os neurotransmissores morfínicos. O ácido glutâmico está presente na lâmina I e na substância gelatinosa sendo o aminoácido excitatório dos aferentes primários de grande diâmetro e amielínicos. Nos neurônios do CPME, há um receptor para cada neuropeptídio; cada peptídio pode acionar vários subtipos de receptores. O NPY apresenta seis receptores e a somatostatina, cinco. Há maior concentração de receptores de SP nas lâminas I, ll e X e de neurocinina A nas lâminas III e IV da medula espinal; e de receptores de bombesina com atividade despolarizante na substância gelatinosa e do NPY-I, na profundidade da lâmina II. Os neuropeptídeos são mensageiros atuam em receptores acoplados à proteína G, com sete segmentos nas membranas neuronais. Virtualmente todos os neuropeptídeos ocorrem nos neurônios, que também contêm outros neurotransmissores, como a acetilcolina, 5 HT e GABA. Os neuropeptídeos não atuam apenas como moléculas mensageiras, pois talvez atuem como agentes tróficos de longa duração. A SP exerce atividade excitatória sobre grande variedade de células multimodais do CPME. Parece que tanto atividade excitatória quanto inibitória ocorrem por ação da somatostatina, Há receptores de bombesina com atividade despolarizante na substancia gelatinosa. Estímulos nociceptivos aplicados sobre os aferentes primários amielínicos produzem atividade prolongada ampliam o campo receptivo dos neurônios do CPME. Há grande densidade de projeção dos aferentes nociceptivos nas lâminas I, II e V do CPME. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Os aferentes nociceptivos polimodais não apresentam atividade espontânea, sendo necessário sensibilização por mediadores da inflamação, quando, então, passam a apresentar atividade espontânea e despolarizam prolongadamente os neurônios no CPME. Estímulos leves e moderados liberam pequena quantidade de ácido glutâmico e de SP, que despolarizam a membrana neuronal e geram sensação dolorosa momentânea. Quando a estimulação é intensa e prolongada, há sensibilização dos neurônios do CPME via vários mecanismos. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 A atividade dos aferentes nociceptivos C, mas naoide outras fibras, promove somação temporal de estímulos, devido à liberação de neurotransmissores que ativam os receptores metabotrópicos e ionotrópicos dos neurônios do CPM E. A sensibilização depende da atuação dos aminoácidos (ácido glutâmico, ácido aspártico) e das taquicininas (SP). Os receptores AMPA (ativados pelo ácido 2-amino-S-'hidroxi-5-metil-4- isoxasole-propiônico) e o cainato são acionados imediatamente após a liberação de aminoácidos excitatório; e estão envolvidos no mecanismo de localização têmporo- espacial e na quantificação da dor. O glutamato ativa os receptores AMPA, resultando em influxo de Na+, K+ e Ca+2 para o interior do neurônio e despolarização rápida da membrana neuronal, durante curto período de tempo. Alguns segundos após o estímulo, ocorre ativação dos receptores NMDA (ativados pelo N-metil-D-aspartato), que propicia influxo citoplasmático neuronal de Ca+2 acoplado a influxo de Na+ e efluxo de K+. Os receptores NMDA são canais iônicos operacionalizados por mecanismos dependentes de voltagem, ativados por aminoácidos e modulados por neuropéptides (SP) e atuam centenas de milissegundos após a chegada dos estímulos. Para o receptor NMDA ser operacionalizado, é necessário a presença de glicina e de glutamato. O receptor NMDA normalmente mantém-se inativo, mesmo na presença de glutamato, porque o seu canal é parcialmente bloqueado pelo Mg+2. A ativação dos receptores de NMDA e a liberação do glutamato despolarizam parcialmente a membrana neuronal e reduzem o bloqueio do receptor pelo Mg+2, possibilitando a penetração de íons Ca+2 interior do citoplasma. Em conseqüência, há despolarização prolongada e deslocamento do Mg+2 do receptor NMDA, permitindo a ação do glutamato. O glutamato ativa receptores metabotrópicos, incluindo o ACPD (aminociclopentano-1,3-decarboxilato) do que resulta a ativação da fosforilase-C. que promove a formação dos segundos-mensageiros, trifosfato de inositol (TPIB) e diacil- glicerol (DAG). A DAG estimula a translocação da proteinocinase (PKC) paraas membranas celulares. O TPI3 libera os íons Ca” das reservas intracelulares (microssomais) e acarreta formação de PGs e de ácido araquidônico. A SP estimula a síntese de TPIB e ativa os canais de Ca* dependentes de voltagem. Os canais de Ca +2 dependentes de voltagem ativados, aumentam a penetração de Ca+2 no interior do neurônio. O aumento da concentração de Ca+2 intraneural ocorre alguns minutos após vários estímulos nociceptivos. Os íons Ca+2` extracelulares somam-se aos íons Ca+2 das reservas intracelulares e atuam como segundos-mensageiros, desencadeando a síntese do AMP e a ativação de fosfolipase A2 e da proteinocinase CPKC ligada à membrana dos neurônios nas lâminas superficiais do CMPE e geram o fenômeno da despolarização Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 lenta, que mantém o wind up. Disto resulta fosforilação das membranas neuronais, que se tornam hiperexcitáveis. Ocorre também ativação da sintetase de óxido nítrico. Este aumenta o fluxo sanguíneo, relaciona-se com a regeneração nervosa, com a transmissão da informação nociceptiva nos neurônios do CPME e com a manutenção da atividade neuronal após a axonotomia. O NO escoa do interior dos neurônios para o interstício e acarreta liberação de maior quantidade de neurotransmissores excitatórios dos aferentes primários, fenômeno que resulta em estados hiperalgésicos de curta duração. Como consequência, há liberação do glutamato, que gera excessiva despolarização pós-sináptica e resulta em feedback positivo. A PGE escoa pela membrana neuronal e autoexcita os neurônios. A PKC modifica a estabilidade das membranas neuronais e aumenta a sensibilidade do receptor NMDA, por remover o Mg” dos canais do receptor NMDA. A ativação mantida e o aumento da sensibilidade do receptor NMDA resultam em sensibilização e, consequentemente, em aumento do campo receptivo dos neurônios multimodais do CPME aos estímulos mecânicos. A PKC ativa os marcadores dos proto- oncogenes e aumenta a formação de genes imediatos. Os produtos proteicos dos genes imediatos atuam como terceiros mensageiros (papel transcricional) e modificam a expressão de outros genes, resultando na síntese de RNA mensageiro envolvido na geração de novos canais proteicos, fatores de crescimento, neuropeptídeos e enzimas que alteram prolongadamente a atividade da membrana neuronal. A ativação da PKC é, portanto, condição crítica para a sensibilização neuronal e hiperalgesia. Estes genes, ativados, podem ser facilmente acionados e transformar a dor temporária em dor permanente. A somação temporal induzida lentamente gera despolarização contínua e atividade neuronal espontânea e prolongada (wind-up) e exagera as reações aos estímulos mecânicos e térmicos, pois os potenciais de membrana são próximos aos Iimiares dos potenciais de ação. O wind-up constitui a fase inicial dos processos sinápticos e celulares que geram a sensibilização central. Como consequência, os campos receptivos dos neurônios expandem-se devido à maior efetividade das sinapses, do que resulta ampliação da área de dor e instalação de hiperalgesia secundária (redução do limiar ao estímulo mecânico nociceptivo em áreas distantes das lesões), alodínea mecânica secundária (percepção da sensação dolorosa deflagrada por estímulos que não apresentam magnitude para fazê-lo e dor referida secundária (sensação de dor em áreas distantes daquela que sofreu agressão). O campo receptivo para os estímulos dolorosos se torna maior que para estímulos de outras naturezas. A dor referida é devida À projeção, facilitação e somação, facilitação de estímulos em neurônios comuns e sensibilizados da lâmina V do CPME. A Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 sensibilização neuronal ocorre também nos núcleos talâmicos e nas estruturas do sistema límbico. Os neurônios da medula espinal participam de reflexos motores e autonômicas segmentares. O acionamento das unidades da coluna intermediolateral da medula espinal ativa os neurônios autonômicas simpáticos regionais, estes acarretam aumento da resistência vascular periférica e de vários órgãos, retenção urinária e alentecimento do trânsito intestinal. A ativação das unidades neuronais da ponta anterior da substância cinzenta da medula espinal é causa de hipertonia muscular, que modifica o reflexo de flexão e gera aumento do tônus muscular, com a consequente redução da expansibilidade da caixa torácica e indução de espasmos musculares que resultam em isquemia muscular, em anormalidades posturais e em síndrome dolorosa miofacial. Alguns neurônios do CPME que dão origem aos tratos espinotalâmicos e espinorreticulares são nociceptivos específicos e reagem exclusivamente à estimulação dolorosa intensa e recebem projeções nociceptivas dos aferentes primários. Outros são de grande espectro de ação e recebem contato sinápticos de aferentes mecânicos de baixo limiar, assim como de aferentes nociceptivos. A dinâmica da atividade dos neurônios no CPME permite que estimulos sejam percebidos como dolorosos e não-dolorosos, mesmo quando processados nas mesmas unidades celulares. O CPME contém também interneurônios que inibem ou facilitam a transmissão dos potenciais veiculados pelos aferentes primários para os sistemas de projeção suprassegmentares e recebe aferências de outros segmentos espinais, córtex cerebral, estruturas subcorticais e tronco encefálico, que participam do mecanismo de modulação da atividade sensitiva. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 A transição entre os estados dolorosos agudos e crônicos é causada pela sequência de eventos: ativação dos receptores NMDA pelo glutamato, ativação de outros receptores pós-sinápticos, acumulo de Ca+2 intracelular, lenta despolarização, wind-up, ativação dos mensageiros intracelulares que sensibilizam os receptores NMDA, sensibilização central, ativação dos genes pelo Ca+2, alterações sinápticas e celulares, sensibilização neuronal aos estímulos nociceptivos e não-nociceptivos, aumento da atividade espontânea, expansão dos campos receptivos, hiperalgesia, alodínea e dor espontânea. A transferência das informações nociceptivas da medula espinal para as estruturas encefálicas é feita por vários sistemas neuronais compostos de fibras longas, tais como os tratos espinotalâmicos, espinorreticular, espinomesencefálico, espinocervical, pós- sináptico do funículo posterior e intracornual. O maior contingente de tratos caudo-rostrais envolvidos com a nocicepção está presente no quadrante anterior da medula espinhal. As fibras nervosas aí presentes são geralmente mielínicas e 50% delas são de pequeno calibre. As fibras do trato espinotalâmico se originam nas lâminas I e V, lâminas I e IV e lâminas I, IV, V. Vl, Vll do CPME. Há um maior destaque foi dado ao papel dos neurônios situados nas lâminas Vl, Vll e Vlll, ativados por células internunciais presentes no CPME, como locais de origem de fibras espinotalâmicas. O maior contingente dessas fibras, após sua emergência, cruza a linha mediana na comissura branca anterior e desloca-se rostralmente pelo quadrante ântero-lateral oposto da medula espinal. A maioria das fibras do trato espinotalâmico veicula estímulos dolorosos e não-dolorosos, havendo pequeno número de fibras nociceptivas específicas. Devido ao mecanismo de convergência, que ocorre no CPME, há menor número de fibras no trato espinotalâmico do que nos aferentes nociceptivos primários. Cerca de dois terços das células que dão origem aos tratos espinotalâmicos responde à estimulaçãonociva. Algumas fibras são ativadas rapidamente por estímulos nocivos intensos e outras reagem lentamente. No ser humano, as fibras do trato espinotalâmico se projetam nos núcleos do complexo ventrobasal, núcleo centrolateral e núcleos intralaminares do tálamo. Apenas 20 a 30% das fibras do trato espinotalâmico alcançam os núcleos do complexo ventrobasal do tálamo nos primatas. Os colaterais do trato espinotalâmico se projetam na formação reticular do bulbo, ponte e mesencéfalo, incluindo os núcleos gigantonuclear, paragigantocelular e substância cinzenta periaquedutal mesencefálica. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 As fibras do trato espinotalâmico se originam das lâminas VII e VII da substância cinzenta da medula espinhal. Se originem das lâminas VII e VIII da substância cinzenta da medula espinal. Ha fibras espinorreticulares homo e contralaterais na medula espinhaI. Aquelas que se projetam no núcleo gigantocelular e no tegmento pontino lateral estão relacionadas com o mecanismo da nocicepção. Colaterais do trato espinorreticular projetam-se também no núcleo subcerúleo ventral e dorsal. Dos núcleos de formação reticular ativados pelos tratos espinorreticulares, a informação é transferida para os núcleos intralaminares do talamo, talamo ventral e hipotálamo. As células de origem do trato espinorreticular são ativadas por estímulos nocivos e não-nocivos, superficiais e profundos. Talvez o sistema espinorreticular não seja fundamental para o processamento sensitivo discriminativo, pois parece estar envolvido com o fenômeno de despertar e contribui para a ocorrência das manifestações emocionais, afetivas e neurovegetativas relacionados à dor. Participa também do mecanismo de regulação das vias nociceptivas segmentares, por meio de sistemas rostro-caudais originados na formação reticular do tronco encefálico. As fibras do trato espinomesencefálico se originan nos neurônios nas lâminas I e V e, menos densamente nas lâminas vizinhas e se projetam na formação reticular mesencefálica, incluindo subnúcelo lateral da substância cinzenta periaqüedutal e o teto mesencefálico. A maior parte das fibras do trato espinomesencefálico é contralateral à sua origem na medula espinhal. A sua lesão reduz as respostas nociceptivas. Tratos de fibras presentes nos quadrantes posteriores da medula espinal participam também da condução da informação nociceptiva no homem e nos animais. No trato espinocervical e no trato pós-sináptico dos funículos posteriores, há fibras que reagem à estimulação nociceptiva e outras a estímulos nociceptivos e não-nociceptivos. As fibras do trato espinocervical originam-se nas lâminas I III e IV do CPME e projetam- se, via quadrante lateral homolateral da medula espinal, no núcleo cervical lateral onde fazem sinapses com neurônios que originam fibras que cruzam a linha média e projetam- se no complexo ventrobasal do tálamo, formação reticular do tronco encefálico e diencéfalo. O trato pós-sináptico do funículo posterior se origina nas laminas V e VI ou III, IV e V2 do CPME e é somatotopicamente organizado. Nos núcleos talâmicos, há unidades celulares que respondem à estimulação nociceptiva e não-nociceptiva. As vias nociceptivas discriminativas do trato espinotalâmico projetam-se no complexo ventrobasal, no grupamento nuclear posterior, núcleos intralaminares e núcleo submédio do tálamo e, as vias espino-reticulotalâmicas, nos núcleos centromediano, centrolateral e parafascicular do tálamo e, porção magnocelular Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 do corpo geniculado medial84"4°. Os campos receptivos das unidades celulares talâmicas envolvidas na nocicepção, em geral, são bastante amplos, frequentemente bilaterais, e comumente, multimodais. No complexo ventrobasal do tálamo, há organização somatotópica bem definida e suas unidades celulares projetam-se, com organização somatotópica, no córtex sensitivo SI e SII. Neurônios do núcleo ventral posterolateral projetam-se também no córtex orbitário. Unidades celulares do núcleo centromediano, parafascicular e núcleos intralaminares reagem a estímulos nocivos e não-nocivos, apresentam grandes campos receptivos e recebem aferências bilaterais. A projeção para o estriado e córtex pré-motor sugere que esses núcleos estejam relacionados à reação motora envolvida no mecanismo de defesa aos estímulos nociceptivos. Aferentes espinais e do núcleo caudal do complexo espinal trigeminal projetam-se no núcleo submédio do tálamo medial. Há projeções desse núcleo para o córtex fronto- orbitário, porção basomedial da amígdala e áreas de associação do córtex frontal, occipital e temporal. Cerca de 50% a 80% dos neurônios do núcleo gigantocelular reagem à estimulação nociva principalmente recrutada por fibras. Alguns de seus neurônios reagem à estimulação nociva apenas e outros a estímulos nocivos e não-nocivos. Suas células apresentam atividade excitatória e inibitória e grande campos receptivos e originam libras que compõem o trato retículo-espinal e projeções rostrais para os núcleos centromediano e parafascicular do tálamo. Na formação reticular mensencefálica há neurônios que reagem à estimulação das vias nociceptivas do tálamo e que parecem estar envolvidos com os mecanismos nociceptivos. Projeções reticulotalâmicas exercem atividade e ini itoria sobre os nucleos do complexo ventrobasal talâmico. A via espinomesencefalotalamica atua elevando a inibição tônica sobre o complexo ventrobasal do tálamo. A área pontina parabraquial participa também de alguns aspectos do processamento nociceptivo, uma vez que recebe aferências da lâmina I da medula espinhal e origina fibras que se projetam na amígdala e, provavelmente, no tálamo. Esta via parece participar dos aspectos emocionais relacionados à dor. As estruturas que compõem o sistema límbico recebem aferências do núcleo ventral anterior, formação reticular do tronco encefálico e núcleos posteriores do tálamo. O hipotálamo recebe aferências da formação reticular mesencefálica, núcleo ventral anterior do tálamo e córtex frontal. Poucos neurônios da área sensitiva principal respondem à estimulação nociva. Na porção posterior da área SII há neurônios Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 multimodais que reagem à estimulação nociceptiva, apresentam grandes campos receptivos e são ativados por estímulos bilaterais. Na área Ms1, há neurônios que reagem a estímulos menos específicos. Nas áreas de associação fronto-orbitárias há neurônios multimodais que respondem a estímulos nocivos e não nocivos. O núcleo se projeta no córtex cerebral via núcleo ventrolateral, ventromedial, ventral anterior e dos núcleos da linha média. Os núcleos da linha média se projetam no córtex cerebral via núcleo dorsal anterior do tálamo. O grupamento nuclear talâmico posterior se projeta na área SII. A projeção dos núcleos da linha média no complexo ventrobasal do tálamo é inibitório. Existem conexões recíprocas entre as áreas sensitivas primárias e secundárias homo e contralaterais entre estas e o córtex motor primário, córtex parietal e estruturas do sistema límbico. Há conexões entre o núcleo centromediano, grupamento nuclear posterior do tálamo, estriado e projeções originadas do córtex sensitivo primário para o complexo ventrobasal, grupamento nuclear posterior, núcleo para fascicular e, talvez, centromediano do tálamo. A área motora primária se projeta nos núcleostalâmicos específicos e inespecíficos. O córtex sensitivo secundário se projeta nos núcleos complexo ventrobasal, grupo nuclear posterior e centromediano. A área motora primária se projeta nos núcleos talâmicos específicos e inespecíficos. Há projeções do córtex sensitivo e motor, córtex orbitário e giro temporal superior para a formação reticular do tronco encefálico do córtex sensitivo primário e motor principal para as estruturas dos cornos anterior e posterior da medula espinhal e do córtex orbitário para as lâminas profundas do CPME, que tem atividade excitatória e inibitória. O omplexo espinotalâmico possui a função discriminativa da dor. A projeção via grupamento nuclear posterior e núcleos intralaminares do tálamo não exerce atividade discriminativa. As vias que se projetam na formação reticular do tronco encefálico e nas estruturas do sistema límbico, mediante o trato espinorreticular, estão relacionadas aos aspectos afetivos e motivacionais associados à nocicepção. A conexão recíproca existente entre as estruturas da medula espinal, formação reticular do tronco encefálico tálamo e córtex cerebral possibilita a avaliação dos aspectos qualitativos e quantitativos dos estímulos nociceptivos. O complexo nuclear envolvido no processamento da informação exteroceptiva da face e da cavidade oral é subdividido, citoarquitetonicamente, em núcleos mesencefálico e principal, localizados rostralmente, e núcleo do trato espinhal do nervo trigêmeo, localizado caudalmente. A última estrutura foi subdividida, com base na sua composição celular, em subnúcleo caudal, subnúcleo interpolar e subnúcleo oral. O complexo nuclear trigeminal espinhal e o núcleo trigeminal principal estão envolvidos na nocicepção facial. A sensibilidade nociceptiva da face é, principalmente, mas exclusivamente, processada no Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 subnúcleo caudal. Este pode participar da nocicepção mediante outras vias que não a projeção trigeminotalâmica direta. O núcleo trigeminal rostral recebe fibras ascendentes do subnúcleo caudal. Aquele, por sua vez, pode modular a atividade do núcleo caudal. A nocicepção da face deve ser codificada pela somação central de impulsos de muitos aferentes do complexo nuclear trigeminal. As fibras de calibre grosso, presentes no nervo trigêmeo, ao penetrarem na ponte, dividem-se em ramos rostrais, que se destinam aos núcleos principal e mesencefálico, e ramos caudais que se projetam nos diferentes componentes do complexo trigeminal descendente. As fibras A fazem sinapses dendríticas e algumas, em glomérulos, nas estruturas nucleares do complexo trigeminal, que correspondem as lâminas Ill, IV e V do CPME. Os potenciais aferentes de receptores mecânicos de adaptação rápida são conduzidos por fibras mielínicas finas e alcançam a porção rostral da subdivisão caudal do núcleo do trato espinal do nervo trigêmeo. Vários colaterais, ao longo dessa via, projetam-se nas unidades correspondentes as lâminas III, IV e V do CPME. As aferências musculares, veiculadas pelas fibras A-delta e C, projetam-se na porção distal do subnúcleo interpolar e nas lâminas I e V da subdivisão caudal do núcleo do trato espinal do nervo trigêmeo e da medula cervical rostral. As aferências nociceptivas A-delta projetam-se nas lâminas l, ll, Ill e V da medula cervical. A aferência visceral, veiculada pelos nervos intermediário, vago e glossofaríngeo, cursa pelo trato espinal do nervo trigêmeo e projeta-se na subdivisão caudal do complexo nuclear e no núcleo do trato solitário. Do núcleo caudal do complexo trigeminal, as fibras projetam-se no complexo ventrobasal contralateral do tálamo e nos núcleos intralaminares. As fibras do núcleo sensitivo principal projetam-se no complexo ventrobasal homo e contralateral do tálamo. A atividade dos neurônios do subnúcleo caudal é fundamental no processamento da dor facial. Anatomia das vias nociceptivas Conceitos básicos ➔ Nocicepção – propriedade dos nociceptores de perceber um estímulo potencialmente lesivo aos tecidos. ➔ Nociceptores – receptores preferencialmente sensíveis a estímulos nociceptivos. Terminações nervosas livres de fibras A-delta e C do aferente primário nociceptivo. ➔ Estímulos Nociceptivos – estímulos nocivos que podem lesar os tecidos e causar, podendo ser térmicos, mecânicos e químicos. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 ➔ Impulsos nociceptivos – potenciais elétricos de ação que são conduzidos da periferia para o sistema nervoso central. ➔ Aferente primário nociceptivo – neurônio periférico de cadeia de neurônios que conduz os impulsos nociceptivos da periferia para o sistema nervoso central. ➔ Fibra nervosa – axônios dos neurônios. As fibras nervosas envolvidas na conução de impulsos nociceptivos são classificadas em fibras grossas mielinizadas A-delta e fibras finas não-mielinizadas C. Os principais mecanismos envolvidos na dor são: ➔ Sensibilização – mecanismos em que os estímulos nociceptivos sensibilizam os nociceptores (sensibilização periférica) e os impulsos nociceptivos sensibilizam as sinapses (sensibilização central). ➔ Transdução – capacidade dos nociceptores em transformar estímulos nociceptivos em impulsos nociceptivos (potencial de ação). Indispensável já que o neurônio só conhece a linguagem elétrica. ➔ Condução – propagação dos impulsos nociceptios da periferia para o sistema nervoso central, pelas vias nociceptivas. ➔ Modulação – conjunto de mecanismos que modificam ou alteram os impulsos nociceptivos. ➔ Percepção – conjunto de mecanismos centrais que discriminam, interpretam e decodificam o fenômeno doloroso. ➔ Reação – conjunto de respostas finais à dor, podendo ser somáticas (voluntárias), reflexas (involuntárias) e psicológicas (sofrimento). Aferente primário nociceptivo É o neurônio periférico da transdução e da via de condução periférica dos impulsos nociceptivos. O corpo celular está na raiz dorsal dos nervos espinhas e no gânglio de Gasser do 5º nervo craniano (trigêmeo). Seu prolongamento periférico ou longo é constituído por fibras A-delta e C que se une as demais fibras dos nervos periféricos e termina na periferia em forma das terminações livres chamadas de nociceptores. Nele hpa receptores para diversas substâncias algogênicas como histamina, serotonina, bradicinina, tromboxanos, leucotrienos e prostaglandinas. Os nociceptores são divididos em: ➔ Mecanotermonociceptores A-delta ➔ Mecanonociceptores A-delta de alto limiar Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 ➔ Nociceptores C polimodais de baixo limiar ➔ Nociceptores C polimodais de alto limiar Os nociceptores C polimodais de baixo limiar reconhecem e conduzem impulsos originários de estímulos inócuos. Os nociceptores C polimodais de alto limiar reconhecem e conduzem impulsos originários de estímulos nocivos que podem lesar os tecidos. Têm alto limiar de sensibilidade e ausência de acomodação. Só se sensibilizam por estímulos nocivos aos tecidos. Seu núcleo produz numerosas substâncias denominadas receptores de membrana e neurotransmissores excitatórios e inibitórios. Serão citados apenas o receptor opioide e os neurotransmissores excitatórios chamados de substância P (sP) e glutamato (Glu) que, após produzidos, caminham pelo prolongamento curot ou central e são colocados no terminal pré-sináptico. O glutamato é o mais importante neurotransmissor excitatório da medula espinhal. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Sensibilização periférica Esse processo se resume nas prostaglandinas reduzirem o limiar desensibilidade dos nociceptores e deflagrarem o fenômeno da sensibilização periférica. Várias outras substâncias algogênicas, como bradicinina, histamina, substância P, serotonina, K+, e H+, são liberadas nos tecidos inflamados, formando o coquetel inflamatório ou sopa inflamatória, que produz vasodilatação regional e os sinais flogísticos (dor, calor, rubor e edema), produzindo o fenômeno da hiperalgesia primária, caracterizado pela resposta aumentada aos estímulos nociceptivos. Transmissão dos impulsos nociceptivos nas sinapses medulares Os impulsos nociceptivos chegam ao corno posterior da medula espinhal e percorrem até a lâmina 5, onde se localizam os neurônios multirreceptivos (células de projeção, células de transmissão T ou WDRc = wide-dynamic-range cells), que recebem os impulsos nociceptivos e inócuos provindos da periferia. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Sensibilização central A sp tem função moduladora e ajusta a sensibilidade da membrana pós-sináptica à ação do glutamato. O terminal pós-sináptico contém enzimas cálcio-dependentes, que se encontram inativas porque dependem da presença do cálcio para se tornarem ativas. Essas principais enzimas são a óxido-nítrico-sintetase, as cicloxigenases e as fosfolipases. Em uma lesão tecidual, os impulsos nociceptivos repetitivos e intensos conduzidos pelas fibras C acabam por criar potenciais lentos e elevados no nível sináptico, os quais fazem com que os receptores NMDA percam seu bloqueia de MG+2, tornando-se permeáveis à entrada de íons cálcio (Ca+2). Grandes quantidades de íons Ca+2 penetram através da membrana pós-sináptica e atuam no sistema óxido-nítrico- sintetase, que produz grandes quantidades de óxido nítrico (NO). O NO récem-produzido transpõe a membrana pós-sináptica, alcança a fenda sináptica e, como sugundo- mensageiro, atua na membrana pré-sináptica, estimulando a liberar novas quantidades de glutamato que vão novamente fixar-se aos receptores de NMDA. Assim é formado um sistema de retroalimentação. A hiperalgesia consiste em uma resposta aumentada, exagerada aos estímulos nociceptivos. A aloidinia é a resposta dolorosa a um estímulo inócuo, que normalmente não produz dor. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Vias ascendentes nociceptivas São compostas principalmente pelos tratos: ➔ Espinotalâmico ➔ Espinorreticular ➔ Espinomesencefálico ➔ Espinocervical ➔ Sistema trigeminal ➔ Via pós-sináptica da coluna dorsal ➔ Espinocervical ➔ Sistema proprioespinal Entretanto o mais estudado e mais importante é o trato espinotalâmico, cujos núcleos estão nas lâminas medulares I, IV e V, e é subdividido em dois feixes: ➔ Neoespinotalâmico ➔ Paleoespinotalâmico O feixe neoespinotalâmico sobe diretamente da medula para os núcleos do tálamo, onde faz sinapses com neurônios de terceira ordem (III), com fibras que terminam nas áreas S1 e S2 do córtex somatossensorial (córtex somestésico). Nessas áreas ocorrem o processamento da percepção, a discriminação e a decodificação têmporo-espacial da dor. O feixe paleoespinotalâmico termina nos núcleos dorsomedial e central do tálamo, fazendo sinapses com neurônios de terceira ordem (III), com as fibras alcançando o córtex frontal, pelo sistema límbico. As interações deste feixe com o sistema límbico e o córtex frontal respondem por mecanismos de reação à dor e dão origem ao fenômeno fundamental e mais importante da dor: o sofrimento. O feixe paleoespinotalâmico não é direto da medula para o tálamo, igual ao neoespinotalâmico. Várias fibras desse feixe formam colaterais que terminam em várias estações sinápticas. As principais sinapses feitas em núcleos do tronco cerebral são: ➔ Substância cinzenta periaquedutal (PAG) do mesencéfalo ➔ Substância cinzenta periventricular ➔ Núcleo magno da rafe ➔ Lócus coeruleus ➔ Núcleo gigantocelular Todos se interconectam para formar fibras descendentes, que, pelo trato dorsolateral, formam o sistema analgésico central descendente. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Modulação Nos seres humanos há opioides endógenos que tem relação com os mecanismos de modulação. Para que sejam entendidos os mecanismos de modulação, é necessário considerar o importante papel do interneurônio encefalinérgico, localizado no corno posterior da medula espinhal. A modulação ocorre em dois npiveis ➔ Nível segmentar ou medular ➔ Nível supra-segmentar ou supramedular Modulação segmentar Envolve a atividade das vias discriminativas de tato, pressão e propriocepção consiente. Os nervos sensitivos A-beta chegam na medula e formam um prolongamento longo e um prolongamento curto, o qual penetra no corno posterior da medula espinhal, fazendo sinapse com os interneurônios enfecalinérgicos e dinorfinérgicos, com fibras que conectam a membrana pré-sináptica do aferente primário nociceptivo. Os impulsos aferentes conduzidos pelas fibras grossas mielinizadas A-beta inibem, ao nível do corno posterior da medula espinhal, a transmissão dos impulsos aferentes nociceptivos conduzidos pelas fibras finas A-delta e C. É o mecanismo de analgesia produzido por massagem, TENS e acupuntura. Modulação supra-segmentar O trato paleoespinotalâmico emite numerosas fibras colaterais, fazendo conexões sinápticas nos níveis bulbar e mesencefálico, que estão conectados entre si, Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Ao estimular a substância cinzenta periaquedutal do mesencéfalo, a mesma produz encefalinas que agem sobre o núcleo magno da rafe e o locus coeruleus, produzindo serotonina e noradrenalina. Caminhando pelas fibras serotoninérgicas e noradrenérgicas, os impulsos descem pelo sistema analgésico central descendente, pelo trato dorsolateral, estimulando o interneurônio encefalinérgico do corno posterior, para que produza encefalinas que se acoplam ao receptor opioide da membrana do terminal pré-sináptico do aferente primário nociceptivo. Isso produz inibição pré-sináptica por hiperpolarização da membrana do aferente primário, bloqueando a liberação de sP e glutamato para a fenda sináptica. Classificação fisiopatológica da dor ➔ Dor nociceptiva – causada pela ativação dos nociceptores e pela transmissão dos impulsos gerados, que percorrem as vias nociceptivas até as regiões do sistema nervoso central, onde são interpretados. A dor secundária a agressões externas (picada de um inseto, fratura de um osso, corte da pele), a dor visceral (cólica nefrética, apendicite), a neuralgia do trigêmeo, a dor da artrite e da invasão neoplásica dos ossos são exemplos de dor nociceptiva. Quanto menor é o número de segmentos medulares envolvidos na inervação de uma estrutura, mais localizada é a dor (somática superficial). Em contrapartida, quanto maior o número de segmentos medulares, mais difusa é a dor (visceral e somática profunda). É divida em: ➢ Espontânea – expressa com as mais variadas designações: pontada, facada, agulhada, aguda, rasgando, latejante, surda, contínua, profunda, vaga, dolorimento. Todas essas denominações sugerem lesão tissular. ➢ Evocada – desencadeada por algumas manobras como: manobra de Lasegue na ciatalgia, a dor provocada pelo estiramento da raiz nervosa, obtida pela elevação do membro inferior afetado, estando o indivíduo em decúbito dorsal, e lavar o rosto e escovar os dentes, nos pacientes com neuralgia do trigêmeo. ➔ Dor neuropática – desencadeada por algumas manobras como: manobra de Lasegue na ciatalgia, a dor provocada pelo estiramento da raiz nervosa, obtida pela elevação do membroinferior afetado, estando o indivíduo em decúbito dorsal, e lavar o rosto e escovar os dentes, nos pacientes com neuralgia do trigêmeo. Tem dois componentes, podendo ser intermitente (decorre da ativação das vias nociceptivas pela cicatriz formada no foco lesional ou por Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 efapse – impulsos motores descendentes cruzam para as vias nociceptivas no sítio de lesão do sistema nervoso) ou evocada (se deve aos rearranjos sinápticos decorrentes da desaferentação. A reinervação de células nociceptivas desaferentadas por aferentes táteis, por exemplo, faria com que a estimulação tátil, ao ativar neurônios nociceptivos, produzisse uma sensação dolorosa, desagradável – alodínia). Apresenta-se em três formas: constante (maioria dos casos), intermitente (frequente em lesões da medula e periféricas) e evocada (mais da metade dos casos – frequente em SNC e SNP) ➔ Dor mista – decorre dos dois mecanismos anteriores. Ocorre, por exemplo, em certos casos de dor por neoplasia maligna, quando ela se deve tanto ao excessivo estímulo dos nociceptores quanto à destruição das fibras nociceptivas. ➔ Dor psicogênica – toda dor tem um componente emocional associado, o que varia é sua magnitude. A dor psicogênica, porém, é uma condição inteiramente distinta, para a qual não há nenhum substrato orgânico, sendo gerada por mecanismos puramente psíquicos. Não tem localização fixa. Tipos de dor ➔ Dor somática superficial: é a modalidade de dor nociceptiva decorrente da estimulação dos nociceptores do tegumento, bem localizada e apresentar qualidade bem distinta, intensidade proporcional ao estímulo. ➔ Dor somática profunda: decorrente da ativação de nociceptores dos músculos, fáscias, tendões, ligamentos, articulações. Dor mais difusa que a superficial, localização imprecisa, intensidade proporcional ao estímulo ➔ Dor visceral: decorrente da estimulação dos nociceptores viscerais,difusa,de difícil localização.Pode ser relacionada com o comprometimento da própria viscera,do peritônio ou da pleura parietal,da irritação do diafragama ou do nervo frênico. ➢ A dor visceral verdadeira tende a se localizar em local próximo ao órgão que se origina ➢ A dor referida pode ser definida como sensação dolorosa superficial distante da estrutura profunda Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 ➔ Dor irradiada: a dor sentida a distância da sua origem porém obrigatoriamente em estruturas inervadas pela raiz nervosa do nervo cuja estimulação nóxica é responsável pela dor ➔ Dor referida – pode ser definida como uma sensação dolorosa superficial, que está distante da estrutura profunda (visceral ou somática) cuja estimulação nóxica é a responsável pela dor. ➔ Dor aguda e crônica – em conformidade com sua distribuição temporal, a dor pode ser classificada em aguda ou crônica. A dor aguda é uma importantíssima modalidade sensorial, desempenhando, entre outros, o papel de alerta, comunicando ao cérebro que algo está errado. A dor crônica é a que persiste por um período superior ao necessário para a cura de um processo mórbido ou que está associada a afecções crônicas (câncer, artrite reumatoide, alterações degenerativas da coluna), ou, ainda, a que decorre de lesão do sistema nervoso. Semiologia da Dor ➔ Localização: refere-se a região que o paciente sente dor ➔ Irradiação: ➢ Localizada; ➢ Irradiada; pode surgir em decorrência do comprometimento de qualquer raiz nervosa ➢ Referida; ➔ Qualidade ou caráter: o paciente é solicitado a descrever como sua dor se parece e qual sensação/emoção ela lhe traz ➢ Dor evocada: só ocorre mediante provocação ✗ Alodinia: sensação desagradável dolorosa, provacada pela estimulação tátil repetitiva de uma área com limiar de excitabilidade aumento (área hipoestésica).Presente na dor neuropática(tato da roupa ou lençol. ✗ Hiperpatia: sensação desagradável mais dolorosa que o usual provocada pela estimulação noxica repetitiva de uma área com limiar de excitabilidade aumentado. Presente na dor neuropática. ✗ Hiperalgesia: respostas exageradas ao estímulo de uma área com limiar de excitabilidade baixo. Pode ser primaria (ocorre em uma área lesionada), ou secundaria (ocorre ao redor da área lesionada) Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 ➢ Dor espontânea: ✗ Constante: ocorre continuamente podendo variar na sua intensidade, mas sem nunca desaparecer completamente. ✗ Dor intermitente: ocorre episodicamente, sendo sua frequência e duração bastante variáveis ➔ Intensidade ➢ Ausência de dor, dor leve, dor moderada, dor intensa, dor insuportável (muito subjetiva) ➢ Utilização de uma escala analógica visual para avaliar a dor ➔ Duração: ➢ Em caso de uma dor cíclica, registrar a data e a duração de cada episódio doloroso ➢ Dor intermitente: registrar a data do início e a duração media dos episódios dolorosos, o número médio ➢ Dor aguda ➢ Dor crônica ➔ Evolução: acompanhamento das mudanças das características clincas da dor ➔ Relação com funções orgânicas ➔ Fatores desencadeantes ou agravantes ➔ Fatores atenuantes da dor ➔ Manifestações concomitantes Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Avaliação e mensuração da dor na prática médica A Agência Americana de Pesquisa e Qualidade em Saúde Pública e a Sociedade Americana de Dor descrevem a dor como o “quinto” sinal vital, sendo a dor sempre ser registrada ao mesmo tempo e no mesmo ambiente clínico em que também são avaliados os outros sinais vitais, quais sejam: temperatura, pulso, respiração e pressão arterial. Cumpre salientar, entretanto que a dor é sintoma e não sinal; por força de expressões. utiliza-se o termo sinal para configurá-la. A mensuração da dor é importante no ambiente clínico, pois é impossível controlá- la ou modificá-la apropriadamente sem mensurá-la; sem medida, é difícil determinar-se a necessidade do tratamento, sua eficácia ou a sua descontinuação. A mensuração possibilita a determinação dos riscos do tratamento em relação aos danos causados pela afecção clínica e selecionar o procedimento analgésico melhor e mais seguro. A medida da dor possibilita examinar a natureza, as origens e os correlatos clínicos da dor, em função das características emocionais, motivacionais, cognitivas e de personalidade do doente. Mensuração da dor Vários métodos são utilizados para mensurar a percepção e sensação da dor. A dor não é qualidade simples, única e unidimensional que varia apenas em intensidade, mas sim, experiência multidimensional que comporta aspectos afetivo-emocionais. Por ser experiência subjetiva, a dor não pode ser objetivamente determinada por instrumentos físicos, como os que mensuram o peso, a temperatura, a altura, a pressão sanguínea e o pulso. Assim não há instrumento padrão que possibilite mensurar de forma objetiva uma experiência interna, complexa e pessoal. Os instrumentos unidimensionais são designados para quantificar apenas a intensidade da dor e são usados frequentemente em hospitais e/ou clínicas para coleta de informações rápidas, não-invasivas, porém válidas, sobre dor e analgesia. Os instrumentos multidimensionais, por outro lado, avaliam e mensuram as diferentes dimensões da dor a partir de diferentes indicadores de respostas e suas interações. As principais dimensões avaliadas são a sensitiva, a afetiva e a avaliativa. Algumas escalas multidimensionais incluem indicadores fisiológicos, comportamentais, contextuais e auto-registros de alguns aspectos de sua vida pelos próprios doentes. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Instrumentosunidimensionais Escala de categoria numérica verbal – para usar a escala de categoria numérica ou de categoria verbal. solicita-se ao doente classificar a magnitude da percepção ou sensação da dor, baseando-se em um conjunto de descritores específicos, como, por exemplo, ausência de dor, dor fraca, dor moderada, dor intensa. Usualmente, o doente lê a lista de palavras e escolhe a que melhor descreve a intensidade da dor sentida. A escala numérica consiste de uma série de números que variam de 0 a 10 ou 0 a 100, com os pontos finais representando a experiência de dor extrema, usualmente denominada de “nenhuma dor” ou “pior dor possível”, respectivamente. Neste caso, o doente escolhe um número que melhor representa a intensidade subjetiva da sua dor. Escala Analógica Visual – frequentemente utilizada para mensurar a dor em ambientes clínicos, principalmente em unidades de emergência ou em prontos-socorros. Tipicamente consiste de uma linha de 10 de comprimento com os seus extremos rotulados como “nenhuma dor” e “pior dor imaginável” ou “dor intolerável”. Os doentes são instruídos a marcar na linha a indicação da gravidade da dor sentida. Os valores em mm (ou cm) indicados no verso da escala representam, portanto, a intensidade da dor percebida. Variações desta escala incluem alinhamentos verticais ou horizontais, colocação de descritores verbais ao longo da escala e variações nos comprimentos físicos das escalas. Variantes desta escala, tais como uma régua métrica com diferentes descritores verbais ou um termômetro da dor, são utilizadas para facilitar o uso e o escalonamento por parte de diferentes grupos de doentes. Devido à facilidade de uso, a Escala Analógica Visual é bastante popularizada. Instrumentos multidimensionais Escala de descritores diferenciais – Recentemente, técnicas psicofísicas simples, mas sofisticadas, passaram a ser usadas para avaliar e mensurar a dor clínica e a dor experimental. A psicofísica frequentemente utiliza procedimentos de estimação de magnitude e de emparelhamento intermodal para determinar a magnitude relativa, tanto de diferentes descritores verbais de dor quanto de diferentes estímulos físicos (choque elétrico, calor radiante. estimulação elétrica na pele ou na polpa dentária) apresentados pelo clínico ou experimentador. Estes métodos enfatizam julgamentos de razão ou de proporção de quão intenso é cada estímulo e quaisquer números inteiros.,e mesmo decimais ou frações, podem ser utilizados para refletirem a magnitude relativa dos descritores ou dos estímulos apresentados em ordem aleatória. Teoricamente não há limite inferior ou superior no contínuo das respostas. A Escala de Descritores Diferenciais, Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 foi construída dentro deste enfoque da psicofísica, é instrumento multidimensional especificamente desenvolvido para mensurar a intensidade e componente afetivo- hedônico dador e com propriedades escalares embasadas na razão. Consiste de duas formas que medem separadamente as qualidades sensorial (intensidade) e hêdonica (desprazer) da dor. Ambas consistem de 12 descritores verbais: cada descritor é centralizado numa escala de 21 pontos com um sinal de menos no extremo inferior e um sinal de mais no extremo superior. Os doentes devem julgar a magnitude da intensidade sensitiva ou do desprazer da dor que experienciam. A magnitude da dor percebida em relação a cada descritor é assinalada um escore de 0 (sinal negativo) ou de 20 (sinal positivo). O escore de 10 representa a intensidade da dor ou do desprazer igual à magnitude implicada pelo descritor. Escores médios podem ser obtidos tanto para a dimensão de intensidade quanto para a do desprazer da dor, calculando-se os escores dos doentes em cada forma composta pelos doze itens. Questionário McGill de avaliação da dor – A premissa básica subjacente a este questionário ou inventário multidimensional de avaliação da dor é que os aspectos sensitivos, afetivos e avaliativos são refletidos na linguagem usada para descrever a experiência dolorosa. O questionário foi elaborado inicialmente a partir de uma lista de I02 palavras que foram avaliadas por um grupo de estudantes universitários das áreas da saúde, instruídos para agruparem aquelas palavras que descreviam aspectos similares da experiência dolorosa. Ulteriormente, foram selecionadas 78 palavras que os estudantes mais frequentemente agruparam. Isto resultou em I 6 subgrupos que foram rotulados e classificados segundo as dimensões: sensitivas (IO subgrupos), afetiva (5 subgrupos) e avaliativa (um subgrupo). Quatro outros subgrupos de palavras foram considerados como mistos por não se enquadrarem em qualquer dimensão anterior. Ulteriormente, grupos de médicos, de doentes e de estudantes foram solicitados a assinalar um escore que refletisse a intensidade de cada palavra segundo escala de categoria numérica que variava de uma dor mínima (ou suave) a uma dor intolerável (excruciante). Verificou-se que várias palavras em cada subgrupo pareciam ter as mesmas relações de intensidade relativa em todas as três dimensões principais. Devido ao alto grau de concordância quanto às relações de intensidade entre os diferentes descritores de dor para doentes oriundos de diferentes contextos culturais, socioeconômicos e educacionais, este questionário passou a ser empregado como instrumento experimental para análise dos efeitos de vários procedimentos e/ou técnicas de manipulação da dor. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Instruções 1 – O profissional deverá solicitar ao doente que julgue a intensidade de dor utilizando os valores de 0 a 10 na escala abaixo, em que 0 indica “sem dor” e 10 “dor máxima”: os outros valores, de 1 a 9 deverão ser utilizados para indicar níveis intermediários da dor. Posteriormente, deve-se marcar no gráfico o valor atribuído de acordo com o horário. 2 – O doente também deverá assinalar um ou mais descritores que caracterizam a dor sentida. Posteriormente, o profissional deverá marcar com “x” no gráfico o(s) descritor(es) escolhido(s), de acordo com o horário. Este espaço somente deverá ser preenchido se a dor sentida for caracterizada como aguda. 3 – O profissional deverá solicitar que o doente localize a dor. Após visibilizar a figura deste instrumento, o profissional deverá situar a(s) área(s) pertinente(s) e registrar no gráfico com “x” conforme o número correspondente, seguindo o horário da dor em que a dor é sentida. Descritores da dor aguda: 1 – Terrível: 1.Que infunde ou causa terror; terrificante. 2. Extraordinária; estranha. 3. Muito grande; enorme. 4. Muito ruim; péssima. 2 – Insuportável: I . Não suportável; intolerável. 2. incômoda; molesta. 3 – Enlouquecedora: 1. Que endoidece; que torna louca; que faz perder a razão. 4 – Profunda: 1. Que tem extensão, considerada desde a entrada até o extremo oposto. 2. Muito marcada. 3. Que penetra muito; dor profunda. 4. Enorme; desmedida; excessiva; demasiada. 5. De grande alcance; muito importante. 5 – Desesperadora: 1. Que desespera; que faz desesperar; desesperante; desesperativa. 2. Aquela que faz desesperar. 6 – Fulminante: 1. Que fulmina; despede raios; fulminadora. 2. Que assombra. 3. Cruel; terrível; atroz. 7 – Aniquiladora: 1. Que reduz a nada; que nulifica; anula. 2. Que destrói; mata; extermina. 8 – Monstruosa: 1. Enorme, extraordinária. 9 – Alucinante: 1. Que alucina; faz perder o tino; a razão; o entendimento; alucinatório. Estonteante- 10 – Desumana: 1. Que desespera;que faz desesperar; desesperante; desesperativa. 2. Aquela que faz desesperar. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Aspectos biopsicossociais da dor Dores crônicas podem ter alto impacto na capacidade funcional das pessoas. Entretanto, isto não é um fenômeno universal e, embora alguns pacientes tornem-se incapacitados fisicamente, outros parecem se ajustar bem às dores crônicas. Uma vez que dores crônicas não são sinônimos de incapacidade, é extremamente importante identificar quais fatores promovem um funcionamento desadaptativo em decorrência deste quadro. Existem fortes evidências de que as dores crônicas podem estar associadas à incapacidade física, distúrbios emocionais e dificuldades sociais. Além disto, tem sido reconhecido que fatores emocionais, cognitivos e sociais mediam a experiência subjetiva da dor. De acordo com o modelo biopsicossocial de dor5, a manifestação e manutenção de dores crônicas são funções dinâmicas de predisposições, estímulos e respostas preceptoras e fatores mantenedores. Variáveis predisposicionais podem incluir fatores genéticos, processos de aprendizagem e fatores ocupacionais. Estímulos preceptores podem ser externos e internos e envolvem estressores e valores capazes de disparar diversas respostas autonômicas e musculoesqueléticas (ex: ativação simpática e tensão muscular). Tais respostas são mediadas pela percepção e interpretação de processos fisiológicos ou sintomas e podem envolver expectativas, processos de aprendizagem e crenças, bem como estratégias de enfrentamento. Diversas revisões sobre o papel de fatores psicossociais na dor crônica, em especial dores de pescoço e lombalgias, têm descrito o papel destes fatores na precipitação de dores crônicas, na transição de dores agudas para crônicas e na incapacidade física associada a dores crônicas. Existem evidências de que cognições, humor e interações comportamentais/ambientais estão associados a dores crônicas. ➔ Os fatores cognitivos incluem crenças relacionadas à dor, tais como autoeficácia, catastrofização, medo, evitação e aceitação. ➔ Os fatores afetivos/humor incluem ansiedade, depressão e estresse. ➔ As interações comportamentais/ambientais incluem processos de aprendizagem e reforço. ➔ Os fatores descritos parecem ter importante papel na relação entre dores crônicas, incapacidade e sofrimento mental. Os resultados deste estudo indicam que embora as variáveis sociodemográficas (p. ex: grau de escolaridade) e clínicas (p. ex: local da dor) contribuam para a incapacidade física, a variável crenças de autoeficácia teve maior contribuição para incapacidade e intensidade da dor. A contribuição da variável autoeficácia à incapacidade encontrada Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 neste estudo tem sido frequentemente descrita na literatura1,5,7 e é mais uma vez confirmada numa cultura diferente (Latino Americana) do que as investigadas pela maioria dos estudos (Anglo-saxônica). Estes resultados indicam que mesmo quando diversas variáveis sociodemográficas, clínicas e psicológicas são levadas em consideração, as crenças de autoeficácia parecem ser um importante preditor de incapacidade. Dentre todas as variáveis presentes na análise, apenas grau de escolaridade, idade, incapacidade física e autoeficácia contribuíram significativamente para o desemprego em pessoas com dor crônica. Os resultados desse estudo no que se referem às crenças de autoeficácia reforçam a importância desse construto, que propõe que autoeficácia é um importante preditor de comportamento (p. ex: níveis de incapacidade). A contribuição de crenças de autoeficácia para incapacidade está também de acordo com o modelo estratégias de enfrentamento, que considera que estratégias de enfrentamento são moderadas por crenças, dentre outros aspectos. Baseado nesta perspectiva pode se esperar que pacientes com dor crônica que apresentem uma baixa autoeficácia têm mais chances de terem estratégias de enfrentamento menos efetivas, o que poderia mediar incapacidade física e esforços para se manter empregado ou trabalhando apesar de possuírem dor crônica. No tocante a contribuição de diversas variáveis estudadas para depressão, apenas pensamentos catastróficos foi preditor de depressão. Este resultado é frequentemente descrito na literatura, que sugere que pensamentos catastróficos são um dos preditores mais importantes de depressão mesmo quando comparado com outras variáveis tais como outras crenças e estratégias de enfrentamento, aceitação autoeficácia. Quando tomados em conjunto, os resultados deste estudo sugerem que a presença de depressão em pacientes com dor crônica pode ser influenciado por outros fatores além de intensidade da dor, incapacidade e autoeficácia. Conforme proposto por modelos cognitivo-comportamentais, cognições mediam fortemente como as pessoas interpretam a natureza de sua realidade o que poderia afetar seu humor. Além disto, pode-se sugerir que pensamentos catastróficos contribuem mais para as dimensões avaliativas e afetivas da dor. Baseado neste modelo pode se esperar que pensamentos catastróficos realmente contribuam de forma importante para a depressão, especialmente se houve entendimento que a depressão pode ser consequência da dor crônica. No tocante a variável depressão, esta não contribuiu de forma significativa para incapacidade, intensidade da dor e tampouco desemprego. Embora haja alta prevalência de depressão em pacientes com dor crônica, e seu papel seja reconhecido como importante, como a associação entre depressão e respostas pobres ao tratamento, a natureza desta relação é desconhecida. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Farmacologia de AINEs e analgésicos Inflamação – é uma resposta a um estímulo prejudicial. Ele pode ser evocado por uma grande variedade de agentes nocivos. A capacidade de montar uma resposta inflamatória é essencial para a sobrevida ao enfrentar patógenos da natureza e lesões, entretanto, as vezes a resposta inflamatória pode ser exagerada e sustentada sem beneficio aparente e até mesmo com consequências adversas graves. Não importa qual é o estímulo inicial, os sintomas inflamatórios clássicos incluem calor, dor, rubor e tumor. A resposta inflamatória é caracterizada mecanicamente por uma vasodilatação local transitória e aumento da permeabilidade capilar, infiltração de leucócitos e células fagocíticas e degeneração tecidual e fibrose. Há aumento da biossíntese de prostanoides (prostaglandinas, prostaciclinas, tromboxanos) em tecidos inflamados. Inibidores da COX, que deprimem a formação de prostanoides, são agentes anti-inflamatórios eficazes e amplamente utilizados, destacando o papel geral de prostanoides como mediadores pró-inflamatórios. A rápida indução de COX-2 em tecidos inflamados e células infiltrantes serviram de justificativa para o desenvolvimento de inibidores seletivos da COX-2 para o tratamento da inflamação. A COX-2 é a principal fonte de prostanoides mas a COX-1 também contribui. Ambas as isoenzimas COX são expressas em células inflamatórias circulantes ex vivo, e COX-1 é responsável por aproximadamente 10-15% da fom1ação de PG induzida por lipopolissacarídeos em voluntários. A prostaglandina E2 (PGE2) e a prostaciclina (PGI2) são os principais prostanoides que medeiam a inflamação. Elas aumentam o fluxo sanguíneo local, a permeabilidade vascular e a infiltração de leucócitos através da ativação de seus respectivos receptores, EP2 e IP. PGD2,um dos principais produtos dos mastócitos, contribui para inflamação nas respostas alérgicas, especialmente no pulmão. A ativação de seu receptor DP1 aumenta a perfusão e a permeabilidade vascular e promove a diferenciação de células Th2. PGD2 também pode ativar células Th2 maduras e eosinófilos através de seu receptor DP 2. Antagonistas de DP2 são úteis em tratamento de inflamação das vias respiratórias. A ativação de células endoteliais tem um papel importante no direcionamento das células circulantes para locais inflamatórios. A adesão celular ocorre por reconhecimento das glicoproteínas da superfície da célula e dos carboidratos em células circulantes, devido ao aumento da expressão de moléculas de adesão em células residentes. Assim, a ativação endotelial resulta em adesão de leucócitos, pois os leucócitos reconhecem selectina L e P recentemente expressas; outras interações importantes incluem aquelas da E-selectina e outras glicoproteínas na superfície de molécula de adesão intercelular endotelial (ICAM)-1 com as integrinas dos leucócitos. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 O recrutamento de células inflamatórias para os locais de lesão também envolve as interações combinadas de vários tipos de mediadores solúveis. Estes incluem o fator de complemento C5a, FAP, e o eicosanoide LTB4. Todos podem agir como agonistas quimiotáticos. Outras citocinas também desempenham um papel essencial na orquestração do processo inflamatório, especialmente o fator de necrose tumoral (TNF) e interleucina-1. Elas são secretadas por monócitos, macrófagos, adipócitos e outras células. Trabalhando em conjunto umas com as outras e com várias citocinas e fatores de crescimento (como a IL-6, IL-8 e fator estimulador de colônias de granulócitos-macrófagos (GM-CSF), elas induzem a expressão gênica e a síntese proteica – incluindo a expressão de COX-2, moléculas de adesão e proteínas de fase aguda – em uma variedade de células para mediar e promover a inflamação. Os bloqueadores de TNF-alfa são usados para tratar doenças inflamatórias, incluindo artrite reumatoide, artrite idiopática juvenil, psoríase e artrite psoriática, espondilite anquilosante e doença de Crohn. Os bloqueadores de TNF-a enquadram-se na categoria de fármacos antirreumáticos modificadores da doença (FARMD), pois reduzem a atividade da doença na artrite reumatoide e retardam a progressão da destruição dos tecidos artríticos. Os AINEs geralmente não são considerados FARMD. Os níveis plasmáticos de IL-1 são aumentados em pacientes com inflamação ativa. Um antagonista do receptor IL-1 de ocorrência natural (IL-lra) compete com IL-1 para ligação ao receptor e bloqueia a atividade da IL-1 in vitro e in vivo. IL-1ra é frequentemente encontrada em níveis elevados em pacientes com várias infecções ou doenças inflamatórias e podem agir para limitar a extensão da resposta inflamatória. Outras citocinas e fatores de crescimento (p. ex., IL-2, IL-6, IL-8, a GM-CSF) contribuem para as manifestações da resposta inflamatória. As concentrações de muitos destes fatores são aumentadas na sinóvia de pacientes com artrite inflamatória. Os glicocorticoides interferem na síntese e nas ações de citocinas, tais como IL-1 ou TNF- alfa. Embora algumas ações das citocinas sejam acompanhadas pela liberação de PGs e tromboxano A2 (TxA2), os inibidores da COX bloqueam apenas seus efeitos pirogênicos. Além disso, muitas ações das PG são inibidoras da resposta imune, incluindo a supressão da função das células-T auxiliares e células B e inibição da produção de IL-1. Outras citocinas e fatores de crescimento combatem os efeitos e iniciam a resolução da inflamação. Essas incluem fator de crescimento transformador beta (TGF- beta), que aumenta a formação de matriz extracelular e age como um imunossupressor; IL-10, que diminui a formação de citocinas e PGE2 por inibição de monócitos e interferona gama (IFN-y), que possui atividade mielossupressora e inibe a síntese de colágeno e produção de colagenase pelos macrófagos. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Dor – Nociceptores, terminais periféricos de fibras aferentes primárias que percebem a dor, são ativados por vários estímulos, como calor, ácidos ou pressão. Os mediadores inflamatórios liberados a partir de células não neuroniais durante a lesão tecidual aumentam a sensibilidade dos nociceptores e potencializam a percepção da dor. Alguns dos principais componentes deste "mélange" inflamatória são bradicinina, H+, neurotransmissores como a serotonina e ATP, neutrofinas (fator de crescimento neural), LT PG. As citocinas liberaram PG e alguns dos outros mediadores. Os neuropeptídeos, como a substância P e o peptídeo relacionado ao gene da calcitonina (CGRP), também podem estar envolvidos na provocação da dor. PG E2 e PGI2 reduzem o limiar para estimulação de nociceptores, provocando sensibilização periférica. Assim, PGE2 promove provavelmente através de seus receptores, EP1 e EP4 fosforilação do receptor potencial transitório V 1 e outros canais iônicos nos nociceptores e aumenta a excitabilidade de sua membrana terminal. A reversão da sensibilização periférica representa a base mecânica para o componente periférico da atividade analgésica dos AINEs. AINEs têm ações centrais importantes na medula espinal e no cérebro. COX-1 e COX-2 são expressas na medula espinal sob condições basais e liberação de PG em resposta aos estímulos dolorosos periféricos. A PGE2 centralmente ativa e talvez também PGD2, PGI2 e PGF2a contribuem para a sensibilização central, um aumento na excitabilidade dos neurônios do como dorsal espinal que provocam hiperalgesia e alodinia, em parte por desinibição das vias glicinérgicas. COX-2 basal, expressa tanto em neurônios quanto em células da glia, contribui para a sensibilização central na fase inicial da inflamação periférica. A COX-2 é amplamente suprarregulada na medula espinal em algumas horas contribuindo para a sensibilização central prolongada. A COX-2 é amplamente suprarregulada na medula espinal em algumas horas contribuindo para a sensibilização central prolongada. Esta isoforma é predominante em neurônios do gânglio da raiz dorsal. A sensibilização central reflete a plasticidade do sistema nociceptivo que é invocado pela lesão. Isso em geral é reversível em horas ou dias após respostas adequadas do sistema nociceptivo. No entanto, doenças inflamatórias crônicas podem causar alteração persistente da arquitetura do sistema nociceptivo, o que pode levar a mudanças duradouras na sua responsividade. Estes mecanismos contribuem para a dor crônica. Febre – A regulação da temperatura corporal requer um equilíbrio delicado entre a produção e a perda de calor; o hipotálamo regula o ponto estabelecido em que a temperatura do corpo é mantida. Este ponto definido tem febre elevada, que reflete uma Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 infecção ou resulta de lesão tecidual, inflamação, rejeição do enxerto ou malignidade. Todas estas condições reforçam a formação de citocinas como IL-1, IL-6, TNF-alfa e interferons, que funcionam como pirogênios endógenos. A fase inicial da resposta de termorregulação a esses pirogênios é mediada pela liberação de ceramida nos neurônios da área pré-óptica na região anterior do hipotálamo. A resposta tardia é mediada por indução coordenada de COX-2 e PGE sintase-1 microssômica (mPGES-1) no endotélio dos vasos sanguíneos na região do hipotálamo formando PGE2. PGE2 atravessa a barreira hematoencefálica eatua nos receptores EP3 e talvez receptores EP1 em neurônios termossensíveis. Isto provoca o hipotálamo para que eleve a temperatura corporal, promovendo um aumento na geração de calor e uma diminuição na perda de calor. Os AINEs suprimem esta resposta inibindo a síntese de PGE2. Fármacos AINEs Os AINEs são agrupados por suas características químicas. Após o desenvolvimento dos inibidores seletivos da COX-2, surgiu a classificação em AINEts, que inibem tanto COX-1 quanto COX-2, e AINEs seletivos para COX-2. Inicialmente, apenas agentes projetados especificamente para a finalidade de inibição seletiva de COX-2 coloquialmente chamados de coxibes foram atribuídos ao grupo de AINEs seletivos para COX-2. No entanto, alguns AINEs mais antigos (ex., diclofenaco, meloxicam, nimesulida) mostram um grau de seletividade para COX-2 semelhante ao do primeiro coxibe, celecoxibe. A maioria dos AINEs é de inibidores ativos locais competitivos, reversíveis das enzimas COX. No entanto, o ácido acetilsalicílico acetila as isoenzimas e inibe-as de maneira irreversível; assim, o ácido acetilsalicílico frequentemente é distinguido dos AINEts. Mecanismo de ação Inibição da cicloxigenase – Os principais efeitos terapêuticos dos AINEs derivam da sua capacidade de inibir a produção de PG. A primeira enzima na via sintética das PG é COX. Essa enzima converte o AA nos intermediários instáveis PGG2 e PGH2, além de promover a produção de prostanoides, TxA2 e de uma variedade de PG. Os AINEs bloqueiam a produção dos mediadores químicos que sensibilizam ou ativam os nociceptores pela inibição da enzima cicloxigenase impedindo sua ação sobre o ácido araquidônico. Existem duas fornas de COX: Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 ➔ COX-1 – expressa de maneira constitutiva na maioria das células, é a fonte dominante (mas não exclusiva) de prostanoides para funções de manutenção, como a citoproteção epitelial gástrica e hemostasia. ➔ COX-2 – induzida por citocinas, estresse de cisalhamento (atrito elevado do sangue no endotélio vascular) e promotores de tumor, é a fonte mais importante de formação de prostanoides na inflamação e talvez no câncer. No entanto, ambas as enzimas contribuem para a geração de prostanoides autorreguladores e homeostáticos e ambos podem contribuir para a formação de prostanoide nas síndromes de inflamação humana e dor. De forma importante, COX-1 é expresso como a isoforma constitutiva dominante nas células epiteliais gástricas e é considerada a principal fonte de formação de PG citoprotetora. A inibição da COX-1 nesse local é tida como, em grande parte, a responsável pelos eventos gástricos adversos que complicam o tratamento com os AINEts, fornecendo assim a razão para o desenvolvimento de AINEs específicos para a inibição da COX-2. O ácido acetilsalicílico e os AINEs inibem as enzimas COX e a produção de PG; eles não inibem as vias da lipoxigenase (LOX) no metabolismo do ácido araquidônico e por isso não suprimem a formação de LT. Os glicocorticoides suprimem a expressão induzida de COX-2 e portanto a produção de prostaglandinas mediada por COX-2. Eles também inibem a ação da fosfolipase A2, que libera AA a partir das membranas celulares. Tais efeitos contribuem para as ações anti-inflamatórias dos glicocorticoides. Inibição irreversível da COX pelo ácido acetilsalicílico – O ácido acetilsalicílico modifica de maneira covalente a COX-1 e a COX-2, inibindo de modo irreversível sua atividade COX-. Isto é uma importante distinção com relação a todos os outros AINEs, porque a duração dos efeitos do ácido acetilsalicílico relaciona-se com a taxa de rotatividade das COXs em diferentes tecidos alvo. A duração dos efeitos dos outros AINEs, que inibem de modo competitivo os locais ativos das enzimas COX, está relacionada com o curso temporal da eliminação do fármaco. A importância da rotatividade da enzima na recuperação de uma ação do ácido acetilsalicílico é mais notável nas plaquetas que, não sendo nucleadas, têm uma capacidade notavelmente limitada de síntese proteica. Assim, as consequências da inibição da COX-1 nas plaquetas persistem por toda a vida da plaqueta. A inibição da formação de tromboxano A2 dependente de COX-1 nas plaquetas é, portanto, cumulativa com doses repetidas de ácido acetilsalicílico (tão baixas quanto 30 mg/dia) e levam 8-12 Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 dias o tempo de renovação das plaquetas – para desaparecer completamente após o tratamento ser interrompido. A sensibilidade especial das plaquetas à inibição por essas doses baixas de ácido acetilsalicílico relaciona-se com a inibição das plaquetas em situação pré-sistêmica, na circulação portal, antes que o ácido acetilsalicílico seja desacetilado em salicilato na primeira passagem através do figado. Ao contrário do ácido acetilsalicílico, o ácido salicílico não tem a capacidade de acetilar, sendo um inibidor competitivo reversível e fraco da COX. Inibição seletiva de cicloxigenase – O uso terapêutico de AINEts é limitado pela sua tolerabilidade GI precária. Os usuários crônicos são propensos a sofrer irritação GI em menos de 20% dos casos. Após a descoberta da COX-2, foi proposto que COX-1 constitutivamente expressa era a fonte de PG citoprotetoras formadas pelo epitélio GI. Pelo fato de sua expressão ser regulada por citocinas e mitógenos, acreditava-se que a COX-2 era a fonte dominante de formação de PG em inflamação e câncer. Assim, os inibidores seletivos de COX-2 foram desenvolvidos com base na hipótese de que eles promoveriam eficácia semelhante aos AINEts com melhor tolerabilidade GI. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Ácido acetilsalicílico ➔ Mecanismo de ação – Os salicilatos geralmente atuam em virtude do teor de ácido salicílico. Os efeitos do ácido acetilsalicílico são grandemente causados por sua capacidade de acetilar proteínas, como descrito em “Inibição Irreversível da ciclo-oxigenase pelo ácido acetilsalicílico”, embora concentrações altas de ácido acetilsalicílico resultem em concentrações plasmáticas terapêuticas do ácido salicílico. A capacidade dos salicilatos de suprimir uma variedade de reações antígeno-anticorpo foi alvo de atenção. Essa capacidade inclui a inibição da produção de anticorpos, da agregação entre antígeno e anticorpo e da liberação de histamina induzida por antígeno. Os salicilatos também induzem uma estabilização inespecífica da permeabilidade capilar durante as agressões imunológicas. As concentrações de salicilato necessárias para induzir esses efeitos são altas e a relação entre elas e a eficácia antirreumática dos salicilatos não é clara. Os salicilatos também influenciam o metabolismo do tecido conjuntivo, efeito que está envolvido em sua ação anti-inflamatória. Por exemplo, os salicilatos podem afetar a composição, a biossíntese ou o metabolismo dos mucopolissacarídeos da substância fundamental do tecido conjuntivo, que serve de barreira contra a disseminação de infecção e inflamação. ➔ Usos terapêuticos – sistêmicos – As doses de salicilato dependem da condição a ser tratada. ➢ A dose analgésica-antipirética de ácido acetilsalicílico para adultos é de 324- 1.000 mg VOa cada 6 h. As doses anti-inflamatórias de ácido acetilsalicílico recomendadas para artrite, espondiloartropatias e lúpus eritematoso sistêmico (LES) variam de 3-4 g/dia em doses fracionadas. ➢ Os salicilatos estão contraindicados para febres associadasa infecções virais em crianças; para etiologias não virais, recomendam-se 40-60 mg/kg/dia fracionados em 6 doses, a cada 4h. ➢ A dose diária máxima recomendada de ácido acetilsalicílico para adultos e crianças maiores de 12 anos é de 4g. ➢ A administração retal de supositórios de ácido acetilsalicílico pode ser preferível em lactentes ou quando a via oral não está disponível. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 ➢ Os salicilatos suprimem os sinais clínicos e melhoram a inflamação dos tecidos na febre reumática aguda. Grande parte do dano tecidual possível posterior, como lesões cardíacas e outros envolvimentos viscerais, no entanto, não é afetada pela terapia com salicilato. ➢ O diflunisal é um derivado difluorofenil do ácido salicílico que não é convertido em ácido salicílico in vivo. O diflunisal é mais potente que o ácido acetilsalicílico nos testes anti-inflamatórios em animais e parece ser um inibidor competitivo da COX. Entretanto, não possui efeitos antipiréticos, devido à pouca penetração no SNC. O fármaco é utilizado principalmente como analgésico no tratamento de osteoartrite e entorses ou estiramentos músculos esqueléticos; nestas circunstâncias, é cerca de 3-4 vezes mais potente que o ácido acetilsalicílico. A dose inicial habitual é de 1.000 mg, seguida de 500 mg a cada 8-12h. Para artrite reumatoide ou osteoartrite, 250-1.000 mg/dia administrados em duas doses divididas; a dose de manutenção não deve exceder 1,5 g/dia. O diflunisal produz menos efeitos colaterais auditivos e parece causar menos efeitos antiplaquetários e GI e com menor intensidade do que o ácido acetilsalicílico. ➔ Usos terapêuticos – locais ➢ A mesalazina* (ácido 5-aminossalicílico) é um salicilato usado por seus efeitos locais no tratamento da doença inflamatória intestinal. ➢ Formulações orais que liberam o fármaco no intestino inferior – mesalazina, sob a forma de comprimido de liberação retardada, coberto por um polímero sensível ao pH; uma cápsula de liberação prolongada de mesalazina e olsalazina são eficazes no tratamento da doença inflamatória intestinal (em particular da colite ulcerativa). ➢ A mesalazina está disponível como enema retal para tratamento de colite ulcerativa, proctite e proctosigmoidite e como supositório retal para tratamento de proctite ulcerativa ativa. ➢ A sulfassalazina ( salicilazosulfapiridina) contém mesalazina ligada de forma covalente à sulfapiridina e a balsalazida contém mesalazina ligada à molécula portadora inerte 4-aminobenzoil. Ambos os fármacos são pouco absorvidos após administração oral e clivados em sua porção ativa por Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 bactérias do cólon. A sulfassalazina e olsalazina já foram usadas no tratamento da artrite reumatoide e da espondilite ancilosante. Alguns medicamentos de venda sem prescrição para alívio de indigestão e diarreia contêm subsalicilato de bismuto e têm potencial para causar intoxicação por salicilato, especialmente em crianças. ➢ A ação ceratolítica do ácido salicílico livre é utilizada para o tratamento local das verrugas, calos, infecções fúngicas e alguns tipos de dermatite eczematosa. Após o tratamento com ácido salicílico, as células de tecidos incham, amolecem e descamam. ➢ O salicilato de metila (óleo de gaultéria) é um ingrediente comum de pomadas e unguentos para aquecimento profundo utilizados no tratamento da dor músculo esquelética; também está disponível em medicamentos fitoterápicos e como agente aromatizante. A aplicação cutânea de salicilato de metila pode resultar em concentrações sistêmicas de salicilato farmacologicamente ativas, e até mesmo tóxicas, e relata-se que aumenta o tempo de protrombina em pacientes que recebem varfarina. Paracetamol ➔ Eleva o limiar ao estímulo doloroso, exercendo assim um efeito analgésico contra a dor devido a uma variedade de etiologias. Está disponível para venda sem prescrição e é utilizado como analgésico doméstico comum. O fármaco também está disponível em combinações com doses fixas que contêm analgésicos narcóticos e não narcóticos (como ácido acetilsalicílico e outros salicilatos), barbitúricos, cafeína, remédios para cefaleia vascular, auxílio para o sono, remédios para dor de dente, anti-histamínicos, antitussígenos, descongestionantes, expectorantes, preparações para resfriados e gripes e tratamentos para dor de garganta. ➔ O paracetamol é uma alternativa eficaz ao ácido acetilsalicílico como analgésico-antipirético, mas seus efeitos anti-inflamatórios são muito mais fracos. Embora seja indicado para alívio da dor em pacientes com osteoartrites, não é um substituto adequado para o ácido acetilsalicílico ou os outros AINEs em condições inflamatórias crônicas como a artrite reumatoide. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 ➔ O paracetamol é bem tolerado e te baixa incidência de efeitos colaterais GI. Entretanto, a overdose aguda pode causar lesão hepática grave e o número de envenenamentos acidentais ou deliberados com paracetamol continua a crescer. ➔ O uso crônico de 2 g/dia ou menos não se associa a disfunção hepática, mas o uso excessivo de narcóticos que contêm paracetamol e produtos combinados vendidos sem prescrição comercializados nos EUA levou a uma maior conscientização sobre a possibilidade de toxicidade. ➔ Mecanismo de ação – O paracetamol tem efeitos analgésicos e antipiréticos similares aos do ácido acetilsalicílico. Tem apenas efeitos anti-inflamatórios fracos e supõe-se que tenha, de modo geral, pequena capacidade de inibir a COX na presença de altas concentrações de peróxidos, como observado nos locais de inflamação. Uma dose de 1.000 mg, resulta, em ensaios ex vivo com o sangue total de voluntários saudáveis, em mais ou menos 50% de inibição de ambas as COX, 1 e 2. Uma dose de 1.000 mg, resulta, em ensaios ex vivo com o sangue total de voluntários saudáveis, em mais ou menos 50% de inibição de ambas as COX, 1 e 2. ➔ Usos terapêuticos – O paracetamol é adequado para uso como analgésico ou antipirético; é o analgésico de primeira linha na osteoartrite e é particularmente útil em pacientes nos quais o ácido acetilsalicílico está contraindicado (aqueles com úlcera péptica, hipersensibilidade ao ácido acetilsalicílico ou crianças com doença febril). A dose oral convencional é de 325-650mg a cada 4-6 h, sendo que as doses totais não devem exceder 4.000 mg (2.000 mg/dia em alcoólatras crônicos). ➔ Em 2009, um painel consultivo do FDA recomendou uma dose diária máxima menor de paracetamol de 2.600mg e uma redução na dose única máxima de 1.000mg para 650 mg. As doses únicas empregadas em crianças de 2-11 anos de idade variam de 160-480 mg, dependendo da idade e do peso, e não devem administrar mais de 5 doses em 24 h. A dose de 10mg/kg também pode ser usada. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Diclofenaco ➔ O diclofenaco, um derivado do ácido fenilacético, está entre os AINEs mais comumente usados na UE. E comercializado como um sal de potássio para administração oral, como uma forma de epolamina para administração transdérmica e como um sal de sódio para administração tópica ou oral. ➔ Mecanismo de ação – O diclofenaco tem atividade analgésica, anti-pirética e anti-inflamatória. Sua potência é substancialmente maior do que a da indometacina, do naproxeno e de vários outros AINEts. A seletividade do diclofenaco para COX-2 é semelhante à do celecoxibe. Além disso, o diclofenaco parecereduzir as concentrações intracelulares de AA livre nos leucócitos, talvez por alterar sua liberação e sua captação. ➔ Usos terapêuticos – O diclofenaco está aprovado nos EUA para tratamento sintomático a longo prazo da artrite reumatoide, da osteoartrite e da espondilite ancilosante, dor, dismenorreia primária e enxaqueca aguda. ➢ Quatro formulações orais estão disponíveis: comprimidos e cápsulas de liberação imediata, comprimidos de liberação retardada, comprimidos de liberação prolongada e um pó para solução oral. ➢ A dose diária habitual é de 100-200mg, fracionada em várias vezes. Para enxaqueca, um pacote de pó (50 mg) dissolvido em 30-60g de água é administrado. ➢ O diclofenaco para uso tópico está disponível como gel e como adesivo transdérmico; acredita-se que as concentrações sistemicamente ativas liberadas dessas preparações contribuem mais para o alívio dos sintomas do que o transporte direto através da pele para o tecido inflamado. ➢ O diclofenaco também está disponível em combinação com o misoprostol, um análogo da PGE1. Tal combinação retém a eficácia do diclofenaco e ao mesmo reduz a frequência de úlceras e erosões GI. Além disso, dispõe-se de uma solução oftálmica de diclofenaco para o tratamento da inflamação pós-operatória após a extração de cataratas e dor pós-operatória e fotofobia após cirurgia refrativa da córnea. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 ➢ Indicações: ✗ Formas degenerativas e inflamatórias de reumatismo: artrite reumatoide; artrite reumatoide juvenil; espondilite anquilosante; osteoartrose e espondilartrites ✗ Síndromes dolorosas da coluna vertebral. ✗ Reumatismo não-articular ✗ Crises agudas de gota ✗ Inflamações pós-traumáticas e pós-operatórias dolorosas e edema, como, por exemplo, após cirurgia dentária ou ortopédica ✗ Condições inflamatórias e/ou dolorosas em ginecologia, como, por exemplo, dismenorreia primária ou anexite ✗ Como adjuvante no tratamento de processos infecciosos acompanhados de dor e inflamação de ouvido, nariz ou garganta, como, por exemplo, faringoamigdalites, otites. De acordo com os princípios terapêuticos gerais, a doença de fundo deve ser tratada com a terapia básica adequadamente. ➢ Contraindicações: ✗ Úlcera gástrica ou intestinal. Hipersensibilidade conhecida à substância ativa ou a qualquer outro componente da formulação. Como outros agentes anti-inflamatórios não-esteroides (AINEs) diclofenaco sódico também é contraindicado em pacientes nos quais as crises de asma, urticária ou rinite aguda são precipitadas pelo ácido acetilsalicílico ou por outros fármacos com atividade inibidora da prostaglandina-sintetase. Ibuprofeno ➔ O ibuprofeno, o AINEt mais comumente usado nos EUA, foi o primeiro membro da classe de AINEs derivados do ácido propiônico a chegar a uso geral. Nos EUA está disponível sem necessidade de prescrição médica. O naproxeno, também disponível sem prescrição, tem meia-vida que, embora variável, é mais longa, tomando possível sua administração em duas doses diárias (e talvez, em alguns indivíduos, em uma única dose diária). A oxaprozina também tem meia- vida longa e pode ser administrada uma única vez ao dia. ➔ Mecanismo de ação – Os derivados do ácido propiônico são inibidores não seletivos da ciclo-oxigenase com os efeitos terapêuticos e colaterais comuns Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 aos outros AINEts. Embora haja considerável variação em suas potências como inibidores da COX, isso não tem consequências clínicas óbvias. Alguns dos derivados do ácido propiônico, em particular o naproxeno, têm efeitos inibitórios proeminentes sobre a função leucocitária e alguns dados sugerem que o naproxeno pode ter eficácia levemente melhor com respeito à analgesia e ao alívio da rigidez matinal. Tal hipótese de beneficio está de acordo com a farmacologia clínica do naproxeno e indica que alguns, mas não todos os indivíduos que recebem doses de 500mg 2 vezes/dia, mantêm uma inibição plaquetária durante todo o intervalo entre as doses. ➔ Usos terapêuticos – O ibuprofeno é fornecido em comprimidos, cápsulas, pílulas e cápsulas gelatinosas contendo 50-800 mg, em gotas orais e suspensão oral. As formas farmacêuticas contendo menos que 200mg estão disponíveis para venda sem prescrição. ✗ O ibuprofeno é licenciado para a comercialização em combinações de dose fixa com anti-histamínicos, descongestionantes, oxicodona e hidrocodona. ✗ Uma formulação injetável para o fechamento da patência do canal (ibuprofeno lisina) está licenciada desde 2006, e uma formulação injetável para dor que foi inicialmente aprovado em 1974 foi licenciada pelo FDA em 2009 para uso hospitalar. ✗ Doses de < 800 mg 4 vezes/ dia podem ser usadas no tratamento da artrite reumatoide e osteoartrite, mas doses mais baixas frequentemente são suficientes. ✗ A dose habitual para dor branda a moderada, como a da dismenorreia primária, é de 400 mg a cada 4-6 h, conforme necessário. Para dor ou febre, o ibuprofeno intravenoso é administrado na dose de 100-800 mg durante 30 min a cada 4-6 h. ➔ Indicações – Febre e dores leves e moderadas, associadas a gripes e resfriados, dor de garganta, dor de cabeça, dor de dente, dor nas costas, cólicas menstruais, dores musculares e outras. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 ➔ Contraindicações – Este medicamento é contraindicado na faixa etária de menores de 12 anos de idade, nos casos de hipersensibilidade conhecida ao ibuprofeno ou a qualquer componente da fórmula, ao ácido acetilsalicílico ou a qualquer outro AINEs. Não deve ser usado por pessoas com história prévia ou atual de úlcera gastroduodenal ou sangramento gastrintestinal. Não deve ser usado durante os últimos 3 meses de gravidez. Dipirona ➔ Mecanismo de ação – a dipirona é um derivado pirazolônico não narcótico com efeitos analgésico, antipirético e espasmolítico. A dipirona é uma pró-droga cuja metabolização gera a formação de vários metabólitos entre os quais há 2 com propriedades analgésicas: 4-metil-aminoantipirina (4-MAA) e o 4-amino- antipirina (4-AA). Como a inibição da ciclooxigenase (COX-1, COX-2 ou ambas) não é suficiente para explicar este efeito antinociceptivo, outros mecanismos alternativos foram propostos, tais como: inibição de síntese de prostaglandinas preferencialmente no sistema nervoso central, dessensibilizacão dos nociceptores periféricos envolvendo atividade via óxido nítrico-GMPc no nociceptor, uma possível variante de COX-1 do sistema nervoso central seria o alvo específico e, mais recentemente, a proposta de que a dipirona inibiria uma outra isoforma da ciclooxigenase, a COX-3. Os efeitos analgésico e antipirético podem ser esperados em 30 a 60 minutos após a administração e geralmente duram cerca de 4 horas. ➔ Usos terapêuticos: ➢ Tomar o comprimido com líquido (aproximadamente ½ a 1 copo), por via oral. ➢ A princípio, a dose e a via de administração escolhidas dependem do efeito analgésico desejado e das condições do paciente. Em muitos casos, a administração oral ou retal é suficiente para obter analgesia satisfatória. Quando for necessário um efeito analgésico de início rápido ou quando a administração por via oral ou retal for contraindicada, recomenda-se a administração por via intravenosa ou intramuscular. O tratamento pode ser interrompido a qualquer instante sem provocar danos ao paciente, inerentes à retirada da medicação. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 ➢ Dipirona500mg: adultos e adolescentes acima de 15 anos: 1 a 2 comprimidos até 4 vezes ao dia. ➢ Dipirona 1g: adultos e adolescentes acima de 15 anos: ½ a 1 comprimido até 4 vezes ao dia. ➢ Se o efeito de uma única dose for insuficiente ou após o efeito analgésico ter diminuído, a dose pode ser repetida respeitando-se a posologia e a dose máxima diária, conforme descrito acima. Não há estudos dos efeitos deste medicamento administrado por vias não recomendadas. Portanto, por segurança e para garantir a eficácia deste medicamento, a administração deve ser somente por via oral. ➢ Populações especiais – em pacientes com insuficiência renal ou hepática, recomenda-se que o uso de altas doses de dipirona seja evitado, uma vez que a taxa de eliminação é reduzida nestes pacientes. Entretanto, para tratamento em curto prazo não é necessária redução da dose. Não existe experiência com o uso de dipirona em longo prazo em pacientes com insuficiência renal ou hepática. Em pacientes idosos e pacientes debilitados deve-se considerar a possibilidade das funções hepática e renal estarem prejudicadas. ➔ Indicações – indicado como analgésico e antipirético. ➔ Contraindicações – este medicamento não deve ser administrada a pacientes: ➢ Com hipersensibilidade à dipirona ou a qualquer um dos componentes da formulação ou a outras pirazolonas (ex. fenazona, propifenazona) ou a pirazolidinas (ex. fenilbutazona, oxifembutazona) incluindo, por exemplo, experiência prévia de agranulocitose com uma destas substâncias; ➢ Com função da medula óssea prejudicada (ex. após tratamento citostático) ou doenças do sistema hematopoiético; ➢ Que tenham desenvolvido broncoespasmo ou outras reações anafilactoides (isto é urticária, rinite, angioedema) com analgésicos tais como salicilatos, paracetamol, diclofenaco, ibuprofeno, indometacina, naproxeno. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 ➢ Com porfiria hepática aguda intermitente (risco de indução de crises de porfiria); ➢ Com deficiência congênita da glicose-6-fosfato-desidrogenase (G6PD) (risco de hemólise); ➢ Gravidez e lactação: A dipirona atravessa a barreira placentária. Não existem evidências de que o medicamento seja prejudicial ao feto. Recomenda-se não utilizar este medicamento durante os primeiros 3 meses da gravidez. O uso deste medicamento durante o segundo trimestre da gravidez só deve ocorrer após cuidadosa avaliação do potencial risco/benefício pelo médico. Este medicamento não deve ser utilizada durante os 3 últimos meses da gravidez, uma vez que, embora a dipirona seja uma fraca inibidora da síntese de prostaglandinas, a possibilidade de fechamento prematuro do ducto arterial e de complicações perinatais devido ao prejuízo da agregação plaquetária da mãe e do recém-nascido não pode ser excluída. Os metabólitos da dipirona são excretados no leite materno. A lactação deve ser evitada durante e por até 48 horas após a administração de deste medicamento. ➢ Este medicamento é contraindicado para menores de 3 meses de idade ou pesando menos de 5 kg. ➢ Categoria de risco na gravidez: D. Este medicamento não deve ser utilizado por mulheres grávidas sem orientação médica ou do cirurgião-dentista. Informe imediatamente seu médico em caso de suspeita de gravidez. Nimesulida ➔ A nimesulida é uma sulfonamida disponível na Europa que demonstra, em ensaios de sangue total, uma seletividade para a COX-2 similar à do celecoxibe. Os efeitos adicionais incluem inibição da ativação dos neutrófilos, diminuição da produção de citocinas, redução da produção de enzimas degradantes e possivelmente a ativação de receptores para os glicocorticoides. ➔ A nimesulida é administrada por via oral em doses iguais ou inferiores a 100mg 2 vezes/dia como anti-inflamatório, analgésico e antipirético. Seu uso Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 na Europa é limitado a no máximo 15 dias devido ao risco de hepatotoxicidade. ➔ Mecanismo de ação – a nimesulida possui um modo de ação singular, pois sua atividade anti-inflamatória envolve vários mecanismos. A nimesulida é um inibidor seletivo da enzima que sintetiza as prostaglandinas, a cicloxigenase. A nimesulida inibiu, in vitro e in vivo, preferencialmente a COX-2, que aparece durante a inflamação, com atividade mínima contra a COX-1, que age como proteção da mucosa gástrica. Além disso, a nimesulida demonstrou possuir muitas outras propriedades bioquímicas que são as principais responsáveis por suas propriedades terapêuticas. Estas incluem a inibição da fosfodiesterase (PDE) do tipo IV, redução da geração do ânion superóxido (O2), escavenging do ácido hipocloroso, inibição de proteinases (elastase, colagenase), prevenção da inativação do inibidor da α-1-proteinase, inibição da liberação de histamina dos basófilos e mastócitos humanos, inibição da atividade da histamina. ➔ Usos terapêuticos ➢ Você pode tomar nimesulida gotas após as refeições. Recomenda-se que nimesulida, assim como para todos os antiinflamatórios não-esteroidais (AINEs), seja utilizado com a menor dose segura e pelo o menor tempo possível de duração do tratamento. ➢ Você deve usar nimesulida apenas sob a orientação do médico. Você deve usar nimesulida de acordo com as instruções do seu médico. Caso os sintomas não melhorem em 5 dias, entre em contato com o seu médico. ➢ Uso para adultos e crianças acima de 12 anos: ✗ Cada gota contém 2,5 mg de nimesulida e cada 1 mL de nimesulida contém 50 mg de nimesulida. Pingar uma gota (2,5mg) por kg de peso, duas vezes ao dia, diretamente na boca ou se preferir dilua em um pouco de água com açúcar. ✗ Cada 1 mL do produto contém 20 gotas. ➢ Populações especiais ✗ Uso em pacientes com insuficiência renal (mau funcionamento dos rins): não há necessidade de ajuste de dose para pacientes com mau Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 funcionamento dos rins. Em casos de insuficiência renal grave (mau funcionamento grave dos rins) o medicamento é contraindicado. ✗ Uso em pacientes com insuficiência hepática (mau funcionamento do fígado): o uso de nimesulida é contraindicado em pacientes com insuficiência hepática. ➢ A segurança e eficácia de nimesulida somente são garantidas n administração por via oral. Os riscos de uso por via de administração não- recomendada são: a não-obtenção do efeito desejado e ocorrência de reações desagradáveis. ➢ Dosagem máxima diária limitada a 80 gotas. ➢ Adultos e crianças acima de 12 anos ✗ Comprimidos ou granulados – 100 mg duas vezes por dia, após as refeições. ✗ Gotas (pacientes com 40Kg ou mais) – 100 mg (40 gotas) a cada 12 horas. ✗ Suspensão (pacientes com 40Kg ou mais) – 100 mg (10 ml ou 2 colheres de chá) duas vezes por dia. ✗ No caso do granulado, dissolver o conteúdo de um envelope em um pouco de água. Este medicamento não pode ser guardado após sua reconstituição, devendo ser imediatamente consumido. ✗ Tanto os comprimidos quanto o granulado devem ser ingeridos preferencialmente após as refeições. ✗ Em caso de insuficiência renal moderada, não há necessidade de redução da dose. ✗ A nimesulida não deve ser usada em caso de insuficiência renal ou insuficiência hepática severa. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 ✗ A dose oral diária pode ser dividida em duas ou três administrações, baseando-se em idade, peso corporal e aderência do paciente. A duração do tratamento não é superior a 5 dias, dependendoda indicação. ✗ Geralmente não se deve exceder a 7 dias no tratamento da dor aguda e febre. Para o tratamento sintomático da osteoartrite, devem-se instituir ciclos recorrentes de tratamento durante os ataques dolorosos. Assim como em todos os AINEs, recomenda-se usar a menor dose possível durante o menor tempo possível. ➔ Indicações: ➢ Processos inflamatórios dolorosos ou não dolorosos, acompanhados ou não por febre. É indicado como analgésico, antitérmico e antiinflamatório no tratamento de processos inflamatórios dolorosos, estados febris e infecciosos das vias aéreas superiores como sinusites, faringoamigdalites, otites, laringotraqueítes, bronquites e estados gripais, sendo utilizado também após amigdalectomias e/ou adenoidectomias. SCAFLAM tem indicação em processos osteoarticulares, como mialgias, miosites, lombociatalgias e dores pós-operatórias. Em ginecologia é utilizado na dismenorréia. ➢ Pode ser usado em adultos para reduzir a febre ou aliviar os sintomas relacionados a gripes e resfriados. ➔ Contraindicações: ➢ É contraindicado para uso por pacientes que tenham ✗ Alergia à nimesulida ou a qualquer outro componente do medicamento; histórico de reações de hipersensibilidade (exemplo: broncoespasmo – estreitamento dos brônquios que causa dificuldade para respirar, rinite – inflamação da mucosa do nariz, urticária –alergia na pele e angioedema – inchaço por baixo da pele) ao ácido acetilsalicílico ou a outros anti- inflamatórios não-esteroidais (informe seu médico caso você tenha alergia a algum produto); ✗ Histórico de reações hepáticas (do fígado) ao produto; pacientes com úlcera péptica (úlceras no estômago ou intestino) em fase ativa, Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 ulcerações recorrentes (úlceras que vão e voltam) ou tenham hemorragia no trato gastrintestinal (sangramento no estômago e/ou intestinos); ✗ Pacientes com distúrbios de coagulação graves; pacientes com insuficiência cardíaca grave (mau funcionamento grave do coração); ✗ Pacientes com mau funcionamento dos rins grave e pacientes com mau funcionamento do fígado. ➢ Contraindicado para menores de 12 anos. ➢ Hipersensibilidade conhecida à nimesulida ou a qualquer excipiente do SCAFLAM; ➢ Histórico de reações de hipersensibilidade (exemplo: broncoespasmo, rinite, urticária e angioedema) em resposta ao ácido acetilsalicílico ou a outro antiinflamatório não-esteroidal; ➢ Histórico de reações hepáticas ao produto; ➢ Úlcera péptica em fase ativa, úlcera gástrica ou duodenal, histórico de ulcerações recorrentes com hemorragia gastrintestinal ou doença intestinal inflamatória ou outra desordem hemorrágica ativa; ➢ Distúrbios cerebrovasculares ou outros distúrbios hemorrágicos ativo; ➢ Pacientes com distúrbios graves de coagulação; ➢ Falência cardíaca grave; ➢ Insuficiência renal grave; ➢ Insuficiência hepática; ➢ Gravidez e lactação. Escala da Analgesia da OMS Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Em 1986, a OMS publicou guia para tratamento da dor oncológica desenvolvendo a Escada Analgésica da OMS. A O.M.S recomenda a escada analgésica para orientação em relação à terapia com opioides, sendo a dor fraca tratada com AINEs, dipirona, acetaminofen e adjuvantes. Na dor moderada, associa-se o 1º degrau aos opioides fracos, como codeína e tramadol, e na dor intensa aos opioides fortes, como morfina, fentanil, metadona e oxicodona. Os principais adjuvantes usados são os antidepressivos tricíclicos (ADT), anticonvulsivantes, corticosteróides etc. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 A Escada Analgésica da OMS sugere a organização e padronização do tratamento analgésico da dor baseado em uma escada de três degraus de acordo com a intensidade de dor que o paciente apresenta. O primeiro degrau recomenda o uso de medicamentos analgésicos simples e antiinflamatórios para dores fracas. O segundo degrau sugere opioides fracos, que podem ser associados aos analgésicos simples ou antiinflamatórios do primeiro degrau, para dores moderadas. O terceiro degrau consta de opioides fortes, associados ou não aos analgésicos simples ou antiinflamatórios, para dores fortes. Os adjuvantes podem ser usados nos três degraus da escada. A escada de três degraus indica classes de medicamentos e não fármacos específicos, proporcionando ao médico flexibilidade e possibilidade de adaptação de acordo com as particularidades de seu paciente. Os cinco princípios básicos da escada analgésica são: ➔ Pela escada – Os medicamentos adjuvantes devem ser associados em todos os degraus da escada, de acordo com as indicações específicas (antidepressivos, anticonvulsivantes, neurolépticos, bifosfonados, corticosteróides, etc.): ➢ Para dores agudas: usar a escada de forma descendente, ou seja, usar o terceiro ou segundo degrau nos primeiros dias de hospitalização ou após cirurgias/procedimentos dolorosos de acordo e as escalas de mensuração de dor e associados a técnicas de analgesia ou anestesia regional em princípios de analgesia multimodal. Nos dias subseqüentes ao trauma tecidual, descer a escada analgésica da OMS. ➢ Para dores crônicas: Inicia-se pelo primeiro degrau para dores fracas. Quando não ocorre alívio da dor, adiciona-se um opioide fraco para a dor de intensidade leve a moderada (segundo degrau). Quando esta combinação é insuficiente deve-se substituir este opioide fraco por um opioide forte. Somente um medicamento de cada categoria deve ser usado por vez. ➔ Via oral – os analgésicos devem ser administrados de preferência pela via oral. Vias de administração alternativas como retal, transdérmica ou parenteral podem ser úteis em pacientes com disfagia, vômitos incoercíveis ou obstrução intestinal. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 ➔ Intervalos fixos – os analgésicos devem ser administrados a intervalos regulares de tempo. A dose subsequente precisa ser administrada antes que o efeito da dose anterior tenha terminado. A dose do analgésico precisa ser condicionada à dor do paciente, ou seja, inicia-se com doses pequenas, sendo progressivamente aumentada até que ele receba alívio completo, ou seja, titulação da dose opióide. Não prescrever no regime se necessário. Alguns pacientes que utilizam opioides necessitam de doses de resgate além das doses regulares para as dores incidentais ou súbitas (10 a 30% da dose total diária). ➔ Individualização – a dose correta dos opióides é a que causa alívio da dor com o mínimo de efeitos adversos. Se a analgesia é insuficiente, o paciente deve ser reavaliado e deve-se subir um degrau da escada analgésica e não prescrever medicamento da mesma categoria. ➔ Atenção aos detalhes – explicar detalhadamente os horários dos medicamentos e antecipar as possíveis complicações e efeitos adversos, tratando-as profilaticamente. O paciente que usa opioide de forma crônica deve receber orientações sobre laxativos. Tratamento farmacológico da dor ➔ Tratamento da Dor Leve (1º degrau escada analgésica) – a dor leve (EVN:1- 3) é comumente tratada com analgésicos não opioides. A dipirona é o seu representante mais empregado em nosso meio. Depois, segue-se o uso do paracetamol e dos anti-inflamatórios não esteroides (AINE’s). Para pacientes que não estão sob tratamento analgésico e com dor leve a moderada. Inicia-se com drogas analgésicas e anti-inflamatórias. A baixa potência associada a efeitos colaterais limitam sua eficácia. ➔ Tratamento da DorModerada (2º degrau escada analgésica) – tradicionalmente, doentes portadores de dor moderada (EVN: 4-6) têm recebido a associação entre dipirona ou paracetamol, AINE’s, opioide fraco, como a codeína e o tramadol. Para pacientes com dor moderada a despeito do uso de AINE deve ser adicionado ao tratamento, opioides fracos como tramadol e codeína. Alguns autores preconizam o uso precoce do degrau 2 para pacientes com dor moderada e sem tratamento prévio. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 ➔ Tratamento da Dor Intensa (3º degrau escada analgésica) – a morfina é o medicamento mais comumente empregado no controle da dor intensa (EVN:7- 10). Cada opioide tem suas diferenças farmacocinéticas e farmacodinâmicas que contribuem para a melhor alívio da Dor. Deve ser reservado para os pacientes que não obtiveram controle da dor com opioides fracos e AINE. Nesse degrau substituímos os opioides fracos por opioides fortes, como morfina, metadona, oxicodona e fentanil. É importante lembrar que não existe limite de dosagem para os opioides fortes, e a dose considerada máxima é aquela que consegue o melhor equilíbrio entre analgesia e efeitos colaterais. Tratamento Multimodal Publicações científicas mostram resultados satisfatórios na utilização da analgesia multimodal para o tratamento da dor aguda. O uso de bombas de infusão melhora o controle da dor propiciando a associação de drogas com mecanismos de ação diferentes nas soluções administradas em infusão contínua, PCA, ou ambos. A via de administração pode ser parenteral, peridural ou bloqueio de nervos periféricos para cirurgias ortopédicas ou vasculares. Outra abordagem multimodal interessante é a associação de cetorolaco 30 mg i.v., injeção intra-articular de 20ml de ropivacaína 0,25%+ morfina 2mg, + epinefrina 1: 200.000 e bloqueio de nervo femural para cirurgia do joelho. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Problema 2 Cervicalgia Dor cervical é uma das condições álgicas mais prevalentes na prática médica. É a síndrome dolorosa regional que acomete, acometeu ou acometerá 55% da população em algum momento. Estima-se que 2% das mulheres e 9% dos homens apresentem cervicalgia crônica. São mais propensos a desenvolvê-la os idosos, trabalhadores braçais, indivíduos tensos ou que executem atividade adotando vícios posturais. Anatomia da região cervicalgia A coluna cervical exerce funções de sustentação, proteção e movimentação. É constituída por sete vértebras, cinco discos intervertebrais e um amplo conjunto de ligamentos. Pode ser dividida em duas unidades funcionais: a rostral (unidade occipito- atlanto-axial) e a caudal (C3-C4-C5-C6-C7). O segmento rostral é fundamental para a movimentação cervical, tanto de flexão e extensão (C1-occipital) quanto de rotação (C1- C2). As unidades funcionais caudais possibilitam flexão, extensão e movimentação lateral da coluna e são constituídas por vértebras com anatomia mais homogênea, processo espinhoso bífido e algumas com forame transversário, por onde cursa a artéria vertebral. Vários músculos atuam durante a movimentação cervical e alguns relacionam-se com os movimentos respiratórios. O músculo trapézio origina-se na linha nucal superior e apófises espinhosas das vértebras cervicais e torácicas e insere-se na clavícula, espinha da escápula e acrômio; pode ser dividido em uma porção rostral, uma média e outra caudal. A porção rostral eleva a clavícula, e consequentemente, a escápula e a desloca para trás, enquanto a porção média, aduz a escápula e, a porção caudal estabiliza a escápula enquanto a porção rostral está agindo. O músculo esternocleidomastóideo é composto por duas porções, uma esternal e outra clavicular. A primeira origina-se no esterno e, a segunda, na clavícula. Ambas inserem-se na mastóide. Este músculo causa rotação contralateral do pescoço e elevação contralateral do segmento cefálico. O músculo esplênio da cabeça origina-se nos processos espinhosos de C3 a T3 e insere-se na linha nucal superior e na mastóide. O esplênio do pescoço origina-se nos processos espinhosos T3 ou T4 à T6 e insere-se nos processos espinhosos das primeiras vértebras cervicais. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 O músculo elevador da escápula origina-se nos processos transversos das primeiras quatro vértebras cervicais e insere-se no ângulo rostral da escápula. Eleva a escápula e, quando esta está fixa, inclina o pescoço lateralmente. Os músculos supraespinhais da cabeça e do pescoço, o longuíssimo da cabeça e o multífido originam-se, inserem-se e localizam-se mais profundamente que os descritos anteriormente. Têm como função principal auxiliar a extensão cervical. Os músculos retos posteriores e oblíquos profundos localizam-se na região da primeira e segunda vértebras cervicais. O músculo escaleno anterior, médio e posterior têm como funções a estabilização da primeira e segunda costelas durante a respiração e estabilização do pescoço, durante a rotação. Apresenta íntima relação anatômica com o plexo braquial, que cursa entre o escaleno anterior e médio. O escaleno anterior origina-se no processo transverso de C3 e 4 e insere-se na primeira costela. O escaleno médio origina-se nos processos transversos das últimas seis vértebras cervicais e insere-se na primeira costela. O escaleno posterior origina-se nos processos transversos das três últimas vértebras cervicais e insere-se na segunda costela. Os músculos do pescoço podem ser divididos em flexores e extensores da cabeça e do pescoço: ➔ Flexores da cabeça: reto curto anterior e lateral, músculo longo da cabeça ➔ Extensores da cabeça: reto posterior maior e menor, oblíquo superior e inferior, longuíssimo da cabeça, esplênio da cabeça e o semiespinhal da cabeça. ➔ Flexores da coluna cervical: escaleno anterior, médio e posterior. ➔ Extensores da coluna cervical: esplênio cervical, semiespinhoso cervical e o longuíssimo cervical. Estes três, em conjunto com o esternocleidomastoideo, são responsáveis pela rotação ipsilateral do pescoço. Os músculos infraespinhoso, o elevador da escápula, o trapézio e o multífido participam também da movimentação cervical e do ombro. As raízes cervicais anteriores e posteriores, após emergirem do canal espinal, recebem os ramos cinzentos e compõem a cadeia simpática cervical com seus gânglios (superior, médio e estrelado). Cerca de 1 cm lateralmente ao forame de conjugação, a raiz origina duas divisões: ➔ Divisão posterior: composta de um componente medial sensitivo e um lateral motor, que inerva a região posterior do pescoço. O nervo occipital maior é o componente medial da divisão posterior de C2. ➔ Divisão primária anterior maior: ➢ Divisões primárias dos 4 nervos rostrais formam o plexo cervical. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 ➢ Divisões primárias dos 4 nervos caudais formam o plexo braquial. Após emergir pelos forames, os componentes anteriores dos quatro nervos cervicais rostrais formam alças de onde emergem os ramos nervosos superficiais e profundos. Os últimos inervam os músculos da região cervical anterior podendo unir-se ao X, XI e XII nervos cranianos e, deste modo, contribuem para inervar as vísceras desta região. Os ramos superficiais contém fibras sensitivas cutâneas que constituem o nervo occipital menor (C2 – C3), o auricular maior (C 2 – C 3), o cutâneo anterior (C2 – C3) e os supraclaviculares (C3 – C4). As raízes C4 a C7 recebem nos canais de conjugação ramos comunicantes profundos que se originam no plexo neurovegetativo simpático situado ao redor da artéria vertebral e oriundo dos gânglioscervicais. O componente neurovegetativo simpático entra na constituição do plexo braquial pois une-se às raízes após sua emergência dos canais de conjugação. Na região cervical estão localizadas parte da estrutura do esôfago, a laringe, a glândula tireoide, a traqueia, as artérias carótidas e vertebrais e as veias jugulares, que também podem ser causa de dor, quando acometidas por afecções da natureza variada. Exame dos doentes com cervicalgia Várias condições traumáticas funcionais infecciosas, inflamatórias, tumorais, degenerativas e endocrinológicas podem acometer o sistema nervoso central (SNC), periférico (SNP), as estruturas viscerais (esôfago, tireoide, laringe, traqueia) ou o tecido conjuntivo e causar cervicalgia. Além disso, anormalidades sistêmicas, como metástases, infecções, neuropatias, vasculopatias, doenças autoimunes, podem secundariamente acometer estruturas da região cervical. A síndrome dolorosa miofascial (SDM) é a causa mais comum da cervicalgia crônica. A avaliação do doente com cervicalgia deve incluir dados da história presente e pregressa, antecedentes individuais e familiares, hábitos (medicamentos, atividades físicas, posturas, condições dos ambientes do trabalho, padrão do sono) e elementos do exame físico, incluindo os do aparelho locomotor e do sistema nervoso. A localização, intensidade, distribuição, irradiação, qualidade, fatores de melhora e de piora da dor, dentre outros aspectos devem ser aferidos com precisão. O exame físico deve incluir a inspeção e a palpação das estruturas cervicais especialmente das vísceras e dos músculos, a percussão das apófises espinhosas, a movimentação passiva e ativa do pescoço e a avaliação da dinâmica e da arquitetura da região cervical em relação ao resto do corpo. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 O exame da sensibilidade superficial e profunda, da motricidade voluntária, automática, involuntária e reflexa, a avaliação da coordenação dos movimentos e das anormalidades neurovegetativas e tróficas é fundamental para aferir ocorrência de neuropatias. Os seguintes exames são recomendados para localizar a afecção causal e identificar sua natureza: ➔ Exames laboratoriais visando a avaliar a função metabólica, a ocorrência de afecções infecciosas (inflamatórias) ou tumorais neuropáticas, ➔ Exame do líquido cefalorraquidiano para avaliar possibilidade de afecções ➔ Exames eletrofisiológicos (eletroneuromiografias, potenciais evocadas) ➔ Exames de imagem incluindo o exame de ultrassom, a tomografia computadorizada (TC) e a ressonância magnética (RN) das estruturas cervicais, ➔ Radiografia da coluna cervical e a perimielografia (PMG) cervical, ➔ Cintilografia óssea, Os dados dos exames complementares devem ser valorizados caso congruentes com os da história e exame físico. Afecções músculo-esquelética ➔ Síndromes dolorosas miofasciais (SDMs) – traumatismos, anormalidades degenerativas e ou inflamatórias primárias da coluna cervical, atividades ocupacionais, posturas anormais, estresses psíquicos, ansiedade e depressão são as causas mais comuns de SDMs cervicais. pode acompanhar também outras afecções como hérnias discais, traumatismos, tumores, infecções regionais e ou sistêmicas. Então, seu diagnóstico como entidade isolada requer o descarte de várias entidades regionais. Muitos músculos da região cervical podem ser sede de SDMs. A dor ocorre, geralmente em doentes que são propensos a lesões traumáticas cervicais, lesão em chicote, ocupacionais ou não, e costuma ser precipitada por fadiga ou estresses psicológicos e outros fatores. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 ➔ Músculo trapézio – a excessiva flexão ou extensão cervical em decorrência de estresses emocionais, a sobrecarga funcional decorrente do manuseio ou transporte de objetos pesados em um ombro e a execução de atividades que impliquem na elevação dos membros superiores são, entre outros, fatores importantes relacionados à instalação de SDM no músculo trapézio. A dor, nestes casos é referida na face posterolateral do pescoço, orelha, região temporal e mastoide. Vários pontos gatilho (PG) destacam-se nas fibras verticais ou horizontais da porção látero-cefálica deste músculo, no centro da sua porção média, e na região mais lateral da sua porção inferior. ➔ Músculo esternocleidomastoideo – a SDM do esternocleidomastóideo causa dor referida no esterno, na região occipital, na órbita, no pavilhão auricular e na região clavicular. Os PGs podem ser palpados ao longo do músculo, que pode ser examinado com pressão digital ou pinçamento entre os dedos. ➔ Músculo esplênio da cabeça e esplênio do pescoço – são muito sensíveis a traumatismos e a posturas viciosas em flexão. Situam-se profundamente no pescoço de modo que, a evocação da dor por pressão de seus PGs requer mais força. Quando acometidos por SDM causam resistência à flexão da cabeça e à rotação contralateral, uma vez que promovem extensão do segmento cefálico e rotação ipsolateral. A dor referida do esplênio da cabeça manifesta-se no crânio, especialmente no vértex e na órbita. ➔ Músculo elevador da escápula e infraespinhal – é um dos músculos mais envolvidos na ocorrência de SDM cervical porque a elevação da escápula é habitual em situações de tensão emocional ou de posturas inadequadas. Pode relacionar-se também à síndrome do desfiladeiro torácico (compressão do plexo braquial). A dor, nestes casos, é referida na face posterolateral do pescoço, na região interescapular e no ângulo do pescoço. Os PGs mais importantes localizam-se na porção cefálica e medial da escápula e na região mais proximal do músculo. Ambos podem ser palpados; a palpação do segundo, implica no deslocamento manual do trapézio. O músculo infraespinhal pode apresentar PGs que evocam cervicalgia e dor no membro superior. ➔ Músculos escalenos – o acometimento dos músculos escalenos decorre de vícios posturais e de anormalidades respiratórias. Os PGs são palpados por Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 pressão dos músculos contra os processos transversos e causam dor referida na região cervical anterior, peitoral, cervical posterior, dorsal ou lateral e no membro superior. A SDM dos escalenos pode simular infarto do miocárdio. A contração dos escalenos pode causar síndrome do desfiladeiro torácico. ➔ Músculo semiespinais da cabeça e pescoço, longuíssimo da cabeça e multífido – a SDM destes músculos origina dor referida na região cervical posterior, região occipital, órbita, pavilhão auricular e ou ombro e restringe a flexão e rotação lateral do pescoço. Seus PGs referentes são profundos. O comprometimento do músculo semiespinal da cabeça pode causar compressão do nervo occipital maior. O tratamento da SDM é baseado na eliminação das causas e no controle da dor com analgésicos anti-inflamatórios não hormonais (AAINHs), opioides, relaxantes musculares, antidepressivos, neurolépticos, inativação dos PGs, reabilitação muscular e na remoção dos fatores perpetuantes ou agravantes (anormalidades psicológicas e posturais, afecções associadas). Exercícios, alongamentos, acupuntura, medidas fisiátricas, estimulação transcutânea técnicas de relaxamento e de suporte psicológico são necessários nestes casos. A inativação dos PGs cervicais deve ser realizada com cuidado, pois vasos, vísceras digestivas ou não, estruturas nervosas e respiratórias podem ser traumatizados durante o agulhamento ou a infiltração. Fibromialgia – em doentes com síndrome fibromiálgica,o exame físico revela dor sediada nos músculos suboccipitais, processos transversos de C5 a C7, borda superior do trapézio, músculo supraespinhoso e 2 cm abaixo do epicôndilo lateral do cotovelo além da ocorrência de dor em outros locais e outras condições associadas. Traumatismos – lesões por hiperflexão e hiperextensão, mesmo sem fraturas, podem causar microemorragias, edema, estiramento e lacerações das estrutura do aparelho locomotor, dor e espasmo muscular. Estiramentos, contusões e lacerações musculares, ligamentares e ou capsulares podem causar dor com intensidade variada, geralmente autolimitada, e às vezes, irradiada para o vértex e órbita, limitação dos movimentos rigidez da nuca, tonturas e náuseas e, associadamente, estiramento do esôfago e da laringe, com a consequente Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 disfagia e rouquidão. Além disso, podem ocorrer fraturas vertebrais, deslocamento das facetas articulares, compressão e irritação de estruturas nervosas. O diagnóstico baseia- se na história do traumatismo e no exame clínico. A palpação muscular, revela áreas com espasmo e contração muscular. Pode haver espasmo muscular e torcicolo e, nos casos mais graves, lesão radicular e ou medular. A mobilização passiva, nestes casos, proporciona grau mais amplo de movimentação que a ativa. O exame radiológico pode evidenciar retificação da lordose cervical. Deve-se descartar a ocorrência de luxação ou instabilidade vertebral com radiografias na incidência ântero-posterior, perfil e transoral (para visualização do processo odontoide) e estudo dinâmico, em perfil em flexão e extensão (para pesquisa de luxação). Radiografias na projeção oblíqua são úteis para visualização dos forames intervertebrais. O tratamento baseia-se no uso de AAINHs, opioides e miorrelaxantes para o controle da dor. Exercícios de alongamento ativo e passivo, repouso também devem ser prescritos. Quando são identificados PGs, sua infiltração ou agulhamento podem ser benéficos. O tempo necessário para recuperação ligamentar é de, aproximadamente, três meses. Traumatismos graves podem causar lesões ligamentares e de cápsulas articulares, fraturas, deslocamentos e subluxações vertebrais. A luxação e ou a fratura cervical, também devem ser prontamente tratados. A imobilização da coluna com colar cervical, a tração a estabilização e ou a enxertia óssea podem ser necessárias em tais casos. Disfunções intervertebrais – são decorrentes da degeneração do disco intervertebral, fenômeno decorrente do avanço da idade ou de traumatismos que reduzem a capacidade amortecedora discal e causa sobrecarga do corpo vertebral, uncus vertebral e facetas articulares. Como conseqüência, instalam-se osteófitos reacionais ou hérnias discais. Estas anormalidades podem resultar em compressão da medula espinal ou das raízes nervosas. A espondilose cervical não associada a compressão radicular não causa cervicalgia. Havendo compressão de raiz nervosa, pode ocorrer radiculopatia. Quando há compressão da medula espinal, instala-se mielopatia. As hérnias discais e ou os osteófitos localizado posterolateralmente podem causar compressão ou distorção da raiz nervosa e radiculopatias. A estenose dos canais de conjugação são determinadas geralmente por saliências do anel fibroso, hérnias discais ou osteófitos. Nos canais de conjugação encontram-se raízes nervosas e artérias radiculares que irrigam a própria raiz e a medula espinal as veias satélites das artérias. Apesar de o canal de conjugação ser amplo em relação à raiz, esta é fixa pelo tecido fibroadiposo perirradicular de modo que pequenas estenoses reduzem seu “espaço vital”. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Mecanicamente, as estenoses comprimem e tracionam as raízes, fenômenos que são acentuados pelos movimentos do pescoço. A compressão venosa gera congestão e edema da raiz e do tecido perirradicular e a compressão da artéria radicular causa isquemia radicular. As modificações na posição do pescoço influenciam os efeitos da estenose. A hiperextensão angustia ainda mais os forames de conjugação; é bastante característica a piora do quadro clínico com essa manobra. A cervicalgia geralmente instala-se insidiosamente, sem causa aparente, e raramente, a instalação é súbita. É relacionada aos movimentos bruscos do pescoço, longa permanência em posições forçadas, esforços físicos ou traumatismos. Melhora com o repouso e piora com o aumento da pressão liquórica ou compressão das apófises espinhosas. Frequentemente é associado à contratura muscular e à ocorrência de PGs. O comprometimento radicular (da raiz nervosa) causa anormalidades sensitivas e motoras. A radiculopatia é caracterizada por dor cervical e ou nos membros superiores e por alterações sensitivas e ou motoras nos dermatômeros correspondentes. As anormalidades sensitivas mais comuns residem principalmente na irradiação da dor cervical para o membro superior e ou tórax. Frequentemente, associa-se a parestesias nos mesmos territórios onde há dor. Os fenômenos motores caracterizam-se por paresias e anormalidades dos reflexos miotáticos (reflexo motor que ocorre em resposta ao estiramento de um músculo). Algumas manobras evidenciam as radiculopatias compressivas. A manobra de Spurling consiste na manutenção da cabeça inclinada para o lado da dor seguida da sua compressão; agrava a cérvicobraquialgia pré-existente ou induz seu aparecimento. A manobra de Roger-Bikelas De Sèze consiste na manutenção do braço em abdução de 90 graus, do cotovelo em flexão de 90 graus e da cabeça inclinada para o lado oposto, seguindo-se de extensão do antebraço, condição que acentua ou desperta a sintomatologia braquial. As manobras que aumentam a pressão do LCR (Valsalva) agravam a dor. O comprometimento da raiz C5 causa dor e parestesia no ápice do ombro, pescoço e face ântero-lateral do braço, alteração da sensibilidade na região deltoide, comprometimento da motricidade do músculo deltoide e bíceps e anormalidade do reflexo do deltoide e bicipital. O comprometimento da raiz C6 causa dor e parestesia na borda medial da escápula, ombro, pescoço, face lateral do braço e dorso do antebraço, alteração da sensibilidade do primeiro e segundo dedos, comprometimento da motricidade do bíceps e do reflexo bicipital e estilorradial. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 O comprometimento da raiz C7 causa dor e parestesia na face lateral do pescoço, braço, região peitoral, dorso do antebraço e segundo e terceiros dedos, alteração da sensibilidade no segundo e terceiro dedos, da motricidade do tríceps e do reflexo tricipical. O comprometimento da raiz C8 causa dor e parestesia no pescoço, borda medial do braço, antebraço e quarto e quinto dedos e comprometimento da motricidade intrínseca da mão. As hérnias ou osteófitos posterocentrais podem causar mielopatia devido à compressão da medula espinal e ou ao comprometimento da artéria espinal anterior. A compressão medular pode ser causada por hérnia discal ou osteófitos em um ou vários espaços e gerar síndromes de compressão localizadas em um ou vários níveis. A lesão discal reduz a dimensão do compartimento raquidiano que abriga a medula espinal, condicionando a instalação de estenose do canal vertebral. A estenose atua por fatores mecânicos (atrito, compressão, tração) e biológicos (isquemia consequente à compressão arterial e ou venosa). A irrigação medular depende da permeabilidade das artérias radiculares; a isquemia podedecorrer da compressão de uma delas. Frequentemente, ocorre acometimento da artéria radicular principal por saliências posterolaterais ou grandes hérnias discais que alteram a confluência do ramo anterior da artéria radicular com a artéria espinal anterior. Como não há anastomoses úteis entre o sistema superficial e profundo, a compressão da artéria espinal anterior resulta em isquemia da substância cinzenta e dos tratos piramidais. Na maioria das vezes, ocorre comprometimento da artéria espinal anterior, que gera síndrome da artéria espinal anterior caracterizada por: ➔ Déficits motores sublesionais devidos à lesão dos feixes piramidais, ➔ Anormalidades deficitárias motoras e tróficas segmentares devidas à isquemia da substância cinzenta do corno anterior da medula espinal, ➔ Anormalidades sensitivas sublesionais devidas à lesão dos tratos espinotalâmicos anormalidades sensitivas lesionais devido à isquemia da substância cinzenta do corno posterior da substância cinzenta da medula espinal e do trato de Lissauer. Cervicalgia, hiperreflexia de membros inferiores, marcha espástica e outros sinais de comprometimento do neurônio motor superior podem sugerir compressão medular por hérnia discal, canal estreito ou outras anormalidades decorrentes da espondilose cervical. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 A sintomatologia é aguda em casos de hérnias de evolução brusca ou de origem traumática e geralmente insidiosa, em casos de osteófitos ou de hérnias de crescimento alentecido. A evolução é na maioria das vezes, lenta porque os fatores mecânicos e biológicos, gerados pela estenose, atuam lentamente. Raramente, a evolução é intermitente devido à acomodação das condições mecânicas. A mielopatia aguda é pouco comum, sendo ocasionada por hérnia discal aguda devida a traumatismo ou movimento brusco do pescoço, caracterizada por paralisia flácida, com padrão de secção transversa ou de dissociação siringomiélica da sensibilidade com o passar do tempo, a flacidez cede lugar à espasticidade, especialmente nos membros inferiores. Ocorre também amiotrofia nos membros superiores, devido ao sofrimento do corno anterior da substância cinzenta da medula espinal. Em caso de mielopatia crônica, predomina, habitualmente e ocorrem déficits motores sublesionais (paraparesia espástica) e, muitas vezes, lesionais (amiotrofia segmentar). O déficit sublesional frequentemente manifesta-se como claudicação medular intermitente que se torna evidente quando ocorre fadiga. A síndrome sublesional e lesional decorrente da associação da lesão da substância branca e cinzenta pode apresentar-se com marcado comprometimento dessa última e induzindo quadro clínico de pseudo-esclerose lateral amiotrófica, caracterizada por tetra ou paraparesia espástica, abolição dos reflexos cutâneo-abdominais e amiotrofia distal nos membros superiores. A sintomatologia sensitiva é pouco expressiva e pode ser conseqüente a fenômenos irritativos ou deficitários lesionais e sublesionais. Os fenômenos lesionais decorrem do sofrimento radicular do trato de Lissauer e ou do corno posterior da substância cinzenta da medula espinal. Os irritativos caracterizam-se como dor (cervicalgias, cervicobraquialgias) e parestesias cervicais e nos membros superiores com duração breve, geralmente pouco intensas e, os deficitários, como hipoestesia decorrente do sofrimento. Os fenômenos deficitários sensitivos sublesionais decorrentes do comprometimento do trato espinotalâmico, grácil e cuneiforme geralmente são discretos e caracterizados por deficit da sensibilidade profunda e superficial distal do nível da lesão. O complexo disco-osteofitário anterior pode causar disfagia quando há compressão extrínseca do esôfago. A hérnia discal posterolateral causa angustiamento da região posterolateral do canal vertebral e da porção inicial do canal de conjugação e irrita o plexo sensitivo espinal e braquialgia. A compressão radicular por hérnia discal ou artrose cervical pode ser confirmada pela RM, TC e ou perimiografia (PMG). A eletroneuromiografia (EMG) possibilita avaliar o comprometimento radicular. O exame do líquido cefalorraquidiano (LCR) pode revelar Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 bloqueio em casos de hérnias volumosas e hiperproteinorraquias. Os exames de imagem são muito sensíveis, mas inespecíficos quanto à avaliação da sintomatologia em casos de alterações degenerativas cervicais. Os exames de imagem devem ser validados apenas quando forem compatíveis com a história e o quadro clínico. O diagnóstico diferencial da cervicobraquialgia envolve outras afecções do esqueleto, a braquialgia da periartrite do ombro, a síndrome da fossa supraclavicular, a síndrome de Pancoast e a síndrome do túnel do carpo. Em casos de cervicobraquialgias sintomáticas por infecções e neoplasias, os exames de imagem evidenciam as anormalidades. Em casos de síndromes da fossa supraclavicular, predominam sintomas vasculares neurovegetativos simpáticos (cianose, diaforese, alterações tróficas do tegumento, anormalidades sensitivas e motoras nos territórios das raízes C8 e T1). A prova de Adson e a manobra da “mochila”, são geralmente presentes. Em casos de síndrome de Pancoast, a dor manifesta-se no território de C8 e T1 e identifica-se tumor no ápice pulmonar pelos métodos de imagem, comprometimento ganglionar e do estado geral. O tratamento da cervicobraquialgia por hérnia discal ou artrose deve ser incruento (sem derramar sangue). O tratamento cirúrgico deve ser considerado quando, apesar do tratamento incruento bem orientado, ocorrer piora da sintomatologia e manutenção de sinais clínicos que justifiquem o comprometimento das atividades dos doentes. A remoção do agente compressivo pode ser realizada pela via anterior ou posterior. ➔ Pela via posterior, pode ser realizada a hemilaminoforaminectomia com ressecção parcial da articulação interapofisária. Por essa via, o acesso à região lateral do canal vertebral e da raiz é satisfatório. ➔ Pela via anterior, pode-se ressecar o disco e, quando necessário, os osteófitos e realizar a atrodese; a técnica de Smith-Robinson ou de Clement é bastante empregada. A via depende da preferência do cirurgião. O mérito da utilização de cages após a discectomia está sendo avaliado. O tratamento da dor decorrente da mielopatia cervical consiste da administração de AAINHs, miorrelaxantes e de imobilização para evitar traumatismos adicionais. Geralmente, há necessidade de cirurgia. A cirurgia é emergente em casos de hérnias discais agudas. Nos casos crônicos, a cirurgia previne o agravamento da condição mielopática e pode resultar em melhora das anormalidades existentes. Tumores – Tumores ósseos (tumor de células gigantes, condrossarcoma, osteossarcoma, sarcoma de Ewing, cistos ósseos, osteoblastoma), tumores extra-durais Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 (metástase de câncer de próstata, pulmão, mama, tireóide), intra-durais extra-medulares (neurinomas, meningeomas) ou intramedulares (ependimomas, gliomas) causam cervicalgia insidiosa, às vezes mal localizada, que se acentua durante a noite ou ao amanhecer ou durante a execução de atividades físicas. Associadamente ocorrem fraturas patológicas e anormalidades neurológicas motoras (hiperreflexia nos membros inferiores, paresia dos membros superiores), sensitivos (hipoestesia segmentar, radicular ou distal) e ou neurovegetativos. O diagnóstico é fundamentadonos elementos clínicos e nos achados da RM, TC ou PMG cervical. O tratamento é baseado na natureza da lesão e no seu estadiamento. Consiste do uso de AAINHs, opióides, psicotrópicos, inibidores de reabsorção óssea, procedimentos de medicina física, remoção das lesões, exérese e ou estabilização cirúrgica vertebal, radioterapia, quimioterapia e ou imunoterapia Doenças infecciosas – Infecções das estruturas músculo-esqueléticas cervicais geralmente cursam com dor. Osteomielites costumam originar dor com intensidade, trajeto e características diversas, dependendo da região da coluna vertebral e dos músculos acometidos. Tuberculose e osteomielite causada por agentes não específicos podem causar dor cervical e ou occipital discreta ou intensa irradiada para os ombros e membros superiores frequentemente associada a disfagia, à limitação da mobilidade e aos espasmos musculares cervicais. Instala-se radiculopatia ou mielopatia quando a infecção progride. Os dados da história e a palpação e percussão dos processos espinhosos das vértebras normalmente possibilitam o diagnóstico. As provas de atividade inflamatória (leucocitose e aumento da velocidade de hemossedimentação) podem estar alteradas nestes casos. Os exames de imagem possibilitam o diagnóstico. As culturas nem sempre são positivas. O tratamento é baseado no uso de antibióticos, AAINHs e opióides; eventualmente tratamento operatório visando à descompressão neural ou restauração anatômica vertebral é necessário. Endocrinopatias e metabolopatias – Anormalidades do metabolismo ósseo, causadas pelo hiperparatireoidismo, raquitismo, alterações metabólicas decorrente do metabolismo anormal do cálcio e da vitamina D ou da insuficiência renal podem causar perda de massa óssea, fraturas e dor cervical. A acondroplasia, hiperostose esquelética idiopática são pouco frequentes. As anormalidades endocrinológicas causam alterações sistêmicas que auxiliam o diagnóstico; a avaliação laboratorial e os métodos de imagem determinam a natureza da condição causal. A calcificação ou o espessamento do ligamento amarelo podem causar Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 compressão medular, cervicalgia durante a flexão ou extensão do pescoço e comprometimento motor tipo neurônio motor superior; o tratamento fundamenta-se no uso de AAINHs, opioides, medidas fisiátricas e, quando há compressão medular, deve ser realizada descompressão do tecido nervoso após laminectomia ou laminotomia. Processos inflamatórios – Lúpus eritematoso, artrite reumatóide, espondilite anquilosante e polimiosite causam quadros álgicos devido ao comprometimento das articulações, ligamentos, músculos e ou vísceras cervicais. Na maioria dos casos, o diagnóstico é facilitado devido ao comportamento sistêmico por estas afecções. As provas de atividade inflamatória e imunológicas, bem como métodos de imagem auxiliam o diagnóstico. ➔ Artrite reumatóide – Na região cervical, acomete a articulação occipito-C1 e atlanto-occipital. Dor cervical, às vezes referida nas têmporas e na região retro- orbitária é expressão freqüente do acometimento vertebral. Anormalidades neurológicas (paresia sensitivo-motora dos membros superiores e ou inferiores, vertigem, nistagmo) são comuns em tais casos. As provas de atividade inflamatória e os exames de imagem possibilitam o diagnóstico. O tratamento visa ao controle da atividade inflamatória com antirreumáticos e da dor com AAINHs, opióides, psicotrópicos e procedimentos fisiátricos. Em casos de luxação vertebral, procedimentos cirúrgicos estabilizadores podem ser necessários. ➔ Espondilite anquilosante – é artropatia inflamatória que predomina no esqueleto axial. Pode causar cervicalgia e rigidez de nuca matinal. A maioria dos doentes apresenta antígeno HLA-B27, dor e rigidez sacro-ilíaca. Imobilidade cervical e redução da expansibilidade torácica são comuns. A hiperostose (crescimento ósseo excessivo) esquelética idiopática difusa ou a hiperostose anquilosante (doença de Forestier) são diagnósticos diferenciais mais comuns. O tratamento consiste do emprego de AAINHs e de procedimentos fisiátricos. ➔ Polimiosite e dermatomiosite – São afecções inflamatórias dos músculos esqueléticos com etiologia desconhecida. Caracterizam-se como fraqueza dos músculos proximais dos membros incluindo os da cintura pélvica e escapular, membros inferiores e superiores e pescoço, nesta seqüência. Associam-se a disfonia, disartria, disfagia, artralgias, exantemas, doenças malignas e outras Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 artropatias. O EMG é anormal e as enzimas musculares circulantes (CPK, transaminases, LDH, aldolase) são elevadas. Neuropatias ➔ Acidente vascular encefálico e medular – podem causar comprometimento muscular secundário e causar dor cervical. ➔ Neuralgias – Dentre estas, destacam-se as neuralgias do nervo glossofaríngeo, trigêmeo, laríngeo superior e do nervo occipital e a dor facial atípica. A dor nestes casos é em queimor ou choque, sendo sediada no território dos nervos acometidos. Hiperestesia, hiperpatia e zonas de gatilhos são achados habituais nestes casos. ➢ A neuralgia do glossofaríngeo caracteriza-se pela ocorrência de dor lancinante de curta duração e em choque na região lateral rostral do pescoço, faringe e ou orelha. ➢ Quando o ramo laríngeo superior do vago (neuralgia do nervo laríngeo superior) é acometido, ocorre dor na laringe, epiglote e base da língua. ➢ O acometimento da terceira divisão em casos de neuralgia do trigêmeo, pode causar dor que se irradia na região lateral superior do pescoço. ➢ A dor facial atípica manifesta-se na face, crânio e frequentemente, na região cervical como dor em peso, queimor ou latejamento. É mais comum nas mulheres de meia idade com transtornos psíquicos. ➢ O tratamento das neuralgias paroxísticas consiste no uso de anticonvulsivantes e o da dor facial atípica consiste do uso de antidepressivos, fenotiazinas e em procedimentos de medicina física. Em casos rebeldes, descompressões nervosas, rizotomias e tratotomias podem ser necessárias. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Síndrome do processo estiloide ou Síndrome de eagle Caracteriza-se como dor na fossa tonsilar referida na orelha e disfagia, em doentes com processo estiloide alongado. O diagnóstico é realizado pela palpação da fossa tonsilar e pela radiografia, TC ou RM da base do crânio. A SDM do músculo estilohióideo, estilofaríngeo e ou estilo-glosso justifica a sintomatologia em muitos casos. AAINHs, opioides, psicotrópicos, procedimentos fisiátricos e ou remoção cirúrgica da apófise estiloide geralmente alivia os sintomas. Dor Visceral Cervical É decorrente do comprometimento tireoidiano, esofágico, laríngea e ou traqueal por afecções inflamatórias, tumorais e ou infecciosas. As tireoidites agudas causam dor, calor e rubor localizados. As tireoidites crônicas e, com menor freqüência, as subagudas, não causam dor intensa. Os tumores da glândula tireóide, particularmente os carcinomas, podem cursar com dor. Laringites, faringites, epiglotites, esofagites e tumores destas vísceras podem causar dor e, usualmente, rouquidão e disfagia e odinofagia. Vasculopatias, aneurismas e dissecções arteriais podem também causar dor. Várias são as causas da cervicalgia. As síndromes dolorosas miofasciais são as mais prevalentes. Devido à riqueza da inervação das estruturas da região cervical e da grande quantidade de estruturasaí localizadas é necessário por diagnóstico preciso para que a intervenção terapêutica mais apropriada sejam aplicadas aos doentes que dela padecem. Os elementos de história clínica e de exames físicos são mais importantes que os dados de exames complementares para o estabelecimento das razões da ocorrência de cervicalgia. Como afecções degenerativas da coluna vertebral são de elevada prevalência na comunidade e, frequentemente assintomáticas, os achados de exames de imagem devem ser validados apenas quando houver correlação com os elementos de semiologia. O tratamento da cervicalgia fundamenta-se na remoção das causas, no uso de medidas farmacológicas, medicina física e reabilitação, psicoterapia e, quando necessário, de procedimentos ortopédicos, neurocirúrgicos e ou neurocirúrgicos funcionais. Lombalgia Segundo estudos epidemiológicos, 80% dos indivíduos, em algum período de suas vidas, serão acometidos de, pelo menos, algum episódio de dor lombar. Nos indivíduos com menos de 45 anos de idade, a dor nas costas é uma das mais importantes causas de incapacidade. Esta inclui-se entre as afecções músculo-esqueléticas relacionadas ao Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 trabalho (AMERT), decorrentes de esforços excessivos e posturas estático-dinâmicas inadequadas e prolongadas”. Trabalhadores com 25 a 45 anos de idade, envolvidos em mão de obra pesada, apresentam risco 2,5 vezes maior de ausência ao trabalho devido à dor vertebral, em relação aos trabalhadores com menos de 25 anos. O risco de recorrência ao ano em indivíduos com episódio inicial de dor nas costas, durando três meses ou mais, é de 26,7%, contra I 9,9% quando o episódio inicial dura um dial. Fatores psicossociais, desmotivação e descontentamento com a atividade ocupacional, hipocondria, alcoolismo e depressão contribuem para indução de dor lombar. Fisiopatologia Aproximadamente 90% dos doentes com dor nas costas apresentam substrato mecânico para suas dores. Subentende-se como lombalgia mecânica a dor secundária ao excessivo uso de uma estrutura anatômica normal ou a traumatismo ou deformidade desta. A coluna lombar é composta por cinco vértebras e seus discos intervertebrais; em postura ereta, à visão lateral, apresenta-se com uma curva côncava posteriormente, conhecida como lordose lombar. O grau de curvatura varia segundo o sexo, raça, idade, altura do indivíduo e a ocorrência ou não de afecção mecânica. Alguns estudos negam relação deste último fator com o ângulo lordótico. A origem da dor é variada. Todas as estruturas da coluna lombar são inervadas, com exceção do núcleo pulposo e da metade interna do anel fibroso. A coluna lombar é composta de compartimentos, o anterior e o posterior, separados pelo canal raquidiano e pelos pedículos. A justaposição de duas vértebras, disco intervertebral, articulação interapofisária, conteúdo vásculo-nervoso do orifício de conjugação, ligamentos e musculatura segmentar constituem a “unidade motora funcional”. É identificado na coluna vertebral, a unidade motora anterior, composta de dois corpos vertebrais e do disco interposto a eles, e que suporta até 80% do peso e tem a função de absorção de choques e a posterior ou arco neural, composta de dois processos transversos, da apófise espinhosa e dos dois pares de articulações facetárias determina a direção do movimento que o respectivo segmento pode realizar. Os ligamentos da coluna lombar são mais densos que os de outros segmentos vertebrais, aderindo às vértebras – como o ligamento longitudinal anterior – ou aos discos – como o ligamento longitudinal posterior, localizado no interior do canal raquidiano – e restringem os movimentos. Os ligamentos do arco posterior são: ➔ Ligamento amarelo, denso e resistente, inserido nas lâminas superior e inferior. ➔ Ligamento transverso, relacionado às apófises transversas. ➔ Ligamento interespinhoso, conectado às bases das apófises espinhosas. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 ➔ Ligamento supraespinhoso, ligado continuamente no vértice das apófises espinhosas. ➔ Ligamento transforamidal, nem sempre presente, considerado como faixas de fáscia e constituído de fibras que cruzam o limite esterno do forame intervertebral, reduzindo o espaço disponível para a emergência dos nervos espinais. O disco intervertebral é composto de anel fibroso e núcleo pulposo, que une as vértebras adjacentes, da segunda vértebra cervical até o sacro. As fibras anulares podem ser comparadas a sofisticados ligamentos, formando articulações chamadas de intrassomáticas. A musculatura do tronco desempenha o papel de realizar movimento de flexão, extensão, flexões laterais, rotação e circundação e de manter a postura ereta antigravitacional, integrando-se harmonicamente com a musculatura pélvica e abdominal. Etiopatogenia Sob o aspecto etiopatogênico, as lombalgias podem ter origem mecânico- degenerativa, não-mecânica localizada e/ou psicossomática ou ser repercussão de doença sistêmica. As causas não-mecânicas incluem as inflamatórias, como as espondiloartropatias; as soronegativas; as infecciosas, como as espondilodiscites; os tumores primários e secundários; as doenças viscerais, como o aneurisma abdominal, a úlcera péptica, a doença intestinal inflamatóri ou o câncer de próstata; doenças metabólicas, como a doença de Paget, a osteoporose, a osteomalácia e o hiperparatireoidismo, etc. Dentre as causas funcionais, destaca-se a síndrome dolorosa miofascial. Em crianças com dor lombar, os problemas mecânicos podem ocorrer em casos de anormalidades congênitas, neurológicas, doenças infecciosas ou estruturais da coluna vertebral. Diagnóstico Temporalmente, a dor lombar pode ser considerada ➔ Inespecífica e aguda, quando inicia subitamente e perdura durante até três semanas; ➔ Subaguda, quando dura de quatro a doze semanas; ➔ Crônica, quando dura mais de doze semanas. O histórico clínico é essencial na avaliação de um doente com lombalgia. A natureza, localização, irradiação e referência da dor e seus fatores desencadeantes e Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 agravantes devem ser valorizados. A dor deve ser avaliada de acordo com suas dimensões físicas, emocionais e cognitivas. Na maioria dos casos, a dor origina-se de disfunção músculo-esquelética e é de causa mecânico-degenerativa. A dor músculo-esquelética é agravada durante certas atividades ou posturas e é aliviada pelo repouso ou adoção de posição antálgica°°. A dor de origem mecânica é geralmente desencadeada por fatores mecânico-posturais ou estresses emocionais ou disfunção nos tecidos moles. Localiza-se na região lombar e metade proximal da nádega e, algumas vezes, na região inguinal. Deve-se suspeitar de anormalidade neurológica quando há ciática ou pseudoclaudicação, ou seja, dor no membro inferior (Ml) durante a marcha, mimetizando claudicação isquêmica e descrita como peso ou latejamento associados a parestesias. Esta queixa pode evidenciar hérnia discal; manobras deverão ser executadas para evidenciar compressão radicular. Disfunção intestinal ou de bexiga podem denotar compressão da cauda equina por tumor ou hérnia discal, condição geralmente associada a comprometimento sensitivo com distribuição de ciática bilateral e deficit motor nos MMII. A dor lombar de origem inflamatória não é aliviada na posição supina (decúbito dorsal). A espondilite anquilosante (artrite inflamatória) geralmente acomete indivíduos do sexo masculino com menos de 40 anos de idade; acompanha-sede rigidez matinal e tem duração superior a três meses. Em casos de espondilite anquilosante e artropatias coxofemorais, ocorre ciatalgia incompleta (a dor não ultrapassa distalmente o joelho). A persistência de dor lombar, apesar de ter uma intervenção terapêutica adequada, pode ser agravada por depressão ou traduzir abuso de substâncias, insatisfação no trabalho, ganhos secundários de compensação ou envolvimento em litígio. Os hábitos sociais também devem ser avaliados; particularmente, deve-se considerar o tabagismo fator de risco independente para lombalgia. A idade é útil para a pontuação diagnóstica. O mieloma múltiplo em pessoas com 50 a 70 anos, a estenose de canal nas pessoas com 45 a 67 anos, o osteoblastoma com 25 a 40. Alguns testes podem definir com objetividade os sinais clínicos, mesmo quando não estão relacionados à incapacidade subjetiva. A flexão anterior, lateral e rotacional é influenciada pela dor e pelo temor de sua ocorrência, ou estar normal em doentes com dor lombar crônica. A manobra de Valsalva evidencia hipertensão liquórica e pode ser realizada com o doente sentado, exercendo inspiração profunda e flexão do tronco, quando positiva, denota compressão radicular. Os testes de extensão podem desencadear ou agravar a dor lombar em casal de estenose de canal, espondilolistese e ou artrose zigoapofizária. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Quando a hérnia discal é na axila da raiz, a hiperextensão passiva reduz a sintomatologia. Os testes de Gaeslen e de Patrick, quando positivos, sugerem comprometimento da articulação sacrilíaca. A palpação pode evidenciar pontos-gatilhos miofasciais, pontos dolorosos e bandas musculares tensas em casos de síndrome dolorosa miofascial. Foi evidenciado pontos-gatilhos e pontos dolorosos em 97% dos doentes com dor lombar. A SDM do piriforme é reproduzida pela rotação externa da perna ativa e resulta em sintomatologia similar à ciatalgia. O comprometimento do reflexo miotático denota lesão radicular; o comprometimento do reflexo aquiliano denota lesão da primeira raiz sacral; o comprometimento do reflexo tibial posterior, lesão da quinta raiz lombar e o comprometimento do reflexo patelar denota lesão da quarta raiz lombar. O exame da força das cadeias musculares do tronco pode ser realizado de várias maneiras. Com o doente sentado com os joelhos estendidos, avaliam-se a força do músculo psoas e dos músculos abdominais caudais; estando sentado com os joelhos fletidos, avaliam-se os músculos abdominais; a elevação de ambas as pernas possibilita avaliar os m. flexores do quadril; com o doente em decúbito ventral, o elevar das costas com os MMII estendidos alternadamente possibilita avaliar os músculos paravertebrais rostrais e caudais e os músculos glúteos e a deficiência da flexão do tronco pela falta de flexibilidade dos isquiotibiais. A força do músculo gastrocnêmio e do músculo sóleo (raiz SI) é testada solicitando-se ao doente que se mantenha em pé na ponta dos artelhos (dedos) e a do músculo extensor longo do hálux (raiz L5), solicitando-se que ele caminhe apoiando-se nos calcanhares. A sensibilidade pode ser documentada com mapas apropriados. A distribuição dermatomérica da dor é importante recurso para identificar a raiz nervosa acometida; cumpre salientar que a distribuição dermatomérica nem sempre equivale à compressão radicular. No caso da meralgia parestésica, há dor, disestesia, ou ambos, na região da espinha ilíaca ântero-superior e face ântero-lateral da coxa, decorrente do encarceramento do nervo fêmoro-cutâneo lateral ou da raiz nervosa. Deve-se também realizar o exame das artérias tibial posterior e dorsal do pé, a mensuração da temperatura cutânea e pesquisar sinais atróficos das extremidades. As provas psicológicas de rotina, embora contestadas quanto a sua utilidade, podem ser uteis para diferenciar estados dolorosos psicogênicos dos somatogênicos. É difícil observar perfil psicológico normal em doente que tem incapacidade dolorosa prolongada. A dor lombar prolongada é debilitante e causa alterações funcionais, torna os doentes emocionalmente instáveis e ansiosos, por temerem recidiva, ou deprimidos. A expressão das queixas álgicas varia de acordo com a natureza e localização das lesões, Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 idade, estado mental, repercussões físicas, psíquicas e sociais da dor, fatores ambientais, culturais mis e ritmo biológico dos indivíduos; há mecanismos tanto periféricos quanto centrais na expressão da dor lombar aguda ou crônica. O modelo biomédico em detrimento do aspecto biopsicossocial revelou-se mais apropriado para justificar a experiência de dor. Fatores psicossociais são relacionados a gênese da dor lombar. Entretanto, os cuidados relacionados a eles não resultam em redução da intensidade da dor. Há razão psicofisiológica para a persistência da dor. O aprendizado da dor (memória) induz no doente tensão muscular crescente aos eventos estressores. Os fatores psicossociais são relacionados à incapacidade as necessidades físicas. a satisfação no trabalho e o reforço financeiro são aspectos determinantes da incapacidade resultante da dor lombar. Os fatores sociais e mantenedores da resposta afetiva, são identificáveis por respostas verbais e não-verbais. O sofrimento e a dor passam a ser não só a maneira do individuo expressar a sua insatisfação, como também instrumento de conseguir o que deseja. Há grande número de questionários e escalas que mensuram a dor e a lombalgia. No entanto, seus escores não são inteiramente fidedignos e não substituem a anamnese e observação clínica; a resposta a muitos quesitos dos inventários depende da compreensão de texto, da escolaridade e da condição socioeconômica dos doentes. Dentre os testes específicos para avaliar a lombalgia destaca-se o Questionãrio de Incapacidade de Owestry, composto de dez sessões, cada uma contendo seis afirmativas que descrevem as limitações em várias situações do cotidiano, como o ato de sentar, caminhar, levantar peso, viajar, vida sexual e social. O Questionário de Dor de Dallas é um instrumento ánalogo-visual em que o doente imagina sua dor lombar em várias situações como: interferência no trabalho, no humor, nas relações interpessoais e na vida social, e a punição que o doente pensa em receber de outras pessoas por causa da dor. Menos específica para a dor lombar e mais apropriada para avaliar a dor crônica, são as escalas numéricas de dor, a escala analógica-visual e o Questionário de Dor McGill. Fatores psicossociais são importantes não só no desenvolvimento da incapacidade prolongada, resultando do tratamento de dor lombar crônica, mas também nos estágios iniciais da doença. Segundo Linton, fatores psicológicos podem se associar aos resultados do tratamento da dor lombar; variáveis psicossociais são intensamente ligadas à transição da dor aguda para crônica e geralmente causam mais impacto do que fatores biomédicos e biomecânicos na geração da dor e incapacidade. Não há suporte para o conceito da existência de personalidade propensa à dor, mas há forte evidência de que Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 atitudes, comportamentos, crença de evitação e medo estejam ligados ao desenvolvimento de dor e incapacidade. A depressão, a ansiedade e as emoções estão fortemente ligadas à dor. Há alguma evidência de que abusos físicos e sexuais estejam ligados à incapacidade e de que fatores psicossociais sejam preditores moderados da cronificação da dor. Síndromes Clínicas Doença discal– Foi padronizado a terminologia, englobando no termo discopatia, as desidratações, as fissuras e as roturas do disco intervertebral. Essas modificações estruturais podem ou não alternar o contorno dos discos, originando, quando de forma global, os “abaulamentos” ou, de forma focal, as hérnias discais. Os abaulamentos podem ser simétricos ou assimétricos e as hérnias, protrusas, quando a base de implantação no disco de origem é mais larga do que qualquer outro diâmetro, e extrusas, quando a base de implantação no disco de origem é menor que algum dos seus outros diâmetros ou quando há perda do contado do fragmento com o disco. Quanto à localização, as hérnias discais podem ser medianas, contralaterais, laterais, foraminais, extraforaminais ou extremo-Iaterais. A lombalgia acomete inicialmente mais de 90% dos indivíduos com hérnia discal durante período médio de dois anos, antes do aparecimento do componente radicular. A dor apresenta intensidade variável e sofre influencia da posição: quase sempre melhora com o decúbito lateral e com a flexão do quadril. Causa limitação da mobilidade do tronco, escoliose antálgica, às vezes retificação da lordose dorsolombar e sinal de Lasègue positivo ipsolateral. Este, quando contralateral, pode denotar hérnia extrusa. A palpação das articulações apofisárias (localizadas I a 3cm de linha média) pode gerar dor incongruente com a afecção discal. Essa dor é devida à sobrecarga funcional dessas articulações e manifesta-se durante a extensão do tronco. Localiza-se, às vezes, a distância e tem padrão mal-definido, surdo e, às vezes, não segue o modelo dermatomérico. Pode sensibilizar pontos motores dos músculos anteriores ou posteriores dos MMII. A sensibilização das unidades neuronais, tanto na medula espinhal quanto no tálamo, resulta em mecanismos reflexos e em compensações estruturais estático- dinâmicas das estruturas acometidas, o que contribui para a instalação da dor e incapacidade. Em hérnia volumosa, extrusa e mediana, pode ocorrer compressão da cauda equina, do que resulta dor aguda, paralisia parcial ou total dos MMII e alterações esfincterianas. Entretanto o diagnóstico de hérnia de disco é eminentemente clínico, o diagnóstico por imagem é recurso para descartar outras afecções ou para auxiliar sua localização e Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 extensão. A radiografia simples permite excluir tumores primários, infecções, espondilólise, anomalias vertebrais e processos degenerativos. A eletroneuromiografia (ENMG) e as imagens obtidas por tomografia axial computadorizada (TC) e por ressonância magnética (RM) auxiliam a configurar o diagnóstico. Estenose lombar – Estenose do canal raquidiano é definido pelo estreitamento do diâmetro ântero-posterior do canal espinal e dos forames intervertebrais. A estenose de canal pode ser classificada como adquirida ou como congênita ou do desenvolvimento. A adquirida pode decorrer de alterações degenerativas (discais, hipertrofias ligamentares, osteofitose, espondilolistese), iatrogênicas (síndrome pós-laminectomia, pós-artrodese), pós-traumáticas ou metabólicas (doença de Paget). A principal característica clínica da estenose do canal é a claudicação neurogênica intermitente; o doente refere dor vaga, parestesias e fraqueza nos MMII ao caminhar. A dor geralmente aumenta durante a marcha e a extensão lombar e, muitas vezes, o doente tende a fletir o tronco antalgicamente. Esta sintomatologia deve ser diferenciada da claudicação vascular, em que a dor é mais precisa, no quadril, coxa e panturrilha, ocorrem câimbras e alterações dos pulsos periféricos e raramente parestesias ou fraqueza. A estenose do canal pode também associar-se à síndrome da cauda eqüina, em que há incontinência urinária gradual e progressiva e lombociatalgia. Esta condição pode assemelhar-se à síndrome da cauda equina aguda, desencadeada pela extrusão do disco, processos expansivos ou fraturas. A TC e a RM da coluna lombar podem delinear a dimensão e a forma do canal e seu conteúdo. Espondilolistese – Caracterizada pela condição em que ocorre translação para frente de um corpo vertebral sobre a vértebra imediatamente inferior dentro de uma unidade funcional. A causa pode ser displásica ou congênita, decorrente da deficiência congênita das facetas rostrais do sacro ou caudais de L5; ístmica, decorrente do defeito nas estruturas interarticulares (pars interarticularis); degenerativa, decorrente de artrose das articulações posteriores; traumática, decorrente da fratura do pedículo, lâmina ou faceta articular; patológica, decorrente de adelgaçamento do pedículo secundário, causando debilidade óssea, como ocorre em casos de osteogênese imperfeita. Não existem evidências embriológicas ou anatômicas que sustentem a teoria congênita da espondilólise ou da espondilolistese. Esta afirmação é corroborada pelo fato de o processo de lise ístmica iniciar-se por volta do cinco anos de idade e a listese Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 completar-se por volta dos 20 anos, quando então, sua incidência permanece igual à população geral. O padrão sintomático da espondilolistese da criança é diferente da do adulto e, muitas vezes, pode até ser assintomática. O exame clínico revela retração dos músculos posteriores da coxa, que resulta no desenvolvimento da marcha peculiar da espondilolistese, conhecida como “cambaleio da pelve”. É claro que a exuberância do quadro clínico está relacionada ao grau de deslizamento vertebral. O estudo radiológico simples na incidência oblíqua, sobretudo quando o defeito é unilateral (como ocorre em 20% dos doentes), revela a lise. O tratamento depende do grau de listese e do senso clínico. Deve-se evitar a atitude de impedir o adolescente de praticar esportes, exceto os potencialmente traumáticos. O uso de órtese baixa e a reabilitação podem complementar o tratamento conservador. Síndrome dolorosa miofascial (SDM) – Os músculos da região dorsolombar são particularmente suscetíveis ao desenvolvimento da SDM. Esta, quase sempre é secundária ao traumatismo de flexo-extensão ou microtraumatismos de repetição por inadequação da postura. Acredita-se ser manifestação de sensibilização espinhal segmentar que acomete o miótomo correspondente e não entidade nosológica isolada”. A dor miofascial focal ou regional pode ser referida localmente ou a distância. Vários fatores podem predispor o doente ao desenvolvimento da dor miofascial; descondicionamento físico para execução de atividades esportivas esporádicas, lesões prévias que acarretam anormalidade funcional do músculo, nutrição deficiente ou coexistência de anormalidades psicológicas e comportamentais, incluindo o estresse crônico e a depressão. O diagnóstico é essencialmente clínico; fundamenta-se na identificação da dor regional, alterações sensitivas a distância, restrição da amplitude dos movimentos, palpação de bandas de tensão e de um ou mais pontos-gatilhos. Diagnóstico Febre, perda de peso, rigidez matinal prolongada, agravamento da dor durante o repouso, adenopatia, sopro no abdome hipertensão arterial e a ocorrência de deficit funcional nos MMII podem sugerir várias afecções causadoras de lombalgia como infecções, neoplasias , espondiloartropatias, anormalidades metabólicas, afecções vasculares (aneurisma da aorta), geniturinárias (endometriose, nefrolitíase, gravidez tubária), doeças prostáticas, gastrintestinais (pancreatite, úlceras pépticas), etc. Exames complementares e a correlação clínica constituem elementos importantes para elucidaro diagnóstico. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Exames complementares É frequente a solicitação de exames radiológicos pelos médicos que atendem doentes com lombalgia. As radiografias de rotina devem limitar-se às incidências de frente e perfil, para investigar fraturas, luxações, espondilolisteses ou alterações degenerativas, reservando-se as incidências oblíquas para casos especiais, para evitar-se a alta dose de radiação ao doente. A TC possibilita avaliar o canal vertebral (discos, pendículos, forames) e hérnias discais, incluindo as foraminais extremo-laterais impossíveis de serem detectadas a perimielografia. Demonstra com mais clareza a anatomia óssea, esclarece a natureza das alterações ósseas e articulares no diagnóstico diferencial das lombalgias e lombaciatalgias e apresenta, em muitas condições, especificidade superior à RM. A RM é radiação não-ionizante e sem efeitos adversos e substitui a TC e a perimielografia como método de avaliação rotineira da coluna vertebral em casos de doença degenerativa discal, traumatismo, infecçao e neoplasia medular ou radicular intrínseca. Possibilita demonstrar a gordura epidural o que facilita o diagnóstico de afecções intrarraquidianas, a identificação de hérnias discais residuais ou hérnias recorrentes da fibrose epidural. Embora tenha incrementado o poder de visibilizar anormalidades espinhais, não há evidência de que tenha contribuído para otimizar o tratamento das síndromes vertebrais comuns. Anormalidades não relacionadas podem ser evidenciadas. Marca-passos, clipes metálicos e próteses ferromagnéticas contraindicam sua realização. Os exames de laboratório são de grande importância e até imprescindíveis para a elucidação diagnóstica, sobretudo quando há sinais de alerta. São exames importantes para a conclusão do diagnóstico, em muitos casos. Diagnóstico diferencial de Cervicalgia Conhecimento apropriado da coluna cervical e suas doenças tornam-se indispensáveis na prática reumatológica e nas especialidades afins, uma vez que estas podem manifestar-se como queixas inespecíficas, tais como cefaleia e dores musculares, até quadros de mielorradiculopatias e suas complicações, com altos índices de morbidade e mortalidade. É de extrema importância a familiaridade do médico com as várias doenças da coluna cervical, como os traumatismos, processos inflamatórios, degenerativos e neoplásicos, além da necessidade de um diagnóstico diferencial preciso com outras condições da medicina interna (endócrinas, infecciosas, hematológicas, etc.) que podem apresentar-se com dor cervical. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Epidemiologia A cervicalgia é menos frequente que a lombalgia. Sua prevalência atual na população geral é estimada em 29% nos homens e 40% nas mulheres, embora estes índices possam ser ainda maiores quando avaliamos populações selecionadas de acordo com as atividades exercidas no trabalho (4) . Nas cervicalgias pós-traumáticas, como nos acidentes automobilísticos com impacto posterior, a condição conhecida como síndrome do chicote (whiplash), apresenta uma incidência que varia de 18% a 60%. A incidência das hérnias discais da coluna cervical é de difícil estimativa. Embora haja uma clara relação entre as queixas musculoesqueléticas e fatores ocupacionais, muitos estudos apresentam baixa qualidade metodológica, sendo que até o presente momento existem evidências positivas de cervicalgias relacionadas com posturas fixas e prolongadas, curvatura aumentada do tronco, flexão cervical acentuada durante atividades por períodos longos, ergonomia inadequada e atividades que envolvam vibração contínua das mãos e dos braços. A maioria dos estudos indica a necessidade urgente de orientação e de programas de reeducação postural, com finalidade de diminuição dos custos gerados pelas síndromes dolorosas cervicais. Anatomia e Biomecânica A coluna cervical é responsável pela sustentação e movimentação da cabeça e proteção das estruturas neurais e vasculares. Estima-se que a movimentação da coluna cervical ocorra cerca de 600 vezes por hora, ou a cada seis segundos. É constituída por sete vértebras, sendo que as duas primeiras (atlas e áxis) apresentam características anatômicas distintas das restantes. ➔ O atlas tem forma de anel, não possui corpo vertebral, articula-se com a base do crânio através da articulação atlanto-occipital, sendo responsável por grande parte do movimento sagital da coluna cervical. ➔ O áxis, a segunda vértebra, possui proeminência que emerge de seu corpo vertebral, chamada processo odontóide, que se projeta para o interior do atlas, pela sua porção inferior e anterior, formando um pivô no qual a articulação atlanto-axial consegue efetuar a rotação do crânio; entre estas duas vértebras não existe disco intervertebral, sendo separadas e sustentadas por vários ligamentos internos. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 As demais vértebras cervicais de C3 a C7 são mais homogêneas, possuem corpos vertebrais anteriores e arcos neurais posteriores e se diferenciam das vértebras torácicas e lombares por apresentarem os forames das artérias vertebrais localizados nos processos transversos. Os corpos vertebrais são separados pelos discos intervertebrais, compostos por duas porções: uma central, chamada de núcleo pulposo, o qual é constituído por 90% de água e proteoglicanos e outra periférica, denominada de ânulo fibroso, formada por fibras resistentes, dispostas em lamelas concêntricas. Essas estruturas são responsáveis pela absorção de impactos e pela dispersão da energia mecânica, sendo importantes na gênese dos processos degenerativos da coluna cervical. Todas as raízes nervosas cervicais, com exceção da primeira e da segunda, estão contidas dentro do forame intervertebral. Ao contrário dos nervos da coluna torácica e lombar, as raízes da coluna cervical levam o nome do pedículo acima de sua emergência. Por exemplo, a raiz de C5 emerge entre a quarta e a quinta vértebra cervicais. A exceção é a oitava raiz cervical, que sai entre a sétima vértebra cervical e a primeira vértebra torácica. O posicionamento mais horizontal dos nervos cervicais contrasta com os nervos lombares, que tem orientação vertical. A flexão da coluna cervical aumenta o diâmetro vertical do forame intervertebral, enquanto a extensão diminui suas dimensões. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 O canal vertebral possui forma triangular com ângulos arredondados. O aspecto posterior do corpo vertebral é a base do triângulo. Os pedículos e o forame transverso compreendem as partes laterais, juntamente com as articulações interfacetárias, as lâminas e o ligamento amarelo. O canal é mais amplo no nível atlanto-axial e mais estreito na altura da lâmina de C6. As medidas laterais são maiores que as ântero-posteriores em todos os níveis. Os diâmetros sagitais normais da coluna cervical são 17 a 18 mm de C3 até C6, e de 15 mm em C7 (8) . A relação entre o tamanho do canal vertebral e a medula difere significativamente entre os indivíduos, sendo em geral mais estreitos nas mulheres. Os corpos vertebrais estão envolvidos no seu aspecto anterior e posterior por dois ligamentos: longitudinal anterior e longitudinal posterior. O ligamento longitudinal posterior é mais largo na porção superior da coluna quando comparado com as regiões mai inferiores. As expansões laterais sobre os discos intervertebrais inferiores são menos resistentes e representam zonas vulneráveis às hérnias discais. As articulaçõesentre os arcos vertebrais são sustentadas pelo ligamento supraespinhoso, que se torna o ligamento nucal na coluna cervical, pelos ligamentos interespinhosos, pelo ligamento amarelo e pelas articulações interfacetárias e suas cápsulas. O ligamento amarelo, extremamente elástico, se encontra posteriormente, entre as lâminas adjacentes. O ligamento transverso do atlas é o mais importante nessa região, tendo uma forma triangular, espesso e resistente, possui forma semicircular e se insere firmemente nos tubérculos, localizados na superfície medial das massas laterais do atlas. Divide o anel do atlas em um pequeno compartimento anterior, onde se aloja o processo odontoide, fixando-se no arco anterior e um amplo compartimento posterior, dos elementos neurais e suas membranas. Existem duas cavidades sinoviais, uma anterior, entre o arco do atlas e o processo odontoide e outra posterior, entre o ligamento transverso e o processo odontoide. O ligamento transverso se ramifica em dois fascículos: Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 o superior, que se alonga até a porção basal do occipício e o inferior, que se insere na superfície posterior do áxis. Os músculos da coluna cervical podem ser definidos pelos seus limites anatômicos, inervação ou função. Sendo a região mais móvel de toda a coluna vertebral, contém o sistema muscular mais elaborado e especializado. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 A correlação anatômica com estruturas do pescoço e da coluna é útil na localização de pontos de referência. O ângulo da mandíbula corresponde à primeira vértebra cervical. O osso hióide está no nível de C3, enquanto a cartilagem tireoidiana se encontra no nível de C4. A sexta vértebra está na altura da cartilagem cricoide. A biomecânica da coluna cervical consiste na distribuição de forças sobre o disco intervertebral, sendo o ânulo fibroso responsável pela recepção da carga, distribuída posteriormente para o núcleo pulposo. Durante o envelhecimento, ocorre uma redução progressiva do conteúdo de água do núcleo pulposo e uma diminuição na capacidade de embebição do disco, associada a um aumento do número de fibras colágenas, determinando uma menor elasticidade e compressibilidade. Essas alterações tornam o ânulo fibroso susceptível a rupturas, podendo, através destes pontos, produzir herniações discais com compressões radiculares. O processo degenerativo caracteriza-se ainda por formações osteofitárias, diminuição da altura do disco intervertebral e presença de esclerose subcondral. A maioria da rotação axial na coluna cervical alta ocorre na articulação atlanto- axial, sendo esta responsável por 50% de tal movimento, enquanto os segmentos inferiores (C3 a C7) são responsáveis pela flexão, extensão, lateralização e rotação. Os movimentos promovem deformações nos discos intervertebrais. Na flexão anterior, o espaço discal anterior é submetido a uma compressão, com consequente aumento posterior, sendo inverso na extensão. A posição da coluna cervical afeta diretamente a pressão intradiscal, sendo menor na posição supina (decúbito) e mais elevada na extensão. A flexão da coluna cervical é limitada pelo ligamento longitudinal posterior, pelos elementos vertebrais e pela elasticidade limitada da fáscia da musculatura extensora. A extensão excessiva da coluna é limitada pelo contato direto das lâminas vertebrais, as articulações interfacetárias e pelos processos espinhosos póstero- superiores. Exame Físico Após a obtenção de uma história clínica completa, o exame físico é a próxima etapa no processo diagnóstico. A anamnese alerta o clínico para aqueles pacientes que se apresentam com emergências e necessitam de início precoce do tratamento, que incluem portadores de lesões expansivas causando compressões agudas progressivas da medula espinhal e suas raízes (hérnia de disco) ou infecção (meningite bacteriana). Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Os pacientes com compressão medular podem se apresentar com paraplegia aguda, fraqueza de extremidades inferiores, distúrbios da marcha e incontinência urinária. Tais pacientes devem ser conduzidos de maneira multidisciplinar, com o intuito de minimizar danos permanentes às estruturas neurológicas. Um exame físico bem conduzido minimiza os custos gerados pelas condições dolorosas cervicais, pois tornam muitas vezes desnecessários exames de imagem e estudos eletrodiagnósticos. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 O exame físico da coluna cervical, como nos demais segmentos, compreende a inspeção, palpação, a mobilização ativa e passiva e manobras especiais. Durante a inspeção observar se existem deformidades, alterações da curvatura cervical, atitudes antálgicas, anormalidades posturais, atrofias, alterações cutâneas e sinais de traumatismos. Assimetrias nas escápulas devem ser observadas, podendo indicar acometimento do músculo trapézio ou discrepância nos membros inferiores. Durante a palpação devemos verificar a presença de pontos dolorosos, contratura da musculatura paravertebral, além de alterações dos linfonodos e possíveis massas cervicais. Deve ser realizada como rotina a palpação da tireoide e dos pulsos carotídeos. O ligamento nucal deve ser palpado na sua totalidade, visando à identificação de possíveis sítios de dor. A inserção occipital do músculo trapézio também deve ser cuidadosamente examinada. A mobilização ativa (feita pelo paciente) e a passiva (realizada pelo examinador) fornece a capacidade funcional do segmento cervical e a amplitude de movimento, podendo auxiliar na identificação do possível segmento cervical acometido. No eixo sagital, a flexão e a extensão perfazem uma amplitude de aproximadamente 70°; a rotação compreende cerca de 90° para cada lado e a lateralização 45°, estando estas medidas diminuídas com a idade e na vigência de processos inflamatórios e/ou degenerativos. Durante a anamnese e o exame físico, a presença de dor irradiada para o ombro, escápula e braço denota a necessidade de avaliação neurológica cuidadosa, com ênfase nas alterações de reflexos, presença de paresias e/ou parestesias, diminuição de força motora, e sua distribuição dermatomérica. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Testes Especiais ➔ Teste de Compressão – Com o paciente em posição sentada, realiza-se a compressão progressiva da cabeça. Tal manobra causa o aumento na dor cervical, em razão do estreitamento foraminal secundário, aumento da pressão na raiz acometida, sobrecarga nas facetas articulares e maior sensibilização muscular. Deve-se evitar tal manobra caso haja suspeita de instabilidade cervical. ➔ Teste de Tração – Com o paciente sentado, realiza-se uma tração progressiva da cabeça. Tal manobra promove o alívio da sintomatologia dolorosa, provocado pelo aumento do diâmetro foraminal, diminuição da compressão radicular e da tensão nas estruturas de sustentação. ➔ Teste de Valsalva – Este teste proporciona o aumento da pressão intratecal. Se uma lesão expansiva, tal como um disco herniado ou tumor está presente no canal vertebral cervical, o paciente desenvolverá dor secundária ao aumento da pressão. A dor apresenta distribuição segmentar, na dependência da raiz acometida. Anormalidades nas fossas supraclaviculares como, p.ex., aumento de linfonodos, também podem se tornar proeminentes com o teste de Valsalva. A maneira mais simples de realização deste teste consiste em solicitar-se ao paciente que faça umaexpiração forçada contra a própria mão, segurando por cerca de 5 a 10 segundos. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 ➔ Manobra de Spurling – Demonstra possível compressão ou irritação radicular. Consiste na extensão e rotação conjuntas da cabeça para o lado acometido, resultando na reprodução ou aumento da dor radicular. ➔ Sinal de Lhermitte – Sensação de parestesias ou disestesias nas mãos ou pernas durante a flexão cervical. Tal sensação é mais frequentemente causada por uma hérnia de disco volumosa com compressão medular ou por formações osteofitárias em pacientes com canal vertebral estreito. Pode ser encontrado em pacientes portadores de AR com subluxação atlanto-axial ou subaxial. Sensações similares foram descritas em pacientes com esclerose múltipla. O sinal de Lhermitte está presente em uma grande variedade de doenças da medula, incluindo neoplasias, aracnoidite e siringomielia. ➔ Teste de Adson – Palpação do pulso radial durante a abdução, extensão e rotação externa do braço, com rotação homolateral do pescoço. A diminuição do pulso caracteriza um teste positivo, sugestivo de síndrome do desfiladeiro torácico. Diagnóstico diferencial das Cervicalgias Os pacientes apresentando queixas de dor cervical devem ser avaliados no sentido de descartarmos possíveis condições orgânicas subjacentes que podem ser responsáveis pelo seu quadro clínico, seja por meio de propedêutica clínica ou armada. São inúmeros os sinais que têm como origem a patologia cervical, podendo se apresentar de maneira inespecífica, dificultando o diagnóstico preciso e ampliando o espectro do diagnóstico diferencial. A presença de febre ou perda de peso é sugestiva de processo infeccioso ou tumoral. Pacientes apresentando dores que pioram na posição deitada ou durante a noite podem ser portadores de um processo infiltrativo medular ou tumoração da coluna vertebral. Dor cervical localizada pode ocorrer de forma secundária a doenças sistêmicas que aumentam a remodelação óssea, como, por exemplo a doença de Paget ou a uma tumoração óssea loca- lizada (osteoblastoma). Pacientes com dor de origem visceral (coronariopatias, síndrome do desfiladeiro torácico, doenças esofagianas) apresentam sintomas que afetam outras estruturas além da coluna cervical e apresentam recorrência regular. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Pacientes com dor cervical menores de 15 anos ou maiores de 60 anos devem ser avaliados de maneira mais criteriosa, sendo na maioria das vezes necessária a realização de exames de imagem e determinações laboratoriais (hematológico completo, provas de fase aguda, bioquímica óssea, etc.), pertinentes à forma de apresentação de cada caso. A classificação quanto ao tipo de dor cervical facilita a determinação da entidade patológica. Compressões extrínsecas em estruturas vasculares ou em nervos periféricos são as principais causas que mimetizam cervicobraquialgia e devem ser descartadas. Patologias torácicas e do ombro também devem fazer parte do diagnóstico diferencial. Um exame físico cuidadoso, incluindo o teste de Adson, propedêutica completa do ombro e testes para neuropatias periféricas deve ser realizado. Os traumatismos são as causas mais frequentes de injúrias ao plexo braquial, porém as compressões por estruturas vasculares, costelas cervicais, bandas musculares ou fibrosas e tumores podem resultar em sintomatologia. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Cervicalgia Mecânica As desordens mecânicas são as causas mais comuns de cervicalgias. A dor cervical mecânica pode ser definida como dor secundária a utilização excessiva de uma estrutura anatômica normal (em geral, a musculatura paravertebral) ou como dor secundária a dano ou deformidade em uma estrutura anatômica (hérnia discal). São caracteristicamente exacerbadas por certas atividades e aliviadas por outras. Os fatores de melhora e de piora obtidos na anamnese são úteis na localização da região acometida, como, por exemplo, a flexão cervical levando a um agravamento dos sintomas relacionados com a doença discal degenerativa e levando a uma melhora nas síndromes facetárias. Na maioria das vezes têm curso autolimitado, com a grande maioria dos pacientes apresentando resolução completa dos sintomas. Distensão Cervical Definida como dor cervical não-irradiada, associada a sobrecargas mecânicas ou posturas anormais prolongadas da coluna. Caracteriza-se por dor em região cervical posterior e em área do músculo trapézio, com restrições a movimentação ativa e passiva, além de áreas dolorosas à palpação. A incidência real desta condição é de difícil determinação, sendo extremamente comum, e apresentando-se com um espectro doloroso variável. As condições ocupacionais devem ser consideradas no desencadeamento e recidiva desta patologia. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Sua etiologia ainda não está totalmente definida, porém pode estar relacionada com o acometimento musculoligamentar secundário a um evento traumático de intensidade variável ou a uma sobrecarga mecânica repetitiva. A dor é o sintoma mais comum de apresentação, apesar de serem frequentes queixas concomitantes de cefaleia do tipo tensional. Geralmente localiza-se na parte média e inferior da região cervical posterior, podendo ser localizada ou difusa e bilateral nos casos mais severos. A dor não apresenta irradiação para os braços, porém pode se irradiar para os ombros, e se exacerba com a movimentação do pescoço. Ocorre melhora com repouso e imobilização. O exame físico revela apenas uma área de dor localizada, geralmente paravertebral. A intensidade da dor é variável, e a limitação da mobilidade cervical se correlaciona diretamente com a magnitude dolorosa. Pode ocorrer contratura sustentada do esternocleidomastoideo e do trapézio. A avaliação radiológica pode ser completamente normal, ou revelar apenas uma retificação da curvatura fisiológica da coluna cervical. O torcicolo é decorrente de uma contratura severa da musculatura do pescoço. A cabeça assume uma atitude em flexão lateral, com o queixo rodado para o lado oposto da dor. O torcicolo pode ser congênito ou adquirido. Na forma congênita, está associado a anormalidades anatômicas e neurológicas, incluindo a síndrome de Klippel-Feil (Figura 5), subluxação atlanto-axial, ausência ou atrofia congênita de músculos cervicais, malformação de Arnold-Chiari e siringomielia. A forma adquirida pode ocorrer secundária a traumas, dano muscular repetitivo, fratura ou subluxação atlanto-axial; nos quadros infecciosos das vias aéreas superiores, adenites cervicais e osteomielites; pós-infecciosos (difteria, gripe), anormalidades vasculares com compressão, doenças neurológicas e síndromes radiculares (hérnia discal). Artrite Reumatoide A coluna cervical é a região mais acometida do esqueleto axial na artrite reumatoide (AR), principalmente no segmento C1-C2, determinando a subluxação atlanto- axial. As alterações inflamatórias crônicas ocorrem nas articulações atlanto-occipital, atlanto-axial, interfacetárias e uncovertebrais, em conjunto com os discos intervertebrais, ligamentos e bursas. Na articulação atlanto-axial, o processo inflamatório na membrana sinovial, com extensão aos ligamentos, promove enfraquecimento e frouxidão do ligamento transverso condicionando um aumento da distância entre a face posterior do arco anterior do atlas e a face anterior do processo odontoide. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Quando esta distância émaior que 3mm em radiografias cervicais com flexão máxima obtidas em perfil estabelecemos o diagnóstico de subluxação atlanto-axial anterior. A distância posterior, medida do aspecto posterior do processo odontoide até o arco posterior do atlas, quando menor que 14mm é sugestiva de compressão medular. Alguns fatores relacionados com a evolução da AR se apresentam como fator de risco aumentado para o desenvolvimento de subluxações, tais como o uso prolongado de corticosteroides, altos títulos de fator reumatoide, grau de erosões articulares periféricas, acometimento de nervos cervicais, presença de nódulos reumatoides e longo tempo de evolução de doença. Em um estudo recente, foi estimado o risco de desenvolvimento de subluxação, baseado em índices radiográficos em articulações periféricas durante os primeiros anos da AR. Pacientes que desenvolveram índices iguais ou maiores que 10% do dano teoricamente estimado nas mãos, punhos e nas articulações dos pés nos primeiros cinco anos da doença, foram 15,9 vezes mais propensos a desenvolver subluxações quando comparados com aqueles com dano periférico inferior a 10% do máximo estimado. A prevalência nos vários trabalhos da literatura varia de 34% a 42% dos pacientes com AR. O tratamento com drogas modificadoras ou moduladoras da doença parece diminuir os índices de acometimento atlanto-axial (34,35) . A frequência das queixas cervicais é elevada em pacientes reumatoides, podendo chegar a 80% durante a evolução da doença (36,37). A dor na região posterior do pescoço é a queixa mais comum, seguindo-se rigidez e limitação de movimentos, principalmente a flexo-extensão. O envolvimento cervical na AR pode levar a uma instabilidade significativa, com potencial de compressão sobre estruturas medulares e radiculares. Torna-se indispensável para o médico assistente obter radiografias da coluna cervical antes de procedimentos cirúrgicos que necessitem intubação de vias aéreas ou manipulação da cabeça. Síndrome Fibromiálgica (SFM) – Fibromialgia Quadro clínico – O diagnóstico da SFM é fundamentalmente clínico. Não há evidências de anormalidades laboratoriais ou nos exames de imagem nestes casos. Os critérios diagnósticos da fibromialgia sugeridas pelo American College of Rheumatology ACR são: ➔ História clínica: dor generalizada localizada no hemicorpo direito e esquerdo, acima e abaixo da cintura, além do eixo axial (região cervical, face anterior do tórax, dorso e região lombar) com duração superior a 3 meses. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 ➔ Exame físico: dor à palpação digital com 4kg/cm2 em áreas denominadas pontos dolorosos (tender points) em 11 ou mais dos seguintes de 18 pontos (bilateralmente): 1) Inserção dos músculos suboccipitais na nuca; 2) Ligamentos dos processos transversos da quinta à sétima vertebra cervical; 3) Bordo rostral do trapézio; 4) Músculo supra-espinhoso; 5) Junção do músculo peitoral com a articulação costo-condral da segunda costela; 6) Dois centímetros abaixo do epicôndilo lateral do cotovelo; 7) Quadrante látero-superior da região glútea, abaixo da espinha ilíaca; 8) Inserções musculares no trôcanter femoral; 9) Dois centímetros rostralmente à linha articular do côndilo medial do fêmur. Quando o número de pontos dolorosos é inferior a 11, mas há concomitância de outros sintomas e sinais, o diagnóstico de fibromialgia também pode ser realizado. O sintoma característico da SFM é a dor muscular generalizada, frequentemente acompanhada de rigidez, fadiga e de anormalidades na qualidade do sono. Tais sintomas manifestam-se como períodos intermitentes de melhora e piora, que se tornam mais intensos durante alguns meses e depois estabilizam-se, de modo que a incapacidade física, em graus variados, está sempre presente. Muitos doentes apresentam outras anormalidades sensitivas, neurovegetativas e cognitivas representadas por ansiedade, depressão, cefaleia, síndrome do cólon irritável, cistites de repetição, dismenorreia, sensibilidade ao frio, déficits de memória e de concentração, dor nas dobras, fenômeno de Raynaud e hiperemia cutânea. Dor crônica generalizada é o sintoma cardinal da SFM. Pode ser moderada ou intensa. É referida aos músculos, ligamentos e tendões de várias regiões do corpo. Cefaleias crônicas, geralmente diárias, muitas vezes intensas e frequentemente relacionadas a tensão emocional são referidas por mais de 40% dos doentes. Rigidez articular ocorre em cerca de 80% dos doentes. Rigidez e artralgia simulam condições artríticas. Dor e rigidez apresentam magnitude variada diurna. Costumam ser mais intensas pela manhã e ao anoitecer, podem ser agravadas pelo excesso de atividade física, infecções sistêmicas, lesão de tecidos moles, privação do sono, exposição ao frio, umidade, estresses psicológicos e podem comprometer a realização das atividades de vida diária, serviços domésticos e laborativos, alterar o humor, o sono e a qualidade de vida. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Fadiga generalizada traduzida por sensação de falta de energia, e exaustão é queixa relatada por 85% dos doentes. Fatigabilidade fácil durante exercícios físicos, esforço mental e ocorrência de estressores psicológicos é queixa comum. Expressa-se durante todo o dia, pode melhorar pela manhã e manifesta-se como cansaço extenuante com o passar do dia. Parestesias e adormecimento, principalmente nas extremidades, sem padrão dermatomérico, na ausência de anormalidades ao exame neurológico são referidos por 50% a 75% dos doentes. Sensação de inchaço e edema nas mãos, pés e tornozelos também é sintoma frequente. Dificuldade para início do sono, despertar frequente durante a noite, dificuldade para retomada do sono, sono agitado e superficial e despertar precoce ocorrem em aproximadamente 65% dos doentes. É comum a queixa do sono não reparador; o doente acorda cansado e com dores no corpo. A síndrome do cólon irritável é caracterizada por dor abdominal, distensão e alteração do hábito intestinal (obstipação, diarréia ou alternância) que melhoram com a evacuação, é observada em cerca de 20% da população em geral e em 60% dos doentes com SFM. A síndrome de bexiga irritável, caracterizada por desconforto suprapúbico, urgência para esvaziamento vesical e, frequentemente disúria, é referida por 40 a 60% dos doentes. A dor crônica causa comprometimento de diversos aspectos da vida representadas por estresses emocionais, comprometimento da produtividade e do nível de educação e maior frequência de divórcios. A limitação física e os comportamentos de evitação são os principais componentes da incapacitação funcional nos doentes com SFM. O funcionamento físico refere-se ao potencial orgânico de um indivíduo executar movimentos e outras funções. A capacitação funcional é essencial ao processo de adaptação à dor crônica e refere-se ao desempenho de tarefas cotidianas que, embora dependam do funcionamento físico, estão sujeitas a estratégias de enfrentamento cognitivo comportamental para sua realização. A incapacitação funcional dos doentes com SFM reflete-se adversamente no desempenho ocupacional, dificultando a realização de uma série de tarefas motoras e cognitivas. Doentes com SFM assemelham-se quanto ao funcionamento físico, mas diferem quanto à relação entre funcionamento físico, a gravidade da dor e a incapacitação funcional. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Diagnóstico Diferencial O diagnóstico diferencial da SFM, inclui a síndrome dolorosa miofascial (SDM),as poliartrites, o hipotireoidismo e a polimialgia reumática, entre outras condições. A SDM e a SFM podem ser duas afecções distintas com fisiopatologia similares. Apesar de a dor muscular ser comuns nas 2 síndromes, os casos de SDM há pontos gatilhos (PGs), enquanto que na fibromialgia, há presença de pontos dolorosos. Doentes com SDM apresentam PGs a dor é regionalizada, enquanto que doentes com SFM têm dor generalizada e apresentam pontos dolorosos. A SDM pode ser resultado de afecções músculo-esqueléticas localizadas agudas que se instalam após traumatismos, posturas inadequadas ou estresses emocionais. Alguns doentes com SDM desenvolvem SFM à medida que a dor se cronifica. A SFM pode iniciar-se em condições álgicas localizadas como ocorre em casos de tendinite como em casos de distúrbios osteomusculares relacionados ao trabalho (DORT). Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Várias afecções podem constituir comobidades com a SFM, incluindo a depressão, a síndrome do cólon irritável, as cefaléias e a síndrome de fadiga crônica. Aproximadamente 25% dos doentes com SFM apresenta depressão maior e, 50% apresenta história de depressão em algum período da vida. Os sintomas de depressão incluem fadiga, desânimo, falta de energia, alterações do sono e dor crônica. A concomitância de outra doença como artrite, estenose do canal raquidiano, polimialgia reumática e neuropatias periféricas torna freqüentemente difícil o diagnóstico da SFM. Algumas afecções reumatológicas como artrite reumatóide (AR), síndrome de Sjögren ou lúpus eritematoso sistêmico (LES) podem apresentar-se inicialmente como dor difusa e fadiga e a SFM pode coexistir com elas. A polimialgia reumática pode mimetizar a SFM. Naquela condição os pontos dolorosos não são achados constantes, a velocidade de hemossedimentação é elevada e a evolução é favorável com uso de corticosteroides. A espondilite anquilosante apresenta comprometimento axial, redução da flexibilidade à movimentação da coluna tóraco-lombo-sacral e alterações radiológicas típicas. A ocorrência de sinovite associada a alterações sistêmicas do tecido conectivo auxiliam o diagnóstico destas afecções específicas. A miosite inflamatória e as miopatias metabólicas podem ocasionar fraqueza e fadiga muscular, mas geralmente não causam dor difusa. Não ocorre fraqueza muscular significativa em casos de SFM; quando presente, é devida à dor e ao desuso. As enzimas musculares são normais e o quadro histopatológico também é normal ou inespecífico em biópsias musculares de doentes com SFM. Afecções metabólicas ou inflamatórias podem ocorrer em doentes com SFM, incluindo o hipotireoidismo; entretanto, seu tratamento não implica em regressão das manifestações clínicas da SFM. A síndrome da fadiga crônica (SFC) apresenta similaridade com a FMS. Os sintomas instalam-se agudamente após doenças infecciosas e caracterizam-se pela persistência de fadiga debilitante e desconforto após os exercícios. Cerca de 75% dos doentes com diagnóstico de SFC apresenta SFM. Polimialgia Reumática A PMR afeta tipicamente as cinturas pélvica e escapular, causando dor e rigidez matinal que duram, pelo menos, 30 minutos. 4 Os sintomas são habitualmente simétricos e o início é geralmente abrupto, com o desenvolvimento da sintomatologia geralmente em menos de duas semanas. A dor também pode envolver o pescoço, braços, costas e Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 coxas. Podem existir manifestações musculoesqueléticas distais, tais como a síndrome do túnel cárpico e artrite periférica assimétrica. O exame físico pode ter achados mínimos e inespecíficos, tais como restrição ativa e passiva dos movimentos das articulações afetadas, sem sinais inflamatórios e com força muscular mantida. Podem existir sinais e sintomas sistêmicos em até 40% dos doentes, como febre, fadiga, depressão, anorexia e perda de peso. No caso apresentado, o início abrupto e a simetria das queixas não se verificaram, o que pode ter causado algum atraso diagnóstico e contribuído para que, dada a intensidade das queixas e incapacidade sentida, a paciente tivesse mostrado um padrão de grande consumo de consultas, quer no CS, quer na medicina privada, muito diferente do previamente adotado. O diagnóstico da PMR é essencialmente clínico e pouco apoiado por exames complementares de diagnóstico. A Sociedade Britânica de Reumatologia e a Associação Britânica de Profissionais de Saúde da Reumatologia publicaram guidelines para o diagnóstico e tratamento da PMR, com nível de evidência científica B e C. Exame Físico O paciente com lombalgia ou lombociatalgia deve ser examinado levando-se em conta que a pressão intradiscal varia em função dos movimentos e das posições do corpo. Desta forma, deve-se sempre observar: ➔ Inspeção ➢ O paciente caminhando, tipo de marcha e se existe posição antálgica; ➢ Se existem assimetrias (desnível dos ombros, pregas subcostais, cristas ilíacas, pregas glúteas, alteração nas curvaturas da coluna lombar como retificação da lordose, acentuação da cifose torácica ou escoliose); ➢ A presença de lesões de escaras, traumas ou cirurgia anterior. ➔ Palpação ➢ A presença ou não de hipertonia muscular e pontos dolorosos; ➢ Deve-se lembrar de palpar as articulações sacrilíacas; Estudo dos Movimentos da Coluna Lombar ➔ Flexão: se a dor aparece ou é agravada por este movimento ou se irradia para os membros inferiores, admite-se que existe lesão discal (protrusão ou hérnias discais). Teste de Shober: Espondilite anquilosante se menor que 5cm. Distância mão-chão. ➔ Extensão: a dor aparece nos casos de artrose zigoapofisárias e estenose de canal artrósico. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 ➔ Flexão lateral direita e esquerda: pesquisar dor e ou limitação da amplitude dos movimentos ➔ Rotação direita e esquerda: dor e/ou limitação da amplitude dos movimentos. Testes específicos ➔ Manobra de Valsalva: a exacerbação da dor ou sua irradiação até o pé pode significar que exista compressão radicular. ➔ Manobra de Lasègue ou teste da perna estendida: o exame deve ser feito com o paciente em decúbito supino, a mão esquerda do examinador deve imobilizar o ilíaco e a mão direita elevar-lhe o membro inferior segurando-o na altura do tornozelo. O teste é considerado positivo se houver irradiação ou exacerbação da dor no dermátomo de L4-L5 ou L5-S1 em um ângulo de 35° a 70°. Em hérnias extrusas ou volumosas pode ser positiva abaixo de 35°. Dor acima de 70° resulta em teste é negativo, isto é, não existe compressão radicular. ➔ ➔ Sinal do arco da corda (manobra de Bragard): deve-se proceder como na manobra de Lasègue: ao iniciar a dor, dobra-se o joelho (flexão); se a dor diminuir ou desaparecer significa que o teste é positivo. ➔ Sinal das pontas de “De Sèze”: Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 ➢ Andar no calcanhar (dorsiflexão do tornozelo), não consegue: compressão da raiz de L4 ou L5. ➢ Andar na ponta dos pés (flexão plantar do tornozelo), não consegue: compressão da raiz de S1. ➔ Pesquisa de reflexos: ➢ Ausência do reflexo patelar indica comprometimento da raiz de L3 e/ou L4. ➢ Ausência do reflexo aquiliano indica comprometimento da raiz de S1. ➔ Pesquisa da força de flexão e extensão dos pododáctilos: ➢ Hálux: ausência ou força diminuída indica deficiência motora por compressão radicular de L5. ➢ O 2.º e 3.º pododáctilos: ausência ou força diminuída indica deficiência motora por compressão radicular de S1. ➔ Sinais não orgânicos de lombalgia psicossomática:➢ Sensibilidade dolorosa exacerbada em locais de distribuição não anatômica e superficial. ➢ Lombalgia que aparece após compressão crânio caudal ou à rotação da pelve e ombros sem movimentar a coluna. ➢ Sinal de Lasègue exagerado quando pesquisado sentado ou deitado. ➢ Alterações regionais de sensibilidade (hiperestesia em bota) em pacientes não diabéticos e fraqueza generalizada. Avaliação Diagnóstica Complementar ➔ Radiologia convencional: ➢ Nas lombalgias mecânicas agudas ou subagudas (até quatro semanas), sem “sinais de alerta”, os estudos de imagens não são necessários. ➢ Nas lombalgias crônicas e agudas com “sinais de alerta” se faz necessário solicitar a radiografia simples na primeira consulta. ➔ Tomografia axial computadorizada (TC), indicadas em comprometimentos: ➢ Discais, ➢ Das faces intervertebrais (platôs vertebrais), ➢ Das articulações zigoapofisárias, ➢ Do canal vertebral e forames intervertebrais. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 ➔ Ressonância nuclear magnética (RNM): é superior à tomografia axial computadorizada em razão da melhor visualização dos tecidos moles e por ser multiplanar com amplo plano de visão. Usada nos casos sugestivos de: ➢ Infecção, ➢ Câncer ➢ Comprometimento neurológico persistente. ➔ Mielografia e mielotomografia: métodos invasivos com indicação voltada para casos de dúvidas de compressão radicular após TC e RNM ou associadas a radiografias dinâmicas em casos de estenose de canal vertebral e foraminal. ➔ Discografia: método invasivo e de indicação restrita nos casos de hérnia de disco com reprodução da dor referida. ➔ Cintilografia: nos casos suspeitos de tumor, infecção e doença óssea difusa. ➔ Eletroneuromiografia: indicada no diagnóstico diferencial entre envolvimento radicular e outras doenças do sistema nervoso periférico. ➔ Densitometria óssea: nos casos de osteoporose primária ou de osteoporose secundária, devendo ter em mente que somente a presença de perda de massa óssea não justifica a lombalgia ou lombociatalgia. Exames Laboratoriais Deverão ser solicitadas as provas de atividade inflamatória e outros exames específicos de acordo com a hipótese diagnóstica e da presença de “sinais de alerta” apresentados pelo paciente. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Síndrome Fibromiálgica (SFM) – Fibromialgia Quadro clínico – O diagnóstico da SFM é fundamentalmente clínico. Não há evidências de anormalidades laboratoriais ou nos exames de imagem nestes casos. Os critérios diagnósticos da fibromialgia sugeridas pelo American College of Rheumatology ACR são: ➔ História clínica: dor generalizada localizada no hemicorpo direito e esquerdo, acima e abaixo da cintura, além do eixo axial (região cervical, face anterior do tórax, dorso e região lombar) com duração superior a 3 meses. ➔ Exame físico: dor à palpação digital com 4kg/cm2 em áreas denominadas pontos dolorosos (tender points) em 11 ou mais dos seguintes de 18 pontos (bilateralmente): 1) Inserção dos músculos suboccipitais na nuca; 2) Ligamentos dos processos transversos da quinta à sétima vertebra cervical; 3) Bordo rostral do trapézio; 4) Músculo supra-espinhoso; 5) Junção do músculo peitoral com a articulação costo-condral da segunda costela; 6) Dois centímetros abaixo do epicôndilo lateral do cotovelo; 7) Quadrante látero-superior da região glútea, abaixo da espinha ilíaca; 8) Inserções musculares no trôcanter femoral; 9) Dois centímetros rostralmente à linha articular do côndilo medial do fêmur. Quando o número de pontos dolorosos é inferior a 11, mas há concomitância de outros sintomas e sinais, o diagnóstico de fibromialgia também pode ser realizado. O sintoma característico da SFM é a dor muscular generalizada, frequentemente acompanhada de rigidez, fadiga e de anormalidades na qualidade do sono. Tais sintomas manifestam-se como períodos intermitentes de melhora e piora, que se tornam mais intensos durante alguns meses e depois estabilizam-se, de modo que a incapacidade física, em graus variados, está sempre presente. Muitos doentes apresentam outras anormalidades sensitivas, neurovegetativas e cognitivas representadas por ansiedade, depressão, cefaleia, síndrome do cólon irritável, cistites de repetição, dismenorreia, sensibilidade ao frio, déficits de memória e de concentração, dor nas dobras, fenômeno de Raynaud e hiperemia cutânea. Dor crônica generalizada é o sintoma cardinal da SFM. Pode ser moderada ou intensa. É referida aos músculos, ligamentos e tendões de várias regiões do corpo. Cefaleias crônicas, geralmente diárias, muitas vezes intensas e frequentemente relacionadas a tensão emocional são referidas por mais de 40% dos doentes. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Rigidez articular ocorre em cerca de 80% dos doentes. Rigidez e artralgia simulam condições artríticas. Dor e rigidez apresentam magnitude variada diurna. Costumam ser mais intensas pela manhã e ao anoitecer, podem ser agravadas pelo excesso de atividade física, infecções sistêmicas, lesão de tecidos moles, privação do sono, exposição ao frio, umidade, estresses psicológicos e podem comprometer a realização das atividades de vida diária, serviços domésticos e laborativos, alterar o humor, o sono e a qualidade de vida. Fadiga generalizada traduzida por sensação de falta de energia, e exaustão é queixa relatada por 85% dos doentes. Fatigabilidade fácil durante exercícios físicos, esforço mental e ocorrência de estressores psicológicos é queixa comum. Expressa-se durante todo o dia, pode melhorar pela manhã e manifesta-se como cansaço extenuante com o passar do dia. Parestesias e adormecimento, principalmente nas extremidades, sem padrão dermatomérico, na ausência de anormalidades ao exame neurológico são referidos por 50% a 75% dos doentes. Sensação de inchaço e edema nas mãos, pés e tornozelos também é sintoma frequente. Dificuldade para início do sono, despertar frequente durante a noite, dificuldade para retomada do sono, sono agitado e superficial e despertar precoce ocorrem em aproximadamente 65% dos doentes. É comum a queixa do sono não reparador; o doente acorda cansado e com dores no corpo. A síndrome do cólon irritável é caracterizada por dor abdominal, distensão e alteração do hábito intestinal (obstipação, diarréia ou alternância) que melhoram com a evacuação, é observada em cerca de 20% da população em geral e em 60% dos doentes com SFM. A síndrome de bexiga irritável, caracterizada por desconforto suprapúbico, urgência para esvaziamento vesical e, frequentemente disúria, é referida por 40 a 60% dos doentes. A dor crônica causa comprometimento de diversos aspectos da vida representadas por estresses emocionais, comprometimento da produtividade e do nível de educação e maior frequência de divórcios. A limitação física e os comportamentos de evitação são os principais componentes da incapacitação funcional nos doentes com SFM. O funcionamento físico refere-se ao potencial orgânico de um indivíduo executar movimentos e outras funções. A capacitação funcional é essencial ao processo de adaptação à dor crônica e refere-se ao desempenho de tarefas cotidianas que, embora dependam do funcionamento físico, estão sujeitas a estratégias de enfrentamento cognitivo comportamental para sua realização. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 A incapacitação funcional dos doentes com SFM reflete-se adversamente no desempenho ocupacional, dificultando a realização de uma série de tarefas motoras e cognitivas. Doentes com SFM assemelham-se quantoao funcionamento físico, mas diferem quanto à relação entre funcionamento físico, a gravidade da dor e a incapacitação funcional. Diagnóstico Diferencial O diagnóstico diferencial da SFM, inclui a síndrome dolorosa miofascial (SDM), as poliartrites, o hipotireoidismo e a polimialgia reumática, entre outras condições. A SDM e a SFM podem ser duas afecções distintas com fisiopatologia similares. Apesar de a dor muscular ser comuns nas 2 síndromes, os casos de SDM há pontos gatilhos (PGs), enquanto que na fibromialgia, há presença de pontos dolorosos. Doentes com SDM apresentam PGs a dor é regionalizada, enquanto que doentes com SFM têm dor generalizada e apresentam pontos dolorosos. A SDM pode ser resultado de afecções músculo-esqueléticas localizadas agudas que se instalam após traumatismos, posturas inadequadas ou estresses emocionais. Alguns doentes com SDM desenvolvem SFM à medida que a dor se cronifica. A SFM pode iniciar-se em condições álgicas localizadas como ocorre em casos de tendinite como em casos de distúrbios osteomusculares relacionados ao trabalho (DORT). Várias afecções podem constituir comobidades com a SFM, incluindo a depressão, a síndrome do cólon irritável, as cefaléias e a síndrome de fadiga crônica. Aproximadamente 25% dos doentes com SFM apresenta depressão maior e, 50% apresenta história de depressão em algum período da vida. Os sintomas de depressão incluem fadiga, desânimo, falta de energia, alterações do sono e dor crônica. A concomitância de outra doença como artrite, estenose do canal raquidiano, polimialgia reumática e neuropatias periféricas torna freqüentemente difícil o diagnóstico da SFM. Algumas afecções reumatológicas como artrite reumatóide (AR), síndrome de Sjögren ou lúpus eritematoso sistêmico (LES) podem apresentar-se inicialmente como dor difusa e fadiga e a SFM pode coexistir com elas. A polimialgia reumática pode mimetizar a SFM. Naquela condição os pontos dolorosos não são achados constantes, a velocidade de hemossedimentação é elevada e a evolução é favorável com uso de corticosteroides. A espondilite anquilosante apresenta comprometimento axial, redução da flexibilidade à movimentação da coluna tóraco-lombo-sacral e alterações radiológicas Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 típicas. A ocorrência de sinovite associada a alterações sistêmicas do tecido conectivo auxiliam o diagnóstico destas afecções específicas. A miosite inflamatória e as miopatias metabólicas podem ocasionar fraqueza e fadiga muscular, mas geralmente não causam dor difusa. Não ocorre fraqueza muscular significativa em casos de SFM; quando presente, é devida à dor e ao desuso. As enzimas musculares são normais e o quadro histopatológico também é normal ou inespecífico em biópsias musculares de doentes com SFM. Afecções metabólicas ou inflamatórias podem ocorrer em doentes com SFM, incluindo o hipotireoidismo; entretanto, seu tratamento não implica em regressão das manifestações clínicas da SFM. A síndrome da fadiga crônica (SFC) apresenta similaridade com a FMS. Os sintomas instalam-se agudamente após doenças infecciosas e caracterizam-se pela persistência de fadiga debilitante e desconforto após os exercícios. Cerca de 75% dos doentes com diagnóstico de SFC apresenta SFM. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Fisiopatologia A fisiopatologia da SFM é incerta, apesar das inúmeras anormalidades laboratoriais evidenciadas nestes doentes. Muitos doentes não identificam eventos que possam ter sido a causa dos sintomas; quando o fazem, referem-se a infecções virais, traumatismos ou anormalidades emocionais ou uso de certos medicamentos. Há pesquisas que atribuem a instalação da SDM a alterações sistêmicas, metabólicas e neuroquímicas. Entretanto, nenhuma destas eventualidades parece ser comprovadamente responsável pela SFM. Mecanismos neurogênicos – A fisiopatologia da fibromialgia está relacionada a anormalidades no SNC. Várias evidências sugerem que a dor experienciada pelos doentes com SFM resulta de anormalidades no processamento sensitivo no SNC. Estímulos térmicos tônicos com intensidade insuficiente para gerar dor, elevam o limiar de dor causada por estímulos elétricos em indivíduos saudáveis, mas não nos doentes com SFM, fenômeno que sugere que haja deficiência do sistema do controle inibitório da nocicepção. Enquanto que em indivíduos normais a curva de intensidade da dor gerada por estímulos mecânicos é logarítmica, nos doentes com SFM o aumento é linear. Os doentes com SFM experienciam dor com duração prolongada e aumento da área de dor referida, quando os músculos são estimulados com solução salina e há redução do limiar à dor frente aos estímulos mecânicos nos músculos e aos estímulos elétricos isolados ou repetitivos aplicados ao tegumento e aos músculos. Enquanto que em indivíduos normais a curva de intensidade da dor gerada por estímulos mecânicos é logarítmica, nos doentes com SFM o aumento é linear. Anormalidades similares frente ao calor e frio também são observados. Estes resultados sugerem que o processamento sensorial é anormal nos doentes com SFM. Nos doentes com SDM, há amplificação das sensações corpóreas resultando em amplo espectro de sintomas somáticos. Dor é o sintoma mais importante da SFM. Anormalidades periféricas podem desempenhar algum papel na patogênese da SFM. Os nociceptores são ativados por estímulos mecânicos, térmicos e ou químicos teciduais. Neurotransmissores liberados retrogradamente (substância P/sP, neurocininas, peptídeo geneticamente relaiconado à colcitonina/PGRC), modificam a atividade da placa motora. Os aferentes primários liberam neurotransmissores excitatórios no corno posterior da medula espinal (CPME) que ativam e sensibilizam os neurônios sensitivos aí localizados. A atividade da sP aumenta 3 vezes no líquido cefalorraquidiano em doentes com SFM. A sP reduz o limiar da excitabilidade sináptica, resultando em ativação de sinapses normalmente silenciosas, sensibilizando os neurônios espinais de segunda ordem. A Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 hiperalgesia é caracterizada pela sensibilização central, que depende, em parte, da ativação dos receptores NMDA e da liberação de sP e pelos aferentes nociceptivos primários da medula espinal. Um estudo sugeriu que a ativação dos receptores de NMDA é relevante no processo de sensibilização neuronal de doentes com SFM. O estímulo dos receptores NMDA resulta em padrão de comportamento doloroso em animais e em hiperalgesia em tecidos profundos dos doentes com fibromialgia. Doentes com SFM parecem apresentar hiperatividade simpática; o nível de noradrenalina plasmático basal é mais elevado em doentes com SFM que nos controles. A noradrenalina urinária é elevada em doentes com fibromialgia e parece estar relacionada com a dor nos pontos dolorosos A liberação de noradrenalina após a administração de interleucina-6 (IL-6) é exageradamente mais elevada em doentes com SFM. A IL-6 estimula a secreção de fator de liberação do ACTH no hipotálamo, o que justifica a relação entre o SNC e o sistema nervoso neurovegetativo simpático. A liberação exagerada de noradrenalina reflete desregulação do controle sistema nervoso neurovegetativo simpático, que reforça o conceito de que a SFM seja produto de disfunção primária do SNC e do mecanismo do estresse. Unidades neuronais sensitivas no tronco encefálico e no tálamo e córtex cerebral são também ativados e sensibilizados. Várias estruturas corticais e subcorticaisestão envolvido no processamento da experiência dolorosa. O tálamo e o núcleo caudado são estruturas cerebrais importantes na integração do estímulo nociceptivo e na percepção da dor, e para regular o eixo hipotálamo- hipofisário-adrenal. Observaram que em mulheres com SFM o fluxo cerebral regional era significativamente menor em relação aos controles e que mulheres com SFM apresentam o limiar mais baixo para dor que aos de controle, na ausência de anormalidades morfológicas dessas estruturas que justificasse a hipoperfusão. Os achados sugerem que a percepção anormal da dor em doentes com SFM pode estar relacionada com disfunção do tálamo e do núcleo caudado ou das projeções dos neurônios inibitórios destas estruturas. Disto resultam alterações no SNC aos estímulos de média intensidade, limiar de dor maior percepção de estímulos dolorosos crônicos. Estão também envolvidos no processamento da dor o córtex pré-frontal (inibição das estratégias, desvio da atenção, inibição motora), a amígdala (colorido emocional, hipervigilância) e o loco celúreo (ativação da reação luta e fuga fight and flight). Estas estruturas estão relacionadas com o tálamo medial, enquanto que o tálamo lateral está relacionado com o córtex somatossensorial (localização espacial da dor). O giro cíngulo anterior é relacionado com a integração afetiva, cognição e reações motoras geradas pela Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 dor, pois apresenta aumento da atividade quando o indivíduo sofre dor. A atividade mental do indivíduo influencia a sensação dolorosa desagradável, pois modifica o fluxo sanguíneo no giro anterior do cíngulo. Isto significa que a atividade pré-frontal cortical (pensamento positivo ou negativo) pode influenciar a percepção da dor. Há decréscimo do fluxo sanguíneo talâmico e no núcleo fluxo sanguíneo talâmico e no núcleo caudado ao SPECT (cintilografia de perfusão cerebral) em casos de SFM. Estes estudos também indicam ocorrer anormalidades no processamento sensitivo em doentes com SFM. Quando a dor é aguda há aumento do fluxo sanguíneo talâmico e, quando crônica ocorre redução. A diferença é devida à desinibição do tálamo medial resultante da ativação do sistema límbico. Graças à ação da serotonina, noredrenalina, ácido gama-aminobutírico (GABA) e encefalinas, entre outros neurotransmissores, ocorre inibição das unidades nociceptivas na medula espinal. A disfunção serotoninérgica parece exercer um papel importante em casos da SFM. O nível sérico de serotonina e do seu precursor, L-triptofano está significativamente reduzido em doentes com SFM. Foi observado decréscimo na concentração do ácido 5–hidroxindolacético, metabólito da serotonina e de 3–metoximetileno-glicol, metabólito da noradrenalina e de ácido homovanílico, metabólito da dopamina, no líquido cefalorraquidiano e redução de concentração plasmática de triptofano em casos de SFM. A depleção da serotonina ocasiona uma diminuição do sono não-REM e um aumento de queixas somáticas, depressão e a percepção a dor. A redução da atuação de serotonina nos receptores serotoninérgicos do SNC encefálico e espinal, pode ocasionar redução na produção de hormônios do eixo hipotálamo-hipofisário-adrenal, do sono delta e da sP no encéfalo. O aumento da sP na medula espinal relaciona-se com a alodínea e hiperalgesia difusa. É possível que a hipoatividade destes neurotransmissores justifique a ocorrência da dor em casos de SFM. É provável, portanto, que nos doentes com SFM ocorram disfunções no SNC relacionadas à sensibilização nociceptiva e à inadequação da modulação da sensibilidade dolorosa em casos de SFM. Parece ocorrer aumento da atividade dos neurotransmissores inibitórios em casos de SFM. Aumento na atividade dos neurotransmissores excitatórios, especialmente da sP e a deficiência de neurotransmissores inibitórios, em especial da serotonina, poderiam implicar na percepção alterada dos estímulos nociceptivos. Déficit serotoninérgico, incluindo desrregulação serotoninérgica do eixo hipotálamo-pituitário, anormalidades no eixo hipófise-adrenal, anormalidades na atuação da sP, do peptídeo geneticamente Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 relacionado à calcitonina e dos receptores de NMDA do SNC e parecem ocorrer nos casos de SFM. Anormalidades músculos-esqueléticas – O descondicionamento físico é característico dos doentes com fibromialgia e exerce papel importante na expressão dos sintomas; predispõe os a microtraumatismos musculares, à dor e fadiga crônica. Em alguns doentes, a dor aguda que acompanha traumatismos diretos (acidentes) ou indiretos (lesões por reforços repetitivos, adoção de posturas inadequadas) pode ceder lugar para dor generalizada e gerar vários pontos dolorosos. As investigações se concentram no estudo das possíveis anormalidades musculares como causa de SFM, entretanto a histologia dos músculos à microscopia óptica ou eletrônica, é normal ou revela alterações inespecíficas. Amiotrofia das fibras tipo II, aspecto de “tecido roído por traça” das fibras do tipo I à histoquímica, a lise miofibrilar e o acúmulo de glicogênio e de mitocôndria à microscopia eletrônica foram evidenciadas em casos da SFM. Foi observado que havia rotura das fibras vermelhas e desintegração da rede de miofibrilas e acúmulo de lipídeos e mitocôndrias e defeito da citocromo-oxidase nas fibras musculares em doentes com SFM. A microscopia eletrônica revela anormalidades na estrutura da mitocôndria caracterizada por rotura de cristais, acúmulo de partículas eletrondensas e inclusões paracristalinas constituídas de creatinocinase. Em microscopia eletrônica, foi visto acúmulo focalizado de glicogênio, lesões nos capilares e desintegração das redes de miofibrilas. O metabolismo muscular é normal apesar de haver redução da oxigenação nos locais dos pontos dolorosos, provavelmente resultante da falta de condicionamento físico. Foi registrado em pesquisa que há decréscimo significativo de trifosfato de adenosina (ATP), difosfato de adenosina (ADP), fosfato de creatina no músculo trapézio de doentes com SFM. A sensibilização dos nociceptores é responsável pelo dolorimento localizado à digitopressão e contribui para o mecanismo da dor referida. A dor referida, em grande parte, é devida à sensibilização dos neurônios sensitivos da substância cinzenta do corno posterior da medula espinal que apresentam ampliação de seus campos receptivos e tornam-se reativos aos estímulos nociceptivos e não nociceptivos. Alguns estudos, entretanto, não revelaram ocorrência de alterações significativas compatíveis com traumatismos ou ativação de nociceptores musculares. Portanto, o descondicionamento físico poderia constituir papel secundário à dor ou fadiga. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 A fibromialgia pode estar associada a afecções do tecido conectivo como artrite reumatóide, LES, síndrome de Sjogren (auto-imune), atropatias soronegativas, como também em condições inflamatórias em que as citocinas produzidas pelas células-T desempenham algum papel. A administração de alguns tipos citocinas pode causar fadiga intensa, mialgia, sintomas gripais e sintomatologia similar aos SFM. Entretanto, o nível de citocinas em doentes com SFM não é consistentemente diferente dos controles. A citocina desempenha também papel na regulação do sono e do sistema endócrino: a interleucina- 1 (IL-1) induz a liberação hipotalâmica do hormônio liberador de corticotrofina (CRH) e os glucocorticóides inibem a liberação de IL-1. AIL-1 e o fator de necrose tumoral agem na glândula hipófise estimulando a liberação de ACTH, GH e tireotrofina e a GHRH, fator de necrose tumoral e as IL-1 promovem o sono. Anormalidades do sono – Doentes com SFM geralmente referem sono não reparador. Indivíduos submetidos à privação do estágio 4 do sono não- REM, com intrusão das ondas alfa no sono delta, podem apresentar sintomas músculo-esqueléticos e alterações do humor similares aos da SFM. Esses achados sugerem que as alterações do sono podem desempenhar papel importante na etiologia da SFM. O surgimento das ondas alfas no sono delta são similares aos achados em outros doentes com dor crônica. Indivíduos com bom condicionamento físico, quando submetidos à privação do estágio 4 não-REM, apresentam queixa de fadiga, mas não apresentam dor no corpo, sugerindo que a atividade física de alguma maneira protege os indivíduos contra a dor crônica. Indivíduos com bom condicionamento físico, quando submetidos à privação do estágio 4 não-REM, apresentam queixa de fadiga, mas não apresentam dor no corpo, sugerindo que a atividade física de alguma maneira protege os indivíduos contra a dor crônica. Mecanismos neuro-humorais – Ocorrem anormalidades neuroendócrinas no eixo hipotálamo-pituitário-adrenal em doentes com SFM. A dor e a fadiga associadas à fibromialgia são estressantes. A resposta ao estresse é relacionada ao sistema de estresse que incluem o ACTH (HLC), a noradrenalina, o sistema nervoso neurovegetativo, o loco cerúleo, o sistema nervoso periférico e o eixo hipotálamo-hipofisário-adrenal. O estresse persistente ocasiona anormalidades no sistema neuroendócrino, no sistema serotoninérgico e no sistema nervoso neurovegetativo simpático, que também são evidenciados em doentes com SFM. É possível que as alterações neuroendócrinas que Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 ocorrem em alguns doentes, sejam componentes da reação ao estresse e constitui epifenômeno secundário à SFM. O hipotálamo é o principal centro regulador do eixo hipotálamo-hipofisário-adrenal. Sua ativação aumenta a secreção do hormônio adreno córtico trófico (ACTH), que por sua vez estimula a secreção do cortisol pelo córtex adrenal. O cortisol, por mecanismo de feedback negativo, inativa o hipotálamo, a hipófise e outros centros do sistema nervoso central que regulam a função hipotálamo-hipofisária-adrenal. Em casos de SFM há reação exagerada ao ACTH e CRG e à reação da adrenal ao ACTH. Durante a reação de estresse, o eixo hipotálamo-hipofisário-adrenal interage com a noradrenalina do loco cerúleo e sistema nervoso neurovegetativo simpático (SNNS) e outros sistemas encefálicos. O SNAS produz noradrenalina enquanto que a medula adrenal produz adrenalina e noradrenalina. Essa atividade é regulada através do feedback entre as projeções dos neurônios do hipotálamo e o núcleo simpático catecolaminérgico graças à ação de vários neurotransmissores e neuropeptídeos. Alguns neurotransmissores como a serotonina e a acetilcolina ativam tanto o eixo hipotálamo-hipofisário-adrenal e o SNNS, enquanto que outros neurotransmissores como o ácido gama aminobutílico(GABA) e vários peptídeos opióides inibem os 2 sistemas. A pró-ópiomelanocortina e a β-endorfina, inibem tanto o eixo hipotálamo-hipofisário-adrenal como o SNNS. A substância P é um potente inibidor de GH, mas estimula o SNNV. O eixo hipotálamo-hipofisário-adrenal desempenha algum controle no eixo do hormônio de crescimento. O eixo somatomedina C – GH é importante na homeostase muscular. A alteração na secreção do GH pode ser um fator que contribui para menor recuperação frente aos microtraumatimos musculares e também na ocorrência de dor músculo- esquelética associada à fibromialgia. A liberação do GH ocorre principalmente nos estágios 3 e 4 do sono não-REM. A secreção inadequada de GH pode estar relacionada à disfunção do sono não-REM em casos de SFM. Adultos com deficiência de GH apresentam vários sintomas similares aos da SFM. Mecanismos psicocomportamentais – É possível que o estresse desempenhe papel relevante na mediação e perpetuação dos sintomas da SFM. Muitos doentes referem que os primeiros sintomas da síndrome surgiram após período de estresse crônico ou após traumatismos. Outros relatam que há agravamento dos sintomas após estresses físicos e emocionais de curta duração. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 A SFM poderia estar relacionada a alterações nos receptores neurohormonais para os quais a influência de fatores genéticos, ambientais e hormonais é necessária. Fatores psicológicos que influenciam os sistemas de percepção e modulação da dor também parecem estar relacionados à SFM. Apesar de a natureza desta relação ainda não ter sido elucidada, admite-se que a condição psicossocial dos doentes influenciem não apenas a magnitude dos sintomas como também a incapacidade funcional. Como a fibromialgia acarreta modificações da funcionalidade sem alterações orgânicas específicas, alguns autores atribuíram a fatores psicológicos a sua origem. Em casos de dor crônica, o comportamento visando ao controle da dor fundamentadas em estratégias de enfrentamento inadequadas, podem resultar não apenas no agravamento da incapacidade funcional como também na magnificação da dor em decorrência do descondicionamento físico. A maioria dos estudos revela ocorrência de anormalidades psicocomportamentais em doentes com SFM. A dor crônica é uma condição estressante que interfere com a capacidade de atenção, concentração e memória, ou seja, no funcionamento cognitivo e no processamento das informações dos indivíduos. A fibromialgia, sendo doença de origem não determinada e cura incerta, gera sentimentos de vulnerabilidade e de desamparo. Talvez esta seja a razão pela qual muitos fibromiálgicos interpretam sua condição com muito mais séria do que o real. Como em outras condições crônicas, é elevada a prevalência de anormalidades psicológicas, sem nenhuma predominância em doentes com SFM. A experiência dos doentes com SFM é dissociativa uma vez que, apesar de a dor ser contínua, a afecção não é progressiva ou degenerativa e não ameaça a sobrevida do indivíduo, mas causa danos e prejuízos físicos concretos. O estresse psicológico em doentes com SFM pode ser causa de transtornos psíquicos. Um terço dos doentes com SFM atendidos em clínicas reumatológicas apresenta anormalidades psicológicas significativas. O estresse mental e a ansiedade são significativamente mais elevados em casos da SFM que em casos controle. Foi avaliado doentes com SFM, artrite reumatoide e outras doenças reumáticas e verificou que doentes com SFM apresentavam mais anormalidades psicológicas que os demais. Foi observado que em 24% dos doentes estudados havia antecedentes de traumatismos físicos previamente ao início dos sintomas da SFM; 14% dos doentes atribuíram a instalação da doença a fatores psicológicos como o estresse, emoções e mudanças na situação da família. Por isso é considerado que na maioria dos casos da SFM há transtornos psicossomáticos e que a SFM constitui sintoma de reação às tensões emocionais. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Os doentes queixam-se de desconfiança e falta de credibilidade de seus familiares, colegas e dos profissionais de saúde, condição justificada porque as queixas são, muitas vezes, poliformes e subjetivas, os exames complementares são normais, há recorrência da sintomatologia e melhora não significativa com as terapias utilizadas. Utilizando técnicas e testes variadosfoi observada existência de alterações psiquiátricas incluindo depressão em mais de 80% dos doentes com SFM. Entretanto, a depressão não é significativamente maior em casos da SFM em relação a outros doentes com dor crônica. A SFM não é comum em doentes com depressão maior; muitos indivíduos deprimidos que se queixam de dor difusa não apresentam numerosos pontos dolorosos pelo corpo. Foi constatado que 71% dos casos da SFM apresentava depressão e, 26%, transtorno de ansiedade. É provável que as anormalidades psicológicas sejam conseqüência da condição de dor crônica e que o achado de uma condição psicológica anormal não seja requisito para o desenvolvimento da SFM. Fadiga está relacionada ao sono não reparador, descondicionamento físico, escassez de estratégias de enfrentamento e disfunções endócrinas envolvendo o eixo hipotálamo-hipofisário-adrenal, incluindo a deficiência de hormônio de crescimento. Parece ser predominantemente de origem central. A deficiência na produção de serotonina também pode resultar no comprometimento da duração do sono não-REM. Anormalidades cognitivas – Podem resultar de anormalidades do sono, da interferência da dor nos processos do pensamento, da ação de medicamentos, das anormalidades da função neuroendócrina e do efeito perturbador da dor crônica, da fadiga mental e dos estresses psicológicos. A avaliação cognitiva ocorre a partir dos julgamentos que o indivíduo faz das demandas internas e ambientais, de suas exigências e dos recursos disponíveis para controlá-las; depende, portanto, de fatores pessoais e situacionais. A avaliação cognitiva primária refere-se ao reconhecimento da situação em termos da importância do bem-estar do indivíduo. A avaliação cognitiva secundária, ou enfrentamento (coping), relaciona-se a tudo o que o indivíduo pode fazer em relação à situação em termos de recursos e opções disponíveis para controlá-la ou reduzir os prejuízos reais ou potenciais. Basea-se em informações acumuladas pelas experiências prévias e implica em considerações que envolvem as crenças do indivíduo sobre si mesmo e sobre a disponibilidade de recursos pessoais e ambientais. Ao menos inicialmente, os indivíduos procuram justificar a ocorrência da dor e, se possível, procuram aderir a estratégias para proporcionar seu alívio imediato. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 A reavaliação refere-se à modificação dos julgamentos já realizados graças a novas informações oriundas do ambiente e ou das próprias reações do indivíduo; depende das informações e resultados obtidos nas etapas anteriores; se estes forem ambíguos, infrutíferos ou inexistentes, há risco da ocorrência de vieses cognitivos. Novos Critérios de Diagnóstico Em 1990 o Colégio Americano de Reumatologia (ACR) nomeou um comitê que desenvolveu os critérios para a classificação da fibromialgia e que têm sido utilizados até os dias de hoje. A combinação de dor difusa, definida como bilateral, sobre e debaixo da cintura, e axial, com pelo menos três meses de duração associada à presença de pelo menos 11 de 18 pontos dolorosos previamente especificados, apresentou uma sensibilidade de 88,4% e uma especificidade de 81,1% para o diagnóstico. Entre 2010 e 2011 novos critérios do ACR para a fibromialgia são propostos, levando em consideração outros sintomas além da dor difusa em detrimento da palpação dos pontos dolorosos. Utilizando esse novo critério, o paciente passa a preencher completamente o diagnóstico de fibromialgia caso apresente um índice de dor difusa ≥7/19 e uma escala de gravidade ≥5, ou índice de dor difusa entre 3–6 e escala de gravidade ≥9. Os sintomas devem estar estáveis e presentes por, pelo menos, três meses e não deve haver outra condição clínica que pudesse explicar essa sintomatologia. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Diagnóstico O diagnóstico é eminentemente clínico. A presença de sintomas sistêmicos ou diferentes daqueles observados normalmente nesses pacientes deve levantar a possibilidade de tratar-se de outra enfermidade. O exame físico geralmente é normal, sem evidências de alguma enfermidade sistêmica ou articular. A força muscular encontra-se preservada, o exame neurológico não demonstra nenhuma anormalidade significante. Os exames de análise laboratorial e radiológica são normais, de forma que quando solicitados servem para excluir ou confirmar outras condições. Observando que os critérios diagnósticos elaborados em 1990 somente levaram em consideração o sintoma doloroso difuso em detrimento aos demais sintomas, e que a utilização dos pontos dolorosos apresenta os problemas acima enumerados, em 2010 o comitê de estudos para a fibromialgia do ACR, decidiu elaborar novos critérios preliminares para o seu diagnóstico considerando os outros sintomas além da dor difusa. Esses novos critérios permitem definir um estado de fibromialgia, definindo-a não como uma entidade discreta mas como uma entidade contínua, com vários graus de acometimento e gravidade. Ele inova ao trazer uma escala de severidade dos sintomas que além de auxiliar o médico na avaliação inicial do quadro, serve de instrumento de acompanhamento do mesmo. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Fisiopatologia – Simplificado – Neurogênico O principal mecanismo envolvido na fisiopatologia da fibromialgia é a amplificação da sensibilidade dolorosa pelo SNC. Isso ocorre em decorrência de modificações observadas nos mecanismos envolvidos no processamento da dor em nível central. Diversos estudos demonstram que os pacientes com fibromialgia possuem um limiar de dor rebaixado, clinicamente observado pela sensibilidade aumentada à palpação e a outros estímulos nociceptivos (alodinia difusa), e apresentam também uma sensibilidade aumentada a distúrbios comumente dolorosos (hiperalgesia) que é característica nesses pacientes. Entretanto, a etiologia e a fisiopatologia exata que resultam neste quadro de amplificação dolorosa ainda permanecem obscuras. Acredita-se que determinados fatores de risco identificados até o momento atuem como gatilhos para o desenvolvimento desse quadro em indivíduos geneticamente predispostos. Tais agentes estressores que podem contribuir como fatores de risco para o desenvolvimento de um quadro doloroso crônico e ou de fibromialgia, podem ser: de natureza psicológica, como a perda de um familiar querido, ou o envolvimento em um acidente automotivo, ou uma hospitalização prolongada; de natureza infecciosa, como a exposição a certos tipos de infecção, por exemplo, a doença de lyme e a mononucleose; ou de natureza traumática, como procedimentos cirúrgicos e acidentes com trauma físico. A predisposição genética é um fator bem estabelecido na fibromialgia. Parentes de primeiro grau de pacientes com fibromialgia apresentam um risco oito vezes maior de desenvolvê-la. Familiares de pacientes com fibromialgia têm maior risco de desenvolver qualquer quadro doloroso crônico e apresentam sensibilidade dolorosa maior que controles. Os fatores genéticos incluem o polimorfismo nos genes que codificam a COMT, uma variedade de canais de sódio e de potássio, dentre outros genes. Alguns polimorfismos em genes envolvidos no metabolismo da serotonina e das catecolaminas, e possivelmente da dopamina, encontram-se associados a um risco aumentado no desenvolvimento da fibromialgia. Os polimorfismos desses genes parecem influir na atividade desses neurotransmissores. A atividade reduzidade neurotransmissores envolvidos na inibição da dor, como a serotonina, noradrenalina e dopamina, é observada em pacientes com fibromialgia e encontra-se associada a um aumento da sensibilidade dolorosa. Da mesma forma o aumento encontrado nesses pacientes na concentração de neurotransmissores Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 facilitadores da transmissão dolorosa, como o glutamato e substância P, também contribui para a amplificação dolorosa. Provavelmente os pacientes com fibromialgia apresentam um distúrbio global de processamento sensorial pelo SNC, visto que apresentam respostas exacerbadas a estímulos dolorosos ou não, como calor, frio, estímulo elétrico, luminoso ou brilhante. A atividade do sistema descendente inibitório de dor (DNIC) encontra-se rebaixada, o que é verificado em vários estudos experimentais, e serve de base fisiopatológica para a hiperalgesia difusa encontrada nesses pacientes. O DNIC é composto de fibras nervosas descendentes que fazem parte do sistema opiáceo endógeno e noradrenérgico-serotoninérgico. Suas fibras projetam-se de áreas do tronco cerebral até regiões medulares, regulando a aferência nociceptiva periférica ao corno posterior da medula. Esse sistema encontra-se sob controle de várias estruturas do córtex pré-frontal (SNC), como o giro anterior do cíngulo, a amígdala, e o córtex frontopolar 30-35 . Dessa forma, uma certa quantidade de impulso nociceptivo periférico que em condições normais é suprimida, obtém acesso a áreas cerebrais de processamento doloroso decorrente da ineficácia do DNIC. Estudos funcionais cerebrais têm confirmado aumento da ativação de áre- as cerebrais de processamento da dor, mesmo após estímulos não nociceptivos. Esse aumento de ativação de processamento central da dor é independente de fatores psiquiátricos. Inúmeros estudos funcionais cerebrais demonstram que ocorrem alterações morfológicas e funcionais no cérebro dos pacientes com fibromialgia, principalmente em estruturas relacionadas ao processamento da dor em nível central. O significado dessas alterações necessita ser mais bem elucidado. Tratamento Informar e educar o paciente é o primeiríssimo passo no tratamento da fibromialgia. O paciente deve ser informado da natureza benigna da sua doença, dos fatores que podem melhorá-la ou piorá-la. Durante essa fase deve-se entender as expectativas do doente e traçar as metas do tratamento baseando-se nessa discussão inicial. O tratamento não depende única e exclusivamente de medicamentos, e necessita da participação ativa do paciente, motivo pelo qual essa conversa inicial é muito importante. A atividade física é certamente uma das modalidades terapêuticas mais eficazes para o tratamento da fibromialgia. Ela deve ser bem orientada, pois caso contrário poderá trazer enorme prejuízo ao tratamento. É muito importante que o paciente não exceda sua capacidade de realizar a atividade física a que se propôs, pois caso isso ocorra o Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 exercício se tornará extenuante e agravará sobremaneira suas queixas dolorosas e de fadiga. Vários trabalhos demonstram uma melhora global e do quadro doloroso nesses pacientes, de maneira persistente ao longo do tempo. Portanto, além de ser bem dosada para que não seja muito extenuante, seu início deve ser leve e a sua “intensidade” aumentada gradativamente. Deve ser bem planejada para ser tolerada desde o início e para manter a aderência do paciente por um período prolongado. A princípio, qualquer atividade física aeróbica e de baixo impacto, tal qual natação, caminhada ou hidroginástica, são as mais recomendadas, deixando a escolha, se possível, ao paciente. Esse resultado ocorre por um efeito analgésico (por estimular a liberação de endorfinas), antidepressivo e por proporcionar uma sensação de bem-estar global e de autocontrole. Estudos recentes têm demonstrado que a atividade física melhora a ativação de áreas cerebrais relacionadas à regulação da dor. A acupuntura e eletroacupuntura têm resultados conflitantes na literatura. Pela nossa experiência, alguns pacientes podem se beneficiar dessa modalidade terapêutica para alívio da dor. A terapia cognitivo-comportamental, em minha opinião, é útil para aumentar a adesão do paciente ao tratamento, pois consegue em um curto espaço de tempo alterar seus hábitos, o que é útil para um controle melhor dos sintomas, e dá ânimo ao paciente para prosseguir no tratamento. O suporte psiquiátrico pode ser necessário pois até 50% dos pacientes apresentam distúrbios psiquiátricos concomitantes, que dificultam a abordagem e sua melhora clínica. A utilização de medicamentos é feita com o objetivo de controlar a dor e os demais sintomas. A escolha do medicamento a ser utilizado dependerá basicamente do conjunto de sintomas apresentado pelo paciente. É importante salientar que uma soma considerável de pacientes necessita de mais de um medicamento para o controle de seus sintomas. Para o controle da dor podemos dividir os medicamentos em dois grandes grupos, de acordo com seus respectivos mecanismos de ação: ➔ Os agentes que atuam diminuindo a transferência dos impulsos aferentes nociceptivos, da periferia ao SNC, dessa forma reduzindo a descarga de impulsos nociceptivos no SNC. Nesse grupo encontram-se os neuromoduladores gabapentina e pregabalina, que se ligam à subunidade delta dos receptores dos canais de cálcio pré-sinápticos no corno posterior da medula. Sua ação é a de diminuir a liberação de neurotransmissores Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 nociceptivos (substância P e glutamato) na sinapse nervosa do corno posterior, diminuindo pois a aferência nociceptiva. A gabapentina pode ser utilizada em pacientes com fibromialgia em doses de 1.200 a 2.400 mg, enquanto que a pregabalina em doses de até 450 mg divididas em duas a três vezes ao dia. ➔ O segundo grupo de drogas atua aumentando a eficácia do sistema descendente inibitório de dor (DNIC). De modo geral, os medicamentos desse grupo atuam aumentando a disponibilidade de serotonina e noradrenalina no tecido nervoso central. Esses neurotransmissores são responsáveis pela ação inibitória do DNIC. Fazem parte dessa classe de medicamentos os antidepressivos tricíclicos, os relaxantes musculares centrais, os antidepressivos duais, os antidepressivos inibidores da recaptação de serotonina e o tramadol. Duas das drogas mais utilizadas no passado e ainda muito utilizadas atualmente são o agente tricíclico amitriptilina e o relaxante muscular ciclobenzaprina. geralmente utilizamos doses de amitriptilina de 12,5-50 mg ou ciclobenzaprina 10 a 20 mg, ministradas normalmente duas a quatro horas antes de deitar. Doses maiores em geral não são bem toleradas pelos pacientes. Essas drogas, além de aliviarem a dor, demonstraram melhora na fadiga e particularmente no sono de pacientes com fibromialgia. Dos antidepressivos inibidores de receptação de serotonina, somente a fluoxetina demonstrou eficácia no controle da dor, quando utilizada isoladamente em doses superiores a 40 mg ou quando associada a ciclobenzaprina ou a amitriptilina. Os antidepressivos duais (inibidores da recaptação de serotonina e noradrenalina) utilizados em nosso meio para o tratamento da fibromialgia são a duloxetina e a venlafaxina. A duloxetina geralmente é eficaz na dose de 60 mg, podendo-se utilizar doses de até 120 mg nos casos em que há depressão associada. Avenlafaxina deve ser utilizada em doses iguais ou superiores a 150 mg/dia. Ambas as drogas podem ser empregadas em pacientes cujo quadro doloroso encontra-se associado ou não a depressão. O principal opioide estudado no tratamento da fibromialgia é o tramadol, associado ou não ao acetoaminofeno. De modo geral, a associação de 37,5 mg de tramadol a 325 mg de acetoaminofeno tem se mostrado eficaz no controle da dor, sendo uma boa opção no início do tratamento enquanto a droga de base ainda não apresenta o efeito desejado, nas exacerbações dolorosas ou nos casos de difícil controle da sintomatologia dolorosa. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 O mecanismo de ação do tramadol se assemelha ao de um antidepressivo dual, pois sua ação opioide é extremamente fraca. Nos pacientes com dificuldade em iniciar o sono, podemos utilizar o zoplicone (7,5 mg) ou o zolpidem (5 a 15 mg), compostos hipnóticos não benzodiazepínicos, indutores do sono. Devem ser utilizados com muita cautela, por criarem tolerância e possível dependência e devem ser prescritos por curtos períodos de tempo, apenas como reguladores iniciais do sono, O tratamento farmacológico deve ser instituído com muito cuidado e deve obedecer alguns princípios. Deve ser individualizado, utilizando-se doses iniciais baixas e aumentadas lentamente pois os pacientes apresentam predisposição a efeitos colaterais. O objetivo do tratamento medicamentoso é a melhora da função e da qualidade de vida do paciente. Frequentemente ocorre o uso de mais de uma medicação. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Hérnia de Disco Lombar – Discal Lombar Fisiopatologia A origem da dor ciática é provavelmente multifatorial, envolvendo estímulo mecânico das terminações nervosas da porção externa do ânulo fibroso, compressão direta da raiz nervosa (com ou sem isquemia) e uma série de fenômenos inflamatórios induzidos pelo núcleo extruso. O fator que desencadeia a dor ciática é a compressão mecânica da raiz nervosa pela hérnia discal. Em decorrência desta, há isquemia e fenômenos que sensibilizam a membrana à dor. Estudos demonstram que o limiar de sensibilização neuronal para uma raiz comprimida é cerca da metade do dos segmentos não comprimidos. Existe uma diferença nos níveis de infiltração celular inflamatória em hérnias discais extrusas e não extrusas, menores nestas últimas. Acredita-se que a ruptura do ligamento longitudinal posterior pelas hérnias extrusas as expõe ao leito vascular do espaço epidural, e células inflamatórias originadas desses vasos na periferia do material discal herniado podem ter um papel importante na irritação da raiz nervosa e na indução da dor ciática. Isso pode explicar por que hérnias extrusas têm maior compromisso clínico e maior frequência de reabsorção. Portanto, pode-se afirmar que em pacientes com hérnias contidas predomina o efeito compressivo mecânico e em pacientes com hérnias não contidas – extrusas – predomina o componente inflamatório. Quadro Clínico O quadro clínico típico de uma hérnia discal inclui lombalgia inicial, que pode evoluir para lombociatalgia (em geral, após uma semana) e, finalmente, persistir como ciática pura. Mas devido às inúmeras possibilidades de apresentação de formas agudas ou crônicas, deve-se estar atento a formas atípicas de apresentação e preparado para fazer um apurado diagnóstico diferencial. Apesar de ser a principal causa de dor ciática, outras possibilidades, tais como tumores, instabilidade, infecção, devem ser afastadas. Um exame físico adequado é essencial para isso, podendo inclusive, através de cuidadosa avaliação de dermátomos e miótomos, determinar o espaço vertebral em que está localizada a hérnia. O que é importante enfatizar é que a história natural da ciática por hérnia de disco é de resolução acentuada dos sintomas em torno de quatro a seis semanas. Por essa razão é que o tratamento inicial deve ser sempre conservador, explicando ao paciente que o processo tem um curso favorável. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Diagnóstico por Imagem A radiografia, por ser rotineira e de baixo custo, deve fazer parte da avaliação por imagem. Embora o quadro clínico possa ser claro e sugestivo de hérnia discal, não se deve esquecer da possibilidade de coexistirem outras alterações que podem ser detectadas pela radiografia. O exame ortostático e o dinâmico em flexão e extensão são complementações importantes para análise mais completa da coluna. O exame de eleição é a ressonância magnética (RM). No Brasil ainda se insiste no uso da tomografia axial computadorizada que, apesar de ser capaz de identificar uma hérnia de disco, não se aproxima da qualidade e tampouco da sensibilidade da RM. Informações detalhadas de partes ósseas e de tecidos moles que podem ajudar não só no diagnostico correto, mas até na proposta terapêutica, fazem da RM o exame indispensável para a correta avaliação do paciente. Na RM, a hérnia é classificada segundo sua forma. Essa descrição morfológica é a seguinte, de forma resumida. O material discal, proveniente principalmente do núcleo pulposo, está deslocado para fora dos limites intervertebrais, podendo tomar três formas diferentes: ➔ Protrusão, ➔ Extrusão ➔ Sequestro. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Protrusão é quando a distância da altura da hérnia (no corte axial) é menor que a distância da base em qualquer um dos planos. Extrusão é quando a distância da base é menor que a altura da hérnia. Sequestro é quando não há continuidade entre o material herniado e o disco intervertebral. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Tratamento Tratamento Conservador A hérnia de disco lombar é uma condição que apresenta natureza benigna; a finalidade do tratamento é aliviar a dor, estimular a recuperação neurológica, com retorno precoce às atividades da vida diária e ao trabalho. Pacientes com hérnias sequestradas, jovens, com leve déficit neurológico, hérnias pequenas, pouca degeneração discal, seriam os que melhor se beneficiariam do tratamento conservador A crise de ciática pode ser tão severa a ponto de incapacitar o paciente e, nesse momento, o tratamento deve reduzir gradativamente a dor e aumentar a atividade física, evitando o repouso absoluto. Os AINES são os medicamentos que mais devem ser utilizados, por atender exatamente às necessidades da fisiopatologia – basicamente inflamatória – ficando os analgésicos puros como terapia adicional. Como já foi mencionado, a historia natural da ciática se caracteriza por um rápido alívio da sintomatologia num tempo médio de quatro a seis semanas, com recorrência de aproximadamente 5 a 10%, sem importar o tipo de tratamento instaurado. Uma alternativa para ajudar o tratamento conservador é o bloqueio da raiz afetada com anestésico e corticoide, que atua diretamente sobre a hérnia, reduzindo seu volume, e sobre a raiz, reduzindo a sua resposta inflamatória, Num estudo realizado pelo Grupo de Cirurgia da Coluna do Hospital Universitário Cajuru (HUC), foram avaliados 70 pacientes portadores de hérnia discal lombar com radiculopatia, com quadro de dor por até oito semanas; após o 3.º mês do bloqueio, 77% dos pacientes estavam assintomáticos. Foi possível concluir que o bloqueio anestésico transforaminal é uma alternativa eficaz e segura no tratamento da dor ciática secundaria à hérnia de disco lombar. Nossa conduta preferencial hoje é iniciar o tratamento da dor aguda com esse tipo de bloqueio. O tratamento conservador inclui fisioterapia de apoio com analgesia e relaxamento,principalmente através de exercícios e alongamentos. O uso de estimulação elétrica nas suas formas mais variadas (TENS) não apresenta nenhuma evidência que justifique sua utilização; os estudos publicados mostram que não há fundamentos importantes estabelecendo o seu valor. O objeto do tratamento cirúrgico é a descompressão das estruturas nervosas. As indicações do tratamento cirúrgico são: ➔ Absolutas: Síndrome de cauda equina ou paresia importante. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 ➔ Relativas: Ciática que não responde ao tratamento conservador pelo menos por seis semanas, déficit motor maior que grau 3 e ciática por mais de seis semanas ou dor radicular associada à estenose óssea foraminal. Nos últimos anos têm sido muito discutida a vantagem entre cirurgia precoce e tratamento conservador prolongado. Há publicações mostrando resultados clínicos similares nos grupos estudados, após dois anos de evolução, mas a recuperação foi mais rápida no grupo da cirurgia precoce. Os autores mostraram que é economicamente favorável o tratamento cirúrgico, por permitir retorno precoce ao trabalho, Meloxicam (ácido enólico – oxicam) Os derivados do oxicam são ácidos enólicos que inibem a COX-1 e a COX-2 e têm atividade anti-inflamatória, analgésica e antipirética. Em geral são inibidores não seletivos das COX, embora um membro (o meloxicam) mostre seletividade modesta para a COX-2, comparável à do celecoxibe no sangue humano in vitro, tendo sido aprovado comoAINE seletivo da COX-2 em alguns países. Os derivados oxicans têm eficácia similar à do ácido acetilsalicílico, da indometacina ou do naproxeno no tratamento a longo prazo da artrite reumatoide ou osteoartrite. Ensaios controlados comparando a tolerabilidade gastrintestinal com a do ácido acetilsalicílico não foram realizados. A principal vantagem sugerida para esses compostos é sua longa meia-vida, que permite seu uso em dose única diária. Usos terapêuticos – O meloxicam é aprovado pelo FDA para uso na osteoartrite e já foi revisto. A dose recomendada de meloxicam é de 7,5-15 mg 1 vez/dia. Eventos adversos – Em média, em ensaios ex vivo, o meloxicam exibe seletividade pela COX-2 10 vezes maior. Entretanto, essa seletividade é bem variável e sua vantagem ou risco clínico ainda devem ser estabelecidos. De fato, mesmo com marcadores substitutos, a relação com a dose não é linear. Há significativamente menos lesões gástricas em comparação com o piroxicam (20 mg/dia) em indivíduos tratados com 7,5 mg/dia de meloxicam, mas a vantagem se perde com uma dose de 15 mg/dia. Inibidores de recaptação de serotonina-norepinefrina (IRSNs) Muitos ADTs mais antigos bloqueiam transportador de serotonina (SERT) e transportador de norepinefrina (NET), mas com uma carga de efeitos colaterais alta. Quatro medicamentos com estrutura não tricíclica que inibem a recaptação de serotonina (5-HT) e de norepinefrina foram aprovados para uso nos EUA para tratamento da depressão, transtornos de ansiedade e dor: venlafaxina e seu metabólito demetilado, Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 desvenlafaxina, duloxetina e milnaciprano (aprovado apenas para dor da fibromialgia nos EUA). Os usos não aprovados incluem incontinência urinária por estresse (duloxetina), autismo, transtornos de compulsão alimentar, rubores, síndromes álgicas, distúrbios disfóricos pré-menstruais e transtorno do estresse pós-traumático (venlafaxina). O fundamento tradicional do desenvolvimento desses agentes mais recentes era que almejar tanto SERT quanto NET, análogos aos efeitos de alguns ADTs, pode melhorar a resposta geral ao tratamento. A metanálise fornece algum suporte para essa hipótese. Especificamente, a taxa de remissão para venlafaxina parece ligeiramente melhor do que para ISRSs em experimentos comparativos. No entanto, muitos dos estudos incluídos na metanálise usaram uma dose diária de venlafaxina de 150 mg, que teria efeitos modestos na neurotransmissão noradrenérgica. A duloxetina, além de ser aprovada para uso no tratamento de depressão e de ansiedade, também é usada para o tratamento de fibromialgia e dor neuropática associada a neuropatia periférica. Mecanismo de ação – Os IRSNs inibem SERT e NET. Dependendo do fármaco, da dose e da potência em cada local, os IRSN s provocam aumento da neurotransmissão serotoninérgica e/ou noradrenérgica. Semelhante à ação dos ISRSs, a inibição inicial de SERT induz ativação de autorreceptores 5-HT 1 A e 5-HTTm. Esta ação diminui a neurotransmissão serotoninérgica por um mecanismo de retroalimentação negativa até que estes autorreceptores serotoninérgicos sejam dessensibilizados. Então, a concentração aumentada de serotonina na sinapse pode interagir com receptores pós- sinápticos 5-HT. Gabapentina e Pregabalina A gabapentina e a pregabalina são anticonvulsivantes formados por uma molécula de GABA ligada covalentemente a um anel de cicloexano ou isobutano lipofilico, respectivamente. A gabapentina foi desenvolvida como um agonista do GABA de ação central e sua lipossolubilidade alta facilita sua transferência através da membrana hematencefálica. Efeitos farmacológicos e mecanismos de ação – A gabapentina inibe a extensão tônica das patas traseiras no modelo de convulsão por eletrochoque, inibindo também as convulsões clônicas induzidas por eletrochoque e pelo pentilenotetrazol. A eficácia desse fármaco nesses dois modelos é semelhante à do ácido valproico e isto o diferencia da fenitoína e da carbamazepina. A despeito de sua concepção como agonista de GABA, a gabapentina ou a pregabalina não simulam a ação deste mediador quando são aplicadas por via iontoforética aos neurônios em cultura primária. Esses fármacos podem ligar-se Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 com grande afinidade a uma proteína das membranas corticais, que possui sequência de aminoácidos idêntica à da subunidade a2delta-1 do canal de Ca+2. Alguns autores especularam que os efeitos anticonvulsivantes da gabapentina sejam mediados pela proteína a2delta-1, mas ainda não está claro se e como a ligação deste fármaco a essa proteína regula a excitabilidade neuronial. A ligação pregabalina diminui, mas não é impedida nos camundongos que possuem uma mutação da proteína a2delta-1. A eficácia analgésica da pregabalina é suprimida nestes animais, mas não existem indícios de que seus efeitos anticonvulsivantes também sejam suprimidos. Ainda não está claro se os efeitos anticonvulsivantes e analgésicos da gabapentina e da pregabalina são mediados por alterações das correntes de Ca+2 e, em caso afirmativo, como isto ocorre. Farmacocinética – A gabapentina e a pregabalina são absorvidas depois da administração oral e não são metabolizadas nos seres humanos. Esses fármacos não se ligam às proteínas plasmáticas e são excretados sem alterações, principalmente na urina. Quando são utilizadas isoladamente, suas meias-vidas são de cerca de 6 h. Esses compostos não têm interações conhecidas com outros anticonvulsivantes. Indicações terapêuticas – A gabapentina e a pregabalina são eficazes nas convulsões parciais com ou sem generalização secundária, quando são combinadas com outros anticonvulsivantes. Estudos duplo-cegos controlados por placebo em adultos com crises convulsivas parciais refratárias demonstraram que o acréscimo da gabapentina ou da pregabalina aos outros antiepilépticos foi superior ao placebo. Um estudo duplo-cego sobre monoterapia com gabapentina (900 ou 1.800 mg/dia) mostrou que ela era equivalente à carbamazepina(600 mg /dia) para tratar epilepsia parcial ou generalizada recém- diagnosticada A gabapentina também está sendo usada no tratamento da enxaqueca, da dor crônica e do transtorno bipolar. A gabapentina geralmente é eficaz nas doses de 900-1.800 mg/dia em três tomadas, mas alguns pacientes podem necessitar de 3.600 mg para conseguir um controle razoável das crises. Em geral, o tratamento começa com doses baixas (300 mg no primeiro dia), que depois é aumentada a frações diárias de 300 mg, até alcançar a dose eficaz. Toxicidade – Em geral, a gabapentina é bem tolerada e os efeitos adversos mais comuns são sonolência, tontura, ataxia e fadiga. Esses efeitos geralmente são brandos a moderados, mas regridem em duas semanas em tratamento continuado. A gabapentina e a pregabalina estão incluídas na classe C dos fármacos utilizados na gravidez. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Problema 3 Dor neuropática Dor neuropática é decorrente de lesão ou disfunção do sistema nervoso periférico ou central. A dor neuropática periférica ocorre quando a lesão ou disfunção afeta o sistema nervoso periférico. Quando a disfunção ou lesão afeta o sistema nervoso central, pode ser denominada por dor central, que pode ser medular ou encefálica. Entre as síndromes dolorosas neuropáticas, estão incluídas entidades heterogêneas que diferem em etiologia e local da lesão. O diagnóstico da dor neuropática geralmente é fácil de ser feito, porém existem diversas condutas terapêuticas e o alívio do sintoma é difícil, muitas vezes necessitando de associação de medicamentos e procedimentos. Mecanismos da dor neuropática A dor é decorrente de mecanismos periféricos e centrais que resultam em transmissão facilitada. Os mecanismos periféricos que aumentam a estimulação de neurônios incluem a ação de mediadores sobre as terminações nervosas e o efeito da lesão do nervo. Diversas substâncias são responsáveis pela ativação ou sensibilização dos nociceptores: ➔ Cininas, ➔ Prostaglandinas (PG), ➔ Serotonina, ➔ Histamina, ➔ Íons H+ e K+, ➔ ATP, ➔ Interleucinas, ➔ Substância P (SP), ➔ Entre outros. Na medula espinhal, a inter-relação entre neurônio espinhal, excitabilidade e inibição determinam a mensagem que é transmitida para os centros supraespinhais (tálamo, formação reticular, sistema límbico e córtex). Esse processo envolve diversos neurotransmissores: ➔ Excitatórios: SP, glutamato, neurocinina-A, e aspartato ➔ Inibitórios: encefalina, serotonina, noradrenalina, GABA, glicina, e acetilcolina Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Os neurotransmissores excitatórios ativam os receptores neurocinina, AMPA e NMDA, aumentando a entrada de íons Ca+2 para dentro da célula, desencadeando uma série de eventos responsáveis pela sensibilização central. As fibras aferentes periféricas fazem parte do trato de Lissauer, na região posterior da medula espinhal, antes da sinapse medular e antes de projeção para regiões supraespinhais através das vias ascendentes. Os estímulos que atingem a medula espinhal também ativam neurônios do sistema simpático e motor, com vasoconstrição e contratura muscular. Após lesão de sistema nervoso, periférico ou central, pode ocorrer uma cascata de eventos que inclui alterações biológicas importantes na periferia e no sistema nervoso central. A interrupção parcial ou total de fibras aferentes causa degeneração de terminações pré-sinápticas da célula desaferentada e alterações funcionais e morfológicas denominadas de neuroplasticidade. Na sinapse, o neurônio que foi desnervado pode ser reinervado por outros axônios; as sinapses inibitórias podem ser substituídas por excitatórias, formando conexões; as sinapses ineficazes tornam-se ativas e ocorre aumento da efetividade das sinapses. As conexões excitatórias podem expandir para células próximas com surgimento de células responsivas em regiões previamente silentes. Os neurônios do sistema nervoso central tornam-se mais sensíveis a estímulos e neurotransmissores. A representação sensitiva somática da região desaferentada é mantida no sistema nervoso central. Essa memória pode ser ativada após longos períodos, explicando o aparecimento tardio da dor, em alguns pacientes. Consequências da lesão de nervo – Após lesão de axônio, o neurônio torna-se mais sensível a estímulos mecânicos e despolarização espontânea. Inúmeras alterações são observadas em diversos locais do sistema nervoso. Ocorrem efases, ou seja, conexão entre fibras grossas e axônios nociceptivos e, como consequência, impulso eferente motor pode ativar axônio nociceptivo no local da lesão. Os neurônios do sistema nervoso central têm sua resposta modificada, de maneira que estímulos que antes eram inócuos passam a causar dor. Nas fibras aferentes ocorrem as seguintes alterações: ➔ Atividade espontânea anormal, ➔ Formação de broto (sensível a estímulos, à noradrenalina, a prostanóides e a citocinas) ➔ Liberação de fatores (interleucinas e fator de crescimento neural) Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 No gânglio da raiz dorsal, observa-se atividade espontânea, maior atividade evocada e aumento da inervação de fibras-A por fibras do sistema simpático. Na medula espinhal, as terminações de fibras grossas fazem conexões com fibras finas, há expansão de campo receptivo e redução dos mecanismos inibitórios, com reorganização do corno dorsal e sensibilização central. Foco irritável – No local da lesão observa-se área de hiperatividade e no tálamo ocorre desarranjo na percepção, na integração e na condução da informação. Após lesão de medula espinhal, observa-se aumento da atividade espontânea em núcleos talâmicos, que são locais de projeção da via espinotalâmica. A hiperatividade, observada com a chegada de impulsos ou mesmo espontaneamente, está relacionada à ação excitatória mediada através de receptores NMDA (N-metil-D-aspartato). Pode haver formação de circuito reverberante entre células hiperirritáveis e outras células, a partir de alterações descritas na neuroplasticidade. Esses circuitos podem ocorrer na medula espinhal, no tálamo ou no córtex. Alterações neuroquímicas – Após lesão de axônio, há diminuição de SP e CGRP (péptide geneticamente relacionado à calcitonina) e aumento ou surgimento de outros (neuropeptídio-Y, galanina e péptide intestinal vasoativo). A estimulação repetida de aferentes facilita a passagem de estímulo, através de neurônio multissináptico, causando hiperalgesia. Os aminoácidos excitatórios e receptores são fundamentais nas alterações plásticas. Alguns neurotransmissores como glutamato, aspartato e taquicininas (SP e neurocinina-A) estão associados à hiperalgesia e à neuroplasticidade. O glutamato e o aspartato agem através da ligação a receptores NMDA, AMPA (ácido alfa-amino-3-hidroxi- 5metil-4-isoxazolepropiônico), metabotrópico e cainato, enquanto as taquicininas ativam receptores neurocinina. Para haver ativação de receptores NMDA, é necessária a remoção de Mg+2, que bloqueia o canal no receptor. Esse bloqueio é removido por despolarização que ocorre com a ligação de taquicininas aos receptores. Com a abertura dos canais, resulta a despolarização maciça, com entrada de Ca+2 para o interior da célula. O aumento da concentração de Ca+2 desencadeia uma cascata de eventos dentro da célula, responsável pela neuroplasticidade: translocação de proteinocinase, formação de NO (óxido nítrico) e expressão de genes. Produtos desses genes facilitam a produção de enzimas eneuropéptides e induzem alterações nas células. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Mecanismos celulares múltiplos, como ativação de receptores metabotrópicos para glutamato, ativaçªo de canais de Ca+2 (voltagem-dependentes), óxido nítrico (NO), inibição de canais de K+ (voltagem ou Ca++ dependentes) e liberação de ácido araquidônico, poderiam participar na plasticidade sináptica. O resultado é a amplificação e aumento da duração da resposta a estímulos, denominado de wind up. Formação de neuroma – Após lesão de nervo periférico, frequentemente há formação de neuroma, massa nodular de axônios em regeneração e células de Schwann que não conseguiram atingir seu órgão terminal ou campo receptivo. Na presença de neuroma ocorre dor em região da cicatriz com alteração da sensação na distribuição do nervo. A dor aumenta na distribuição do nervo, à palpação ou percussão da cicatriz. Sistema Nervoso Símpatico – A lesão de nervo pode causar a dor mantida pelo simpático (DMS) ou a independente do simpático. Frequentemente há sinais de disfunção do sistema simpático em pacientes com dor neuropática. Essas alterações podem ser secundárias à diminuição da mobilidade da área afetada. Também há interação entre neurônio simpático e aferente nociceptivo, após lesão de nervo. A lesão de nervo periférico é seguida de atrofia do corpo celular e fibras pós- ganglionares do sistema simpático, com diminuição da síntese de catecolaminas, mas com aumento da sensibilidade dos vasos e mais vasoconstrição. É observado feed-back positivo do circuito da conexão (neurônio aferente primário, neurônio medular e neurônio simpático) e aferente simpático patológico. Essa conexão pode ocorrer diretamente através da noradrenalina ou outra substância, em diferentes locais do neurônio aferente (local da lesão, distante da lesão e no gânglio espinhal). Após lesão, pode ocorrer interação entre simpático e aferente nociceptivo no gânglio da raiz dorsal, na extremidade do broto de regeneração e na fibra não lesada, presente em nervo seccionado parcialmente. Com secção total de nervo, o neurônio primário aferente projeta no neuroma (efase) e fibras do sistema simpático podem conectar-se com aferente primário. Lesão de ramos terminais (como ocorre na síndrome dolorosa regional complexa do tipo I) provavelmente tem consequências semelhantes. Inúmeras alterações em neurônios aferentes primários e simpáticos parecem ser necessárias para o surgimento de DMS. Diferenças temporais e espaciais explicam por que a DMS varia com o tempo e se desenvolve de maneira diferente em pessoas com lesões idênticas. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Canais de Sódio – As neurotrofinas, como fator de crescimento neural (NGF), sâo essenciais para a sobrevida e desenvolvimento de neurônios sensoriais e manutençâo de seu fenótipo. O NGF é importante na regulação de proteínas como canais de sódio. A função anormal de canais de sódio pode provocar atividade ectópica de neurônio lesado, e o aumento do número de canais de sódio ou canais alterados do local da atividade ectópica poderiam ser os responsáveis. Controle Inibitório – Os estímulos são modulados em diversos níveis do sistema nervoso central (SNC), na sua transmissão ascendente e também na descendente, com inibição ou potencialização do efeito inicial. A inibição descendente tem muitos locais em potencial, onde os neurotransmissores podem agir. As áreas envolvidas são: ➔ Hipotálamo anterior, ➔ Área septal inferior, ➔ substância cinzenta periventricular (anterior, mediano e posterior), ➔ Núcleo centromediano do tálamo, ➔ Cápsula interna, ➔ Substância cinzenta periaquedutal (SCPA), ➔ Núcleo da rafe. Os mediadores envolvidos na inibição são: ➔ Serotonina (5-HT), ➔ Noradrenalina (Nor), ➔ Opioide, ➔ GABA, ➔ Glicina ➔ Acetilcolina. Diversas regiões da SCPA podem estar relacionadas a diferentes formas de analgesia. A via inibitória é transmitida principalmente no funículo dorsolateral, podendo ocorrer também pelo ventro-lateral. Após lesão de nervo, a ação dos opioides está alterada na medula espinhal devido a degeneração de fibras aferentes, com perda de receptores opioides das fibras-C. A ação pós-sináptica requer dose maior de opioide que a necessária para ação em receptores pré-sinápticos. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Lesão de via espinotalâmica – Geralmente há lesão de via espinotalâmica na dor neuropática, porém, para ocorrer dor, parece que esta deve estar associada a outras alterações ou lesões. Mecanismos talâmicos – O tálamo tem função importante na fisiopatologia da dor, sendo local de convergência de informações sobre estímulos dolorosos e também de outras sensações. Na dor neuropática, há sensibilização e hiperatividade neuronal em alguns núcleos talâmicos. Avaliação da dor Anamnese Uma história detalhada é fundamental para o paciente com dor neuropática, como para qualquer doença. São colhidas informações sobre a dor: início; intensidade; localização; características; frequência; duração; irradiação; fatores que provocam, exacerbam ou aliviam a dor e as alterações que acompanham. A intensidade da dor pode ser avaliada através de escalas, sendo as mais utilizadas, a analógica visual e a escala verbal. Na escala analógica visual, em uma linha de 10 cm, a extremidade à esquerda corresponde à ausência de dor, e a extremidade à direita corresponde à dor mais intensa possível. O paciente assinala na linha, o local que ele considera que seja a intensidade da dor naquele momento; esse ponto Ø medido e serve para avaliar a dor em diferentes tempos e para verificar a resposta ao tratamento proposto. Na escala verbal, o paciente refere se sua dor é ausente (0), leve (1), moderada (2) ou intensa (3). Alterações neurológicas que acompanham são dados importantes para localizar a causa. A ocupação do paciente pode levar ao diagnóstico; algumas substâncias de indústrias químicas podem ser causadoras de lesão neural. Antecedentes pessoais de doenças como diabetes mellitus, insuficiência renal, herpes-zoster, hipotiroidismo, tumor, acidente vascular cerebral ou trauma são informações importantes que podem levar à causa da lesão. Medicações e terapêuticas usadas previamente e em uso são importantes porque podem ser causadoras da dor e também para saber se proporcionam alívio da dor. Informações sobre dose, intervalos e tempo de uso das medicações ou procedimentos também são úteis porque esses recursos podem não ter aliviado a dor devido a dose insuficiente ou tempo de tratamento inadequado. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Exame físico Inicialmente é feito o exame físico geral, seguido de exame neurológico, com ênfase na região afetada. Observar capacidade de deambular, posição antálgica, movimentação, limitação da mobilidade, alteração da cor, trofismo muscular, edema, aumento da articulação, alterações de pelo e unha, posição dos membros, etc. Verificar se há: surgimento ou exacerbação da dor à movimentação da região; alteração da força da área atingida; a sensibilidade dolorosa; dor, à compressão; diferença de temperatura na região; rigidez articular e alodinia. Exames complementares Na maioria das vezes, com a história e o exame físico, tem-se o diagnóstico. Porém, se existem dúvidas, ou para a confirmação do diagnóstico, são solicitados alguns exames. A eletroneuromiografia Ø usada para avaliar doenças que atingem o sistema nervoso periférico e ajuda a confirmar e quantificar a gravidade da lesão do nervo ouda raiz. Alguns exames laboratoriais podem ajudar a elucidar dúvidas quanto a causa da lesão. Exames radiológicos como ressonância magnética e tomografia são importantes para diagnóstico, localização e quantificação de uma lesão central, para localizar tumores, etc. Na radiografia simples pode ser observada osteoporose em decorrência da diminuição da mobilidade do local. Aspectos Clínicos da dor neuropática Os pacientes apresentam quadro clínico bastante variável e com queixas que se modificam, nos diferentes indivíduos e no mesmo paciente, dependendo dos fatores ambientais. A intensidade dos sintomas e dos sinais também difere entre os pacientes e no mesmo indivíduo, de maneira espontânea ou por influência de alguns fatores. A apresentação clínica depende também da causa da síndrome dolorosa. A dor pode ser constante ou intermitente com períodos de melhora, espontânea ou evocada, paroxística, superficial ou profunda. O paciente pode apresentar mais de um tipo de dor e diversos são os termos utilizados pelos mesmos para caracterizar o sintoma: choque, queimarço, dolorido, compressão, espremido, lancinante, picada, pontada, latejante, facada, ferroada, lacerante, desconforto de água fervendo, agulhada, alfinetada, tração, corte, aperto, irritação, esmagamento, etc. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Muitos fatores podem influir na intensidade da dor: alterações da temperatura (principalmente o frio), umidade do ar, alterações psicológicas, pressão atmosférica, estímulos musculoesqueléticos ou viscerais (plenitude vesical ou retal), postura, esforço físico, barulho, luminosidade, etc. Geralmente a duração é prolongada, podendo ser permanente, mas pode haver remissão espontânea ou com tratamento. Pode ocorrer períodos de melhora associados com recorrência do quadro clínico. A localização da dor depende da causa e da síndrome, e atinge Áreas diferentes do corpo, sendo predominantemente superficial. Com frequência, a dor e a sensação anormal atingem grandes áreas, que não correspondem ao nervo ou dermátomo, em decorrência da expansão de campo receptivo. A irradiação anormal da dor depende do recrutamento de mais neurônios devido ao aumento da intensidade de estímulos. A dor acompanhada de outras alterações recebe diferentes nomes: ➔ Disestesia (sensação anormal, espontânea ou evocada), ➔ Alodínia (dor a estímulo que normalmente não provoca dor), ➔ Hiperalgesia (aumento da intensidade da dor), ➔ Hiperpatia (aumento da reação a estímulo especialmente repetitivo), ➔ Hipoestesia (diminuição de reação para estímulo doloroso), ➔ Diminuição da força muscular, ➔ Alteração do limiar para frio e calor, ➔ Limitação dos movimentos, rigidez articular, ➔ Contratura dos tendões, ➔ Fibrose pericapsular, ➔ Anquilose, ➔ Atrofia muscular, ➔ Aumento do tônus muscular, ➔ Cãibra ➔ Atrofia da pele e do tecido celular subcutâneo ➔ Aumento do crescimento do pelo ou perda de pêlos ➔ Pele esticada e brilhante ➔ Unhas com aumento de crescimento ou quebradiças, ➔ Alteração da temperatura do local, geralmente diminuída, mas às vezes aumentada, ➔ Alteração da cor no local (arroxeada, vermelha ou pálida, dependendo da alteração do fluxo sanguíneo local), Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 ➔ Hiperidrose ou pele seca, conforme a irrigação do local, ➔ Osteoporose (em decorrência da imobilização da região e da alteração do sistema simpático), ➔ Pontos gatilhos, ➔ Alterações psicológicas (depressão, ansiedade, irritação, raiva, etc.), Classificações da dor neuropática ➔ Sistema nervoso central ➢ Lesão medular ➢ Lesão encefálica ➔ Sistema nervoso periférico ➔ Nervo espinhal e periférico ➢ Mononeuropatia: herpes-zoster, diabetes, poliarterite nodosa, artrite reumatoide, lupos eritematoso sistêmico, trauma, tumor, HIV, hipotiroidismo, porfiria, isquemia, etc. ➢ Polineuropatia: diabetes, uremia, álcool, Guillain-Barré, beriberi, amiloidose, isoniazida, cloranfenicol, organofosforados, pelagra, HIV, tuberculose, mieloma, hipotiroidismo, vincristina, etc. ➢ Avulsão de plexo braquial: desconexão das raízes dos nervos do braço no ponto onde elas se conectam à medula espinhal. ➔ Nervo craniano ➢ Neuralgia do trigêmeo ➢ Neuralgia do glossofaríngeo ➢ Herpes zoster agudo ➢ Neuralgia pós-herpética ➢ Dor facial atípica ➢ Neuralgia traumática ➔ Síndrome de dor regional complexa ➔ Dor fantasma Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Síndromes dolorosas neuropáticas Dor central – É decorrente de lesão do sistema nervoso central, medular ou encefálica. Muitas lesões do sistema nervoso central não provocam dor porque os nociceptores estão presentes somente nas meninges e nas artérias. A dor central pode ser causada por lesão em diversas regiões: tálamo, córtex, substância branca subcortical, bulbo, ponte, mesencéfalo, primeira sinapse do corno dorsal da medula espinhal, vias ascendentes e projeção talamocortical. As lesıes podem causar dor intensa que geralmente começa após poucas semanas ou meses, podendo ocorrer após anos ou imediatamente após a lesão. As causas de dor central são: ➔ Lesão vascular (provocada por infarto, hemorragia e malformação vascular); ➔ Esclerose múltipla; ➔ Trauma medular; ➔ Siringomielia; ➔ Tumor; ➔ Abscesso; ➔ Processo inflamatório (por vírus, sífilis); ➔ Doença de Parkinson etc. As mais frequentes são: lesão vascular, esclerose múltipla e trauma. A incidência da dor parece ser mais alta após lesões de medula espinhal, tronco encefálico e porção ventro-posterior do tálamo. Geralmente há lesão do trato espinotalâmico e a dor ocorre, em 7,5-77% dos pacientes, após lesão da medula espinhal. Dor encefálica ocorre, em 8-22% dos pacientes, após acidente vascular cerebral. O local da lesão e as consequências funcionais parecem ser mais importantes para o surgimento da dor que o tamanho da lesão. Pode ser espontânea ou provocada por estimulação, a intensidade é variável e evolui com oscilações. Com frequência, o paciente não consegue relatar a localização exata da dor. No paraplégico, a ativação de áreas gatilho através de tato ou pressão provoca dor. Pacientes tetraplégicos podem desenvolver siringomielia (mielopatia cística pós- traumática), sendo o tempo médio para o aparecimento de 4 anos após lesão completa e de 10 anos, após incompleta. Neuropatia diabética – É distúrbio da função ou alteração patológica de nervo. Pode ser: Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 ➔ Mononeuropatia (1 nervo), ➔ Mononeuropatia múltipla (vários nervos) ➔ Polineuropatia (simétrica e bilateral). O diabetes mellitus é a causa mais comum de neuropatia periférica que, na maioria das vezes ocorre após muitos anos de controle inadequado da doença, frequentemente associada a alterações em outros órgãos. São observados vários tipos de neuropatias: polineuropatia simétrica distal predominantemente sensorial, motora ou mista; neuropatia autonômica e mononeuropatia focal ou multifocal, predominantemente sensorial ou motora. A polineuropatia sensorial pode acometer fibras finas, grossas ou ambas. A forma mais comum é a polineuropatia simétrica distal. A neuropatia ocorre tanto nas formas insulina-dependentes como em insulina- independentes, e pode ser crônica ou aguda. Na neuropatia crônica, os sintomas geralmente progridem gradualmente, iniciando com adormecimento dos pés, que estende em direção proximal, seguida de dor. Esta forma melhora pouco com controle adequado da glicemia, porém sua progressão diminui. Na neuropatia diabética, há desmielinização e degeneraçãoaxonal, redução de fibras mielinizadas finas e amielínicas com formação de broto em fibras amielínicas. A origem dessas alterações é multifatorial. Podem ocorrer alterações da microcirculação do nervo, com isquemia. A hiperglicemia aumenta a intensidade da dor e a glicose modula a percepção da dor provavelmente através de interação com péptides opioides endógenos, sendo importante o controle apropriado da glicemia para diminuir a incidência de neuropatia. É possível que a alteração da nocicepção produzida pela glicose seja devida a alteração osmótica. Os mecanismos responsáveis pela lesão incluem: acúmulo de sorbitol, formação de certos metabólitos, anomalia de ácidos graxos essenciais, formação de radicais livres e falta de fator de crescimento neural. Outro fator envolvido é a susceptibilidade à compressão. Alteração do sistema nervoso simpático resulta em aumento do fluxo sanguíneo periférico e o paciente apresenta pés quentes e avermelhados. A dor pode desaparecer espontaneamente em decorrência da regeneração de nervo ou degeneração maior. Frequentemente a dor piora à noite, prejudicando o sono. São sintomas que acompanham: sensação de edema de pés, alodinia e parestesia. A neuropatia toraco-abdominal ocorre entre a 5ª e a 6ª década da vida em pacientes portadores de diabetes tipo II. É localizada na região torácica superior ou inferior ou abdominal superior. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Outras neuropatias – No hipotiroidismo pode ocorrer polineuropatia predominantemente sensorial, com dor e cãibra e as fibras grossas são as mais acometidas. A doença predispõe a mononeuropatia por compressão, como a síndrome do túnel do carpo. Na insuficiência renal crônica, também é mais comum a polineuropatia predominantemente sensorial. Diversas medicações e produtos químicos podem provocar lesão neural. Neuralgia do trigêmeo – Neuralgia é a dor na distribuição de nervo e pode ou não acompanhar de sinais de hipofunção deste. A neuralgia do trigêmeo pode atingir qualquer um dos ramos do nervo (V1 ou oftálmico, V2 ou maxilar e V3 ou mandibular) e a incidência é de 4,7/100.000 habitantes. A frequência com que atinge os ramos é: ➔ Ramo maxilar (35%), ➔ Mandibular (29%), ➔ Maxilar com mandibular (19%), ➔ Oftálmico (4%) ➔ Todos os ramos (1%). A incidência Ø maior na faixa entre 50 e 70 anos; geralmente é unilateral (3% é bilateral) e a dor está restrita à distribuição do nervo trigêmeo. A dor é paroxística em choque, intensa, de início súbito e término abrupto, com duração de segundos, podendo ocorrer uma sequência de múltiplos choques que faz o paciente pensar que a dor é constante ou de longa duração. Não são observadas alterações neurológicas, entre as crises de dor, na neuralgia idiopática do trigêmeo. Pode haver alterações anatômicas na fossa posterior. Na neuralgia secundária (esclerose múltipla, tumor, etc.), são encontradas alterações que dependem da localização da causa. Existem zonas gatilho, principalmente na região perioral ou nasal que, ao serem ativadas, precipitam as crises. As crises ocorrem com estímulos como falar, comer, escovar os dentes ou mesmo com o vento atingindo a face. Pode haver remissão espontânea durante meses ou anos. Neuralgia do glossofaríngeo – A neuralgia do glossofaríngeo Ø rara e sua incidência Ø 1/100 da neuralgia do trigêmeo. Ocorre em pacientes acima de 50 anos e as características da dor sªo semelhantes à neuralgia do trigêmeo. A dor está localizada na garganta, ouvido, laringe ou base da língua. Geralmente é unilateral e desencadeada por Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 fala, mastigação e deglutição. Na neuralgia secundária (tumor), ocorre alteração sensorial. Neuralgia pós-herpética – O herpes-zoster é a reativação da infecção por vírus da varicela (herpesvirus varicellae) que ocorreu previamente. O vírus permanece latente no sistema nervoso central, principalmente no gânglio da raiz dorsal, e, conforme alguns vírus voltam à forma ativa, são destruídos pelo sistema imunológico antes que ocorra infecção clínica evidente. A infecção pode reaparecer, mas de forma localizada, na distribuição de alguns nervos. A dor frequentemente é o sintoma mais importante do herpes-zoster. A incidência do herpes-zoster é maior nos idosos; geralmente ocorre em pacientes acima de 50 anos, e parece relacionada à diminuição de anticorpo. A incidência é de 3-4 casos/1000/ano. Ocorre com maior frequência em paciente imunossuprimido, mas também é comum em pessoas sem deficiência imunológica. Os locais atingidos são por ordem de frequência: ➔ Nervos torácicos (50%), ➔ Primeiro ramo do nervo trigêmeo, ➔ Raízes cervicais (10-20%), ➔ Lombares (10-20%) ➔ Sacrais. Geralmente Ø unilateral, e menos de 1% Ø bilateral. O herpes-zoster pode afetar: ➔ Gânglio da raiz dorsal e dos nervos cranianos, ➔ Nervo periférico, ➔ Corno anterior da medula espinhal, ➔ Vias ascendentes, ➔ Bulbo e ➔ Encéfalo. Causa inflamação, hemorragia, isquemia, e necrose. O nervo periférico sofre desmielinização, fibrose e degeneração, havendo perda predominantemente de fibras grossas. A dor e a disestesia podem surgir até 3 meses antes da erupção mas geralmente não ocorrem antes de 2 dias do aparecimento das vesículas. Geralmente, em 1 semana há formação de crostas e cura em 1 mês. Raramente ocorre dor na distribuição da raiz, sem surgimento de vesículas posteriormente. A forma generalizada é rara e ocorre em paciente com imunossupressão. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Quando há envolvimento de raízes sacrais, o paciente pode apresentar retenção urinária. As complicações mais graves ocorrem quando o vírus atinge o nervo trigêmeo, podendo evoluir inclusive para cegueira. O herpes-zoster disseminado ocorre alguns dias após o início da lesão e atinge o sistema nervoso central, os pulmões e o fígado. Algumas outras complicações podem ocorrer: neuralgia pós-herpética, encefalomielite, meningite, mielite transversa, mielopatia necrotizante, síndrome de Guillian-Barré, e paralisia facial temporária. Para o herpes agudo, devem ser utilizados: antivirais, bloqueio simpático e analgesia adequada. No herpes oftálmico, os cuidados devem ser maiores. Neuralgia pós-herpética Ø a que persiste após resolução da lesão herpética (4-8 semanas). Outros autores recomendam essa denominação após período de 4-5 meses. É a complicação mais frequente, e ocorre em aproximadamente 10% dos pacientes. É mais frequente após herpes do ramo oftálmico, no idoso e em paciente com diminuição da imunidade. A incidência de neuralgia pós-herpética Ø de 47%, em paciente com mais de 70 anos, e acima dessa idade, aumenta 1% ao ano. Geralmente a dor melhora com o tempo, na maioria dos pacientes, mas alguns mantém o sintoma durante vários anos. Existe tendência para a cura espontânea mas, se não houver alívio após 6 meses, essa possibilidade diminui. A prevenção da neuralgia pós-herpética pode ser feita através da vacinação contra a varicela. Bloqueio simpático na fase aguda também pode ajudar a diminuir a incidência de neuralgia pós-herpética. Além da dor característica, o paciente apresenta hipoestesia do dermátomo, alodinia e alteração motora da região. Síndrome de dor regional complexa (SDRC) – Vários nomes foram dados para dar ênfase a certos aspectos da síndrome: algoneurodistrofia, distrofia neurovascular reflexa, angioespasmo, desordem vasomotora pós-traumática, distrofia reflexa das extremidades, edema pós-trauma, atrofia de Sudeck, atrofia óssea aguda, síndrome ombro-mão, distrofia neurovascular, osteoporose migratória, etc. A denominação SDRC é recente e foi feita porque os nomes anteriores não englobavamas alterações que ocorrem na síndrome. Trata-se de uma síndrome em que a dor sempre está presente, sendo muitas vezes desproporcional ao evento causador, e o quadro clínico inclui inflamação, alterações autonômicas, cutâneas, motoras e distróficas. Geralmente segue a uma lesão, e tem localização regional predominantemente distal. Pode ser de dois tipos: ➔ Tipo-1 – ocorre após lesão que não envolve nervo maior, Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 ➔ Tipo-2 – dor após lesão traumática de nervo, com transecção incompleta, associada à disfunção vasomotora e a alterações tróficas. A SDRC é muito frequente, caracterizada por dor, instabilidade vasomotora e alterações distróficas com muitas denominações que descrevem as inúmeras variantes clínicas. A causa mais comum da SDRC é o trauma, podendo ser: fratura, contusão, operação, laceração, queimadura, esmagamento, colocação de gesso, etc. A SDRC tipo-I é mais frequente no sexo feminino, nas extremidades distais, como mãos e pés, mas pode também ser observada em qualquer outra localização. Alguns estudos mostram maior incidência na extremidade superior. Pode ser dividida em fases: aguda, distrófica e atrófica. Fazem parte do quadro clínico: dor; hiperestesia; edema; alodinia; limitação dos movimentos; pele fria ou quente, úmida ou seca, cianótica ou pálida, brilhante e esticada; aumento do crescimento de pelos e unhas; aumento do tônus muscular; osteoporose; perda de pelos; unhas quebradiças e atrofia da pele, másculos e fibrose. A dor de diferentes tipos e com extensão variável é acompanhada de edema, alterações autonômicas, motoras e tróficas. Observam-se alterações tróficas de tecidos, da mobilidade e de temperatura. O diagnóstico é feito através da história e de achados clínicos. Não existem testes para confirmar. Vários exames foram feitos, mas não são específicos da SDRC: radiografia óssea e cintilografia para observar osteoporose, biópsia sinovial ou óssea, termografia e exame de sangue e do líquido articular. O exame radiológico mostra osteoporose em manchas, de aspecto irregular, que, com o tempo, podem se tornar mais homogênea. Entretanto, não é observada em todos os pacientes. Para detecção radiológica da osteoporose, é necessária desmineralização de 30-50%. Vale lembrar que toda imobilização causa osteoporose da região. A alteração de captação de isótopo na cintilografia de 3 fases também não é específica da SDRC. A termografia mostra somente alteração de fluxo sanguíneo local, que pode ocorrer em diversas situações. A biópsia, além de inespecífica, pode piorar o quadro, por provocar mais trauma ao local. Dor fantasma – Após amputação, pode ocorrer dor fantasma, fenômeno fantasma e dor de coto. Fenômeno fantasma é a sensação da existência da região amputada, sem que o paciente sinta dor. Dor fantasma é a que ocorre em área do corpo que foi Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 amputada, embora seja mais comum após amputação de membro. Existem relatos de sensação e dor fantasma de diversas partes do corpo que foram amputadas. A incidência do fenômeno e da dor fantasma aumenta com a idade, sendo mais frequente no membro dominante e é mais intensa em amputações proximais. O fenômeno fantasma ocorre em 25-98% dos pacientes que sofreram amputação, sendo mais frequente que a dor fantasma (60-85% dos pacientes que sofreram amputação de membro). Tanto a incidência da dor como da sensação fantasma é maior logo após a amputação, diminuindo com o tempo. Também o surgimento é mais frequente imediatamente após a amputação, mas pode surgir até um ano após. Geralmente a sensação fantasma desaparece em 2-3 anos. A sensação mais intensa corresponde a regiões do corpo com maior representação cortical. Em menos de 10%, a dor fantasma inicia após um ano. Os fatores que predispõem ao surgimento da dor fantasma são a idade avançada e a existência da dor antes da amputação. O membro fantasma raramente ocorre após amputação de membro em criança pequena. Parece que a analgesia com anestésico local e/ou opioide por via peridural, antes da amputação, diminui a incidência de dor fantasma. Qualquer método de analgesia adequada é importante para que não ocorra sensibilização central. A colocação precoce de prótese também pode ter efeito benéfico. O membro fantasma é extremamente real para o paciente, de maneira que este pode tentar pegar um objeto com a mão fantasma ou tentar apoiar-se sobre uma perna fantasma. Além da dor, o membro fantasma pode sentir calor, frio, prurido etc. A dor que ocorre no coto surge, geralmente, em decorrência da formação de neuroma no local de secção do nervo, mas pode ser provocada por isquemia ou infecção do local. É um fator para aumentar a incidência de dor fantasma. Dor neuropática pelo HIV – A dor é um problema frequente em portador de HIV, ocorrendo em 40-60% dos pacientes 16. A incidência varia com o estágio da doença e com o tratamento que está sendo feito. A neuropatia periférica atinge 30% dos pacientes e a mais comum é a polineuropatia distal, axonal, predominantemente sensorial, com disestesias dos pés, que pioram à noite e impedem a deambulação. A força e a propriocepção geralmente estão preservadas. A causa da neuropatia pode ser o próprio vírus, na fase tardia da doença ou as medicações utilizadas para o controle desta. O citomegalovírus pode provocar poliradiculopatia ou mononeurite múltipla. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Neurite traumática – É a inflamação do nervo. Diversas intervenções cirúrgicas causam lesões no sistema nervoso, com surgimento de dor. Pode haver lesão direta ou indireta de nervo, por secção, isquemia ou compressão por fibrose. Após toracotomia, a dor persiste ao longo da cicatriz, na distribuição de um ou mais nervos intercostais, que continua ou reaparece semanas ou meses após a operação. O nervo intercostal pode ser comprimido pela válvula ou pela cicatriz cirúrgica e pode ser seccionado com formação de neuroma, que pode ser responsável pela dor. A dor está associada à parestesia e a outras alterações sensoriais. Em operações de região cervical, especialmente com ressecção ampla para tumores, frequentemente ocorre lesão de nervo. A dor após mastectomia Ø decorrente da formação de neuroma ou da compressão do nervo intercostobraquial. Pode ocorrer em procedimentos menores, mas Ø mais comum após mastectomia radical ou quando é feita dissecção de gânglios da região axilar. A incidência é de 4-6%, em mulheres que são submetidas a operações de mama. A dor exacerba com movimento do membro, fazendo com que a paciente fique com o membro imóvel. Acompanha de alodinia, hiperestesia e disestesia. Diversas operações realizadas em diferentes locais do corpo podem provocar lesão de nervo, tendo como consequência uma neurite traumática. Fisiopatologia da Neuropatia Diabética Observações anatomopatológicas revelam lesões nos elementos neural, glial, vascular e do tecido conjuntivo dos nervos periféricos, sem definição de qual é acometido primeiro. O marco estrutural da neuropatia diabética pode ser considerado a atrofia e a perda de fibras mielinizadas e não-mielinizadas, acompanhadas de degeneração walleriana (degeneração de axônios e suas bainhas de mielina após secção do nervo, geralmente traumática), desmielinização paranodal e segmentar, associada a uma fraca resposta regenerativa. As anormalidades do tecido conectivo observadas são proliferação do tecido conectivo endoneural e espessamento e duplicação da membrana basal com tumefação e proliferação das células endoteliais da vasculatura endo e perineural. Essas mudanças foram revertidas nos estágios agudos com a reposição intensivade insulina, entretanto outros experimentos mostraram que a reposição restaurou apenas parcialmente a condução do nervo, sugerindo que mudanças estruturais mais avançadas e menos responsivas se sobreponham. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 A diminuição do potencial de equilíbrio da membrana axonal é causada pelo mau funcionamento da bomba de sódio/ potássio que leva ao acúmulo de sódio no axônio. A diminuição da permeabilidade da membrana ao sódio tem como base morfológica uma anormalidade no complexo juncional axono-glial paranodal. Acredita-se que a junção axono-glial impeça a migração lateral dos canais de sódio nodais para dentro do internodo, no qual perderiam sua função sobre a permeabilidade da membrana. Esse é o marco inicial da desmielinização paranodal que é seguida por remielinização e formação de nodos intercalados. A axonopatia é caracterizada por anormalidades na organização do citoesqueleto axonal. Foram observados, na região subaxolemal, neurofilamentos mal orientados, refletindo a lentificação do transporte axonal. Esses neurofilamentos são mais tarde sequestrados pelas células de Schwann, reduzindo, assim, o volume axonoplasmático e contribuindo para a atrofia axonal. A diminuição da capacidade de produção de proteínas do citoesqueleto pelo pericário também contribui para a atrofia axonal, preferencialmente afetando o axônio distal até o ponto em que ele sofre degeneração walleriana. O padrão de acometimento neural mais comum é, por isso, compatível com uma degeneração axonal distal retrógrada (dying-back) que afeta preferencialmente as fibras mais longas. Os mecanismos que levam a essas lesões não são totalmente compreendidos, mas há evidências da participação de duas vias principais, a metabólica e a isquêmica, com mútua inter-relação entre elas. Via metabólica É o mecanismo metabólico mais largamente citado envolvido na neuropatia diabética. A glicose penetra em níveis anormalmente altos dentro dos nervos periféricos e é convertida em sorbitol pela enzima aldose redutase presente normalmente no axonoplasma. O acúmulo de sorbitol intracelular provoca diminuição do transporte ativo de vários metabólitos entre eles o mio-inositol. A diminuição do mio-inositol altera os mecanismos de regulação intracelular, dessa forma, reduzindo a atividade da enzima sódio-potássio-ATPase que, por sua vez, reduz a atividade da bomba Na/ K, com o conseqüente acúmulo de sódio intracelular e alterações do potencial de repouso da membrana. Essas anormalidades diminuem a velocidade de condução neural e produzem as primeiras e reversíveis alterações estruturais nos nodos de Ranvier. De fato, foi demonstrado que inibidores da enzima aldose redutase normalizam ou melhoram várias funções alteradas do nervo periférico do diabético. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 A via poliol provê ainda um potencial mecanismo adicional para a glicotoxicidade microvascular no nervo periférico. O acúmulo de sorbitol no endotélio endoneural e o subsequente edema podem, diretamente, alterar a produção de prostaciclina e comprometer a difusão do O2. Talvez o mais intrigante seja a possibilidade da aldose redutase competir com a enzima óxido nítrico sintetase pelo NADPH, diminuindo assim a produção desse potente vasodilatador. Via isquêmica A função da isquemia na patogênese da neuropatia diabética é difícil de discernir. A hipoxia generalizada do nervo tem sido proposto como mecanismo baseado na demonstração de redução do fluxo sangüíneo, aumento da resistência vascular e diminuição da tensão de O 2 de nervos anestesiados de ratos diabéticos crônicos. De fato, poucas dúvidas existem de que a isquemia contribui para o surgimento da síndrome neuropática focal aguda. Numerosas anormalidades microvasculares endoneurais têm sido observadas, incluindo espessamento e duplicação da membrana basal, inchaço e proliferação da célula endotelial, proliferação da célula muscular lisa intimal e trombo plaquetário oclusivo. Os mecanismos que geram tais alterações provavelmente são os mesmos que afetam as fibras nervosas diretamente, porém o grau de implicação dessas alterações sobre a gênese da neuropatia periférica permanece desconhecido. Sabe-se, porém, que a auto- regulação é limitada nos vasos que suprem o sistema nervoso periférico e talvez, apenas, os vasos epineurais e perineurais a possuam. Outro mediador do dano hiperglicêmico aos tecidos é o estresse oxidativo, levando a um aumento na formação de radicais livres, tanto pela via poliol quanto pelos produtos finais da glicosilação avançada e metabolismo prostanóides. Dessa forma, influi na formação da microangiopatia e também altera o potencial transmembrana. Outros mecanismos – Há também a possibilidade de participação de outros mecanismos como o ataque auto-imune ao sistema nervoso periférico. Krendel e Stwart publicaram cada um uma série de casos de polineuropatia mista em diabéticos que tinham características de uma polineuropatia desmielinizante inflamatória crônica (PDIC) e que melhoraram de forma importante com terapia imunossupressora. A presença de anticorpos contra as células do gânglio simpático foi demonstrada em pacientes com neuropatia diabética autonômica, porém sem função patogenética definível. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Quadro clínico de Polineuropatia diabética dolorosa (PNDD) O início é gradual e insidioso, com sintomas intermitentes leves que podem ou não se agravar com a duração do DM, principalmente nos pés e na região distal das pernas (distribuição em bota), mais raramente envolve as mãos (em luva). Os descritores dos sintomas nem sempre são compreendidos pelo paciente como "dor": 12.5% não relatam quaisquer queixas durante as consultas; surgem em repouso e pioram à noite; melhoram durante as atividades como caminhadas; o sono pode ser interrompido e haver desconforto com estímulos indolores (alodínea) como o toque de lençóis ou roupas. A qualidade de vida se altera bastante e a depressão se associa. A dormência relatada está associada à perda de equilíbrio e quedas, inclusive a PND é terceira causa de queda no DM após retinopatia e alterações vestibulares. Outros relatos são de sensações de frio e quente nos pés ou que as meias e os sapatos não são sentidos. As manifestações motoras surgem nos estágios mais avançados, com fraqueza e diminuição da massa muscular dos pés e pernas, além de deformidades típicas: dedos em garra ou martelo, proeminência de cabeças de metatarsos, arco plantar acentuado, resultando em pressões plantares aumentadas. A disautonomia periférica leva à anidrose e a pele seca favorece as calosidades, que é um dos fatores de risco independentes para a ulceração. Vários métodos são usados para quantificar a dor como escalas visuais, questionários de dor, e escores. A escala visual analógica (EVA) é um das mais validadas, práticas e simples: uma linha de 100 mm é traçada e marcada nos dois polos com as expressões “sem dor” e “pior dor possível”, a resposta é marcada na linha e obtém-se o escore da intensidade da dor que norteia a terapêutica instituída. Sugere-se intervir com escore ≥ 40 mm e uma redução entre 30 e 50% na intensidade do sintoma é uma meta realística, pois nem sempre se consegue um alívio total. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Avaliação da PND O diagnóstico clínico requer o uso de instrumentos de avaliação de fibras finas e grossas. A solicitação de TEF (como a VCN) restringe-se aos casos mais graves e complexos. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 A recente Força Tarefa da ADA e AACE, ratificada pela SBD e ALAD, recomenda o rastreamentocom o uso do monofilamento 10g e um ou mais testes para as sensibilidades vibratória, dolorosa e reflexos aquileus, pois dois alterados têm uma sensibilidade de 87% para PND e a combinação do monofilamento alterado em qualquer área e um ou mais teste anormal indica a perda da sensibilidade protetora plantar (PSP), comprovando o risco neuropático de ulceração. Neuropatia alcoólica Constitui o distúrbio neurológico crônico mais comum relacionado ao abuso de álcool. Há controvérsias quanto à etiologia de tal condição, quer seja por efeito direto do álcool ou secundário às deficiências nutricionais. O processo patogênico principal é a degeneração axonal, podendo haver também desmielinização secundária à degeneração axonal ou às deficiências nutricionais concomitantes. Surge, habitualmente, após vários anos de ingestão alcoólica, manifestando-se como polineuropatia sensitivo-motora, distal e simétrica, de início gradual. Os sintomas incluem fraqueza, dor, parestesias, cãibras musculares, ataxia da marcha e disestesias em queimação, com envolvimento maior de membros inferiores. Reflexos globalmente reduzidos ou abolidos e redução da sensibilidade vibratória são achados muito comuns, e os membros acometidos podem apresentar-se com edema, deformidades ósseas e alterações cutâneas, como úlceras e hiperpigmentação. O reflexo Aquileu é o primeiro a ser acometido. Pacientes com neuropatia alcoólica são suscetíveis à compressão de nervos periféricos, podendo a paralisia do nervo radial ocorrer após episódios de intoxicação alcoólica em que esse nervo é comprimido contra o úmero. O tratamento inclui a abstinência ao álcool e suplementação vitamínica (do Complexo B), especialmente tiamina, e a dor neuropática deve ser abordada com anticonvulsivantes (carbamazepina) ou antidepressivos tricíclicos. Pacientes com neuropatia alcoólica são suscetíveis à compressão de nervos periféricos, podendo a paralisia do nervo radial ocorrer após episódios de intoxicação alcoólica em que esse nervo é comprimido contra o úmero. O tratamento inclui a abstinência ao álcool e suplementação vitamínica (do Complexo B), especialmente tiamina, e a dor neuropática deve ser abordada com anticonvulsivantes (carbamazepina) ou antidepressivos tricíclicos. Ocasionalmente, pode haver o surgimento dos sintomas acima descritos de forma aguda, devendo-se fazer o diagnóstico diferencial com a Síndrome de Guillain-Barré. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Fisiopatologia da Polineuropatia Diabética Observações anatomopatológicas revelam lesões nos elementos neural, glial, vascular e do tecido conjuntivo dos nervos periféricos, sem definição de qual é acometido primeiro. O marco estrutural da neuropatia diabética pode ser considerado a atrofia e a perda de fibras mielinizadas e não-mielinizadas, acompanhadas de degeneração walleriana (degeneração de axônios e suas bainhas de mielina após secção do nervo, geralmente traumática), desmielinização paranodal e segmentar, associada a uma fraca resposta regenerativa. As anormalidades do tecido conectivo observadas são proliferação do tecido conectivo endoneural e espessamento e duplicação da membrana basal com tumefação e proliferação das células endoteliais da vasculatura endo e perineural. Essas mudanças foram revertidas nos estágios agudos com a reposição intensiva de insulina, entretanto outros experimentos mostraram que a reposição restaurou apenas parcialmente a condução do nervo, sugerindo que mudanças estruturais mais avançadas e menos responsivas se sobreponham. A diminuição do potencial de equilíbrio da membrana axonal é causada pelo mau funcionamento da bomba de sódio/ potássio que leva ao acúmulo de sódio no axônio. A diminuição da permeabilidade da membrana ao sódio tem como base morfológica uma anormalidade no complexo juncional axono-glial paranodal. Acredita-se que a junção axono-glial impeça a migração lateral dos canais de sódio nodais para dentro do internodo, no qual perderiam sua função sobre a permeabilidade da membrana. Esse é o marco inicial da desmielinização paranodal que é seguida por remielinização e formação de nodos intercalados. A axonopatia é caracterizada por anormalidades na organização do citoesqueleto axonal. Foram observados, na região subaxolemal, neurofilamentos mal orientados, refletindo a lentificação do transporte axonal. Esses neurofilamentos são mais tarde sequestrados pelas células de Schwann, reduzindo, assim, o volume axonoplasmático e contribuindo para a atrofia axonal. A diminuição da capacidade de produção de proteínas do citoesqueleto pelo pericário também contribui para a atrofia axonal, preferencialmente afetando o axônio distal até o ponto em que ele sofre degeneração walleriana. O padrão de acometimento neural mais comum é, por isso, compatível com uma degeneração axonal distal retrógrada (dying-back) que afeta preferencialmente as fibras mais longas. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Os mecanismos que levam a essas lesões não são totalmente compreendidos, mas há evidências da participação de duas vias principais, a metabólica e a isquêmica, com mútua inter-relação entre elas. Via metabólica A glicose penetra em níveis elevados nos nervos periféricos e gera diferentes reações metabólicas patológicas. Exemplo disso é a via do polyol, que transforma a glicose em sorbitol, por meio da ação da enzima aldose redutase. O acúmulo de sorbitol e frutose intracelular provoca diminuição do transporte ativo de vários metabólitos, entre eles o mio-inositol. Este processo altera os mecanismos regulatórios intracelulares, reduzindo a atividade da bomba Na/K, com o consequente acúmulo de sódio intracelular. Com isso, aumenta-se a osmolaridade intracelular, levando a alterações do potencial de repouso da membrana, o que gera estresse oxidativo. Essas anormalidades diminuem a velocidade de condução nervosa e produzem as primeiras e reversíveis alterações estruturais nos nodos de Ranvier. Outro mecanismo metabólico patológico decorrente da hiperglicemia crônica advém da formação de produtos finais de glicosilação avançada (PFGA), que são obtidos pela reação não enzimática de grupos de aminoácidos e produtos da redução da glicose. Os PFGA atuam alterando a função intracelular de várias proteínas, modificando componentes extracelulares como laminina e fibronectina, que são essenciais para a regeneração axonal e, finalmente, promovendo a ligação irreversível em receptores de macrófagos e das células endoteliais. Estas alterações resultam em estresse oxidativo, secreção de citocinas e degradação da matriz extracelular, culminando em apoptose celular. Além disso, níveis elevados de glicose promovem ativação da proteína C quinase em excesso, determinando a produção de óxido nítrico, que leva à lesão isquêmica ao nervo periférico. Recentemente, devido à alta taxa de associação de DM e dislipidemia (DLP) 44 observou-se a participação do excesso de lipídeos como cofator na patogênese da ND. Além disso, os efeitos sistêmicos da DLP promovem o aumento de substâncias pró- inflamatórias e do estresse oxidativo. Associado a todas essas vias metabólicas, soma-se a ativação da via da hexosamina, que, induzida pela hiperglicemia, resulta em mudanças na expressão de alguns genes e no funcionamento de proteínas intracelulares. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 O estresse oxidativo leva ao aumento na formação de radicais livres, tanto pela via do poliol, quanto pelos PFGA e da proteína C quinase. Este mecanismo gera disfunção mitocondrial, que quando afetada criticamente,ativa a cascata de apoptose celular. Via isquêmica A função da isquemia na patogênese da neuropatia diabética é difícil de discernir. A hipoxia generalizada do nervo tem sido proposto como mecanismo baseado na demonstração de redução do fluxo sangüíneo, aumento da resistência vascular e diminuição da tensão de O 2 de nervos anestesiados de ratos diabéticos crônicos. De fato, poucas dúvidas existem de que a isquemia contribui para o surgimento da síndrome neuropática focal aguda. Numerosas anormalidades microvasculares endoneurais têm sido observadas, incluindo espessamento e duplicação da membrana basal, inchaço e proliferação da célula endotelial, proliferação da célula muscular lisa intimal e trombo plaquetário oclusivo. Os mecanismos que geram tais alterações provavelmente são os mesmos que afetam as fibras nervosas diretamente, porém o grau de implicação dessas alterações sobre a gênese da neuropatia periférica permanece desconhecido. Sabe-se, porém, que a auto- regulação é limitada nos vasos que suprem o sistema nervoso periférico e talvez, apenas, os vasos epineurais e perineurais a possuam. Outro mediador do dano hiperglicêmico aos tecidos é o estresse oxidativo, levando a um aumento na formação de radicais livres, tanto pela via poliol quanto pelos produtos finais da glicosilação avançada e metabolismo prostanóides. Dessa forma, influi na formação da microangiopatia e também altera o potencial transmembrana. Via vascular A disfunção microvascular generalizada do nervo tem sido proposta como mecanismo patogênico, baseado na demonstração de redução do fluxo sanguíneo, aumento da resistência vascular e diminuição da tensão de oxigênio. Numerosas anormalidades microvasculares endoneurais têm sido observadas, incluindo o espessamento e duplicação da membrana basal, edema e proliferação endotelial e muscular lisa intimal, além da presença de trombo plaquetário oclusivo. Via neurodegenerativa Outro mecanismo possivelmente envolvido na fisiopatologia da ND é a perda do neurotrofismo celular. No DM, o declínio quantitativo e qualitativo da insulina causa também redução parcial da atividade do fator de crescimento insulina-like I e do fator de Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 crescimento neuronal, com consequente diminuição na produção de proteínas essenciais na formação dos neurofilamentos e manutenção do transporte axonal, imprescindíveis para seu crescimento e regeneração. Dessa forma, permite-se que ocorra degeneração axonal e apoptose do corpo neuronal, fazendo com que a neuropatia gradualmente se instale. Via inflamatória Existem evidências substanciais que apontam um mecanismo imunopático no desenvolvimento da ND. Comprovou-se a presença de agentes pró-inflamatórios em pacientes diabéticos que apresentavam neuropatia, promovendo recrutamento de células inflamatórias, produção de citocinas e redução do fluxo sanguíneo. Em última análise, esses mecanismos aumentam a hipóxia e isquemia do nervo periférico, dificultando sua regeneração. Alterações histopatológicas Foram observados em microscopia eletrônica, na região subaxolemal, neurofilamentos mal orientados, refletindo a lentificação do transporte axonal. Esses neurofilamentos são mais tarde sequestrados pelas células de Schwann, que somados à diminuição da capacidade de produção de proteínas do citoesqueleto, reduzem o volume axonoplasmático, determinando a atrofia axonal de tal forma que culmina em degeneração walleriana. O padrão de acometimento mais comum é, portanto, compatível com degeneração axonal distal retrógrada (dying-back), que afeta preferencialmente as fibras mais longas, determinando o padrão clínico comprimento-dependente. Esses fatores levam à alteração histopatológica mais marcante da ND: a perda de fibras nervosas de maneira multifocal, com degeneração axonal em atividade e dependendo de sua cronicidade, algum grau de regeneração, caracterizada pela presença de “sproutings” (brotamentos de fibras nervosas). Além disso, observam-se vasos sanguíneos obliterados, com espessamento basal endotelial e neoangiogênese, revelando a participação do componente isquêmico. É também possível verificar desmielinização segmentar e remielinização, o que reflete o padrão de acometimento neurofisiológico misto (axonal e desmielinizante) desta condição. Fatores de risco Vários são os fatores de risco associados ao desenvolvimento e progressão da polineuropatia simétrica distal (PSD), dentre eles destacam-se: idade avançada, gênero masculino, negros não hispânicos, maior duração do DM, hemoglobina glicosilada Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 (HbA1c) maior que 7%, insulinoterapia e história de hipertensão arterial sistêmica (HAS), DLP e albuminúria. Tratamento da ND Um controle glicêmico rigoroso parece ser fundamental para a estabilização e, mesmo, para a melhora da ND. Desta forma, todo empenho deve ser aplicado para manter o paciente em estado de normoglicemia. Dentre os fármacos disponíveis para o tratamento sintomático da dor, existe nível A de evidência dando suporte ao uso dos antidepressivos tricíclicos, aos anticonvulsivantes gabapentina e pregabalina, e ao antidepressivo duloxetina, um inibidor seletivo dual da recaptação de serotonina e norepinefrina. Também existe evidência como segunda linha para o uso de opioides tais como tramadol e oxicodona. A combinação de fármacos de primeira linha deve ser considerada antes do uso dos opioides. Dentre os anticonvulsivantes, a gabapentina e a pregabalina, ambas inibidoras da subunidade alfa-2-delta do canal de cálcio, são atualmente as melhores opções para este grupo de pacientes. Gabapentina e Pregabalina A gabapentina e a pregabalina são anticonvulsivantes formados por uma molécula de GABA ligada covalentemente a um anel de cicloexano ou isobutano lipofilico, respectivamente. A gabapentina foi desenvolvida como um agonista do GABA de ação central e sua lipossolubilidade alta facilita sua transferência através da membrana hematencefálica. Efeitos farmacológicos e mecanismos de ação – A gabapentina inibe a extensão tônica das patas traseiras no modelo de convulsão por eletrochoque, inibindo também as convulsões clônicas induzidas por eletrochoque e pelo pentilenotetrazol. A eficácia desse fármaco nesses dois modelos é semelhante à do ácido valproico e isto o diferencia da fenitoína e da carbamazepina. A despeito de sua concepção como agonista de GABA, a gabapentina ou a pregabalina não simulam a ação deste mediador quando são aplicadas por via iontoforética aos neurônios em cultura primária. Esses fármacos podem ligar-se com grande afinidade a uma proteína das membranas corticais, que possui sequência de aminoácidos idêntica à da subunidade a2delta-1 do canal de Ca +2. Alguns autores especularam que os efeitos anticonvulsivantes da gabapentina sejam mediados pela proteína a2delta-1, mas ainda não está claro se e como a ligação deste fármaco a essa proteína regula a excitabilidade neuronial. A ligação pregabalina diminui, mas não é impedida nos camundongos que possuem uma mutação da proteína Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 a2delta-1. A eficácia analgésica da pregabalina é suprimida nestes animais, mas não existem indícios de que seus efeitos anticonvulsivantes também sejam suprimidos. Ainda não está claro se os efeitos anticonvulsivantes e analgésicos da gabapentina e da pregabalina são mediados por alterações das correntes de Ca +2 e, em caso afirmativo, como isto ocorre. Farmacocinética – A gabapentina e a pregabalina são absorvidas depois da administração oral e não são metabolizadas nos seres